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CLARICE LISPECTOR: UMA COSMOVISÃO
Márcio
José Lauria
(Exercício de viajar
em alheio e inquieto fundo de poço)
TEXTO: Água Viva,
2.ª edição, Artenova, Rio, 1973
INTRÓITO
Clarice
Lispector continua sendo algo estranho e fascinante na literatura
brasileira. Dotada de especial sensibilidade, sua preocupação maior nunca
esteve no enredo, no linear das coisas. Exigiu, ao contrário, que o leitor
se entregasse em meditação à aventura de ler, se quisesse desfrutar da
profundidade dos conceitos que se multiplicavam.
Alguém
chegou mesmo à ousadia de dizer que CL era uma grande escritora à procura de
um tema. E ainda não foi em Água Viva que se deu a predominância temática:
aqui o enredo fica à conta do leitor que, se puder, transforma-se em
personagem e se encontra a cada instante no pensamento profundo da
escritora, traduzido em frases maciças e originais.
Procurei,
para deleite pessoal, organizar um roteiro da visão do mundo de Clarice,
através de suas próprias palavras. Agrupei-os em torno daqueles focos de
reflexão que me pareceram mais evidentes no livro em exame: a hora que
passa (“Aqui e Agora”), os desejos nem sempre possíveis (“Aspiração”), as
relações interpessoais (“Eros”), a metalinguagem da escritora (“Áspero
Ofício”), o autoconhecimento (“Nosce Te Ipsum”), a força da palavra
(“Verbum”), as autodefinições (“Ser”), as relações da palavra com a música
e a pintura (“Luz e Som”), o transcendental (“Deus e Eternidade”), o mundo
circundante (“Natureza”), o princípio e o fim (“Alfa e Ômega”). Para
assegurar certa organicidade ao trabalho, inseri um “Pórtico”, um
“Arremate”, um “Apelo Final”, um “Post Scriptum”, além de várias “Pausas”).
Os números
entre parênteses ao fim de cada tópico indicam as páginas do livro de onde
extraí o texto.
PÓRTICO
O que te
escrevo não tem começo: é uma continuação. Das palavras deste canto que é
meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente? Minha
experiência vem de que eu já consegui pintar o halo das coisas. O halo é
mais importante que as coisas e as palavras. O halo é vertiginoso. Finco a
palavra no vazio descampado: é uma palavra como fino bloco monolítico que
projeta sombra. E é trombeta que anuncia. (57)
AQUI &
AGORA
Estou tentando
captar a quarta dimensão do instante-já. (9)
Meu tema é o
instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de
vezes, em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que
sou e precários os momentos – só me comprometo com a vida que nasça com o
tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim. (11)
Domingo é o dia dos
ecos – quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas,
gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas – de onde vêm os
ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco. (19-20)
Nada existe de mais
difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É
nossa. Eu me entrego em palavras e me entrego quando pinto. (59)
ASPIRAÇÃO – I
Quero apossar-me do
é da coisa. (10)
Quero possuir os
átomos do tempo. (10)
Não quero ter a
terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.
Eu não: quero uma verdade inventada. (25)
Mas bem sei o que
quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem que no entanto dá
a pressentir uma ordem subjacente. (31)
Um dia eu disse
infantilmente: eu posso tudo. Era a antevisão de poder um dia me largar e
cair num abandono de qualquer lei. Elástica. (33)
EROS
Só no ato do amor –
pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do
instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse
instante incontável, maior que o acontecimento em si. (10)
No amor o instante
de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria
sensibilizada pelo arrepio de instantes. (10)
Escuta: eu te deixo
ser, deixa-me ser então. (30)
O anel que tu me
deste era de vidro e se quebrou e o amor acabou. Mas às vezes em seu lugar
vem o belo ódio dos que se amaram e se entredevoraram. (101)
Olha para mim e me
ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo. (115)
ÁSPERO OFÍCIO – I
Ao escrever, não
posso fabricar como na pintura, quando fabrico artesanalmente uma cor. (13)
Escrevo por
profundamente querer falar. (13)
E se digo “eu” é
porque não ouso dizer “tu”, ou “nós” ou “uma pessoa”. Sou obrigada à
humildade de me personalizar me apequenando mas sou o és-tu. (14)
Inútil querer me
classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais.
