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Fernando Pessoa (1888-1935)

 

 

 


  • RICARDO REIS

     

    ODES

     

     


    As rosas amo dos jardins de Adônis

    As rosas amo dos jardins de Adônis,
    Essas volucres amo, Lídia, rosas,
    Que em o dia em que nascem,
    Em esse dia morrem.
    A luz para elas é eterna, porque
    Nascem nascido já o sol, e acabam
    Antes que Apolo deixe
    O seu curso visível.
    Assim façamos nossa vida um dia,
    Inscientes, Lídia, voluntariamente
    Que há noite antes e após
    O pouco que duramos.

     


     

    O mar jaz; gemem em segredo os ventos

    O mar jaz; gemem em segredo os ventos
    Em Éolo cativos;
    Só com as pontas do tridente as vastas
    Águas franze Netuno;
    E a praia é alva e cheia de pequenos
    Brilhos sob o sol claro.
    Inutilmente parecemos grandes.
    Nada, no alheio mundo,
    Nossa vista grandeza reconhece
    Ou com razão nos serve.
    Se aqui de um manso mar meu fundo indício
    Três ondas o apagam,
    Que me fará o mar que na atra praia
    Ecoa de Saturno?

     


     

    A flor que és

    A flor que és, não a que dás, eu quero,
    Porque me negas o que te não peço.
    Tempo há para negares
    Depois de teres dado.
    Flor sê-me flor! Se te colher avaro
    A mão da infausta esfinge, tu perene
    Sombra errarás absurda,
    Buscando o que não deste.

     


     

    No ciclo eterno das mudáveis coisas

    No ciclo eterno das mudáveis coisas
    Novo inverno após novo outono volve
    À diferente terra
    Com a mesma maneira.
    Porém a mim nem me acha diferente
    Nem diferente deixa-me, fechado
    Na clausura maligna
    Da índole indecisa.
    Presa da pálida fatalidade
    De não mudar-me, me fiel renovo
    Aos propósitos mudos
    Morituros e infindos.

     


     

    Não só vinho

    Não só vinho, mas nele o olvido, deito
    Na taça: serei ledo, porque a dita
    É ignara. Quem, lembrando
    Ou prevendo, sorrira?
    Dos brutos, não a vida, senão a alma,
    Consigamos, pensando; recolhidos
    No impalpável destino
    Que não ‘spera nem lembra.
    Com mão mortal elevo à mortal boca
    Em frágil taça o passageiro vinho,
    Baços os olhos feitos
    Para deixar de ver.

     


     

    Quer pouco: terás tudo

    Quer pouco: terás tudo.
    Quer nada: serás livre.
    O mesmo amor que tenham
    Por nós, quer-nos, oprime-nos.

     


     

    Temo, Lídia, o destino

    Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.
    Em qualquer hora pode suceder-nos
    O que nos tudo mude.
    Fora do conhecido é estranho o passo
    Que próprio damos. Graves numes guardam
    As lindas do que é uso.
    Não somos deuses; cegos, receemos,
    E a parca dada vida anteponhamos
    À novidade, abismo.

     


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  • ÁLVARO DE CAMPOS

     

     


     

    AH, UM SONETO...

    Meu coração é um almirante louco
    que abandonou a profissão do mar
    e que a vai relembrando pouco a pouco
    em casa a passear, a passear...

    No movimento (eu mesmo me desloco
    nesta cadeira, só de o imaginar)
    o mar abandonado fica em foco
    nos músculos cansados de parar.

    Há saudades nas pernas e nos braços.
    Há saudades no cérebro por fora.
    Há grandes raivas feitas de cansaços.

    Mas - esta é boa! - era do coração
    que eu falava... e onde diabo estou eu agora
    com almirante em vez de sensação?...

