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Insignificâncias

 

Christóvam Buarque

 

Senhor Presidente,

Senhoras Senadoras,

Senhores Senadores

 

Vim falar de insignificâncias. Lamento tomar o tempo do Senado Federal em um momento de mensalões, CPIs, cassações, bingos e tantas coisas mais importantes, para falar de coisas simplesmente insignificantes. Mas não quero um dia ser acusado de não ter falado de insignificâncias. Tanto quanto o poeta, que no meio da guerra não quis deixar de falar de flores.

A primeira insignificância é a da ameaça à segurança nacional. Isso pode ser uma insignificância, diante dos escândalos imediatos. Mas é assustador para quem olha para o futuro e vê a consolidação de bases militares na fronteira brasileira. Ao lado do escasso recurso natural do futuro: a água. No Norte, o território colombiano tem uma base com capacidade de movimentos e agilidade para em poucos minutos ocupar qualquer área de nossa imensa Amazônia.  Sob o argumento de enfrentar uma guerrilha eterna, e para enfrentar o tráfico de drogas que continua alimentando o eterno e insaciável consumo norte-americano, os EUA já investiram no chamado “Plano Colômbia” algo como U$S 3 bilhões, incluindo o envio de 800 soldados fortemente armados, 600 civis e uma imensa e poderosa quantidade de equipamentos militares.

No Sul, os EUA montaram uma base aérea, exatamente na fronteira com o Brasil com o Paraguai. Sem necessidade de desculpas, a tropa está ao lado do chamado Aqüífero Guarani, o maior reservatório de água doce do planeta, com mais de 1 milhão de km2 de extensão, que abrange partes do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. O mesmo recurso fundamental da Amazônia. O Brasil é um território cheio de recursos e cercado pela força avassaladora do maior império da história.

Sei que esse é um assunto insignificante diante de tantos problemas aos quais nos dedicamos com tanto afinco nas diversas CPIs. Mas não consigo me calar diante da insignificância de ver o território de meu país ao alcance das mãos de estrangeiros. Dentro de poucos anos mais, quando a escassez de água doce e  de outros recursos forçar os grandes países a intervirem na nossa soberania, toda a força deles estará pronta, sem qualquer estratégia para nos defendermos.

É uma pena que fatos tão mais importantes do dia-a-dia nos façam esquecer da insignificância da necessidade de uma mudança profunda para consolidar nossa defesa nacional, começando por nossas Forças Armadas, seu papel, sua estrutura, suas estratégias, seus equipamentos, sua formação. E também de todos os demais aspectos que ameaçam a defesa nacional: como a desigualdade social e regional, a falta de educação básica e superior, a dependência científica e tecnológica.

Lamento, Senhor Presidente, não ter conseguido resistir à necessidade de falar desta insignificância que é a desigualdade social brasileira. Que traz a vergonha de sermos campeões mundiais de perversidade social, como antes éramos campeões pela escravidão, e agora somos pela exclusão. Pode ser uma insignificância, diante de problemas tão gritantes do presente, falarmos do risco de uma ruptura na unidade nacional, decorrente do constante aumento da desigualdade social no Brasil.

Senhor Presidente, se essa marcha for mantida, caminharemos para um país tão dividido que não será mais um país. Serão dois, como era na época da escravidão. Que cumplicidade nacional e que solidariedade podem existir em um país no qual os 10% mais ricos detêm 47% da renda nacional e os 50% mais pobres ficam com 10%, e os 10% mais pobres detêm somente 0,5%?  É como se não fizessem parte do mesmo país. E dentro de 20 ou 30 anos, se essa tendência continuar, seremos um país dividido em duas castas irreconhecíveis.

Desculpe trazer aqui a insignificância desse genocídio coletivo cometido pelos 10% mais ricos do Brasil contra os 50% mais pobres, graças aos sucessivos governos da incompleta República Brasileira, inclusive do atual governo, que chegou com a esperança de mudar essa situação. Desculpe falar da insignificância da destruição do tecido nacional, que obriga o país a preferir se armar, viver em condomínios fechados, ter medo dos centros de suas cidades, avançar os sinais de trânsito, transformar seus automóveis em carros de combate luxuosos.

Essa insignificância tem o nome de apartação, e é o regime especial de um país dividido, que montamos no Brasil. Talvez na África do Sul dos anos 30 alguns tenham falado no Parlamento sobre a insignificância do rumo do apartheid, para o qual o país marchava. De nada adiantou, porque havia assuntos mais importantes. Certamente de nada vai adiantar este meu discurso, tomar o tempo do Senado, nesses tempos de coisas tão importantes, para falar da insignificância que é o nosso País, além de indefeso em relação ao exterior, se dilacerar internamente por causa da desigualdade e do regime de apartação, que está em  construção com o apoio da esquerda e da direita.

