Morreu o Cidadão Kane
Brasileiro! Que a Terra
lhe seja pesada!
Novamente remo contra a maré. Como Nélson
Rodrigues considero que “toda a unanimidade é burra”. Só porque o Roberto Irineu
morreu virou santo? Depois de todas as sacanagens que ele fez pela vida afora? Tás brincando? Antes de mais nada, é muito bom que todos revejam o documentário sobre a Globo feito pela BBC de Londres. Chama-se
'Brazil: Beyond Citzen Kane', (Além do Cidadão Kane) que Roberto Marinho
impediu a entrada no Brasil por meios jurídicos de questionáveis a abertamente
corruptos. A página CMI - Mídia Independente, disponibiliza o filme para download gratuito!
“Transformando seres humanos em não-pessoas!”
O cantor e compositor – que
juntamente com Milton Nascimento, Gilberto Gil e outros eram segregados e
proibidos pelo “Doutor Roberto” de sequer serem mencionados como pessoas vivas
na TV – Chico Buarque comentou: “Era televisão e futebol. Construíram estádios e
essa rede impressionante de telecomunicações por todo o Brasil, e ao mesmo tempo
uma degradação crescente em termos de educação e saúde. Tudo isso foi
descuidado”. Mais: “Ele tem o poder, veja bem, de impedir que um artista apareça
ou seja sequer mencionado em outros meios de comunicação!” Ao concluir, uma
denúncia: “Hoje em dia existe um tipo de censura econômica muito importante. Por
exemplo: um artista que queira cantar num dos vários programas de variedades –
pois não há programas musicais – ele ou a sua gravadora tem que pagar à
TV Globo para poder aparecer. Ou seja, os profissionais de música pagam a
TV Globo para trabalhar para ela...”
A Rede Globo de Telealianação e
o “Doutor Roberto” – nunca entendi direito os motivos que levavam as pessoas a
chamar um jornalista que sequer tinha curso superior de “Doutor”, por sinal... –
foi um dos mais bravos bastiões de defesa da Ditadura Militar e a Censura
Interna das “Organizações Globo” por muitas vezes era ainda mais drástica que a
Censura da Ditadura Militar. Mentem os que dizem que o “Doutor Roberto” protegia
os jornalistas de esquerda que trabalhavam com ele, muitos foram conduzidos ao
DOPS, ao DOI-CODI e a outros órgãos de repressão, tortura e morte por ordem do
próprio, sem mencionar que uma espécie de “atestado ideológico” era conditio
sine qua non para trabalhar na Globo... Estes fatos me foram narrados pelo
meu tio, Mário Curvello, funcionário do jornal “O Globo” do Rio de Janeiro por
mais de 50 (cinqüenta!) anos – morreu cego, miserável e esquecido das
“Organizações Globo”...
Durante as duas décadas da ditadura militar no Brasil,
Roberto Marinho ficou riquíssimo e era talvez o civil mais poderoso do país. Com
o fim do regime militar seu domínio cresceu ainda mais, além de qualquer
regulamentação ou controle. Perguntado por um potentado árabe por que não se
candidatava à presidência da república do Brasil respondeu laconicamente: “para
quê?” Se sempre foi ele que fez e desfez presidentes, desde a Ditadura Militar
até o Lula, por sinal, para que se meteria em política se podia controlar tudo
pelos bastidores?
Roberto Marinho era um dos
poucos biliardários brasileiros com negócios em todas as áreas econômicas. Foi
odiado no mundo, mas temido no Brasil, pelo fato de controlar milhões de
brasileiros através do vício televisivo alienante, encontra neste instante em
que finalmente presta contas ao Criador, uma rara unanimidade.
Acorda, Brasil !!!
Roberto Marinho, monoglota,
“Doutor” sem curso superior, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras
embora jamais tenha escrito um único livro! Até aí nada! Uma Casa que alberga
gente como o general Rubem Ludwig (lembra dele? Aquele “Ministro da Educação” da
Ditadura que ficou famoso por dizer: “Índio não tem cultura!” – outro monoglota
sem trabalho escrito algum...), o cirurgião plástico Ivo Pitangui, o bruxo Paulo
Coelho entre outros, aceita qualquer coisa mesmo... Provavelmente – escreve aí
pra não esquecer – o imbecil que detonou o Brasil, Fernando Henrique Cardoso,
também apoiado pelo “Doutor Roberto”, venha a ser o próximo “Imortal”. Ele ou o
Collor, duas “crias” da Rede Globo...
A tradição da Rede tem sido a
de esconder a História ou providenciar versões convenientes aos donos do poder.
Tudo que se sabe por ouvir dizer é a expressão da verdade, que ainda espera a
oportunidade de aparecer. Quando o presidente Juscelino Kubitschek morreu, a
Rede Globo não mostrou a multidão emocionada que o levou, a pé, do Russell ao
Santos Dumont.
