Tommaso Campanella nasceu em Stilo, no dia 5 de Setembro de 1568.
Ainda muito jovem, já se revelava em seu espírito o pendor para a
filosofia. Seu pai, contrariando-lhe a vocação, quis fazer dele um
jurista, ao que Campanella se opôs tenazmente. Sua primeira obra foi a
Philosophia Sensibus Demonstrata (1), que lhe valeu a
acusação de heresia. Tendo deixado o convento em que iniciara os estudos,
empreendeu uma viagem pela Itália, através da qual ficou conhecendo os
homens mais ilustres do seu tempo.
Voltando a Stilo e sempre preocupado em operar uma reforma que
servisse para enfraquecer o domínio da autoridade, Campanella iniciou sua
atividade política tentando organizar uma conspiração contra o despotismo
espanhol. Isso o levou ao cárcere, onde permaneceu vinte e sete anos.
Libertado em 1626, seguiu para Roma, onde foi bem recebido pelo papa
Urbano VIII. Logo, porém, tornou-se alvo de novos ataques e, perseguido,
foi obrigado a fugir para a França. Morreu em Paris, em 1639.
Mártir do livre pensamento, Campanella ocupa, também como filósofo,
um lugar importante entre os grandes homens de sua época. Suas obras, quer
o Prodromus Philosophiae Instaurandae (2), quer os
Dogmata Universalis Philosophiae (3)., quer a Realis
Philosophiae Partes Quatuor (4), oferecem aspectos
doutrinários que, embora discutíveis, não deixam de ser extremamente
interessantes.
A Cidade do Sol é a mais popular das obras de Campanella.
Essencialmente idealista, está no mesmo plano da Utopia, de Thomas More
(5), e da República, de Platão (6). Sem
entrar na apreciação do sistema proposto por Campanella, é forçoso
reconhecer em A Cidade do Sol uma das obras-primas da literatura
universal.
INTERLOCUTORES
O Grão-Mestre dos Hospitalários (7) e um Almirante
genovês, seu hóspede.
Grão-mestre - Vamos, peço-lhe, conte finalmente o que lhe aconteceu
durante essa viagem.
Almirante.- Já lhe disse como fiz a volta da terra e, por fim, perto
da Taprobana (8), como fui constrangido a desembarcar e,
com receio dos habitantes, a embrenhar-me numa floresta, de onde só sai,
depois de muito tempo, para alcançar uma extensa planície sob a linha do
equador.
G.-M. - E que lhe sucedeu, então?
ALM. - Subitamente, encontramos um numeroso grupo de homens e
mulheres, todos armados, alguns conhecendo nossa língua, que logo nos
fizeram companhia e nos levaram à Cidade do Sol.
G.-M. - Pode dizer-me como é construída essa cidade e qual a sua
forma de governo?
ALM. - A maior parte da cidade está situada sobre uma alta colina que
se eleva no meio de vastíssima planície. Mas, as suas múltiplas
circunferências se estendem num longo trecho, além das faldas do morro, de
forma que o diâmetro da cidade ocupa mais de duas milhas, por sete do
recinto total. Mas, achando-se sobre uma elevação, apresenta ela uma
capacidade bem maior do que se estivesse situada numa planície
ininterrompida. Divide-se em sete círculos e recintos particularmente
designados com os nomes dos sete planetas. Cada círculo se comunica com o
outro por quatro diferentes caminhos, que terminam por quatro portas,
voltadas todas para os quatro pontos cardeais da terra. A cidade foi
construída de tal forma que, se alguém, em combate, ganhasse o primeiro
recinto, precisaria do dobro das forças para superar o segundo, do triplo
para o terceiro, e, assim, num contínuo multiplicar de esforços e de
trabalhos, para transpor os seguintes. Por essa razão, quem se propusesse
expugná-la precisaria recomeçar sete vezes a empresa. Considero, porém,
humanamente impossível conquistar apenas o primeiro recinto, de tal
maneira é ele extenso, munido de terraplenos e guarnecido de defesas de
toda sorte, torres, fossas e máquinas guerreiras. Assim é que, tendo eu
entrado pela porta que dá para o setentrião (toda coberta de ferro e
fabricada de modo que pode ser levantada e abaixada, fechando-se com toda
a facilidade e com plena segurança, graças à arte maravilhosa com que as
suas engrenagens se adaptam às aberturas dos possantes umbrais), o que
primeiro me despertou a atenção foi o intervalo formado por uma planície
de setenta passos de extensão e situada entre a primeira e a segunda
muralhas. Distinguem-se, daí, os grandiosos palácios que, de tão unidos
uns aos outros, ao longo da muralha do segundo círculo, parecem mais um só
edifício. A meia altura desses palácios, vêem-se surgir, de fora para
dentro do círculo, várias arcadas com galerias superiores, sustentadas por
elegantes colunas e circundando quase toda a parte inferior do pórtico, à
maneira dos peristilos ou dos claustros religiosos. Em baixo, além disso,
só estão encravados na parte côncava das muralhas, e é caminhando no plano
que se penetra nos compartimentos inferiores, ao passo que, para alcançar
os superiores, devem subir-se umas escadas de mármore que conduzem às
galerias internas, chegando-se então às partes mais altas e mais belas dos
edifícios, as quais recebem luz pelas janelas existentes tanto na parte
côncava como na convexa das muralhas, estupendas por sua sutileza. Cada
muralha convexa, isto é, a sua parte externa, tem uma espessura de cerca
de oito palmos, por três somente da parte côncava, ou seja a sua parte
interna, enquanto os tabiques têm apenas um, ou pouco mais. Atravessada a
primeira planície, chega-se à segunda, mais estreita uns três passos, e aí
se descobre a primeira muralha do segundo círculo, igualmente guarnecido
de palácios que, como os do primeiro círculo, possuem galerias em baixo e
em cima, havendo na parte interior outra muralha interna que circunda os
palácios e tem em baixo sacadas e peristilos sustentados por colunas,
sendo que em cima, onde se acham as portas das casas superiores, apresenta
preciosas pinturas. E assim, por esses círculos e duplas muralhas que
cercam os palácios, ornados de galerias sustentadas por colunas, chega-se
à última parte da cidade, sempre caminhando no plano. Só quando se entra
pelas portas duplas dos vários circuitos, uma na muralha interna e a outra
na externa, é que se sobem uns degraus de tal forma construídos que mal se
sente a subida, pois estão colocados obliquamente e muito pouco mais
elevados uns do que os outros. No cimo do monte, encontra-se, então, uma
espaçosa planície, em cujo centro se ergue um templo de maravilhosa
construção.
G.-M. - Continue, vamos, suplico-lhe, continue.
ALM. - O templo é todo redondo e não está encerrado entre as
muralhas, mas apoiado em maciças e elegantes colunas. A abóbada principal,
obra admirável, ocupando o centro ou o pólo do templo, compreende uma
outra, mais elevada e de menores dimensões, que apresenta no meio uma
abertura, diretamente voltada para cima do único altar, situado no meio do
templo e todo cercado de colunas. A capacidade do templo é para mais de
trezentos e cinqüenta passos. Por fora dos capitéis das colunas e
apoiando-se nestas, erguem-se outras arcadas de cerca de oito passos de
extensão, sustentadas externamente por outras colunas, às quais adere, em
baixo, uma grossa muralha de três passos de altura. Dessa forma, as
colunas do templo, e as que sustentam a arcada externa formam, no seu
intervalo, as galerias inferiores, de magnífico pavimento. Interiormente,
a pequena muralha é freqüentemente interrompida por portas e, de espaço a
espaço, se vêem bancos fixos, além dos numerosos e elegantes bancos
portáteis que se encontram entre as colunas internas que sustentam o
templo. Em cima do altar, há dois globos: no maior está pintado todo o
céu, e no menor a terra. Na área da abóbada principal, estão pintadas as
estrelas celestes, da primeira à sexta grandeza, todas assinaladas com
seus nomes, seguidos de três versículos que revelam a influência que cada
estrela exerce sobre as vicissitudes terrenas. Os pólos e os círculos
maiores e menores, segundo o seu aproximado horizonte, acham-se indicados,
mas não acabados no templo; de vez que em baixo não há muralha; parecem,
contudo, existir em sua inteireza, dada a relação com os globos colocados
em cima do altar. O pavimento é ornado de pedras preciosas, e sete
lâmpadas de ouro, cada qual com o nome de um dos sete planetas, ardem
continuamente. A pequena abóbada do vértice do templo é circundada por
celas estreitas, mas elegantes e, depois do espaço plano existente sobre
as arcadas das colunas internas e externas, há outras celas espaçosas e
bem mobiladas, habitadas por quarenta e nove sacerdotes e religiosos. Uma
bandeira móvel, indicando a direção dos ventos (dos quais eles distinguem
até ao número de trinta e seis), eleva-se acima do ponto extremo da
abóbada menor, e assim conhecem a estação que trarão os ventos, as
mudanças que se verificarão na terra e no mar, mas unicamente sob o clima
próprio. Sob a mesma bandeira, observa-se um quadrante escrito com letras
de ouro.
G.-M. - Homem generoso, explique-me o modo por que se rege essa
gente. Eu esperava, impaciente, por esse ponto.
ALM. - O supremo regedor da cidade é um sacerdote que, na linguagem
dos habitantes, tem o nome de Hoh. Nós o chamaremos de Metafísico. Sua
autoridade é absoluta, estando-lhe submetidos o temporal e o espiritual.
Depois do seu juízo, deve cessar qualquer controvérsia. É incessantemente
assistido por três chefes, chamados Pon, Sin e Mor, nomes que, entre nós,
eqüivalem a Potência, Sapiência e Amor.
A Sapiência tem o governo de tudo o que se relaciona com a paz e a
guerra, como de tudo o que se relaciona com a arte militar. Esse triúnviro
não reconhece superiores na administração militar, exceto Hoh. Preside aos
magistrados militares, ao exército, competindo-lhe vigiar as munições, as
fortificações, as construções, em suma, tudo quanto diz respeito a tal
gênero de coisas.
À Sapiência compete a direção das artes liberais, mecânicas, e de
todas as ciências, bem como a dos respectivos magistrados, dos doutores e
das escolas de instrução. Obedecem-lhe, pois, tantos magistrados quantas
são as ciências. Há um magistrado que se chama Astrólogo, outros
Cosmógrafo, Aritmético, Geômetra, Historiógrafo, Poeta, Lógico, Retórico,
Gramático, Médico, Fisiólogo, Político, Moralista, havendo para eles um
único livro chamado Saber, no qual, com maravilhosa concisão e clareza,
estão inscritas todas as ciências. Esse livro é por eles lido ao povo
segundo o método dos pitagóricos.
A Sapiência, além disso, com ordem admirável, fez adornar as muralhas
externas e internas, superiores e inferiores, com preciosíssimas pinturas
representando todas as ciências. Nas muralhas externas do templo e nas
cortinas, que se abaixam quando o sacerdote faz o sermão, para que a voz
não se disperse, vêem-se pintadas as estrelas com suas virtudes, grandezas
e movimentos, tudo explicado em três versículos especiais.
Na parede interna do primeiro círculo, foram pintadas todas as
figuras matemáticas, muito mais numerosas do que as descobertas por
Arquimedes (9) e Euclides (10) e tão
grandes quanto o permitem as proporções das paredes. Um breve conceito,
contido num verso, faz conhecer o significado de cada uma, com definições,
proposições, etc.
Na parede externa do mesmo círculo, descobrem-se, primeiro, uma
completa e extensa descrição de toda a terra e, em seguida, as cartas
particulares das províncias, cujas cerimônias, costumes, leis, origens e
forças dos habitantes vêm brevemente esclarecidos. Os alfabetos das
diversas nações aparecem, igualmente, ao lado do alfabeto da Cidade do
Sol.
No interior do segundo círculo, ou seja das segundas casas, estão
todos os gêneros de pedras preciosas e comuns, de minerais e metais, não
só representados por gravuras, mas também existindo em pedaços
verdadeiros, cada qual com explicações especiais em dois versos. Na parte
externa desse círculo, aparecem indicados todos os mares, rios, lagoa e
fontes da terra, assim como os vinhos, óleos e licores, com a sua
procedência, qualidade e propriedades. Em cima das arcadas, há vários
frascos ligados à muralha, cheios de diferentes líquidos, existentes de
cem a trezentos anos, que servem como remédios para diversas enfermidades.
Além disso, figuras especiais e versículos dão instruções sobre o granizo,
a neve, os trovões e tudo quanto se forma na atmosfera. Os cidadãos
solares conhecem também a arte pela qual se podem reproduzir, dentro de
uma habitação, todos os fenômenos meteorológicos, os ventos, as chuvas, o
trovão, o arco-íris, etc.
No interior do terceiro círculo, encontram-se as gravuras de todos os
gêneros de plantas e ervas, algumas das quais vivem dentro de vasos
colocados sobre as arcadas da parede externa. As declarações que lhes vão
anexas ensinam o lugar da primeira descoberta, as suas forças,
propriedades e relações com as coisas celestes, com as diferentes partes
do organismo humano, com as produções metálicas e marinhas, e também o uso
particular de cada uma em medicina, etc. Na parte externa, vêem-se os
peixes de cada espécie, de rios, lagoa e mares, os seus hábitos,
qualidades, modos de geração, de vida e de criação, o uso a que o mundo e
nós lhe fazemos servir, enfim, as suas relações com as coisas celestes e
terrestres, produzidas pela natureza e pela arte. Assim é que não foi
passageira a minha maravilha ao descobrir os peixes Bispo, Cadeia,
Couraça, Prego, Estrela e outros, imagens perfeitas de coisas existentes
entre nós. Vêem-se ainda ouriços, conchas, ostras, etc. Finalmente, nesse
círculo, uma pintura e uma inscrição verdadeiramente admiráveis instruem
sobre tudo quanto o mundo áqueo encerra digno de atenção.
No interior do quarto círculo, estão representadas todas as espécies
de pássaros, suas qualidades, grandezas, índoles, costumes, cores e vida,
e o que causa maior admiração é descobrir, entre eles, a verdadeira Fênix
(11). A parte externa apresenta todos os gêneros de
animais, répteis, serpentes, dragões, vermes, insetos, moscas, mosquitos,
tavões, escaravelhos, etc., com suas particulares propriedades, distinções
e usos, e numa abundância apenas acreditável.
No interior do quinto círculo, aparecem todos os gêneros de animais
terrestres mais perfeitos, num número portentoso. Não conhecemos senão a
milésima parte deles; sendo muito grandes, não poucos foram pintados na
parte externa do mesmo círculo. E, agora, quantas coisas poderia eu
contar! quantas espécies de cavalos! quanta beleza de figuras!
No interior do sexto círculo, encontram-se pintadas todas as artes
mecânicas e os seus instrumentos, e como as usam as diversas nações, cada
uma ordenada e explicada segundo o próprio valor, e trazendo também o nome
do inventor respectivo. Na parte externa, estão representados todos os
homens mais eminentes nas ciências, nas armas e na legislação. Vi Moisés
(12), Osiris (13), Júpiter
(14), Mercúrio (15), Licurgo
(16), Pompílio (17), Pitágoras
(18), Zamolhim, Sólon (19), Caronda
(20), Foroneu (21) e muitissimos
outros. Quem mais? O próprio Maomé (22) foi
representado, embora o reputem um legislador falaz e desonesto. Vi a
imagem de Jesus Cristo colocada num lugar eminentíssimo, juntamente com as
dos doze apóstolos, por eles altamente venerados e julgados superiores aos
homens. Debaixo dos pórticos externos, vi representados César
(23), Alexandre (24), Pirro
(25), Anibal (26), e outras
celebridades, quase todos cidadãos romanos, ilustres na paz e na guerra.
Como eu perguntasse, maravilhado, como conheciam a nossa história,
responderam-me que cultivavam todas as línguas, que costumavam enviar
exploradores e embaixadores a toda parte da terra para aprender os
costumes, as forças, o governo, a história, os bens e os males de todos os
países, e que os habitantes solares são muito desejosos de tais
instruções. E eu soube que, antes de nós, foram os chineses que
descobriram a pólvora e a imprensa. Há professores que explicam essas
gravuras, habituando as crianças com menos de dez anos a aprender sem
fadiga, como uma espécie de divertimento, todas as ciências, mas tudo pelo
método histórico.
O terceiro triúnviro é o Amor, que tem o primeiro papel no que diz
respeito à geração. Sua principal função é que a união amorosa se realize
entre indivíduos de tal modo organizados, que possam produzir uma
excelente prole. Escarnecem de nós por nos esforçarmos pelo melhoramento
das raças dos cães e dos cavalos, e nos descuidarmos totalmente da dos
homens. Ao seu governo está submetida a educação das crianças, a arte da
farmácia, como também a semeadura e a colheita dos cereais e das frutas, a
agricultura, a pecuária e a preparação das mesas e dos alimentos. Em suma,
o Amor regula tudo quanto se refere à alimentação, ao vestuário e à
geração, como também os numerosos mestres e mestras incumbidos desses
misteres.
Esses três tratam de todas essas coisas em colaboração com o
Metafísico, sem o qual nada se faz. E assim a república é governada por
quatro, mas, em geral, onde propende a vontade do Metafísico, inclina-se a
dos outros.
G.-M. - Mas, diga-me, amigo: os magistrados, as repartições, os
cargos, a educação, todo o modo de viver é mesmo o de uma verdadeira
república, ou o de uma monarquia ou de uma aristocracia?
ALM. - Aquele povo ali se encontra vindo da Índia, por ele abandonada
para livrar-se da desumanidade dos magos, dos ladrões e dos tiranos, que
atormentavam aquele país. Todos determinaram, então, começar uma vida
filosófica, pondo todas as coisas em comum. E, se bem que em seu país
natal não esteja em voga a comunidade das mulheres, eles a adotaram
unicamente pelo princípio estabelecido de que tudo devia ser comum e que
só a decisão do magistrado devia regular a igual distribuição. As ciências
e, em seguida, as dignidades e os prazeres são comuns, de forma que
ninguém pode apropriar-se da parte que cabe aos outros.
Dizem eles que toda espécie de propriedade tem sua origem e força na
posse separada e individual das casas, dos filhos, das mulheres. Isso
produz o amor-próprio, e cada um trata de enriquecer e aumentar os
herdeiros, de maneira que, se é poderoso e temido, defrauda o interesse
público, e, se é fraco, se torna avarento, intrigante e hipócrita. Ao
contrário, perdido o amor-próprio, fica sempre o amor da comunidade.
G.-M. - Então, ninguém terá vontade de trabalhar, esperando que os
outros trabalhem para o seu sustento, de acordo com a objeção de
Aristóteles (27) a Platão.
ALM. - Não me constou que isso desse motivo para divergências, mas
posso afirmar-lhe que mal se pode imaginar a imensidade do amor que aquele
povo nutre pela pátria, revelando-se nisso superior aos antigos romanos,
que espontaneamente se ofereciam em holocausto pela salvação comum E assim
devia ser, porque o amor à coisa pública aumenta na medida em que se
renuncia ao interesse particular. Acredito, pois, que, se os nossos monges
e clérigos não estivessem viciados por excessiva benevolência para com os
parentes e os amigos, e se mostrassem menos roídos pela ambição de honras
cada vez mais elevadas, teriam, com menor afeição pela propriedade
adquirida, louvores de mais bela santidade, e, semelhantes aos apóstolos e
a muitos dos tempos presentes, apareceriam ao mundo como exemplos da
caridade mais sublime.
G.-M. - Isso já o disse Santo Agostinho (28). Mas,
por favor, diga-me uma coisa: os habitantes solares, não podendo, permutar
benefícios entre si, conhecerão a amizade?
ALM. - Sim, e é grandemente sentida. É por isso que, embora ninguém
possa receber favores particulares, porque todos obtêm da comunidade o
necessário e os magistrados velam para que ninguém receba mais do que
merece (sem que nunca o necessário lhe seja negado), a amizade encontra
ocasião de se mostrar em caso de guerra ou de enfermidades, ou pela
prática de mútuo auxilio no estudo das ciências e, às vezes, também pela
troca de louvores, de funções ou do necessário. Todos os contemporâneos se
chamam irmãos, adquirem o nome de pais depois da idade de vinte e dois
anos, e, antes dessa idade, dizem-se filhos, sendo uma das funções
primárias dos magistrados impedir qualquer ofensa entre os confrades.
G.-M. - E como se consegue isso?
ALM. - Nessa cidade, o número e os nomes dos magistrados correspondem
às virtudes que conhecemos. Há os que se chamam Magnanimidade, Fortaleza,
Castidade, Liberalidade, Justiça criminal e civil, Diligência, Verdade,
Beneficência, Gratidão, Hilaridade, Exercício, Sobriedade, etc. Aquele
que, desde a infância, se mostra, nas escolas, mais propenso ao exercício
de alguma dessas virtudes, é chamado magistrado. Assim, não sendo
possíveis, entre eles, os latrocínios, os assassinatos, as traições, os
estupros, os incestos, os adultérios e outros delitos de que
incessantemente nos lamentamos, os que os praticam são declarados culpados
de ingratidão, malignidade (quando se nega uma satisfação devida),
preguiça, tristeza, cólera, baixeza, maledicência e mentira, delito este
mais detestado do que a peste. E as penas mais em voga são a privação da
mesa comum e a proibição das mulheres e de outras honras, pelo tempo que o
Juiz julgar necessário para a correção.
G.-M. - Pode explicar-me, agora, o sistema de eleição dos
magistrados?
ALM. - Antes de lhe expor o método de vida dessa gente, não me é
possível satisfazer plenamente o seu pedido. É preciso saber que tanto os
homens como as mulheres usam roupas iguais, próprias para a guerra, com a
única diferença de que, nas mulheres, a toga cobre os joelhos, ao passo
que os homens os têm descobertos. Todos, sem distinção, são educados
juntos em todas as artes. Transcorrido o primeiro ano e antes do terceiro,
os meninos aprendem a língua e o alfabeto passeando nas salas, todos
divididos em quatro manípulos presididos por velhos veneráveis, que são
guias e mestres de probidade superior a toda prova.
Depois de algum tempo, começam os exercícios de luta, corrida, disco
e outros jogos ginásticos, feitos todos com o fim de fortalecer
adequadamente o corpo, e sempre com os pés descalços e a cabeça
descoberta, até aos sete anos de idade. Distribuídos por manípulos, são
eles conduzidos às diferentes oficinas das artes: a dos sapateiros, a dos
cozinheiros, a dos artífices, a dos pintores, etc. Para que seja observada
a tendência especial de cada engenho, depois dos sete anos, adquiridas já
as noções matemáticas mediante as pinturas das muralhas, aplicam-se ao
estudo das ciências naturais. As lições são recitadas a cada manípulo por
quatro mestres diferentes, os quais terminam em quatro horas todas as
partes da instrução. Em seguida, enquanto uns exercitam o corpo, outros
atendem às funções públicas ou se dedicam às lições. Depois, começa o
estudo das matérias mais difíceis, das matemáticas sublimes, da medicina e
de outras ciências, e continuamente, no intervalo dos exercícios,
travam-se discussões científicas. Com o tempo, os que mais se distinguiram
numa ciência, ou numa arte mecânica, são eleitos magistrados. A
agricultura e a pecuária são ensinadas por meio da observação, e todos,
guiados pelo próprio chefe e juiz, dirigem-se para o. campo, onde examinam
e aprendem as modalidades de trabalho, sendo considerado o primeiro e o
maior o que tiver conhecimento de maior número de artes e souber
exercê-las com critério. Não posso exprimir-lhe quanto desprezo têm por
nós, por chamarmos de ignóbeis os artífices e de nobres os que, não
sabendo fazer coisa alguma, vivem no ócio e sacrificam tantos homens que,
chamados servos, são instrumentos da preguiça e da luxúria. Dizem ainda
que não é de admirar que dessas casas e escolas de torpeza saiam catervas
de intrigantes e malfeitores, com infinito dano para o interesse público.