Senhor Presidente, diante de tantos fatos importantes como mensalões, deixe-me falar da insignificância de que no Brasil ainda há 5 milhões de crianças entre 5 e 17 anos de idade que trabalham, e pelo menos 100 mil vítimas da exploração sexual comercial; da insignificância de termos 1,5 milhão que crianças que nem ao menos estão matriculadas, de 30 milhões que não terminarão o Ensino Médio, de 52% das que estão na quarta série mas não sabem ler nem escrever, sem falar dos quase 15 milhões de analfabetos jovens e adultos; da insignificância de 30 mil escolas que não têm luz elétrica ou banheiro, pouquíssimas com computador ou televisão, de 80% dos professores que ganham menos de um salário mínimo e sabem muito menos do que um bom aluno do Ensino Médio. Senhor Presidente, a tragédia da educação brasileira, esse terremoto intelectual seguido do tsunami mental e do furacão de ignorância, é uma insignificância diante dos mensalões e CPIs, mas eles vão destruir nosso país de maneira muito mais grave e difícil de recuperar do que todas as outras tragédias.

Mesmo nossas pequenas melhoras ocorrem em velocidade menor do que no resto do mundo. Agimos como tartarugas, nos vangloriando de não estarmos parados, mesmo quando todos passam rápido por nós, fugindo da queimada cerebral que caracteriza o abandono da educação de um povo.

Como conseqüência, Senhor Presidente, vivemos o insignificante mas grave problema de perdermos definitivamente a corrida pela maturidade científica e tecnológica que o século XXI vai exigir. Estamos perdendo a capacidade não só de sermos autônomos, situação rara no mundo global, mas de sermos capazes de conviver, de sermos parceiros dos outros países. De entendermos o que os outros criam. Condenados a importar, sem nada ajustar à nossa realidade. Tudo isso pode ser insignificante diante dos fatos que enfrentamos. Mas Senhor Presidente, é extremamente grave para a sobrevivência nacional.  É insignificante mas é grave o fato de estarmos com os pés no século XXI, ma a cabeça e o coração, a eficiência técnica e os valores éticos ainda no século XIX.

Essa insignificância nos leva a outra igualmente grave para o futuro do Brasil, ainda que não tão importante quanto os mensalões do presente. Trata-se, Senhor Presidente, da insignificância da nossa perda de competitividade. Por falta de uma educação de base, de ciência e tecnologia modernas, por causa do descrédito nas instituições políticas e das incertezas das decisões judiciais, por causa das complexas regras burocráticas nacionais e de apressados acordos internacionais que escancararam nossas fronteiras para produtos estrangeiros, o Brasil é um dos países com menor competitividade no cenário internacional. Mesmo setores onde ganhamos competência, como sapatos, soja, arroz, correm o risco de paralisia por falta de uma política industrial de curto e médio prazo. Ou por culpa da omissão, como no caso da carne, prejudicada pela insignificância do tema da vigilância sanitária.

Senhor Presidente, essas não são as únicas insignificâncias que dominam o Brasil. Nossa democracia está viciada não apenas na corrupção visível do comportamento de tantos políticos. Ela está ainda mais corrompida pela invisível prática corporativa de defender os interesses de cada grupo, sem a menor consideração sobre os interesses do conjunto da nação. O terreno político, vazio de idéias e ideologias, é farto de interesses específicos, cada grupo se julgando dono de todos os recursos nacionais, esperando se apropriar do máximo que puder, mesmo que isto destrua o País. Um egoísmo burro tomou conta dos interesses nacionais, dividindo nosso país em corporações. Quebrar esta visão, de uma nação sem nação, de uma sociedade sem tecido social que a unifique, pode ser uma insignificância no meio de CPIs, mensalões e outros fatos do presente, mas suas conseqüências são destrutivas para o futuro do Brasil.

Sei que a corrupção no comportamento dos políticos é um fato grave, mas permita-me falar, mesmo que seja insignificante, da corrupção nas prioridades das políticas. Senhor Presidente, o orçamento que votaremos nas próximas semanas está sendo elaborado sem que nenhum de seus desequilíbrios seja corrigido. Pode ser insignificante, mas não posso deixar de manifestar minha preocupação com o fato de que o orçamento proposto pelo governo prevê R$ 185 bilhões para pagar aposentadorias e R$ 5,85 bilhões para a educação básica, R$ 266 bilhões para serviços das dívidas interna e externa, e R$ 11,7 bilhões para infraestrutura.