     


     

    Há mais de meia hora

    Há mais de meia hora
    Que estou sentado à secretária
    Com o único intuito
    De olhar para ela.
    (Estes versos estão fora do meu ritmo.
    Eu também estou fora do meu ritmo.)
    Tinteiro grande à frente.
    Canetas com aparos novos à frente.
    Mais para cá papel muito limpo.
    Ao lado esquerdo um volume da “Enciclopédia Britânica”.
    Ao lado direito -
    Ah, ao lado direito
    A faca de papel com que ontem
    Não tive paciência para abrir completamente
    O livro que me interessava e não lerei.

    Quem pudesse sintonizar tudo isto!

     


     

    Ah, perante esta única realidade

    Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
    Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade.
    Perante este horrível ser que é haver ser.
    Perante este abismo de existir um abismo,
    Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
    Ser um abismo por simplesmente ser,
    Por poder ser,
    Por haver ser!
    - Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
    Tudo o que os homens dizem,
    Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
    Se empequena!
    Não, não se empequena... se transforma em outra coisa -
    Numa só coisa tremenda e negra e impossível.
    Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino -
    Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
    Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
    Aquilo que subsiste através de todas as formas,
    De todas as vidas, abstratas ou concretas,
    Eternas ou contingentes,
    Verdadeiras ou falsas!
    Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
    Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
    Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

    Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
    E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim.
    Com a substância essencial do meu ser abstrato
    Que sufoco de incompreensível,
    Que me esmago de ultratranscendente,
    E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
    Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

    Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
    Cárcere de pensar, não há libertação de ti?

    Ah, não, nenhuma - nem morte, nem vida, nem Deus!
    Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
    Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
    Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
    Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
    Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
    Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
    Inconsciente do mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
    Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
    Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
    A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
    São mistérios menores que a Morte? Como, se tudo é o mesmo mistério?
    E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
    Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
    Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
    Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
    Porque é preciso existir para se criar tudo,
    E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
    E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

     


     

    O binômio de Newton é tão belo

    O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.
    O que há é pouca gente para dar por isso.

    óóóó---óóóóóó óóó--- óóóóóóó óóóóóóóó

    (O vento lá fora.)

     


     

    DOBRADA À MODA DO PORTO

    Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
    Serviram-me o amor como dobrada fria.
    Disse delicadamente ao missionário da cozinha
    Que a preferia quente,
    Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

    Impacientaram-se comigo.
    Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
    Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
    E vim passear para toda a rua.

    Quem sabe o que isto quer dizer?
    Eu não sei, e foi comigo...

    (Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim
    Particular ou público, ou do vizinho.
    Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
    E que a tristeza é de hoje).

    Sei isso muitas vezes,
    Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
    Dobrada à moda do Porto fria?
    Não é prato que se possa comer frio.
    Não me queixei, mas estava frio,
    Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

     


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    FERNANDO PESSOA ELE MESMO

    • De Mensagem :
    • Do Cancioneiro :

       


       

      ULISSES

      O mito é o nada que é tudo.
      O mesmo sol que abre os céus
      É um mito brilhante e mudo -
      O corpo morto de Deus,
      Vivo e desnudo.

      Este, que aqui aportou,
      Foi por não ser existindo.
      Sem existir nos bastou.
      Por não ter vindo foi vindo
      E nos criou.

      Assim a lenda se escorre
      A entrar na realidade.
      E a fecundá-la decorre.
      Embaixo, a vida, metade
      De nada, morre.

       


       

    • O CONDE D. HENRIQUE

      Todo começo é involuntário.
      Deus é o agente.
      O herói a si assiste, vário
      E inconsciente.

      À espada em tuas mãos achada
      Teu olhar desce.
      “Que farei eu com esta espada?”

      Ergueste-a, e fez-se.

       


       

    • D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

      Louco, sim, louco, porque quis grandeza
      Qual a Sorte a não dá.
      Não coube em mim minha certeza;
      Por isso onde o areal está
      Ficou o meu ser que houve, não o que há.