Os outros funcionários são eleitos pelos quatro primazes - Hoh, Pon,
Sin e Mor, - juntamente com os magistrados da arte a que devem
consagrar-se. A obrigação dos quatro pontífices é conhecer perfeitamente,
em determinada arte ou virtude, a idoneidade do que deve tornar-se seu
regedor. Quando ocorre uma eleição, os idôneos são propostos numa
assembléia dos magistrados, não sendo permitido que ninguém se apresente
candidato a se chamar alguma coisa, pois todos podem expor o que sabem
contra ou a favor dos elegendos. Ninguém aspira à dignidade de Hoh sem
conhecer profundamente a história de todos os povos, os ritos, os
sacrifícios, as leis das repúblicas e das monarquias, assim como os
inventores das leis, das artes, e os fenômenos e vicissitudes terrestes e
celestes. Acrescente-se a isso o conhecimento de todas as artes mecânicas,
cada uma das quais eles aprendem quase no espaço de três dias, embora não
se tornem perfeitos na execução, que é, contudo, facilitada pelo exercício
e pelas pinturas. Além disso, é mister ser versadíssimo nas ciências
físicas e astrológicas. Já não se dá a mesma importância ao conhecimento
das línguas, para as quais existem numerosos intérpretes, que na república
se chamam gramáticos. Mas, de absoluta necessidade é conhecer
integralmente as ciências metafísicas e teológicas. Devem conhecer-se, em
seguida, as raízes, os fundamentos e as provas de todas as artes e
ciências, as relações de conveniência e inconveniência das coisas, a
necessidade, o destino, a harmonia do mundo, a potência, a sabedoria e o
amor das coisas de Deus, as gradações dos seres, os seus símbolos com as
coisas celestes, terrestres e marítimas, e com os ideais em Deus, na
medida em que isso à concedido à mente humana. Finalmente, é necessário
ter aprofundado, com longos estudos, as profecias e a astrologia. Por
isso, o futuro Hoh é reconhecido muito tempo antes da eleição. Este só
pode ocupar tão eminente dignidade depois de completar o sétimo lustro. O
cargo é perpétuo, enquanto não se descobre outro mais sábio e melhor
indicado para governar a república.
G.-M. - Mas, qual é o homem capaz de possuir tanta doutrina? Um
cientista não será, talvez, o menos idôneo para o regime da república?
ALM. - Essa objeção também foi apresentada por mim, e eis a resposta
que obtive: Estamos tão certos de que um sábio pode ter aptidões para o
bom governo de uma república quanto vós, que preferis homens ignorantes,
julgados hábeis somente porque descendem de príncipes ou são eleitos pela
prepotência de um partido. Mas, o nosso Hoh, mesmo admitindo que seja
inexpertíssimo em qualquer forma de governo, nunca se tornará cruel,
celerado ou tirano, pois possui uma imensa sabedoria. Essa objeção pode
ter força entre vós, que chamais de sábio o homem que leu maior número de
gramáticas ou de lógicas de Aristóteles ou outros autores, de forma que,
ao se querer consultar um sábio dos vossos países, o único resultado que
se obtém é uma obstinada fadiga e um servil trabalho de memória que
habituam o homem à inércia, pois não encontra estímulo em penetrar no
conhecimento das coisas e se contenta em possuir um acervo de palavras,
aviltando a alma, e fatigando-a sobre letras mortas. Tais sábios ignoram
como todos os seres são governados pela causa primeira e quais as regras e
hábitos da natureza e das nações. Isso não acontece com o nosso Hoh, uma
vez que, para aprender tantas artes e ciências, é necessário ser dotado de
vastíssimo engenho para tudo, o que o torna habilíssimo também para o
governo político. Além disso, é sabido que não conhece nenhuma ciência
quem só foi instruído numa, tendo engenho tardo e desprezível todo aquele
que, apto numa única ciência, a possui, ainda assim, tomada de empréstimo
aos livros. Semelhante juízo não se pode fazer do nosso Hoh. Os três
primazes que o assistem devem ser profundos conhecedores, em particular,
das artes que mais imediatamente se relacionam com o seu cargo, bastando
que só historicamente conheçam as artes comuns. Assim, a Potência é
peritíssima na arte equestre, na de coordenar um exército, de preparar os
acampamentos, ou de fabricar as armas, e em cada assunto militar, como
estratagemas, máquinas, etc. Mas, para alcançar esse objetivo, é mister
que a Potência tenha noções de filosofia, de história, de política, de
física, etc. E o mesmo se pode dizer dos outros dois triúnviros.
Voltando, agora, a falar sobre o seu método de vida e a excelência
dos seus meios de instrução, devo informar-lhe que, naquela cidade, as
ciências são aprendidas com tanta facilidade que as crianças ficam sabendo
num ano o que entre nós só se adquire depois de dez ou quinze anos de
estudo. Solicitado a interrogar os alunos, nem sei exprimir-lhe que
surpresa tive ao ouvir respostas tão prontas, tão verdadeiras e tão sábias
de alguns que falavam correntemente a nossa língua. Para isso, está
estabelecido que três de cada manípulo devem aprender o nosso idioma,
outros três o árabe, três o polaco e três outros línguas especiais.
Antes de se tornarem doutores, não lhes é concedido repouso algum:
depois do estudo, vão para o campo, onde se exercitam em corrida, arco,
lança, arcabuz, caça, ou em botânica, mineralogia, agricultura, pecuária.
G.-M. - Desejaria, agora, que me expusesse e classificasse as funções
públicas, antes de me falar detalhadamente da educação.
ALM. - Eles têm em comum as casas, os dormitórios, os leitos, todas
as coisas necessárias. Mas, depois de seis meses, os mestres escolhem os
que devem dormir neste ou naquele lugar: quem no primeiro quarto, quem no
segundo, etc. - tudo indicado pelos alfabetos existentes no alto das
entradas. Homens e mulheres se aplicam em comum a todas as artes mecânicas
e especulativas, com a diferença de que as artes que requerem fadiga e
marcha são exercitadas pelos homens, como arar, semear, colher as frutas,
trabalhar na eira, fazer a vindima, etc., ao passo que as mulheres se
dedicam a ordenhar o gado e fazer o queijo, além de se dirigirem às hortas
vizinhas das muralhas da cidade para cultivar e colher legumes. Todas as
artes, pois, que exigem que se fique sentado ou de pé, competem às
mulheres: tecer, fiar, cozinhar, cortar o cabelo e a barba, preparar
remédios e toda sorte de roupas. Estão, contudo, isentas de trabalhar em
madeira e em ferro. Se há, porém, alguma que revele aptidão para a
pintura, dão-lhe a possibilidade de exercitar-se. A música, ao contrário,
é permitida somente às mulheres e, às vezes, também às crianças, por serem
suscetíveis de proporcionar maior deleite, excluindo-se, todavia, o uso
das trompas e dos tímpanos. As mulheres preparam também os alimentos e
estendem as toalhas, mas o serviço das mesas compete aos meninos, bem como
às meninas que ainda não completaram vinte anos. Cada círculo possui
cozinhas e despensas próprias, além de todos os utensílios necessários
para comer e beber. Cada oficina é presidida por um velho e uma velha.,
que, de comum acordo, dão ordens aos ministrantes, podendo castigar ou
ordenar que se castiguem os negligentes, os refratários, os desobedientes.
Observam e tomam nota do gênero de ofício em que mais se distinguiu um
menino ou uma menina. A juventude serve aos que ultrapassaram os quarenta
anos, e o dever dos mestres e das mestras é vigiar à noite, quando vão
descansar, e, de manhã, pôr em função os que devem substitui-los, sendo
escolhidos um ou dois para cada quarto. Os jovens servem-se
reciprocamente, e ai dos renitentes! Há as primeiras e as segundas mesas,
cada qual com seus respectivos assentos. Sentam-se primeiro as mulheres,
depois os homens, e, conforme ao uso dos monges, não é permitido nenhum
rumor. Durante a refeição, um jovem lê, de uma alta tribuna, com voz
distinta e sonora, algum livro, sendo a leitura freqüentemente
interrompida pelos magistrados, que fazem observações sobre as passagens
mais importantes. Belíssima de ver-se é essa juventude, sucintamente
vestida, prestar aos seus maiores, com grande oportunidade, toda espécie
de serviços. É um imenso conforto observar como vivem em comum, em
perfeita harmonia, com extrema modéstia, decoro e amor, tantos amigos,
irmãos, filhos, pais e mães. Cada um recebe um guardanapo, um prato e uma
porção de alimento. Incumbe aos médicos dar aos cozinheiros do dia
instruções sobre a qualidade dos alimentos que devem ser preparados,
indicando os que convém aos velhos, aos jovens e aos doentes. Todos os
magistrados recebem uma porção um pouco maior e mais escolhida, da qual;
durante a refeição, distribuem uma parte aos meninos que de manhã mais se
distinguiram nas ciências ou nas armas. Esse favor é ambicionado como um
dos mais preclaros. Nos dias de festa, à hora do jantar, há canto e
música, mas com poucas vozes, sendo às vezes uma somente, acompanhada por
uma cítara, etc. Como o serviço da mesa é feito por muitos e com
diligência, nunca se ouve uma queixa por faltar alguma coisa. Velhos
veneráveis presidem ao regular funcionamento da cozinha e aos preparadores
dos alimentos, como também à limpeza das camas, dos quartos, dos vasos, da
roupa, das oficinas e dos ingressos, atribuindo a tudo isso enorme
importância.
No que diz respeito ao vestuário, trazem sobre o corpo uma camisa
branca e, em seguida, o hábito, que serve ao mesmo tempo de colete e de
calça, sem pregas, lateralmente aberta no alto e em baixo das pernas, e do
meio do umbigo às nádegas, entre as extremidades das coxas. As orlas das
aberturas anteriores são fechadas por botões pregados por fora, e as dos
laterais por laços. As botas aderem à calça e descem até aos calcanhares.
Os pés são cobertos, também, por meias de lã da forma de semicoturnos e
presas por fivelas. Sobre essas é que vêm os sapatos. Finalmente, como já
disse, vestem a toga. Tão bem feitas são essas roupas que, levantando a
toga, verá você, claramente e sem temor de se enganar, as partes bem
proporcionadas de toda a pessoa.
Mudam quatro roupas diferentes por ano, ao entrar o Sol no Áries
(29), no Câncer, na Libra e no Capricórnio. A qualidade
e a necessidade são decididas pelo médico, ao passo que a distribuição
compete ao encarregado do vestuário em cada círculo. Você decerto se
admiraria do número extraordinário de tantas roupas, pesadas ou leves,
conforme o exija a diferença das estações. Todos as trazem muito limpas,
pois que as lavam, uma vez por mês, com lixívia e sabão. Todas as
dependências de determinada espécie de arte, como cozinhas, despensas,
celeiros, armazéns, arsenais, banheiros, encontram-se na parte inferior
das casas, se bem que, debaixo dos peristilos, também tenham sido
construídos tanques para os banhos, cuja água se escoa por canais
terminados em cloacas. Em cada praça dos sete círculos, há as respectivas
fontes, que vertem a água tirada das faldas da colina com o simples
movimento de engenhoso manúbrio. Em geral, as águas são, algumas
primitivas, outras recolhidas em cisternas. A água que, depois de uma
chuva, escorre pelos telhados das casas, é levada às cisternas por meio de
aquedutos de areia. As prescrições do médico e do magistrado regulam os
banhos das pessoas. As artes mecânicas são exercidas debaixo dos
peristilos, nas galerias superiores; as especulativas, em cima das
sacadas, onde se distinguem as mais preciosas pinturas; e, no templo, é
ensinado tudo o que se relaciona com as coisas divinas. Os relógios
solares e outros maquinismos que indicam as horas e os ventos se acham
debaixo dos pórticos ou nos pontos mais eminentes de cada círculo.
G.-M. - Por favor, fale-me, agora, da geração.
ALM. Nenhuma mulher, antes dos dezenove anos, pode consagrar-se a
esse mister; quanto aos homens, devem ter ultrapassado os vinte e um, e
até mais quando de compleição delicada. Antes dessa idade, permite-se a
alguns a mulher, mas estéril ou grávida, a fim de que, impelidos por
excessiva concupiscência, não se abandonem a excessos anormais. Às mestras
matronas e aos velhos mais idosos, incumbe proporcionar o prazer aos que,
mediante pedido secreto ou nas palestras públicas, tenham revelado possuir
mais poderosos estímulos. Mas, é sempre necessária a licença do Grande
Magistrado da geração, ou seja o Grande Doutor da medicina, que não
reconhece outros superiores além do triúnviro Amor. Os que se surpreendem
na prática da sodomia são vituperados e obrigados a levar, por dois dias,
o calçado preso ao pescoço, punição que indica terem eles invertido a
ordem natural das coisas pondo os pés sobre a cabeça Continuando a
iniqüidade, aumenta a pena que pode chegar, às vezes, à capital. Em
compensação, os que se mantêm ilibados até aos vinte e um anos de idade, e
sobretudo os que assim permanecem até aos vinte e sete anos, recebem, em
reunião pública, honras de festas e cantos. De acordo com o costume dos
antigos espartanos, tanto os homens como as mulheres aparecem nus nos
exercícios ginásticos, de forma que os preceptores têm a possibilidade de
descobrir os que são capazes ou incapazes para a geração, podendo
determinar ainda qual o homem mais conveniente a determinada mulher,
segundo as respectivas proporções corporais. A união marital se realiza
cada terceira noite e depois que os geradores estão bem lavados. Uma
mulher grande e bela se une a um homem robusto e apaixonado, uma gorda a
um magro, uma magra a um gordo, e assim, com sábio e vantajoso cruzamento,
moderam-se todos os excessos. Ao cair do sol, os meninos sobem às
habitações e preparam os tálamos. Depois, entram os geradores e, seguindo
a determinação dos mestres e mestras, ficam em repouso, sem poderem nunca
consagrar-se ao importante mister, antes de terem digerido bem os
alimentos e terminado a prece. Nos quartos, há estátuas de homens
respeitabilíssimos, aí colocadas para serem contempladas pelas mulheres,
que, depois, pondo-se a uma janela com os olhos voltados para o céu,
suplicam a Deus que lhes conceda tornarem-se mães de perfeita prole.
Deitam-se, então, em celas separadas e dormem até à hora estabelecida para
a união. É quando a mestra se levanta e, por fora, abre a porta tanto aos
homens como às mulheres. Essa hora é determinada pelo módico e pelo
astrólogo, que procuram escolher a ocasião em que todas as constelações
são favoráveis aos geradores e aos gerados. Consideram culpável todo
aquele que, ao se aproximar a geração, não tenha ao menos por três dias
conservado o sêmen em sua integridade e pureza, bem como o que, tendo
cometido atos impudicos, não se tenha confessado e reconciliado com Deus.
Os que, por deleite ou necessidade, têm relações com mulheres estéreis,
grávidas ou defeituosas, não participam de nenhuma cerimônia. Os
magistrados, por serem todos sacerdotes, assim como os mestres das
ciências, só podem assumir o encargo de geradores depois de muitos dias de
abstinência. É que, como freqüentemente se observa, o emprego das
faculdades da inteligência, enfraquecendo-lhes os espíritos animais e
impedindo que possam transmitir a energia do cérebro faz com que seja
fraca de corpo e tarda de engenho a prole dessa gente. Sábia, por
conseguinte, é a prescrição que lhes ordena a união com mulheres vivazes
fortes e belas. Da mesma forma, os homens ágeis, ardentes, de temperamento
sangüíneo, devem unir-se a mulheres gordas e frias. Dizem eles que,
descurada a geração, não se pode depois, com a arte, adquirir a harmonia
dos diversos elementos do organismo, causa de todas as virtudes, e que os
homens nascidos com má organização só praticam o bem pelo receio da lei e
de Deus; sem esse receio, ou secreta ou publicamente, tornam-se
perniciosos à república. Eis porque se deve empregar toda diligência no
mister da geração, refletindo-se sobre os verdadeiros méritos naturais, e
não sobre os dotes ou a nobreza fictícia e de mentirosa espécie. Se uma
mulher não é fecundada pelo homem que lhe é destinado, é confiada a
outros; se, finalmente, se revela estéril, torna-se comum, mas lhe é
negada a honra de sentar-se entre as matronas na assembléia da geração, no
templo e à mesa. Assim procedem para que, por motivos de luxúria, não
procurem elas a esterilidade. As que concebem ficam, por quinze dias,
dispensadas de qualquer fadiga. Começam, em seguida, trabalhos fáceis que
lhes fortifiquem a prole e lhes abram os meatos da nutrição, e se
revigoram depois, gradativamente, com exercícios. Os médicos só lhes
permitem alimentos profícuos. Depois do parto, elas próprias amamentam e
assistem ao recém-nascido em quartos comuns, que para esse fim devem ser
expressamente preparados. Por dois e mais anos, segundo as prescrições do
Físico, são amamentadas as crianças. Depois disso, se é menina, é entregue
às mestras, e, se é menino, aos mestres. Começam, então, quase que como um
divertimento, a aprender o alfabeto, a explicar as pinturas, a
exercitar-se na corrida, na luta, e depois a estudar as histórias expostas
pelas pinturas e as diferentes línguas. Até aos seis anos de idade, vestem
uma elegante roupa multicor. Depois dessa idade, iniciam o estudo das
ciências naturais, depois de outras, quando os mestres julgam oportuno.
Para o fim, reservam-se as ciências mecânicas. Quanto aos meninos tardos
de engenho, vão para o campo, e, se alguns já provam terem feito
progressos bastantes, voltam para a cidade. Mas, como quase todos nasceram
sob a mesma constelação, assemelham-se sempre aos contemporâneos pela
virtude, pelos costumes e pelas feições, o que dá causa a uma durável
concórdia, a um mútuo amor e a uma recíproca solicitude em se auxiliarem
uns aos outros.
Os nomes não se impõem arbitrariamente, mas por inspiração do
Metafísico, depois de considerar as qualidades individuais, segundo o
costume dos antigos romanos. É assim que um se chama Belo, outro Nasão, um
terceiro Crassípede, e outros Torvo, Magro, etc. Mas, quando adquirem
excelência em alguma arte, ou por algum feito na guerra ou na paz, ao
primeiro nome se acrescenta o da arte, como Pintor belo, grande, áureo,
excelente, preclaro, ou o da ação, como Nasão forte, astuto, vencedor,
grande, grandíssimo, ou ainda o do inimigo vencido, como Africano,
Asiático, Etrusco, e, quando tenha superado Manfredo (30),
ou Tortélio, recebe o nome de Magro Manfredo, Tortélio, etc. Esses
cognomes são impostos pelos magistrados superiores, que acompanham a
função, o mais das vezes, com o presente de uma coroa conveniente ao feito
ou à arte, e com uma festa musical, pois não dão valor algum ao ouro e à
prata, considerando-os como matérias para fabricar vasos e ornamentos
comuns a todos
. G.-M. - Diga-me, por favor: conhecem eles o ciúme, ou melhor, a
dor, quando alguém não obtém uma esperada magistratura ou qualquer outra
coisa que tenha ambicionado?
ALM. - Não, porque todos, além de possuírem o necessário, gozam de
tudo quanto possa deleitar a vida. A geração é considerada obra religiosa,
tendo por fim o bem da república e não dos particulares. Por isso, todos
obedecem plenamente aos magistrados. Além disso, contra a nossa opinião,
negam ser natural ao homem, para educar vantajosamente a prole, a posse de
uma mulher, de uma casa, de filhos, e dizem, com São Tomaz
(31), que o objetivo da geração é a conservação da espécie e não a do
indivíduo. Trata-se, portanto, de um direito público e não privado, do
qual os particulares só participam como membros da república. Acrescentam
que a principal causa dos males públicos reside na maneira errônea de
considerar a geração e a educação, que devem ser religiosamente atribuídas
à sabedoria do magistrado, como primeiros elementos da felicidade de um
povo.
Os indivíduos que, por sua excelente organização, têm o direito de se
tornarem geradores, ou geratrizes, Se unem segundo os ensinamentos da
filosofia. Platão acha que isso deve realizar-se tirando a sorte, a fim de
que os que são afastados das mulheres mais belas não fiquem odiando os
magistrados; e diz que devem ser enganados no ato de tirar a sorte, os que
não são merecedores de supremas belezas, de maneira que obtenham, não as
mais desejadas, mas as mais convenientes. Esse engano, porém, é
inteiramente inútil para os habitantes solares, pois que entre eles não
existe deformidade. Além disso, como as mulheres se aplicam continuamente
a diferentes trabalhos, adquirem uma cor vivaz, membros robustos, grandes,
e ágeis, consistindo a beleza unicamente na altura e no vigor das pessoas.
Incorreria, pois, na pena capital aquela que embelezasse o rosto para
parecer bela, ou usasse calçado alto para parecer maior, ou vestido
comprido para cobrir pés disformes. Mas, mesmo que alguma manifestasse
propensão para fazer essas coisas, não o conseguiria, porque ninguém lhe
reconheceria a faculdade. Asseveram eles que tais enganos são frutos,
entre nós, da ociosidade e da indolência das mulheres, o que faz com que,
deformando-se, empalidecendo e tornando-se fracas e pequenas, precisem de
cores, de calçado, de vestidos compridos, e gostem mais de parecer belas
por uma inerte delicadeza do que por uma vigorosa saúde, prejudicando-se a
se próprias e à prole.
Quando um indivíduo se apaixona violentamente por uma mulher,
permitem-lhe colóquios, divertimentos e recíprocos presentes de flores e
de poesias. Se, porém, a geração corre perigo, não se permite nunca que se
unam, salvo quando a mulher já se acha grávida de um feto pertencente a
outro, ou quando já tenha sido declarada estéril; estes, porém, só
conhecem o amor de exclusiva concupiscência e a amizade. Não se preocupam
muito com questões familiares e comestíveis, pois cada um recebe de acordo
com a própria necessidade, a não ser quando se trate de honrar alguém.
Então, e especialmente nos dias de festa, costumam distribuir-se, aos
heróis e às heroínas, à hora do jantar, em sinal de honra, diferentes
presentes, como grinaldas multicores, alimentos agradáveis, roupas
elegantes, etc.
Se bem que, durante o dia e na cidade, todos usem roupas brancas, à
noite e fora da cidade trajam vestes vermelhas, de lã ou de seda.
Detestam, porém, e desprezam a cor preta, em oposição aos japoneses, que
preferem essa tinta. A soberba é julgada o mais execrando dos vícios, e
todo ato de soberba é punido com as mais cruéis humilhações. Ninguém se
considera diminuído ao servir à mesa, na cozinha ou nas enfermarias: cada
função é tida como um mister, e, a seu ver, todos os atos praticados pelas
diferentes partes do corpo humano são igualmente honrosos.
Não têm o sórdido costume de possuir servos, bastando-lhes e, muitas
vezes, sendo até excessivo, o próprio trabalho. Entre nós, infelizmente,
vemos o oposto.
Nápoles tem uma população de setenta mil pessoas, mas só quinze mil
trabalham e são logo aniquiladas pelo excesso de fadiga. As restantes
estão arruinadas pelo ócio, pela preguiça, pela avareza, pela enfermidade,
pela lascívia, pela usura, etc., e, para maior desventura, contaminam e
corrompem um infinito número de homens, sujeitando-os a servir, a adular,
a participar dos próprios vícios, com grave dano para as funções públicas.
