Apelo aos Médicos Humanistas
Civilização ou Barbárie
De vez em quando este tema é colocado e recolocado em ciências humanas. Eu mesmo
sempre fui muito implicante com relação a conceitos como “sociedade primitiva”
ou coisas similares, que denotam etnocentrismo, quando não completa incapacidade
de compreender o outro, o diferente...
Fala-se em “sociedades primitivas”
quando se refere àquelas que não receberam ou foram francamente refratárias à
infecção capitalista, como os aborígines americanos, australianos, africanos,
etc. que não foram massacrados ou desaculturados. Os que se adaptaram se
ocidentalizaram e se transformaram em algozes de si mesmas em nome de interesses
externos a seus valores e interesses.
O ponto em questão é a excessiva
valorização da expressão “civilização”, normalmente apodada a sociedades
pró-capitalistas em contraposição à “barbárie”, apodada a sociedades
anti-capitalistas em especial de meados do século XX aos dias atuais.
Definindo
Classifico entre os povos civilizados todas as sociedades pró-capitalistas do
planeta: estadunidense, brasileira, russa, chilena, turca, australiana,
congolesa, haitiana, francesa, canadense, neozelandesa, moçambicana... Enfim,
todas estas cujos governantes e donos do poder econômico se colocam a favor da
globalização estadunidense em curso. Classifico entre os povos primitivos ou
bárbaros todos aqueles que se colocam contrárias ao capitalismo, à globalização
estadunidense ou, como nos informa o antropólogo Pierre Clastres, Contra o
Estado. Hoje restam muito poucas: esquimós do pólo Norte, ianomâmis
amazônicos, bosquímanos africanos e outros poucos que, seja pelo inóspito da
região, seja pela ausência de bens de valor de troca econômica considerável
conseguiram manter-se, de uma forma ou de outra, preservados da rapina
tradicional clássica ao sistema de globalização estadunidense a que o mundo está
majoritariamente vinculado: pouquíssimos como “globalizadores” e a maioria como
“globalizados”.
Costumes primitivos ou bárbaros
Entre os bárbaros não se encontram crimes contra a pessoa (O patrimônio é
comunitário, crime contra o patrimônio seria crime contra a comunidade:
impensável aos “bárbaros”...) ou sequer suicídios que, quando ocorrem
atualmente, são fruto da contaminação pela infecção capitalista, não há casos de
líderes defensores da comunidade que cometam suicídio por discordância com
relação aos rumos ditados pelos seus superiores. Não se assassina em local
oculto uma importante líder religiosa por discordar de suas idéias entre
sociedades bárbaras ou primitivas.
Não se encontra, entre as
comunidades primitivas ou bárbaras, casos paroxísticos de toxicomania e elevados
faturamentos com este tipo de atividade, que destrói a vida de muitos enquanto
constrói patrimônios elevadíssimos para poucos. Tampouco há, nas sociedades
consideradas bárbaras, prostituição em níveis patológicos – há que se perceber
que um certo nível de entorpecimento, seja por meditações ou ingestão periódica
de infusões ou fumigações são tão universal quanto um certo nível de
liberalização nos costumes (falo aqui especificamente de um problema que não
existe nas comunidades tribais, primitivas ou bárbaras); mas jamais gente que
precisa se prostituir para ter como se alimentar ou gente que dedica a vida à
produção e distribuição de entorpecentes com vistas a auferir lucratividade
elevada. Tal não se encontra em nenhuma civilização primitiva ou bárbara. Sem
exceção.
Jamais, em toda a história, se ouviu
qualquer referência a sociedades primitivas que fabricam mendicância e, após
fabricá-la por negar aos “de baixo” qualquer possibilidade de inserção social
condigna, se reduza os mendigos à condição de encarcerados ou se os mate
incinerados ou a pauladas por dormir ao relento.
Líderes religiosos e políticos em
comunidades primitivas ou bárbaras têm pouca ou nenhuma autoridade sobre coisas
e pessoas: consolidam sua posição devido ao consenso social de um profundo
reconhecimento de seu valor físico, moral, intelectual ou similar.
