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Manuel Bandeira
Aos
quatorze dias do mês de março, no ano de 1847, nasceu Antônio de
Castro Alves, na fazenda Cabaceiras, a sete léguas da vila de
Curralinho, hoje cidade de Castro Alves. Era filho do Dr.
Antônio José Alves e D. Clélia Brasília da Silva Castro.
Passou a
infância no sertão natal, e em 54 iniciou os estudos na capital
baiana. Aos dezesseis anos foi mandado para o Recife. Ia
completar os preparatórios para se habilitar à matrícula na
Academia de Direito. A liberdade aos 16 anos é coisa perigosa. O
poeta achou a cidade insípida. Como ocupava os seus dias?
Disse-o em carta a um amigo da Bahia: "Minha vida passo-a aqui
numa rede olhando o telhado, lendo pouco fumando muito. O meu
‘cinismo’ passa a misantropia. Acho-me bastante afetado do
peito, tenho sofrido muito. Esta apatia mata-me. De vez em
quando vou à Soledade." Que era a Soledade? Um bairro do Recife,
onde o poeta tinha uma namorada. O resultado dessa vadiagem foi
a reprovação no exame de geometria. Mas em 64 consegue o
adolescente matricular-se no Curso Jurídico.
Se era
tido por mau estudante, já começava a ser notado como poeta. Em
62 escrevera o poema "A Destruição de Jerusalém", em 63
"Pesadelo", "Meu Segredo", já inspirado pela atriz Eugênia
Câmara, "Cansaço", "Noite de Amor", "A Canção do Africano" e
outros. Tudo isso era, verdade seja, poesia muito ruim ainda. O
menino atirava alto. "A poesia", dizia, "é um sacerdócio — seu
Deus, o belo — seu tributário, o Poeta." O Poeta derramando
sempre uma lágrima sobre as dores do mundo. "É que",
acrescentava, "para chorar as dores pequenas, Deus criou a
afeição, para chorar a humanidade — a poesia."
Mas, no
dia 9 de novembro de 1864, ao toque da meia-noite, na sotéia em
que morava, o poeta, que sem dúvida se balançava na rede,
fumando muito, sentiu doer-lhe o peito, e um pressentimento
sinistro passou-lhe na alma. Pela primeira vez ia beber
inspiração nas fontes da grande poesia: essa a importância do
poema "Mocidade e Morte" na obra de Castro Alves. Uma dor
individual, dessas para as quais "Deus criou a afeição",
despertou no poeta os acentos supremos, que ele depois saberá
estender às dores da humanidade, aos sofrimentos dos negros
escravos (O Navio Negreiro), ao martírio de todo um continente
(Vozes d'África). Não era mais o menino que brincava de poesia,
era já o poeta-condor, que iniciava os seus vôos nos céus da
verdadeira poesia. Naquela mesma noite escreve o poema, tema
pessoal, logo alargado na antítese mocidade-morte, a mocidade
borbulhante de gênio, sedenta de justiça, de amor e de glória,
dolorosamente frustrada pela morte sete anos depois.
A versão
primitiva do Poema foi conservada em autógrafo, documento
precioso porque revela duas coisas: o poeta não se contentava
com a forma em que lhe saíam os versos no primeiro momento da
inspiração; na tarefa de os corrigir e completar procedia com
segura intuição e fino gosto. Cotejada a primeira versão com a
que foi publicada pelo poeta em São Paulo, por volta de 68-69,
verifica-se que todas as emendas foram para melhor. Baste um
exemplo: o sexto verso da segunda oitava era na primeira versão
"Adornada" com os prantos do arrebol, substituído na definitiva
por "Que" banharam de prantos as alvoradas, verso que forma com
o anterior um dístico de raro sortilégio verbal.
"vem!
formosa mulher — camélia pálida,
Que
banharam de pranto as alvoradas".
Quase a
meio do curso, em 67, o poeta, apaixonado pela portuguesa
Eugênia Câmara, parte com ela para a Bahia, onde faz representar
um mau drama em prosa — "Gonzaga" ou a "Revolução de Minas". Era
sua intenção concluir o bacharelato em São Paulo, aonde chegou
no ano seguinte. A sua passagem pelo Rio assinalou-se pelos
mesmos triunfos já alcançados em Pernambuco. Em São Paulo, nos
fins de 68, feriu-se num pé com um tiro acidental por ocasião de
uma caçada, do que resultou longa enfermidade, em que teve o
poeta que se submeter a várias intervenções cirúrgicas e
finalmente à amputação do pé. O depauperamento das forças
conduziu-o à tuberculose pulmonar, a que sucumbiu em 71 no
sertão de sua província natal. Antes de regressar a ela,
publicara, em 70, o livro "Espumas Flutuantes", cantos por ele
definidos como rebentando por vezes, ao estalar fatídico do
látego da desgraça", refletindo por vezes "o prisma fantástico
da ventura ou do entusiasmo".