Os campos, a milícia, as artes, ou são desprezadas ou, com ingentes
sacrifícios, pessimamente cultivadas por alguns. Na Cidade do Sol, ao
contrário, havendo igual distribuição dos misteres, das artes, dos
empregos, das fadigas, cada indivíduo não trabalha mais de quatro horas
por dia, consagrando o restante ao estudo, à leitura, às discussões
científicas, ao escrever, à conversação, aos passeios, em suma, a toda
sorte de exercícios agradáveis e úteis ao corpo e à mente. Não se permitem
jogos que obriguem a ficar sentado, como dados, xadrez e outros,
divertindo-se todos com a pela, o balão, o pião, a corrida, a luta, o
arco, o arcabuz, etc. Afirmam, além disso, que a pobreza é a razão
principal de se tornarem os homens vis, velhacos, fraudulentos, ladrões,
intrigantes, vagabundos, mentirosos, falsos testemunhos, etc., produzindo
a riqueza os insolentes, os soberbos, os ignorantes, os traidores, os
presunçosos, os falsários, os vaidosos, os egoístas, etc. A comunidade, ao
contrário, coloca os homens numa condição ao mesmo tempo rica e pobre: são
ricos porque gozam de todo o necessário, e são pobres porque não possuem
nada. Servem as coisas, mas as coisas lhes obedecem, louvando assim os
religiosos da cristandade e especialmente a vida dos apóstolos.
G.-M. - Considero útil e santa a comunidade dos bens, mas não posso
aprovar a das mulheres. São Clemente (32) romano diz que
as mulheres devem ser comuns, segundo o instituto apostólico, e elogia
Sócrates (33) e Platão por ensinarem igual doutrina;
mas, a glosa entende que essa comunidade se relaciona com o obséquio e não
com o leito. E Tertuliano (34), apoiando a glosa,
escreveu que os primeiros cristãos tiveram tudo em comum, excetuadas as
mulheres, as quais o foram, contudo, no que diz respeito ao obséquio.
ALM. - Mal conheço essas coisas, mas posso afirmar-lhe que, na Cidade
do Sol, as mulheres são comuns tanto para o obséquio como para o leito,
mas nem sempre, como o fazem as feras ao encontrarem a fêmea, mas somente,
como se diz, por motivo e ordem de geração. Não obstante, é possível que
nisso se enganem. Escudam-se no juízo de Sócrates, de Catão
(35), de Platão, de São Clemente (mal compreendido, como você
observou). Dizem que Santo Agostinho aprova toda comunidade, mas não a das
mulheres para o leito, que é a heresia dos nicolaitas (36),
e que a nossa Igreja permitiu a propriedade dos bens, não a título de
introduzir vantagens maiores, mas unicamente para evitar piores males. Com
o tempo, talvez seja possível que abandonem esse costume, uma vez que, nas
cidades sujeitas, são comuns os bens, não as mulheres, salvo em relação ao
obséquio e às artes. Mas, isso é atribuído pelos habitantes solares à
imperfeição das referidas cidades, menos da própria, instruídas em
filosofia. Não obstante, costumam enviar mensageiros a outras nações e
nunca se recusam a abraçar os costumes que lhes parecem melhores. O hábito
faz com que as mulheres também se tornem aptas para a guerra e outros
misteres. Depois que conheci essa cidade, concordei plenamente com Platão
e menos com o nosso Caieta (37), discordando por
completo de Aristóteles. Um costume apreciadíssimo e digno de imitação,
entre eles, é o que consiste em considerar que nenhum defeito é bastante
para manter os homens na ociosidade, salvo em idade decrépita, na qual
ainda são úteis dando conselhos. Assim, o coxo serve de vigia empregando
os olhos sãos; o cego, com as mãos, desfia a lã e prepara plumas para
encher leitos e travesseiros; quem é privado de olhos e de mãos serve a
república empregando os ouvidos e a voz; finalmente, o que só possui um
membro emprega-o do melhor modo possível
G.-M. - Fale-me da guerra, que reservarei para depois as artes, as
ciências e a religião.
ALM. - A Potência, outro dos triúnviros, preside ao mestre das armas,
como também aos da artilharia, da cavalaria, da infantaria e dos
arquitetos, dos estratagemas, etc. A cada um destes obedecem outros
mestres e primeiros funcionários das respectivas artes. Além disso, a
Potência comanda os atletas, que são experimentados e velhos capitães,
preceptores dos meninos na arte militar, depois que estes completam os
doze anos, se bem que antes dessa idade já tenham sido exercitados por
mestres inferiores na corrida, na luta, no lançamento de pedras, etc. Os
atletas ensinam a ferir o inimigo, os cavalos, os elefantes, a manejar a
espada, a lança, o arco, as fundas, a cavalgar, a perseguir, a fugir, a
ficar de ordenança, a socorrer o companheiro, a prevenir com engenho o
inimigo, numa palavra, a vencer. As mulheres também aprendem essa arte com
mestres e mestras especiais, de forma que, quando necessário, podem
prestar socorro aos homens em caso de guerra não distante da cidade, ou
defender as muralhas desta, a fim de nunca serem surpreendidas por uma
súbita invasão. Honram, dessa forma, as espartanas e as amazonas
(38). Sabem atirar balas de fogo com arcabuzes,
formá-las com o chumbo, lançar pedras do alto, marchar ao encontro do
ímpeto inimigo. E assim, pela freqüência de semelhantes exercícios,
habituam-se a afrontar qualquer perigo sem nenhum temor, e, quando alguma
demonstra covardia, é severamente. punida.
Os habitantes solares não temem a morte, porque todos acreditam na
imortalidade da alma, que, ao sair do corpo, é acompanhada pelos espíritos
bons ou maus, conforme o tenha merecido na vida terrestre. Embora sejam
brâmanes (39), aproximam-se, contudo, segundo certas
opiniões, dos pitagóricos (40), dos quais não admitem a
metempsicose da alma, exceto uma ou outra vez, por especial justiça de
Deus. Também não deixam de combater um povo que se mostre inimigo da
república, da religião e da humanidade. Uma vez cada dois meses, é passado
em revista o exército, sendo diário o estudo prático das armas, quer em
campo aberto, quer entre as muralhas. São contínuas, também, as lições
sobre a arte militar. Estudam a história de Moisés, de Josué
(41), de Davi (42), dos Macabeus (43),
de César, de Alexandre, de Cipião (44), de Anibal, etc.
Todos têm o direito de externar sua opinião. Aqui agiram bem, ali mal,
aqui com probidade, ali com utilidade, etc. assim vai respondendo e
sentenciando o mestre.
G.-M. - Mas contra que povos e por que motivos fazem a guerra, e com
que êxito?
ALM. - Mesmo que nunca precisassem entrar em guerra, ainda assim se
exercitariam na arte militar e na caça, para não se descuidarem e não
serem surpreendidos sem defesa pelos acontecimentos. Além disso, na ilha,
há quatro remos que invejam grandemente a sua prosperidade: como o povo
prefira viver à maneira dos habitantes solares a obedecer aos regedores do
pais, eles muitas vezes movem guerra aos solares, aduzindo usurpações de
limites, ímpio modo de viver, falta de ídolos, ódio às crenças dos gentios
(45) ou dos antigos brâmanes, etc. Também os indús, dos
quais já foram súditos, se declaram contra eles e os tratam de rebeldes,
como também os povos da Taprobana, dos quais tiveram os primeiros
socorros. Não obstante, os solares saem sempre vencedores. Mal sofrem um
insulto, uma calúnia ou uma depredação, ou conhecidos os males dos
próprios aliados, ou ainda chamados como libertadores por povos
tiranizados, reúnem-se logo em assembléia para deliberar. Então, primeiro,
ajoelham-se perante Deus, rogando-lhe a inspiração de ótimos conselhos; em
seguida, examinam as coisas; por fim, declaram a guerra. Subitamente, é
enviado ao inimigo um sacerdote chamado Forense, o qual pede ao inimigo a
restituição da presa, a libertação dos aliados, ou a cessação da tirania.
Se os pedidos não surtem efeito, ele intima a guerra em nome do Deus das
vinganças, do Deus de Sabaot (46), para o extermínio dos
que sustentam a iniqüidade. Quando os inimigos pedem prazo para a
resposta, o sacerdote concede uma hora, se trata com um rei, e três com
uma república, e isso a fim de impedir qualquer engano. Dessa forma, os
habitantes solares se tornam defensores do direito natural e da religião.
Declarada a guerra, o conjunto da execução é confiado ao Vigário da
Potência. Esse triúnviro, então, à semelhança do ditador dos romanos, age
plenamente de acordo com a própria vontade, de forma que sejam afastadas
todas as razões de atraso. Mas, se muito grande é a importância da
empresa, consulta Hoh, a Sabedoria e o Amor. Antes, porém, um orador
expõe, numa assembléia geral, as razões da guerra e a justiça da causa.
Intervêm nessa assembléia os maiores de vinte anos, de maneira que fique
preparado tudo o que for necessário. É preciso saber que eles conservam em
arsenais especiais toda espécie de armas, das quais freqüentemente se
servem em combates simulados. As paredes internas de cada círculo são
guarnecidas por morteiros, sob a guarda de soldados especiais. Há, além
disso, outras máquinas de guerra chamadas canhões, que são transportadas à
batalha por mulas ou burros, ou em cima de carros. E, quando se acham em
campanha aberta, encerram no meio os comboios, as artilharias, os carros,
as escadas e as máquinas, e animosamente, por longo tempo, se disputam o
terreno. Cada um se retrai, então, em torno das próprias bandeiras. Os
inimigos acreditam que estejam fugindo ou se preparando para a fuga, e
saem em sua perseguição, mas os solares, formando duas alas em forma de
chifres, retomam fôlego e coragem, e com a artilharia atiram balas de
fogo, voltando logo em seguida ao combate contra os inimigos
desorientados. esses e outros modos semelhantes de guerra são
freqüentemente usados. Eles superam todas as nações na ciência dos
estratagemas e das máquinas, e seguem o costume dos antigos romanos na
formação dos acampamentos. Levantadas as tendas, circundam-nas de bastiões
e fossas, com maravilhosa presteza. Cada trabalho é assistido pelos
mestres dos trabalhos, das máquinas e das artilharias, e todos os soldados
sabem manejar o machado e a enxada. Possuem, à testa dos serviços de
guerra, cinco, oito e até, dez chefes, que conhecem profundamente a
disciplina e os estratagemas e sabem dirigir as próprias fileiras de
acordo com o plano preestabelecido. Costumam, também, conduzir à guerra
meninos a cavalo, a fim de aprenderem essa arte e se habituarem ao sangue,
como os lobos e os leões costumam fazer com os filhos. Os meninos,
juntamente com as mulheres, que também assistem armadas, retiram-se no
instante do perigo, mas, depois da batalha, reaparecem para medicar,
servir e confortar com carícias e palavras os combatentes. Imensa vantagem
traz a presença dessas pessoas. Não poucos, para dar mostra de valor
diante das mulheres e dos meninos, fazem prodígios, tentam as mais
arriscadas empresas, e quase sempre o amor os faz sair vitoriosos. Quem,
na batalha, foi o primeiro a transpor os redutos inimigos, recebe depois
do conflito, das mãos das mulheres e dos meninos, uma coroa de graminho,
em meio às honras de festas militares. Obtém a coroa cívica quem socorre o
amigo, e uma de carvalho quem mata o tirano, cujos despojos, em perpétua
memória do fato, são colocados no templo, sobrepondo-lhe o Metafísico nome
da ação. Outros recebem outras coroas. Os soldados a cavalo trazem uma
lança e duas grandes e resistentes pistolas penduradas nas selas, as
quais, sendo menores no orifício do que na base, têm força para traspassar
mesmo a mais maciça armadura de ferro. Usam, igualmente, a espada e o
punhal. Outros, ainda, são armados de uma clava de ferro e se dizem
soldados armados à ligeira. Dessa forma, se a armadura do inimigo resiste
à espada e às pistolas, assaltam-no com a clava, como fez Aquiles
(47) com o Cisne (48), derrubam-no e o
aniquilam. Ligadas à clava, pendem duas correntes de seis palmos, com
bolas de ferro na extremidade, de forma que, atiradas contra o inimigo,
lhe cingem o pescoço, abalando-o, arrastando-o, levando-o por terra. Para
com maior facilidade manejarem a dava, não governam as rédeas do cavalo
com as mãos, mas com os pés. É por isso que as rédeas se trocam em cruz
sobre os arções da cela, descendo para prender-se, não nos pés, mas na
extremidade dos estribos. Estes formam, exteriormente, uma esfera de
ferro e, na base, um triângulo. Desse modo, rodando o pé sobre o
triângulo, são postas em movimento as esferas, e estas estiram as
rédeas. E assim, com admirável presteza, governam à vontade o cavalo,
fazendo-o voltar com o pé direito para o lado esquerdo e vice-versa. Esse segredo é ignorado pelos
próprios tártaros (49), que sabem governar as rédeas com
os pés, mas não sabem afastar, retrair e diminuir a marcha do cavalo, além
de não conhecerem o emprego da roldana nos estribos. Os cavaleiros armados
à ligeira começam o ataque com arcabuzes. Em seguida vêm as falanges com
as lanças, e depois os fundeiros, muitíssimo estimados e habituados a
combater, indo alguns até quase dentro da contextura das fileiras,
enquanto outros avançam pela frente e outros marcham concentrados. Possuem
também esquadras que protegem o exército com chuços. Finalmente, a batalha
é decidida pelas espadas.
Terminada a guerra, celebram triunfos militares, como os antigos
romanos e ainda melhor. Rendem graças a Deus com preces, e o supremo chefe
da expedição entra no templo, onde um poeta ou um historiador, que
assistiu aos fatos, bem ou mal os expõe. Depois, Hoh coloca uma coroa de
louros na cabeça do chefe, seguindo-se a distribuição dos presentes e das
honras aos soldados que mais se distinguiram, os quais, por muitos dias,
são dispensados do serviço. Mas, os habitantes solares, não gostando do
ócio, empregam essas folgas em socorrer os amigos. Ao contrário, os chefes
que, por culpa própria, foram vencidos ou perderam ocasião de mais
completa vitória, são infamados. O soldado que foi o primeiro a fugir só
pode subtrair-se à morte quando o exército inteiro pede graça por sua
vida, assumindo cada um uma parte do castigo. Essa indulgência, porém,
raramente é concedida e só quando militam circunstâncias excepcionais. É
batido com vergas quem não socorre o amigo, e quem se mostrou desobediente
é encerrado num recinto para ser devorado pelas feras, pondo-se-lhe nas
mãos um bastão, de forma que, se vencer os ursos e os leões que o guardam,
o que é quase impossível, será novamente admitido na sociedade.
As cidades subjugadas ou que se submetem de espontânea vontade põem
logo em comum todas as coisas, aceitam guarnições e magistrados solares e
aos poucos se habituam aos costumes da Cidade do Sol, mestra de todas,
para onde expedem os seus filhos, aos quais, sem nenhuma despesa, é dada
perfeita instrução.
Obra de excessiva extensão seria falar dos exploradores e dos seus
mestres, das sentinelas, das ordens e dos usos dentro e fora da cidade,
coisas que você facilmente pode imaginar, bastando que eu lhe observe que
são escolhidos quando meninos, segundo a inclinação individual e a
constelação que presidiu ao seu nascimento. E assim, procedendo segundo o
próprio talento natural, cada um exerce o respectivo mister com
pontualidade e também com prazer, porque está em harmonia com a índole
própria. O mesmo se pode dizer dos estratagemas e outras funções.
As quatro partes da cidade são guardadas noite e dia por sentinelas,
enquanto outras montam guarda às últimas muralhas do sétimo circulo, sobre
propugnáculos, torres, e entre os entrincheiramentos internos. Durante o
dia, também as mulheres prestam esse serviço, mas somente os homens à
noite, a fim de não ficarem preguiçosos e prevenirem uma surpresa. A
duração de cada plantão é, como entre nós, de três horas. Ao cair do sol,
por entre sons de tímpanos e sinfonias, indicam-se aos armados os lugares
que devem ser vigiados. Amam a caça como uma imagem da guerra e, na
ocorrência de várias solenidades, há nas praças públicas divertimentos de
que participam homens a pé e a cavalo. Nesses divertimentos, nunca falta a
música, etc. De bom grado, perdoam as ofensas e os erros dos inimigos, e,
depois da vitória, costumam beneficiá-los. Mas, quando, por lei da
necessidade, devam arrasar muralhas ou decepar cabeças, o decreto é posto
em execução no mesmo dia da vitória. Depois, continuam a prodigalizar toda
sorte de benefícios e dizem que não se deve combater um inimigo para
exterminá-lo, mas para torná-lo melhor. Se, entre eles, surge uma
altercação por injúrias ou outra causa (pois quase não conhecem disputas
que não sejam de honra), o primaz e os magistrados punem o culpado
secretamente, quando o ato que constitui a afronta tenha resultado de um
primeiro ímpeto de cólera. Se a injúria consiste em palavras, esperam o
dia da batalha, dizendo que se deve lançar a ira contra o inimigo;
considera-se, então, que defendeu a melhor causa e a verdade aquele que na
guerra deu mostra de maior valor. O outro cede. Mas, as penas são sempre
proporcionais à culpa. Não se permite nunca que os ódios se prolonguem até
ao duelo, o qual, além de destruir o poder dos tribunais, é também
injusto, porque expõe a sucumbir a parte que tem razão. Assim, na Cidade
do Sol, quem se julga imerecedor de injúria e afirma ser melhor do que o
adversário, tem a faculdade de prová-lo na guerra pública.
G.-M. - Isso é de grande vantagem, porque, evitando os ódios
particulares, impede a formação de partidos nocivos à pátria, assim como
as causas de guerras civis, das quais, tão freqüentemente, como em Atenas
e em Roma, surge um tirano. Peço-lhe, agora, que me fale do trabalho.
ALM. - Já lhe disse que eles têm em comum a arte militar, a
agricultura e a pecuária. Todos têm obrigação de conhecer essas artes
julgadas nobilíssimas, de forma que quem exerce maior número é considerado
possuidor de maior nobreza, e quem chegou a maior nobreza e a maior
perfeição em alguma delas, é eleito mestre. As artes mais fatigantes obtêm
maior estima, como a do artífice, a do pedreiro, etc. Ninguém se recusa a
exercitá-las, porque a elas se aplicam pela particular tendência revelada
na infância, e também porque o trabalho é distribuído de modo que nunca
possa ser nocivo à pessoa, mas, ao contrário, deva torná-la e conservá-la
melhor. As mulheres exercem as artes menos pesadas. Todos devem ser hábeis
na natação, e reservatórios especiais de água foram preparados não longe
da cidade. Já o comércio é descurado, embora conheçam o valor das moedas e
fabriquem dinheiro, com o qual os embaixadores e os exploradores possam
prover à subsistência nos países estrangeiros. À Cidade do Sol costumam
chegar comerciantes das diferentes partes do mundo, que compram dos
solares o supérfluo. Os habitantes não recebem dinheiro, mas trocam com as
mercadorias de que precisam, sendo que, muitas vezes, também as compram
com moedas. Mas, de todo o coração, riem-se os meninos solares ao verem
tanta abundância de coisas deixadas por tão poucas bagatelas; não se riem,
porém, os velhos. A fim de que a cidade não seja corrompida pelos maus
costumes dos servos e dos estrangeiros, fazem todo comércio nos portos,
vendendo os prisioneiros de guerra ou mandando-os para fora da cidade a
cavar fossas e para outros trabalhos fatigantes. Para a guarda dos campos,
são continuamente expedidos, juntamente com os cultivadores, quatro
manípulos de soldados, cada um dos quais sai por uma das quatro portas da
cidade, que dão para o mar por estradas construídas de tijolos, de forma
que as coisas e os forasteiros tenham mais fácil ingresso na cidade. Estes
são tratados com gentileza e magnificência. Vivem, por três dias, a
expensas públicas. Ao primeiro encontro, lavam-lhes os pés e os conduzem,
depois, para a cidade, onde lhes dão lugar na assembléia e à mesa,
assistidos e servidos por pessoas especiais. Quando desejam tornar-se
cidadãos solares, são provados por um mês no campo, por outro na cidade.
Se então se decidem e a admissão é aceita, verificam-se juramentos e
cerimonias.
Grandemente valorizada é a agricultura: cada palmo de terra dá lucro.
Estudados os ventos e as estrelas, saem eles, deixando poucos montando
guarda à cidade, para arar, semear, escavar, sachar, ceifar, vindimar,
acompanhados de trompas e tímpanos, e em brevíssimo tempo é terminado todo
o trabalho, economizando, com a arte, tempo e fadigas. Usam carros munidos
de velas, que servem mesmo quando sopra vento contrário, graças a um
admirável aparelhamento de rodas, e, quando falta o vento, é belíssimo ver
como um único animal puxa um imenso e pesadíssimo carro. Enquanto isso, os
manípulos que guardam o território vão saindo ao redor e alternando-se
freqüentemente. Não fazem uso dos adubos e da lama para fertilizar os
campos, pois acham que estes corrompem as sementes e produzem cereais
malsãos, enfraquecendo e abreviando a vida, da mesma forma que as mulheres
que, sem ser belas por exercício, mas por artifício, dão à luz filhos
lânguidos e raquíticos. Por isso, não põem nada sobre a terra e as
trabalham com assiduidade, sendo que, de um livro chamado Geórgica
(50), aprendem os segredos que se requerem para um
pronto nascimento e uma feliz multiplicação das sementes. Trabalha-se
somente a porção de terra que baste para as necessidades dos cidadãos,
ficando o restante para o pasto dos animais.
Em grande estima é tida, igualmente, a nobre arte que se relaciona
com a reprodução e a criação de bois, cavalos, ovelhas, etc. Não mandam ao
pasto os garanhões, juntamente com as éguas, mas, quando ocorre,
emparelham-nos no átrio das estrebarias campestres, observando o Sagitário
em bom aspecto com Marte (51) e Júpiter
(52). Para o gado bovino, observam o Taurus, para as ovelhas o, Aries,
etc., segundo a doutrina. A família dos animais domésticos se acha sob as
Plêiades (53). As mulheres, com prazer, conduzem os
patos e os gansos ao pasto, fora da cidade, onde há lugares em que os
encerram, havendo outros onde podem preparar queijo, manteiga e toda
espécie de laticínios. Dão também alimento a um grande número de capões,
etc., aperfeiçoando-se em tudo isso pela leitura de um livro chamado
Bucólica (54). Possuem de tudo com fartura, desejando
cada qual mostrar-se o primeiro no trabalho, que não fatiga e é útil. Seus
ânimos são dóceis e, assim, obedecem a quem preside aos misteres e o
chamam de rei. Nem esse nome lhes desagrada, pois é criação dos habitantes
solares, que não o entendem à maneira dos ignorantes. Você, decerto, se
maravilharia ao ver a ordem com que aqueles homens e mulheres,
indistintamente, procedem sob a obediência do rei. E o fazem sem o
ressentimento que se verifica entre nós, considerando-o um pai ou um irmão
mais velho. Possuem bosques e florestas abundantes em feras e animais para
o exercício da caça.
A arte náutica é muito apreciada. Possuem navios, alguns dos quais,
mediante um admirável artifício, viajam sem velas e sem remos. Conhecem o
curso das estrelas, o fluxo e o refluxo do mar. Navegam para adquirir
novos conhecimentos sobre os povos, os países e as coisas. Não ofendem
ninguém, mas também não toleram injúrias, só brigando quando agredidos.
