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Entre a Economia e a Razão

 

            O poder decisório no Brasil passou para a iniciativa privada desde o governo FHC. A primeira medida que o Lula da Silva tomou ao assumir, já em 2003, foi “sinalizar ao mercado de capitais” que manterá o projeto econômico a nós imposto por potência estrangeira entregando o comando do Banco Central a alguém ligado aos interesses bancários e de especuladores de Wall Street.

            E o que diz o presidente do Banco Central, chefe maior de toda a economia brasileira, aquele que decide os valores empregados pelo Governo Federal em seus projetos?

            Em síntese, que se contenham os gastos públicos e que a arrecadação de impostos siga crescente, a isto chamando de “responsabilidade”. Em outras palavras, para ser “responsável” o governo precisa reduzir os investimentos em infra-estrutura, saúde, educação e segurança; aumentar impostos e extorquir dos trabalhadores (que pagam impostos) para ampliar o repasse aos especuladores (que não pagam impostos) através do engenhoso sistema de dívidas em reais junto a bancos privados internacionais.

            Percorre-se o Brasil e vê-se o quadro de devastação que isto tem promovido: estradas abandonadas, esburacadas, impossíveis ao trânsito; escolas abarrotadas e a educação em seus níveis mais desastrosos de nossa história; gente desesperada e desempregada arremessada no colo do tráfico de entorpecentes e atividades congêneres; chovem balas perdidas encontradas em seres humanos nas grandes cidades; matam-se crianças a granel, com o Brasil há anos superando a China neste quesito; preço de alimentos em escala ascendente; mendigos por toda a parte, seja nas ruas, seja à porta dos bancos e casas lotéricas para receber a esmola governamental; filas monumentais para consultar-se com médicos e enfermeiras mal-remuneradas nos hospitais públicos que ainda existem no país; receita na mão, muitos não dispõem sequer dos recursos necessários a comprar nas farmácias em que o governo vende medicamentos a gente pobre.

 

 

Contendo a insatisfação popular

 

            Houve um tempo em que seria impensável. Hoje é comum. A fim de que sequer haja organização para combater os males deste tempo os poucos gastos governamentais autorizados pelo Banco Central se concentram em propaganda e chantagem, ambas maciças e massacrantes.

            Com todos os incentivos à especulação e a penalização crescente de toda a atividade produtiva é surpreendente que ainda haja quem disponha de recursos e tente empreender algo concreto. Quando, a despeito de todo o aparato em contrário, se consegue realizar algo e até gerar empregos, isto é magnificado e torcido.

            Quantas pessoas poderiam trabalhar e não estão trabalhando hoje porque a máquina governamental está aparelhada para inibir o crescimento, a produtividade? Quantos empregos, com carteira assinada, precisariam ser gerados mensalmente, durante quantos anos, a fim de resgatar a dignidade do povo brasileiro? Nunca saberemos, pois isto não se pesquisa. A propaganda precisa ter alguma relação com a realidade e o número absoluto de empregos gerados a despeito do desgoverno é apresentado de maneira massacrante como “realização de governo”. Assim, quando o país pede algo como 1 milhão de novos empregos ao mês durante pelo menos 3 anos consecutivos para sair do enrosco, a geração de 100 mil novos postos de trabalho “no mês passado” – dados usualmente incrementados em seus números mais precisos através de maquiagens diversas – é apresentada como uma conquista do governo. Ministério do Trabalho, Centrais Sindicais, líderes políticos outrora ligados a causas trabalhistas festejam ou se calam: tá tudo dominado...

 

O risco-Brasil e o grau de investimento

 

            Uma das agências de análise de risco aos investimentos do capital especulativo deu um selinho de qualidade “-BBB” ao Brasil, igualando-nos a alguns países africanos que também o ostentam. Duas agências maiores não a seguem. Lula da Silva protesta. Não porque o risco de vida esteja pela hora da morte no Brasil que (disse) governa; antes porque os EUA têm risco zero embora sua dívida seja mais elevada que a nossa.

            Este é o ponto mais dramático. Uma vez que Lula da Silva optou por entregar a gestão econômica do Brasil aos representantes locais de Wall Street, quando se fala em “risco” deixa-se de lado a vida humana em qualquer de seus multifacéticos aspectos. Considera-se somente o “risco” que o atual governo brasileiro apresenta de, eventualmente, não pagar os juros da dívida internalizada e contrariar interesses dos especuladores. Está claro que o governo capacho de Lula da Silva não enfrentaria este desafio. Ele vive muitíssimo bem. Passeia de avião que ele mesmo mandou fazer na Alemanha, no qual degusta sua Água Don Perrignon e é massageado enquanto pensa no que vai latir em palanques diversos. A claque garante ainda a massagem de seu ego naqueles episódios em que se declara “um do povo, como vocês” segundos antes de, cercado de seguranças armados, protegidos por coletes-a-prova-de-balas dentro de seus ternos é escoltado com pompa e circunstância aos salões dos poderosos e de volta a seu avião. Dentro de sua limitada consciência não tem o menor interesse em que uma situação a ele tão confortável, rica e boa mude. Portanto o capital especulativo pode dormir sossegado que ele se encarregará de esfolar até o último brasileiro para garantir a enorme lucratividade dos especuladores que a ele se aliaram.