Vulgarmente melodramático na desgraça, simples e gracioso na
ventura, o que constituía o genuíno clima poético de Castro
Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes
causas da liberdade e da justiça — as lutas da Independência na
Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel civilizador
da imprensa, e acima de todas a campanha contra a escravidão.
Mas este último tema não figurava nas "Espumas Flutuantes". As
composições em que o tratava deveriam formar o poema "Os
Escravos", o qual teria como remate "A Cachoeira de Paulo
Afonso", publicada postumamente. Deixava ainda o poeta outras
poesias avulsas, que era seu propósito reunir em outro livro
intitulado "Hinos do Equador".
Ao livro
"Os Escravos" pertenceriam "Vozes d'África" e "O
Navio Negreiro", os dois poemas em que o poeta atingiu a
maior altura de seu estro. O primeiro é uma soberba apóstrofe do
continente escravizado, a implorar justiça de Deus. O que
indignava o poeta era ver que o Novo Mundo, "talhado para as
grandezas, pra crescer, criar, subir", a América, que
conquistara a liberdade com formidável heroísmo, se manchava no
mesmo crime da Europa.
No "O
Navio Negreiro" evocava o poeta os sofrimentos dos negros na
travessia da África para o Brasil. Sabe-se que os infelizes
vinham amontoados no porão e só subiam ao convés uma vez ao dia
para o exercício higiênico, a dança forçada sob o chicote dos
capatazes.
Em
Castro Alves cumpre distinguir o lírico amoroso, que se exprimia
quase sempre sem ênfase e às vezes com exemplar simplicidade,
como no formoso quadro do poema "Adormecida", o poeta
descritivo, pintando com admirável verdade e poesia a nossa
paisagem, tal em "O Crepúsculo Sertanejo", cumpre distingui-lo
do épico social desmedindo-se em violentas antíteses, em
retumbantes onomatopéias. A este último aspecto há que levar em
conta a intenção pragmática dos seus cantos, escritos para serem
declamados na praça pública, em teatros ou grandes salas —,
verdadeiros discursos de poeta-tribuno. E há que reconhecer
nele, mau grado os excessos e o mau-gosto ocasional, a maior
força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia
brasileira.
Manuel Bandeira
Castro Alves
Afrânio Peixoto
(Optou-se
por manter a grafia da época)
Castro
Alves, o maior dos poetas brasileiros, não só recebeu as
consagrações de applauso do seu tempo, como, decorrido mais de
meio século de sua morte, não deixou de recebel-as das gerações
que se vêm succedendo, e levarão seu nome, com os seus versos,
muito ainda além de nós... É que, poeta do Amor e da Natureza,
será o de todas as idades, e pela bravura, e espontaneidade,
pela ternura e sinceridade, - brasileiro pelo coração, que
sentia com o de sua terra, - universal pela intelligencia que
vibrava a todas as grandes ideas generosas da humanidade, não só
foi a nossa grande voz de épico e de lyrico, no concerto do
mundo, como vidente e propheta, annunciou a redempção e a
liberdade, a emancipação civil dos negros, a emancipação
política dos brancos, e agora, realizadas as suas utopias,
continúa a nos encantar com os accentos incomparaveis do lyrismo
mais ardente e mais intimo que já se sentiu e cantou no
Brasil... A glorificação do Decennario (1881), ampliada no
Cincoentenário (1921) continuou apenas uma justiça que nunca lhe
faltou e continuará, de maior dos nossos poetas...
Nasceu
Antonio de Castro Alves do Dr. Antonio José Alves, cirurgião e
professor da Faculdade de Medicina da Bahia, e de sua mulher D.
Clelia Brasilia da Silva Castro, a 14 de março de 1847, na
Fazenda Cabaceiras, a sete leguas de Curralinho, hoje Cidade
Castro Alves, terras então comarca de Cachoeira, hoje de
Muritiba, na província da Bahia.