      Minha loucura, outros que me a tomem
      Com o que nela ia.
      Sem a loucura que é o homem
      Mais que a besta sadia,
      Cadáver adiado que procria?

       


       

    • O INFANTE D. HENRIQUE

      Em seu trono entre o brilho das esferas,
      Com seu manto de noite e solidão,
      Tem aos pés o mar novo e as mortas eras -
      O único imperador que tem, deveras,
      O globo mundo em sua mão.

       


       

    • PADRÃO

      O esforço é grande e o homem é pequeno.
      Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
      Este padrão ao pé do areal moreno
      E para diante naveguei.

      A alma é divina e a obra é imperfeita.
      Este padrão sinala ao vento e aos céus
      Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
      O por-fazer é só com Deus.

      E ao imenso e possível oceano
      Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
      Que o mar com fim será grego ou romano:
      O mar sem fim é português.

      E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
      E faz a febre em mim de navegar
      Só encontrará de Deus na eterna calma
      O porto sempre por achar.

       


       

    • EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS

      Jaz aqui, na pequena praia extrema,
      O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
      O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
      Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.

       


       

    • MAR PORTUGUÊS

      Ó mar salgado, quanto do teu sal
      São lágrimas de Portugal!
      Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
      Quantos filhos em vão rezaram!
      Quantas noivas ficaram por casar
      Para que fosses nosso, ó mar!

      Valeu a pena? Tudo vale a pena
      Se a alma não é pequena.
      Quem quere passar além do Bojador
      Tem que passar além da dor.
      Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
      Mas nele é que espelhou o céu.

       


       

    • NEVOEIRO

      Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
      Define com perfil e ser
      Este fulgor baço da terra
      Que é Portugal a entristecer -
      Brilho sem luz e sem arder,
      Como o que o fogo-fátuo encerra.

      Ninguém sabe que coisa quere.
      Ninguém conhece que alma tem,
      Nem o que é mal nem o que é bem.
      (Que ânsia distante perto chora?)
      Tudo é incerto e derradeiro.
      Tudo é disperso, nada é inteiro.
      Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

      É a Hora!

       

     


     

    PLENILÚNIO

    As horas pela alameda
    Arrastam vestes de seda,

    Vestes de seda sonhada
    Pela alameda alongada

    Sob o azular do luar...
    E ouve-se no ar a expirar -

    A expirar mas nunca expira -
    Uma flauta que delira,

    Que é mais a idéia de ouvi-la
    Que ouvi-la quase tranqüila

    Pelo ar a ondear e a ir...
    Silêncio a tremeluzir...

     


     

    ABDICAÇãO

    Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
    E chama-me teu filho. Eu sou um rei
    Que voluntariamente abandonei
    O meu trono de sonhos e cansaços.

    Minha espada, pesada a braços lassos,
    Em mãos viris e calmas entreguei;
    E meu cetro e coroa - eu os deixei
    Na antecâmara, feitos em pedaços.

    Minha cota de malha, tão inútil,
    Minhas esporas, de um tinir tão fútil,
    Deixei-as pela fria escadaria.

    Despi a realeza, corpo e alma,
    E regressei à noite antiga e calma
    Como a paisagem ao morrer do dia.

     


     

    AUTOPSICOGRAFIA

    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama o coração.

     


     

    Há doenças piores que as doenças

    Há doenças piores que as doenças,
    Há dores que não doem, nem na alma
    Mas que são dolorosas mais que as outras.
    Há angústias sonhadas mais reais
    Que as que a vida nos traz, há sensações
    Sentidas só com imaginá-las
    Que são mais nossas do que a própria vida.
    Há tanta cousa que, sem existir,
    Existe, existe demoradamente,
    E demoradamente é nossa e nós...
    Por sobre o verde turvo do amplo rio
    Os circunflexos brancos das gaivotas...
    Por sobre a alma o adejar inútil
    Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

    Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

 

 

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