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ONDAS E OUTROS POEMAS ESPARSOS
Euclides da Cunha
Rio
de Janeiro - 1883
14
anos de idade
Observação fundamental para explicar a série de absurdos que há
nestas páginas.
ONDAS
Correi, rolai, correi _ ondas sonoras
Que
à luz primeira, dum futuro incerto,
Erguestes-vos assim _ trêmulas, canoras,
Sobre o meu peito, um pélago deserto!
Correi... rolai _ que, audaz, por entre a treva
Do
desânimo atroz _ enorme e densa _
Minh'alma um raio arroja e altiva eleva
Uma
senda de luz que diz-se _ Crença!
Ide
pois _ não importa que ilusória
Seja a esp'rança que em vós vejo fulgir...
_
Escalai o penhasco ásp'ro da Glória...
Rolai, rolai _ às plagas do Porvir!
[1883]
EU
QUERO
Eu
quero à doce luz dos vespertinos pálidos
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas
_
Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos
Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...
Eu
quero aí viver _ o meu viver funéreo,
Eu
quero aí chorar _ os tristes prantos meus...
E
envolto o coração nas sombras do mistério,
Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!
Eu
quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens da agreste patativa...
Da
natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,
Beber a Calma, o Bem, a Crença _ ardente a altiva.
Eu
quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das
asp'ras cachoeiras que irrompem do sertão...
E a
minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da so'idão...
[1883]
REBATE (Aos padres)
Sonnez! sonnez toujours, clairons de la pensée.
V.
Hugo
Ó
pálidos heróis! ó pálidos atletas _
Que
co'a razão sondais a profundez dos Céus _
Enquanto do existir no vasto Saara enorme
Embalde procurais essa miragem _ Deus!...
A
postos!... É chegado o dia do combate...
_
As frontes levantai do seio das so'idões _
E
as nossas armas vede _ os cantos e as idéias,
E
vede os arsenais _ cérebros e corações.
De
pé... a hora soa... esplêndida a Ciência
Com
esse elo _ a idéia _ as mentes prende à luz
E
ateia já, fatal, a rubra lavareda
Que
vai _ de pé heróis! _ queimar a vossa Cruz...
Vos
pesa sobre a fronte um passado de sangue.
_ A
vossa veste negra a muit'alma envolveu!
E
tendes que pagar _ ah! dívidas tremendas!
Ao
mundo: João Huss _ e à Ciência: Galileu.
Vós
sois demais na terra!... e pesa, pesa muito
O
lívido bordel das almas, das razões,
Sobre o dorso do globo _ sabeis _ é o Vaticano,
Do
qual a sombra faz a noite das nações...
Depois... o século expira e... padres, precisamos
Da
ciência c'o archote _ intérmino, fatal _
A
vós incendiar _ aos báculos e às mitras,
A
fim de iluminar-lhe o grande funeral!
Já
é, já vai mui longa a vossa fria noite,
Que
em frente à Consciência, soubestes, vis, tecer...
Oh
treva colossal _ partir-te-á a luz...
Oh
noite, arreda-te ante o novo alvorecer...
Oh
vós que a flor da Crença _ esquálidos _ regais
Co'as lágrimas cruéis _ dos mártires letais _
Vós, que tentais abrir um santuário _ a cruz,
Da
multidão no seio a golpe de punhais...
O
passado trazeis de rastro a vossos pés!
Pois bem _ vai-se mudar o gemer em rugir _
E a
lágrima em lava!... ó pálidos heróis,
De
pé! que conquistar-vos vamos _ o porvir!...
[1883]
DANTÃO
Parece-me que o vejo iluminado.
Erguendo delirante a grande fronte
_
De um povo inteiro o fúlgido horizonte
Cheio de luz, de idéias constelado!
De
seu crânio vulcão _ a rubra lava
Foi
que gerou essa sublime aurora
_
Noventa e três _ e a levantou sonora
Na
fronte audaz da populaça brava!
Olhando para a história _ um século e a lente
Que
mostra-me o seu crânio resplandente
Do
passado através o véu profundo...
Há
muito que tombou, mas inquebrável
De
sua voz o eco formidável
Estruge ainda na razão do mundo!
[1883]
MARAT
Foi
a alma cruel das barricadas!
Misto e luz e lama!... se ele ria,
As
púrpuras gelavam-se e rangia
Mais de um trono, se dava gargalhadas!...
Fanático da luz... porém seguia
Do
crime as torvas, lívidas pisadas.
Armava, à noite, aos corações ciladas,
Batia o despotismo à luz do dia.
No
seu cérebro tremente negrejavam
Os
planos mais cruéis e cintilavam
As
idéias mais bravas e brilhantes.
Há
muito que um punhal gelou-lhe o seio...
Passou... deixou na história um rastro cheio
De
lágrimas e luzes ofuscantes.
[1883]
ROBESPIERRE
Alma inquebrável _ bravo sonhador
De
um fim brilhante, de um poder ingente,
De
seu cérebro audaz, a luz ardente
É
que gerava a treva do Terror!
Embuçado num lívido fulgor
Su'alma colossal, cruel, potente,
Rompe as idades, lúgubre, tremente,
Cheia de glórias, maldições e dor!
Há
muito que, soberba, ess'alma ardida
Afogou-se cruenta e destemida
_
Num dilúvio de luz: Noventa e três...
Há
muito já que emudeceu na história
Mas
ainda hoje a sua atroz memória
É o
pesado mais cruel dos reis!...
[1883]
SAINT-JUST
Un
discours de Saint-Just donnait tout de suite un caractère terrible
au débat...
Raffy: Procès de Louis XVI
Quando à tribuna ele se ergueu, rugindo,
_
Ao forte impulso das paixões audazes _
Ardente o lábio de terríveis frases
E a
luz do gênio em seu olhar fulgindo,
A
tirania estremeceu nas bases,
De
um rei na fronte ressumou, pungindo,
Um
suor de morte e um terror infindo
Gelou o seio aos cortesãos sequazes _
Uma
alma nova ergueu-se em cada peito,
Brotou em cada peito uma esperança,
De
um sono acordou, firme, o Direito _
E a
Europa _ o mundo _ mais que o mundo, a França _
Sentiu numa hora sob o verbo seu
As
comoções que em séculos não sofreu!...
