Eric Blair era um visionário! A realidade política
internacional 2004 supera a imaginação que engendrou o famoso 1984. Inimigos se
tornam aliados, aliados se tornam inimigos, a propaganda impera soberana sobre a
realidade...
Afeganistão
“O Afeganistava” – José Simão
A ex-URSS, ao perceber o avanço da Revolução
Islâmica no Irã, imediatamente invadiu o Afeganistão que, por sua vez, iniciou
um movimento portentoso de resistência ao invasor. Osama Bin Laden e sua Al
Qaeda receberam treinamento, ajuda militar e econômica dos EUA para a guerra de
resistência aos comunistas. No Afeganistão os EUA incentivaram o desenvolvimento
dos campos de ópio para amealhar recursos a que a resistência afegã derrotasse
os russos. Em crises internas e rechaçados pelo adversário poderoso, os russos
bateram em retirada abrindo caminho para a implantação da Revolução Islâmica
capitaneada pelos Talebans.
Quando os EUA passam a
pressionar pela implantação de um regime diferente do tradicional naquelas
terras infensas ao encaminhamento dito “democrático”, os Talebans, treinados
pelos EUA, passam a atacá-lo em vários pontos suscitando a ira do Império. Ao
invés de adotar medidas pedagógicas e um auxílio econômico significativo ao povo
pobre daquela Nação soberana, decidiram-se por utilizar uma gama ainda maior de
recursos financeiros (oriundos de países endividados como o Brasil, por exemplo)
num massacre bárbaro daquela gente.
Curioso que todos percebam a
crueldade de um ataque que transforma aviões em bólidos de guerra, mas a
propaganda, mais uma vez, omite a enorme quantidade de escolas, creches,
maternidades e hospitais (inclusive da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho)
bombardeados naquele ataque. Para o WTC, cenas lamurientas ad nauseam. Para as
escolas, creches, maternidades e hospitais do Afeganistão, nem mesmo notas de pé
de página...
Iraque
“Bombing people into democracy” – George W. Bush
Os Estados Unidos, outrora aliados do Iraque
contra a República Islâmica do Irã transformou-se em seu mais cruento
adversário. A Guerra que Bush (o pequeno) declarou contra aquela pequena Nação
do Oriente Médio sob a alegação de que estava construindo armas de destruição em
massa e que proclamou finda e vitoriosa não tinha as tais armas e o conflito não
parece dar mostras de acabar tão cedo.
O argumento de “levar a civilização e a
democracia” a um país governado ditatorialmente cai por terra diante das cenas
de tortura na prisão de Abu Ghraib, amplamente divulgadas. A propaganda da
“moral superior” dos estadunidenses não subsiste ao que ali se passou. O
tratamento dado a um chefe de Estado – ditador cruel e sanguinário,
inquestionavelmente – ex-aliado, ultrapassa as raias do absurdo.
Se Saddam Hussein deve ser julgado por “crimes
contra a humanidade”, o que sobra para Bush?
Política Brasileira
“Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força”
George Orwell
Muitas coisas no encaminhamento político do
governo Lula lembram os procedimentos da ditadura militar. A tentativa de
governar acima ou sem o Parlamento, de controlar o Judiciário, de censurar a
Imprensa e a produção cultural são alguns exemplos.
Acompanhar o noticiário está cada vez mais
complicado. Registro a independência pelo menos dos jornais Opinião Socialista
e, em menor medida, da Folha de S. Paulo. Garimpando com cuidado encontram-se
alguns bons artigos de análise profunda e crítica aqui e ali, mas isso é
inacessível à maioria da população brasileira, relegada ao assistencialismo mais
chulo e ineficiente. A estes o acesso se dá principalmente pela televisão.
A Rede Globo de Telealienação é a mais
gritantemente áulica, sempre governista – seja lá qual for o governo – e tudo
faz para obnubilar, dificultar ou mesmo impedir a compreensão da realidade
social, política e econômica brasileira.
