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Mercado e tortura

“É preciso unir a mais firme resistência ao mal à maior benevolência para com o malfeitor, não há outra maneira de purificar o mundo” - Mahatma Gandhi

 

            Há tempos a sociedade ocidental optou por fazer pautar todo o seu comportamento, seus sonhos, sua vida pelas leis frias do mercado. Uma das atividades mais vis, mesquinhas e desprezíveis em qualquer sociedade humana guindada a norte da vida. Por aí se compreende a bagunça, a loucura e imoralidade bestial em que o mundo se enfiou...

Entre os Astecas, havia um esboço de surgimento de uma classe de comerciantes. Em meio a tantos que produziam, este era sempre execrado, no mínimo como um espertalhão que fazia o possível para passar seus irmãos para trás; na pior das hipóteses, tido e havido como desonesto mesmo. A sabedoria das comunidades existentes na América antes da chegada dos europeus tornava-as cautelosas quanto à possibilidade do surgimento de algo tão esquisito e de difícil controle quanto o comércio, o mercado.

            A distribuição de bens e valores na sociedade burguesa contemporânea é extremamente deficitária: aqueles que mais trabalham, pouco ou nenhum acesso têm ao que eles mesmos produzem. Aqueles que têm mais bens raramente produzem algo mas têm acesso plenificado aos que a camada produtora da sociedade vai gerando. Entre estas duas categorias, os espertalhões, comerciantes em geral, que são maioria e sempre usufruem do fruto do trabalho produtivo e da ânsia consumidora alheia.

            Dia desses, choquei uma platéia atenta ao declarar uma obviedade, um truísmo: o comerciante não produz nada! Vejo-me compelido a aprofundar esta questão. O agricultor, no Brasil, é o principal gerador da riqueza que circula neste país. A indústria também produz bens até mais caros, sofisticados e rendosos.

E o comerciante? Faz circular muito mal os produtos gerados pelas categorias sociais produtivas e, com o trabalhinho banal de comprar barato (por vezes mesmo roubar ou fraudar...) de um otário e vender mais caro para outro, logra enriquecer muito mais que aqueles que produzem. A loucura da sociedade ocidental é tamanha que esta atividade, a menos honrosa, a menos honesta de toda a cadeia produtiva, tornou-se o principal balizamento do capitalismo (ou capetalismo, como querem os puristas cristãos...) contemporâneo.

            Uma atividade que a quase totalidade das sociedades do mundo tem como desonesta, exigente de cautela e cuidados tornou-se o norte das atividades do mundo, o que só é crível por ser fato!

            Não se produzem bens necessários à vida humana direta e imediatamente como tal, produz-se “para o mercado”; a vida que se adeque ou sucumba...

            Não se tem mais vocações em absoluto, desejos de seguir esta ou aquela carreira por uma pulsão interior sincera e nobre. Aquele que vai começar a sua vida profissional se vê coagido a atender, antes de a si mesmo ou a sua família, a esta entidade chula, de baixíssimo estrato moral chamado “mercado”. Ouça o jovem ao término do cursinho pré-vestibular: “vou cursar o que estiver melhor no mercado de trabalho”. Mercado de carne humana! Preciso vender caro a minha carne, o meu sangue, o meu cérebro no mercado de carne humana chamado eufemisticamente “de trabalho”. Quando os seres humanos são convidados a vender-se ao mercado de carne humana e há desemprego, como na pior crise econômica da história do Brasil, esta que vivemos atualmente, o insulto é enorme! O pai de família quer vender-se e não encontra quem o compre. Neste sentido, a prostituição nada mais é do que o paroxismo de pessoas desesperadas que, não podendo ou não sabendo vender o cérebro ou os braços, vende a parte do corpo que o mercado em geral deseja consumir. Merecem, como os demais comerciantes em geral, nossa comiseração, não a condenação... Culpado? O mercado, as leis do mercado, do comércio de seres humanos!

            Condenável – de todo  e qualquer ponto de vista cristão digno desse nome – é a atividade mercantil, não o ser humano que peca. Condenável é o pecado, não o pecador. Condenável é a prostituição, não a prostituta. Condenável é o comércio, não o comerciante... Uma sociedade moralmente doente há séculos gera seus descalabros, sendo a atividade mercantil como norte o mais graves destes. Nada que a força e a saúde da Sociedade Futura não corrija.

             A Nação mais pecaminosa do mundo, EUA, constituem-se hoje no baluarte em defesa do mercado como valor universal e de todo o descalabro (guerras, exploração, expropriações indébitas, etc) do mundo contemporâneo sob as rubricas estapafúrdias de “Neoliberalismo” e “Globalização”. A história os julgará!

            Estou persuadido de que, no futuro, se falará da atividade comercial, mercantil com o mesmo asco, com a mesma ojeriza com que hoje nos referimos à tortura ou outras violências perpetradas contra os seres humanos... Condenamos a tortura, mas queremos que o torturador se arrependa e aproxime a sua alma da salvação. O mesmo se pode dizer do comerciante: queremos que ele se arrependa...

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