[1883]
TRISTEZA
Ai!
quanta vez _ pendida a fronte fria
_
Coberta cedo do cismar p'los rastros _
Deixo minh'alma, na asa da poesia,
Erguer-se ardente em divinal magia
À
luminosa solidão dos astros!...
Infeliz mártir de fatais amores
Se
ergue _ sublime _ em colossal anseio,
Do
alto infinito aos siderais fulgores
E
vai chorar de terra atroz as dores
Lá
das estrelas no rosado seio!
............................................................................................
É
nessa hora, companheiro, bela,
Que
ela a tremer _ no seio da soedade
_
Fugindo à noite que a meu seio gela _
Bebe uma estrofe ardente em cada estrela,
Soluça em cada estrela uma saudade...
............................................................................................
É
nessa hora, a deslizar, cansado,
Preso nas sombras de um presente escuro
E
sem sequer um riso em lábio amado _
Que
eu choro _ triste _ os risos do passado,
Que
eu adivinho os prantos do futuro!...
[1883]
GONÇALVES DIAS (Ao pé do mar)
Seu
eu pudesse cantar a grande história,
Que
envolve ardente o teu viver brilhante!...
Filho dos trópicos que _ audaz gigante _
Desceste ao túmulo subindo à Glória!...
Teu
túmulo colossal _ nest'hora eu fito _
Altivo, rugidor, sonoro, extenso _
O
mar!... O mar!... Oh sim, teu crânio imenso _
Só
podia conter-se _ no infinito...
E
eu _ sou louco talvez _ mas quando, forte,
Em
seu dorso resvala _ ardente _ Norte,
E
ele espumante estruge, brada, grita
E
em cada vaga uma canção estoura...
Eu
_ creio ser tu'alma que, sonora,
Em
seu seio sem fim _ brava _ palpita!...
[29
nov. 1883]
VERSO E REVERSO
Bem
como o lótus que abre o seio perfumado
Ao
doce olhar da estrela esquiva da amplidão
Assim também, um dia, a um doce olhar, domado,
Abri meu coração.
Ah!
foi um astro puro e vívido, e fulgente,
Que
à noite de minh'alma em luz veio romper
Aquele olhar divino, aquele olhar ardente
De
uns olhos de mulher...
Escopro divinal _ tecido por auroras _
Bem
dentro do meu peito, esplêndido, tombou,
E
nele, altas canções e inspirações ardentes
Sublime burilou!
Foi
ele que a minh'alma em noite atroz, cingida,
Ergueu do ideal, um dia, ao rútilo clarão.
Foi
ele _ aquele olhar que à lágrima dorida
Deu-me um berço _ a Canção!
Foi
ele que ensinou-me as minhas dores frias
Em
estrofes ardentes, altivo, transformar!
Foi
ele que ensinou-me a ouvir as melodias
Que
brilham num olhar...
E
são seus puros raios, seus raios róseos, santos
Envoltos sempre e sempre em tão divina cor,
As
cordas divinais da lira de meus prantos,
D'harpa da minha dor!
Sim
_ ele é quem me dá o desespero e a calma,
O
ceticismo e a crença, a raiva, o mal e o bem,
Lançou-me muita luz no coração e na alma,
Mas
lágrimas também!
É
ele que, febril, a espadanar fulgores,
Negreja na minh'alma, imenso, vil, fatal!
É
quem me sangra o peito _ e me mitiga as dores.
É
bálsamo e é punhal.
A
CRUZ DA ESTRADA
A
meu amigo E. Jary Monteiro
Se
vagares um dia nos sertões,
Como hei vagado _ pálido, dolente,
Em
procura de Deus _ da fé ardente
Em
meio das soidões...
Se
fores, como eu fui, lá onde a flor
Tem
do perfume a alma inebriante,
Lá
onde brilha mais que o diamante
A
lágrima da dor...
Se
sondares da selva e entranha fria
Aonde dos cipós na relva extensa
Noss'alma embala a crença.
Se
nos sertões vagares algum dia...
Companheiro! Hás de vê-la.
Hás
de sentir a dor que ela derrama
Tendo um mistério, aos pés, de um negro drama,
Tendo na fronte o raio de uma estrela!...
Que
vezes a encontrei!... Medrando calma
A
Deus, entre os espaços
No
desgraçado, ali tombado, a alma
Que
tirita, quem sabe?, entre os seus braços.
Se
a onça vê, lhe oculta a asp'ra, ferrenha
Garra, estremece, pára, fita-a, roja-se,
Recua trêmula, e fascinada arroja-se,
Entre as sombras da brenha!...
E a
noite, a treva, quando aos céus ascende
E
acorda lá a luz,
Sobre os seus braços frios, frios, nus,
_
Tecido de astros em brial estende...
Nos
gélidos lugares
Em
que ela se ergue, nunca o raio estala,
Nem
pragueja o tufão... Hás de encontrá-la
Se
acaso um dia nos sertões vagares...
[maio 1884]
COMPARAÇÃO
"Eu
sou fraca e pequena..."
Tu
me disseste um dia.
E
em teu lábio sorria
Uma
dor tão serena,
Que
em mim se refletia
Amargamente amena,
A
encantadora pena
Quem em teus olhos fulgia.
Mas
esta mágoa, o tê-la
É
um engano profundo.
Faze por esquecê-la:
Dos
céus azuis ao fundo
É
bem pequena a estrela...
E
no entretanto _ é um mundo!
[1884]
STELLA
A
Sebastião Alves
"Eu
sou fraca e pequena..."
Tu
me disseste um dia,
E
em teu lábio sorria
Uma
dor tão serena,
Que
a tua doce pena
Em
mim se refletia
_
Profundamente fria,
_
Amargamente amena!...
Mas
essa mágoa, Stella,
De
golpe tão profundo,
Faz
tu por esquecê-la _
Das
vastidões no fundo
_ É
bem pequena a estrela _
No
entanto _ a estrela é um mundo!...
