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No
princípio eram trevas, escuridão, solidão. Aos poucos a evolução vem
chegando, passo a passo, que a natureza não dá saltos. No
coração da terra nossos ancestrais deixaram impressas mensagens pictográficas
excepcionais (na Serra da Capivara, sítio arqueológico mais antigo das Américas,
há um lindo exemplo disso). Registraram também as dificuldades de um tempo
incrivelmente difícil, durante o qual a média de vida sequer chegava aos
trinta anos pelas estimativas cientificamente aceitas nos dias que correm. Tudo
isso faz pensar no dia em que nos encontraremos com o nosso Criador em espírito
e nosso corpo repousará também no ventre da Terra como tantos outros antes de
nós – pessoalmente prefiro a cremação, mas naturalmente respeito todas as
maneiras de se trabalhar o momento de transição, dentro de cada cultura à sua
maneira. Sabedores
de que somos finitos refletimos acerca do que seja certo e do que seja errado,
do ponto de vista moral, segundo os caminhos de Deus e da Natureza. Lembra-se
da lenda de Ícaro? Este eterno sonho do homem voar, o primeiro que aprendemos
na FAB... Dédalo construiu o labirinto da ilha de Creta para que o rei Minos
nela enclausurasse o Minotauro. Preso no labirinto com seu filho Ícaro, o
engenhoso arquiteto Dédalo confeccionou asas a partir de penas coladas com cera
avisando a seu filho sobre a importância da moderação: “Não voes muito
baixo para que as águas do mar não venham a tragar-te. Tampouco voes muito
alto, para que o calor do sol não venha a derreter a cera que liga as penas que
compõem tuas asas.” Dédalo seguiu o caminho do meio e chegou a salvo em
terra firme. Ícaro, embriagado com as delícias do vôo, provou o amargo sabor
da derrota quando, ao voar alto demais viu as penas serem descoladas uma a uma
das asas que seu pai lhe dera e foi arrojado ao mar... Tolo
Ícaro... Assim como o recém nascido confia cegamente nos cuidados do amor de
seus pais, deveria ele ter ouvido aqueles sábios conselhos. No casamento temos
um outro exemplo, quando uma pessoa afirma aceitar a outra
deve ligar-se com confiança e amor, como se ao eixo de uma roda e não
ao seu aro que, ora está lá em cima, ora está lá em baixo. Por isso se diz:
na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, na pobreza ou na riqueza...
“Você é minha bem-aventurança”, não as exterioridades que sequer me
importa ver! O
vento, ar em movimento, em muito auxiliou na viagem de Dédalo. Ícaro,
infelizmente, embriagado pelo prazer de uma nova (a)ventura, não foi capaz de
dominar este elemento antes deixando-se por ele dominar. Ícaro
caiu na água que, para ele, não foi fonte de Vida, como propugna a campanha
deste ano da CNBB. Na Índia as águas do Rio Ganges são consideradas sagradas,
no Egito antigo, assim o era com o Nilo. Nas águas do Rio Jordão – então
sagrado para os judeus – João
Batista (que alguns dizem ser Elias) batizou o Filho de Deus. Certa feita
assisti a uma cerimônia de batismo numa Igreja Evangélica, Batista. O
simbolismo deles é muito bonito: as pessoas são imersas na água como que
“morrendo para a vida antiga e ressuscitando para uma nova vida”, de tal
forma que possam repetir, como São Paulo: “Vivo não mais eu, mas Cristo vive
em mim!” Cristo,
aliás, certa feita disse: “João Batista vos batizou com água. Eu vos
batizarei com Fogo!” Feita total limpeza no organismo mortal está pronto o
homem novo para receber os novos ensinamentos e os difundir da mesma maneira que
os recebeu. Nos
tempos antigos, entendia-se que era necessário o sacrifício de ovelhas sem mácula
ou animais similares para purgar-se de pecados diante de Deus. Depois do grande
Sacrifício de Cristo na Cruz, o Cordeiro de Deus, sem mácula, que derramou
voluntariamente o seu sangue por nós, tudo mudou. Cumpre-nos, dentro de nossa Fé,
prestar a devida profissão de fé e estamos purificados. Deus criou o homem à
sua imagem e semelhança. Somos irmãos (Salmo 132 na bíblia católica; 133 na
bíblia evangélica). No
início a Fé cristã era uma só. Que bom seria que assim o fosse até os dias
de hoje... Mas vieram os “cismas”. Primeiro, por um desentendimento
consideravelmente banal, entre o Patriarca de Roma e o Patriarca de
Constantinopla no século XI – vejo no horizonte possível muitas chances de
uma reunificação entre as Igrejas Católicas Apostólicas Romana e Ortodoxa
– durante o renascimento, com o germe do capitalismo a surgir, veio o cisma
protestante. Intolerância de parte a parte, falta de diálogo e aceitação do
outro... Nos diversos momentos históricos vemos surgir novas correntes cristãs,
algumas reconhecidas pelo Vaticano (que ainda congrega o maior número de Cristãos
do planeta), outras não. Conto-me entre aqueles que ainda crêem numa unificação
de todos os cristãos, que como tal se reconhecerão uns aos outros. Após
o período normal de gestação do ser humano, os nove meses regulamentares ou
um pouco menos dependendo das circunstâncias, pela primeira vez ele vê a Luz.
A ansiedade e a interdependência recíproca entre mãe e filho é tamanha que
aquela, ainda que sofrendo as dores do parto, faz questão de ver seu filhinho e
ele tem sua primeira alegria ao ver aquelas pessoas felizes ao redor. Felizes
porque recebem uma Nova Vida e esta felicidade contagia o recém-nascido, também
feliz por ver-se assim tão bem recebido no mundo. A maioria de nós não se
lembra daquele momento, mas como deve ser sublime ver rostos amigos envoltos em
tanta Luz após tanto tempo de escuridão... O recém nascido deixa a vida de um
ser aquático, vivente na escuridão do ventre materno a flutuar no líquido
amniótico e transforma-se num novo ser, um mamífero pleno que respira pelas
narinas e se alimenta pela boca. A evolução segue o seu caminho e ele aos
poucos vai aprendendo a sorrir, a falar, a dar seus primeiros passos, etc. Mas
este é assunto para outro momento... Lázaro Curvêlo Chaves
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