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É grave a crise

 

Humilhados e ofendidos

 

    Trabalho desde os 11 anos de idade. Jamais fiquei desempregado por tanto tempo quanto neste ano. Freqüentemente tenho oportunidade de falar sobre a gravidade do desemprego (seja em aulas, palestras ou similar), refletir filosoficamente sobre a gravidade de se ter de vender a própria carne no mercado de trabalho e, pior ainda, não encontrar quem compre. A dignidade e a honra ficam comprometidas em situações assim. Por um lado, é muito bom morar numa cidade com tantos bons intelectuais e professores que as instituições educacionais podem dar-se ao luxo de desprezar profissionais gabaritados em outras paragens. Por outro, causa angústia que velhos amigos e novos alunos me procurem com freqüência para ajudá-los a entender coisas que, segundo eles, não aprendem nas instituições em que estudam... Tudo isso recapeado por uma situação de dureza e insolvência que me impede até de freqüentar os lugares mais comezinhos e econômicos, reduzindo-me, há cerca de um ano, a uma espécie de prisão domiciliar. É interessante não ter nada para perder. A gente fica com mais coragem, com maior desenvoltura. Quando, por exemplo, a turma do mal me convida a dançar, fico feliz porque alguém ainda me convida, mas creio que tenham noção do que seja medir forças com quem não tem absolutamente nada a perder...

    Deus, em sua infinita sabedoria, tem um propósito para isso. Busco compreender o que acontece com a serenidade possível. Trata-se de um aprendizado difícil, mas há que se passar por ele. Tentei encontrar campo em outras paragens (Rio, Goiás, Tocantins, Rondônia...), sem sucesso devido à dificuldade de locomoção e deslocamento definitivo, tendo a família se enraizado por aqui. Enfim, encontro colocação ou sucumbo tentando. Capitular, jamais!

    Uma das impressões que tenho é de que a situação está grave para todos. Cito como exemplo desta falta de perspectiva o fato de advogados formados (saudades do tempo em que ter um diploma era garantia de inserção profissional e tranqüilidade econômica...) participarem de um programa da TVD sorteando de cortes de cabelo a calculadoras e prontificarem-se a atender ao público (aparentemente de graça) numa lanchonete. Deve ser uma forma de protesto, caso em que me solidarizo com aqueles profissionais. Também eu estou com a perspectiva de futuro comprometidíssima pelos sucessivos desgovernos que temos tido...

 

A serpente e o vaga-lume

 

    Conversando com o Toninho, meu grande Amigo, sobre os motivos de eu não conseguir colocação profissional em São José do Rio Pardo, contou-me uma história bonita, mais ou menos assim:

    Uma serpente se aproximou de um vaga-lume. Ela se alimentava de coelhos, leitões e bezerrinhos e parecia muito satisfeita, lançando dor e angústia em toda a redondeza de onde vivia enquanto o vaga-lume se alimentava de insetos ainda menores que ele e levava um bocadinho de luz a uma grande escuridão. De repente a serpente começou a perseguir o vaga-lume. Dizia que ia devorá-lo e deu-lhe sucessivos botes de que o inseto se libertava desenvoltura. Até que um dia, cansado, interpelou a serpente. “Você se alimenta tão bem”, disse ele, “por que me persegue?” A serpente respondeu: “É que não suporto o fato de você brilhar.”

 

Brizola

 

    Sempre orbitou dentro do espectro político da esquerda no Brasil. Esquerda e nacionalista. Até por isso sempre foi violentamente mal visto pelos EUA onde, consta, era impedido sequer de ter visto de entrada. Galvanizava a admiração de gente como Luís Carlos Prestes, Tayguara, Beth Carvalho, Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro, etc. Quando decidiu reconhecer e valorizar o carnaval carioca como índice cultural relevante criando o “Sambódromo” foi atacado por todos os interessados nas falcatruas de montagem e desmontagem de arquibancadas de ano a ano. Só depois de a obra feita e a visualização dos resultados percebe-se o acerto do líder. O mesmo em relação aos CIEPS, idéia dele e de Darcy Ribeiro, destruída pelos que o sucederam e sempre macaqueada em vão, como no caso dos “CÉU’s” petistas. Foi um importante líder, referência aos brasileiros e deixa saudade. Rendo-lhe minhas homenagens com uma reflexão: se tivéssemos eleito Leonel Brizola para presidente do Brasil, como estaríamos hoje?

 

 

Ainda o mínimo

 

    O encaminhamento político brasileiro está catastrófico. A ênfase neoliberal na técnica em detrimento da política leva a estes descalabros. Deputados federais venais derrubaram a proposta do Senado Federal de trazer um pouquinho menos de angústia aos assalariados. Usando uma argumentação pueril, índice de quem não dispõe, de fato, de argumentos sólidos, a Câmara dos deputados votou, no último dia 23, o salário mínimo de R$ 260,00, reduzindo os R$ 275,00 aprovados pelo Senado.

    Mais do que uma votação significativa para os parâmetros salariais da classe trabalhadora, aquela votação foi emblemática para que todos percebam que há uma preocupação com o lumpemproletariado, não com a classe trabalhadora. E preocupação meramente cosmética; o lumpem é necessário na posição em que está e o PT não fará nada por ele. Índice disso é a mudança da política de concessão de medicamentos a pessoas sem renda. Antes era gratuita. Agora o governo do PT passa a vender, nas “Farmácias Populares” o mesmo medicamento que outrora era gratuito. No outro lado do espectro da social-democracia, hoje também neoliberal, o PSDB promete criar farmácias ainda mais populares onde a distribuição de medicamentos nos estados governados pelos tucanos seguirá gratuita.

 

Eleições

 

    Ficar fora do processo eleitoral é uma experiência libertadora. Nosso radicalismo se aprofunda, a busca da verdade não precisa ser aferida imediatamente por uma atividade prática em contraposição a outra (freqüentemente ambas distantes do nosso idealismo); fica-se mais livre. Até mesmo para, no processo, apresentar o ponto de vista trotskista, o único de esquerda séria no Brasil atual.

    Depois de arrependido de ajudar a eleger o Lula, este ano ainda posso ensaiar o que fazer daqui a dois anos. Um tio meu votava “em todos”, pois, segundo ele, “todos são muito bons”.  Com a urna eletrônica não é mais possível. A gente tem de votar no Euclides da Cunha, no Lima Barreto ou na Clarice Lispector para fazer valer a nossa vontade. Não deixa de ser um encaminhamento mais poético...

 

Lula aplaudido

 

    Depois de liderar pessoalmente o suborno ao congresso com vistas a reduzir o valor do salário mínimo e ser vaiado pelo povo no Rio de Janeiro por ocasião do velório de Leonel Brizola, Lula foi aplaudido de pé pelo empresariado estadunidense ao declarar que no Brasil todos os empresários especuladores do exterior podem ter largos lucros garantidos pelo governo. Sem entrar profundamente nesta questão, em si reveladora de para quem Lula governa, o fato de estar com a popularidade em queda livre e ser impossível caminhar pelas ruas do Brasil sem ouvir a música, que se tornou um hino de protesto contra a traição do PT, “Vou Festejar”, de José Aragão (a versão mais conhecida é interpretada por Beth Carvalho) demonstra que o povo brasileiro está acordando. As pessoas demoram um pouco para acordar, mas vai se tornando menos complexo demonstrar a traição do PT. Levei ao ar em minha página esta música, para simplificar o acesso a todos quantos o desejem. http://www.culturabrasil.org/voufestejar.htm

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 26 de junho de 2004

 

 

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