AMOR ALGÉBRICO [Título anterior: "Álgebra lírica"]
Acabo de estudar _ da ciência fria e vã,
O
gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente,
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das
páginas cruéis de um livro de Bertrand.
Bem
triste e bem cruel decerto foi o ente
Que
este Saara atroz _ sem aura, sem manhã,
A
Álgebra criou _ a mente, a alma mais sã
Nela vacila e cai, sem um sonho virente.
Acabo de estudar e pálido, cansado,
Dumas dez equações os véus hei arrancado,
Estou cheio de 'spleen', cheio de tédio e giz.
É
tempo, é tempo pois de, trêmulo e amoroso,
Ir
dela descansar no seio venturoso
E
achar do seu olhar o luminoso X.
[1884]
A
FLOR DO CÁRCERE [Publicado na "Revista da Família Acadêmica", número
1, Rio de Janeiro, novembro de 1887.]
Nascera ali _ no limo viridente
Dos
muros da prisão _ como uma esmola
Da
natureza a um coração que estiola _
Aquela flor imaculada e olente...
E
'ele' que fora um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O
lábio seco, na úmida corola
Daquela flor alvíssima e silente!...
E _
ele _ que sofre e para a dor existe _
Quantas vezes no peito o pranto estanca!...
Quantas vezes na veia a febre acalma,
Fitando aquela flor tão pura e triste!...
_
Aquela estrela perfumada e branca,
Que
cintila na noite de sua alma...
[1884?]
ÚLTIMO CANTO
I
Amigo!... estas canções, estas filhas selvagens
Das
montanhas, da luz, dos céus e das miragens
Sem
arte e sem fulgor, são um sonoro caos
De
lágrimas e luz, de plectros bons e maus...
Que
ruge no meu peito e no meu peito chora,
Sem
um 'fiat' de amor, sem a divina aurora
De
um olhar de mulher...
perfeitamente o vês,
Não
sei metrificar, medir, separar pés...
_
Pois um beijo tem leis? a um canto um núm'ro guia?
Pode moldar-se uma alma às leis da geometria?
Não
tenho ainda vinte anos.
E
sou um velho poeta... a dor e os desenganos
Sagraram-me mui cedo, a minha juventude
É
como uma manhã de Londres _ fria e rude...
Filho lá dos sertões nas múrmuras florestas,
Nesses berços de luz, de aromas, de giestas _
Onde a poesia dorme ao canto das cachoeiras,
Eu
me embrenhava só... as auras forasteiras
Me
segredavam baixo os cantos do mistério
E a
floresta sombria era como um saltério,
Em
cujas vibrações minh'alma _ ébria _ bebia
Esse licor de luz e cantos _ a Poesia...
Mas, cedo, como um elo atroz de luz e pó
Um
sepulcro ligara a Deus minh'alma... e só
Selvagem, triste e altivo, eu enfrentei o mundo,
Fitei-o, então, senti de meu cérebro no fundo
Rolar, iluminando a alma e o coração,
Com
a lágrima primeira _ a primeira canção...
Cantei _ porque sofria _ e, amigo, no entretanto,
Sofro hoje _ porque canto.
Já
vês, portanto, em mim esta arte de cantar
É
um modo de sofrer , é um meio de gozar...
Quem há que meça aí de uma lágrima o brilho?
Pois erra-se sofrendo?...
Eu
nunca li Castilho.
Detesto francamente esses mestres cruéis
Que
esmagam uma idéia sob quebrados pés...
Que
vestem co'um soneto esplêndido, sem erro,
Um
pensamento torto, encarquilhado e perro,
Como um correto fraque às costas de um corcunda!...
Oh!
sim, quando a paixão o nosso ser inunda,
E
ferve-nos na artéria, e canta-nos no peito,
_
Como dos ribeirões o borbulhoso leito,
Parar _ é sublevar _
Medir _ é deformar!
Por
isso amo a Musset e jamais li Boileau.
II
Esse arquiteto audaz do pensamento _ Hugo _
Jamais sói refrear o seu verso terrível,
Veloce como a luz, como o raio, incoercível!
Se
a lima o toca, ardente, audaz como um corcel,
Às
esporas revel,
Na
página palpita e ferve e freme e estoura
Como um raio a vibrar no seio de uma aurora...
Que
lime-se num verso uma cadência má,
Que
p'los dedos se contem as sílabas _ vá lá!
Mas
que um tipão qualquer _ como muitos que eu vejo _
Espiche, estique e encolha a tal hora e sem pejo
Um
desgraçado verso, e, após tanto medir,
Torcer, brunir, sovar, limar, polir, polir,
No-lo venha a trazer, às pobres das ovelhas,
Como um casto 'bijou', feito de sons e luz,
Isto revolta e amola...
Mas
veja ao que conduz
O
vago rabiscar de uma pena sem norte:
Falava-te de Deus, de mim, da estranha sorte
Que
aniila a poesia _ e acabo num jogral,
Num
lorpa, num boçal,
Que
nos recebe a pés, e faz do amor uma arte.
Deixemo-lo de parte.
III
Escuta-me, eu teria um imenso prazer
Se
podendo domar, curvar, forçar, vencer
O
cér'bro e o coração, fosse este último canto
O
fim de meu sonhar, de meu cantar, porquanto...
RIMAS
Ontem _ quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão _ louca _ suprema
E
no teu lábio, essa rósea algema,
A
minha vida _ gélida _ prendias...
Eu
meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema...
_
Como engastar tua alma num poema?
E
eu não chorava quanto tu te rias...
Hoje, que vivo desse amor ansioso
E
és minha _ és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!
E
tremo e choro _ pressentindo _ forte _,
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida _ que é a morte...
[1885]
SONETO
Dedicado a Anna da Cunha
"Ontem, quanto, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão, louca, suprema,
E
no teu lábio, essa rosa da algema,
A
minha vida, gélida prendias...
Eu
meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema...
_
Como engastar tua alma num poema?
E
eu não chorava quando tu te rias...
Hoje, que vives desse amor ansioso
E
és minha, só minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste, sendo tão ditoso!
E
tremo e choro, pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida, que é a morte..."
