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Fernando Pessoa escreve sobre a
Maçonaria
A Maçonaria
compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o
elemento fraternal; e o elemento a que chamarei humano – isto é, o que
resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes
graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos
países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento
histórico, perante as quais, de país para país e de época para época reage,
quanto à atitude social, diferentemente.
Nos primeiros dois
elementos, onde reside essencialmente o espírito maçônico, a Ordem é a mesma
sempre e em todo o mundo. No terceiro, a Maçonaria – como aliás qualquer
instituição humana, secreta ou não – apresenta diferentes aspectos, conforme
a mentalidade de Maçons individuais, e conforme circunstâncias de meio e
momento histórico, de que ela não tem culpa.
Neste terceiro ponto
de vista, toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só idéia – a
"tolerância"; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar
como entender. Por isso a Maçonaria não tem uma doutrina. Tudo quanto se
chama "doutrina maçônica" são opiniões individuais de Maçons, quer sobre a
Ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São
divertidíssimas: vão desde o panteísmo naturalista de Oswald Wirth até ao
misticismo cristão de Arthur Edward Waite, ambos tentando converter em
doutrina o espírito da Ordem. As suas afirmações, porém, são simplesmente
suas; a Maçonaria nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos Antimaçons
consiste em tentar definir o espírito maçônico em geral pelas afirmações de
Maçons particulares, escolhidas ordinariamente com grande má fé.
O segundo erro dos
Antimaçons consiste em não querer ver que a Maçonaria, unida
espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua ação
social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico,
em função das circunstâncias do meio e da época, que afetam a Maçonaria como
afetam toda a gente. A sua ação social varia, dentro do mesmo país, de
Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de
divergências doutrinárias – as que provocaram a formação dessas Obediências
distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue
daqui que nenhum ato político ocasional de nenhuma Obediência pode ser
levado à conta da Maçonaria em geral, ou até dessa Obediência particular,
pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de
momento, que a Maçonaria não criou.
Resulta de tudo isto
que todas as campanhas antimaçônicas – baseadas nesta dupla confusão do
particular com o geral e do ocasional com o permanente – estão absolutamente
erradas, e que nada até hoje se provou em desabono da Maçonaria. Por esse
critério – o de avaliar uma instituição pelos seus atos ocasionais
porventura infelizes, ou um homem por seus lapsos ou erros ocasionais – que
haveria neste mundo senão abominação? Quer o Sr. José Cabral que se avaliem
os papas por Rodrigo Bórgia, assassino e incestuoso? Quer que se considere a
Igreja de Roma perfeitamente definida em seu íntimo espírito pelas torturas
dos Inquisidores (provenientes de um uso profano do tempo) ou pelos
massacres dos albigenses e dos piemonteses? E contudo com muito mais razão
se o poderia fazer, pois essas crueldades foram feitas com ordem ou com
consentimento dos papas, obrigando assim, espiritualmente, a Igreja inteira.
Sejamos, ao menos,
justos. Se debitamos à Maçonaria em geral todos aqueles casos particulares,
ponhamos-lhe a crédito, em contrapartida, os benefícios que dela temos
recebido em iguais condições. Beijem-lhe os jesuítas as mãos, por lhes ter
sido dado acolhimento e liberdade na Prússia, no século dezoito – quando
expulsos de toda a parte, os repudiava o próprio Papa – pelo Maçom Frederico
II. Agradeçamos-lhe a vitória de Waterloo, pois que Wellinton e Blucher eram
ambos Maçons. Sejamos-lhe gratos por ter sido ela quem criou a base onde
veio a assentar a futura vitória dos Aliados – a "Entente Cordiale", obra do
Maçom Eduardo VII. Nem esqueçamos, finalmente, que devemos à Maçonaria a
maior obra da literatura moderna – o "Fausto" do Maçom Goeth.
Acabei de vez. Deixe
o Sr. José Cabral a Maçonaria aos Maçons e aos que, embora o não sejam,
viram, ainda que noutro Templo, a mesma Luz. Deixe a Antimaçonaria àqueles
Antimaçons que são os legítimos descendentes intelectuais do célebre
pregador que descobriu que Herodes e Pilatos eram Vigilantes de uma Loja de
Jerusalém.
(*) Fernando Pessoa
- Este é um trecho do artigo que Fernando Pessoa publicou no Diário de
Lisboa, no 4.388 de 4 de fevereiro de 1935, contra o projeto de lei, do
deputado José Cabral, proibindo o funcionamento das associações secretas,
sejam quais forem os seus fins e organização.
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