Dizem que o mundo alcançará tanta sabedoria que todos os homens viverão
como eles. Admiram a religião cristã e esperam, neles e em nós, a
confirmação da vida dos apóstolos Estreitaram alianças com os chineses e
com várias nações insulares e continentais, como Sião, Calicuta,
Cochinchina, etc., o que facilita as explorações. Fabricam fogos
artificiais para batalhas em terra e no mar, e possuem o segredo de uma
infinidade de estratagemas. Eis porque saem da guerra quase sempre
vitoriosos.
G.-M. - Coisa gratíssima me faria você falando dos alimentos e das
bebidas, e como e quanto tempo vivem eles.
ALM. - Sua doutrina é que se deve, primeiro, prover à vida do todo e,
depois, à das respectivas partes. Por isso, ao construírem a cidade,
trataram de ter propícias as quatro constelações de cada um dos quatro
ângulos do mundo, as quais, como já se disse, se observam também na
concepção de cada indivíduo, porque dizem que Deus atribuiu causas a todas
as coisas, devendo o sábio conhecê-las, usá-las e não abusar delas.
Nutrem-se de carnes, manteiga, mel, queijo, tâmaras e legumes de
diferentes espécies. Houve uma época em que não queriam matar os animais,
parecendo-lhes isso uma ação bárbara, mas, ao considerarem que também é
crueldade extinguir plantas que gozam de sentido e vida própria, para não
morrerem de fome, concluíram que as coisas ignóbeis foram criadas para
beneficiar as mais nobres. E é assim que, no presente, se alimentam de
todos os animais, mas, na medida do possível, poupam os mais úteis, como
os bois e os cavalos. Fazem distinção entre alimentos sãos e nocivos, e,
quanto à escolha, deixam-se dirigir pelo médico. A alimentação é
continuamente mudada por três vezes: primeiro, comem carne; depois, peixe;
por fim, legumes. Então, recomeçam com a carne, de forma que o hábito não
enfraqueça as forças naturais. Os alimentos de fácil digestão são dados
aos velhos. Estes comem três vezes ao dia e parcamente; duas vezes, a
comunidade; e quatro, as crianças, segundo ordena o médico. Em geral,
vivem cem anos, sendo que não poucos também duzentos. São de extrema
temperança no que diz respeito às bebidas. Os jovens menores de dezenove
anos não bebem vinho, a não ser quando o requeiram razões de saúde. Depois
dessa idade, misturam-no com água. Só aos cinqüenta anos é permitido
bebe-lo puro. As mesmas regras são válidas para as mulheres. Os alimentos
variam segundo as estações, seguindo-se sempre, a esse respeito, o
conselho do protomédico. Julgam que não são nocivos quando usados na
estação em que Deus os produz e desde que não se abuse da quantidade. Por
isso, no verão, alimentam-se de frutas, porque são úmidas, suculentas e
frias, em defesa da secura e do calor da estação; no inverno, comem
alimentos secos; no outono, grande quantidade de uvas, concedidas pelo céu
contra a bilis negra e a melancolia. Gostam muito de usar substâncias
aromáticas. De manhã, ao levantar-se, penteiam os cabelos e com água fria
lavam as mãos e o rosto. Depois, esfregam os dentes, ou mastigam hortelã,
salsa ou erva-doce (os velhos, incenso). Em seguida, voltando-se para o
Oriente, recitam breve oração semelhante à ensinada por Jesus Cristo.
Depois, saem em vários grupos, pondo-se uns aos serviço dos velhos, outros
entregando-se às funções públicas, etc. Acompanham as lições, depois os
exercícios corporais, depois ficam sentados em breve repouso e, por fim,
vão jantar.
Escasso é, entre eles o número das moléstias. Não conhecem a gota, a
quiragra, a flatulência, pois essas enfermidades provêm do ócio ou da
intemperança, ao passo que eles se livram, com a frugalidade e com o
exercício, de toda superabundância de humores. Consideram vergonhoso
cuspir ou escarrar, dizendo que esse vício denota pouco exercício ou
reprovável preguiça, ou resulta da devassidão ou da gulodice. São, antes,
sujeitos às inflamações e ao espasmo seco, em cujo tratamento empregam
alimentos sãos e nutritivos. Curam a tísica com banhos mornos, com
laticínios, com a amenidade das habitações campestres, com moderado e
agradável exercício. A sífilis não pode fazer progressos, porque lavam
assiduamente o corpo com vinho, untando-o com óleos aromáticos, de forma
que o suor elimina o vapor fétido de que deriva a corrupção do sangue e da
medula. A tísica é rara, só muito poucas vezes sofrendo eles de catarros
pulmonares, sendo que mal conhecem aquela espécie de asma que provém da
densidade dos humores. Curam as febres inflamatórias com beberagens de
água fria, e as efêmeras com densos caldos aromáticos, ou com o sono, a
música e a alegria. Contra a terçã, usam emissões de sangue, ruibarbo ou
água, dentro da qual fervem raízes de ervas purgativas e ácido.
Finalmente, curam as quartãs pregando sustos, ou tratando-as com ervas de
natureza oposta à quartã e com outras coisas semelhantes, tendo me
mostrado vários segredos contra as mesmas. Consagram maior estudo à cura
das febres contínuas, que são as que mais temem, e se esforçam por
cortá-las estudando as estrelas e as ervas, e elevando preces ao céu. As
febres quintãs, sextâs, oitãs, quase não existem, pela ausência, entre
eles, de temperamentos ignavos. Conservam o asseio e a robustez do corpo
com o uso de banhos, de óleos, como entre os antigos romanos, e de outros
oportunos segredos de sua descoberta, muito úteis também contra a
epilepsia, pela qual são freqüentemente molestados.
G.-M. - Essa doença é indício de engenho invulgar, pois a tiveram os
homens mais célebres, como Hércules (55), Scot
(56), Sócrates, Calímaco (57) e Maomé.
ALM. - Eles a combatem com preces e, em seguida, revigoram o sistema
nervoso da cabeça com substâncias ácidas ou excitantes, como sopas
substanciosas condensadas com flor de farinha de trigo.
Grande é a sua habilidade no preparo dos petiscos. Misturam noz
moscada, mel, manteiga e vários aromas corroborantes. Corrigem o excesso.
de gordura introduzindo ácidos. Não bebem água gelada pela neve, nem
artificialmente aquecida como os chineses. Quando é necessário favorecer o
calor natural contra a exuberância dos humores, usam alho amassado, timo,
hortelã, basilicão e, sobretudo, exercícios corporais. Conhecem, enfim, o
segredo de renovar a vida, de sete em sete anos, sem dores e com meios
suaves e portentosos.
G.-M. - Até agora, você não disse nada sobre as ciências nem sobre os
magistrados.
ALM. - É verdade, mas, vendo-o tão curioso, acrescentarei outras
coisas. A cada lua nova e a cada lua cheia, depois do sacrifício, convocam
a assembléia, da qual participam os maiores de vinte anos, podendo cada um
expor o que julga faltar à república e dizer se os magistrados desempenham
bem ou mal suas funções. De oito em oito dias, congregam-se também os
magistrados: primeiro Hoh e com ele a Potência, a Sapiência e o Amor. Cada
triúnviro preside a três magistrados, que, imediatamente depois dele, têm
a seu cargo a suma direção das artes. Formam, assim, um total de treze.
Nessa reunião especial, tomam parte, igualmente, os instituidores do
exército, isto é, os decuriões, os centuriões, etc., homens e mulheres,
que conjuntamente elegem os magistrados, apenas indicados pela assembléia
geral, e tratam de tudo quanto ocorre na república. Além disso, Hoh e os
três triúnviros consultam-se diariamente sobre o que é preciso fazer,
corrigindo, confirmando e pondo em execução as decisões da grande
assembléia, bem como provendo a toda sorte de necessidades. Ao criar um
magistrado, nunca recorrem à sorte, salvo em caso de dúvida na escolha.
Todos os funcionários podem ser substituídos de acordo com a vontade do
povo, excetuados os quatro primeiros. Estes, depois de uma conferência,
cedem os cargos aos que julgam de maior engenho e de costumes mais puros.
Tão dócil é a sua índole e tão grandemente amam a república que os cedem
sem sombra de ressentimento e se fazem discípulos do mais digno. Mas, isso
raríssimas vezes acontece.
G.-M. E que me diz dos juizes?
ALM. - Já estava pensando nisso. Todo indivíduo é julgado pelo
supremo Mestre de sua arte. Os primeiros artífices são todos juizes e
punem com o exílio, a pancada, a desonra, a privação da mesa comum, a
interdição ao templo, a proibição das mulheres. E, quando os excessos são
muito graves, punem também com a morte. Pagam olho por olho, nariz por
nariz, dente por dente, de acordo com a lei de talião (58),
mas somente quando a culpa tenha sido voluntária e precedida de reflexão;
em outros casos, a sentença é suavizada, não pelo juiz, mas pelos três
triúnviros, que levam o recurso também ao Hoh, não por motivos de justiça,
mas apenas para obter graça, uma vez que só ele pode perdoar. Não possuem
cárceres, a não ser uma torre destinada à reclusão dos inimigos, rebeldes,
etc. Não se escreve o libelo vulgarmente chamado processo, mas se
apresentam ao juiz e à Potência o acusado e as testemunhas. O primeiro
pronuncia a sua defesa e, em seguida, o juiz o condena ou o absolve;
havendo apelação para o triúnviro, a condenação ou absolvição sai no dia
seguinte. No terceiro dia, Hoh concede a graça ou firma irrevogavelmente a
sentença; nesse caso, o culpado se reconcilia com o acusador e com as
testemunhas, dando-lhes um abraço e um beijo, como nos médicos salvadores
de sua moléstia. Não querendo contaminar a república, agem sem litores ou
carrascos, morrendo cada condenado pela mão do povo, que o mata ou lapida,
mas sempre precedido do acusador e das testemunhas. A alguns se concede a
escolha do gênero de morte, sendo que quase sempre preferem circundar-se
de saquinhos de pólvora, e então, acendido o fogo, morrem assistidos por
pessoas que os exortam a terminar bem: toda a cidade, amargurada, suplica
a Deus que aplaque sua cólera, contristando-se todos por terem sido
constrangidos a amputar um membro arruinado do corpo da república.
Esforçam-se, igualmente, com discursos, por persuadir o culpado de desejar
e aceitar a morte. Quando não possam induzi-lo a isso, e desde que não se
trate de culpa contra a liberdade pública, ou contra Deus ou os supremos
magistrados, a sentença não é executada; é, porém, cumprida sem
misericórdia quando a condenação foi motivada por um desses três delitos.
A religião permite que o moribundo exponha as razões pelas quais não
deveria perecer e obriga-o a revelar as culpas dos outros, bem como as
faltas dos magistrados, afirmando que todos estes, mais do que ele,
merecem a morte, e isso em presença do povo e se assim parece à sua
consciência. Se as suas razões prevalecem, é condenado ao exílio, e, com
preces e sacrifícios, é purificada a cidade. Não molestam, contudo, os
citados pelo culpado, limitando-se a admoestá-los. Os pecados de
fragilidade e de ignorância são punidos com a desonra ou a obrigação de
mais severa castidade, ou ainda pela advertência aos culpados de que devem
mostrar-se mais diligentes e disciplinados na ciência ou arte contra a
qual pecaram. É preciso saber, além disso, que quando um culpado,
prevenindo a acusação, se descobre espontaneamente aos magistrados,
pedindo castigo, fica livre da pena do delito oculto, a qual é
transformada em outra, quando não tenha sido acusado. Usam de grandes
cautelas para impedir a calúnia, sendo todo caluniador submetido à pena de
talião. Convivendo sempre em grande número, é requerido, como prova de um
delito, o testemunho de cinco pessoas. Sem isso, o acusado, após o
juramento, é deixado livre, sendo-lhe feitas, porém, admoestações e
ameaças. Bastam três testemunhas e até duas para ser duplamente punido,
quando é a segunda ou a terceira vez que a acusação é levada ao juiz. As
leis desse povo são poucas, breves, claras, escritas sobre uma tábua de
bronze pendente dos intervalos das colunas do templo, nos quais também se
vêem, escritas em estilo metafísico e brevíssimo, as definições da
essência das coisas, que são Deus, os Anjos, o Mundo, as Estrelas, o
Homem, o Destino, a Virtude, etc., na verdade com grande critério. Há
ainda as definições de todas as virtudes, cada uma das quais tem um juiz
próprio com assento numa cadeira dita tribunal e colocada debaixo da
coluna que traz a definição da Virtude que deve julgar. Voltando-se para o
culpado, diz o juiz: "Filho, pecaste contra esta santa definição; contra a
beneficência, a magnanimidade, etc. Lê..." E, após a discussão, recebe a
pena merecida pelo seu mau procedimento. As condenações são verdadeiras e
seguras medicinas, sentindo eles mais o amor do que o castigo.
G.-M. - Desejaria que você me falasse, agora, dos sacerdotes, dos
sacrifícios, da religião e das outras crenças.
ALM. - Todos os primeiros magistrados são sacerdotes, sendo Hoh o
supremo. O seu papel é purificar as consciências. Todos os cidadãos,
mediante a confissão auricular, revelam aos magistrados as próprias
culpas, e estes, nesse mister de purificar as almas, ficam conhecendo os
vícios mais freqüentes do povo. Depois, também os magistrados confessam
aos três triúnviros as próprias faltas e expõem mesmo as compreensíveis,
sem citar o nome de nenhuma, mas confusamente, bem como as que mais
prejudicam a república.
Por fim, os triúnviros revelam ao Hoh as próprias faltas e as dos
outros. Dessa forma, conhecidos todos os erros que se praticam na cidade,
Hoh pode aplicar-lhes os remédios oportunos. Em seguida, oferece
sacrifícios e preces a Deus, e publicamente, no templo, confessa do alto
do altar, perante o Onipotente, as culpas de todo o povo. Só o faz, porém,
quando o julga necessário e calando sempre os nomes dos pecadores. Depois,
absolve o povo, admoesta-o a precaver-se contra as culpas citadas, oferece
um segundo sacrifício a Deus e termina suplicando-lhe que perdoe, ilumine
e proteja a cidade. Uma vez por ano, os chefes das cidades sujeitas,
juntamente com os próprios, confessam as faltas dos seus concidadãos em
presença do Hoh, a fim de que este, conhecendo-as, dê remédio aos males
das províncias.
O sacrifício é feito da seguinte forma. Hoh pergunta ao povo
congregado qual, dentre tantos, está disposto a sacrificar-se por seus
confrades, e o mais perfeito se oferece. Então, feitas as preces e as
cerimônias, é colocado sobre uma tábua quadrada, à qual, por meio de
fivelas, se ligam quatro cordas, que descem por quatro roldanas presas na
muralha da pequena abóbada. Depois de suplicar a Deus misericordioso que
se digne aceitar aquele sacrifício humano e espontâneo, não brutal e
involuntário como entre os gentios, Hoh manda que as cordas sejam puxadas,
e a vítima, alcançando o centro da pequena abóbada, aí se abandona às mais
fervorosas preces. Os sacerdotes que habitam ao redor subministram-lhe a
alimentação por uma janela, mas em pouca quantidade, a fim de que seja
completa a purificação da cidade. Depois de trinta ou quarenta dias,
aplacada a cólera de Deus com preces e jejuns, ele ou se faz sacerdote, ou
então, o que raríssimas vezes acontece, volta ao primeiro estado, mas
descendo pelo caminho externo dos sacerdotes. Passa esse homem a gozar da
estima e do amor universais, pois não hesitou em morrer pelo bem da
pátria. Deus não quer a morte de quem quer que seja. Os sacerdotes que, em
número de vinte e quatro, habitam o alto do templo, cantam salmos a Deus,
quatro vezes ao dia, isto é, à meia-noite, ao meio-dia, de manhã e à
tarde. Consiste o seu principal empenho em estudar as estrelas, os seus
movimentos com os astrolábios, e observar a sua influência e relação com
as coisas humanas. Conhecem ainda as mudanças que se verificam ou que
devem verificar-se em determinada região e numa época determinada, tomando
em consideração tanto as predições comprovadas como as que falharam, por
meio de exploradores enviados aos países indicados. Isso permite que,
depois de repetidas experiências, façam predições sem receio de
enganar-se. Determinam a hora da geração, os dias da semeadura, da
vindima, da colheita, tornando-se quase que internúncios, intercessores e
liames que unem os homens a Deus, sendo que quase todos os Hoh são tirados
dentre eles. Além disso, escrevem os fatos dignos de história e se
esforçam pelo aperfeiçoamento de todas as ciências. Só descem para o
jantar e para a ceia. Raríssimas vezes têm relações com as mulheres e
unicamente a título de medicina. Hoh sobe diariamente, a fim de
consultá-los sobre o que descobriram e estudaram em benefício de todas as
nações do universo.
Há sempre um homem do povo no templo, a rezar diante do altar, sendo
substituído por outro depois de uma hora, como costumamos fazer na
solenidade das quarenta horas. Esse modo de orar é chamado sacrifício
perpétuo. Depois das refeições, rendem graças a Deus com sons musicais, e
cantam os feitos dos heróis cristãos, hebreus, gentios e de todas as
nações, fazendo isso com imenso prazer, pois não têm ódio a nenhum povo.
Cantam também hinos ao amor, à sapiência e a todas as virtudes. Sob a
direção do próprio rei, cada um escolhe a mulher que mais lhe agrada, e,
entre os peristilos, se exercitam em honesta e jocunda dança. As mulheres
trazem os longos cabelos unidos, formando uma única trança, com a qual
circundam a cabeça, e os homens fazem um topete no meio da testa e cortam
todos os outros cabelos ao redor, usando uma espécie de capuz redondo, um
pouco mais alto do que a cabeça.
No campo, cobrem a cabeça com chapéus; na cidade, com barretes
brancos, vermelhos e de várias outras cores, conforme a arte ou o ofício.
Os magistrados os possuem maiores e mais bem guarnecidos. Com grande
solenidade, celebram os dias de festa, que transcorrem quando o sol entra
nos quatro gonzos do mundo: o Câncer, a Libra, o Capricórnio e o Áries.
São representadas, então, ações instrutivas e quase cômicas. São também
dias de festa os plenilúnios e os novilúnios, assim como o aniversário da
fundação da cidade, de uma vitória, etc., que se celebram com sons de
trompas e de tímpanos e com cantos feminis. Os poetas cantam os louvores
dos mais ilustres guerreiros. Todavia, quem mentir, mesmo no elogio, será
punido. Não é considerado digno da nobre arte poetar quem, nas suas
fantasias, faz entrar a mentira, sendo esse abuso julgado uma das maiores
pestes do gênero humano, pois tira o prêmio à virtude para oferecê-lo
muitas vezes ao vício, e quase sempre por temor, ambição, adulação ou
avareza. Não se erigem estátuas em honra de ninguém, a não ser depois da
morte. Quem, porém, descobrir novas artes, ou revelar segredos de grande
utilidade, ou ainda fizer relevantes benefícios civis ou militares, obtém,
mesmo em vida, a inscrição no livro dos heróis. Os despojos dos defuntos
não são enterrados, mas queimados, para não darem origem a pestes e se
converterem em fogo, matéria nobre e viva que desce do sol para tornar a
subir ao sol; e também para impedir toda razão de idolatria.
Sempre que fazem suas orações, voltam-se para os quatro ângulos do
mundo. De manhã, olham primeiro para o oriente, depois para o ocidente,
depois para o meio-dia. Só recitam uma prece, pela qual pedem sanidade de
corpo e de mente, felicidade para si e para todos os povos, e terminam:
"Como melhor parecer a Deus". Mas, a prece pública dura muito tempo e se
eleva ao céu. O altar é redondo, indo-se a ele por quatro caminhos que se
cruzam em ângulos retos. Hoh mostra-se sucessivamente a cada um e, depois,
prostrando-se, reza com os olhos voltados para o céu. Essa cerimônia é
tida como um grande mistério. As vestes pontificais assemelham-se, pela
beleza e magnificência, às de Aarão (59). Imitam a
natureza e tornam maravilhosa a arte.
Dividem o tempo segundo o ano tropical e não arbitrariamente, mas
cada ano notam quanto um antecipou o outro. Crêem que o sol se aproxima
cada vez mais da terra e, percorrendo círculos cada vez menos amplos,
chega, no ano presente, aos trópicos e aos equinócios, mais depressa do
que no passado.
Contam os meses pelo curso lunar e os anos pelo solar, só os pondo de
acordo no décimo nono ano, quando a cabeça do dragão termina o seu curso.
Fundaram, assim, uma nova, astronomia. Louvam Tolomeu (60)
e admiram Copérnico (61), embora lhes anteponham
Ariatarco(62) e Filolau(63). Dizem,
porém, que um observa com pedrinhas e o outro com favas, mas nenhum
conforme à verdade. Dão-lhes, pois, um valor ideal e não real. Dedicam a
esse estudo a mais séria aplicação. Reputam-no de absoluta necessidade
para se conhecer como é composto e construído o mundo e se este deve ou
não acabar. Acreditam plenamente no oráculo de Jesus Cristo sobre a futura
aparição de sinais no sol, na lua e nas estrelas. Há tolos que, na sua
ignorância, dão a essas coisas o nome de fábulas, mas se surpreenderão com
o último dia do mundo como com o ladrão noturno. Esperam, portanto, a
renovação do século e, talvez também o seu termo.
Dizem que reina grande obscuridade sobre a origem do mundo, não se
sabendo se foi feito do nada ou das ruínas de outros mundos ou do caos,
mas julgam verosímil e mesmo certo que tenha sido feito e não seja eterno.
Desprezam, assim, a opinião de Aristóteles, que eles chamam de lógico e
não de filósofo. Das anomalias astronômicas, deduzem numerosos argumentos
contra a eternidade do universo. Não adoram, mas honram o sol e as
estrelas como coisas vivas, estátuas e templos de Deus, e altares animados
do céu. Antes de qualquer coisa criada, estimam o sol, mas não consideram
nenhum digna do culto de Lafria (64). Este é reservado
exclusivamente a Deus, e a ele somente servem, a fim de que, pela lei de
talião, não caiam sob a tirania e a miséria. No sol, contemplam a imagem
de Deus, chamando-o de excelso rosto do Onipotente, estátua viva, fonte de
toda luz, calor, vida e felicidade de todas as coisas. Seu altar foi
erigido à semelhança do sol, e nele os sacerdotes adoram Deus, imaginando
no céu um templo, nas estrelas altares e casas habitadas por anjos bons,
nossos intercessores junto a Deus, que mostra sobretudo no céu a sua
beleza, e no sol o seu troféu e estátua.
Negam os excêntricos e os epiciclos de Tolomeu e de Copérnico.
Afirmam que o céu é único e que os planetas se movem e elevam por forças
próprias quando se aproximam e se unem ao sol, levantando-se mais devagar
e devendo percorrer um círculo cada vez mais amplo. Professam mil outras
opiniões astronômicas, quase todas em oposição com as que vulgarmente se
conhecem.
Atribuem às coisas terrestres dois princípios físicos: o sol-pai e a
terra-mãe. Dizem que o ar é uma porção impura do céu; que o fogo deriva
plenamente do sol que o mar provém do suor da terra ardente e fusa,
constituindo um meio de união entre o ar e a terra, da mesma forma que o
sangue o é entre os espíritos e os corpos animais. Acreditam ser o mundo
um grande animal, vivendo nós no seu ventre como os vermes no nosso, e,
por isso, não pertencemos à providência própria das estrelas, do sol e da
terra, mas somente à de Deus, porque, em relação a estas, entendidas para
outro escopo, somos apenas uma sua amplificação, tendo nascido e estando
vivendo por acaso; mas, em relação a Deus, do qual as coisas são
instrumentos, fomos criados com preciência e ordem, destinando-nos a um
grande fim. Por conseguinte, somente a Deus devemos gratidão como a um
pai, e somente Deus deve ser por nós reconhecido como autor e concessor de
todas as coisas.