[10
set. 1890]
A
RIR
Eu
já não creio mais... sombrio e calmo enfrento
_ O
lábio ermo da prece, o peito ermo da crença _
A
estrela _ rubra e imensa
De
meu destino atroz, aspérrimo e sangrento!...
E
embora sobre mim flamívoma suspensa
Em
minh'alma os clarões fatais ela concentre,
Eu
suporto-lhe bem o flamejante baque
_
Altivamente calmo _ entrincheirando-me entre
Uma
canção de Byron
E
um cálix de 'cognac'...
_
Não há dor que resista ao som de uma risada! _
Depois, se me exarcebo!
e
tremo e choro erguendo a prece à alma magoada,
Mais me dói essa dor, mais esse mal é acerbo!
Assim _ eu resolvi, indiferente e frio
Cheio de orgulho e 'spleen' _ como um banqueiro inglês,
Sepultar na ironia o pranto meu sombrio...
Por
isso quando atroz na triste palidez
De
minha fronte paira amarga idéia _ eu rio!...
E
quando pouco a pouco
Essa idéia me abate e vence-me alterosa,
De
amargores repleta _ eu rio como um louco...
E
se ela ainda dói mais, e forte e tenebrosa
Soe
ao último ideal da minh'alma anilar,
E
vencer-me de todo
Então _ eu me ergo mais _ e _ desvairado o olhar
_
Divinamente doudo _
Eu
rio, rio muito _ até chorar!...
[1886]
FAZENDO VERSOS
A
Moreira Guimarães
Poeta que calcula quando escreve
..................................................
Que
vá poetizar para os conventos.
G.
Magalhães
Colegas. Essas canções _ essas filhas selvagens
Das
montanhas, da luz, dos céus e das miragens
_
Sem arte e sem fulgor _ são um sonoro caos
De
lágrimas e luz, de plectros bons e maus
Que
ruge no meu peito e no meu peito chora;
Sem
um 'fiat' de amor, sem a divina aurora
De
uns olhos de mulher...
Mas
tenho vinte e um anos
E
sou um velho poeta _ a dor e os desenganos
Sagraram-me mui cedo; a minha juventude
É,
como uma manhã de Londres _ fria e rude!
_
Filho lá dos sertões _ nas múrmuras florestas,
Nesses berços de luz, de aromas e giestas
Aonde a poesia dorme ao canto das cachoeiras,
Eu
me embrenhava só... as auras forasteiras
Me
segredavam baixo as dulias do mistério
E a
floresta ruidosa era como um saltério
De
cujas vibrações meu coração vivia
Bebendo esse licor de luzes _ a Poesia!...
Mui
cedo _ como um elo atroz de luz e pó
Um
sepulcro ligara a Deus minh'alma... só,
_
Selvagem, triste e altivo _ eu enfrentei o mundo
Fitei-o e então senti _ de meu cérebro no fundo
Rolar _ iluminando a alma e o coração _
Com
a lágrima primeira, a primeira canção!...
Cantei _ porque sofria _ e, veja que no entanto
Sofro hoje _ porque canto!...
Já
vês, portanto: em mim _ isso de versejar _
É
um modo de sofrer e um meio de gozar
E
nada mais, palavra!...
...Eu nunca li Castilho _
Detesto francamente estes mestres cruéis
Que
esmagam uma idéia entre 'quebrados pés',
Que
vestem com um soneto _ esplêndido, sem erro _
Um
pensamento torto, encarquilhado e perro _
_
Como um correto 'frac' ao dorso de um corcunda!...
Oh!... sim _ quando a paixão o nosso ser inunda
E
ferve-nos na artéria e canta-nos no peito
_
Como dos ribeirões o estrepitante leito _
Parar _ é sublevar
_
Medir _ é deformar _
Por
isso amo a Musset e jamais li Boileau!...
Esse arquiteto audaz do pensamento _ Hugo _
Jamais soe refrear o seu verso invencível
Veloz, mais do que a luz _ como o raio _ incoercível!
Se
a lima o toca _ ardente, audaz como um corcel
Às
esporas revel
Na
página palpita _ e corre e brilha e estoura
Como um raio a vibrar no seio de uma aurora!...
Que
a crítica burguesa e honesta me perdoe:
Bem
sei que isso faz mal _ sei bem que isto lhe dói:
Que
ela me estigmatise a fronte e em raiva ingente
Arroje sobre mim a pecha: decadente!...
E
vede-me calcar do Pindo as áureas trilhas...
Colega!... hão de ser sempre essas canções estranhas
Umas selvagens filhas
Das
miragens, dos céus, da luz e das montanhas!...
CRISTO [Publicado na "Revista da Família Acadêmica", Rio de Janeiro,
jul. 1888. Dedicatória posterior.]
A
Filinto d'Almeida
Era
uma idade atroz... forte e grandiosa.
Levantando altivíssima a alterosa
E
fulgurante coma
Nas
ruínas das nações se erguia Roma...
Trágica e má _ das raças quebradas,
Das
velhas raças de remota história,
Afogando a existência, a força e a glória
_
Num dilúvio flamívomo de espadas! _
Não
havia aplacá-la, nem dos perros
A
queixa vil, nem dos heróis nos ferros;
Embalde o pranto acerbo
Sufocando, Mitríades, soberbo,
Se
erguera na Ásia aos rígidos embates
De
férvidas paixões para, possante,
Lançar um trono no bulcão troante
Do
torvelinho horrível dos combates!
Tombara Filopoeme _ altivo o aspeito,
Concentrando no velho e frio peito
Todo o vigor guerreiro,
Todo o heroísmo de um país inteiro...
_ E
o que passou então foi sublimado _
A
Grécia, que era morta, morta e escrava,
Transmudou-se num túmulo _ heróica e brava _
Para guardar seu último soldado...
No
Egito, o horror dos dramas lutuosos...
Rotos, sombrios, pávidos, raivosos,
Os
últimos heróis
Sofriam pela pátria... oh! dor atroz _
Oh!
dor fatal que o coração adstringes!
E
passavam, cingindo as velhas clâmides,
_
Entre a sombra funérea das pirâmides
E o
olhar petrificado das esfinges!