Os
primeiros annos da vida passou no sertão da terra natal do qual
havia de guardar indelevel impressão. Em 54, porém, já estava
com a familia na capital e cursava com o irmão mais velho, José
Antonio, as aulas do Gymnasio Bahiano, dirigido pelo afamado
educador Dr. Abilio Cesar Borges, depois Barão de Macaúbas. Os
paes possuiam abastança, viviam em meio cultivado, havendo o Dr.
Alves viajado pela Europa e adquirido, alem do aperfeiçoamento
profissional, conhecimentos de pintura e critica de arte, com o
que lograra possuir a mais bella galeria de quadros da cidade, e
a esposa, tambem prendada, apreciaveis dotes musicaes. No
collegio o jovem Castro já assim estimulado no seu lar, iria
encontrar uma atmosfera literaria, produzida pelos "oiteiros",
ou saraus, então em moda, festas de arte, musica, poesia,
declamação de versos e discursos, que o havia de todo seduzir.
Com effeito, o nosso poeta se revelou, talvez antes dos treze
annos, nessa idade com certeza, de que datam as primeiras
composições conservadas.
Destinado ao estudo do direito, teria de fazer os seus exames no
curso annexo da Faculdade do Recife, para onde foi mandado, em
62. Ahi a vida agitada e solta da academia, onde os moços de
talento porfiavam por apparecer, a indole generosa de Castro
Alves, que desde cedo aspirou a gloria que dão as grandes causas
sociaes, fizeram delle um tribuno e um poeta que se não
esquivava as sessões publicas na Faculdade, nas sociedades de
estudantes, na platéa dos theatros, incitado desde logo pelos
applausos e ovações, que começara a receber, e iam num crescendo
de apotheóse.
Era
então um bello rapaz, de porte esbelto, tez pallida, grandes
olhos vivos, negra e basta cabelleira, voz possante e
harmoniosa, irreprehensivelmente vestido de preto, dons e
maneiras que impressionavam á multidão, impondo-se á admiraçâo
dos homem e ás mulheres inspirando os mais ternos sentimentos.
Occorrem então os primeiros romances de amor, vividos e por isso
sentidos nos seus versos, os mais bellos poemas lyricos
escriptos no Brasil. Influencia decisiva na vida do poeta teria
exercido a actríz portuguesa Eugenia Camara, que aqui viera com
Furtado Coelho travessa e graciosa, mulher feita e bem feita,
para atear e entreter paixão, que pelo bello vate adolescente
abandonou seus contractos e empresario, e com quem veiu á Bahia,
depois ao Rio e a S. Paulo, exhibindo-se no palco e na sua arte,
quando o amor lho permittia, emquanto Castro Alves, com os seus
poemas revolucionarios, recolhia na praça publica, na mocidade
das escolas, na platéa dos theatros, as sagrações de poeta
social, o de nosso maior poeta épico.
Foi esta
a phase intensa de produção literaria e a do seu apostolado por
duas grandes causas que o preoccuparam sempre: - uma, instante,
social e moral, a da abolição da escravatura, que infamava o
Brasil; - outra, a república, aspiração politica, suposta um
ideal de governo democratico, a que devia tender um povo livre.
Alem de poemas inspirados, data deste tempo o seu drama Gonzaga
ou a Revolução de Minas, representado na Bahia e depois em S.
Paulo, no qual conseguiu congraçar as duas grandes causas de sua
vocação.
Estava
quasi em meio do curso, quando, vindo á Bahia, em 67, na
companhia de Eugenia Camara, até ahi constante, resolveu
terminar os estudos em S. Paulo, passando pelo Rio no começo de
68, recebendo não só a consagração publica de José de Alencar e
de Machado de Assis, como do povo da metropole, ia quem recitara
versos do balcão de um dos jornaes cariocas, em dia de exaltação
patriotica, pelas victorias da guerra contra o Paraguay.
