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Sonetos

Manuel Maria Barbosa du Bocage

 

 

 

Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores;

Vede-as com mágoa, vede-as com piedade;

Que elas buscam piedade, e não louvores;

 

Ponderai da Fortuna a variedade

Nos meus suspiros, lágrimas e amores;

Notai dos males seus a imensidade,

A curta duração dos seus favores;

 

E se entre versos mil de sentimento

Encontrardes alguns, cuja aparência

Indique festival contentamento,

 

Crede, ó mortais, que foram com violência

Escritos pela mão do Fingimento,

Cantados pela voz da Dependência.

 

* * *

 

Chorosos versos meus desentoados,

Sem arte, sem beleza, e sem brandura,

Urdidos pela mão da Desventura,

Pela baça Tristeza envenenados:

 

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

No mudo esquecimento a sepultura;

Se os ditosos vos lerem sem ternura,

Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

 

Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco,

Da maldizente voz a tirania:

 

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

Que não pode cantar com melodia

Um peito, de gemer cansado e rouco .

 

* * *

 

De suspirar em vão já fatigado,

Dando trégua a meus males eu dormia;

Eis que junto de mim sonhei que via

Da Morte o gesto lívido, e mirrado:

 

Curva fouce no punho descarnado

Sustentava a cruel, e me dizia:

"eu venho terminar tua agonia;

morre, não peneis mais, oh desgraçado! "

 

quis ferir-me, e de Amor foi atalhada,

que armado de cruentos passadores

aparte, e lhe diz com voz irada:

 

"Emprega noutro objeto os teus rigores;

que esta vida infeliz está guardada

para vítima só de meus furores. "

 

* * *

 

Já sobre o coche de ébano estrelado

Deu meio giro a noite escura e feia;

Que profundo silêncio me rodeia

Neste deserto bosque, à luz vedado!

 

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,

O Tejo adormeceu na lisa areia;

Nem o mavioso rouxinol gorjeia,

Nem pia o mocho, às trevas costumado:

 

Só eu velo, só eu, pedindo à sorte

Que o fio, com que está minh'alma presa

À vil matéria lânguida, me corte:

 

Consola-me este horror, esta tristeza;

Porque a meus olhos se afigura a morte

No silêncio total da Natureza.

 

* * *

 

Mavorte, porque em pérfida cilada

O cruel moço Alígeto o ferira,

Não faz caso da mãe, que chora e brada,

Quer punir o traidor, que lhe fugira:

 

Na sinistra o pavês, na destra a espada,

Nos ígneos olhos fuzilante a ira,

Pule à negra carroça ensangüentada,

Que Belona infernal côas Fúrias tira:

 

Assim parte, assim voa; eis que vê posto

No colo de Marília o deus alado,

No colo aonde tem mimoso encosto:

 

Já Marte arroja as armas, e aplacado

Diz, inclinando o formidável rosto:

"Valha-te, Amor, esse lugar sagrado! ".

 

* * *

 

Marília, nos teus olhos buliçosos

Os Amores gentis seu facho acendem;

A teus lábios voando os ares fendem

Terníssimos desejos sequiosos:

 

Teus cabelos subtis e luminosos

Mil vistas cegam, mil vontades prendem:

E em arte de Minerva se não rendem

Teus alvos curtos dedos melindrosos:

 

Resiste em teus costumes a candura,

Mora a firmeza no teu peito amante,

A razão com teus risos se mistura:

 

És dos céus o composto mais brilhante;

Deram-se as mãos Virtude e Formosura

Para criar tua alma e teu semblante.

 

* * *

 

Oh, tranças, de que Amor prisões me tece,

Oh, mãos de neve, que regeis meu fado!

Oh tesouro! oh mistério! oh par sagrado,

Onde o menino alígero adormece!

 

Oh ledos olhos, cuja luz parece

Tênue raio de sol! oh gesto amado,

De rosas e açucenas semeado,

Por quem morrera esta alma, se pudesse!

 

Oh! lábios, cujo riso a paz me tira,

E por cujos dulcíssimos favores

Talvez o próprio Júpiter suspira!

 

Oh perfeições! oh dons encantadores!

De quem sóis?...Sois de Vênus? — é mentira

Sois de Marília, sois de meus amores.

 

* * *

 

Já se afastou de nós o Inverno agreste

Envolto nos seus húmidos vapores;

A fértil Primavera, a mãe das flores

O prado ameno de boninas veste:

 

Varrendo os ares o subtil nordeste

Os torna azuis: as aves de mil cores

Adejam entre Zéfiros, e Amores,

E torna o fresco Tejo a cor celeste;

 

Vem, ó Marília, vem lograr comigo

Destes alegres campos a beleza,

Destas copadas árvores o abrigo:

 

Deixa louvar da corte a vã grandeza:

Quanto me agrada mais estar contigo

Notando as perfeições da Natureza!

 

* * *

 

Grato silêncio, trêmulo arvoredo,

Sombra propícia aos crimes, e aos amores,

Hoje serei feliz! — longe, temores,

Longe, fantasmas, ilusões do medo.

 

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo,

Entre os braços de Nise, entre estas flores,

Furtivas glórias, tácitos favores,

Hei-de enfim possuir: porém segredo!

 

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes

Não leveis, não façais isto patente,

Que nem quero que o saiba o pai dos numes:

 

Cale-se o caso a Jove omnipresente,

Porque se ele o souber, terá ciúmes,

Vibrará contra mim seu raio ardente.

 

* * *

 

Temo que a minha ausência e desventura

Vão na tua alma, docemente acesa,

Apoucando os excessos da firmeza.

Rebatendo os assaltos da ternura:

 

Temo que a tua singular candura

Leve o tempo fugaz, nas asas presa

Que é quase sempre o vício da beleza,

Gênio imutável, condição perjura:

 

Temo; e se o fado meu, fado inimigo

Confirmar Impiamente este receio,

Espectro perseguidor, que anda comigo,

 

Com rosto, alguma vez de mágoa cheio,

Recorda-te de mim, dize contigo:

'era fiel, amava-me e deixei-o "

 

* * *

 

Enquanto o sábio arreiga o pensamento

Nos fenómenos teus, oh Natureza

Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa

Volve o subtil geométrico instrumento:

 

Enquanto, alçando a mais o entendimento,

Estuda os vastos céus, e com certeza

Reconhece dos astros a grandeza,

A distância, o lugar, e o movimento:

 

Enquanto o sábio, enfim, mais sabiamente,

Se remonta nas asas do sentido

À corte do Senhor omnipresente:

 

Eu louco, cego, eu mísero, eu perdido

De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:

Do mais, e de mim mesmo ando esquecido ..