E a grana?
Com uma fortuna pessoal de mais
de US$ 1 bilhão ( um bilhão de dólares), ele consta da lista dos homens mais
ricos do mundo elaborada pela revista "Forbes".
A fabulosa fortuna pessoal que
o “Doutor” Roberto Marinho deixa a seus herdeiros não é “limpa”, não resultou da
receita do jornal que ele dirigiu desde 1925, pela elementar e universal razão
de que jornalismo como empreendimento não enriquece ninguém em dólar. Veio dos
canais da Ditadura Militar, sob a qual a rede se expandiu mediante recursos não
contabilizados com transparência. Não foi, portanto, o jornalismo que dolarizou
o diretor-redator-chefe na escala bilionária da revista norte-mericana.
Um dia a história secreta da
Rede Globo de Televisão será apurada, mas enquanto não vem a público nada impede
que os cidadãos sejam apresentados à verdade, que tanto querem conhecer. E quem
diz “Rede Globo” diz “Roberto Marinho” ou “Doutor Roberto”, como ele preferia
ser chamado.
A Rede Globo sempre moveu-se
por privilégios oficiais sem considerar jamais o interesse público.
As obras do Cristo Redentor
foram paga pela Shell e um “pool” de empresas privadas, mas foi a Fundação
Roberto Marinho que levou a fama. Revelou-se que os arquivos do antigo e lutador
PCB foram também e “misteriosamente” parar na Fundação, mas somente depois que a
União Soviética saiu do mapa e os militares entre nós já estavam de pijama.
Esta novela começou mas não
acabou: seu último capítulo será escrito pela Opinião Pública. Um episódio feliz
dessa novela macabra é o falecimento (tardio, muito tardio) do “Doutor Roberto”.
O diabo se queixou para Deus de que o céu estava ficando lotado e Lúcifer
sozinho no inferno: era Cazuza, Gonzaguinha, Betinho, Henfil... Até que Deus
resolveu mandar alguém para fazer compania ao diabo: o “Doutor Roberto” – Claro,
há sempre o risco de que ele queira tomar o poder por lá também, mas já que
houve tamanha insistência satânica... – Morre o Cidadão Kane Brasileiro! Que a
terra lhe seja pesada! Que ele responda por todo o mal que fez ao povo
brasileiro em sete décadas!
Lázaro Curvêlo Chaves
Publicado dia 9 de agosto de 2003 neste espaço e em várias
publicações alternativas!
Aguardo ansioso pela morte de Lula da Silva, o pior monstro que o pior da política brasileira jamais produziu, para a maior celebração da História do Brasil
Um pouco de
História - ou, tentando ser um pouco mais formal...
Apesar de a grande mídia
amanhecer chorosa no dia 7 de agosto, lamentando o desaparecimento do presidente
da maior rede de comunicações do país, a Globo. Quanto a nós, do lado de cá, não
é bem o caso de soltar fogos. O título acima pode parecer raivoso, mas é um
reconhecimento de que a burguesia perdeu um general talentoso.
A julgar pela programação das
TVs e rádios dos dias 7 e 8 de agosto, a canonização de Roberto Marinho é uma
questão de tempo. Apontado pelo Jornal Nacional, como "defensor da cultura,
imortal (da academia), humanista, idealista", o homem parece que não tinha
defeitos. Tudo isso foi reforçado por declarações emocionadas de artistas (como
sempre, bons intérpretes), esportistas, músicos, pessoas abordadas nas ruas, e,
pasmem, figuras prezadas como nosso ministro Antonio Palocci, que declarou sem
mais, nem menos: "Dr. Roberto Marinho foi fundamental na construção da
democracia brasileira e no fortalecimento, na estabilidade das instituições
democráticas do Brasil". Fez coro com ACM que disse que lamenta a perda: "é como
se eu perdesse um irmão mais velho." Este último falou com sinceridade e
coerência. Afinal, fez uma dobradinha e tanto com Marinho quando era ministro
das Telecomunicações durante o governo Sarney. É dessa época que data uma
regulamentação das telecomunicações no país que monopolizou de vez o setor,
entregando ao controle de poucas e poderosas famílias. Entre elas, a dos
Marinho, Abravanel (SBT), Saad (Band), Sirotski (RBS) etc.
TV Globo nasce
um ano após a ditadura se instalar
Mas entremos no clima saudosista
e lembremos algumas das proezas do falecido. Em 1965, um ano depois do golpe
militar, surgia a TV Globo. Logo depois firmou um acordo com o grupo
norte-americano Time-Life. Antes do AI-5, o Congresso ainda funcionava com certa
liberdade e o acordo motivou uma CPI. A CPI apresentou um relatório considerando
o acordo ilegal. O tal relatório foi arquivado. Não foi à toa. A nova televisão
nasceu para se integrar à nova forma de dominação no Brasil (a ditadura
militar). O Jornal Nacional data de 1972, o período mais duro da ditadura.