Continuou em S. Paulo os estudos, e continuou principalmente a
produção intensa dos seus poemas lyricos e heroicos, publicados
nos jornaes ou recitados nas festas literarias, e que produziram
a maior e mais ruidosa impressão; tinha então 2l annos, e
possuia uma nomeada incomparavel na sua geração, que deu
entretanto os mais formosos talentos e capacidades literarias e
politicas ao Brasil; basta lembrar alguns nomes, de seus
companheiros de academia: Fagundes Varella, Joaquim Nabuco, Ruy
Barbosa, Affonso Penna, Rodrigues Alves, Bias Fortes, Martim
Cabral, Salvador de Mendonça, Ferreira de Menezes, Barros
Pimentel, Didymo da Veiga, Brasilio Machado, Julio Cesar de
Moraes Carneiro, o depois Padre Julio Maria... e tantos outros,
que lhe assistiram aos triumphos e não lhe disputaram a
primazia. É que elle, na linguagem divina que é a poesia, lhes
dizia "a magnificencia de versos que até então ninguem dissera,
numa voz que nunca se ouvira" (1), voz dessas que "fazem pensar
no glorioso arauto de Agamemnon, immortalizado por Homero,
Thaltybios, semelhante aos deuses pela vos..." (2) como pregava
o advento da "era nova" (3), da justiça e da liberdade, que
antevia, como vate ou propheta, tambem dom prodigioso, como
tantos, de seu genio feliz.
Para
distrahir máguas de coração que lhe dava a inconstante Eugenia,
sempre amada, causa e culpa de tantos versos apaixonados,
entragava-se ao divertimento das caçadas, nos arredores de S.
Paulo, quando um dia, em fins de 68, num acidente, feriu o pé
com um tiro desastrado. Dahi resultou longa enfermidade,
intervenções cirurgicas, chegando ao Rio em com eço de 69, para
salvar a vida, mas com o martyrio de unas amputação. Mutilado,
obrigado a procurar o consolo da familia na terra natal em fins
desse anno, e os bons ares do sertão, em 70, para atalhar a
ameaça de consumpção, infelizmente pouco durou, vindo a fallecer
na cidade da Bahia, a 6 de Julho de 1871. Vivera 24 annos,
alcançando desde os dezeseis de sua idade, durante os oito que
ainda iria viver, a fama justificada de primeiro poeta
brasileiro. Publicara apenas, em 70, as "Espumas Fluctuantes", o
mais lido e o mais lindo dos livros nacionaes publicados nestes
cincoenta annos.
Tal
juizo, dos contemporaneos e dos pósteros, enunciado pelos doutos
e capazes, é ratificado nesse mais de meio século, que se espaça
de sua morte até hoje, pela infinidade de edições de seus
livros, os mais lidos de nossa literatura, pois que têm sido os
mais vezes impressos, portanto consagrados pelo povo, que é o
arbitro definitivo dá glória literaria.
Foi a
poesia brasileira "colonial" até depois do meiado, do seculo
XIX. Classica e arcadica, a principio, imitando os modelos
lusitanos, quando veiu o romantismo continuou a inspirar-se,
senão nos motivos, na fórma portuguesa: em Gonçalves Magalhães
dominam os themas europeus, e Gonçalves Dias, apesar dos seus
selvagens, que são fidalgos e cavalheiros, é genuinamente
lusitano, na idéa e na forma. Alvares de Azevedo imitaria Byron,
suprindo com o genio a inexperiencia de adolescente; Junqueira
Freire, levado pela paixão ao claustro, precederia a Anthero de
Quental, no mysticismo philosophico: só Casimiro de Abreu, pela
sensibiIidade magoada, Fagundes Varella, pela inspiração da
natureza começariama ser verdadeiramente brasileiros.
Castro
Alves o foi, completamente, na sensibilidade, na forma, na idéa,
sentindo a natureza do Brasil, apaixonando-se se pelos ideaes
brasileiros, manifestando-se com uma pujança, um colorido, uma
espontaneidade, um arroubo, uma originalidade, desconhecidos,
até então, e até agora não igualados nos fastos das letras
nacionais. Pôde a justiça falar pela penna de José Oiticica (4)
que escreveu: criou Castro Alves essas tres coisas que não
existiam na poetica nacional antes delle: a paisagem brasileira,
o estylo brasileiro, o thema social brasileiro. E a verdade,
pelo de Coelho Netto (5), que lhe chamaria - "o titan!": "o que
faz de Castro Alves o poeta brasileiro por excellencia é
justamente a sua irregularidade grandiosa, a sua indisciplina
exúbere... Esse é o poeta titanico, filho da terra, e a sua vez,
a sua grande voz é ouvida pelo povo que a repete, porque nella
sente o rythmo grandioso do coração da Patria". Não fez aliás
senão concordar com José de Alencar (6), e essa verdade se
repete a mais de meio seculo de intervallo: "Palpita em sua obra
o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da Patria que
faz os grandes poetas como os grandes cidadãos". "Poeta
nacional, senão mais, nacionalista, poeta social, humano e
humanitario... diria José Verissimo (7).