Sem falar do insignificante fato de que os gastos com educação e com infraestrutura podem ser contingenciados, aprovados e não gastos, mas os previstos para juros serão todos desembolsados em dia, às vezes até antes do prazo. É insignificante que esse seja o orçamento da insolvência social e do futuro, em nome da solvência financeira e do presente, mas eu não posso deixar de falar dele, mesmo com toda a sua insignificância.

E o que dizer, Senhor Presidente, da insignificância com a qual nossos recursos naturais estão sendo depredados? Enquanto se dão fatos tão importantes como os mensalões, a Amazônia está sendo queimada, seus rios estão secando, o Rio São Francisco está moribundo, as florestas vão sendo substituídas por pastos e as águas poluídas, apesar de toda a dominação dos ricos.

Senhor Presidente, desculpe falar de insignificâncias, mas os cientistas já não alertam mais dos riscos, eles informam que a Amazônia entrou em processo de colapso de suas florestas, provavelmente de forma irreversível. Nós, líderes deste país, somos os verdadeiros incendiários das nossas florestas. Elas queimam em nossas mãos. Mãos que não querem se envolver porque são mãos nobres, com vocação apenas para assuntos significativos, e a maior floresta do mundo é um assunto insignificante nos dias de hoje.

Não apenas florestas queimam em nossas mãos, o petróleo também. Os nossos poços de petróleo se esvaziam enquanto comemoramos nossa auto-suficiência. Auto-suficiência que será conseguida a partir de 2006, o que será certamente um êxito de nossa técnica, que permite fazer prospecção em águas profundas com mais de 5.000 m de lâmina d’água, explorar  1,85 milhão de barris por dia. Mas reduzindo as reservas em 5,2% a cada ano. A auto-suficiência que permite esse ritmo frenético de exploração desconsidera a insignificância do esgotamento, que ocorrerá antes do ano 2024. menos de 20 anos. Se a auto-suficiência tivesse sido conseguida em 1985, hoje já não teríamos mais petróleo.

Não estamos queimando apenas florestas e petróleo: nossas cidades ardem sob a violência descontrolada; nossa juventude arde no vazio do desemprego da desesperança; nossos pobres ardem na fome de comida e de educação, de cultura e lazer, de bem-estar e confiança no futuro. Mas como tudo isso é insignificante, deixamos para depois, como por quatro séculos deixamos para depois a abolição da escravidão.

No fundo, Senhor Presidente, eu estou tratando dos insignificantes assuntos do futuro e do social. Insignificantes diante do presente e da economia.

 

            Tudo isso é insignificante, mas merece nossa atenção, Senhor Presidente, mesmo que não devamos deixar de lado os significativos esforços para apurar as responsabilidades na corrupção do mensalão.

           Senhor Presidente, todas essas insignificâncias têm um ponto de convergência: a insignificância com a qual a população vê nossa atividade no Congresso – tanto na Câmara quanto aqui no Senado.

             Esta é nossa insignificância, a minha, pelo menos, quando olho nossa ação nesta Casa e vejo o pouco que fazemos para enfrentar cada uma dessas terrivelmente poderosas insignificâncias que ameaçam o futuro do Brasil, enquanto fatos tão importantes quanto CPIs e mensalões, bingos e caixas 2, dominam o presente.

             Talvez esta seja a mais grave de todas as insignificâncias: nossa miopia para ver e enfrentar tudo que é significativo. E não apenas a importante parte da corrupção no comportamento de políticos.

             Senhor Presidente, lamento ter tomado o tempo dos senhores e das senhoras para debater estas insignificâncias. É culpa da sensação de insignificância do exercício da nossa função. Perdidos no dia-a-dia, na atração dos refletores e da audiência dos debates sobre fatos significativos do presente, ignoramos fatos insignificantes que poderão destruir o futuro de nosso País.

             Talvez seja tempo de despertarmos para a insignificância. Não sei se este meu grito pelas insignificâncias vai surtir qualquer efeito. Mas sei que ele me ajuda a ficar menos insignificante, ao falar das insignificâncias.

Obrigado, Senhor Presidente, por tolerar tanto tempo de uma conversa tão insignificante, sobre insignificâncias como a ameaça militar ao nosso território, a depredação do nosso patrimônio natural, o rompimento de nosso tecido social provocado pela violência, pela desigualdade e pelo corporativismo, a nossa pequena competitividade, nossa baixa capacidade de inovação científica e tecnológica, a insignificância do orçamento e dos nossos discursos.

Christóvam Buarque é Senador da República pelo PDT - DF. Este e outros discursos do Senador, você encontra em

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