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E por falar em amor... É uma desgraça que dependamos tanto das outras pessoas, e desgraça maior que, mesmo assumindo conscientemente o fato de nossa enorme dependência das outras pessoas, freqüentemente tenhamos de prescindir delas. Isto me ocorreu num boteco perto de casa, enquanto tentava decidir se sou um intelectual que bebe para se inspirar ou um bebedor que bebe para julgar-se um intelectual. Cheguei à conclusão que esta é uma questão ociosa, mas já que estava ali justamente cultuando o ócio, não vi motivos para deixar de formulá-la. Na verdade minto, ao dizer que fui ao boteco "cultuar o ócio"; estava lá afogando as mágoas após um caso de amor mal resolvido. Eu a quis com meu corpo, com meu coração e finalmente com o meu cérebro; afinal , havia acabado de descobrir que a vida é algo totalmente sem sentido, que só o amor pode tornar suportável. Ela contudo não dizia me querer, mas se não me queria, também não o dizia. Apenas mostrava-se satisfeita e receptiva às minhas pequenas homenagens. Um sorriso seu, um cruzar de olhos cheio de significado, uma carícia casual e inocente, tudo enfim era para mim naquela época motivo de alegria. Sou operário; filho, neto e bisneto de operários - a diferença é que meus antepassados aqui mencionados não eram, como eu, "operários das letras" - e assim serão meus filhos e netos se um dia chegarem a existir. Ela também tinha a mesma origem, mas suas ânsias e expectativas de vida eram tão radicalmente diferentes das minhas que agora, olhando de longe, desta distância saudável que só o tempo pode proporcionar, fico surpreso por me haver envolvido num relacionamento tão desigual. Leio acima as palavras "envolvido" e "relacionamento", e não posso refrear um sorriso. O "envolvimento", embora físico e intenso, disso não passou. E "relacionamento" é um termo forte demais, sagrado demais para expressar o que de fato aconteceu. Se eu bradava: "Paz na Terra! É preciso abrir o caminho para a Paz e Justiça Social em nossa terra, ainda que para isso tenhamos de, por momentos, deixar de ser cordiais, particularmente para com os opressores!" Ela me ouvia entre atenta e surpresa, aplaudia meu entusiasmo e me acariciava com palavras, dizendo que o mundo criado por Deus é bom e que, se existem injustiças, cabe a nós suportá-las e tudo fazer para que sejamos dignos da Vida Eterna, essa sim importante. Seguramente, jamais estudou a Cabala ou sequer ouviu falar na sagrada esfera marciana de Geburah! De todo modo, embora fosse uma divergência séria, não a considerava insuperável. O problema surgiu mesmo quando mais tarde lhe disse que minha "solução romântica" - através da busca de um grande amor correspondido em sua plenitude ou através da busca de justiça para todos - valia tanto quanto a sua "solução religiosa" ou quanto qualquer outra pois dizia eu, passando que estava por uma fase existencialista, "o problema básico, a vida, é de fato insolúvel! O que as pessoas fazem é forjar razões ou motivos para seguir vivendo". Tinha a clara impressão de que ela correspondia aos meus sentimentos quando, após a total entrega no ato de amor, voltava ao assunto e me repreendia entre terna e magoada dizendo haver um ordenamento prévio no universo criado por Deus e que ela, mesmo apaixonada como estava, só viveria até o fim de seus dias com um homem que "estivesse também a serviço do Senhor". Crentes são difíceis. Mas como foi possível julgar-me a serviço de outro Senhor em tão pouco tempo? E olha que a própria religião deles proíbe o julgamento a-priorístico! Tais conceitos, tal visão, tacanha, soavam-me, no mínimo, como absurdidades. Cumpre apenas observar que meu cinismo não foi tão longe que me permitisse simular uma súbita conversão a suas idéias, nem meus argumentos fortes o bastante para trazê-la ao meu ponto de vista - nem tinha esta pulsão messiânica da conversão de outros seres humanos ao meu ponto de vista à ocasião. Procurei reduzir a importância de nossas discordâncias e enfatizar os pontos em que concordávamos, mas sem sucesso. Se ela tinha a convicção inabalável de que "o mais importante é a salvação da alma", encontrava em mim uma certeza, das poucas que tinha à ocasião: "o mais importante é entregar a vida a uma causa, a um grande amor, só isto pode torná-la suportável". Assim a perdi. Uma pessoa muito sábia me disse que jamais se "perde" alguém. Quando acontecem coisas assim, o ser humano em questão nunca foi nosso em verdade e jamais o seria. A isto posso acrescentar que seres humanos jamais deveriam ser objeto de possessividade; ou estão juntos porque se amam ou não o estarão jamais - embora aparentem estar por algum tempo ilusório, por trás dos véus de Mâra.
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