Concedo que em algumas sociedades
primitivas praticava-se (não há relatos recentes de fatos assim, dado o massacre
das sociedades civilizadas haver destruído tanto aqueles povos primitivos ou
bárbaros que sua maior preocupação hoje é encontrar formas de repovoamento!) de
maneira ritualística o infanticídio, como uma forma rudimentar de controle da
natalidade. Jamais se abandonavam crianças recém-nascidas em rios, lagos, mares
ou portas de cabanas ou moradias porque os pais não dispunham de meios de
alimentá-la e educá-la. A criação da criança, uma vez decidida necessária pela
comunidade primitiva, é responsabilidade de todos, não apenas de um pequeno
núcleo familiar, invenção romana.
Patologias do Capitalismo
Na sociedade capitalista, civilizada, encontram-se problemas gravíssimos que só
nela ocorrem e se pode aqui colocar apenas alguns, por contraposição ao que já
se disse acima:
_ vidas humanas são destruídas em nome da
acumulação de patrimônio através de crimes como latrocínio, seqüestros,
supressão de divergentes, etc.
_ crianças recém-nascidas são abandonadas por
mães desesperadas e despreparadas diante de uma situação econômica e moral sem
esperanças.
_ sempre em nome da acumulação – por
pouquíssimas pessoas – de patrimônio, a maioria dos seres humanos tem negada
qualquer possibilidade de ascensão social: são reduzidas à mendicância, à
economia informal e mesmo à prostituição (não raro desde a infância!).
_ uma vez que jamais as chances são iguais para
todos numa sociedade profundamente cindida em classes sociais antagônicas,
cria-se a mendicância enquanto se estimula o consumo, ampliando as condições de
surgimento a crimes contra o patrimônio e a pessoa. Surge ainda a figura
desumana do assassinato sistemático e impune de quantos sejam
excluídos das possibilidades de ascensão social e ousem dormir ao relento.
_ líderes políticos e religiosos, nas sociedades
civilizadas, são eleitos por pessoas que não conhecem suas vidas pessoais e
profissionais, a partir de um discurso e uma propaganda sempre distante de sua
prática existencial, preservando um esquema de representação artificialmente
imposto e gerador de desvios brutais como a corrupção, o tráfico de influências
e os desvios morais mais surpreendentes. Não são escolhidos nem reconhecidos por
seu valor intelectual, físico, moral ou similar que tendesse a gerar uma
representatividade mais concreta e próxima da realidade existencial das gentes.
Em busca da cura
O diagnóstico é claríssimo: a sociedade civilizada se
encontra doente até a medula. A posse de bens é mais importante que vida humana,
gerando as mais ensandecidas patologias.
Diante de uma civilização doente, ao
invés de se buscar a cura junto a médicos, especialistas neste tipo de problema
– gravíssimo – entrega-se o comando de todas as nações civilizadas do planeta
precisamente ao grande capital especulativo, precisamente o gerador das
patologias com que convivemos. Até quando?
Daí este apelo desesperado, como uma
nota de um náufrago numa garrafa na esperança de que um dia alguém a leia e
valorize, queira Deus que em tempo...
Que os Médicos não
comprometidos com a infecção capitalista prestem atenção às patologias
oriundas deste tipo de orientação civilizatório, patologias inexistentes, por
exemplo, nas comunidades primitivas ou bárbaras e se unam em estudos voltados à
cura. O ser humano tem o direito de viver melhor e está sendo submetido a um
sistema cruel, autoritário, agressivo à vida e limitador, quando não
inviabilizador de seu direito à busca da Felicidade e de uma vida melhor.
Entenda-se bem: sempre em
nome da acumulação de capital em poucas mãos já se tentou governos autoritários,
militares, outros autoproclamados democráticos e o sucesso tem sido grande na
direção da finalidade a que se propõem: acumulação de capital. De nada
adiantaria um governo de médicos orientado na mesma direção! Precisamos de uma
análise diagnóstica mais profunda e pesquisas na direção da cura, da regeneração
do Ser Humano em sua plenitude de direito à Vida e à conquista da Felicidade.

Aula de Anatomia - Rembrandt
Lázaro
Curvêlo Chaves – 09/03/2006
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