Crêem na imortalidade da alma e, depois da saída do corpo, na sua
associação com os anjos bons ou maus, conforme as ações da vida presente,
e isso porque as coisas semelhantes amam os seus semelhantes. Diferente da
nossa é a sua opinião sobre os lugares das penas e dos prêmios. Duvidam da
existência de outros mundos além do nosso. Consideram mentecapto quem
afirmar que existe o vácuo, pois dizem que este não pode existir nem
dentro nem fora do mundo, uma vez que Deus, ente infinito, não pode
tolerar consigo um vácuo. Recusam, contudo, conceber um infinito corpóreo.
Admitem dois princípios metafísicos: o Ente, que é o Deus supremo, e
o Nada, que é a falta de entidade, no termo da qual fisicamente se produz
alguma coisa, porque não se faz o que existe e, portanto, não existia o
que foi feito. É assim, pois, do Ente e do Nada que o ser finito toma a
sua essência. Da mesma forma, da tendência ao não ser se originam o mal e
o pecado. O pecado tem, pois, uma causa de deficiência e não de
eficiência. Por causa deficiente, entendem eles a falta de potência, ou de
sapiência, ou de vontade. Somente nesta última colocam o pecado, pois quem
sabe e pode fazer o bem deve igualmente querê-lo, nascendo a vontade das
duas primeiras e não aquelas desta. Adoram Deus na trindade, o que causa
admiração, mas dizem eles que Deus é Suma Potência, da qual procede a Suma
Sapiência, que é também Deus, e de ambas o Amor, que é Potência e
Sapiência, embora o procedente não tenha a essência daquilo de que procede
e não retrocede. Não possuem, todavia, como os cristãos, noções distintas
das três pessoas citadas, pois V não tiveram revelações, mas reconhecem em
Deus procedimento e relação própria a se, dentro de se e por se. Todos os
seres, portanto, derivam sua essência da Potência, da Sapiência e do Amor,
enquanto têm existência, e da Impotência, da Ignorância e do Desamor,
enquanto participam do não-ser. Pelas primeiras, adquirem mérito, e, pelas
segundas, pecam, ou com ofensas contra o costume e a arte que derivam de
todas três, ou somente do terceiro, da mesma forma que uma natureza
especial peca por ignorância e impotência quando produz um monstro.
De resto, tudo isso é preconhecido e ordenado por Deus, inimigo de
todo nada e força potentíssima, sapientíssima e ótima. Ente nenhum que não
peque em Deus pecará fora de Deus; mas, fora de Deus, é impossível sair,
mas somente de nós, quer no que nos diz respeito, já não por causa dele,
quer no que a ele diz respeito, porque em nós há deficiência e em Deus
eficiência. O pecado é, por conseguinte, ato de Deus enquanto não tem
entidade, e só a deficiência em que consiste a essência do pecado está
dentro de nós e é obra nossa, que tendemos, por uma força de desordem, ao
não-ser.
G.-M. - Irra, que são bem profundos!
ALM. - Oh! se me lembrasse de tudo, se não estivesse pensando na
partida e se não receasse nada, poderia dizer-lhe coisas muito mais
admiráveis, mas perderei o navio se não me apressar em ir-me embora.
G.-M. - Suplico-lhe, primeiro, que me responda a esta única pergunta:
que dizem eles do pecado de Adão (65)?
ALM. Confessam sinceramente que há muita iniqüidade no universo. Os
homens não são governados por superiores e verdadeiras razões, vivendo
infelizes e sem escutar os bons. Triunfam os perversos, se bem que eles
considerem miserável esse triunfo, não havendo nada de mais vão e de mais
desprezível do que querer mostrar-se aquilo que na realidade não se é ou
não se merece ser, como tantos que se chamam reis, sábios, guerreiros ou
santos. Argumentam ainda que há, por causa ignorada, uma grande desordem
nas coisas humanas. E, quanto às primeiras, inclinam-se a crer, com
Platão, que os mundos celestes sofreram, outrora, uma revolução do atual
Ocidente para a parte agora chamada Oriente, dirigindo-se depois para a
parte oposta. Acrescentam ser possível que o governo da terra, com
permissão do Deus Supremo, tenha sido confiado a divindades inferiores.
Mas, consideram tolice afirmá-lo de um modo absoluto, e tolice ainda maior
asseverar que, primeiro, com a máxima eqüidade, tenha reinado Saturno
(66), com menor Júpiter, e depois, sucessivamente, os
outros planetas. Não obstante, confessam que a idade do mundo é regulada
de acordo com a série dos planetas, e acreditam que com as mutações dos
astros, depois de 1.000 ou 1.600 anos, poderão as coisas passar por
grandes mudanças. Dizem que a idade presente parece dever atribuir-se a
Mercúrio, conquanto modificada pelas grandes conjunções e repetições das
anomalias que possuem uma força fatal. Afirmam, finalmente, que feliz é o
cristão que se contenta em acreditar que toda essa revolução se tenha
originado do pecado de Adão. Opinam também que os pais transmitem aos
filhos mais o mal da pena que o da culpa. Esta pode ser atribuída pelos
filhos aos pais, quando estes tenham descurado a geração ou a tenham
exercitado fora de tempo e lugar, ou então quando não se tenham tido em
vista a escolha e a educação dos genitores, os quais, se produziram mal os
filhos, ainda pior os instruirão. Toda a atenção é, pois, por eles
dedicada à geração e à educação, e dizem que tanto a culpa dos pais como a
pena dos filhos redundam em dano para a república, como o provam, na
atualidade, todas as cidades que, cheias de miséria, se degradaram ao
ponto de chamarem felicidade aos próprios males, sem nunca terem conhecido
o verdadeiro bem, o que levaria a crer que o universo é governado pelo
acaso. Mas, quem estuda a construção do universo e a anatomia do homem
(por eles freqüentemente praticada nos cadáveres dos condenados), assim
como os planetas, os animais e a função de cada uma de suas partes, deve
confessar em voz alta a sabedoria e a providência de Deus. É, pois, um
dever do homem consagrar-se inteiramente à religião e humilhar-se
continuamente perante o próprio autor, o que só é possível e fácil para
quem estuda e conhece as obras deste, obedecendo às suas leis e pondo em
prática a sentença do filósofo: "Não faças aos outros o que não queres que
te façam; e o que queres que te façam, faze-o aos outros." Dessa forma,
nós que pretendemos dos filhos e dos homens bens e honras em troca de
poucas vantagens que lhes concedemos, devemos dar a Deus tudo, porque dele
tudo temos recebido, e estamos nele e com ele. Glória, pois, a Deus por
todos os séculos dos séculos.
G.-M. - Na verdade, assim como essa gente, que apenas conhece a lei
natural, se aproxima tanto do cristianismo, o qual às leis da natureza só
acrescentou os sacramentos (que conferem força ao seguir fielmente
aquelas), assim também eu deduzo um grande argumento em favor da religião
cristã, como sendo a única verdadeira e que, eliminados os abusos, deverá
dominar todo o universo, de conformidade com o que ensinam e esperam os
mais. eminentes teólogos. E, a esse propósito, dizem eles que os espanhóis
descobriram um novo mundo (embora a primeira glória se deva a Colombo(67),
esplendor de Gênova), a fim de que todos os povos se associem sob a mesma
lei. Esses filósofos foram, portanto, eleitos por Deus, em testemunho da
verdade. Bem sei que ignoramos o que nós próprios fazemos, mas, como somos
todos instrumentos de Deus, servimos aos seus fins, do mesmo modo que
aquele que, por ambição de riquezas, sai em busca de novas regiões.
Altíssimos são, pois, os fins de Deus. O sol tende a incendiar a terra e
não a produzir homens e plantas, mas Deus utiliza sua luta para tais
produções. A ele, por conseguinte, rendamos louvores e glórias.
ALM. - Oh! se você soubesse quantas coisas aprenderam da astrologia e
também dos nossos profetas acerca do século vindouro! Dizem eles que, em
nossos dias, num período de cem anos, acontecem mais fatos dignos de
história do que nos quatro mil anos do mundo anterior, e que maior número
de livros foram publicados neste último século do que nos cinqüenta
passados. Não cessam de elogiar a invenção da imprensa, da pólvora e da
bússola, sinais particulares e, ao mesmo tempo, instrumentos da união de
todos os habitantes do mundo num só ovil. Essas maravilhosas invenções,
acrescentam, verificaram-se quando uma grande conjunção se realizou no
triângulo de Câncer, na ábside de Mercúrio e de Scorpio, sob a influência
da Lua e de Marte, poderosos nesse triângulo para as novas descobertas
marítimas, os novos exércitos e os novos reinos. Quando, porém, e não
custará muito, a ábside de Saturno entrar no Capricórnio, a de Mercúrio no
Sagitário, a de Marte na Virgem, após as primeiras e grandes conjunções e
a aparição de uma nova estrela em Cassiopéia (68),
surgirá uma nova monarquia, verificar-se-á a plena reforma das leis e das
artes, entender-se-ão os profetas e, no universo plenamente regenerado, a
santa nação ver-se-á cumulada de toda sorte de bens. Mas, antes, será
preciso abater e desenraizar, para depois edificar e plantar... Peço-lhe,
porém, que me deixe partir, pois que, fora daqui, me chamam mil afazeres.
Saiba somente que eles já descobriram a arte de voar, a única que parece
faltar ao mundo. Além disso, consideram próxima a descoberta de
instrumentos óticos com os quais serão descobertas novas estrelas e de
instrumentos acústicos tão perfeitos que com eles se chegará a escutar a
música dos céus.
G.-M. - O quê? ha! ha! ha! Você fala muito bem, mas me parece que
essa gente astrologiza demais. Como podem as estrelas fazer e saber tanto?
O que lhe digo é que tudo, na terra, sucede na ocasião determinada por
Deus.
ALM. - Também eles me responderam que Deus é a causa imediata de
todas as coisas, mas só como causa universal e não particular, primitiva e
não secundária. Porque Deus não come quando Pedro come; não rouba quando
Pedro rouba, se bem que derivem dele a essência e a faculdade de poder
comer e roubar, como causa imediata da qual depende toda outra mais
particular que modifica a imensidade da ação divina.
G.-M. - Oh ! como raciocinam bem! Os nossos doutores escolásticos,
sobretudo São Tomaz, dizem o mesmo contra os filósofos maometanos, que
professam opinião contrária.
ALM. - Dizem, portanto, que Deus atribuiu causas universais e
particulares a todo efeito, sendo que as particulares não podem agir sem
que ajam as universais. Do mesmo modo que uma planta não florescerá se o
sol não aquecê-la de perto. Os tempos são, pois, efeitos das causas
universais, isto é, das celestes. Por conseguinte, todos nós procedemos
segundo procede o céu. As causas livres servem-se do tempo em favor
próprio e, às vezes, também pelo bem das outras coisas. Porque o homem,
com o fogo, força as árvores a florescer, e, com a lâmpada, na ausência do
sol, ilumina a própria casa. As causas naturais agem, pois, no tempo. Da
mesma maneira que algumas coisas se fazem de dia e outras de noite,
algumas no inverno e outras no verão, na primavera ou no outono, e isso
tanto por causas livres como naturais, assim também outras coisas se fazem
neste ou num futuro século. E, como a causa livre não é obrigada a dormir
quando é noite, nem a se levantar quando chega a manhã, mas age de acordo
com as próprias conveniências, aproveitando-se das alternações dos tempos,
também não é obrigada a descobrir o arcabuz ou a tipografia, quando se
realizam grandes sínodos no Câncer, nas monarquias quando em Áries, etc.
Nem podem acreditar que o Sumo Pontífice tenha proibido a astrologia aos
cultíssimos cristãos, mas somente aos que abusam dela para adivinhar os
atos do livre arbítrio e os acontecimentos sobrenaturais, enquanto que as
estrelas, em relação às coisas sobrenaturais, não passam de sinais e, em
relação às coisas naturais, só agem como causas universais, não passando
de ocasiões, convites, tendências. O sol, ao nascer, não nos obriga a sair
da cama, mas apenas nos convida a fazê-lo, oferecendo-nos para isso todas
as comodidades, ao passo que a noite impede, com mil incômodos, que nos
levantemos, sendo comodíssima para dormir. Agindo, pois, indiretamente e
ao acaso sobre o livre arbítrio, ao mesmo tempo que agem sobre o corpo e
sobre a sensibilidade corpórea inerente aos órgãos corpóreos, é a mente
excitada pelos sentidos ao amor, ao ódio, à ira e a todas as outras
paixões, dependendo então do homem assentir ou opor-se à paixão
despertada. Assim é que as heresias, as carestias, as guerras preindicadas
pelas estrelas, muitas vezes se verificam na realidade, porque muitos
homens se deixam governar, não pela razão, mas pelos apetites sensuais,
dando lugar a essas coisas que acontecem contra a razão, embora também
sucedam, freqüentemente, por terem obedecido racionalmente a uma paixão,
como quando se alimenta uma justa cólera para empreender uma guerra justa.
G.-M. - Você continua a raciocinar direito, e de suas opiniões
participam o já citado São Tomaz e o nosso Sumo Pontífice, que antepõem a
astrologia à medicina, à agricultura e à náutica, O mesmo sucede com os
prognósticos conjecturais a propósito dos atos arbitrários, sendo a última
opinião admitida por todos os escolásticos. Mas, tendo aumentado a malícia
e verificando-se abusos, proíbem não as conjecturas, mas o prognóstico
conjectural, e não porque seja sempre falso, mas porque, muitas vezes, ou
mesmo sempre, se torna perigoso. É por isso que os príncipes e os povos
que se dedicam excessivamente à astrologia costumam imaginar males e
tentar bens impossíveis, como o provam Arbace (69),
Agátoeles (70), Druso (71), Arquelau
(72). Com o tempo, também veremos coisas semelhantes, em
razão do prognóstico de Tycho (73), e o que é mais
lamentável, muitos príncipes serão enganados por charlatães. Inúmeros
crédulos em tais conjecturas ousam mil iniquidades contra os nossos
Pontífices.
ALM. - Os solares, porém, dizem que se deve proibir tudo quanto é
falso ou perigoso, podendo ser instrumento de renovação da idolatria, de
destruição da liberdade ou de subversão da ordem política. Afirmo-lhe, ao
contrário, que os solares já descobriram o modo de evitar a ação do Fado
Sidéreo. Uma vez que toda arte só nos é concedida por Deus em nosso
benefício, quando está iminente um eclipse infausto, um cometa maléfico,
etc., eles encerram o ameaçado dentro de casas brancas, impregnando o
ambiente de aromas e de vinagre rosado, acendem sete velas de cera
aromatizada e acrescentam alegre música e divertidas conversações. Dessa
forma, são destruídos os germes pestilenciais emanados do céu.
G.-M. - Irra essas coisas são todas medicinas excelentes e bem
aplicadas: o céu age sobre o corpo, devendo sua ação ser corrigida por
antídotos corpóreos. Não me agrada, porém, o número das velas, como se a
virtude de curar residisse em determinado número, coisa que cheira a
superstição.
ALM. - Dão, decerto, valor aos números, apoiando-se na filosofia
pitagórica, não sei se com razão. Mas, não se baseiam unicamente no
número, e sim na medicina acompanhada de números.
G.-M. - Nisso, não vejo superstição e não conheço escritura nem
canhão eclesiástico que condene a força dos números. Ao contrário, os
médicos costumam utilizá-los nos períodos e nas crises das moléstias. Além
disso, está escrito que Deus fez todas as coisas com peso, medida e
número, tendo em sete dias criado o mundo; sete são, também, os anjos que
tocam as trompas; sete as taças; sete os trovões; sete os candelabros;
sete os mistérios; sete os sacramentos; sete os dons do Espírito, etc. Eis
porque Santo Agostinho, Santo Hilário (74) e Origenes
(75) raciocinaram longamente sobre o valor dos números,
sobretudo dos números sete e seis. Não serei eu que irei condenar os
solares por se fazerem médicos segundo os signos celestes e por defenderem
o livre arbítrio. Com as sete velas, imitam eles os sete planetas do céu,
como Moisés com as sete candeias. Além disso, Roma sentenciou que só é
superstição atribuir-se todo poder exclusivamente aos números, e não às
coisas numeradas. Mas, continue, agora, o discurso interrompido.
ALM. - Dizem eles, pois, que os signos femininos trazem a fecundidade
às regiões a que presidem, da mesma forma que um governo menos robusto nas
coisas inferiores, causando e ocasionando, traz a alguns comodidade ou
incomodidade, tirando-as de outros. A prova disso é que o governo das
mulheres prevaleceu em nosso século: nove amazonas apareceram entre a
Núbia e a Monopotapa, e na Europa vimos reinar Roxana na Turquia, Boa na
Polônia, Maria na Hungria, Elisabete na Inglaterra, Catarina na França,
Branca na Toscana, Margarida na Bélgica, Maria na Escócia, Isabel, que
favoreceu a descoberta do Novo Mundo, na Espanha. Além disso, é pelas
mulheres que um grande poeta do nosso século inicia o seu canto:
e donne, i cavalier, l'armi, gli amori. (76) Os
poetas maldizentes e os hereges, em virtude do triângulo de Marte na casa
dominante de Mercúrio e da influência de Vênus e da Lua, falam sempre de
coisas obscenas e apaixonadas, enquanto os homens, efeminando-se cada vez
mais nos atos e na voz, se tratam por Vossa Senhoria. Na África, onde
reina a influência de Câncer e de Scorpio, além das amazonas, vêem-se, em
Fez e em Marrocos, lupanares de homens e muitas outras coisas infames a
que o clima convida, mas não obriga. Ora, não obstante, o trígono de
Câncer (pois está no trópico, formando uma triplicidade no apogeu de
Júpiter, do Sol e de Marte), como de outra parte a Lua, Marte e Vênus,
favoreceu a descoberta de novos impérios, a possibilidade de fazer a volta
ao mundo e o governo das mulheres, e, por Mercúrio e Marte, a descoberta
da tipografia e do arcabuz, sem contar que deu aos homens causa, ou antes,
ocasião para grandes modificações nas leis, sempre sob a providência de
Deus, que os convida ao bem quando não tenham destruído essas inclinações.
Os solares revelaram-me coisas admiráveis sobre o consenso das coisas
celestes com as terrestres e com as morais, bem como sobre a difusão do
cristianismo no Novo Mundo, a sua estabilidade na Itália e na Espanha, e a
sua ruína na Alemanha setentrional, na Inglaterra, na Escandinávia e na
Panônia (77). Mas, não quero repetir asses prognósticos,
pois que, sapientemente, o nosso Papa os proibiu. E, ao mesmo tempo que
Xerifos (78) e Sofos (79) introduziam
modificações na África e na Pérsia, Wiclef (80), Huss
(81) e Lutero (82) atacavam a religião
entre nós, enquanto os Mínimos (83) e os Capuchinhos
(84) a ilustravam. Disseram-me como do próprio movimento
do céu se serviam alguns para o bem e outros para o mal, se bem que as
heresias sejam incluídas pelo Apóstolo entre as obras da carne e
subordinadas às influências sensíveis exercidas por Marte, por Saturno e
pela Terra, graças à vontade que espontaneamente a eles se submete.
Acrescentarei apenas que os solares descobriram a arte de voar e outras
artes sob a constituição da Lua e de Mercúrio, graças à ábside do Sol,
pois que essas estrelas têm influência no ar para a arte do vôo. E o que
produzem nas regiões aquosas pelo nado, fazem-no, nas regiões equatoriais,
no ar, pelo vôo, graças à posição da Terra e ao lugar de mais sol.
Descobriram, assim, uma nova astronomia, porque no outro hemisfério, do
equador ao austro, na cana do Sol, há o Aquário, na da Lua o Capricórnio,
etc. Tomaram em sentido contrário todas as influências e signos, porque
naquelas regiões os signos têm outro nome e os planetas não se distribuem
como nas nossas e nas regiões polares. Não repetirei o que aprendi
daqueles sábios sobre as mutações das ábsides e a excentricidade e
obliqüidade dos equinócios, dos solstícios e dos pólos, dos signos
celestes e dos entrecruzamentos pelos quais agem no espaço imenso da
máquina do mundo; nem sobre as relações simbólicas das nossas coisas com
as que estão fora do nosso mundo; nem sobre a revolução que se seguirá à
grande conjunção no Áries e na Libra, signos equinociais do
restabelecimento das monarquias, e que se verificará com grande estupor
após a grande conjunção que confirmará o decreto de quem estabeleceu a
mutação e a renovação da terra. Mas, não me faça demorar mais, pois tenho
muitas outras coisas que fazer e você sabe quantos afazeres tenho a meu
cargo. Por ora, basta saber que eles não destroem, mas, ao contrário,
edificam o sistema do livre arbítrio. E dizem que do mesmo modo que um
eminente filósofo, por quarenta horas cruelmente atormentado por seus
inimigos, que não conseguem nunca arrancar-lhe da boca uma palavra sobre o
que perguntam, porque intimamente resolveu calar-se, assim também as
estrelas que se movem à distância e com lentidão não podem constranger-nos
a nenhum ato contra a nossa vontade, como não podem governar-nos, nem por
obrigatório decreto de Deus, pois somos tão livres que podemos blasfemar
contra o próprio Deus. Deus não força a si nem aos outros contra si. Pode
Deus, acaso, ser dividido? Mas, como as estrelas operam nos sentidos
algumas insensíveis e ligeiríssimas modificações, sucede que sofrem sua
influência sobretudo os que obedecem mais aos sentidos do que ao raio
divino da razão. Eis porque a mesma constelação que traz fétidos vapores
das mandíbulas cadavéricas dos hereges também serve para produzir
fragrantes exalações das retas inteligências dos que fundaram as religiões
dos Jesuítas (85), dos Irmãos Mínimos e dos Capuchinhos.
Foi também sob a sua influência que se deu a descoberta do novo hemisfério
com que Colombo e Cortez (86) abriram nova arena à
propagação da religião cristã.
Agora, estão iminentes no mundo grandes acontecimentos, cuja
exposição reservo, porém, para melhor oportunidade.
G.-M. - Responda ao menos a esta única pergunta: como é que, sem
velas e sem remos, põem eles os navios em movimento?
ALM. - Há na popa uma grande roda em forma de leque, presa à
extremidade de uma vara que, equilibrada do lado oposto por um peso nela
suspenso, pode ser facilmente levantada e abaixada por um menino. Todo o
mecanismo se move sobre uma prancha sustentada por duas forquilhas. Além
disso, alguns navios são postos em movimento por duas rodas que giram
dentro d'água por meio de cordas que partem de uma grande roda posta na
proa e, entrecruzando-se, circundam as rodas da popa. Posta em movimento,
sem dificuldade, a grande roda faz girar as pequenas mergulhadas na água,
à semelhança da pequena máquina de que se servem as mulheres calabresas
para enrolar e fiar o linho.
G.-M. - Espere, espere um instante.
ALM. - Não posso, não posso.
QUESTÕES SOBRE A ÓTIMA REPÚBLICA
ARTIGO PRIMEIRO
Se é com razão e utilidade que se acrescenta à doutrina política o
diálogo da Cidade do Sol.
Mais dificuldades militam contra a razoabilidade e a utilidade de uma
tal república.
1o. - Do que nunca existiu, nem existirá, nem se espera que exista, é
inútil e vão tratar. Semelhante modo de viver em comum, inteiramente
isento de delitos, é impossível, nem nunca se viu, nem se verá. Foi, pois,
inutilmente que nos ocupamos com isso. Do mesmo argumento usava Luciano
(87) contra a república de Platão.
