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Contra o Estado - Notas Esparsas sobre os Filmes Nell e "Matrix" Você é feliz vivendo no Estado, com o Estado? Nada mais sensato, portanto, que obedecer-lhe a lei e os mandamentos básicos, naturais. Até por isso, gente como Henry David Thoureau sai para viver nos bosques, solitário, insatisfeito com o Estado Nacional Norte-americano e as atrocidades então perpetradas contra o povo mexicano “com o dinheiro dos impostos do povo americano”. E a vida nos bosques, na floresta, no isolamento, como eremita, tem sido perfeitamente satisfatória a muita gente que tomou esta opção existencial a sério. Essa questão retorna-me à memória recorrentemente, mas especificamente agora após haver assistido novamente dois filmes norte-americanos muito interessantes: “Nell” e “Matrix”. Em “Nell”, apresenta-se uma eremita cristã que havia sido violentada na juventude, teve duas filhas gêmeas como resultado daquele seu único contato com um ser humano do sexo masculino e, logo ao início do filme, morre, sem que ninguém nunca houvesse sequer sabido da existência de outra pessoa a viver com ela. O médico da pequena cidade (que para lá fora acompanhado do chefe de polícia) atesta o óbito da eremita em sua própria casa, ficando espantado com o fato de ser possível a alguém viver em tal isolamento, sem água corrente em casa, sem telefone, luz elétrica ou qualquer dos confortos do mundo moderno. Pior, era “afásica”, pois tinha metade do rosto paralisado por um acidente vascular cerebral em tenra idade... Ao entrarem na choupana, surpreendentemente, encontram “Nell”, que desenvolvera uma linguagem própria e estava em idade estimada entre 26 e 30 anos (Jodie Foster interpreta brilhantemente a “mulher-selvagem”...). O interesse em caso tão pitoresco por parte da comunidade acadêmica obriga o médico humanista a – judicial e judiciosamente – conseguir o direito de fazer uma tentativa na direção de aprender-lhe o idioma e buscar saber se ela deseja sair da condição em que se encontra ou não. Impregnado de momentos de raríssima beleza, com mensagens filosóficas tremendamente profundas, dentro do processo de ensino/aprendizagem em que se envolvem uma médica da comunidade acadêmica, o médico humanista da cidadezinha e a “mulher selvagem”, como alguns a chamam, percebemos pérolas como: “Você está certa, Nell, viver entre as pessoas é desvantajoso: primeiro elas te confundem, depois te abandonam...” Este o resultado final da trama no julgamento em que se vai decidir o futuro de Nell: viver em sociedade, “aprendendo as coisas grandiosas que lhe foram negadas pela mãe” ou optar por seguir reclusa, como o foi desde o nascimento. O discurso dela no julgamento, quando todos já julgavam o caso perdido, é uma lição de vida a todos quantos tiveram a oportunidade de acompanhar de perto este trabalho primoroso. Equiparável aos mais belos trechos de aborígines refratários ao domínio colonial europeu sobre estas terras.
