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À prova da realidade

 

            Nos últimos 50 anos a única coisa que, significativamente, progrediu a olhos vistos no Brasil foi a propaganda, a tal ponto que já não importa a realidade, o concreto. Apesar de nossa realidade estar dramaticamente mais pobre, o distanciamento de todos em face da realidade provoca o desânimo da pesquisa, tendendo a desarmar o espírito crítico, deixando viva somente a concordância bovina com o pensamento único.

            A mais eficiente forma de propaganda consiste em limitar as comparações a determinadas expressões e números estatísticos a um período de, no máximo, 10 anos. Assim, se a “taxa de crescimento” foi negativa nos últimos 10 anos, repisa-se na propaganda o “terceiro trimestre consecutivo de crescimento ininterrupto”, comparando-se o ano passado com o corrente. Se as vagas no mercado de trabalho não atingem o número necessário a retirar a maior parte da população brasileira da situação vexatória em que se encontra, fala-se em números absolutos, não em percentuais. Assim, celebra-se a “abertura de 130 mil novos postos de trabalho” quando o período exigia a criação de pelo menos dez vezes este número para pelo menos chegar próximo aos níveis de 50 anos atrás.

Vamos visitar o Brasil de 1950/1960 e comparar com o Brasil/1990-2007, o período do Populismo (Juscelino, Jânio, Jango) contra as décadas Maldita (FHC) e da Traição (PT – Lula da Silva), meramente como um exercício, tentando entender como é possível ao governante estar tão descolado da realidade e, ainda assim, levar uma legião de seres humanos a acreditar nele e nos que o cercam. A situação chegou a tal ponto que, entre a realidade dos fatos e o Lula da Silva, o povo brasileiro prefere o Lula da Silva. À prova da realidade.

 

Exemplificando

 

A busca de um futuro melhor

 

            Há 50 anos os pais podiam nutrir a certeza de que, apropriadamente bem encaminhados em termos de educação e cultura, os filhos teriam melhores chances do que eles tiveram. A perspectiva de um futuro melhor que o da geração anterior era a norma, o corrente, a regra. Presentemente, a única certeza que um pai pode ter é que seus filhos, não importa o quanto estudem e bem encaminhados estejam, dificilmente terão as mesmas chances que ele mesmo teve em seu tempo.

 

A distribuição de rendas

 

            Há 50 anos era possível trabalhar em 2, 3 empregos e aprimorar o rendimento familiar, empréstimo não era considerado “renda” e a usura constava no Código Penal tanto quanto os escândalos envolvendo aqueles que se metiam em agiotagem. Os impostos consumiam, se tanto, em torno de 10 a 15% da renda de cada cidadão e havia uma progressividade mais justa, com os mais ricos pagando mais impostos que os mais pobres. Longe do ideal, mas muito avançada na comparação concreta, quando pagamos 40% de tudo o que produzimos em impostos e percebemos que as atividades de alto risco, as especulativas em geral, recebem grandes benesses da máquina estatal, no limite sendo mesmo isentadas do pagamento de impostos. Presentemente, a injustiça se agudizou de maneira extraordinária, a usura e a agiotagem – hoje recebendo outras nomenclaturas – se tornou prática cotidiana de todas as instituições bancárias (particulares e estatais) e os empréstimos passam a ser computados como “renda” no momento em que são tomados, contra a garantia do desconto direto em folha de pagamento. Estrangula-se a classe média, transferem-se recursos maciços do trabalho para a especulação e, subsidiariamente, para programas de esmolas governamentais à crescente legião dos excluídos, mantidos nesta condição para simplificar as manobras de propaganda voltadas à perpetuação deste modelo sócio-econômico fratricida.

 

O serviço militar e o desemprego

 

            Há 50 anos o Serviço Militar Obrigatório era questionado, para a maioria dos jovens constituía um tremendo atraso de vida. Não tendo vocação para a carreira militar, o Serviço Militar Obrigatório lhes roubaria um ano em estudos e dedicação à carreira de sua predileção. O salário do soldado conscrito era inferior à média salarial nacional. O jovem de 18 anos podia, conscientemente, aspirar e concretamente conquistar um trabalho honrado e razoavelmente remunerado, se assim o desejasse ou precisasse. Havia desemprego, mas não chegava sequer próximo desta calamidade que se vivencia nos dias de hoje. A medição das taxas de desemprego sempre foi muito mascarada no Brasil; os números “oficiais” dos órgãos governamentais de outrora, embora menos indignos de descrédito que os atuais, completamente descolados da realidade, não nos dão bom balizamento. Fiquemos com a análise dos fatos, da concretude ao alcance de qualquer ser racional, desde que infenso à propaganda governamental deste ou daquele tempo.

O ineditismo das filas monumentais para a conquista de qualquer vaga, em qualquer posição, no mercado de trabalho dá um bom indício. Tal não ocorria há 50 anos. Nos últimos 20 anos isso se transformou em norma. Há coisa de 5, 10 anos a situação atingiu níveis epidêmicos de catástrofe. É raro vermos se abrirem grandes frentes de trabalho, como outrora. Atualmente, cada vaga oferecida é violentamente disputada.

