|

Mais uma vez o
Exército na política. E a autopista: oportunidades para quem?
Os escândalos da semana giraram mais uma vez em torno do
compadrio na política brasileira e Do péssimo encaminhamento de nossa
economia, saudada pelos apostadores, que ampliam sua fortuna do dia para a
noite, como “uma autopista de oportunidades” enquanto no andar de baixo a
comida fica cada vez mais cara e a vida cada dia mais difícil.
Semana passada terminou com a demonstração absolutamente
crua e cruel dos efeitos práticos conquistados com a exaltação do econômico
e o amesquinhamento do político no mundo contemporâneo, Brasil em
particular. Um amplo programa de propagandas e forjas de consenso culminaram
na derrota da política pelo econômico, com a democracia substituída pelo
mercado e o pragmatismo mais limitado ditando normas, sufocando qualquer
eivor de planejamento de longo prazo. Foi-se o tempo em que o Brasil tinha
um Ministério do Planejamento digno deste nome. Presentemente aquele
ministério, surpreendentemente mantendo o mesmo nome, se reduz a planejar
cortes de orçamento e transferências de renda dos trabalhadores para o
grande capital especulativo.
Nas
condições atuais o Brasil é uma autopista de oportunidades
Esta
frase foi pronunciada por um camarada que conseguiu dar um golpe bilionário,
consta que dentro da lei vigente no país (se não o foi pior ainda),
permitindo-lhe ficar algo como 4 bilhões – de dólares! – mais rico do que já
era em único dia.
Por
“condições atuais” está se falando precisamente da capitulação do político
ao econômico, da subordinação dos poderes constituídos ao controle do
mercado de capitais que sacrifica o trabalho produtivo e premia – como neste
exemplo – a pura especulação em torno de “bons” e “maus” momentos,
permitindo que o jogador ganhe em ambos e o trabalho produtivo perca em
todos. Nas condições atuais o espantoso é que ainda haja trabalho produtivo
apesar de todo o desincentivo. Recapeado de propaganda em contrário, embora,
custa a crer que os produtores nela acreditem mais que em seu cotidiano
desgraçado.
Elevam-se os impostos que se destinam principalmente a garantir o capital
dos jogadores que aqui especulam. De fato, não há melhor garantia ao mercado
que os impostos das nações colocados à disposição de sua sanha; o mundo
segue esta orientação econômica antropofágico-fratricida e todos os que
produzem pagam impostos que se destinam ao enriquecimento escandaloso dos
que especulam.
No
Brasil chegamos há um severo descolamento entre os compromissos que os
candidatos assumem historicamente ou nas campanhas e sua prática política,
descolamento este brilhantemente sumarizado por Lula da Silva, o mais
completo representante da política tradicional e elitista destepaíz, assim:
“não se governa com principismo; principismo a gente usamos para ganharmos
as eleições; no poder a gente tem de governar com o que se tem”.
Nesta
autopista em que o Brasil se transformou os vencedores são cada vez menos
humanos e menos numerosos enquanto os desastres consomem a maioria em
espiral crescente.
O
Exército a serviço da política
Já é
suficientemente preocupante que nossas fronteiras estejam sem defesa, que
nosso céu esteja tão inseguro para viajar e nossos mares tão sem proteção.
Mas é grave demais que o sucateamento das Forças Armadas patrocinado por
Lula da Silva e sua camarilha culmine com o assassinato de três cidadãos num
morro bem no centro da cidade do Rio de Janeiro. Coisa que não acontecia –
pelo menos de forma tão aberta e noticiada – desde que se anunciou o final
da Ditadura Militar. A todo o instante me recordo dos infames IPM’s
(Inquéritos Penais Militares) da Ditadura: nada de verdade e versões
absolutamente inacreditáveis. A versão do oficial que comandou a operação,
que o Exército Brasileiro teria um convênio com traficantes de um morro
vizinho, a quem teriam sido entregues os três “elementos” para o devido
extermínio, soa extravagante demais.
Mal nos
refazemos dos últimos escândalos (a compra ilegal da Varig por uma
empresa estrangeira sob o comando direto da Presidência da República através
do Primeiro Compadre e a fusão ilegal da Oi/Telemar, de Lula da
Silva, com a Brasil Telecom foram os mais recentes) e outros estouram. Desta
vez envolvendo o Exército Brasileiro na política. De novo?
Marcelo
Crivela, pré-candidato a prefeito do Rio de Janeiro, elaborou um projeto de
lei sancionado por Lula da Silva, de quem é aliado, prevendo reformas em um
trecho de uma favela no centro do Rio, trechinho mais visível e visitado,
como nas plantações de cana-de-açúcar à beira de estradas no final do século
XIX, “só para inglês ver”, miseravelmente com finalidades de propaganda. A
isto ficou reduzida a política brasileira após sua capitulação ao capital
especulativo: o Presidente da República, no uso de suas atribuições e
cumprindo uma Lei votada no Senado Federal manda o Exército Brasileiro
trocar telhas e caiar a fachada de umas casas pobres em favela carioca. Fica
uma Guarnição do Exército Brasileiro reduzida a braço armado de uma
candidatura de aliado do governo Lula da Silva... E fazendo merda, ainda por
cima!
Consola
pouco, eu sei, mas, a se manter o nível, semana que vem estaremos debatendo
os novos escândalos que surgirão e este será mais um a somar-se ao das
Sanguessugas, Mensaleiros, Caos Aéreo e tantos outros não resolvidos
incentivando a fonte geratriz a produzir novos escândalos, cada vez mais
graves e maiores. Até quando? A paciência do brasileiro parece não conhecer
limites.
Ainda é
possível ter alguma esperança no Brasil? Bom, se este episódio houver
ensinado, pelo menos, que não é utilizando o Exército numa guerra contra
favelados que se resolverá o problema das favelas, da miséria ou da pobreza
já será alguma coisa. Chegou-se a criar uma expectativa similar à que os
franceses tinham no Exército daquele país quando enviado a ocupar a Casbah
em Argel no início da década de 60 do século passado. O filme de Gillo
Pontecorvo, Batalha de Argel, é suficientemente esclarecedor
acerca de como atua uma Força Armada numa favela, aliás... Se este caso
deixar claro que brasileiros não são franceses, favelados cariocas não são
muçulmanos argelinos e repressão armada não é a melhor maneira de combater a
miséria (física, mental e espiritual), já será lucro.
Lázaro Curvêlo
Chaves – 22/06/2008
Arquivo de Artigos Semanais, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
©
Copyleft LCC
Publicações Eletrônicas - Todo o conteúdo desta página pode ser
distribuído exclusivamente para fins não comerciais desde que mantida a citação
do Autor e da fonte. |