2o, - Essa república só pode subsistir numa cidade e não num reino,
pois não se podem encontrar lugares inteiramente semelhantes. Dessa forma,
será corrompida pelos povos sujeitos, pelo comércio ou pelas sedições que
irromperem contra tão austera maneira de viver.
3o. - Essa república foi imaginada ótima e perene. Ora, em primeiro
lugar, não poderá ser perene, porque necessariamente acabará se
corrompendo ou sendo invadida pela peste proveniente do longo domicilio,
não estando livre do vento, da guerra, da carestia, das feras, e não
podendo escapar à tirania interna, ou, finalmente, pelo excessivo número
de cidadãos, como dizia Platão da sua república. Em segundo lugar, não
poderá ser ótima, pois necessariamente haverá delitos, como diz o
apóstolo: Si discessimus quia peccatum non habemus, ipsi nos seducimus
(88). Além disso, Aristóteles prova, contra Platão, que
a comunidade dos bens úteis e das mulheres torna viciosa uma república e,
quando nos parece que desapareceu um mal, deparamos em seguida com uma
porção.
4o. - Esse modo de viver é mais conforme à natureza que provado pelo
uso de todas as nações. O nosso, porém, é repelido por todas, de forma que
foi inútil e leviana a nossa palestra.
5o. - Ninguém desejaria viver submetido a leis e observâncias tão
severas e sob a tutela dos pedagogos. Essa república seria derrubada pelos
próprios cidadãos, como acontece em muitas ordens religiosas que vivem em
comunidade.
6o. - É natural que os homens estudem as obras de Deus, viajem pelo
mundo, procurem em toda parte as ciências, façam experiência de tudo. Mas,
os habitantes de uma tal república seriam como os monges, que só estudam
nos livros e, quando ouvem alguma coisa que não se acha neles, se
escandalizam e se perturbam. Assim como agora mal crêem nas observações de
Galileu (89), antes não acreditavam que Colombo tivesse
descoberto um novo hemisfério, porque Santo Agostinho o nega.
Mas, respondendo primeiro em geral, existe em nosso favor o exemplo
de Thomas More, mártir recente, que escreveu a sua república Utopia,
imaginária, exemplo no qual encontramos as instituições da nossa. Platão,
igualmente, apresentou uma idéia da república que, embora não possa, como
dizem os teólogos, ser posta integralmente em prática na natureza
corrupta, teria podido, contudo, subsistir no estado de inocência, isto é,
justamente aquele ao qual Cristo nos faz voltar. Aristóteles, por sua vez,
instituiu a sua república. E assim muitos outros filósofos. Paralelamente,
os príncipes promulgam leis que consideram ótimas, não porque imaginem que
ninguém as transgredirá, mas porque julgam tornar felizes os que as
observam. E São Tomaz ensina que os religiosos não são forçados, sob pena
de pecado, a observar tudo o que é prescrito na regra, mas apenas as
coisas mais essenciais, embora fossem mais felizes se a observassem toda:
devem viver de acordo com a regra, isto é adaptar sua vida à regra, tão
comodamente quanto possível. Moisés promulgou leis dadas por Deus e
instituiu uma ótima república: enquanto os hebreus viveram pelas normas da
mesma, floresceram; quando deixaram de observar suas leis, decaíram. E
assim os retóricos, que estabelecem as ótimas regras de um bom discurso,
isento de qualquer defeito. Assim os filósofos, que imaginam um poema sem
nenhum senão, se bem que nenhum poeta se tenha livrado disso. Assim os
teólogos, que descrevem a vida dos santos, embora nenhum ou muito poucos a
imitem. Qual é, pois, a nação capaz de imitar a vida de Cristo, sem
pecado? E, por isso, os Evangelhos terão sido escritos inutilmente!
Jamais, e sim para que nos esforcemos por nos aproximarmos deles tanto
quanto possível. Cristo estabeleceu uma república excelentíssima, isenta
de todo pecado, que apenas os apóstolos observaram integralmente, depois
passou do povo ao clero e, afinal, exclusivamente aos monges, sendo que,
entre estes, persevera em alguns, ao passo que, em outros, vês muito
poucos institutos que se conservam em harmonia com a mesma.
Apresentamos, pois, a nossa república, não como dada por Deus, mas
como uma descoberta filosófica e da razão humana para demonstrar que a
verdade do Evangelho é conforme à natureza. Se, em algumas coisas, nos
afastamos do Evangelho, ou parece que nos afastamos, isso não se deve
atribuir à impiedade, mas à fraqueza humana, que, à falta de revelação,
julga justas muitas coisas que à luz da mesma não o são, como podemos
dizer da comunidade dos matrimônios. Foi por isso que imaginamos a nossa
república no gentilismo que espera a revelação de uma vida melhor e que,
vivendo segundo os ditames da razão, merece possuí-la. Além disso, são
catecúmenos da vida cristã, razão que levou Cirilo (90)
a dizer, contra Juliano (91), que a filosofia foi dada
aos gentios como catecismo para a fé cristã. Por conseguinte, para ensinar
os gentios a viver retamente, se não quiserem ser abandonados por Deus, e
convencer os cristãos de que a vida de Cristo é conforme à natureza,
tomamos o exemplo desta república, como São Clemente romano tomou o da
república socrática e como fizeram São Crisóstomo e Santo Ambrósio
(92).
É, portanto, claro que, com essa maneira de viver, não tendo os
magistrados motivos para ambicionar os postos, desaparecem todos os
vícios, assim como todos os abusos decorrentes da sucessão, da eleição ou
da sorte, pois estabelecemos uma espécie de república como a dos grua e a
das abelhas, celebradas por Santo Ambrósio. Desaparecem, igualmente, as
sedições dos súditos, que decorrem da insolência dos magistrados, da sua
licenciosidade, da pobreza, da abjeção e da opressão desenfreadas.
E assim todos os males provenientes dos dois contrários, a riqueza e
a pobreza, que Platão e Salomão consideram como a origem dos males da
república: a avareza, a adulação, a fraude, os furtos, a sordidez da
pobreza; e a rapina, a arrogância, a soberba, a ociosidade, etc., da
riqueza.
Assim se destroem os vícios provocados pelo abuso do amor, como os
adultérios, a fornicação, a sodomia, os abortos, o ciúme, as discórdias
domésticas, etc.
Assim os males que procedem do excesso de amor dos filhos ou dos
consortes; a propriedade que elimina, como diz Santo Agostinho, as forças
da caridade; o amor próprio que ocasiona todos os males, como diz Santa
Catarina num diálogo; a avareza, a usura, a iliberalidade, o ódio do
próximo, a inveja dos ricos e dos grandes. Nós, ao contrário, aumentamos o
amor da comunidade e acabamos com os ódios despertados pela avareza, raiz
de todos os males, e com os conflitos, as fraudes, os falsos testemunhos,
etc.
Assim todos os males do corpo e da alma, provenientes do trabalho
excessivo para os pobres e do ócio para os ricos. Entre nós, as fadigas
são igualmente divididas.
Assim os males oriundos do ócio nas mulheres e que corrompem a
geração e a saúde do corpo e do espírito. Entre nós, elas se ocupam com os
exercícios e as virtudes que lhes são próprias.
Assim os males que nascem da ignorância e da estupidez. Em nossa
república, observa-se uma grande experiência de doutrina em cada coisa e
na própria construção da cidade, onde há imagens e pinturas que ensinam, a
quem olhá-las, todas as ciências, de forma quase histórica.
Assim se providencia maravilhosamente contra a corrupção das leis.
Finalmente, como evitamos em cada coisa os extremos, reduzindo todas
à justa medida na qual se encontra a virtude, não se pode imaginar
república mais feliz e mais fácil. Em suma, todos os defeitos que se notam
nas repúblicas de Minos (93), de Sólon, de Caronda, de
Rômulo (94), de Platão, de Aristóteles e de outros
autores, não se encontram na nossa, pois é bem protegida e felizmente
provida de tudo, tendo sido deduzida da doutrina das primalidades
metafísicas, com as quais nada é esquecido ou omitido. A primeira
dificuldade, segundo a qual não se pode alcançar exatamente a idéia de uma
tal república, está, pois, respondido que nem por isso se escreveu
inutilmente, porque o que se propõe é um exemplo que deve ser imitado
tanto quanto possível. Quanto à sua exeqüibilidade, está ela demonstrada
pela vida dos primeiros cristãos, entre os quais se estabeleceu a
comunidade ao tempo dos apóstolos, como o atestam São Lucas
(95) e São Clemente. Em Alexandria, observou-se o mesmo modo de viver,
ao tempo de São Marcos (96), como o atestam Filão
(97) e São Jerônimo (98). Tal foi a
vida do clero até Urbano I e também ao tempo de Santo Agostinho. Tal é,
agora, a vida dos monges, que S. Crisóstomo, considerando-a possível,
deseja que se introduza em toda a cidade de Constantinopla e que eu espero
se realize no futuro, depois da ruína do Anticristo, como nas minhas
profecias. Mesmo quem a negar aristotelicamente será constrangido a
admiti-la como possível no estado de inocência, embora não no presente. Os
padres, porém, a consideram praticável mesmo agora, pois Cristo nos
reduziu àquele primeiro estado. E, se Luciano, gentio e ateu, ridiculariza
Platão por ter imaginado uma república impossível, São Clemente, Santo
Ambrósio e São Crisóstomo o louvam. E estes, por sua doutrina e santidade,
podem bem antepor-se a mil Lucianos.
Segunda objeção. Atribuímos um tal modo de viver somente à capital.
Mas, as aldeias imitarão, depois, esse sistema, parcial ou totalmente, até
formarem uma província. Lugares adequados serão encontrados com facilidade
e, quando faltarem, variaremos a forma, de modo que, na parte mais alta da
cidade, fique o chefe, e nos apêndices semicirculares as habitações. Mas,
mesmo no plano, será bom o nosso modelo, desde que não o impeça a lama,
que pode ser evitada pelo calçamento das ruas e por aquedutos. Além disso,
para que os habitantes não sejam corrompidos pelo comércio, existem no
projeto os magistrados incumbidos desse mister. Para evitar as sedições
externas, há as fortalezas bem guarnecidas da metrópole e as milícias que
se movimentam continuamente para a defesa do império. De resto, servir a
probidade da cidade dominante é uma felicidade tão grande como a dos
ignorantes ao servirem o sábio e o probo. Cresce mais o império com essa
opinião de probidade do que com a força de Roma. Já sob Pompílio, era
considerado nefando atacar os inimigos com meios contrários à virtude.
Terceira objeção. Durará até a um dos períodos gerais das coisas
humanas que dão origem a um novo século: Porque, quanto à peste, às feras,
à fome, à guerra, providenciamos otimamente, na medida do possível, com a
virtude, ou, pelo menos o fizemos melhor do que se costuma fazer fora. Com
efeito, os ventos, pelas quatro ruas maiores, purgam a cidade, e onde as
casas o impedem, existem as janelas, colocadas de modo que possam
fechar-se às más exalações e abrir-se às salubres. Quanto ao número dos
habitantes, vede a metafísica. Afirmo que esta é uma via ótima, que deve
ser mais cuidada do que a duração.
Certamente, haverá pecados, mas não graves, como nos outros Estados,
ou pelo menos não tão grandes ao ponto de arruinarem a república, como
acontece com as ordens estabelecidas. Quanto ao que Aristóteles objeta a
uma tal república, será desfeito nos artigos subsequentes.
Quarta objeção. Afirmo que essa república, como o século de ouro, é
desejada por todos e reclamada por Deus, quando pedimos que a sua vontade
seja feita assim no céu como na terra. Se não é praticada, isso se deve à
maldade dos príncipes, que submetem os povos a si e não ao império da
razão suprema. O uso e a experiência demonstram, pois, a possibilidade do
que dissemos, sendo mais natural viver conforme à razão do que ao afeto
sensual, e virtuosa do que viciosamente, segundo São Crisóstomo. Os monges
são uma prova disso, e agora os anabatistas, que vivem em comum e que, se
observassem os verdadeiros dogmas da fé, maior proveito teriam com esse
sistema de vida. Se o céu permitisse que não fossem hereges e praticassem
a justiça como a professamos, seriam eles exemplo da sua verdade. Não sei,
porém, por que tolice recusam o melhor.
Quinta objeção. E, ao contrário, uma suprema felicidade viver
virtuosamente, como diz São Crisóstomo, e se cometes uma falta, logo a
corriges, antes de sofrer-lhe os efeitos. A licenciosidade é a causa dos
males, sendo feliz a necessidade que nos força ao bem. A nós, habituados
ao mal, é que nos parece duro esse gênero de vida, como aos jogadores e
aos discolos a vida dos bons cidadãos, e a estes a vida dos monges. Mas,
experimentai, e vereis que os religiosos nunca se revoltam pela severidade
da disciplina, e, quando isso acontece, é pelo comércio dos laicos, pela
ambição das honras e o amor da propriedade, ou pela libidinagem. Mas, em
nossa república, foram previstas e evitadas todas essas causas. Não segue,
pois, o exemplo daqueles.
Sexta objeção. Procuramos, igualmente, para a nossa república, fazer
tesouro das observações da experiência e da ciência de toda a terra. Para
isso, estabelecemos até peregrinações, comunicações de comércio e
embaixadas. E nem os monges se privam desses bens mudando muitas vezes de
cidade e de província, nem a ignorância da experiência se verifica nos
melhores monges, umas somente nos vulgares. Suas querelas são um meio de
melhor discutir as coisas; depois que se esclarecem, ficam tranqüilos
todos os virtuosos. Não acharás nenhum lugar em que mais se tenha feito
pela doutrina e a conservação das ciências do que nas ordens dos monges e
dos frades. Quanto aos monges antropomorfitas (99), que
se insurgiram contra Orígenes por instigação do maligno patriarca Teófilo,
nada obtiveram depois de um exato exame. É claro, porém, que tais sedições
não se verificarão na Cidade do Sol. O monaquismo (100)
foi instituído para o aumento da santidade e da ciência, e não para
agravar a submissão, como pretendem os hipócritas.
ARTIGO SEGUNDO
Se é mais conforme à natureza e mais útil à conservação e ao aumento
da república e dos particulares a comunidade dos bens externos, como
sustentam Sócrates e Platão, ou a divisão defendida por Aristóteles.
Primeira objeção. Contra a comunidade dos bens, no segundo livro da
Política, argumenta Aristóteles deste modo: nessa comunidade, diz ele, ou
os campos seriam próprios e os frutos comuns ou vice-versa, ou ainda
comuns tanto uns como os outros. No primeiro caso, quem tivesse mais terra
deveria trabalhar mais para cultivá-la e obter uma parte de frutos igual à
dos que não trabalhassem, o que provocaria discórdias e ruína. No segundo
caso, ninguém seria estimulado ao trabalho e os campos seriam mal
cultivados, porque cada qual pensaria mais em si do que nas coisas comuns.
Com efeito, onde há uma multidão de servos, o serviço é pior, cada qual
deixando para o outro o trabalho que deveria fazer. No terceiro caso,
aconteceria o mesmo e, além disso, um novo mal, pois cada qual desejaria
ter a melhor e a maior parte dos frutos e a menor das fadigas, de maneira
que, em lugar da amizade, só haveria discórdia e fraude.
Segunda objeção. Contra a comunidade dos bens úteis, objeta-se que
são necessárias mais classes de pessoas para o bom governo da república,
como soldados, artífices e governadores, segundo Sócrates; que, se todas
as coisas fossem comuns, cada um recusaria as fadigas da agricultura e
desejaria ser soldado, sendo que, em tempo de guerra, preferiria ser
agricultor, além de não combater sem estipêndio; que, em suma, todos
quereriam ser regedores, juizes ou sacerdotes. Dessa forma, honrando
alguns, deprimir-se-iam os outros, cabendo aos primeiros menor trabalho,
de forma que subsistiria a injustiça. Por conseguinte, é melhor dividir os
bens.
Terceira objeção. A comunidade destrói a liberalidade e a faculdade
de praticar a hospitalidade, de socorrer os pobres, porque quem nada
possui de seu de nada pode dispor.
Quarta objeção. É uma heresia negar a justiça da divisão dos bens,
sustentada por Santo Agostinho contra os que tinham em comum as mulheres e
os bens, sob a alegação de que assim viviam os apóstolos. Scot, no livro
De Justitiae et Jure, diz que o concílio de Constança (101),
condenou João Huss por negar que se pudesse ter alguma coisa em
particular. E Cristo disse: Reddite que sunt Caesaris Caesari
(102).
Em resposta, replicamos, em geral, com as palavras do papa São
Clemente na epístola 4, citadas por Graciano (103) no
cânone 2, questão I: "Caríssimos, o uso de todas as coisas que estão neste
mundo devia ser comum; por iniqüidade, porém, um diz que isto é seu, outro
aquilo, etc." E acrescenta que os apóstolos ensinaram e viveram de modo
que tudo fosse comum, inclusive as mulheres. Assim ensinam, igualmente,
todos os padres, ao comentarem o princípio do Gênese, segundo o qual Deus
não distribuiu nada e deixou tudo em comum aos homens, para crescerem,
multiplicarem-se e povoarem a terra. E também assim ensina Isidoro
(104), no capítulo do jus natural. Quanto a terem os
apóstolos vivido dessa maneira, como todos os cristãos primitivos, vê-se
por São Lucas, São Clemente, Tertuliano, Crisóstomo, Agostinho, Ambrósio,
Filão, Orígenes e outros. Esse sistema de vida restringiu-se, depois
somente aos clérigos que viviam em comum, como o atestam eles próprios e
São Jerônimo, Próspero (105), o Papa Urbano e outros.
Mas, sob o papa Simplício, mais ou menos no ano 470, foi feita pelo mesmo
a divisão dos bens da Igreja, de forma que uma parte coubesse ao bispo,
outra à fábrica, outra ao clero e uma aos pobres. Mais tarde, Gelásio,
papa pouco depois, e Santo Agostinho não quiseram ordenar clérigos, porque
estes punham tudo em comum. Mas, em seguida, para evitar os hipócritas que
ocultavam o que era seu, isso foi permitido, mas não de bom grado. É,
pois, uma heresia condenar a vida comum ou dizê-la contra a natureza. Ao
contrário, Santo Agostinho pensa que tomar a propriedade é uma razão de
maior esplendor. Assim, quer para a vida presente, quer para a futura, é
melhor a comunidade dos bens. E São Crisóstomo informa que esse gênero de
vida existiu entre os monges e ele o adota, insinuando-o e pregando-o a
todos. Ensina ainda, na homília, ao povo da Antióquia (106),
que ninguém é dono dos seus bens, mas apenas despenseiro, como o é o bispo
dos da igreja, sendo culpável todo laico que abusa dos seus bens sem
comunicá-los aos outros. Diz São Tomaz que somos donos da propriedade, não
do uso, pois que, em extrema necessidade, todas as coisas são comuns. Por
isso, se refletires bem, uma tal propriedade é antes um tributo pela
obrigação de reconhecer a má distribuição, o que é, aliás, confirmado por
São Basílio no sermão aos ricos e por Santo Ambrósio no sermão 81. São
Crisóstomo inculca-o em quase todas as suas homilias e, particularmente,
no capítulo 6, sobre São Lucas, onde se acham estas palavras: Nemo dicat
proprio a Deo percipimus omnia: mendacii verba sunt meum et tuum
(107). O mesmo afirma Sócrates na República de Platão
ou de Timeu (108), o mesmo Santo Agostinho no tratado
8o. sobre João, e o mesmo o poeta Cristiano:
Si duo de nostris tollas pronomina rebus, Proelia cessarent, pax sine
lite foret. (109)
Ovídio (110), nas Metamorfoses, I, põe esse
sistema de vida no século de ouro. Ambrósio, na carta L, sobre o salmo
118, diz: Dominus noster terras hanc possessionem omnium hominum voluit
esse communem; sed avaritia possessionum jura distribuit
(111). E, no livro de Virg., diz que a violência, o morticínio e a
guerra distribuíram as coisas aos hebreus carnais, e não aos levitas
(112), que representavam o cristianismo e o clero. São
Clemente, mais tarde, afirma que isso se deve à iniquidade dos gentios. O
mesmo Santo Ambrósio, no livro I dos Ofícios, capítulo 28, prova, com a
escritura e com a autoridade dos historiadores, que todas as coisas eram
comuns, tendo sido divididas por usurpação; e, no Hexam, V, ensina, com o
exemplo da república civil das abelhas, a vida em comum, tanto dos bens
como da geração, e, com o exemplo dos grus, desenvolve a vida comum numa
república militar. Jesus Cristo prova o mesmo com o exemplo dos pássaros,
que não possuem nada de próprio, nem semeiam, nem ceifam, nem dividem o
pasto; no entanto, como diz o jurisperito, jus naturale est id quod natura
omnia animalia docuit (113). É, pois, certo que, por
direito natural, todas as coisas são comuns.
Scot, no 4 das sentenças 15, responde que a comunidade é de direito
natural no estado de natureza, tendo sido tal direito derrogado com o
pecado de Adão. Falsa, porém, é essa resposta, porque, como diz São Tomaz,
o pecado não destrói os bens de natureza, mas apenas os de graça. Isso
ofende a natureza e a razão, mas não introduz um novo direito; portanto,
se a comunidade era de direito, só a injustiça poderia ter introduzido a
divisão. Eis porque também a glosa sobre o texto de São Clemente diz que
esta foi introduzida per iniquitatem, idest per jus gentium contrarium
juri naturali (114). Mas, como pode ser um direito, se
é contrario à natureza, que é a arte divina? Nesse caso, o direito seria
um pecado. Scot responde que isso se deve à iniqüidade, isto é, ao pecado
original, mas esse comentário é falso, porque como explicará ele as
palavras de Santo Ambrósio, que diz ter sido a divisão introduzida pela
avareza e pela violência? De resto, São Clemente diz que os apóstolos nos
fizeram voltar ao estado de jus natural, de onde resulta que o que foi
iniqüidade o é também agora, Caetano ensina que se tratava de uma
comunidade natural negativa, isto é, que a natureza não ensinou a divisão,
e não afirmativa, como se tivesse dito que se vivia em comum e não de
outro modo. E Scot, como de costume, adere a essa opinião, mas acrescenta:
"Como é, então, que a divisão provém da iniqüidade e da avareza, como
ensinam os santos, se a comunidade no estado de natureza era apenas
negativa?" Por isso, com mais razão ainda, ensina São Tomaz que o uso
comum é de direito natural, sendo a distribuição e a aquisição da
propriedade de direito positivo. E essa divisão não pode ser contrária à
natureza, porque essa propriedade é, no caso, de necessidade, e, em tudo o
que sucede, o necessário se torna comunidade, como ensina ao falar das
esmolas, e tudo o que excede as necessidades da pessoa e da natureza deve
ser dado, pois de outra forma não seriam condenados no dia do juízo os que
não aliviaram os necessitados. E, embora essa doutrina de São Tomaz pareça
justificar, até certo ponto, a divisão, só lhe reconhece, contudo, o
direito de distribuir e de aliviar, de onde se conclui, segundo a doutrina
de São Crisóstomo, Basílio, Ambrósio e do papa Leão (ser. V, de
Collectis), que os ricos são distribuidores e não donos das coisas; que,
se são senhores, só o são de distribuir e dar, como os bispos da parte da
Igreja; que, por conseguinte, a parte de que são senhores se limita à
comida e ao vestuário. E essa parte a possuem também os monges, como lhas
atribui e prova o papa João XXII nas Extrav. Uma vez que o monge e o
apóstolo comem de direito e não injustamente, têm eles igualmente o uso de
direito e não somente de fato, já que este último direito o tem o ladrão
quando come as coisas de outrem. Scot acha que esse papa errou, tendo
assim decidido pelo ódio contra os franciscanos (115),
pois os pontífices Clemente V e Nicolau III concedem aos franciscanos
somente o uso de fato, não de direito, como um convidado à ceia come
somente de fato e não de direito. Mas, Scot se engana e injustamente
condena um papa, pois os pontífices por ele citados não destroem o direito
de jus natural, mas apenas o direito positivo, e também São Tomaz pensa
que, nas coisas que se destroem com o uso, não se pode distinguir o uso do
domínio, como se vê no tratado do usufruto das coisas que se consomem com
o uso (livro 2). Eis porque esses pontífices não se contradizem entre si,
como ensina João XXII, mas, ao contrário, é herege quem nega o uso de
direito aos apóstolos e a Cristo, porque então não teriam comido de
direito, mas injustamente, como o ladrão. O ladrão tem o direito de fato,
mas na necessidade tem também o direito natural. De tudo isso resulta a
solidez da doutrina dos santos contra os tolos que põem a boca no mundo. O
convidado come de direito e o seu título é a doação, não menor que o
título de venda. Mas, pergunto: São os ricos obrigados a restituir o
supérfluo? a quem? aos pobres ou à república? Respondo que à república e
aos pobres, mas, para não haver lugar para disputa, porque não adquiriram
um direito positivo, digo que a Deus, a quem deverão prestar contas no dia
final, como ensinam São Basílio (116), Ambrósio e Leão.
