
Um Dia na Vida do Brasilino
PAULO GUILHERME MARTINS
Edição comemorativa dos 41 anos do lançamento
da 1ª edição deste livreto.
Outono de 2002
“Não existe imperialismo
no Brasil”
Carlos Lacerda
na “Tribuna da Imprensa”
“Essa história de impe-
rialismo não passa de inven-
ção
de falsos nacionalistas
que
pretendem impedir o
progresso da nação.”
De
“O Estado de São Paulo”
Não sei se você conhece o Brasilino!? Mas isso não
importa...
Brasilino – é um homem qualquer, que mora num
apartamento qualquer, numa cidade qualquer... Situemo-lo em Santos, por
exemplo.
Brasilino, como todo o bom burguês, começa o dia
acordando; sim, porque o operário, este, levanta-se ainda dormindo a fim de chegar
a tempo ao serviço.
Brasilino acorda e aperta o botão da campainha à
cabeceira da cama, campainha essa que soa na copa; porem soa, consumindo
energia – energia que é da Light, e,
assim, o Brasilino inicia o seu dia pagando dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.
Mas Brasilino não pensa nisso e começa o seu dia, feliz!
Abre-se a porta. É Marta, a criada, que entra com o
café da manhã: café, leite, pão, manteiga, um pouco de geleia e o jornal – “O
Estado de São Paulo”. – Brasilino, como todo o bom burguês, lê somente a boa
imprensa – a chamada sadia.
Enquanto lê as notícias, toma a sua primeira
refeição. Brasilino não sabe que o leite, que bebe, é originário de uma vaca
que foi alimentada com farelo REFINAZIL, da “Refinações de Milho do Brazil”
(Brasil com Z), que é americana, e que a farinha com a qual foi feito o pão é
originária do “Moinho Santista”, que não é santista e sim inglês. Assim, para
tomar o seu café da manhã, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL
ESTRANGEIRO. Mas, Brasilino nem sabe disso... e toma o seu café, bem feliz!
Terminado o café, Brasilino acende o seu primeiro
cigarro: Minister, ou Hollywood, um desses da “Cia. Souza Cruz”, que não é do
Sr. Souza e muito menos do Sr. Cruz, mas, sim, da “British, American Tobacco
Co.”, o “trust” anglo-americano do fumo. E assim, para fumar seu cigarrinho,
Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Mas Brasilino nem pensa nisso
e saboreia seu cigarrinho, feliz... feliz...
Em seguida, Brasilino vai ao quarto de banho, fazer
a sua toilette: acende o aquecedor de
gás- gás que é da City e, portanto, do grupo Light, e, enquanto a água aquece,
toma da escova de dentes, marca “TEK”, da “Johnson & Johnson do Brasil”
(que é americana), e da pasta dentifrícia “KOLYNOS”, com clorofila, da “Whitehall
Laboratories of New York” e, assim, para escovar os dentes, Brasilino paga
dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIROS...
Mas Brasilino nem pensa nisso...
Brasilino não sabe bem o que é clorofila e está
certo de que, quando entrou na farmácia e escolheu essa pasta, o fez
livremente; ignora que sua vontade foi condicionada pelas custosas campanhas de
promoção de vendas, feitas através da imprensa, do rádio e da televisão e que,
da mesma forma como ele escolhe sua pasta de dentes, escolhe, também, o seu
candidato à Presidência da República.
Em seguida, Brasilino vai fazer a barba: toma do
pincel, feito com fios de Nylon, da “Rhodia” – que é francesa – enche-o com
creme de barbear “Williams”, que é americano. Ensaboado o rosto, Brasilino toma
seu aparelho “Gillette”, munido com lâminas “Gillette”, ambos da “Gillette
Safety Razor do Brazil”, e, feliz, vai raspando a face, pois nem pensa que,
para fazer sua barba, tem que pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO...
Terminada a barba, Brasilino entra no banheiro,
envolvendo o corpo com a espuma acariciadora de um desses sabonetes, “Lever” ou
“Palmolive”, um desses cuja espuma acaricia o corpo de 9, entre 10 estrelas de
Hollywood. E assim, até para tomar seu banho, Brasilino tem que pagar
dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.