A
Ibéria exangue _ nem sequer o insano
Louco gemer do eterno amante _ o Oceano
Ouvia, lhe atirando às plantas frias
Grandes canções _ vestidas de ardentias...
Amante imenso, de um amor profundo,
Que
mais tarde, grandioso, para erguê-la,
_
Não podendo engastá-la numa estrela _
Lançou-lhe aos pés _ um mundo!
Nos
corações as recalcadas penas
Doíam sem um só gemido... apenas
Numa loucura brava.
O
Parta palmo a palmo recuava;
No
terreno sagrado de seus pais;
Caía _ como o raio _ fulminando,
E
morria _ as espadas agitando
Como sabem morrer os imortais!
Mas
de onde vinha esse fatal domínio?
Lançai à história o olhar. Vede:
Um
triclínio.
Das
taças arrebenta
Formidolosa a embriaguez sangrenta...
Um
truão se ergue: em seu olhar cintila
A
febre, às vozes doces de um saltério,
Ébrio e trôpego dança... Ei-lo Tibério...
_Tibério cambaleia _ e o mundo oscila!
Foi
nessa idade atroz e má, repleta
De
crimes, que Jesus, incruento atleta _
Ergueu como uma aurora,
Por
entre a multidão, a fronte loura...
E
nova vida palpitou na terra;
Vacilaram os ferros sanguinários
Nas
manoplas dos rudes legionários;
_
Em frente à paz estremeceu _ a guerra...
Dissolveram-se em prantos os ressábios
Das
concentradas dores, e nos lábios
Sublime, pairou esse
Bafejo ardente da nossa alma... a prece...
E
livre dessas noites que se somem
Ante os fulgores da razão de um justo,
O
mundo inteiro se soerguendo a custo,
Respirava p'la boca de um só homem!
Da
antiga idade, os deuses combalidos
Oscilaram, quebrados, derruídos,
Ante o clarão brilhante
Daquela consciência rutilante...
E,
cobardes, num círculo de lanças,
Cheios de um grande espanto, vacilaram
Os
déspotas, torvados... e recuaram
Ante um homem cercado de crianças...
E
quando ele caiu... o mundo antigo,
O
seu ingrato e trágico inimigo,
_
Alucinado e insano _
Deslumbrou-se ante um quadro sobre-humano:
Aureolava-o ignota claridade...
E
aquele morto... frio, macerado,
Tendo no lábio um riso ensangüentado,
Na
espádua roxa _ erguia a Humanidade...
[1887?]
CALABAR [Título anterior: OS HOLANDESES]
(Fragmento)
Calabar _ só. Queda-se pensativo. Surge de um recanto do forte.
Fr.
Manuel Salvador
FR.
MANUEL _ (à parte) ... Não percamos esta hora.
(Alto, a Calabar)
Pois acreditas tu que é um leão?
(Calabar volta-se, surpreso)
Tu
és
Um
cachorro açulado às goelas do holandês!
CALABAR _ Padre! de onde surgiste? a que vens? e que queres?
E
que palavra vil é esta com que feres
A
quem sempre submisso ouviu a tua voz?
FR.
MANUEL _ Escuta-me, meu filho... Eu precisava, a sós,
Longamente tratar contigo acerca de árdua
Empresa; e a situação em que te vês, aguardo-a
De
muito impaciente...
CALABAR _ Tu achas então que é
Própria a divagações esta hora _ quando a fé
Que
propagas e o Deus, o próprio Deus que adoras
Tem
em roda seis mil espadas vencedoras
Do
herético holandês... Tu queres gracejar
Ante o perigo, padre!?
FR.
MANUEL _ (tranqüilo) _ Escuta, Calabar:
Sabes o que traduz este hábito sombrio?
É o
túmulo de uma alma! Aqui dentro há mais frio,
Mais sombra e mais horror do que nas solidões
Dos
cemitérios... Ouve: Há fundas aflições
De
uma agonia atroz, no ser entregue ao duro
Martírio de arrastar este farrapo escuro.
Sabes tu por acaso avaliar o pavor
De
alguém que arrasta em vida o próprio túmulo, e a dor
De
quem cego da vida às galas soberanas
É
um morto a vagar entre as paixões humanas,
Trágico e só 'perinde ao cadáver', só
Feito uma sombra vã e desprezível? Oh!
Se
podes calcular a espantosa tristeza
De
alguém em frente ao qual, imota, a natureza
Não
tem voz, nem luz... Se podes idear
Sequer a ânsia de alguém destinado a escutar,
_
Monótona, a bater, a bater agoureira,
A
mesma hora a bater durante a vida inteira!
Se
podes avaliar tão mísero viver
E
sofrimentos tais, deves compreender
Que
eu não sei rir sequer, que eu não gracejo nunca!
[1887?]
CÉZARES E CZARES
Os
Cézares cruéis,
Quando deixam da história a cena gigantéia,
Conservam geralmente a linha dos atores,
Que
embora tenham tido espantosos papéis,
Nos
quais dura se alteia
A
desgraça espalhando angústias e terrores,
Querem que os acompanhe o aplauso da platéia...
Mário penetra em Roma
Pela sétima vez erguido ao consulado,
Na
alma robusta o héróis traz sinistros desejos
De
vingança, fatais anelos que não doma...
Sombrio, alucinado,
Não
lhe quebram o assomo os eternos lampejos
Dos
prélios que travou nas lutas do passado:
E a
espada que fulgiu nas sombras da Germânia
Arranca-a em plena insânia,
Vibrando-a doidamente _ e doidamente a enterra
Em
pleno coração da sua grande terra...
Mas
vê-de-o no desterro...
_
Que imensa solidão! que pavoroso estrago! _
Velho, proscrito e só!... ninguém à dor lhe assiste.
Só
lhe é dado rever o alcantilado cerro
O
vulto enorme e vago
Da
pátria, além do mar... Dizei-me o que mais triste:
As
ruínas daquela alma ou as ruínas de Cartago.
César trucida a Gália
E a
Síria e o Egito e a Ibéria... À indômita ambição
Não
lhe basta, porém, o império vitorioso...