 

* * *

 

Por esta solidão, que não consente

Nem do sol, nem da Lua a claridade,

Ralado o peito já pela saudade

Dou mil gemidos a Marília ausente:

 

De seus crimes a mancha inda recente

Lava Amor, e triunfa da verdade,

A beleza, apesar da falsidade,

Me ocupa o coração, me ocupa a mente:

 

Lembram-me aqueles olhos tentadores,

Aquelas mãos, aquele riso, aquela

Boca suave, que respira amores...

 

Ah, trazei-me ilusões, a ingrata, a bela!

Pintai-me vós, oh sonhos, entre flores

Suspirando outra vez nos braços dela!

 

* * *

 

Marília, se em teus olhos atentara,

Do estelífero sólio reluzente,

Ao vil mundo outra vez o omnipotente,

O fulminante Júpiter baixara,

 

Se o deus, que assanha as Fúrias, te avistara,

As mãos de neve, o colo transparente,

Suspirando por ti, do caos ardente,

Sugeriu à luz do dia, e te roubara:

 

Se a ver-te de mais perto o Sol descera,

No áureo carro veloz dando-te assento

Até da esquiva Dafne se esquecera:

 

E se a força igualasse o pensamento,

Oh alma da minh'alma, eu te of'recera

Com ela a Terra, o Mar, e o Firmamento .

 

* * *

 

O corvo grasnador e o mocho feio

O sapo berrador e a rã molesta,

São meus únicos sócios na floresta,

Onde carpindo estou, de angústia cheio:

 

Perdi todo o prazer, todo o recreio,,

Ah, malfadado amor, paixão funesta!

Urselina perdi, nada me resta,

Madre terra! Agasalha-me em teu seio;

 

Da víbora mordaz permite, oh Sorte,

Que nos matos aspérrimos que piso

As plantas me envenene o tênue corte!

 

Ah! Que é das graças? Que é do paraíso?

A minh'alma onde está? quem logra... oh Morte,

Quem logra de Urselina o doce riso?

 

* * *

 

Ânsias terríveis, íntimos tormentos,

Negras imagens, hórridas lembranças,

Amargosas, mortais desconfianças,

Deixai-me sossegar alguns momentos:

 

Sofrei que logre os vãos contentamentos

Que sonham minhas doidas esperanças;

A posse de alvo rosto, e loiras tranças,

Onde presos estão meus pensamentos:

 

Deixai-me confiar na formosura,

Cruéis! Deixai-me crer num doce engano,

Blasonar de fantástica ventura.

 

Que mais mal me quereis, que maior dano

Do que vagar nas trevas da loucura,

Aborrecendo a luz do desengano?

 

* * *

 

Olha, Marília, as flautas dos pastores,

Que bom que soam, como estão cadentes!

Olha o Tejo a sorrir-te! Olha não sentes

Os Zéfiros brincar por entre as flores?

 

Vê como ali, beijando-se os Amores

Incitam nossos ósculos ardentes!

Ei-las de planta em planta as inocentes,

As vagas borboletas de mil cores!

 

Naquele arbusto o rouxinol suspira,

Ora nas folhas a abelhinha pára,

Ora nos ares sussurrando gira:

 

Que alegre campo! que manhã tão clara!

Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,

Mais tristeza que a morte me causara.

 

* * *

 

Fiei-me nos sorrisos de ventura

Em mimos femininos, como fui louco!

Vi raiar o prazer, porém tão pouco

Momentâneo relâmpago não dura:

 

No meio agora desta selva escura,

Dentro deste penedo húmido e ouço,

Pareço, até no tom lúgubre, e rouco

Triste sombra a carpir na sepultura:

 

Que estância para mim tão própria é esta!

Causais-me um doce, e fúnebre transporte,

Áridos matos, lôbrega floresta!

 

Ah! Não me roubou tudo a negra sorte:

Inda tenho este abrigo, inda me resta

O pranto, a queixa, a solidão e a morte.

 

* * *

 

Há pouco a mãe das Graças, dos Amores,

Gerada pela espuma cristalina,

Baixou da etérea região divina

Nas asas dos Favónios voadores:

 

"Oh das margens do Tejo habitadores!

hoje torna a luzir (disse Ericina )

o ledo instante em que nasceu Marina,

Ínclito fruto de ínclitos maiores:

 

Do Céu, do Mar, da Terra, os soberanos

Imprimindo-lhe encantos a milhares,

Criaram nela a glória dos humanos:

 

Eia, cantai-lhe os dotes singulares,

Louvai seus olhos, aplaudi seus anos,

Queimai-lhe aromas, erigi-lhe altares "

 

* * *

 

Os suaves eflúvios, que respira

A flor de Vênus, a melhor das flores,

Exalas de teus lábios tentadores,

Oh doce, oh bela, oh desejada Elmira;

 

A que nasceu das ondas, se te vira,

A seu pesar cantara os teus louvores;

Ditoso quem por ti morre de amores!

Ditoso quem por ti, meu bem, suspira!

 

E mil vezes ditoso o que merece

Um teu furtivo olhar, um teu sorriso,

Por quem da mãe formosa Amor se esquece!

 

O sacrílego ateu, sem lei, sem siso,

Contemple-te uma vez, que então conhece

Que é força haver um Deus, e um paraíso.

 

* * *

 

Meu frágil coração, para que adoras

Para que adoras, se não tens ventura?

Se uns olhos, de quem ardes na luz pura,

Folgando estão das lágrimas que choras?

 

Os dias vês fugir, voar as horas

Sem achar neles visos de ternura;

E inda a louca esp'rança te figura

O prêmio dos martírios, que devoras!

 

Desfaz as trevas de um funesto engano,

Que não hás de vencer a inimizade

De um gênio contra ti sempre tirano:

 

A justa, a sacrossanta divindade

Não força, não violenta o peito humano,

E queres constranger-lhe a liberdade?

 

* * *

 

Os garços olhos, em que o Amor brincava,

Os rubros lábios, em que o Amor se ria,

As longas tranças, de que o Amor pendia,

As lindas faces, onde Amor brilhava:

 

As melindrosas mãos, que Amor beijava,

Os níveos braços, onde Amor dormia,

Foram dados, Armândia, à terra fria,

Pelo fatal poder que a tudo agrava;

 

Seguiu-te Amor ao tácito jazigo,

Entre as irmãs cobertas de amargura;

E eu que faço ( ai de mim! ) como não sigo!

