A afirmação de que "o Brasil atingiu a
auto-suficiência em petróleo" é mentira. Mas todo o país está levado pelo
governo, pela farta publicidade da Petrobras, por jornais, TV e rádios, mais do
que a tomá-la como verdade, a orgulhar-se da adulteração.
Auto-suficiente é o que se basta, e a Petrobras e
o Brasil precisam continuar, ainda por tempo indeterminado, a importação de
grandes volumes de petróleo leve. Quantidades que se tornarão ainda maiores caso
o governo Lula (ou seu eventual sucessor) se mostre afinal capaz de reativar o
crescimento econômico
Nem a economia sonolenta destes anos -a pior
dentre os países emergentes e, nas Américas, só melhor que a do mísero Haiti-
poderia perdurar sem a importação de mais de 10% do consumo diário nacional.
Grande parte da indústria, o transporte urbano de massas e o de carga seriam
paralisados por falta de diesel, nafta e outros derivados. A Petrobras ainda não
tem como obter do petróleo pesado, típico da produção brasileira, aqueles
subprodutos essenciais.
Se a importação de petróleo e derivados é
indispensável à atividade normal do país, o país não é auto-suficiente em
petróleo. Mesmo que R$ 37 milhões sejam gastos na publicidade direta, e não se
sabe quantos outros com os espetáculos presidenciais, para induzir a mentira
desnecessária e deliberada.
A perfeição
Em discurso no Rio Grande do Sul, Lula comunicou
que "não está longe de a gente atingir a perfeição no tratamento da saúde neste
país". Nem, pode-se acrescentar, a auto-suficiência na produção e difusão de
mentiras oficiais e oficiosas, além das jornalísticas.
Pacientes morreram ou estão na iminência da morte
por falta de medicamentos e recursos singelos no hospital federal Gaffrée
Guinle, único especializado, no Rio, em tratamento de aidéticos. Há cinco meses
a situação do hospital passou de crítica a desesperadora.
O Ministério da Saúde, entregue por conveniência
ao peemedebista Saraiva Felipe, nada resolveu. Até hoje, como de praxe, na
Presidência da República ninguém sabe, ninguém viu. É o governo Conceição.
Do início do verão para cá, houve cerca de 8.000
casos de dengue no Rio. Esses, os registrados formalmente. Houve mortes. Mas não
houve um só carro de fumacê ou a visita de algum agente de prevenção visível na
quase totalidade de bairros do Rio, mesmo que de alto risco. Ministro da Saúde
até o final de março, Saraiva Felipe era, sobretudo, pretendente a vice em uma
chapa ao governo de Minas Gerais.
Aumenta a falta de vários remédios, das
substâncias de outros e de produtos para exames laboratoriais, por força da
greve na Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Mas na Presidência da
República, como no Ministério da Saúde, não se nota o menor interesse no
problema, que dirá providência.
Além da "perfeição no tratamento da saúde", Lula
fez outra comunicação valiosa no Sul: "Nós queremos que o povo brasileiro seja
tratado com muito mais respeito no Brasil". Talvez o respeito pudesse começar
pela redução das mentiras.
A propósito, não seria mau que alguém na
Presidência desse por lá uma informação simples: em lugar de "tratamento da
saúde", o povo e a linguagem ficarão satisfeitos com "tratamento da doença".