| João Cabral de Melo Neto - 1920 - 1999
Nasceu em Recife (PE) em 1920. Ingressou na carreira
diplomática aos 25 anos, exercendo sua
profissão em diversos países, por mais de quarenta anos. Aposentado, reside atualmente
no Rio de Janeiro. A cultura espanhola, que o poeta conheceu a fundo quando viveu em
Barcelona e Sevilha, deixou muitas marcas na poesia de João Cabral. O escritor faz parte
da Academia Brasileira de Letras desde 1968. |

Em 1994, a editora Nova Aguilar publicou em volume único a
obra completa do escritor, João Cabral de Melo Neto inaugurou um novo modo de fazer
poesia em nossa literatura. A essência de sua atividade poética mostra a tentativa de
desvendar os elementos concretos da realidade, que se apresentam como um desafio para a
inteligência do poeta. Sempre guiado pela lógica, pelo raciocínio, seus poemas evitam
análise e exposição do eu e voltam-se para o universo dos objetos, das paisagens, dos
fatos sociais, jamais apelando para o sentimentalismo. Por isso, o prazer estético que
sua poesia pode provocar deriva sobretudo de uma leitura racional, analítica, não do
envolvimento emocional com o texto.
Essas características levaram a crítica a ver na obra de
João Cabral uma "ruptura com o lirismo" ou a considerar sua expressão poética
como "antilírica". Não devemos, entretanto, supor que essa relação do poeta
com o mundo concreto, objetivo, produza apenas textos descritivos. Na verdade, suas
descrições ora acabam adquirindo valor simbólico, ora acabam denunciando a crítica
social que o poeta pretende levar a efeito.
Pedra do sono, seu primeiro livro, apresenta elementos do
surrealismo, a começar pelo título (sono). Segundo o próprio poeta, o que se pretendeu
nesse livro foi "compor um buquê de imagens em cada poema,- as imagens revelam
matéria surrealista no sentido de oníricas, subconscientes... " . O sono e o sonho
são temas freqüentes e importantes nessa obra. O próprio autor considera sua primeira
obra como "um livro falso", cujo rendimento artístico não o satisfez.
O engenheiro, embora inclua ainda poemas de caráter
surrealista, traz já as bases de sua nova concepção de poesia, segundo a qual o poema
deve resultar de uma atitude racionalista, objetiva, diante da realidade concreta. Uma
atitude de quem controla racionalmente as emoções.
Psicologia da composição mostra o amadurecimento daquele
conceito de poesia rascunhado no livro anterior. O poeta rejeita - em poemas de caráter
metalingüístico - a inspiração e assume, não sem hesitar, a objetividade diante do
ato de escrever. Por isso, o livro apresenta poemas com uma linguagem racional, lógica,
marcados pelo extremo cuidado formal. Muitas vezes sente-se o poeta questionando a
validade do próprio ato de escrever.
Os livros seguintes - O cão sem plumas, O rio e Morte e vida
severina - mostram um poeta mais diretamente voltado para a temática social, analisando a
realidade geográfica, humana e social do Nordeste.
Morte e vida severina, sua obra mais conhecida, é um poema
narrativo subintitulado auto de Natal pernambucano, que trata da caminhada de um retirante
- Severino - do sertão até a zona litorânea, em busca de condições para sobreviver à
seca. A semelhança com um auto natalino ocorre no final, quando, ao presenciar o
nascimento de uma criança, o retirante renuncia à intenção de matar-se.
Paisagem com figuras traça paralelos entre duas terras que o
poeta conhece bem: a Espanha e Pernambuco.
O Auto do frade tem como assunto o dia da morte do rebelde frei
Caneca.