Por conseguinte, com a nossa república, são tranqüilizadas as
consciências, eliminada a avareza, raiz de todo mal, bem como as fraudes
cometidas nos contratos, os furtos, as rapinas, a indolência e a opressão
dos pobres, a ignorância que invade também os engenhos mais bem formados,
porque fogem à obrigação quando pretendem filosofar, e as preocupações
inúteis, as fadigas, o dinheiro que mantém os negociantes, a
iliberalidade, a soberba e os outros males produzidos pela divisão: o amor
próprio, as inimizades, as invejas, as insídias, como já se mostrou.
Distribuindo-se as honras segundo as aptidões naturais, evitam-se os males
causados pela sucessão, pela eleição e pela ambição, como ensina Santo
Ambrósio falando da república das abelhas. É assim seguimos a natureza,
que é ótima mestra, como no caso das abelhas. A eleição de que fazemos uso
não é licenciosa, mas natural, sendo eleitos os que se distinguem pelas
virtudes naturais e morais.
Respondendo agora, em particular, à primeira objeção, digamos que
Aristóteles erra espontaneamente e de má fé, pois também para Platão os
fundos, os frutos e as tarefas são comuns. Em nossa república, as tarefas
são distribuídas pelos magistrados das artes, segundo a capacidade e a
força de cada um, e executadas pelos chefes das artes com toda a multidão,
como se vê no texto. Nada pode ser usurpado de alguém, nutrindo-se todos à
mesa comum e recebendo a roupa do magistrado do vestuário, segundo a
qualidade e as estações e conforme à saúde. E é também o que se verifica
entre os monges e os apóstolos. Portanto, Aristóteles tagarela
inutilmente. Não era o caso de examinar, no texto, o modo de distribuição
das roupas segundo as estações, o trabalho, a arte, a execução, etc., nem
ninguém encontrará nisso dificuldade, pois todas as coisas são feitas com
razão, de forma que cada um gosta de fazer aquilo que é conforme à sua
disposição natural. E é justamente o que se pratica na nossa república.
À segunda objeção, responda-se que cada um, desde a infância e
segundo as disposições naturais, é aplicado pelos magistrados às várias
artes, e quem quer que por experiência e por doutrina se revele ótimo é
preferido na arte para a qual é idôneo. Dessa forma, só os que forem
excelentes podem tornar-se supremos magistrados, de acordo com a ordem
observada no texto. Portanto, nem o soldado desejaria tornar-se capitão,
nem o agricultor sacerdote, pois os cargos são distribuídos segundo a
experiência e a doutrina, não por favor ou parentesco, mas adequados aos
conhecimentos. E cada um exerce a profissão no ramo em que se distingue.
Os primeiros magistrados não podem honrar uns e reprimir outros; não
governando arbitrariamente, mas seguindo a natureza, dão a cada um a
profissão conveniente. Como não possuem nada de próprio para poderem
violar o direito alheio com o fim de engrandecer os filhos, convém-lhes
agir bem para serem honrados. Eis porque, considerando-se todos como
irmãos, filhos e parentes, um igual amor se mantém por todos sem nenhuma
distinção. Ninguém combate mediante pagamento, mas por si, pelos filhos e
pelos irmãos. Possuindo cada qual com que viver bem, ninguém tem
necessidade de estipêndio, mas da honra que obtém dos irmãos por suas
ações valorosas. Os romanos, até à guerra de Tarracina
(117), combateram sem estipêndio e porfiavam em morrer pela pátria;
vindo, porém, o amor da propriedade, principiou a faltar a virtude.
Salústio e Santo Agostinho ensinam que eles alcançaram tanto império por
amor à comunidade. Citado por Salústio (118), diz
Catão: Publicae opes et privata paupertas, foris justum imperium, intus
indicendo animus liber, neque formidini neque cupiditati obnoxius, rem
Romanam auxere. Em nossa república, essas coisas se conservam muito
melhores pela comunidade dos bens úteis e honestos, sob a guia da
natureza.
Terceira objeção. Tanto Aristóteles como Scot falam
inconsideradamente, para não dizer impiamente. Não serão liberais os
monges e os apóstolos por não possuírem nada de próprio? A liberalidade
não consiste em dar o que se usurpou, mas em pôr tudo em comum, como
afirma São Tomaz. Podes ver, no texto, como se honram os hóspedes da
república e como se socorrem os miseráveis por natureza, pois não há,
entre nós, nenhum miserável por fortuna, de vez que todas as coisas são
comuns e todos irmãos, sendo indicados os mútuos ofícios com os quais se
mostra a liberalidade. E, se se insistir ainda a esse respeito, direi que
transformaram a liberalidade em beneficência, que é superior à primeira.
Quarta objeção. Scot argumenta, como de costume, com púnica fé, pois
o próprio Santo Agostinho, no capítulo 4 de haeres, e São Tomaz 2, 2
quest. 66, art. 2, ensinam que são hereges os que dizem não poderem ser
salvos os que possuem alguma coisa em propriedade, do mesmo modo que os
que sustentam dever usar-se o vago concúbito das mulheres, não porque
preguem a comunidade, mas porque constitui maior heresia negar a
comunidade, que os apóstolos e os monges observam, do que a divisão.
Concedamos, pois, que a Igreja reconheceu a divisão, antes tolerante do
que positiva e diretamente. Mas, como diz Santo Agostinho, foi porque era
melhor ter clérigos coxos do que mortos, isto é, proprietários do que
hipócritas. E o próprio Scot sustenta, depois, que a divisão foi
introduzida em virtude da negligência com que se tratavam as coisas comuns
e da cobiça do próprio interesse, cuja raiz sendo má, a divisão não pode
ser boa, mas apenas permitida, não desejada pela natureza. Como ousa,
pois, chamar de hereges os que seguem a natureza e louvar os que pregam,
com Aristóteles, a permissão introduzida pela corrupção? Digamos que a
Igreja pode conceder a divisão e permiti-la, do mesmo modo que se toleram
as meretrizes como um mal menor e os coxos de preferência aos mortos, no
dizer de Santo Agostinho. Por conseguinte, a maneira pela qual a Igreja
concedeu a propriedade já foi explicada como tendo sido apenas uma
tolerância e não o uso do supérfluo. Alexandre, Alonso, Thomas Valden,
Ricardo e o Panormita (119) consideram herege quem
afirma serem os clérigos verdadeiros donos dos bens da Igreja, e concedem
a estes somente o uso. São Tomas dá-lhes apenas o domínio da pequena
porção que consomem, pois não passam de usufrutuários dos fundos, não
podendo deixá-los aos filhos nem aos amigos. Assim, o que se disse dos
laicos o foi superiormente. Os ignorantes estão prontos a chamar de herege
todo aquele que eles não podem convencer com razões. A palavra de Cristo:
Reddite quae sunt Caesaris Caesari só torna o mesmo senhor de dispensar,
ou de nada, pois nada pertence a César. Que possui ele que não o tenha
recebido? Todas as coisas, portanto, são de Deus, sendo César apenas um
administrador. Veja-se, na Monarquia do Messias, o que se escreveu a esse
respeito. Diz ainda Oristo: Reges gentium dominantur corum, vos autem non
sic, sed qui major est fiat minister. Eis porque, com justiça, São Tomaz
prega a propriedade de administração e concede a comunidade do uso. O papa
é o servo dos servos de Deus, e o imperador o servo da Igreja.
ARTIGO TERCEIRO
Se a comunidade das mulheres é mais conforme à natureza e mais útil à
geração e, portanto, a toda a república, do que a propriedade das mulheres
e dos filhos.
A Aristóteles parece mais conveniente a propriedade e nociva a
comunidade, à qual opõe:
Primeira objeção. Sócrates pensa que o amor aumentaria entre os
cidadãos se cada um considerasse os velhos como seus genitores, estes os
jovens como filhos e os iguais como irmãos. Ao contrário, porém, isso
destruiria o amor, porque, ou se consideram todos coletivamente, ou é
verdade que todos os velhos são pais de todos os jovens, mas, neste caso,
o amor de cada velho, em particular, seria bem pequeno em relação àqueles,
como uma gota de mel em muita água, e logo se extinguiria, pois ninguém
conheceria os próprios filhos e nem estes o seu pai.
Na verdade, se se reunissem os desejos de forma que cada um se
considerasse pai de cada um, isso aumentaria o amor, mas é impossível que
alguém tenha mais de uma mãe e de um pai. Além disso, cada um conheceria
os próprios filhos pela fisionomia e, portanto, teria mais afeto por
estes.
Segunda objeção. Surgiriam discórdias entre as mulheres e, muitas
vezes, entre os pais e os filhos incertos.
Terceira objeção. No vago concúbito, não se conhece a prole, e, no
entanto, é natural no homem o desejo de conhecer a própria descendência em
que se perpetua.
Quarta objeção. Verificar-se-iam adultérios, fornicações e incestos
com as irmãs, as mães e as filhas, além dos ciúmes pelas mulheres e das
contendas por causa das que se desejassem abraçar.
Quinta objeção. Scot objeta as palavras: Erunt duo in carne una
(120). Não se podem, pois, ter mais mulheres sem
licença divina.
Sexta objeção. A heresia dos nicolaitas consistiu em pôr as mulheres
em comum.
Primeiramente, respondamos, em geral, com a autoridade de São
Clemente no cânone citado: Conjuges secundum Apostolorum doctrinam
communes esse debere. (121) Como, porém, isso seria
contra a honestidade cristã, deve admitir-se a glosa nesta passagem
expressa: Communes quo ad obsequium non quo ad thorum.
(122) E, na verdade, como o atesta Tertuliano, assim viveram os
primeiros cristãos, que possuíam tudo em comum, exceto as mulheres para o
tálamo, pois é patente que as mulheres serviam a todos. Mas, os nicolaitas
introduziram a comunidade no tálamo, e também eu condeno essa heresia, mas
sustento a comunidade nas funções, embora não no governo político. Com
efeito, a mulher não pode ser magistrado nem ensinar aos homens, mas
somente entre as mulheres e no mister da geração. São lhes cometidas as
artes que se executam com pouca fadiga, ou ainda a guerra em defesa das
muralhas. E lemos que as mulheres espartanas defenderam a pátria na
ausência dos maridos, sendo que, entre os animais, as fêmeas se batem como
os machos. Na Ásia, outrora, e atualmente na África, as amazonas fazem a
guerra. Mas, Caetano, no livro de Pulchro, diz que isso não é conforme à
natureza, tanto assim que elas precisavam cortar o seio direito para
poderem manejar a lança. Mas, com Galeno (123) e talvez
com maior fundamento, afirmo que o faziam para que a força que servia para
nutrir o seio direito passasse a reforçar o braço direito. E nem o seio
direito impede, em absoluto, de manejar a lança, mas apenas de apoiá-la no
peito. Além disso, há outras maneiras de combater que convêm às mulheres,
como se vê entre os africanos. Aristóteles não pode recusar esse argumento
das amazonas. De resto, não as envolvemos em todos os serviços de guerra,
mas somente na defesa das muralhas e nos prontos socorros. Não queremos
formar com elas uma república de amazonas, pois nos limitamos a
fortificá-las, para servirem à defesa e à prole. Aristóteles rejeita o
argumento das fêmeas que combatem entre as feras, sob a alegação de que
estas não têm a preocupação das coisas familiares, como sucede com as
nossas, que só para isso foram destinadas pela natureza. Engana-se, porém,
porque as feras cuidam dos seus filhotes e procuram para eles alimento e
defesa. Por outro lado, muitos homens se ocupam com as coisas familiares,
como acontece, sobretudo, entre os monges. Não é, pois, contra a natureza,
como ele o ensina.
Diremos, ainda, que a comunidade das mulheres para o concúbito não é
contra o direito natural, sobretudo como foi estabelecida por nós. Ao
contrário, é conforme a ele e, por conseguinte, não é heresia ensiná-la
num estado dirigido por puras luzes naturais, depois de conhecido o jus
divino e eclesiástico positivo, da mesma forma que não é heresia comer
carne todos os dias e ensinar, no estado natural, que isso é útil. Mas,
depois da promulgação da lei eclesiástica sobre a proibição de alimento,
em certos dias, para a abstinência cristã, é uma heresia fazer uso dela e
ensinar que isso é lícito. Prova-se, ainda, que todo pecado contra a
natureza destrói o indivíduo ou a espécie, ou tende a essa destruição,
como ensina São Tomaz. Por conseguinte, os assassínios, o furto, a rapina,
a fornicação, o adultério, a sodomia, etc., são contra a natureza, porque
ofendem o próximo, ou impedem a geração, ou tendem a isso. Mas, a
sociedade comum das mulheres não destrói as pessoas, nem impede a geração;
e não é contra a ordem, mas, ao contrário, auxilia grandemente o
indivíduo, a geração e a república, como se depreende do texto.
Deve, pois, notar-se que há três espécies de vago concúbito.
Uma, pela qual cada um pode ligar-se a quem desejar e como quiser, o
que é contra a natureza racional do homem, embora seja normal em alguns
animais, como entre os cavalos, os burros, as cabras, etc. Eis porque a
natureza providencia para que esses animais só em épocas determinadas
sintam os estímulos à geração. Como os homens estejam sempre dispostos
para esse fim, poderiam ligar-se com cada uma, enfraquecendo-se
continuamente; procurariam todos as mais belas e estas, pela confusão dos
semens e pela ação contrária, não conceberiam, como acontece com as
meretrizes. Quanto às mulheres feias, excitadas pelo ciúme e pela dor,
imaginariam todos os males contra as bonitas. Por esse motivo, esse vago
concúbito é uma heresia e uma impiedade contra a natureza, tendo sido
justamente a dos agnósticos (124) e dos nicolaitas, bem
como de alguns hereges modernos e de alguns religiosos da seita de Maomé
na África, que consideram lícito unir-se a cada uma e até em público.
Outro gênero de concúbito vago é o que se segue às núpcias legais,
pela ligação em épocas determinadas, nas quais é lícita, nas trevas, a
união com quem a sorte oferece. Foi o que se descobriu, recentemente, na
Gália e em certas regiões da Alemanha, tendo acontecido que muitos, depois
de receberem o sinal, reconheceram que se haviam unido às próprias mães.
Esse sistema é, também, contra a natureza e, certamente, contra a lei
divina positiva, pois não tem por escopo a geração, mas unicamente a
sensualidade. Dessa forma, a união vaga dos animais é ainda melhor, porque
os animais geram, não sendo a sua união contra a natureza, de vez que é
produzida a prole. Nessas uniões de hereges, ao contrário, a geração é
puramente acidental, sendo a luxúria seu único escopo, uma vez que, para a
geração, bastam os maridos em casa.
A terceira modalidade de concúbito é, finalmente, a que descrevemos
numa sociedade quase natural, na qual só geram os mais robustos e os
melhores, sob a direção dos médicos e dos magistrados, em épocas próprias
para geração, de acordo com a astrologia, com temor e obséquio à
divindade, e somente depois dos 25 anos e até aos 53. Para as mulheres,
prescrevemos também um tempo no qual são para isso mais aptas. Por outro
lado, destruímos as uniões inconvenientes, isto é, as que se fazem
exclusivamente em atenção às riquezas, das quais a república não obtém
prole ou, quando a obtém, é uma prole covarde, disforme e imbecil, como se
vê pela experiência e foi notado por Pitágoras, supremo filósofo.
Impedimos, igualmente, a debilidade produzida pelo excesso de coito ou
pelas moléstias de esterilidade. Com efeito, se uma mulher não concebe com
este, pode conceber com aquele, sendo a mudança justamente o que a
natureza nos ensina nesse caso. Já o princípio que as nossas leis
estabeleceram de que cada um só tenha relações com a própria mulher, mesmo
quando esta seja estéril, não pode ser facilmente aprovado pelo filósofo
apenas com as luzes naturais. Eis porque me limito a sustentar que os
instituidores de uma república sob o regime da comunidade das mulheres não
pecam no estado das puras luzes naturais, a não ser que a revelação ensine
que assim não se deve praticar. Pela mesma razão, Durando e outros
sustentam que nem mesmo a fornicação é contra a lei natural, e muitos
teólogos confessam que a lei positiva não a proíbe. Quanto à opinião de
São Tomaz, que a considera contrária à geração e educação, não pode ser
sustentada quando se sabe que a mulher é estéril. Todavia, estou de acordo
com São Tomaz num ponto: através de longas deduções, é possível prová-lo
exclusivamente com a razão, mas não torná-lo conhecido de todos. Assim,
Sócrates não pecou bebendo veneno, constrangido pela lei, embora os
teólogos provem ser isso um pecado, porque ninguém pode ser obrigado pela
lei a agir contra si próprio. Mas, essas sutis deduções, nascidas da luz
evangélica, não podiam ser conhecidas pelos antigos filósofos, os quais
provaram, ao contrário, que era lícito a alguém matar-se por si, sendo nós
os donos da própria vida, como o estimaram Catão, Sêneca
(125) e Cleômenes. Sustento, por conseguinte, que a comunidade das
mulheres, da forma pela qual a consideramos, não é contra o direito
natural e, se o é, não pode sabê-lo o filósofo apenas com as luzes
naturais. E que isso não se deduz diretamente do direito natural, como
conclusão imediata, mas somente como dedução remota e, além do mais,
fundada sobre o direito positivo, que pode variar. As razões de
Aristóteles não nascem, pois, da natureza da coisa, mas exclusivamente da
inveja que ele tinha de Platão, tanto mais quanto ele próprio recorda
muitas nações que viveram desse modo. Vem, igualmente, em nosso apoio, São
Tomaz, que, na 2, 2 quest. 154, art. 9, confessa que nenhuma conjunção é
contra a natureza, salvo a do filho com a mãe e a do pai com a filha, pois
que, segundo Aristóteles, os próprios cavalos a repelem. Eu próprio vi, em
Montedoro, um cavalo que não queria unir-se com a mãe. E assim é, não
porque não resulte a geração, mas por uma reverência natural. No entanto,
segundo o testemunho de Tolomeu, a união com as mães era um costume comum
entre os persas. Entre os animais, os galináceos e muitos outras praticam
o mesmo. Apesar disso, na república, evitei que as mães se unissem aos
filhos e os pais às filhas, embora este último caso seja menos contra a
natureza. Também Caetano prova, apoiado no espírito de São Tomaz e na
razão natural, que a união com a irmã, ou com os afins e consangüíneos,
não é contra o direito natural, mas apenas contra o legal; que é um
preceito judicial, não moral, a proibição dos outros graus; que os filhos
de Adão se uniram com as irmãs, assim como os patriarcas Abraão
(126) e Jacó (127), do primeiro dos
quais Sara era irmã. E S. Tomaz aduz duas razões dessas proibições, a
saber: o respeito aos parentes, para que pudessem viver conjuntamente sem
escrúpulo e as amizades se multiplicassem por meio dos matrimônios, e a
sensualidade, a fim de que não se tornasse mais doce com o próprio sangue.
Segundo Caetano, essas razões decidiram também da lei cristã. Mas, na
república solar, não se verificaram, pois as mulheres moram separadamente
e a união só se verifica de acordo com a lei, os tempos e os lugares
prefixados. Assim, o que se estabelece na república solar, para evitar a
sodomia ou um mal maior, é igualmente estabelecido pela religião cristã,
pois o marido pode, sem pecado, servir-se até da mulher grávida, com o fim
de extinguir o desejo e não para a geração. Providenciei para que o sêmen
não se perdesse e dei todos os preceitos para a conservação da república.
Quanto aos demais, não são reprovados pelos próprios filósofos segundo o
direito natural, sendo que Aristóteles, em benefício da saúde, recomenda o
coito aos que não geram, do mesmo modo que Hipócrates e outros, a fim de
evitar males piores.
Respondo, agora, em particular, à primeira objeção. Aquele todos pode
ser tomado nos dois sentidos, porque todos, até a uma certa idade,
determinada no texto, são pais de todos coletiva e separadamente: o
primeiro é verdadeiro segundo o ato natural, o outro segundo a caridade
natural. Nem por isso diminui a caridade, mas só a cobiça e a avareza,
porque o homem, sob o regime da divisão, tende a amar os próprios filhos
mais do que convém e a desprezar os alheios além da medida. Por
conseguinte, o homem sábio ama mais os melhores, mesmo que sejam alheios,
e se preocupa mais com os maus, para melhorá-los. Com efeito, é
desagradável ver tantas deformidades no gênero humano: horrorizamos os
coxos, os cegos, os miseráveis, porque são do nosso gênero e representam a
cada um a própria infelicidade Pela comunidade dos filhos, dos irmãos, dos
pais, das mães, providencia-se de modo que diminua o excessivo amor
próprio, que é a cobiça, e aumente o amor comum, isto é, a caridade. É por
isso que diz Santo Agostinho: Amputatio proprietatis est augmentum
caritatis (128). E, na verdade, é melhor crer em Santo
Agostinho do que em Aristóteles. Com o primeiro está, igualmente, São
Paulo (129), que diz: Caritas non querit quae sua sunt
(130), antepondo as coisas comuns às próprias e não as
próprias às comuns. Na união dos monges, observa-se o mesmo: não possuindo
nada de próprio, o monge ama a comunidade como o pé a todo o corpo; e, se
algo possui, é como um membro amputado ou um pé cortado, só se preocupando
com o que é seu. O mesmo acontece na república romana: quando os cidadãos
eram pobres e a república rica, todos queriam morrer pela pátria; quando,
porém, os cidadãos ficaram ricos, cada qual tornou-se capaz de matar a
própria pátria em benefício próprio. Aduz o Apóstolo o exemplo dos membros
e do corpo, o mesmo ensinando Ambrósio e Crisóstomo. Por conseguinte, o
amor, na comunidade, não seria como uma gota de mel em muita água, mas
como um pequeno fogo, em muita estopa. Porque o amor é uma das
primalidades e, por natureza, difusivo como o fogo. Só se é feliz, na
sociedade de muitos, pela fama, pela difusão do nome, pela memória e pelo
maior número de auxílios que se recebem.
Separadamente, embora filho de um só, cada um pode ser amado por
todos os que formam um só na caridade. E é assim que o tio, por se
considerar de uma mesma família, ama os sobrinhos, embora estes não tenham
sido gerados por ele. E quanto ao papa e aos cardeais, quem não vê quanto
amam os sobrinhos e consangüíneos, que eles não geraram? Amamos os amigos
e os filhos dos amigos, do mesmo modo que os velhos, nos mosteiros, amam
os noviços, sobretudo os virtuosos, desprezando os inimigos da caridade.