Após o banho, Brasilino enxuga-se com uma toalha
felpuda da “Fiação da Lapa”, que também não é da Lapa porque é Suíça e, a
seguir, passa pelo corpo talco “Johnson”, da “Johnson & Johnson do Brasil”.
E... começa a vestir-se.
Acontece, então, uma tragédia! Cai um botão da
camisa do Brasilino. Ele toca novamente a campainha, e Marta corre a socorrer o
nosso herói, munindo-se de agulha e linha. Dentro de poucos instantes, ao ver
Marta cortar a linha com os dentes, depois de preso o botão, Brasilino sente-se
novamente feliz. Feliz porque ele não sabe que Marta, a criada, para pregar o
botão, usou a linha marca “Corrente” da “Cia. Brasileira de Linhas para Coser”,
que é inglesa e que, até para pregar um botão, Brasilino tem de pagar
dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.
Já vestido, Brasilino despede-se de Marta, avisando
que não virá almoçar nem jantar, pois irá a São Paulo, a negócios... – Sai,
bate a porta, toma o elevador, que é “Schindler”, da “Schindler do Brasil”, que
é suíça, e movido por força fornecida pela Light, e chega ao pavimento térreo.
Dá bom dia ao zelador e toma o seu automóvel “Volkswagen”, fabricado pela
“Volkswagen do Brasil”, que é alemã, rodando sobre pneus “Firestone”, da
“Firestone do Brasil” que é americana, acionado por gasolina refinada pela “Petrobrás”,
mas distribuída pela “Esso Standard do Brasil”, que é americana. Até para usar
a gasolina, refinada pela Petrobrás, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL
ESTRANGEIRO! Ele não sabe que os brasileiros têm capacidade para refinar o
petróleo e produzir a gasolina, mas não a têm para a “difícil” tarefa de
distribuí-la e que, para esse serviço – a simples distribuição – as companhias
distribuidoras (Esso–Shell– Gulf–Texaco, etc.) ganham muito mais que a
Petrobrás. Mas Brasilino ignora tudo isso... e Brasilino é feliz!
Pouco depois, Brasilino encontra-se na Via Anchieta,
dirigindo-se a São Paulo. Ao passar por Cubatão e ao ver a Refinaria Presidente
Bernardes, põe-se a pensar: “Porcaria essa Petrobrás! agora que a gasolina é
nacional, custa cinco vezes mais.” – Sim, porque Brasilino não reflete que a
gasolina custa, agora, muito mais, por um motivo muito simples: ao tempo em que
a gasolina era importada, o dólar custava Cr$ 18,72 e, atualmente, para a
importação de óleo bruto, custa Cr$ 200,00. – Não sabe, também, que o dólar
está caro porque é escasso, e é escasso devido à procura, e a procura é muito
grande, porque os dólares obtidos com a exportação brasileira, mal dão para
fazer face às remessas de royalties e
dividendos do CAPITAL ESTRANGEIRO.
A irritação do nosso herói, contudo, logo
desaparece, pois a algumas centenas de metros à frente, Brasilino vê surgirem
os dutos da Light e uma grande tabuleta com os seguintes dizeres: LIGHT AND
POWER, a maior usina hidrelétrica da América do Sul – 1.200.000 KW. – Aí,
Brasilino exulta e monologa com entusiasmo – “Isto sim! A Light! A Light! A
Light que fez a grandeza de São Paulo.” Sim, porque Brasilino confunde Light
com Energia. Ele não sabe que o que fez a grandeza de São Paulo não foi a Cia.
Light e sim a Energia e que, se a Energia não pertencesse à Light, São Paulo
seria dez vezes maior, ou o Brasil dez vezes menos miserável.
O interessante é que Brasilino nunca perguntou, a si
mesmo, que seria da Inglaterra se não existissem as Lights pelo mundo.
Brasilino prossegue a viagem e, logo mais, atinge o
altiplano, onde vê descortinar-se o panorama grandioso do progresso industrial,
que ele julga ser do Brasil: “Volkswagen do Brasil” – “Mercedes Benz do Brasil”
– “Willys Overland do Brasil” – “General Motors do Brasil” – “Rolls Royce do
Brasil” – “Cia. Brasileira de Peças de Automóveis” – “Simca do Brasil” –
“Plásticos do Brasil” e inúmeras outras “do Brasil” e “brasileiras”, mas todas
elas ESTRANGEIRAS.