(14)
Quero escrever-te
como quem aprende. (15)
PAUSA – I
Estou atrás do que
fica atrás do pensamento. (14)
NOSCE TE IPSUM – I
Sei que meu olhar
deve ser o de uma pessoa primitiva que se entrega toda ao mundo, primitiva
como os deuses que só admitem vastamente o bem e o mal e não querem conhecer
o bem enovelado como em cabelos no mal, mal que é bom. (14-15)
Não quero perguntar
por que, pode-se sempre perguntar por que e sempre continuar sem resposta:
será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma
pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em algum lugar ou em algum tempo
existe a grande resposta para mim. (16)
Venho de longe – de
uma pesada ancestralidade. (18)
Liberdade? É meu
último refúgio, forcei-me à liberdade e agüento-a não como um dom mas com
heroísmo: sou heroicamente livre. (18)
Tenho coragem? Por
enquanto estou tendo: porque venho do sofrido longe, venho do inferno de
amor. (18)
O que saberás de mim
é a sombra da flecha que se fincou no alvo. (19)
VERBUM – I
A palavra é a minha
quarta dimensão. (11)
O que pintei nessa
tela é passível de ser fraseado em palavras? Tanto quanto possa ser
implícita a palavra muda no som musical. (12)
E eis que percebo
que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto
gregoriano. (12)
Minhas
desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio. (13)
O que te falo nunca
é o que te falo e sim outra coisa. (16)
ÁSPERO OFÍCIO – II
Um instante me leva
insensivelmente a outro e o tema atemático vai se desenrolando sem plano mas
geométrico como as figuras sucessivas de um caleidoscópio. (16)
Aquilo que capto em
mim tem, quando está sendo transposto em escrita, o desespero das palavras
ocuparem mais instantes que um relance de olhar. (18)
Escrevo-te como
exercícios de esboços antes de pintar. (22)
Quem me acompanha
que me acompanhe: a caminhada é longa, é sofrida, mas é vivida. Porque agora
te falo a sério: não estou brincando com as palavras. (24)
Sei o que estou
fazendo aqui: estou improvisando. Mas que mal tem isto? Improviso como no
jazz improvisam música, jazz em fúria, improviso diante da platéia. (26)
PAUSA – II
Atrás do pensamento
não há palavras. É-se. (34)
SER – I
Eu sou antes, eu sou
sempre, eu sou nunca. (21)
À duração da minha
existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser
concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo
que lateja no tique-taque dos relógios. (25)
Sou sozinha, eu e
minha liberdade. É tamanha a liberdade que se pode escandalizar um
primitivo. (27)
Não sei o que estou
escrevendo: sou obscura para mim mesma. (27)
O mundo: um
emaranhado de fios telegráficos em eriçamento. E a luminosidade no entanto
obscura: esta sou eu diante do mundo. (28)
LUZ & SOM
Apóio de leve a mão
na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a
eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o
mundo treme nas minhas mãos. (12)
Não se compreende
música: ouve-se. (11)
De que cor é o
infinito espacial? É da cor da cor. (29)
Quanto à música,
depois de ser tocada, para onde ela vai? Música só tem de concreto o
instrumento. Bem atrás do pensamento tenho um fundo musical. (55)
Que música belíssima
ouço no fundo de mim. É feita de traços geométricos se entrecruzando no ar.
