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O fanatismo da
descrença, um dos males do mundo moderno
Quantas religiões existem no mundo comprovam que o
ser humano é, com efeito, um animal metafísico. Não se vive fecunda ou
plenamente sem uma visão cosmogônica, que dê respostas satisfatórias a todas as
perguntas.
Independentemente de se crer em seres supra ou
infra-humanos, como deuses, anjos ou demônios em teologias várias, os credos
todos caracterizam-se, antes de mais nada, por uma união de sentimentos, emoções
e visões de mundo. Segundo os positivistas Comte e Durkheim, quando as pessoas
se reúnem em alguma espécie de templo estão, em verdade, reafirmando sua
cultura, seu apreço pelos que compartilham das mesmas opiniões acerca de várias
coisas, sua unidade ética, enfim. Os positivistas compreendem, nesta acepção, a
palavra "templo" como algo a ter com exemplos, portanto, mesquitas, sinagogas,
academias, igrejas, centros espíritas, colégios, quartéis, partidos políticos,
movimentos multitudinários em geral.
Não se deve atacar frontalmente qualquer crença, que
todas são dignas de respeito! Chega de intolerância para com o diferente. o
apreço ao ser humano em toda a sua riqueza interior implica, principalmente,
saber apreciá-lo em sua multifacetária capacidade de expressão.
Há, contudo, uma coisa fantástica, fanática e
absurdamente irracional, só crível porque existente e que, coadjuvada pela
Incrível Religião do Individualismo acaba por afastar as pessoas umas das outras
em prol de nada. Chamo a esta deplorável deformação de "Fanatismo da Descrença",
que só tem um dogma básico inapelável: "Nada é digno de crença, de fé, não
existe transcendência." Embora São José do Rio Pardo seja uma saudável exceção,
é inacreditavelmente enorme o número de pessoas que são encantadas pelo
"fanatismo da descrença", particularmente nos meios intelectuais e acadêmicos. A
grande maioria das pessoas tidas por inteligentes repetem as mesmas fórmulas
litúrgicas dementes, os mesmos esgares de desprezo por qualquer tipo de fé,
qualquer crença em qualquer coisa de transcendental.
Digo acima e sustento: não se deve atacar qualquer
crença; já pagamos preço elevado demais por nosso descaso ou desprezo pela fé do
próximo, seja ele originário das Américas, africano, asiático, hebreu, caldeu,
romano, "diferente", em síntese. O que estou atacando tão severamente quanto me
é possível aqui é justamente a ausência de fé e mais, todo e qualquer entrave à
fé tem de ser desmascarado. É preciso ter fé e esperança. Assim como Jesus
Cristo nos aponta uma saída para que possamos ter controle sobre o passado, os
filósofos da Esperança apontam saídas para o futuro. Cristo aponta lucidamente
na direção do PERDÃO como forma de controle sobre o passado. A ESPERANÇA, por
seu lado, nos possibilita controlar o futuro; é porque temos certeza do advento
de um tempo de paz, abundância e humana fraternidade que toleramos as bobas
injustiças de hoje como marcas, que são, de um tempo moribundo.
A descrença, por seu lado, leva a quê?
Individualismo, ódio, rancores, mágoas pessoais, etc. Medo por dentro e muito
ódio por fora, eis a raiz da descrença. Também em vão se procurará por aí um
templo da descrença ou coisa que o valha. O fanático da descrença não o é em
relação a uma fé específica, mas em relação a todo o tipo de fé. Cada um deve
descrer de um modo, levando os fanáticos da descrença à paralisia generalizada,
à destruição generalizada, sem que nada tome lugar da antiga fé. Fica-se a
meio-caminho. Se toda essa destrutividade estivesse voltada à construção de algo
ainda mais sublime, uma síntese dialética da ciência e da religião, por exemplo,
seria compreensível. Incompreensível e injustificável mesmo só a descrença.
Se no sincretismo da Incrível Religião do
Individualismo encontramos o burguês médio acendendo uma vela para si mesmo e
outra para Mammon, no fanatismo da descrença vemos o burguês (ou seus prepostos
voluntários ou involuntários) apagando as velas acesas a todos os deuses. Por
que é que nas Universidades - que sempre respondem abstratamente a problemas
também abstratos - a "moda" é descrer? Porque a descrença é paralisante, é mais
operacional ao Capital que seus sacerdotes maiores sejam capazes de fazer
descrer e alienar; "divide e governa", diz Maquiavel em O Príncipe.
Quando a maioria deixa de crer e luta e trabalha
para fazer deixar de crer, o mundo segue sendo o que é, um interminável vale de
lágrimas, até onde a vista alcança (massacres de pessoas inocentes sob as mais
diversas formas são apenas a ponta do iceberg). Quando há crença, quando a fé é
recolocada, muitos passam a, em função da fé, trabalhar e lutar para a
construção de um mundo melhor, começamos a ver surgir no horizonte, finalmente,
a belíssima Esperança, com seu cortejo de Bondade e Beleza, Verdade e Justiça,
trazendo luzes a um tempo sombrio que tem tudo para ser muito feliz. Espero
viver para vê-lo e vivenciá-lo!
Lázaro Curvêlo Chaves - 24/06/2000
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