            Morre-se de balas perdidas nas grandes cidades. Assaltos, seqüestros e assassinatos se multiplicam. O preço dos alimentos aumenta e o salário segue em queda livre. A pobreza se amplia tão celeremente quanto se alarga o fosso entre os poucos mais ricos e a crescente multidão de miseráveis (com o cuidado de que as pesquisas maquiadas atestem o oposto, naturalmente). O risco para o brasileiro seguir vivendo com dignidade nunca esteve tão alto. Mas o risco ao capital especulativo é realmente quase nulo. Já no Chile de Augusto Pinochet Ugarte, matavam-se opositores a granel e a segurança ao capital era considerada “exemplar” pelas potências que impuseram ditaduras em nosso hemisfério.

            É uma regra absoluta do capitalismo: quanto pior vive a gente, mais seguros os investimentos. E Lula da Silva quer ser reconhecido como o presidente que mais garantiu os lucros com a especulação em toda a história do Brasil. É um sério candidato, sem dúvida! Nem o general Ernesto Geisel conseguiu garantir tamanha segurança ao capital especulativo num país de famintos, presos, torturados e exilados políticos!

 

 

Crise na mídia

 

            Anapu, Pará, fevereiro de 2005: Dorothy Stang, católica, estadunidense, 73 anos, assassinada com 6 tiros. Brasil (e mundo) transtornado. Lula decreta aos berros “o fim da impunidade nestepaíz”. Corrupção. Mensalão. Dólares na cueca. Sanguessugas. Tráfico. Incompetência. Ninguém punido. Ninguém. Anapu, Pará, maio de 2008: mandante condenado em primeira instância e inocentado em instância superior.

            Quem fabricou o dossiê?

            Um clandestino.

            Quem matou a menina?

            Um clandestino.

            Não surpreende que Lula da Silva, acostumado a defender acusados e indiciados, corra em apoio aos únicos comprovadamente presentes no momento em que a tragédia ocorreu. Surpreende que o povo desaprove a bestice e aplauda a besta.

            Aumentam os preços dos alimentos – cuja produção vai escasseando – parte porque se prefere produzir “biodiesel” a produzir alimentos, parte porque a especulação é imensamente mais lucrativa que a produção, com menores riscos ao capital.

            Lula “não admite” que o estímulo ao biodiesel seja fator relevante para a crise dos alimentos. Mantega propõe retirar os preços dos alimentos dos cálculos da inflação. A plebe aplaude. Faminta. Mas aplaude.

            Assuntos desagradáveis são calculadamente removidos do noticiário. As condições de recepção a brasileiros na Espanha melhorou? O silêncio é em si a resposta. Com que dinheiro o churrasqueiro de Lula da Silva comprou um dossiê antitucano? É moral o presidente de uma nação desesperada contratar um churrasqueiro para temperar sua carne importada? Por que importar carne num país de dimensões continentais? Assunto no esquecimento.

            Ciro Gomes levou a sogra para passear no exterior com dinheiro público. Lula da Silva o defende. Hélio Bosta leva enorme trupe familiar nas mesmas condições. Faz-se silêncio. A mídia se domestica.

            Nunca aconteceu uma entrevista coletiva à imprensa nestes 5 anos de lulo-petismo. As poucas que se tentou macaquear foram protagonizadas por jornalistas amestrados a só perguntar besteiras de maneira a “fazer escada” para o entrevistado subir.

 

Desastre Federal

 

            Sem dúvida, Lula da Silva, do alto de suas práticas perdulárias com dinheiro público, é o maior responsável não apenas por promover e homologar gastos monumentais de dinheiro público em despesas pessoais com o uso de cartões corporativos do Governo Federal. Ainda mais mesquinho ordenou aquela loucura absolutamente desnecessária: que a Casa Civil da Presidência da República providenciasse um levantamento detalhado dos gastos mais embaraçosos de FHC com vistas a intimidar a oposição tucana colocando a todos no mesmo balaio.

            No Senado Federal, pouco mais que a inexistência do PAC, exceto como peça de propaganda e a existência do dossiê contra FHC, chamado pelo governo de “Banco de Dados”, se provou. A oposição, ao invés de se aprofundar nestes dois quesitos fundamentais decidiu-se por deslocar o debate e sepultar a questão: “é correto mentir a torturadores ou não?” Debate ultrapassado, resta-nos aguardar, que os aloprados do Governo Federal logo-logo produzirão o próximo escândalo.

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 10/05/2008

 

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