É música de câmara. Música de câmara é sem melodia. E modo de expressar o
silêncio. O que te escrevo é de câmara. (56)
DEUS & ETERNIDADE
Eternidade: pois
tudo o que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao
pensar em alguma coisa que não começa e não termina. (31)
Sei que Deus é o
mundo. É o que existe. Eu rezo para o que existe? (36)
Não é perigoso
aproximar-se do que existe. A prece profunda é uma meditação sobre o nada. É
o contacto seco e elétrico consigo, um consigo impessoal. (36)
NOSCE TE IPSUM – II
Transfiguro a
realidade e então outra realidade, sonhadora e sonâmbula, me cria. (26)
Assim como me lanço
no traço de meu desenho, este é um exercício de vida sem planejamento. (27)
O mundo não tem
ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração. Deixo-me acontecer. (28)
Minha liberdade
pequena e enquadrada me une à liberdade do mundo – mas o que é uma janela
senão o ar emoldurado por esquadrias? (30)
Escrevo-te porque
não me entendo. (33)
PAUSA – III
O que te digo agora
deve ser lido rapidamente como quando se olha. (19)
VERBUM – II
Estou consciente de
que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando sílabas
cegas de sentido. (12)
Aprofundo as
palavras, como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. (16)
Na minha escuridão
enfim treme o grande topázio, palavra que tem luz própria. (22)
A densa selva das
palavras envolve espessamente o que sinto e vivo, e transforma tudo o que
sou em alguma coisa minha que fica fora de mim. (29)
Mas eternamente é
uma palavra muito dura: tem um “t” granítico no meio. (31)
Mas a palavra mais
importante da língua tem uma única letra: é. É. (32)
ÁSPERO OFÍCIO – III
A harmonia secreta
da desarmonia. Quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se
faz. (13)
“Peregrinos,
mercadores e pastores guiavam suas caravanas rumo ao Tibet e os caminhos
eram difíceis e primitivos”. Com esta frase fiz uma cena nascer, como num
flash fotográfico. (26)
Estas minhas frases
balbuciadas são feitas na mesma hora em que estão sendo escritas e crepitam
de tão novas e ainda verdes. (31)
Embora este meu
texto seja todo atravessado de ponta a ponta por um frágil fio condutor –
qual? o do mergulho na matéria da palavra? o da paixão? (31-32)
Este texto que te
dou não é para ser visto de perto: ganha sua secreta redondez antes
invisível quando é visto de um avião em alto vôo. Então adivinha-se o jogo
das ilhas e vêem-se canais e mares. Entende-me: escrevo-te não uma história,
mas apenas palavras que vivem do som. (32)
NATUREZA – I
A natureza é
envolvente: ela me enovela toda e é sexualmente viva, apenas isto: viva.
Também eu estou truculentamente viva – e lambo o meu focinho como o tigre
depois de ter devorado o veado. (29)
O que se chama de
bela paisagem não me causa senão cansaço. (46)
O que canta a
natureza? A própria palavra final que é nunca mais eu. (48)
Arrepio-me toda ao
entrar em contato físico com bichos ou com a simples visão deles. (58)
Animal nunca
substitui uma coisa por outra. (58)
ALFA & ÔMEGA
Esta é a vida vista
pela vida. Posso não ter sentido, mas é a mesma falta de sentido que tem a
veia que pulsa. (15)
Nós – diante do
escândalo da morte. (29)
Quando eu morrer
então nunca terei nascido e vivido: a morte apaga os traços de espuma do mar
na praia. (34)
Custa-me crer que eu
morra. Pois estou borbulhante numa frescura frígida. Minha vida vai ser
longuíssima porque cada instante é. A impressão é que estou por nascer e não
consigo. (42)
Você que me lê que
me ajude a nascer. (43)
SER – II
Eu, que vivo de
lado, sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo. (40)
Eu não sou
promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro. (40)
Sou um coração
batendo no mundo. (43)
Eu – eu sou a minha
própria morte. (46)
Sou herege. Não, não
é verdade. Ou sou? Mas algo existe. (114)
PAUSA – IV
O verdadeiro
pensamento parece sem autor. (108)
DEUS & ETERNIDADE –
II
Mas há perguntas que
me fiz em criança e que não foram respondidas, ficaram ecoando plangentes: o
mundo se fez sozinho? Mas se fez onde? Em que lugar? E se foi através da
energia de Deus – como começou? (38)
Como o Deus não tem
nome vou dar a ele o nome de Simptar. Não pertence a língua nenhuma. (54)
Ah Força do que
Existe, ajudai-me, vós que chamam de o Deus. (90)
E Deus é uma criação
monstruosa. Eu tenho medo de Deus porque ele é total demais para o meu
tamanho. (111)
ASPIRAÇÃO – II
Então escrever é o
modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é
palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha - morde a isca, alguma
coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com
alívio jogar a palavra fora.