 

Que há no mundo que ver, se a formosura,

Se Amor, se as Graças, se o prazer contigo

Jazem no eterno horror da sepultura?

 

* * *

 

Urselina gentil, benigna e pura,

Eis nas asas subtis de um ai cansado

A ti meu coração voa alagado

Em torrentes de sangue, e de ternura;

 

Põe-lhe os olhos, meu bem, vê com brandura

Seu miserável, doloroso estado,

Que nas garras da morte já cravado

A fé, que te jurava, inda te jura:

 

Põe-lhe os olhos, meu bem, suavemente,

Põe-lhe os mimosos dedos na ferida,

Palpa de Amor a vítima inocente:

 

E por milagre deles, oh querida,

Verás cerrar-se o golpe, e de repente

Em ondas de prazer tornar-lhe a vida .

 

* * *

 

Em veneno letífero nadando

No roto peito o coração me arqueja;

E ante meus olhos hórrido negreja

De morais aflições espesso bando;

 

Por ti, Marília, ardendo, e delirando

Entre as garras aspérrimas da Inveja,

Amaldiçoo Amor, que ri, e adeja

Pelos ares, cós Zéfiros brincando;

 

Recreia-se o traidor com meus clamores -

E meu cioso pranto... oh Jove, oh nume

Que vibras os coriscos vingadores!

 

Abafa as ondas do tartáreo lume,

Que para os que provocam teus furores

Tens inferno pior, tens o ciúme.

 

* * *

 

Oh retrato da morte, oh Noite amiga

Por cuja escuridão suspiro há tanto!

Calada testemunha de meu pranto,

De meus desgostos secretária antiga!

 

Pois manda Amor, que a ti somente os diga,

Dá-lhes pio agasalho no teu manto;

Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto

Dorme a cruel, que a delirar me obriga:

 

E vós, oh cortesãos da escuridade,

Fantasmas vagos, mochos piadores,

Inimigos como eu, da claridade!

 

Em bandos acudi aos meus clamores;

Quero a vossa medonha sociedade,

Quero fartar meu coração de horrores.

 

* * *

 

Vinde, Prazeres, que por entre as flores,

Nos jardins de Cítera andais brincando,

E vós, despidas, Graças, que dançando

Trinais alegres sons encantadores:

 

Deusa dos gostos, deusa dos amores,

Ah! dos filhinhos teus ajunta o bando,

E vem nas asas de Favónio brando

Dar força, dar beleza a meus louvores.

 

Da linda Anarda minha voz aspira

A cantar o natal; tu, por clemência,

O teu fiel cantor, deidade, inspira;

 

Do trácio vate empresta-me a cadência,

E faze que mereça a minha lira

Os cândidos sorrisos da inocência .

 

* * *

 

Canta ao som dos grilhões o prisioneiro,

Ao som da tempestade o nauta ousado,

Um, porque espera o fim do cativeiro,

Outro, antevendo o porto desejado;

 

Exposta a vida ao tigre mosqueado

Gira sertões o sôfrego mineiro,

Da esperança dos lucros encantado,

Que anima o peito vil, e interesseiro:

 

Por entre armadas hostes destemido

Rompe o sequaz do horrífico Mavorte,

Co'o triunfo, co'a glória no sentido:

 

Só eu (tirano Amor! tirana Sorte! )

Só eu por Nise ingrata aborrecido

Para ter fim meu pranto espero a morte.

 

* * *

 

Triste quem ama, cego quem se fia

Da feminina voz na vã promessa!

Aspira a vê-la estável! mais depressa

O facho apagará, que espalha o dia:

 

Alada exalação, que na sombria

Tácita noite os ares atravessa,

Foi comigo a paixão volúvel dessa

Que o peito me afagava, e me feria:

 

Do desengano o bálsamo lhe aplico,

E a teus laços, Amor, sem medo exponho

Dos benéficos céus o dom mais rico:

 

Vejo mil Circes plácido, risonho;

E se fé me prometerem, ouço e fico

Como quem despertou de aéreo sonho .

 

* * *

 

Importuna Razão, não me persigas;

Cesse a ríspida voz que em vão murmura;

Se a lei do Amor, se a força da ternura

Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:

 

Se acusas os mortais, e os não abrigas,

Se (conhecendo o mal) não dás a cura,

Deixa-me apreciar minha loucura,

Importuna Razão, não me persigas,

 

É teu fim, seu projecto encher de pejo

Esta alma, frágil vítima daquela

Que, injusta e vária, noutros laços vejo:

 

Queres que fuga de Marília bela,

Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo

É carpir, delirar, morrer por ela.

 

* * *

 

Oh trevas, que enlutais a Natureza,

Longos ciprestes desta selva anosa,

Mochos de voz sinistra, e lamentosa,

Que dissolveis dos fados a incerteza:

 

Manes, surgidos da morada acesa

Onde de horror sem fim Plutão se goza,

Não aterreis esta alma dolorosa,

Que é mais triste que vós minha tristeza;

 

Perdi o galardão da fé mais pura,

Esperanças frustrei do amor mais terno,

A posse de celeste formosura:

 

Volvei pois, sombras vãs, ao fogo eterno:

E lamentando a minha desventura,

Movereis a piedade o mesmo inferno.

 

* * *

 

Já o Inverno, espremendo as cãs nervosas,

Geme, de horrendas nuvens carregado;

Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado

Investe ao Pólo em serras escumosas;

 

Oh benignas manhãs! tardes saudosas,

Em que folga o pastor, medrando o gado,

Em que brincam no ervoso e fértil prado

Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!

 

Voltai, retrocedei, formosos dias;

Ou antes vem, vem tu, doce beleza

Que noutros campos mil prazeres crias;

 

E ao ver-te sentirá minh'alma acesa

Os perfumes, o encanto, as alegrias

Da estação, que remoça a Natureza.

 

* * *

 

Mimosa, linda Anarda, atende, atende

Às doces mágoas do rendido Elmano;

Cum meigo riso, cum suave engano

Consola o triste amor, que não te ofende:

 

De teus cabelos ondeados pende

Meu coração, fiel para seu dano;

Côa luz dos olhos teus Cupido ufano

Sustenta o puro fogo, em que me acende;

 

Causa gentil das lágrimas que choro,

A tudo te antepõe minha ternura,

E quanto adoro o céu, teu rosto adoro:

 

O golpe, que me deste, anima e cura ...

