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Velhos Problemas e a Atualidade do Pensamento Euclidiano

 

         Uma das coisas que, em 1987, mais me impressionou na leitura do hoje centenário “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, foi a coragem, o destemor com que tratou de temas atuais e presentes de seu tempo. Ainda estudante na graduação em ciências sociais na Universidade Federal Fluminense, sob a orientação segura do professor doutor Gisálio Cerqueira Filho, percebi a força e penetração do pensamento euclidiano.

         A primeira obra de Euclides que me caiu sob os olhos foi “Um Velho Problema”. Ainda hoje me emociono ao perceber quão bem ele compreendia e defendia o pensamento marxista guardando, contudo, o cuidado de não se comprometer diretamente com aquela visão de mundo. Era – e ainda é – realmente muito perigoso... E Euclides, como Galileu, como qualquer um, tinha seus medos e cuidados... Mesmo hoje, dada a ingerência de interesses externos às ciências sociais dentro destas, cabem alguns cuidados. Ser simpatizante do marxismo, no Brasil, até o final da década de 80 do século XX era, por vezes, motivo de “desaparecimento”. A discussão deste “Velho Problema”, aqui no Brasil, raramente teve lugar especificamente no campo científico. Mesmo hoje, em pleno século XXI, defender o pensamento científico mais adequado à interpretação da realidade social, o mais consentâneo com as mudanças necessárias, é motivo de discriminação, de insultos, de dificuldades de inserção no mercado de trabalho...

         O problema do marxismo não está em se buscar a pertinência daquele ferramental para o conhecimento da realidade social – mesmo porque se propõe a ser uma Filosofia da Práxis, ou seja, exercer praticamente uma atividade voltada a retificar os problemas encontrados na realidade social – o “Velho Problema” ainda é a ingerência de interesses externos às ciências sociais dentro de nossa busca específica pelo conhecimento. O que minimamente se espera de médicos é que sejam capazes de diagnosticar e buscar tratar e/ou curar enfermidades. Nas ciências sociais esse tipo de postura é desestimulado. O cientista social não deve propor na prática atividades que se voltem a melhorar a situação existencial dos seres humanos; deve miseravelmente “diagnosticar”, se possível de acordo com os interesses do Mercado, divindade laica da modernidade.

         Na Idade Média interesses religiosos se imiscuíam nas Ciências Naturais (que outrora se chamava de “exatas”. Nossa moderna implicância com esta terminologia se justifica a partir da enormidade de abstrações necessárias ao funcionamento daquela ciência. Se, por exemplo, para cálculos físicos e de engenharia é preciso “desprezar o atrito”, que existe, “desprezar a resistência do ar”, que também existe e assim por diante, chamar ciências assim de “exatas” é, no mínimo, um exagero... Preferimos chamá-las de “Naturais”, pois lidam com fenômenos da natureza, não com fenômenos humanos, área das nossas ciências, claro...). Hoje em dia, praticamente não há interesses religiosos que se contraponham ao avanço daquelas ciências; quando existem, como nos casos que envolvem “inseminação artificial”, “clonagem de seres humanos” ou temas congêneres, as Ciências Naturais já conseguem a liberdade necessária a não temer ser incinerada, silenciada, excomungada ou perseguida pela Igreja por serem capazes de provar a precisão de suas conclusões.

