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Nannet, o novo dialeto
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Troncos lingüísticos, idiomas e dialetos
Os antropólogos definem “tronco
lingüístico” como a raiz comum a vários idiomas que guardam entre si algum
nível de similitude. Assim, temos por exemplo o tronco lingüístico Indo-europeu
que abrange idiomas que vão do sânscrito ao russo, passando pelo latim, grego,
português, alemão, etc. Em terras do que hoje é o Brasil temos o tronco
lingüístico tupi-guarani que abrange idiomas que vão do tupinambá ao guarani,
passando pelo bororo, tikuna, xavante, iapinajé, etc. Há ainda vários outros
troncos lingüísticos (africanos, semitas, orientais, etc.)
Dos idiomas, frequentemente
derivam-se alguns dialetos, por motivos que nem sempre são muito claros ao
pesquisador. Do alemão, por exemplo, conhecem-se algumas centenas de dialetos.
Há o “Hoch Deutsh”, o “Alto Alemão” e os vários dialetos falados em lugares
como a Silésia, o Holstein,
Uma característica do dialeto é o
fato de funcionar como uma espécie de código, algo infantil, que funciona e
opera num grupo parental ou de amigos íntimos, não sendo, em geral, partilhado
com “não iniciados”. Certa feita conheci uma moça Alemã (oriunda da região da Silésia)
que veio ao Brasil participar de um intercâmbio cultural. Então estudante do
idioma, conversava com ela e buscava me aprimorar. Algumas palavras que ela
dizia soavam estranhas aos meus ouvidos – o que a princípio eu atribuía a meu
parco conhecimento da língua –diante de minhas perguntas, ficava corada e, com
feições sérias, emitia a mesma expressão com ligeira variação no alto alemão
que aprendi no Instituto Goethe. Como exemplo, cito uma vez em que perguntei se
desejava açúcar no café e ela me disse – “bisl”. Perguntei o que era (“Wie,
bitte?”) e ela, corada, disse em tom solene: “ein bischen” – um pouco. Depois
me explicou que “bisl” era como respondiam no dialeto da Silésia a este tipo de
pergunta.
Há questões ligadas a equívocos
gramaticais que, se muito disseminados, podem determinar os rumos que um idioma
haverá de seguir. Assim, por exemplo, “correspondência”, coletivo de cartas,
missivas, por vezes sai em discurso como “as correspondências...” Outro é o
caso do gerundismo, derivado de uma tradução apressada de manuais em inglês e
muito usada por operadores de telemarketing: “um momento, vou estar
transferindo sua ligação”, ou “vou estar verificando o seu cadastro”, etc. A
recorrência do uso destas expressões talvez as consolidem. É tão difícil
imaginar como será nosso idioma no futuro quanto como será o nosso sonho da
noite. Limpando o meio de campo Ainda há quem confunda idiomas e
dialetos. Por exemplo, já li em algum lugar que “idiomas são as línguas
européias e o dialeto é a língua do índio”. Errado. Há idiomas europeus e há
idiomas aborígines. O guarani e o xavante são idiomas tão sofisticados e dignos
de consideração quanto o espanhol ou o português.
Na
Rede Globo de Telealienação, de
vez em quando saem com algumas “pérolas” como: “índios que preservam o idioma tupi-guarani...”
E ainda fazem propagandas – tão vazias de significado e conteúdo quanto os
discursos de Lula – da “Educação como direito de todos”. Tupi-guarani é um tronco lingüístico de que
derivam centenas de idiomas. O tronco tupi-guarani (de que derivam idiomas
diferentes como o tupinambá, o guarani e o bororo) pode ser comparado ao tronco
Indo-europeu (de que derivam o sânscrito, o grego e o português entre centenas
de outros idiomas). O Dialeto “Nannet”
Inegável que a disseminação da
Internet nas camadas mais altas da população brasileira e em fase de
popularização, vai criando uma nova forma de expressão, engenhosa, eivada de
gírias, abreviaturas e palavras transpostas com significado claro, mas
diferentes do registro formal da língua portuguesa. É assim que nascem os
dialetos.
Os jovens – e outros não tão
jovens... – garantem que somente utilizam este dialeto quando na Internet.
Dizem eles, “Só nannet mermo”. Por isso prefiro chamar este novo dialeto do
idioma português de “nannet” e não de “internetiquês” ou outras expressões que
buscam compreender o fenômeno.
Quem lê trabalhos escritos pelos
moços percebe o dialeto “nannet” claramente em suas redações: surgem expressões
como “naum” no lugar de “não”, “msm” no lugar de “mesmo”, “fik” no lugar de
“ficar”, etc.