Mas ai! que em vão suspiro, em vão te imploro:

Não pertence a piedade à formosura.

 

* * *

 

Oh deusa, que proteges dos amantes

O destro furto, o crime deleitoso,

Abafa com teu manto pavoroso

Os importunos astros vigilantes;

 

Quero adoçar meus lábios anelantes

No seio da Ritália melindroso;

Estorva que os maus olhos do invejoso

Turbem de amor os sôfregos instantes;

 

Tétis formosa, tal encanto inspire

Ao namorado sol teu níveo rosto,

Que nunca de teus braços se retire!

 

Tarde ao menos o carro à Noite oposto,

Até que eu desfaleça, até que expire,

Nas ternas ânsias, no inefável gosto.

 

* * *

 

O ledo passarinho, que gorjeia

D'alma exprimindo a cândida ternura,

O rio transparente, que murmura,

E por entre pedrinhas serpenteia:

 

O Sol, que o céu diáfano passeia,

A Lua, que lhe deve a formosura,

O sorriso da aurora alegre e pura,

A rosa, que entre os zéfiros ondeia;

 

A serena, amorosa Primavera,

O doce autor das glorias que consigo,

A deusa das paixões, e de Cítera:

 

Quanto digo, meu bem, quanto não digo,

Tudo em tua presença degenera,

Nada se pode comparar contigo.

 

* * *

 

De cima dessas pedras escabrosas

Que pouco a pouco as ondas têm minado,

Da lua co'o reflexo prateado

Distingo de Marília as mãos formosas:

 

Ah! que lindas que são, que melindrosas!

Sinto-me louco, sinto-me encantado;

Ah! Quando elas vos colhem lá no prado,

Nem vós, lírios, brilhais, nem vós, oh rosas!

 

Deuses! céus, tudo o mais que tendes feito

Vendo tão belas mãos, me dá desgosto;

Nada, onde elas estão, nada é perfeito .

 

Oh quem pudera uni-las ao meu rosto!

Quem pudera aperta-las no meu peito!

Dar-lhe mil beijos, e expirar de gosto!

 

* * *

 

Debalde um véu ocioso, oh Nise, encobre

Intactas perfeições ao meu desejo;

Tudo o que escondes, tudo o que não vejo

A mente audaz e alígea descobre:

 

Por mais e mais que as sentinelas dobre

A sisuda Modéstia, o cauto Pejo,

Teus braços logro, teus encantos beijo,

Por milagre da idéia afoita, e nobre;

 

Inda que prêmio teu rigor me negue,

Do pensamento a indômita porfia

Ao mais doce prazer me deixa entregue:

 

Que pode contra Amor a tirania,

Se as delícias, que a vista não consegue,

Consegue a temerária fantasia?

 

* * *

 

Das faixas infantis despido apenas

Sentia o sacro fogo arder na mente;

Meu retro coração inda inocente,

Iam ganhando as plácidas Camenas;

 

Faces gentis, angélicas, serenas,

De olhos suaves o volver fulgente,

Da idéia me extraíam de repente

Mil simples, maviosas cantinelas

 

O tempo me soprou fervor divino,

E as Musas me fizeram desgraçado,

Desgraçado me fez o Deus Menino;

 

O Amor quis esquivar-se, e ao dom sagrado:

Mas vendo no meu gênio o meu destino,

Que havia de fazer? Cedi ao fado.

 

* * *

 

Minh'alma se reparte em pensamentos

Todos escuros, todos pavorosos;

Pondero quão terríveis, quão penosos

São, existência minha, os teus momentos:

 

Dos males que sofri, cruéis, violentos,

A Amor, e aos Fados contra mim teimosos,

Outro inda mais tristes, mais custosos

Deduzo com fatais pressentimentos.

 

Rasgo o véu do futuro, e lá diviso

Novos danos urdindo Amor e aos Fados,

Para roubar-me a vida após do siso.

 

Ah! Vem, Marília, vem com teus agrados,

Com teu sereno olhar, teu brando riso

Furtar-me a fantasia a mil cuidados.

 

* * *

 

O Céu não te dotou de formosura,

De atractivo exterior, e a Natureza

Teu peito inficionou côa vil torpeza

De ingrata condição, falaz e impura;

 

Influiu-me os extremos da ternura

A Constáncia, o fervor, e a singeleza,

Esses dons mais gentis que a gentileza,

Dons, que o tempo fugaz não desfigura;

 

Apesar da traição, do fingimento

Que te inflama, e desluz, se envela e pára

Em ti, alma infiel, meu pensamento;

 

Nas paixões a razão nos desampara,

Se a razão presidisse ao sentimento,

Tu morrerás por mim, eu não te amara .

 

* * *

 

Às margens do Regaça cristalino

Nos olhos de Tirseia ardi contente;

Brandos olhos gentis, dos quais pendente

Estava o meu prazer, e o meu destino;

 

O tenro Deus, o cândido Menino

Pagava meu fervor puro, inocente;

Mas cedo me impeliu a sorte inclemente

Para vós, tristes margens, que abomino;

 

Aqui desde que aponta a luz febéia

De lugar em lugar deliro, e corro,

Com suspeitas nutrindo a turva idéia .

 

Não posso contra Amor achar socorro;

Perdi todo o meu bem, perdi Tirseia

Ela vive sem mim, sem ela eu morro.

 

* * *

 

Que idéia horrenda te possui, Elmano?

Que ardente frenesi teu peito inflama?

A razão te alumie, apaga a chama,

Reprime a raiva do ciúme insano:

 

Esperanças consome, ou vive ufano,

Ah! Foge, ou cinge da vitória a rama:

Ama-te a bela Armia, ou te não ama?

Seus ais são da ternura, ou são do engano?

 

Se te ama, não consternem teus queixumes

Os olhos de que estás enfeitiçado,

Do puro céu de Amor benignos lumes:

 

Se outro n'alma de Armia anda gravado,

Que fruto hás de colher dos vãos ciúmes?

Ser odioso, além de desgraçado.

 

* * *

 

Às águas e às areias deste rio

Às flores, e aos Favórios deste prado,

Meus danos conto, minhas mágoas fio,

Dou queixas contra Ismene, Amor e o Fado:

 

A paz do coração posta em desvio,

O gosto em desenganos sufocado,

Lágrimas com lembranças desafio,

E pela tarda morte às vezes brado;

 

Tão maviosos sãos meus ais mesquinhos,

Tanto pode a paixão que em mim suspira,

Que se esquecem das mães os cordeirinhos:

 

O vento não se mexe, nem respira;

Deixam de namorar-se os passarinhos,

Para me ouvir chorar ao som da lira.