ÁSPERO OFÍCIO – IV
Minha pintura não
tem palavras: fica atrás do pensamento. (34)
Para te escrever eu
antes me perfumo toda. (63)
Agora vou escrever
ao correr da mão: não mexo no que ela escrever. Esse é o modo de não haver
defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. (63)
Escrevo-te em
desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos.
(87)
NOSCE TE IPSUM – III
Nesse âmago tenho a
estranha impressão de que não pertenço ao gênero humano. (33)
Comprazo-me com a
harmonia difícil dos ásperos contrários. (34)
Minha essência é
inconsciente de si própria e por isso me obedeço cegamente. (34)
Não gosto é quando
pingam limão nas minhas profundezas e fazem com que me contorça toda. Os
fatos da vida são o limão na ostra? Será que a ostra dorme? (36)
A verdade está em
alguma parte: mas é inútil pensar. Não a descobrirei e no entanto vivo dela.
(37)
Estou me fazendo. Eu
me faço até chegar ao caroço. (47)
PAUSA – V
Assim o mais
profundo pensamento é um coração batendo. (55)
NATUREZA – II
Às vezes eletrizo-me
ao ver bicho. Agora estou ouvindo o grito ancestral dentro de mim: parece
que não sei quem é mais a criatura, se eu ou o bicho. (58)
Não humanizo bicho
porque é ofensa – há de respeitar-lhe a natureza – eu é que me animalizo.
Não é difícil e vem simplesmente. É só não lutar contra e é só entregar-se.
(58-59)
Segurar passarinho
na concha meio fechada da mão é terrível, é como se tivesse os instantes
trêmulos na mão. (59)
Já tive relações
perfeitas com eles. Lembro-me de mim de pé com a mesma altivez do cavalo e a
passar a mão pelo seu pêlo nu. Pela sua crina agreste. Eu me sentia assim: a
mulher e o cavalo. (60)
Ter coruja nunca me
ocorreria, embora eu as tenha pintado nas grutas. (59)
ARREMATE
1, 9 e 7 são os meus
números secretos. Sou uma iniciada sem seita. Ávida de mistério. Minha
paixão pelo âmago dos números, nos quais adivinho o cerne de seu próprio
destino, rígido e fatal. (38)
Não, eu não escrevi
o espelho – eu fui ele. E as palavras são elas mesmas, sem tom de discurso.
(95)
Eu sou doente da
condição humana. Eu me revolto: eu não quero mais ser gente. (112)
Eu, que fabrico o
futuro como uma aranha diligente. E o melhor de mim é quando nada sei e
fabrico não sei o quê. (81)
O que faço por
involuntário instinto não pode ser descrito. (70)
APELO FINAL
Tente entender o que
pinto e o que escrevo agora. Vou explicar: na pintura como na escritura
procuro ver estritamente no momento em que vejo – e não ver através da
memória de ter visto num instante passado. O instante é este. O instante é
de uma iminência que me tira o fôlego. O instante é em si mesmo iminente. Ao
mesmo tempo que eu o vivo, lanço-me na sua passagem para outro instante.
(91)
POST SCRIPTUM
1. Não é um recado
de idéias que te transmito e sim uma instintiva volúpia daquilo que está
escondido na natureza e que adivinho. E esta é uma festa de palavras.
Escrevo em signos que são mais um gesto que voz. (27-28)
2. O que te escrevo
continua e estou enfeitiçada. (115)
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