Brasilino, afinal, chega a São Paulo. Estaciona o
seu carro em uma das ruas do centro e, a pé, alcança a Rua Líbero Badaró, para
concluir um negócio. Brasilino recorda-se de que Líbero Badaró foi um homem
que, ao ser assassinado, exclamou: “Morre um liberal, mas não morre a
Liberdade!” E Brasilino conclui: “Que sujeito burro! Que interessa a Liberdade
para um homem que já morreu!?”
Enquanto assim pensa, Brasilino chega aos
escritórios da “Crescinco, Cia. de Investimentos”, pertencente ao Sr.
Rockefeller. Brasilino sente-se orgulhoso de emprestar o seu dinheiro a um dos
homens mais ricos do mundo, mas que, para financiar as suas indústrias, prefere
usar o dinheiro dos próprios brasileiros, atraindo-os com a vantagem de juros
de 2% ao mês e livre de imposto de renda. Brasilino não sabe que, entre o dia
em que ele entregou o dinheiro e o dia em que esse mesmo dinheiro lhe foi
devolvido, a desvalorização da moeda foi de 4% ao mês e assim , ele está menos
rico, pois esse juro e mais os lucros da Cia. Investidora terão, forçosamente,
de ser acrescentados ao custo das utilidades, saindo, consequentemente, da
própria pele do Brasilino. Mas Brasilino não sabe disso e recebe o seu dinheiro
e os juros, feliz!
Liquidado o negócio, Brasilino vai almoçar. – Entra
num restaurante onde lhe é servido, como antepasto: frios da “Armour do Brasil”,
que é americana, Margarina “Clay-Bon”, de “Anderson Clayton” que é americana,
toma uma “Coca-Cola” e saboreia um prato de massa, preparado com farinha do
“Moinho Paulista”, que é inglês, e, depois, come um filé com fritas, cuja carne
foi fornecida pelo “Frigorífico Wilson” e as batatas foram fritas com óleo
“Mazola”, da “Refinações de Milho Brazil” (Brazil com Z). Como sobremesa, comeu
um pudim feito com “Maizena Duryea” também da “Refinações de Milho Brazil” e,
assim, até para comer, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL
ESTRANGEIRO. Após o almoço, Brasilino passeia pela cidade, a fim de fazer hora
para o cinema, gastando a sola do sapato com saltos de borracha “Good Year”,
pagando, até para andar, dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.
Brasilino entra no Cine Metro, onde passa a tarde,
deliciando-se com um filme, que é americano e, para passar algumas horas
distraídas, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.
Ao sair do Cinema, Brasilino sente uma leve
indisposição; entra numa farmácia e toma um “Alka-Seltzer”. E, assim, até para
prevenir uma indigestão, Brasilino precisa pagar dividendos ao CAPITAL
ESTRANGEIRO.
Toma novamente o seu carro e volta para Santos.
Chegando à casa, faz novamente a sua toilette,
liga o rádio de cabeceira, marca “G.E.” da “General Electric do Brasil”, e
deita-se sobre um colchão de espuma de borracha “Foamex” da “Firestone do
Brasil” e repousa a cabeça, sobre um travesseiro do mesmo material, dormindo,
feliz, o sono da inocência.
Não sei porque, mas a história do Brasilino traz
sempre, à mente, aquelas magníficas palavras do Sermão da Montanha:
“Bem-aventurados os pobres de espírito porque será deles o reino dos céus.”
Mas uma coisa jamais será do Brasilino: O REINO EM
SUA PRÓPRIA TERRA.
Por isso, leitor, se alguém lhe disser que não
existe imperialismo econômico, no Brasil, é porque está ENGANADO, ou porque
ESTÁ ENGANANDO VOCÊ.
Santos, Outono de 1961
N O T A :
Publicação em jornais,
revistas, rádio, televisão, ou em fascículos para distribuição gratuita,
autorizada pelo autor, desde que reproduzida na íntegra.
Qualquer semelhança
entre este texto e o entreguismo abjeto de Lula da Silva é intencional
Conheça algumas análises factuais acerca do governo corrupto e incompetente
de Lula da Silva.