 

* * *

 

O céu, de opacas sombras abafado,

Tornando mais medonha a noite feia;

Mugindo sobre as rochas, que salteia,

O mar, em crespos montes levantado:

 

Desfeito em furacões o vento irado,

Pelos ares zunindo a solta areia,

O pássaro noturno, que vozeia

No agoureiro cipreste além pousado;

 

Formam quadro terrível, mas aceito,

Mas grato aos olhos meus, grato à fereza

Do ciúme, e saudade, a que ando, afeito:

 

Quer no horror igualar-me a Natureza;

Porém cansa-se em vão, que no meu peito

Há mais escuridade, há mais tristeza.

 

* * *

 

Nos torpes laços de beleza impura

Jazem meu coração, meu pensamento;

Esforçada ao servil abatimento

Contra os sentidos a razão murmura:

 

Eu, que outrora incensava a formosura,

Das que enfeita o pudor gentil, e isento,

A já corrupta idéia hoje apascento

Nos falsos mimos de venal ternura:

 

Se a vejo repartir prazer, e agrado

Àquele, a este, côa fatal certeza

Fermenta o vil desejo envenenado;

 

Céus! quem me reduziu a tal baixeza?

Quem tão cego me pôs? ...ah! foi meu fado,

Que tanto não podia a Natureza.

 

* * *

 

Perdi tudo ( ai de mim! ) perdi Marfida,

Marfida, a glória minha, a minha amada;

Tenra flor, a esperança malograda

Do mimoso matiz caiu despida:

 

Pede meu coração mortal ferida,

Só aos ditosos a existência agrada;

Vida entre angústias equivale ao nada,

No risonho prazer consiste a vida.

 

Eia, amante infeliz, teu fim procura!

Fantástico terror não te reporte,

Nos túmulos não reina a formosura.

 

Diga triste letreiro a minha sorte;

Dai-me piedosa sombra à sepultura

Teixas, ciprestes, árvores da morte.

 

* * *

 

Lá onde o Fado impenetrável mora,

Voa o menino Amor entre os Amores:

Loureja a trança, que matizam flores,

Cintila o facho, que a Razão devora:

 

Entra, saúda o nume, ao nume implora

Que de Marília os olhos tentadores

Vejam sempre ante as Graças, e os Louvores

De seus anos gentis surgir a aurora:

 

Fronte rugosa vezes três sacode

O deus, cujo poder tudo atropela,

E às súplicas de Amor destarte acode:

 

"Escape às minhas leis Marília bela,

seja, seja imortal; durar não pode,

o mundo sem amor, amor sem ela ".

 

* * *

 

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Razão, me tens curado?

Quão fácil de um estado a outro estado

O mortal sem querer é conduzido!

 

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,

Como que até reagia a mão do fado,

Onde o sol, bem de todos, lhe é vedado

Depois com ferros vis se vê cingido:

 

Para que o nosso orgulho as asas corte,

Que variedade inclui esta medida,

Este intervalo de existência à morte!

 

Travam-se gosto, e dor; sossego, e lida;

É da lei da Natureza, é lei da sorte

Que seja o mal e o bem matriz da vida.

 

* * *

 

Oh tu, consolador dos malfadados,

Oh tu, benigno dom da mão divina,

Das mágoas saborosa medicina,

Tranquilo esquecimento dos cuidados:

 

Aos olhos meus, de prantear cansados,

Cansados de velar, teu voo inclina;

E vós, sonhos de amor, trazei-me Alcina,

Dai-me a doce visão de seus agrados:

 

Filha das trevas, frouxa sonolência,

Dos gostos entre o férvido transporte

Quanto me foi suave a tua ausência!

 

Ah! findou para mim tão leda sorte;

Agora é só feliz minha existência

No mudo estado, que arremeda a morte.

 

* * *

 

Tu, maligno dragão, cruel harpia,

monstro dos monstros, fúria dos infernos,

que em vil murmuração, ralhos eternos

Estragas sem descanso a noite, e o dia:

 

Tu, que nas horas em que o mocho pia,

Caluniaste meus suspiros ternos,

Sacode a carga de noventa invernos

Nas descarnadas mãos da morte fria:

 

Cai de chofre no báratro profundo,

Cai nas entranhas da voraz fornalha,

Deixa em sossego o miserável mundo:

 

E entre a maldita, réproba canalha,

Lá bem longe de nós, lá bem no fundo,

Arde, murmura, amaldiçoa, e ralha.

 

* * *

 

Usurpando um minuto a meu lamento

Amigo sono os olhos me ocupava,

E enquanto o débil corpo descansava,

Velava amor, velava o pensamento:

 

Eis que em deserto e lúgubre aposento,

Que semimorta luz mais afeava,

Cri, Gertrúria (ai de mim!) que te avistava

Já sem cor, já sem voz, já sem alento:

 

Súbito acordo em lágrimas banhado,

E, das trevas palpando o véu medonho

Em vão busco teu corpo delicado:

 

Mas inda em ânsias trémulo suponho

Que me vaticinou meu negro fado

Dos males o pior no horrível sonho.

 

* * *

 

A lva Gertrúria minha, a quem saudoso

Mando trémulos ais enternecidos;

gertrúria, que encantaste os meus sentidos

Cum meigo riso, cum olhar piedoso:

 

Amor, o injusto Amor, nume doloso,

insensível penedo a meus gemidos,

Me exala sobre os tímidos ouvidos

Estas vozes cruéis em tom raivoso:

 

"Tu, que já desfrutaste os meus favores,

tu, que na face de Gertrúria bela

Néctar bebeste, mitigaste ardores,

 

Não tornarás, não tornarás a vê-la:

lamenta, desgraçado, os teus amores,

Acusa, desgraçado, a tua estrela."

 

* * *

 

Usurpando um minuto a meu lamento

Amigo sono os olhos me ocupava,

E enquanto o débil corpo descansava,

Velava amor, velava o pensamento:

 

Eis que em deserto e lúgubre aposento,

Que semimorta luz mais afeava,

Cri, Gertrúria (ai de mim!) que te avistava

Já sem cor, já sem voz, já sem alento:

 

Súbito acordo em lágrimas banhado,

E, das trevas palpando o véu medonho,

Em vão busco teu corpo delicado:

 

Mas inda em ânsias trémulo suponho

Que me vaticinou meu negro fado

Dos males o pior no horrível sonho.