Assista ao Filme:
Outro que mexe com a cabeça da gente é “Matrix”: este mundo não é real, é “virtual”. As máquinas tomaram conta do mundo e todos seguem os esquemas por elas montado no sentido de uma vida “suave e feliz”, mas sem liberdade. A busca da liberdade é o cerne da trama. Poucos heróis anti-aparato-estatal tomam a si a dificultosa incumbência de reencaminhar o mundo do caos em que se encontra na direção da verdadeira ordem em paz, felicidade e muita liberdade. As dificuldades de praxe no lidar com as coisas do Estado autoritário são aqui recolocadas, mas num patamar e segundo uma perspectiva totalmente diferente. Se em “Nell” há a eterna discussão da luta por um lugar ao sol longe e à revelia do Estado, em “Matrix” vemos uma guerra declarada ao Leviatã estatal... Este mundo não é real, é virtual. As máquinas, basicamente computadores de ponta, que atingiram “inteligência artificial”, tomam conta do planeta e tudo o que acontece é monitorado para que seja satisfatório à máquina, não ao humano. Poucos têm acesso à realidade em computadores não submissos ao sistema. Um tremendo jogo de espelhos que tende a dificultar a mera compreensão do filme, que se precisa assistir pelo menos duas vezes para captar-lhe a essência. O mundo real somente é acessível a poucos que detêm a tecnologia necessária a simula-lo em computadores. Fora desta realidade é o virtual eivado de realidade existente no mundo prático-pragmático. Um jovem programador passa noites a fio procurando alguma coisa, sentindo que há algo de muito errado com o mundo (a empatia com o jovem, rebelde por definição, é imediata). Quem chega a intuir que há algo de muito errado com o mundo sente-se imediatamente em casa neste trabalho primoroso.Tanto busca que acaba sendo encontrado pelo grupo de guerrilheiros anti-estatais comandados por um ativista cognominado “Morfeu”. Alcunha perfeita pois, em sua luta, estão todos adormecendo nos braços dos computadores que resistem ao sistema para que toda a espécie humana possa despertar do sono em que se encontra. “Sião” é novamente a terra prometida, a única cidade que resiste à nova ordem impessoal das máquinas que tomam conta do mundo. Cidadela isolada, distante e livre de qualquer possibilidade de acesso a não humanos ao longo do filme. Ponto de chegada e de partida de quantos ainda são humanos neste mundo. O jovem programador é convidado a conhecer mais (conhecer é poder, controle, domínio) e lutar pela libertação do mundo. Fica sabendo que ele, “Neo”, é O Escolhido, aquele que, por ser capaz de atuar operacionalmente contra a ordem é capaz de lutar e mostrar aos homens o caminho da libertação. Morfeu é o seu mestre, que o reconhece e que logo será superado. Como lutar contra a escravidão se há séculos o homem nasce escravizado? Esta questão, antiga como o Estado, foi excepcionalmente trabalhada pelo Renascentista Etienne de La Boétie. A sede pela liberdade já assombrava os sonhos de Espártaco no Império Romano. A atualidade desta inquietação no mundo globalizado, neoliberal e todo em rede desassossega. Para além das alegorias apresentadas no filme, com direito a efeitos especiais primorosos e devidamente premiados há a reflexão em torno da luta do homem pela sua emancipação face a um poder massacrante contra o qual não há acordo possível. Contra toda a evidência – e até porque a alternativa para aquele que despertou é a insuportável “Servidão Voluntária” – a luta do humano para emancipar-se segue plena e eficaz. Não importa tanto ter sucesso na luta. Importa não capitular, pois capitular é transformar-se no próprio algoz. A atividade humana desapegada tem um potencial revolucionário raramente tão bem explicitada. O aprendiz tem de “morrer” e “ressuscitar”, precisa dominar técnicas novas, precisa dominar acima de tudo o seu próprio medo e conformismo. Precisa viver e deixar viver em permanente luta contra os algozes da vida plena e real. “Matrix” é o nome do Estado, da nova ordem mecânica a que os seres humanos devem submeter-se. Trata-se de um conjunto de máquinas capazes de fazer crer em qualquer coisa, atuando diretamente no nível neuronal das pessoas. Contra esta, somente uma outra máquina, a serviço do humano, não mais servindo-se dele. O embate final, entre o humano imaginativo, criador de um lado e, de outro os representantes da “ordem”, os agentes da máquina, é um primor de alegorias. Faz-nos recordar de todos os momentos históricos em que a nossa espécie avançou na direção certa, sempre sob a orientação de um líder carismático a serviço de um poder superior que por vezes nem ele entende, a princípio. Feita a harmonização entre o guerrilheiro da inovação e o poder superior a que pertence e o mundo inteiro pode ser reconduzido à paz, à verdadeira ordem e harmonia, a partir de preceitos humanos. “Matrix” é o Capital. “Neo”, “Morfeu” e os lutadores pela emancipação são os libertadores humanos, são os guerrilheiros humanistas que restauram a ordem, a harmonia universal. Uns poucos seres humanos idealistas lutando pelo que é bom, justo, correto dobram, jugulam a autocracia dominante. Tal não tem sido assim na história da humana espécie? Recomendo acompanhar este belo filme com muita atenção. A mesma que outrora se devotava ao “Manifesto Comunista”, ao “Discurso da Servidão Voluntária”, ao “Manifesto do Surrealismo”. Vale a pena!