Numa cobertura absolutamente excêntrica, edita as
notícias de maneira a parecer que tudo vai bem no melhor dos mundos, não importa
o que esteja acontecendo.
A programação daquela emissora, que trata o
telespectador como se fosse deficiente mental, dando-lhe tudo pronto e
mastigado, para sentir sem refletir, enquanto o embala com temas suaves e
músicas melosas deixando-o receptivo à enorme quantidade de lixo que vendem como
informação ou cultura.
A Voz do Brasil ainda consegue se distanciar um
tiquinho menos da realidade social brasileira do que a Rede Globo de
Telealienação.
Vejamos alguns exemplos.
Sobre o presidente do Banco Central, o operador da
bolsa de valores e agente do Banco de Boston Henrique Meirelles, pesam graves
acusações de remessa ilícita de recursos ao exterior, de fraude eleitoral e
sonegação de impostos. Acusações tão graves que Lula, para livrá-lo das
primeiras instâncias da justiça e contar com o STF, mais cordato para com o
governo, promoveu-o a ministro. Enquanto isso, o noticiário da Globo trazia
desinformações como “a economia atinge a retomada do crescimento” e “Lula vibra
com o filme ‘Pelé Eterno’”.
Sabemos todos que a política econômica brasileira,
desde Collor de Mello, passando por FHC e chegando a Lula é a de desviar
recursos da produção e do trabalho para a especulação financeira. Collor foi
mais brutal e direto: seqüestrou depósitos a vista e poupança para diminuir a
quantidade de moeda em circulação e assim tentar conter a inflação. FHC e Lula
vêm num crescente avanço contra o poder aquisitivo das pessoas que, hoje, estão
pelos cálculos do insuspeito DIEESE, 20% mais pobres do que estavam há 10 anos.
Ora, uma mísera “bolha de crescimento” foi considerada danosa aos planos concentracionistas da equipeconômica, inclusive porque estavam apontando na
direção de uma imperceptível retomada no poder aquisitivo, o que contraria a
política econômica do governo. Como resultado, o grupo terrorista conhecido como
COPOM decidiu-se por aumentar ainda mais a taxa de juros para aumentar a
especulação, enriquecer ainda mais os banqueiros e conter o mísero crescimento
que se esboçava. Na Globo o noticiário reitera: “Brasil retoma crescimento
sustentado!”, “Cresce o número de contratações no comércio!” – e não é difícil
montar a cena de um ou outro pobre coitado que conseguiu um empreguinho
miserável para testemunhar de sua alegria com a retomada no nível de
contratações e assim se desvia a atenção da população para o fato de que, com a
atual política econômica não há como o Brasil crescer ou reduzir minimamente os
índices de desemprego.
A queda vertiginosa nos níveis de emprego e de
crescimento industrial chegou a tão escandaloso patamar que qualquer lojinha de
fundo de quintal que se estabeleça (apesar, e não por causa da política
econômica!) é celebrada como um sucesso extraordinário pela Rede Globo e as
“boas notícias” na economia embalam uma popularidade incompreensível a um
presidente que traiu não só ao seu eleitorado como à sua própria biografia!
Os anúncios retumbantes de “retomada do crescimento”, “queda no desemprego” e “aumento de vendas no comércio” aparecem
muito bem na TV mas não encontram sustentação na realidade! Quem não está
desempregado está mais pobre, endividado, reduzindo seu padrão de vida e, nas
ruas entre lojas comerciais vêem-se poucos transeuntes. Raros comprando e todos
com o sobrecenho carregado.
Em síntese, há uma discrepância pavorosa entre o
Brasil Real e o Brasil Virtual que vemos na Rede Globo de Telealienação e órgãos quejandos.
Lázaro Curvêlo Chaves - 11 de outubro de 2004
Artigo originalmente escrito
para o portal
DUPLIPENSAR
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