 

* * *

 

Alva Gertrúria minha, a quem saudoso

Mando trémulos ais enternecidos;

Gertrúria, que encantaste os meus sentidos

Cum meigo riso, cum olhar piedoso:

 

Amor, o injusto Amor, nume doloso,

Insensível penedo a meus gemidos,

Me exala sobre os tímidos ouvidos

Estas vozes cruéis em tom raivoso:

 

"Tu, que já desfrutaste os meus favores,

Tu, que na face de Gertrúria bela

Néctar bebeste, mitigaste ardores,

 

Não tornarás, não tornarás a vê-Ia:

Lamenta, desgraçado, os teus amores,

Acusa, desgraçado, a tua estrela."

 

* * *

 

Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado,

Mansa corrente deleitosa, amena,

Em cuja praia o nome de Filena

Mil vezes tenho escrito, e mil beijado:

 

Nunca mais me verás entre o meu gado

Soprando a namorada e branda avena,

A cujo som descias mais serena,

Mais vagarosa para o mar salgado:

 

Devo enfim manejar por lei da sorte

Cajados não, mortíferos alfanjes

Nos campos do colérico Mavorte;

 

E talvez entre impávidas falanges

Testemunhas farei da minha morte

Remotas margens, que humedece o Ganges.

 

* * *

 

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez perdendo o Tejo

Arrostar co'o sacrílego gigante:

 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante:

 

Ludíbrio, como tu, da sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura:

 

Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...

Se te imito nos transes da ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.

 

* * *

 

Adeja, coração, vai ter aos lares,

Ditosos lares, que Gertrúria pisa;

Olha, se inda te guarda a fé mais lisa,

Vê, se inda tem pesar dos teus pesares:

 

No fulgor dos seus olhos singulares

Crestando as asas, tua dor suaviza,

Amor de lá te chama, te divisa,

Interpostos em vão tão longos mares:

 

Dize-lhe, que do tempo o leve giro

Não faz abalo em ti, não faz mudança,

Que ainda lhe és fiel neste retiro:

 

Sim, pinta-lhe imortal minha lembrança;

 Dá-lhe teus ais, e pede-lhe um suspiro,

Que alente, coração, tua esperança.

 

* * *

 

Já por bárbaros climas entranhado,

Já por mares inóspitos vagante,

Vítima triste da fortuna errante,

dos mais desprezíveis desprezado:

 

Da figueira esperança abandonado,

Lassas as forças, pálido o semblante,

Sinto rasgar meu peito a cada instante

A mágoa de morrer expatriado:

 

Mas ah! Que bem maior, se contra a sorte

Lá do sepulcro no sagrado hospício

Refúgio me promete a amiga Morte!

 

Vem pois, oh nume aos míseros propício,

Vem livrar-me da mão pesada e forte,

Que de rastos me leva ao precipício!

 

* * *

 

Melizeu, o menor entre os nascidos,

De face cadavérica e nojosa,

Tísico em verso, apoquentado em prosa,

Hórrido aos olhos, hórrido aos ouvidos:

 

Soltando dissonantes alaridos

Da boca transversal erma, e gulosa,

Insulta a quem de Febo os mimos goza,

Estafa-se em preceitos não cumpridos:

 

Ao vate Elmano plagiário chama,

Sendo o mais desprezível plagiário,

Que o que pilha desluz, corrompe, infama:

 

Profanador do Aónio santuário,

Lobisomem do Pindo, orneia, ou brama,

Até findar no Inferno o teu fadário!

 

* * *

 

Quem se vê maltratado, e combatido

Pelas cruéis angústias da indigência

Quem sofre de inimigos a violência,

Quem geme de tiranos oprimido:

 

Quem não pode ultrajado, e perseguido

Achar nos Céus, ou nos mortais clemência,

Quem chora finalmente a dura ausência

De um bem, que para sempre está perdido:

 

Folgará de viver, quando não passa

Nem um momento em paz, quando a amargura

O coração lhe arranca e despedaça?

 

Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura

Que a vida para os tristes é desgraça,

A morte para os tristes é ventura.

 

* * *

 

Aceso no almo ardor, que a mente inflama.

Vivo de Amor, de Amor suspiro e canto;

Na face agora o riso, agora o pranto,

De árvore tua, oh Febo, eu cinjo a rama:

 

Prezo a doce moral, na voz da fama

Meu nome, pouco a pouco aos céus levanto

Mas turba vil, que abato, anseio e espanto,

Urde em meu dano abominável trama;

 

Réu me delata de hórrida maldade,

Projecta aniquilar-me o bando rude,

Envolto na leteia escuridade:

 

Que falsa ideia, oh zoilos, vos ilude?

Furtais-me a paz? Furtais-me a liberdade?

Fica-me a glória, fica-me a virtude.

 

* * *

 

Bem hajas, oh Morfeu! À fantasia

Que cena divinal me deste agora!

Nise, qual sai da noite a grata aurora,

Surgiu-me dentre as sombras da agonia.

 

Mais belo inda a saudade me fingia

O gesto encantador, que os céus namora;

Cuido que inda me afaga, que inda chora

Pranto, que morta flor viver faria.

 

Graças oh nume, de meus ais magoado!

Alta mercê meu coração te deve,

Por este acinte, que fizeste ao fado:

 

Só tua divindade a tal se atreve;

Mas ah! Que eras prazer de um desgraçado

Sempre mostraste, oh sonho, em ser tão breve.

 

* * *

 

Em sórdida masmorra aferrolhado,

De cadeias aspérrimas cingido,

Por ferozes contrários perseguido,

Por línguas impostoras criminado:

 

Os membros quase nus, o aspecto honrado

Por vil boca, e vil mão roto, e cuspido,

Sem ver um só mortal compadecido

De seu funesto, rigoroso estado:

 

O penetrante, o bárbaro instrumento

De atroz, violenta, inevitável morte

Olhando já na mão do algoz cruento:

 

Inda assim não maldiz a iníqua sorte,

Inda assim tem prazer, sossego, alento,

O sábio verdadeiro, o justo, o forte.