Desvaira: vai buscar nos campos de Farsália
Os
sonhos de Pompeu; e em Tapsos _ glorioso _
A
energia moral austera de Catão.
Triunfou! É feliz! Que importam dissabores
Dos
rudes lutadores,
Feitos comparsas vis desses terríveis dramas,
Se
Roma está em festa... e a Gália inteira em chamas!
No
'forum', certo dia:
'Tu
quoque, Brute!' Estranho, este grito se ergueu.
Tumultua o recinto ante o ato formidável:
_
César ferido, o peito em sangue e a fronte fria
Vacila, mas o seu
Aprumo não destrói. Cai, num tombo impecável,
Tragicamente, aos pés das estátuas de Pompeu!
Ivã
subjuga e prende
Ao
carro triunfador os povos de dois mundos.
Reina, impera _ é o Czar! Sua terrível glória
Do
pólo enregelado ao Cáucaso se estende.
Os
Calmucos imundos
Cercam-lhe o trono e a vida. E ler-se sua história
É
ouvir-se a todo instante os rumores profundos,
Que
irrompem do tropel dos esquadrões bravios
Dos
tártaros sombrios...
_
Imenso tropear que afoga os gritos cavos
E
as doidas maldições de cem milhões de escravos!
ESTÂNCIAS [Publicado em "Revista da Família Acadêmica", Rio de
Janeiro, out. 1888.]
XII
Les
beaux yeux sauvent les beaux vers!...
V.
Hugo
Meu
pobre coração tão cedo aniquilado
Na
ardência das paixões _ ó pálida criança _
Revive à doce luz do teu olhar magoado
E
cheio de ilusões, de crenças e esperança
Faz
o castelo ideal das louras utopias
_
Com os brilhos desse olhar e o ouro de tua trança! _
*
Quando sobre as sombrias
Ondas _ vasto o luar esplêndido se espalma
De
todo o seu negror, arranca as ardentias
De
teus olhos assim à luz divina e calma
Dimanam _ cintilando _ as ilusões e os versos
Das
sombras de minh'alma...
E
sonho e canto e rio e me deslumbro... imersos
_
No místico luar que sobre mim derramas _
Fulguram como sóis meus ideais dispersos!...
Fulguram como sóis _ entre sonoras flamas
Partindo no meu peito a tétrica penumbra
E o
silêncio fatal de dolorosos dramas...
E
tudo hoje ante mim tem luz, tem voz _ deslumbra _
Pois _ tal como dos sóis a claridade instila
De
cada um ideal _ uma canção ressumbra _
E
em cada uma canção _ o teu olhar cintila...
[São Paulo, jan. 1888]
OS
LÊMURES
Ó
minha musa _ imaculada e santa!
Deixa um momento os sonhos teus benditos,
Despe os teus véus de noiva do Ideal.
Deixa-os, despe-os e canta
Sobre as ruínas trágicas do mal
As
almas arruinadas dos malditos!...
[188-]
MUNDOS EXTINTOS
São
tão remotas as estrelas que, apesar da vertiginosa velocidade da
luz, elas se apagam, e continuam a brilhar durante séculos.
Morrem os mundos... Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas
luminosas solidões da altura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...
Mas
para nós, di-lo a ciência, além perdura
A
vida, e expande as rútilas magias...
Pelos séculos em fora a luz fulgura
Traçando-lhes as órbitas vazias.
Meus ideais! extinta claridade _
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos
Da
minh'alma a revolta imensidade...
E
sois ainda todos os enganos
E
toda a luz, e toda a mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos...
[1886]
"HÁ
NOS TEUS OLHOS ESCUROS..."
Há
nos teus olhos escuros
Tantas centelhas, que ao vê-las
Penso na treva e nos brilhos
Das
noites cheias de estrelas...
Penso em cousas singulares,
Indagando entre delírios:
Por
que é que os céus inda brilham?
Por
que não se apaga Sírius?
[1888]
LIRISMO A DISPARADA
Eu
sou por certo um ente admirável,
A
quem nenhuma penitência salva.
Não
tiro o meu chapéu à Divindade...
"E
dizem que perdi a Estrela-d'alva"...
E
tão viciado que ainda hoje, à noite,
Um
pelotão de serafins risonhos,
Em
pleno 'boulevard' da Via-Láctea,
Prendeu-me porque eu estava ébrio... de sonhos!
Escândalo no céu. Os santos todos,
Perdendo as composturas consagradas,
Atiravam-me estrelas, como pedras,
E
riam-se a bandeiras despregadas.
Um
desacato escandaloso... e como
O
Supremo Fiscal, nessa emergência,
Não
conteve os seráficos garotos,
Denunciei à polícia a Providência.
Fiz
bem. A rixa é velha. Há muito tempo
Que
eu, o Voltaire e o Comte nem o intento
Podemos ter de passear à noite
Na
grande praça azul do Firmamento.
Se
o fazemos, apagam-se as lanternas
Dos
céus, num pronto e momentâneo eclipse,
E
vemo-nos nas trevas, entre os coices
Da
besta divinal do Apocalipse!
Não
vou mais lá, por isso... Mas que importa...
Por
que falar nesses sucessos tristes?
Trancam-me os céus: eu tenho o teu olhar...
Nem
me faz falta Deus _ pois tu existes!
D.
QUIXOTE
Assim à aldeia volta o da "triste figura"
Ao
tardo caminhar do Rocinante lento:
No
arcaboiço dobrado _ um grande desalento,
No
entrestecido olhar _ uns laivos de loucura...
Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura
Do
ideal e da Fé, tudo isto num momento
A
rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre os risos boçais do Bacharel e o Cura.
Mas, certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente
Contigo a sorte, ao pôr nesse teu cérebro oco
O
brilho da Ilusão do espírito doente;
Porque há cousa pior: é o ir-se a pouco e pouco
Perdendo, qual perdeste, um ideal ardente
E
ardentes ilusões _ e não se ficar louco!
[1890]
"AS
CATAS"
A
Coelho Neto
Que
outros adorem vastas capitais
Aonde, deslumbrantes,
Da
Indústria e da Ciência as triunfais
Vozes se erguem em mágico concerto;
Eu,
não; eu prefiro antes
As
catas desoladoras do deserto,
Cheias de sombra, de silêncio e paz...