Médici era o presidente fez uma declaração famosa: "Sinto-me feliz todas as
noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão
conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o
Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um
tranqüilizante após um dia de trabalho." Mas não havia tranqüilizantes para os
milhares de presos, torturados e mortos a mando da ditadura e que a programação
televisiva ignorava.
A Globo só podia crescer e se
fortalecer sob a proteção de ferro dos militares. E não é só isso. A Globo fez
exatamente o que Médici destacou em sua frase. Um dos artistas globais, José
Wilker, disse no Jornal Nacional em luto que "O Brasil tal como é hoje deve
muito a Roberto Marinho". E é verdade. Sem a Globo, talvez o Brasil não fosse um
país injusto, pobre, com problemas sociais gravíssimos, mas com 98% dos lares
equipados com TV, para que o povo veja feliz um mundo como ele deveria ser nas
novelas, shows e telejornais e não como ele realmente é.
Proconsult e
Globo contra Brizola
Quando a ditadura começou a
sofrer derrotas nas greves do ABC, dos professores e bancários. Quando viu
nascer o PT nas suas barbas. Quando, enfim, a ameaça de uma alternativa popular
pairava no ar, a Globo fez sua parte. Um episódio tristemente inesquecível foi a
apuração de votos no Rio de Janeiro, em 1982. Eram eleições para governadores.
Em vários estados, a previsão era de vitória da oposição. Leonel Brizola, do
PDT, sempre fora crítico ao monopólio global e se candidatara pelo Rio de
Janeiro. Uma empresa chamada Proconsult, de propriedade de coronéis do Serviço
Nacional de Informação, foi contratada para fazer a apuração dos votos. Havia
fraude nos programas de computador para prejudicar Brizola. A Globo entrou no
esquema divulgando hora a hora os resultados dos boletins fraudados. Acontece
que um sócio da empresa quis bancar o esperto. Procurou o candidato do PDT para
uma chantagem. Se ele aceitasse indicações para cargos importantes no governo,
denunciaria a fraude. Brizola levou o chantagista ao Tribunal Eleitoral, e com
um juiz e a imprensa internacional, invadiu a Proconsult. Depois foram à Globo,
que continuava a divulgar os números errados, mesmo tendo conhecimento da
denúncia. Infelizmente, até Brizola compareceu ao funeral do magnata
manipulador.
O povo não é
bobo... nem a Rede Globo
Mas, admitamos, Roberto Marinho
podia ser tudo, menos burro. Sua rede de TV tentou esconder o movimento das
Diretas, em 84, e não conseguiu. O povo gritava nos comícios: "O povo não é
bobo, fora Rede Globo". Mas, se o povo não é bobo, muito menos a Rede Globo.
Marinho mudou de tática. Quando viu que a ditadura fazia água, começou a mexer
seus pauzinhos. Reuniu-se com Tancredo Neves e acertou a tática de dirigir o
movimento popular para a saída que menos causava prejuízos à classe dominante: o
Colégio Eleitoral. Tancredo seria o candidato da burguesia liberal contra Maluf,
candidato dos militares. Derrotada a emenda das Diretas, a Globo começou a
apresentar os comícios de Tancredo como festas populares e democráticas. Maluf
ficou com o papel de malvado, que lhe caía perfeitamente bem. Resultado: a
votação no Colégio Eleitoral parecia uma festa da democracia e não a traição da
vontade popular e uma saída honrosa para os militares assassinos. Por fora,
somente a voz isolada do PT, que por isso pagou caro na época, mas acumulou
pontos para o futuro.
Aprendendo a
remar com a maré
Desde então, os veículos de
comunicação do "dr. Roberto" foram se aperfeiçoando na arte de remar conforme a
corrente. Construíram a imagem de Collor de Mello como campeão moral e
governante moderno, desde 1987. Dedicavam mais tempo ao candidato collorido e o
apresentavam de forma positiva. Manipularam o famoso debate entre Lula e Collor.
Depois da vitória collorida, a cúpula jornalística caprichou na cobertura dos
espetáculos proporcionados pelo presidente recém-eleito. Corridas, jet-skis,
judô, etc. Até que o irmão do presidente enlouqueceu e botou a boca no mundo.