         Em nossa área, as ciências sociais há um grande poder, externo à nossa ciência, maligno, anti-humanista a se contrapor à busca da Verdade: interesses econômicos de grandes conglomerados e governos (que, no limite, podem inviabilizar economicamente a existência material do intelectual, do cientista da área de humanas) investem contra nós poderosamente jugulando e tornando lento o avanço do conhecimento dentro de nosso próprio campo de estudos... Contra esta moderna Inquisição, contra esta “Cruzada Anti-Humanista, Anti-Marxista” somente a coragem de deixarmos nossos trabalhos de pesquisa para a posteridade informando destes tempos sombrios em que vivemos, dentro dos quais a própria busca de soluções aos problemas criados pelo Capitalismo tem de circunscrever-se aos marcos do capitalismo sob pena de inviabilizar a existência material do pesquisador. O capitalismo se defende contra o pesquisador sério que sabe ser o próprio Capital o “Velho Problema” contra o qual temos de nos insurgir. Ficam nossos registros escritos, fica a ridicularização que sofremos dos burgueses nos templos burgueses do saber e a nossa mensagem para o futuro, a exemplo do mestre Galileu, que tanto sofreu em seu campo contra gente ignorante que lhe ridicularizava e, sendo maioria e poder, exigia retratação: “mas a Terra se move...” – “eles nos proíbem de falar, de escrever, de nos pronunciar, de agir, sob pena de perda de emprego, de perseguições as mais diversas; mas que o Futuro nos ouça: se há esperança para o ser humano no século XXI, se há solução para esta crise interminável que vivemos está fora e contra, jamais dentro do capitalismo!”

         Euclides da Cunha teve medo das autoridades de seu tempo, tanto que, livro publicado, há exatos cem anos, escondeu-se na Fazenda paterna, em Lorena. Medo de estar equivocado em sua análise de cientista social? Jamais! Medo da truculência de forças externas ao seu campo de saber específico que poderia, no limite, atentar contra a sua existência física!

         O pensamento de Euclides, atual porque revolucionário, instigante e profundo porque radical, subversivo, é hoje aceito entre grandes parcelas da comunidade cultural, desde que expurgado de tudo o que tenha de revolucionário, de subversivo, de original mesmo. Deve reduzir-se a “grife” para ser academicamente aceitável... Seria um equívoco dizer que Euclides, se vivo estivesse em 2002, estaria criticando violentamente o processo político de entreguismo do Brasil aos interesses estrangeiros e outros erros gravíssimos no encaminhamento da política nacional? Ao contrário! Para sermos fiéis à memória de Euclides da Cunha e honrarmos o seu legado como ele merece, temos de perceber os erros do presente (a tanto nos ensinou o mestre) voltando ao passado para nos abastecermos de informações corroboradoras (ou não) do quanto aprofunda nosso estudo sobre a realidade atual, presente, do momento histórico que vivemos. Euclides escreveu sobre o presente. Não ficou preso chafurdando-se no passado, como certa parte dos seguidores para-religiosos de Euclides hoje fazem.

        

PS - “Semana Euclidiana” ou “Semana Euclidianista”?

 

         Tomem-se os dicionários de português como o Aurélio, o Michaelis, etc. Se desejo referir-me a o que é pertinente a Euclides da Cunha, escritor brasileiro, a expressão consignada nos dicionários ainda é “euclidiano”. Em vão se procura o neologismo “euclidianista”, ainda não aceito pelos mais eminentes gramáticos e dicionaristas da língua portuguesa.

         Semana passada a professora Maria Olívia Arruda, em artigo pleno de citações em que aquele neologismo é utilizado defende o seu uso. Realmente, a repetição do neologismo é a maneira mais eficaz de consolidá-lo na utilização prática, cotidiana. Mas, neste caso, para quê?

         Nada contra. Nem a favor. Tão logo os euclidianos consigam (que isso pode perfeitamente acontecer...) junto aos gramáticos e dicionaristas a inserção deste neologismo, este se consolidará, mas, creio, só para as novas gerações. Para a minha geração será sempre difícil pensar em expressões e novidades que soam mais como erro do que como neologismo. Teríamos de renomear a Semana Euclidiana, que passaria a chamar-se “Semana Euclidianista”. O Ciclo de Estudos deixaria de ser “Ciclo de Estudos Euclidianos” e passaria a ser “Ciclo de Estudos Euclidianistas”. O Movimento deixaria de ser “Euclidiano” e passaria a ser “Euclidianista”. Aceitável? Naturalmente! A questão que fica é: para quê? Se já existe, no idioma português, uma expressão consolidada e aceita para referir-se a tudo quanto diz respeito a Euclides da Cunha, escritor brasileiro, notadamente “euclidiano”, para quê o neologismo?

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 15 de agosto de 2002

 

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