Eu
sei que à alma moderna _ alta e feliz,
E
grande, e iluminada,
Não
pode sofrear estes febris
Assomos curiosos que a endoidecem
De
ir ver, emocionada,
Os
milagres da Indústria em Gand ou Essen,
E a
apoteose do século _ em Paris!
Não
invejo, porém, os que se vão
Buscando, mar em fora,
De
outras terras a esplêndida visão...
Fazem-me mal as multidões ruidosas
E
eu procuro, nesta hora,
Cidades que se ocultam majestosas
Na
tristeza solene do sertão.
Cidades ante as quais são como anãs
As
Londres, extensíssimas
E
as Babilônias, Bagdás pagãs;
Tão
colossais, tão cheias de grandeza,
Nas
construções amplíssimas,
Que
as contemplando eu penso na rudeza
De
uma raça já morta de titãs.
E
abandonadas... no entretanto, quem
As
observa, no extremo
Dos
horizontes afastados, tem
O
religioso espanto e o extraordinário
Êxtase supremo
De
um muçulmano austero ou de um templário
Diante de Meca ou de Jerusalém.
Divisa então soberbos coliseus,
Templos de forma rara _
Amplas mesquitas, vastos mausoléus,
E
góticas igrejas tão imensas
E
tão frágeis que para
Compreendê-las, cremo-las suspensas
Por
ignota atração vinda dos céus.
No
entanto, atulmutuaram multidões
Dentro delas outrora;
E
ao ritmo de esplêndidas canções
Levantou-lhes os muros triunfantes
Heróica e sonhadora,
A
coorte febril dos Bandeirantes,
Nas
marchas triunfais pelos sertões.
Mas
passaram _ e o sol que tremeu
A
seus passos, deserto,
Revolto e infinito, e como um mausoléu
Imenso que pelo sertão se estende...
Calcando-o, sentis perto,
Um
deslizar sinistro de duende:
O
fantasma de um povo que morreu.
Viajantes que rápidos passais
Pelas serras de Minas,
Vindos de fulgurantes capitais,
Evitai as necrópoles sagradas,
Passai longe das ruínas,
Passai longe das Catas desoladas
Cheias de sombra, de tristeza e paz...
Campanha, 1895
FRAGMENTOS DE POESIA [Publicado em "O Imparcial", Rio de Janeiro, 20
jan. 1929]
A
Coelho Neto
De
um lado o Atlântico e do outro lado as serras
Longas, indefinidas, perlongando-o;
E
aquém das serras nos planaltos largos,
Um
mundo ainda ignoto! Os rios longos
Recortam-na profusos, ora calmos,
Volvendo a correnteza imperceptível,
Ora
cheios, rolando no...
O
soberbo estridor das cachoeiras...
As
grandes matas verde-negras vastas
...
de frutos e de flores
Desafiam do azual as pompas todas.
Que
terra encantadora... Mas enquanto
O
meu olhar se desatava livre
No
desafogo dos espaços amplos
O
ridículo mortal tolhia o passo
E
imóvel sobre o cerro em que jazíamos
Abarcava num gesto o espaço todo:
Conforme vês 'a terra é longa e grossa'
E
atestam na pujança com que surgem
A
riqueza de um solo incomparável
Em
que o cultivador sem mais resguardos
Com
algumas foiçadas e um bocejo
Garante o pão à prole e pode dar-se
Ao
culto sacrossanto da Preguiça.
E
nada o preocupa: a fauna é frágil,
Traiçoeira e cobarde; não há tigres,
Régios tigres listrados; nem leões,
Nada das formas colossais e rudes
Feitas para guardarem, consorciadas,
A
feridade e a força... Tudo médio
Tudo uma redução do que há alhures
O
elefante é tapir tardo e medroso
O
tigre de Bengala é a suçuarana
Cobarde e fugitiva; o orango bruto
É o
sagüi famíneo e pulha; e a capivara
O
hipopótamo esquivo das lagoas...
E
tudo é médio... a natureza toda
Numa mediania inalterável...
As
mesmas forças naturais que além
Rompem em cataclismas formidáveis
Criando a Geologia traço estranho
De
um drama esquiliano, aqui, é calma.
Não
há vulcões e os mesmos terremotos
Que
subvertem cidades noutras zonas
Amortecem-se inúteis, embatendo
Na
massa de granito desta terra...
As
montanhas _ bem vês _ não têm altura
As
maiores são serros noutras partes
Achatam-se alongando-se, alongando-se
Se
o arrojo de um píncaro que enteste
Com
o menor dos píncaros nos Alpes...
Nas
florestas enormes não procures
O
cedro colossal ou o carvalho
Ou
o plátano altivo que alevanta
Às
nuvens uma vida de mil anos,
Não
lhe permite o surto, o afago, atroz
Terrível das lianas, das aráceas,
Que
os apertam, ... e derrubam
De
sorte que as florestas como os rios
Como a montanha, como a terra toda,
São
grandes só por um estiramento!... Disse e eu vi pela primeira vez
O
clarão ideal de uma ironia
Dando-lhe ao rosto hílar um tom mais sério.
E
prosseguiu:
Aqui, o grande é o chato!
Tudo num plano horizontal é enorme
Tudo num plano vertical é mínimo
A
pedra, o vegetal, e o... e o homem...
E
repentinamente aquele rosto
Onde um ricto sardônico pusera
A
lonha ideal desse sarcasmo ríspido
Que
é a mágoa triunfante dos eleitos
Pois é a alegria trágica dos fortes,
Aquele rosto desmanchou-se todo
No
desmandibulado destempero
De
uma risada à-toa.
Mal
a ouvi
Prendeu-me o olhar um quadro nunca visto:
Numa clareira, em frente, repontavam
Uns
homens singulares... que vestidos!
Nem
clâmides, nem togas, nem
Consorciando a candura dos arminhos
Com
o varonil das púrpuras brilhantes.
Pretos. De preto todos no afogado
Das
vestes ajustadas pelos membros...