Aí, as denúncias combinaram-se com a crise econômica que o Plano Collor
provocou. Um grande movimento popular começou a surgir. A Globo já havia
aprendido com as Diretas. Passou a fazer uma cobertura menos parcial. A
minissérie Anos Rebeldes já estava sendo gravada antes do escândalo, mas foi ao
ar em pleno período de manifestações, mostrando a incrível sintonia que a Globo
adquiriu com o clima político. No dia da votação do impeachment, a TV Globo
abriu mão de cerca de R$ 66 milhões em exibição de comerciais para transmitir as
6 horas que durou a votação da condenação de Collor.
Plano Real e a
barriga-de-aluguel de FHC
Depois do intervalo com Itamar,
que continuou a implantar o projeto neoliberal em câmera lenta, Fernando
Henrique se apresentou para bancar o pai do Plano Real. Na verdade, FHC não
passou de uma barriga-de-aluguel. O plano era igualzinho a todos os que já
vinham sendo aplicados no México, Argentina, etc. Todos com a mesma paternidade:
o Departamento de Estado norte-americano, em Washington. A Globo também não
podia perder essa. Desde os primeiros choros da criança, o Real era festejado em
todo o país pela telinha azul.
Aliás, a indústria de aparelhos
de TV aproveitou o embalo dos preços congelados e a Copa do Mundo de 1994 para
vender muito mais. Até hoje tem padaria e bar com aparelhos de TV daquela época.
Foi um pacote só. Plano Real, vendas em alta e tetra-campeonato. O resultado foi
a eleição do barriga-de-aluguel, que virou a mãe dos banqueiros, grandes
capitalistas e especuladores internacionais.
Mesmo quando mostra os conflitos
e desgraças do capitalismo, a Globo acaba dando um jeito de mostrar que o
caminho é o conformismo. É só lembrar do final da novela "Rei do Gado", em que a
Sem-Terra Patrícia Pillar casa com um fazendeiro progressista, Antonio Fagundes.
As bandeiras vermelhas do MST são, então, substituídas pelas brancas. Bandeiras
brancas da paz, diziam os personagens. Na verdade, bandeiras brancas que queriam
uma rendição. A rendição dos Sem-Terra à lei e à ordem. A mesma lei e ordem que
autoriza a PM ou milícias de latifundiários a matar trabalhadores rurais
indefesos.
1998: Os
institutos manipularam as pesquisas. A Globo ajudou a divulgar
Exemplo de como atua a Globo e
outros gigantes da mídia foram as eleições para governador em 1998. Na briga
contra o malufismo, Marta Suplicy já estava se credenciando como a melhor
adversária para ir ao 2o turno contra Maluf. Mas as pesquisas foram manipuladas
para estimular o voto útil em Covas. A Globo com seu poderio ajudou a divulgar
os números manipulados. O resultado foi a passagem de Covas para o turno final
da eleição. O resultado foi um eleitorado passado para trás pela Globo e seus
parceiros da mídia, especializados na manipulação da informação.
Para encurtar uma história que
já vai ficando desagradável demais, finalmente chegamos a 2002. Lula é eleito
para assumir o comando do navio a caminho naufrágio. Ganha 30 minutos de
entrevista no Jornal Nacional após a confirmação da vitória. Para quem só
aparecia na telinha do plim-plim em horário eleitoral gratuito ou para ser
avacalhado, era surpreendente. Mais uma esperteza dos Marinhos. O grupo da
família havia anunciado uma moratória no mesmo dia da entrevista. Mais
precisamente, a Globopar tinha dívidas equivalentes a US$ 2,63 bilhões, das
quais US$ 2,21 bilhões em moeda estrangeira. Ou seja até eles caíram no conto do
Real forte e se endividaram em dólar. Agora querem ajuda do novo governo. Não dá
ponto sem nó esse pessoal.
Lamentações
por outras razões
Agora, voltemos ao presente
recente e lamentemos. Não a morte do presidente da Rede Globo, pois este tem
quem o lamente com toda justiça. São os representantes e membros da classe
dominante. Lamentemos as declarações de Palocci, que não se sabe onde foi buscar
o compromisso de Marinho com a "construção da democracia brasileira". Lamentemos
o presidente Lula que disse ser o falecido "um homem que veio ao mundo para
prestar serviços à comunicação, à educação e ao futuro do Brasil". Frase ainda
mais triste se recordamos um discurso feito em Sergipe, em 6 de setembro de
1987. Lula, então deputado federal, disse o seguinte: "Nós hoje somos um país
com praticamente 20 milhões de crianças abandonadas. Somos um país com 16
milhões de analfabetos. Somos um país onde a história é contada pela Rede Globo
de Televisão porque o senhor Roberto Marinho não faz outra coisa a não ser
mentir para o povo". Sim, esse Lula que hoje chora - e se cada lágrima que
lhe cai dos olhos fecundasse a terra, cada uma daria luz a um crocodilo! - e se
compunge com a morte do coveiro da democracia no Brasil, um dia falou a verdade...