 

* * *

 

Tu, que em torpes desejos atolado

Vergonhosos prostíbulos frequentas:

Tu, que os olhos famintos alimentas

No cofre, de tesouros atulhado:

 

Tu, que do ouro e da púrpura adornado

Quase de igual a Júpiter ostentas,

bebendo as frases vis, e peçonhentas

Do bando adulador, que tens ao lado:

 

momentos, que desonrais a humanidade,

Desprezando a pobreza atribulada,

E transgredindo a lei da caridade:

 

O Desengano ouvi, que assim vos brada:

"Tremei da pavorosa eternidade,

Tremei filhos do pó, filhos do nada!"

 

* * *

 

Oh Rei dos reis, oh Árbitro do mundo,

Cuja mão sacrossanta os maus fulmina,

E a cuja voz terrífica, e divina

Lúcifer treme no seu caos profundo!

 

Lava-me as nódoas do pecado imundo,

Que as almas cega, as almas contamina:

O rosto para mim piedoso inclina,

Do eterno império Teu, do Céu rotundo:

 

Estende o braço, a lágrimas propício,

Solta-me os ferros, em que choro e gemo

Na extremidade já do precipício:

 

De mim próprio me livra, oh Deus supremo!

Porque o meu coração propenso ao vício

É, Senhor, o contrário que mais temo.

 

* * *

 

Nos campos o vilão sem sustos passa,

inquieto na corte o nobre mora;

O que é ser infeliz aquele ignora,

Este encontra nas pompas a desgraça:

 

Aquele canta e ri; não se embaraça

Com essas coisas vãs que o mundo adora:

Este (oh cega ambição!) mil vezes chora,

Porque não acha bem que o satisfaça:

 

Aquele dorme em paz no chão deitado,

Este no ebúrneo leito precioso

Nutre, exaspera velador cuidado:

 

Triste, sai do palácio majestoso; .

Se hás-de ser cortesão, mas desgraçado,

Antes ser camponês, e venturoso!

 

* * *

 

Neste horrível sepulcro da existência

O triste coração de dor se parte;

A mesquinha razão se vê sem arte,

Com que dome a frenética impaciência:

 

Aqui pela opressão, pela violência

Que em todos os sentidos se reparte,

Transitório poder quer imitar-te,

Eterna, vingadora omnipotência!

 

Aqui onde o que o peito abrange, e sente,

Na mais ampla expressão acha estreiteza,

Negra idéia do abismo assombra a mente.

 

Difere acaso da infernal tristeza

Não ver terra, nem céu, nem mar, nem gente,

Ser vivo, e não gozar da Natureza?

 

* * *

 

Minh'alma quer lutar com meu tormento;

Contenda inútil! É por ele o Fado:

Antes de oprimir-me está cansado

Eterna força lhe refaz o alento:

 

Mais vale que delire o pensamento

Te agora co'a Razão debalde armado;

É menos triste, menos duro estado

A Desesperação, que o Sofrimento:

 

A Desesperação soluça e chora,

A Desesperação mil ais desata,

Parte do mal nas queixas se evapora:

 

O Sofrimento azeda o que recata;

Prende suspiros, lágrimas devora,

tiraniza, consome, e às vezes mata.

 

* * *

 

Aqui, onde arquejando estou curvado

À lei, pesada lei, que me agrilhoa,

De lúgubres ideias se povoa

Meu triste pensamento horrorizado:

 

Aqui não brama o Noto anuviado,

O Zéfiro macio aqui não voa,

Nem zune insecto alígero, nem soa

Ave de canto alegre, ou agourado;

 

Expeliu-me de si a humanidade,

Tu, astro benfeitor da redondeza,

Não despendes comigo a claridade:

 

Só me cercam fantasmas da tristeza:

Que silêncio! Que horror! Que escuridade!

Parece muda, ou morta a Natureza.

 

* * *

 

Com ampla mão, benéfica largueza,

mil vezes me hás dourado a vida escura;

aos fados meus, de horrível catadura,

mil vezes tens despido a atroz dureza:

 

Blasone embora a túmida nobreza

Dos timbres, que lhe engole a sepultura;

Esse esplendor dos grandes é ventura;

Teu esplendor, ó Freire, é natureza:

 

Ante a luz, que do céu mil raios lança,

dignidade sem mérito é desdouro,

mérito estreme a eternidade alcança:

 

teu gênio benfeitor supre um tesouro;

e eu, que obtive das Musas farta herança,

pago-te em verso o que te devo em ouro.

 

* * *

 

Já com ténue clarão, já quase escura

A nocturna Diana o céu volteia,

sobre o Tejo azul, que mal prateia,

Vai duplicando a trémula figura:

 

Aura subtil nas árvores murmura,

No lago adormecido a rã vozeia,

Mocho importuno agouros mil semeia,

Dentre as umbrosas moitas da espessura:

 

Letárgico vapor Morfeu derrama,

Com que insinua um doce desalento

No livre coração de quem não ama:

 

Triste de mim! Se repousar intento

Os olhos me abre Amor, Amor me inflama,

E Anália me persegue o pensamento.

 

* * *

 

Vós, que de meus extremos sois a história,

por negro zoilo em vão roubados,

nascidos da Ternura, e restaurados

co'o pronto auxílio de fiel memória:

 

Da Inveja conseguindo alta vitória

Ide, meus versos, em Amor fiados,

Que dele só dependem vossos fados,

Que dele só demando a minha glória:

 

Não vos importe o público juízo;

Da voz, que pelo mundo se derrama,

Os vivas caprichosos não preciso.

 

Voai aos olhos, cuja luz me inflama;

Tereis de Anarda aprovador sorriso,

Um sorriso de Anarda é mais que a Fama.

 

* * *

 

Se é doce no recente, ameno Estio

Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,

E, lambendo as areias, e os verdores

Mole e queixoso deslizar-se o rio:

 

Se é doce no inocente desafio

Ouvirem-se os voláteis amadores,

Seus versos modulando, e seus ardores

Dentre os aromas de pomar sombrio

 

Se é doce mares, céus ver anilados

Pela quadra gentil, de Amor querida,

Que esperta os corações, floreia os prados:

 

Mais doce é ver-te de meus ais vencida,

Dar-me em teus brandos olhos desmaiados

Morte, morte de amor, melhor que a vida.

 

* * *

 

No abismo tragador da Humanidade

(dela, dela não só, de quanto existe)

co'a mesma rapidez, Elmano, ah! viste

sumir-se a florescente, e a murcha idade!

 

Olha em muros, que veste a escuridade,

Olha a cor de teu fado, a cor mais triste:

Talvez (agora!... agora!...) ele te aliste

No volume, em que lê a eternidade!

 

Oh tochas funerais! Clarão medonho!