A fisionomia engana, pois nem sempre os filhos se parecem com o pai,
mas muitas vezes com os estranhos. De pouco obstáculo seria, aliás, essa
pequena propensão em nossa república, onde tudo é ordenado segundo a lei
da natureza e do mérito. Jacó também amou mais José, assim como outros
amaram mais a outros Isso não prejudicaria a comunidade nem a caridade. Os
filhos, na comunidade, não conjurarão entre si, pois vivem todos sob a
mesma disciplina. As santas mulheres dos patriarcas, como Raquel e Lia,
consideravam também seus os filhos das criadas. Aristóteles, porém, não
conhece tal caridade.
Segunda objeção. Nega-se a conseqüência, quando o todo é governado
segundo as regras e a ciência dos médicos, das matronas e da astrologia.
Pela posição do céu, segundo São Tomaz (Polit. 5, lect. 13), conhecem-se
as inclinações morais que ela origina. Os nossos solares considerariam
ilícita a união por mero prazer e por sanidade, casos nos quais
providenciaram de outra forma. Quanto às rixas, veja-se o texto.
Terceira objeção. Como todos são membros de um mesmo corpo,
consideram-se os jovens menores como filhos, sabendo todos perpetuar-se
melhor na comunidade que nos filhos próprios. Além disso, como todos
ensinam, viver a fama que nos é proporcionada pelas boas obras é
preferível a viver a que temos nos filhos. Com efeito, os filósofos
conquistam filhos com o sêmen de sua doutrina e não com o sêmen carnal. E
nem os piolhos, por nascerem em nós, são nossos filhos. Nem os verdadeiros
filhos de Abraão são, agora, os judeus, mas os cristãos. Buscamos a
eternidade em Deus e na república uma vida feliz, como ensina Ambrósio.
Nem os animais conhecem os filhos depois de crescidos, o que não se dá
diretamente, mas só indiretamente, por natureza.
Quarta objeção. Digamos, com Caetano e São Tomaz, que só é incesto
contra a natureza o que é cometido pela mãe, e nós o evitamos na
república; com as irmãs, é apenas legal, e, onde não há essa lei, não há
incesto nem adultério algum. Porque o adultério ou é natural ou é legal: o
natural, como ensina Santo Ambrósio no 5 Hex., cap. 3, se observa entre
animais de espécie diferente, o burro e a égua por exemplo; o legal se
verifica quando alguém se serve da mulher de outrem, coisa que a lei
proíbe, exceto em nossa república, onde essa lei não existe: há geradores
públicos, mais úteis para essa função, não havendo, portanto, adultério,
nem prole adulterina, nem união ilegal. Assim, entre os monges, não
pratica um furto quem come pão, porque todas as coisas são comuns. O
adultério não consiste na sensualidade; seria, porém, adúltero o marido
que se servisse de mulher alheia somente por prazer. No entanto, agora, a
lei a torna sua e só prejudicaria a república quem dela se servisse contra
a regra, do mesmo modo que rouba os bens do mosteiro o monge que usurpa as
coisas comuns sem permissão. Mas, dir-se-á, São Tomaz ensina também que
todos os preceitos do Decálogo são preceitos naturais. Responde-se,
instituída a divisão: é que o fruto não existe sem estar estabelecida a
divisão dos bens. Outros doutores, não todos, sustentam que aqueles
preceitos são de direito natural. Na nossa república, porém, não há
divisão de propriedade, mas somente de uso, com o fim de manter o engenho
e a força dos cidadãos. Não se, reconhece, pois, que a fornicação seja
pecado só pela natureza das coisas, e nem na República do Sol há
fornicação, uma vez que há a comunidade. Quanto às demais torpezas, o
ciúme e os conflitos, não podem verificar-se onde se regulam as coisas
segundo uma lei e uma disciplina agradável a todos. E nada do que é
próprio dos animais e de certos hereges existe aqui. Veja-se o texto.
Quinta objeção. Se fosse de direito natural ter uma só mulher, o
próprio Deus não nos poderia concedê-la, segundo São Tomaz. Mas, Jacó toma
duas irmãs, Davi cinco mulheres, Salomão (159) setecentas, e quase todos
os patriarcas tiveram mais mulheres. E não se veja nisso nenhuma licença,
embora assim se costume julgar, pois claro que a pluralidade das mulheres
não é contra a natureza. Todos os animais, exceto talvez a rola e o pombo,
que se une somente à irmã, conjugam-se com mais fêmeas. E, nessa
república, que se governa com as leis naturais, e não com as reveladas,
isso não podia ser conhecido. Ao contrário, a natureza ensina que quem não
gera com uma deve unir-se a outra: foi o que Sara pediu a Abraão, desde
que não houvesse revelação contrária, sendo que Lia e Raquel deram ao
marido as próprias criadas. E como poderão os solares saber se isso é
contra a natureza, quando nem os homens nem os animais podem descobri-lo?
Além disso, os nossos cidadãos não possuem nem uma nem muitas, mas cada
qual, na época prescrita para a geração, se aproxima daquela que a lei lhe
destina para o bem da república. E não geram para si, mas para a
república: nem mesmo nós, pois o pai, entre nós, não tem sobre o filho
tanto poder quanto a república, de vez que a parte é pelo todo e não o
todo pela parte. Se, portanto, o todo cuida da totalidade na república
solar, sem confiá-la aos particulares, isso dá bons resultados. O marido
que se une à mulher por lascívia, quando lhe apraz, produz uma prole
imbecil e degenerada. Preocupamo-nos em possuir uma ótima geração nos
nossos cavalos, não para a nossa espécie. O próprio Aristóteles considera
contra a natureza o cruzamento que se verifica quando alguém, de ânimo
servil, procura ligar-se a mulheres generosas, e de fato a estas se une
como bem lhe parece. E São Crisóstomo, no livro do sacerdócio, reprova, de
modo figurado, o bispo ignorante que se une à Igreja generosa.
Disse o Senhor: Erunt duo in carne una. É uma verdade e é o que se
observa em nossa república, pois Deus não ensinou, com isso, que ninguém
não devesse unir-se senão a uma. Do contrário, nem Jacó teria tomado
simultaneamente duas mulheres, nem, morta uma, lhe seria lícito tomar
outra. Assim, pois, quando de dois se faz uma carne, é para que da mistura
dos semens nasça uma prole. E Santo Ambrósio diz, com São Paulo, que não
teria conhecido esse pecado se a lei não o ordenasse.
Sexta objeção. A heresia dos nicolaitas consistia em que admitiam ser
lícito a cada um unir-se a cada uma como bem lhe parecesse, o que é
contrário ao direito natural e impede a geração, como já se disse. Na
república solar, porém, a união obedece às regras da filosofia e da
astrologia, de forma tão ordenada que a geração resulte melhor e mais
numerosa. É, pois, uma união conforme à natureza, só se tornando heresia
depois de condenada pela Igreja. Hortênsio, ou Catão, homem sapientíssimo
e doutíssimo, emprestou a própria mulher a Bruto para ter prole dela, como
se aquele rígido estóico, assim procedendo, quisesse ensinar que isso
estava de acordo cem a ordem natural. Como é, então, que os habitantes
solares, orientados apenas pelas luzes naturais, podem saber que, a não
ser a nossa forma de matrimônio, todas as outras constituem pecado, quando
os próprios hebreus e os romanos admitiram o divórcio, os filósofos
reconheceram a permuta, e Sócrates e Platão assim nos ensinaram?
Aristóteles não os censura por se afastarem do direito natural, mas porque
isso não lhe parece útil; ao contrário, ele informa que algumas nações
viveram dessa maneira. Concedo, pois, que se trate, agora, de uma heresia
na Igreja cristã, mas sustento que não basta a guia da natureza para se
reconhecer nisso um mal, quando não se procede de modo bestial ou como os
nicolaitas. Afirma São Tomaz que o matrimônio é contra a natureza quando
não favorece a prole e a sociedade. Ora, em nossa república, ao contrário,
a união é sumamente favorável a ambas.
Os argumentos aduzidos por Aristóteles contra a comunidade, segundo
os quais esta é supérflua, como se alguém pretendesse mostrar-se por um só
pó, ou tirar harmonia de uma só corda, são argumentos pueris e contrários
à caridade e à república dos monges e dos apóstolos, que, nesse caso,
deviam ser condenados, pois tinham um só coração e uma só alma, e não
diziam que qualquer coisa fosse própria, mas que possuíam todas as coisas
em comum.
Por conseguinte, essa unidade não destrói a. pluralidade, mas a
fortifica pela união, não já de um só homem, mas de todos os estados e
condições. É o que não obtém Aristóteles em sua república. Não é de uma só
corda, mas de várias, que eles tiram a harmonia. Aristóteles não
estabelece senão a discórdia, quando compõe a sua república de dois
contrários. Nós, ao contrário, temos a união como um carme, uma vez que
todas as coisas concordam entre se, ao passo que Aristóteles não faz senão
compor o seu carme de dois pés contrários e discordes, como se mostrou no
exame da sua república. A nossa é, pois, totalmente apostólica, quando
estabelece a comunidade, não por prazer, mas por obséquio, como se vê em
nosso diálogo.
NOTAS
(1) "A Filosofia Demonstrada pelos Sentidos".
(2) "Pródromo da Filosofia em Instauração".
(3) "Os Dogmas da Filosofia. Universal".
(4)."As Quatro Partes da Filosofia Real".
(5) Thomas More (1478-1535). Nascido em Londres. Grande chanceler da
Inglaterra sob o reinado de Henrique VIII. Autor da Utopia romance
político e social. Morreu decapitado por não ter continuado fiel ao
catolicismo e não ter querido reconhecer o poder espiritual do rei.
Beatificado em 1886.
(6) Platão (429.348 a. C.). Célebre filósofo grego, nascido em Atenas.
Discípulo de Sócrates, fundou a escola acadêmica. Expôs suas doutrinas nos
Diálogos, que trazem os nomes dos mais ilustres interlocutores: Pedro,
Protágoras, Timeu, etc. Escreveu várias obras sobre questões políticas e
sociais, destacando-se a República.
(7) Ordem religiosa baseada no serviço hospitalar.
(8) Ilha do mar das Índias, hoje Ceilão.
(9) Célebre geômetra, morto na tomada de Siracusa pelos romanos.
(10) Famoso matemático de Alexandria.
(11) Fantástica ave da Arábia, da qual, segundo a lenda, só existia um
exemplar. Tinha o pescoço dourado, o corpo vermelho e a cauda azul e
rósea. Ao atingir 500 anos, impregnava a mata de aromas, deixava-se
queimar pelo sol e ressurgia.
(12) Profeta, general e legislador dos hebreus. Autor dos cinco primeiros
livros (Pentateuco) da Bíblia: Gênese, Êxodo, Levítico, Números e
Deuteronômio.
(13) Divindade egípcia.
(14) Pai dos deuses, senhor do Olimpo.
(15) Deus dos viajantes, dos ladrões e dos mercadores.
(16) Legislador espartano.
(17) Segundo dos sete reis de Roma: Rômulo, Numa Pompílio, Tulo Hostilio,
Anco Márcio, Tarquinio Prisco, Sérvio Túlio e Lúcio Tarquinio (o Soberbo).
(18) Filósofo grego, nascido em Samos, no ano 580 a. C. Admitia a
imortalidade e a responsabilidade da alma, o número como fundamento das
coisas, a Terra no centro do universo, etc. Morreu em Metaponto, mais ou
menos no ano 500 a. C.
(19) Escritor e legislador ateniense do VI século.
(20) Legislador de Túrio.
(21) Filho de Ínaco, rei de Argos.
(22) Maomé (570-632). Profeta árabe, fundador do islamismo (doutrina da
"salvação"). Autor do Corão, cujo dogma é a crença num deus único, do qual
Maomé é o profeta. Toda a moral maometana procura basear-se nas leis
naturais.
(23) César, Caio Júlio (100.44 a. C.). Grande escritor, general e ditador
romano. Autor dos Comentários sobre a Guerra Gálica. Morreu assassinado no
Senado.
(24) Alexandre Magno, filho de Felipe e rei da Macedônia.
(25) Rei do Epiro (hoje, Albânia), célebre por suas guerras contra os
romanos.
(26) Famoso general cartaginês.
(27) Célebre filósofo, discípulo de Platão e mestre de Alexandre da
Macedônia.
(28) Santo Agostinho, (356-430). Grande padre da Igreja romana. Autor de
numerosas obras: As Confissões, A Cidade de Deus, etc.
(29) 0 primeiro dos doze signos do Zodíaco: Áries (Carneiro), Taurus.
(Touro), Gemini (Gêmeos), Câncer (Caranguejo), Leo (Leão), Virgo (Virgem),
Libra (Balança), Scorpio (Escorpião), Sagittarius (Sagitário),
Capricornius (Capricórnio), Aquarius (Aquário) e Pisces (Peixes).
(30) Manfredo (1232-1266). Filho de Frederico II. Rei de Nápoles e da
Sicília. Combatendo contra Carlos d 'Anjou, morreu na batalha de
Benevento.
(31) São Tomas de Aquino (1225-1274). Doutor da Igreja, fundador do
tomismo. Autor da Summa Theologica, enciclopédia filosófica na qual
sustenta o primado da inteligência sobre a vontade, em oposição a Duns
Scot
(32) Bispo e mártir, da Igreja.
(33) Sócrates (469-339 a.C.). Fundador da filosofia. Não deixou obras,
encontrando-se sua doutrina nas obras dos discípulos, sobretudo Platão.
(34) Escritor eclesiástico, natural de Cartago.
(35) Catão, M. Pórcio (239-149 a.C.). Político e escritor romano.
(36) Sectários do heresiarca Nicolau.
(37) Filósofo do Lácio.
(38) Povo constituído exclusivamente de mulheres da Capadócia e da Cítia.
Participavam da guerra e, para o porte das armas, cortavam o seio direito.
Segundo Amiano Marcelino, foram as amazonas as primeiras a utilizar os
cavalos nas campanhas guerreiras.
(39) Sectários do bramanismo, religião da Índia, baseada na divisão em
castas e na transmigração da alma. Brama, Visnu e Siva constituem a
trindade divina.
(40) Seguidores da escola de Pitágoras, segundo a qual o número é o
princípio essencial de todas as coisas.
(41) Capitão dos hebreus, sucessor de Moisés.
(42) Rei dos hebreus.
(43) Judeus descendentes de Macabeu, martirizados ao tempo de Antíoco
Epífano.
(44) Sobrenome de um ramo da família Cornélia, cujos membros mais famosos
foram Públio Cornélio Cipião (o Africano) e Cipião Emiliano, vencedores
dos cartagineses.
(45) Pagãos.
(46) Deus dos exércitos.
(47) Rei da Tessália, filho de Peleu e da deusa Tetis. Conta a lenda que
sua mãe, para torná-lo invulnerável, mergulhou-o no rio Styx, segurando-o
pelo calcanhar, que ficou sendo, assim, o único ponto vulnerável de
Aquiles. Com efeito, foi morto por Paris, que lhe lançou uma seta no
calcanhar, vindo dai a expressão calcanhar de Aquiles.
(48) Rei da Ligúria, que chorou tanto a desgraça do seu amigo Paetonte,
morto por Júpiter, que se transformou num cisne.
(49) Ramo da raça mongólica.
(50) Poema relativo à agricultura.
(51) Quarto planeta do sistema solar e o mais próximo da Terra.
(52) 0 mais brilhante dos planetas, situado entre Saturno e Marte.
(53) Constelação boreal.
(54) Poema pastoril.
(55) Herói, filho de Júpiter e de Alemena, celebrado por sua força e por
seus doze extraordinários trabalhos.
(56) Duns Scot (1274-1308). Teólogo inglês, cognominado o Doutor Sutil
Adversário de São Tomas de Aquino. Foi um dos mais brilhantes intérpretes
da filosofia escolástica. Defensor do "realismo".
(57) Poeta elegíaco, de Cirena, morador de Alexandria ao tempo de Tolomeu
Piladelfo.
(58) Lei mosaica cujo princípio é: olho por olho, dente por dente.
(59) Supremo sacerdote dos hebreus, irmão de Moisés.
(60) Cláudio Tolomeu, astrônomo grego. Viveu mais ou menos no ano 160 a.
C., em Alexandria. O seu sistema, segundo o qual a Terra era fixa, foi
seguido até Copérnico
(61) Astrônomo polaco (1473-1543). Autor do livro sobre a rotação dos
astros em torno do Sol.
(62) Aristarco de Samos, astrônomo do III século a.C. Foi o primeiro a
afirmar que a Terra gira em torno do seu eixo e em torno do Sol. Por essa
opinião foi acusado de perturbar o sono dos deuses.
(63) Filósofo pitagórico do V século a. C., nascido em Crotona. Discípulo
de Arquita.
(64) Culto de latria, adoração.
(65) Nome do primeiro homem, pai da espécie humana.
(66) Deus da agricultura, pai de Júpiter.
(67) Descobridor da América (1492), nascido em Gênova. Divergem os autores
sobre a data do seu nascimento, de 1436 a 1456. Morreu no dia 20 do maio
de 1506, em Valladolid.
(68) Constelação situada. no círculo polar ártico, entre as do Cefeu e de
Andrômena.
(69) Primeiro rei dos medos.
(70) Agátocles (361-289 a. C.). Rei de Siracusa, inimigo feroz dos
cartagineses. Morreu envenenado.
(71) Filho de Tibério. Morreu envenenado pela mulher, no ano 23 d. C.
(72) Rei da Macedônia (413-400 a. C.).
(73) Tycho Brahe, astrônomo dinamarquês (1546.1601). Criador de um sistema
astronômico diferente dos de Tolemeu e de Copérnico. Cometeu o erro de
tomar a sério as quimeras astrológicas. Foi mestre de Kepler, a quem suas
observações permitiram a formulação das famosas leis que lhe imortalizaram
o nome.
(74) Bispo e santo da Igreja.
(75) Escritor eclesiástico do II e III séculos, nascido na Grécia. Suas
doutrinas foram condenadas como heréticas pelo concílio de Constantinopla.
(76) Primeiro verso do Orlando Furioso, poema de Ludovico Ariosto
(1474-1532). Tradução: "As mulheres, os cavaleiros, as armas, os amores."
(77) Nome antigo da Hungria.
(78) Muçulmanos descendentes de Maomé.
(79) Adeptos do sofismo (doutrina dos místicos do Islam).
(80) John Wiclef, morto em 1384. Reformador religioso inglês.
(81) João Huss (1369-1415). Precursor da Reforma. Por ter adotado as
doutrinas de Wiclef, foi excomungado por Alexandre V e depois queimado
vivo por decisão do concilio de Constança.
(82) Lutero, Martinho (1483-1546). Nascido em Eisleben. Iniciou sua
reforma em 1517, em Wittenberg, tendo conseguido separar grande parte da
Alemanha da Igreja católica.
(83) Ordem de frades franciscanos, instituída por S. Francisco de Paula,
em 1435.
(84) Frades da ordem de São Francisco, segundo a regra restabelecida cm
1528.
(85) Ordem de frades, instituída em 1534 por Santo Inácio de Loiola, com o
fim de sustentar a autoridade da Igreja católica contra os protestantes.
(86) Fernando Cortez, grande navegante espanhol, nascido cm 1485.
(87) Luciano, retórico samosatense, autor do Diálogo dos Mortos. Tão
satírico que não perdoava aos próprios deuses. Foi por isso considerado
ímpio e ateu.
(88) "Se supomos que não temos pecado, iludimo-nos a nós mesmos."
(89) Galileu Galilei (1564-1642). Nascido em Pisa. Astrônomo, matemático,
filósofo, naturalista. Continuador de Copérnico.
(90) Santo da Igreja. Tradutor da Bíblia.
(91) Juliano, o Apóstata. Imperador romano que renegou a religião cristã.
Morreu em combate, no ano 363 a. C.
(92) Santo Ambrósio (340-397). Bispo de Milão, doutor da Igreja romana.
(93) Minos, filho de Zeus. Rei de Creta, conta a lenda que suas leis eram
sugeridas pelo próprio Júpiter. O labirinto de Minos era uma construção
complicada, com uma corte central e muitos corredores, quartos, pórticos,
escadas. A disposição dos quartos fez com que se dissesse que não era
possível sair do labirinto sem guia.
(94) Primeiro rei e fundador de Roma.
(95) Autor do um evangelho.
(96) Idem.
(97) Um dos generais de Alexandre Magno.
(98) Um dos primeiros padres da Igreja, tradutor da Bíblia.
(99) Sectários da doutrina que concebe e representa a divindade com a
forma e os atributos humanos.
(100) Série das instituições monásticas.
(101) Concílio de Constança, convocado em 1414. Decidiu que João Huss
fosse queimado vivo por defender as doutrinas de Wiclef.
(102) Reddite ergo quae sunt Caesaris Caesari et quae sunt Dei, Deo: "Dai
a César o que é de César e a Deus o que é de Deus."
(103) Fundador do direito canônico. Procurou conciliar as leis do foro
eclesiástico com as do secular. O Decreto Gratiani, ou Concordia
Discordantium Canonum, foi publicado entre 1140 e 1150.
(104) Bispo e escritor do século VI.
(105) Santo e escritor cristão.
(106) Capital da Síria.
(107) "Ninguém diga que possui, pois tudo recebemos de Deus: as palavras
essa e teu são imposturas."
(108) Titulo de um Diálogo no qual Platão discute a transmigração das
almas.
(109) "Se tirares os dois pronomes das nossas coisas, cessarão as guerras
e reinará a paz sem conflitos."
(110) Públio Ovídio Nasão (43 a. C. - 17 á. C.), nascido em Sulmona. Autor
das Metamorfoses, da Arte de Amar, dos Fastos, etc.
(111) "Nosso Senhor quis que esta terra fosse propriedade comum do todos
os homens; mas, a avareza dividiu os direitos de posse."
(112) Descendentes de Levi, aos quais foi confiado o serviço divino.
Agruparam-se, ao tempo de Daví, como cantores, diáconos, porteiros,
guardas do templo, escribas.
(113) "0 direito natural é aquele que a natureza ensina a todos os
animais."
(114) "Por iniqüidade, sendo o direito das gentes contrário ao direito
natural."
(115) Frades da ordem de São Francisco de Assis, fundada cm 1215 e
confirmada em 1223.
(116) Um dos padres da igreja grega.
(117) Cidade do Lácio.
(118) Caio Crispo Salústio (86-35 a. C.), nascido em Amiterno. Autor das
monografias sobre a conspiração de Catilina e a guerra de Jugurta.
(119) Panormita (1394.1471). Antôno de Palermo, o Panormita. Escritor
italiano.
(120) "Serão dois num só corpo."
(121) "Os cônjuges, cegando a doutrina dos apóstolos, devem ser comuns."
(122) "Comuns quanto ao obséquio, não quanto ao tálamo."
(123) Cláudio Galeno (130-200). Célebre médico de Pérgamo, na Ásia. Em
Roma, foi médico da corte imperial. Escreveu a Arte Médica.
(124) Hereges que, na primeira idade do cristianismo, se atribuíam o
conhecimento das coisas divinas, tendendo a um panteísmo platônico.
(125) Filósofo e poeta trágico, mestre de Nero. Condenado à morte por ter
participado de uma conspiração, preferiu cortar as veias no banho.
(126) Patriarca dos hebreus. Em hebraico, esse nome significa pai de prole
numerosa.
(127) Terceiro patriarca dos hebreus, filho de Isaac.
(128) "Abolir a propriedade é aumentar a caridade".
(129) 0 mais ilustre dos apóstolos escolhidos por Cristo para pregar o
Evangelho.