Por
isso, surprehendeu a Machado de Assis (8), - e tinha apenas
vinte e um annos -, cujo severo juizo não se não arreceiava de
exclamar publicamente: "Achei um poeta original", "a musa do sr.
Castro Alves tem feição propria"! E essa originalidade era
principalmente que sua alma, a sua lyra tinha, como a de Hugo,
"mil vozes", e se era titanica e exhuberante, a ponto de Alberto
de Oliveira depor que, "exceptas algumas estancias camoneanas
não conheço em nossa lingua versos tão vibrantes (9), sabia
tambem faze-los com perfeição de forma" (10) a não se poder
"exigir mais do gosto da mestria de um artista" (11) ... E para
não deixar sem prova esse asserto, antes de Gonçalves Crespo, é
Castro Alves quem inaugura a perfeição parnasiana no Brasil
(l2)...
Taes
accentos grandiloquos deixavam entretanto pausa e espaço para o
lyrismo, de uma sensibilidade meiga e dolorida outras alacre e
communicativa, sem par em nossa poesia. "Ninguem desferiu ainda
mais maviosamente as cordas mais santas do amor humano e é só
por isso que "a natureza sorri, irradia e magoa-se nos seus
versos", disse delle, ha muitas decadas, Ruy Barbosa (13) e,
ainda agora, fala embevecido de sua exaltação religiosa, da arte
e da natureza, Ronald de Carvalho (l4).
Que lhe
faltou, pois? Apenas tempo, mais idade para pulir e aperfeiçoar
o que não saiu perfeito de seu genio, apenas mal transposta a
adolescência, nessa mocidade tonta em que a infinita maioria nem
tem consciência da vida, quanto mais de uma obra a realizar.
Qualquer
dos seus contemporaneos, depois gloriosos, Ruy Barbosa ou
Joaquim Nabuco, Rodrigues Alves ou Affonso Penna, consagrados
pelo pensamento ou pela acção, se tivessem passado como elle,
aos vinte e quatro annos, nem a memoría dos nomes lhes teria
ficado e durante esse pouco tempo o outro grangeou a fama
duradoira, de maior poeta do Brasil... Em menos de oito annos,
annos tontos, que são os dentre a adolescência e a mocidade,
"Castro Alves deixara uma obra sem igual em nossa literaturas
hymnos de guerra, canticos de amor, predicções onde pela
primeira vez no verso a natureza brasileira ostentava a sua
majestade"... (15). Se vivesse mais, seria tudo o que o genio
desabrochado, fecundado, de vez, sazonado, pode dar de
maturidade perfeita e feliz. O que foi, porem, esses poucos
annos bastaram paramostrá-lo, como se a sua compleição
extraordinaria não carecesse de mais. Guilherme de Castro Alves,
seu outro irmão, tambem poeta, teria inteira razão de o definir:
"Elle era grande e bom: massa para deuses"! (l6).
Não sem
proposito, deixei que dissessem delle - não preciso de palavras
minhas para o louvor - outros, e os maiores, os mais doutos e
mais justos, e não me tenho cansado de repetir, a poder que
possa, com a pertinacia da convicção, e ao serviço da justiça e
da verdade. Poeta humano e humanitario faz-se arauto de uma
grande causa e torna-se poeta nacional, sendo nacionalista. A
natureza da Brasil retrata-se em suas paizagens e as nossas
aspirações delineam-se e cantam em seus versos incomparaveis.
Nunca uma furia sonorosa foi tão sublime aqui, ou teve mais
ternos accentos a lyra commovida do amor. Como vate é vidente e
propheta e annuncia a liberdade dos ingenuos em 71, a Abolição e
a Republica mais tarde. Iria adiante, num apello aos "filhos da
Novo Mundo", que viriam a salvar a Civilização, nos campos de
França, assolados pelos Barbaros em 1914, para se não repetir o
crime de 1870. Romantico exaltado tem o culto da idéa e da forma
e avança literariamente, como idealmente, sobre o seu tempo, no
apuro de escrever, como no de pensar...
Isto é o
que vemos daqui. De alem-mar, conta-se que ouvindo Eça de
Queirós ler, a Eduardo Prado, as "Aves de arribação", aqui
detivera o outro:
"As
vezes quando o sol nas matas virgens
A
fogueira das tardes accendia.. ."
para
exclamar: - "Ahi está, em dois versos, toda a poesia dos
trópicos". (17) Nos outros, em muitos outros de Castro Alves, é
que os nacionaes e estrangeiros podem comprehender toda a poesia
do Brasil. Um grande poeta, á altura de julgar, Antonio Nobre,
viria a dizer, como todos nós: "O maior poeta brasileiro" (18).