Embora os salários dos militares venham ladeira abaixo sendo aviltados, o Serviço Militar Obrigatório se transformou em excepcional alternativa de sobrevivência a jovens que o disputam violentamente (algo rigorosamente impensável há 50 anos!). Em meados das décadas de 50 e 60, o jovem que desejasse ser dispensado do serviço militar, tinha não somente de declará-lo explicitamente; a família, via de regra, buscava a ajuda de algum parente, amigo ou conhecido que fosse da carreira, ou algum deputado, senador ou outra autoridade civil que pudesse solicitar aos militares dispensá-lo para que seguisse com seus estudos, ou porque era “arrimo de família” ou o que o valha. Atualmente, buscam-se familiares, conhecidos e autoridades em direção contrária: encontrar uma indicação a um jovem que, desempregado e sem perspectiva existencial alguma, como todos os de sua idade, tentam em 1 ano de serviço militar obrigatório demonstrar qualidades e aptidões mas, em sua maior parte, têm plena consciência de que não serão “aproveitados” pelo mercado de trabalho.

 

Serviços públicos

 

            Herança do Governo Vargas, sob Juscelino, Jânio e Jango a Educação Pública tinha tal excelência que o aluno saído de uma escola pública para uma particular tinha de provar não haver sido transferido meramente por “desinteresse” pelos estudos. A escola privada, menos regra do que exceção, recebia a pecha dos “três pês”: “papai-pagou-passou”. A escola pública tinha uma excelente infra-estrutura e, para se manter nela, era necessário estudar muito, os professores eram bem remunerados e, em conseqüência, muito bons.

            No Brasil da Era Maldita e da Era da Traição, nos tempos de Lula e FHC, a escola pública encontra-se sucateada, a aprovação automática é um escândalo, principalmente por empregar pessimamente um conceito filosófico bem intencionado e correto. Prédios mal conservados comportam, em classes planejadas para 20 estudantes, até 80, por vezes 90 alunos incapazes de compreender o que tartamudeia em vão a professora pessimamente remunerada que precisa ministrar uma quantidade desumana de aulas em um número desumano de classes. A escola privada se libertou dos três pês e se tornou, de fato, melhor que a escola pública. Ainda assim, descemos tanto que a excelência em educação passou a ser tema, quase, de arqueologia.

            Durante os governos Juscelino, Jânio e Jango, a Saúde Pública era eficaz, o tratamento possível e de ponta para a época estava ao alcance de todo o contribuinte. As instalações dos hospitais eram satisfatórias, médicos recebiam salários adequados do poder público e as campanhas de vacinação e saneamento praticamente erradicaram as epidemias dos grandes centros urbanos.

            A Era Maldita de FHC inaugurou a CPMF – imposto sobre o uso de contas bancárias – para fazer frente a despesas com saúde. De aplicada em parte passou a ter a mesma destinação da maior parte dos impostos crescentemente cobrados: fazer superátiv primário, ir para a ciranda financeira e a saúde pública vem em queda livre. A Era da Traição, de Lula da Silva, segue aquela herança que criticava e proclama a quem deseje ouvir que o imposto para a saúde será utilizado nas campanhas de propaganda, principalmente através dos programas de compensação, a esmola governamental.

            Nos governos Lula e FHC as instalações de saúde foram gradualmente abandonadas pelo poder público federal, o poder público estadual ou municipal fez o possível, os salários dos médicos, aviltados na Era Maldita de FHC atingem os patamares mais baixos de toda a história do Brasil na Era da Traição de Lula da Silva e muitas das doenças infecto-contagiosas erradicadas há 50 anos voltam a atingir as periferias das grandes cidades.

Se em outros tempos se conseguia atingir um padrão sofrível com 10 a 15% de impostos, atualmente consumindo cerca de 40% de toda a renda nacional, os impostos não dão conta de manter aquele nível mínimo de há 50 anos. Porque hoje, malversados, saem do bolso do trabalhador direto para alimentar a ciranda financeira. A dívida estatal brasileira atingiu seu nível mais alto no governo de Lula da Silva, que vem destinando cada vez mais recursos públicos aos juros da dívida crescente e cada vez menos à gestão dos serviços públicos essenciais. A tal ponto que a própria rede de propaganda governamental, a paraestatal Rede Globo de Televisão, tranquilamente afirma que o Brasileiro tem de trabalhar 4 meses em cada 12 para pagar impostos e mais 4 meses para pagar por serviços que o Estado já não oferece (principalmente de saúde, educação e segurança).

 

Moral

 

            Por um lado, há que se reconhecer que o padrão de moralidade de um tempo não pode ser aplicado mecanicamente a outro; naturalmente um determinado padrão de comportamento sócio-econômico de um povo não cabe a outro e assim por diante.

            Com tudo isso, como foi que nos tornamos no país que mais assassina crianças recém-nascidas, ultrapassando mesmo a China, tradicionalmente reportada em função de questões culturais em torno desta temática? O que leva tantas mulheres a manter crianças em seus regaços por 9 meses para descartá-la em lixões, lagos, mares, cemitérios clandestinos, etc.?

            Que fatores culturais permitem que o povo brasileiro seja tão tolerante para com as constantes denúncias de malversação de dinheiro público? O que permite manter Lula da Silva a subornar o Congresso Nacional e utilizar deputados e senadores como autênticos marionetes de sua majestade o presidente? O que aconteceu com a minha gente que, de repente, se transformou no povo mais tolerante para com a corrupção em toda a história do planeta Terra? Será que em Chicago, durante o auge do domínio da Máfia, o povo estadunidense atingiu este patamar em que nos encontramos hoje? Será que o povo italiano também sofredor de uma epidemia de crime organizado tem uma história similar para contar?

            Sobretudo, como é possível que se acredite mais na propaganda do que nos fatos? Até quando Lula da Silva e o PT serão à prova de realidade?

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 17/09/2007


 

 

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