Vinham calmos; nem gestos sacudidos
Nem
vozes imperiosas... Passos lentos.
Lorena, 1896
PÁGINA VAZIA
Quem volta da região assustadora
De
onde eu venho, revendo, inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De
guerra despiedada e aterradora.
Certo não pode ter uma sonora
Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
Que
possa figurar dignamente
Em
vosso álbum gentil, minha senhora.
E
quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
De
nossa alma iludiu-vos, não previstes
Que
quem mais tarde, nesta folha lesse
Perguntaria: "Que autor é esse
De
uns versos tão mal feitos e tão tristes?"
1897
DEDICATÓRIA A LÚCIO DE MENDONÇA
Em
falta de um 'postkarte', iluminura
Que
enquadre do que penso ou sinto a imagem,
Em
relevo, na artística moldura
De
um trecho fugitivo de paisagem _
Aí
vai, para saudá-lo no remanso
De
um lar, onde terá digno conchego,
Este caboclo, este jagunço manso
_
Misto de celta, de tapuia e grego...
1903
DEDICATÓRIA A COELHO NETO
Felizmente
Esta fisionomia,
De
onde ressalta a ríspida expressão
Da
face de um tapuia, espantadíssima,
Hás
de achá-la belíssima
Porque saberá ver, nitidamente,
Com
os raios X de tua fantasia,
O
que os outros não vêem: um coração.
1903
O
PARAÍSO DOS MEDÍOCRES
(Uma página que Dante destruiu)
Perto do inferno existe uma paragem
Onde cai monótona e ressoa
Uma
torrente enregelada e dura
Sulcando a pedra na erosão eterna.
Fomos por ela em fora, lento e lento
Vacilantes subindo. Mas no alto
Precisamente quando a minha vista
Divisava dos céus tão anelados
Um
fragmento longínquo, vi-me só.
Inopinadamente se evadira
O
bucólico guia que me dera
O
clarão de sua alma incomparável,
Entre as sombras dos giros infernais.
Então alucinado, o peito opresso,
A
fronte em fogo, onde batiam ríspidas
As
lufadas friíssimas do abismo,
Atirei entre os ecos apagados
Das
vozes do demônio uma súplica:
Virgílio. E estas três sílabas belíssimas
Rolaram longamente no silêncio
Como se no silêncio desabasse
Uma
falange de cristais partidos.
Mas
não as repeti: de uma vereda
À
esquerda, junto ao círculo Judas,
Vi
que surgiu uma figura estranha,
Homem ou gênio, e todo desgracioso
Lembrava um sambenito: a fronte nua
Escampada e brunida completava
A
face cheia e lisa sem refegos,
Sem
um só desses vincos, dessas rugas
Que
são os golpes do buril do espírito
Sobre os blocos de músculos e nervos.
Sorria e eu vi seus dentes magníficos
Numa expressão alvar. Aproximou-se.
Disse-lhe então: Quem sois? Por que acudistes?
Quando eu chamei por outro tão diverso?
Teme um momo adorável, agitou
Num
gesto longo de elegância altiva
A
véstia e o porte erecto e o olhar fulgente
E o
rosto novamente derramando-se
Num
riso imbecil e triunfante
Volveu pondo-me ao ombro a mão cuidada:
"Sou Marcellus Pompônio, 'o purista'
O
guia que me trouxe, esse Virgílio,
Esta ama-seca que apelidas tanto
Não
me suportaria; eu sou capaz
De
mostrar solecismos nas "Geórgicas"...
Fez
bem: fugiu. E tu certo conheces
O
gênio prodigioso que venceu
Certa causa notável, apontando
Um
erro de gramática nos autos:
Sou
eu. Sou imortal... Tu és feliz,
Lucraste com a troca. Folga, ri,
Agradece ao teu Deus e dá-me o braço.
Eu
vou mostrar o que outrem não faria.
Já
viste o inferno, vou levar-te agora
Ao
purgatório e ao céu. Mas antes deles
Há
uma terra ideal onde domina
A
santa mediania de virtude
E
se chama o 'Paraíso dos Medíocres' ".
"É
ali", disse. E depois me foi levando
Por
um trilho escarpado. a breve trecho,
Vingando um cerro abrupto, tive em frente
O
mais belo país que eu inda vira
Que
terra encantadora. O meu olhar
Desatou-se folgando na amplitude
Dos
horizontes vastos onde eternos
Fulgores de uma primavera eterna
Se
revezam co'as noites estreladas.
[1903?]
NUM
CARTÃO POSTAL [Em que se vê uma mulher, com roupão de banho, lendo
numa praia]
A
Reinaldo Porchat
Lê?... Não lê. Aquele ar não é por certo
De
quem medita. É o ar de quem atrai.
E
se qualquer de nós, naquelas praias,
Aparecesse, quedaria incerto,
Sem
saber distinguir quem mais nos trai
_
Entre a insídia de uma onda ou de um afago
Se
o velho mar misterioso e vago,
Ou
esse abismo de roupão e saias!
Guarujá, 30 jul. 1904
DEDICATÓRIA
Se
acaso uma alma fotografasse
de
sorte que, nos mesmos negativos,
A
mesma luz pusesse em traços vivos
O
nosso coração e a nossa face,
E
os nossos ideais, e os mais cativos
De
nossos sonhos... Se a emoção que nasce
Em
nós, também nas chapas se gravasse,
Mesmo em ligeiros traços fugitivos...
"Meu caro Doutor Praguer!"
Te
assaltaria máxima surpresa,
Notando _ deste grupo, bem no meio _
Que
o mais forte, o mais belo e o mais ardente
Destes sujeitos, é, precisamente,
O
mais triste, o mais pálido e o mais feio...
Manaus, 5 fev. 1905
Fonte:
CUNHA, Euclides da. Ondas e outros poemas esparsos. In: Obra
completa. Edição organizada por Afrânio Coutinho. 2. ed. Rio de
Janeiro : Nova Aguilar, 1995. 2 v. (Biblioteca Luso-Brasileira,
Série Brasileira).
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Juan Carlos Pires de Andrade – São Paulo/SP
Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja
alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores
informações, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>.
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