Como ocorre em todos os dialetos,
não é tão difícil compreendê-los, e aqueles que o utilizam manifestam-se
genuinamente envergonhados se pilhados a utilizá-los fora do contexto. Alguns exemplos
Estes eu extraí de um álbum de fotos
comentadas por adolescentes em serviços chamados de “Fotologs” ou “Flogs”. Eis
como se expressam:
“Hey gnt..td
bom?!?!? UAHAuAUahuUHauaHUA! to postando pra bestaa...Ela ta ocupada aki e
pediu preu posta, intaum to aki!! hihihih...Pois eh, nem sempre si tem dias
iguais ao dia q foi hj... mas nós passamos por cima di td isso...pq a união faz
a força!kkkkkk.. Eh mto bom qdo c tem ao seu lado pessoas q vc sabe q pode
contar, pessoas especiais, que são guardadas no coração....pra sempre!! dias
como esses das fotux estarão sempre presentes em nossas vidas...msm q um dia o
choro queira nos deixar pra baixo... Uma dessas pessoas eh vc miga... com vc desabafo...
td mundo jah sabe q eu amo dimais essa mininaa!!Ela eh migona msm!!Falo isso pq
jah a conheco faz uns 6, 7 anos..por ai...e desde a primeira vez q conversamos,
nossos santos bateram...eu vi q ali eu poderia depositar td a confiança, td,
mas td msm!!... AUAHuihuAIHauihuiAH!!nós iremos sempre rir d nos msm...pq nós
temos motivos pra isso!! =) Aiaiaiai...num vo escrever mto naum... to xeia d
sono!... vo mimir... aki na ksa da malaaaaa... hauahauauauha... Eh isso... Bjo
pra tds!...”
Fikamos
dibobs tomanu sorveeete – Tradução: Ficamos à toa (“de bobeira”) tomando sorvetes
Dumingo
choco... hummmm... q dilícia! huahauua... – Tradução: Domingo será dia de páscoa e,
portanto, teremos chocolates, uma delícia!
Aiaiai...
xove sempará...! Ngm ngm ngm merece...! Tem q parar d xuver... pq sinaum vai
ser mais um fds em ksa... aff... isso naum! – Tradução: Está chovendo muito, que
desagradável... Precisa parar de chover, senão teremos de passar o fim de
semana em casa e isso não é nada bom...
Msm
– mesmo
Vc
ou simplesmente “c” – você
Oiiiii
– Olá (a quantidade de “iis” depois da letra “O”, em geral, é proporcional à
alegria que a pessoa pretende demonstrar)
Xeia
– cheia
Naum
– não
Ksa
– casa
Bjo
– beijo
Migona,
miga, miguxa – amiga
Td
– tudo ou todo
Mto
– muito
Fds
– fim de semana
Fotux
– fotos
Gnt
– gente
Aki
– aqui
Qdo
– quando
Pq
– por quê ou porque
Intaum
– então
Já existem manuais e glossários
bastante razoáveis na Internet com expressões mais usadas em salas de
bate-papo, Blogs e Fotoblogs para simplificar a interlocução entre os mais
ortodoxos e os falantes do novo dialeto. Juízo de valor: para onde vai a nossa língua portuguesa?
O lingüista Sílvio Castro
transcreveu a Carta de Pero Vaz de Caminha, tal qual foi grafada a 1º de maio
de 1500, constituindo o primeiro documento escrito em língua portuguesa nesta
terra e a apresenta também na linguagem de hoje, para facilitar a compreensão.
Editada no Brasil em 1985 pela L&PM Editora. Abaixo um pequeno trecho da
transcrição e a versão na linguagem de hoje apenas como ilustração de como os
idiomas se modificam.
“...tanbem andavam entre eles iiij
ou b mulheres moças asy nuas que nom pareciam mal. antre as quaaes amdava huua
coxa do giolho ataa o quadril e a nadega toda tjnta daquela tintura preta e al.
todo da sua propria cor. outra trazia anbolos giolhos co as curvas asy timtas e
tambem os colos dos pees. e suas vergonhas tam nuas e com tamta jnocencia
descubertas que nõ avia hy nhuua vergonha.”
“...Também andavam entre eles quatro
ou cinco mulheres moças, nuas como os homens, que não se apresentavam mal. Uma
delas andava toda tingida daquela tintura preta, numa coxa, do joelho até o
quadril e a nádega; e todo o resto, de sua cor natural. Uma outra trazia ambos
os joelhos com as curvas assim igualmente tintos de preto, bem como os colos
dos pés, e suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas, que não
havia nisso vergonha alguma.”
Vejo com naturalidade as
modificações contemporâneas do idioma português embora ainda tenha alguma
dificuldade em acompanhá-las, mas me esmero, até por dever de ofício: tenho de
compreender o que meus alunos estão dizendo! Neste momento, os vestibulares
ainda exigem redações dentro do registro formal do idioma português para o
ingresso nos cursos superiores, mas é duvidoso que isto detenha ou modifique a
direção que nossa língua está tomando, independente de gostarmos disso ou não.
Por enquanto, principalmente em
salas de bate-papo “Nannet”, comunicadores instantâneos e e-mails os jovens se
articulam através deste novo dialeto derivado do idioma português. Ao ler suas redações
percebemos como este dialeto penetra fundo no psiquismo do jovem, fazendo com
que por vezes se confunda entre o registro culto do idioma e as expressões que
utiliza entre amigos.
Gostemos disso ou não, aprovemos ou
não, o idioma português, dinâmico como todos os idiomas, está se modificando.
Engana-se quem considera possível controlar um fenômeno assim multitudinário a
partir da repressão. Por enquanto é claramente um dialeto. Com o tempo muito
deste dialeto se promoverá ao registro culto do idioma modificando-o
sensivelmente, como já aconteceu no passado em vários idiomas. Alguns professores
da velha escola podem ficar muito chateados, alunos brilhantes serão reprovados
por não se fazerem entender utilizando os formalismos tradicionais do idioma,
como sempre ocorre em momentos de transição. Mas isso em nada conterá o
processo histórico, dinâmico, de modificação da nossa língua portuguesa. Lázaro Curvêlo Chaves - 21/04/2005
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