Já o era
no seu tempo, como o é ainda agora, não só pela eleição de
sabios e doutos, que, entretanto por engrandecerem qualidades
raras e de apreço difficil nem sempre são, por isso,
comprehensiveis, mas tambem pela admiração anonyma e espontanea,
dos leitores, que essa é a fama e a posteridade dos grandes
escriptores.
Separados e solitarios, esses juizos, ha caução e reserva na
gloria; concordes e simultaneos, não ha restricção para o merito
devidamente denunciado por uns e justamente consagrado pelos
outros. Castro Alves teve em vida as duas benemerencias; não
desmereceu de uma dellas nesses cincoenta annos que decorrem de
sua morte - e a prova foi a glorificação já extensa do
decennario em 1881, foi a apotheóse, já nacional, do
cincoentenario em 1921. E da outra?
Tambem
da outra. Dizia José Verissimo dos delle que "poucos livros
brasileiros e menos de versos têm sido tão lidos" (l9). "E isso
porque lhe avaliava as dos Espumas Fluctuantes em oito ou dez
edições". Pude reunir uma colleção de "cincoenta" (e terei
achado todas?) e, só daquelle livro "vinte e seis"... Nenhum
poeta, nenhum escriptor brasileiro, nesse tempo, alcançou
sequer, de longe, approximar-se delle. Castro Alves o grande
vate nacional, que Alencar, Machado de Assis, Ruy Barbosa,
Nabuco, Euelydes da Cunha, José Verissimo, tantos e tantos mais,
o escól da intelligencia brasileira exaltou á nossa admiração,
foi tambem o eleito do Povo Brasileiro, da innumerauel multídão
de leitores, que o prefere a todos os mais.
Os
sabios distinguem e julgam, só o Povo ratifica a justiça dessas
sentenças. O veredicto da Posteridade está apurado e confirmado:
Castro Alves é o primeiro, o maior poeta brasileiro.
Afranio Peixoto
Obras Imperdíveis!

Poesias Completas de Castro Alves CASTRO
ALVES

Castro Alves e o Poema Lírico TELENIA
HILL
------------------------------------------------------------------------------------------------------
(1)
Constancio Alves - Castro Alves - "Revista da Semana", Rio, 9
julho 1921.
(2) Ruy
Barbosa - Elogio de Castro Alves, Bahia, 1881. p. 6.
(3)
Euclydes da Cunha - Castro Alves e seu tempo, Rio, 1907. P.
9-10.
(4) José
Oiticica - "Jornal do Commercio", Rio, 25 de dezembro de 1913,
p.23
(5)
CoeIho Netto - O titan - "A Noite", Rio, 7 julho 1921.
(6) José
de Alencar - Um poeta, "Correio Mercantil", Rio, 22 fevereiro
1868.
(7) José
Verissimo - Historia da Literatura Basileira, Rio, 1916, p. 337.
(8)
Machado de Assis - Resposta ao Cons. José de Alencar, "Correio,
Correio Mercantil", Rio, 1º de março 1868.
(9)
Alberto de Oliveira - Prefacio ás Espumas Fluctuantes, ed.
Garnier, 1923, p. 6-7.
(10)
José Verissimo - "Jornal do Commercio", Rio, 14 agosto 1899.
(11)
Luis Murat - "jornal do Commercio", Rio, 3 outubro, 1920.
(I2)
Alberto de Oliveira - O soneto brasileiro, "Revista de Ligua
Portugueza",Rio, 1920, nº 8.
(l3) Ruy
Barbosa - Op. cit., p. 12.
(l4)
Ronald de Carvalho - Pequena Historia da Literatura Brasileira,
Rio, 1919, p 242.
(15)
Constancio Alves, Op. Cit. id. id.
(16)
Guilherme de Castro Alves (D'Alva Xavier) - Raios sem luz,
Bahia, 1875, poesia "Marmores e prantos", est. 1. v. 1º.
(l7)
Afranio Peixoto - Paixão e gloria de Casto Alves, em Poeira da
Estrada, Rio, 1918, p. 22.
(18)
Antonio Nobre - Correspondencia - "A Rajada", Rio, Abril, 1920,
p. 51
(l9)
José Verissimo - Historia da Literatura Brasileira, Rio, l916,
p. 338.
Sociologia, Filosofia, Psicologia |