Da morte, oh! mudas, solitárias cenas!

Em vós arrepiado os olhos ponho!...

 

Ah, porque tremes, louco? Ah! Porque penas?

sonhas num ermo, e surgirás do sonho

em climas de ouro, em regiões amenas.

 

* * *

 

Meu ser evaporei na lida insana

Do tropel de paixões, que me arrastava;

Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava

Em mim quase imortal a essência humana:

 

De que inúmeros sóis a mente ufana

Existência falaz me não dourava!

Mas eis sucumbe Natureza escrava

Ao mal, que a vida em sua orgia dana.

 

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!

Esta alma, que sedenta em si não coube,

No abismo vos sumiu dos desenganos:

 

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube

Ganhe um momento o que perderam anos,

Saiba morrer o que viver não soube.

 

* * *

 

Já Bocage não sou!... À cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento...

Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento

Leve me torne sempre a terra dura:

 

Conheço agora já quão vã figura

Em prosa e verso fez meu louco intento;

Musa!... Tivera algum merecimento

Se um raio da razão seguisse pura!

 

Eu me arrependo; a língua quase fria

Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria:

 

Outro Aretino fui... A santidade

Manchei!... Oh! Se me creste, gente impia,

Rasga meus versos, crê na eternidade!

 

* * *

 

Mimo das graças te floresce o canto,

De ternas sensações inda orvalhoso;

D'alma, que em néctar inundei saudoso,

Foge a dor, foge o mal, foge o quebranto:

 

São melodia os ais, delícia o pranto,

Que excita o verso teu, gentil, mimoso;

Por ele jura Amor ser mais piedoso,

E sente a Natureza um novo encanto;

 

Estro do coração! Teus sons, teus lumes,

Dos montes de perene amenidade

Tentem no longo adejo os flóreos cumes:

 

Versos, não vos merece a férrea idade;

Gozai no Olimpo, oh música dos numes,

Vosso ouvinte imortal, a Eternidade!

 

* * *

 

Cara de réu, com fumos de juiz,

Figura de presepe, ou de entremez,

Mal haja quem te sofre, e quem te fez,

Já que mordeste as décimas que fiz:

 

Hei-de pôr-te na testa um T com giz,

Por mais e mais pinotes, que tu dês;

E depois com dois murros, ou com três,

Acabrunhar-te os queixos, e o nariz:

 

Quem da cachola vã te inflama o gás,

E a abocanhares sílabas te induz,

Ó dos brutos e alarves capataz?

 

Nem sabes o A B C, pobre lapuz;

E pasmo de que, sendo um Satanás,

Com tinta faças o sinal da Cruz!

 

* * *

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno,

Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno:

 

Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos por taça escura

De zelos infernais letal veneno:

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento

E somente no altar amando os frades:

 

Eis Bocage, em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

* * *

 

Adamastor cruel! De teus furores

Quantas vezes me lembro horrorizado!

Ó monstro! Quantas vezes tens tragado

Do soberbo Oriente os domadores!

 

Parece-me que entregue a vis traidores

Estou vendo Sepúlveda afamado,

Co'a esposa e co'os filhinhos abraçado,

Qual Mavorte com Vénus e os Amores.

 

Parece-me que vejo o triste esposo,

Perdida a tenra prole e a bela dama,

Às garras dos leões correr furioso.

 

Bem te vingaste em nós do afoito Gama!

Pelos nossos desastres és famoso.

Maldito Adamastor! Maldita fama!

 

* * *

 

Ó Céus! Que sinto n'alma! Que tormento!

Que repentino frenesi me anseia!

Que veneno a ferver de veia em veia

Me gasta a vida, me desfaz o alento!

 

Tal era, doce amada, o meu lamento;

Eis que esse deus, que em prantos se recreia,

Me diz: A que se expõe quem não receia

Contemplar Ursulina um só momento!

 

Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura

De seus olhos travessos, e cum tiro

Puni tua sacrílega loucura:

 

De morte, por piedade hoje te firo;

Vai pois, vai merecer na sepultura

À tua linda ingrata algum suspiro.

 

* * *

 

Apenas vi do dia a luz brilhante

Lá de Túbal no empório celebrado,

Em sanguíneo carácter foi marcado

Pelos Destinos meu primeiro instante.

 

Aos dois lustros a morte devorante

Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;

Segui Marte depois, e enfim meu fado,

Dos irmãos e do pai me pôs distante.

 

Vagando a curva terra, o mar profundo,

Longe da Pátria, longe da ventura,

Minhas faces com lágrimas inundo.

 

E enquanto insana multidão procura

Essas quimeras, esses bens do mundo,

Suspiro pela paz da sepultura.

 

* * *

 

Sobre estas duras, cavernosas fragas,

Que o marinho furor vai carcomendo,

Me estão negras paixões n'alma fervendo

Como fervem no pego as crespas vagas;

 

Razão feroz, o coração me indagas.

De meus erros a sombra esclarecendo,

E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo

De agudas ânsias venenosas chagas.

 

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,

Mil objectos de horror co'a ideia eu corro,

Solto gemidos, lágrimas derramo.

 

Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

 

* * *

 

A frouxidão no amor é uma ofensa,

Ofensa que se eleva a grau supremo;

Paixão requer paixão, fervor e extremo;

Com extremo e fervor se recompensa.

 

Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!

Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;

Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;

Em sombras a razão se me condensa.

 

Tu só tens gratidão, só tens brandura,

E antes que um coração pouco amoroso

Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

 

Talvez me enfadaria aspecto iroso,

Mas de teu peito a lânguida ternura

Tem-me cativo e não me faz ditoso.

 

* * *

 

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Quem faz que o teu influxo em nós não Caia?

Porque (triste de mim!) porque não raia

Já na esfera de Lísia a tua aurora?

 

Da santa redenção é vinda a hora

A esta parte do mundo que desmaia.

Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia

Despotismo feroz, que nos devora!

 

Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,

Oculta o pátrio amor, torce a vontade,

E em fingir, por temor, empenha estudo.

 

Movam nossos grilhões tua piedade;

Nosso númen tu és, e glória, e tudo,

Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

 

* * *

 

Liberdade querida e suspirada,

Que o Despotismo acérrimo condena;

Liberdade, a meus olhos mais serena,

Que o sereno clarão da madrugada!

 

Atende à minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena;

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

 

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem, oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais que os astros brilha;

 

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;

Dos céus descende, pois dos Céus és filha,

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

 

* * *

 

FIM

 

 

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