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Liquidar o PT e tolerar Lula?

Leonardo Boff

 

Há um provérbio alemão que se aplica à atual situação brasileira, quando lida em sua profundidade: ''bate-se no saco mas se pensa no animal que carrega o saco''. Em outras palavras, bate-se no presidente, especialmente na cúpula do PT (saco), mas o que se quer mesmo é bater no PT como um todo, especialmente em José Dirceu, seu principal quadro (animal). Por quê? Para entendê-lo, precisa-se conhecer a lógica das elites, minuciosamente analisadas por José Honório Rodrigues em Conciliação e Reforma no Brasil e por Raymundo Faoro em Os donos do poder. Esse fator não pode ser descartado como o estão fazendo alguns analistas.

Quem são essas elites? São os ''donos do poder'', políticos profissionais e intelectuais conservadores, grandes empresários e rentistas. É aquele estamento que controla o poder real e orienta a economia em seu benefício. O Estado, na maior parte de sua história, foi comandado a partir deste estamento, que mediante a fusão dos interesses públicos com os privados, criou o que se tem chamado de patrimonialismo. O propósito é aumentar o patrimônio pessoal ou empresarial, coisa que, segundo Faoro, perdurou até ao tempo de FHC.

Qual é a estratégia destas elites? Consoante José Honório Rodrigues ela se resume nestes dois pontos: primeiro, adiar a solução dos problemas indefinidamente, ganhar tempo para inventar fórmulas sutis para enganar-se a si próprios e ludibriar a opinião pública e por fim abortar a solução natural dos problemas. Caso sejam obrigados a reformas, estas não passam de remendos que não põem em risco seus interesses. Segundo, fazer a conciliação, hoje se chamaria de ''acordão'' que não é um compromisso de concessões mútuas para um avanço coletivo, mas uma políticia finória que visa aparar divergências entre os grupos, ocultar a corrupção de sorte que os benefícios fiquem só entre eles com exclusão do povo.

Por que não se pode subestimar estes ''donos do poder'' na crise atual? Por duas razões principais: primeiro, sentem-se mal fora do poder central, nem estão acostumados a isso e perdem privilégios que consideravam como seus direitos. Segundo, porque Lula nunca foi seu candidato. Seria até uma contradição de classe: Lula não os representa, nem o querem, apenas o toleram porque venceu a eleição e agora se sentem beneficiados pela opção macroeconômica de viés neoliberal que o governo assumiu. Mas não se sentem seguros com esta opção porque Lula pode mudar. Sob a pressão dos movimentos sociais ou pelo próprio partido em coerência com sua base social pode optar por outro modelo de economia submetida a imperativos da política social. Ai eles perderiam suas vantagens. A política atual não os tranqüiliza.

Mas o seu objetivo maior não é afastar Lula, obstáculo a sua volta ao poder.

Bem que gostariam, mas sabem que será difícil devido à aceitação popular que ainda goza e à mobilização multitudinária dos movimentos sociais. Mas o propósito maior é liquidar com o PT como partido das mudanças, desmoralizá-lo, sangrá-lo, colocar contra ele o povo. É mais que fazê-lo perder as eleições. É liquidá-lo como partido de um projeto alternativo de Brasil. Só então se sentiriam tranquilas por muitos anos para continuarem com sua dominação a partir do Estado, fazendo eventualmente mudanças para não ter nenhuma transformação que beneficiasse verdadeiramente o povo como a reforma agrária.

Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. É neto de imigrantes italianos da região do Veneto, vindos para o Rio Grande do Sul no final do século XIX.Fez seus estudos primários e secundários em Concórdia-SC, Rio Negro-PR e Agudos-SP. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959.

Durante 22 anos, foi professor de Teologia Sistemática e Ecumênica em Petrópolis, no Instituto Teológico Franciscano. Professor de Teologia e Espiritualidade em vários centros de estudo e universidades no Brasil e no exterior, além de professor-visitante nas universidades de Lisboa (Portugal), Salamanca (Espanha), Harvard (EUA), Basel (Suíça) e Heilderberg (Alemanha).

Esteve presente nos inícios da reflexão que procura articular o discurso indignado frente à miséria e à marginalização com o discurso promissor da fé cristã gênese da conhecida Teologia da Libertação. Foi sempre um ardoroso defensor da causa dos Direitos Humanos, tendo ajudado a formular uma nova perspectiva dos Direitos Humanos a partir da América Latina, com "Direitos à Vida e aos meios de mantê-la com dignidade".

É doutor honoris causa em Política pela universidade de Turim (Itália) e em Teologia pela universidade de Lund (Suíça), tendo ainda sido agraciado com vários prêmios no Brasil e no exterior, por causa de sua luta em favor dos fracos, dos oprimidos e marginalizados e dos Direitos Humanos.

De 1970 a 1985, participou do conselho editorial da Editora Vozes. Neste período, fez parte da coordenação da publicação da coleção "Teologia e Libertação" e da edição das obras completas de C. G. Jung. Foi redator da Revista Eclesiástica Brasileira (1970-1984), da Revista de Cultura Vozes (1984-1992) e da Revista Internacional Concilium (1970-1995).

Em 1984, em razão de suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro "Igreja: Carisma e Poder", foi submetido a um processo pela Sagrada Congregação para a Defesa das Fé, ex Santo Ofício, no Vaticano. Em 1985, foi condenado a um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de todas as suas funções editoriais e de magistério no campo religioso. Dada a pressão mundial sobre o Vaticano, a pena foi suspensa em 1986, podendo retomar algumas de suas atividades.

››› na cadeira de Galilei Galileu

Em 1992, sendo de novo ameaçado com uma segunda punição pelas autoridades de Roma, renunciou às suas atividades de padre e se auto-promoveu ao estado leigo. "Mudou de trincheira para continuar a mesma luta": continua como teólogo da libertação, escritor, professor e conferencista nos mais diferentes auditórios do Brasil e do estrangeiros, assessor de movimentos sociais de cunho popular libertador, como o Movimento dos Sem Terra e as comunidades eclesiais de base (CEB's), entre outros.

Em 1993 prestou concurso e foi aprovado como professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).

Atualmente vive no Jardim Araras, região campestre ecológica do município de Petrópolis-RJ e compartilha vida e sonhos com a educadora/lutadora pelos Direitos a partir de um novo paradigma ecológico, Marcia Maria Monteiro de Miranda. Tornou-se assim ‘pai por afinidade’ de uma filha e cinco filhos compartilhando as alegrias e dores da maternidade/paternidade responsável.Vive, acompanha e re-cria o desabrochar da vida nos "netos" Marina , Eduardo e Maira.

É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.

Informações Colhidas na página http://www.leonardoboff.com/

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