Política, metafísica, gnosticismo...
Assista ao Filme:
Ao ser lançada (14/06/2003) a continuação do filme “Matrix”, “Matrix Reloaded” é o nome e finalmente “Matrix Revolutions” concluindo a trilogia vemos que é sem dúvida um grande mito da modernidade! Tudo é dor e ilusão – antigo ensinamento budista – o que chamamos de “realidade” não passa de mera ilusão dos sentidos. Futuristicamente, os irmão Larry e Andy Wachowski, até então pouco conhecidos, mixam aspectos do cristianismo com aqueles do Budismo e do Hinduísmo, no que ficou conhecido como “gnosticismo”. Referências a “Messias”, “O Escolhido”, “Zion (Sião)”, Trinity (Trindade) correm paralelas a filosofias orientais. Todos dormem, é necessário “acordar”, eis um dos cernes da filosofia budista. Viver no mundo “acordado”, ser “aquele que despertou” é ser o Iluminado, o Buda. Em duas cenas, uma no primeiro filme, outra repetida no “Reloaded”, o “Messias” Neo estende a mão e paralisa balas que lhe são disparadas. Sidartha Gauthama, o Buda, também foi atacado pelo exército de Mara (deus da ilusão) e todas as flechas, bombas, armas enfim disparadas contra ele transformaram-se em pétalas de flores, reza a tradição. Além das referências religiosas, que prendem a atenção, há a questão política da luta de um grupo idealista contra o Poder Estabelecido e autoritário, o comunismo de tipo moderno... Todos sabemos que o comunismo e a religiosidade têm uma ligação estreita, umbilical! Gente de elevada índole intelectual e moral a lutar por um mundo e uma vida melhor para todos são os principais pontos comuns entre a política e a fé – ligação que hoje só encontramos, vale ressaltar, no Islã. É uma alegria ver um filme cristão, com eivores budistas, orientais, a trazer-nos as mesmas reflexões. Indicações de Leitura Para saber mais sobre o filme e seus aficcionados há uma série de páginas na Internet, dentre as quais destaco: No Orkut http://www.whatisthematrix.com
ADENDO IMPORTANTÍSSIMO: 1º de Maio de 2006
Recomendação: 13º Andar - 1999 - Um precursor...
01/05/2006 03:23
Encontrei uma ótima resenha de
13º Andar, (para quem compreende bem o inglês)
AQUI Filmes Indicados
O Gladiador Epicurista
Há tempos escrevi um texto sobre o filme “O Gladiador”. Está na Internet em minha página e algumas pessoas insistem em criticar alguns aspectos que ali abordo. Em minha defesa tenho a dizer que “Meditações” do Imperador Marco Aurélio (de fato assassinado pelo filho Cômodo) foi um dos primeiros livros que li na vida. O fato de o então imperador romano Cômodo ter restaurado os jogos no Coliseu e ter por hábito lutar com Gladiadores que eram previamente feridos ou dopados, o que lhe (a Cômodo) custou a vida, traz grande verossimilhança ao filme e faz sonar sinetes de uma memória remota em minha cabeça... Assista ao filme:
Gladiador - um filme de Ridley Scott
Relativizando a importância do inglês De vez em quando alguém me questiona quanto à quantidade de anglicismos que utilizo no que escrevo ou no que falo. Acaso alguém pensa que era diferente na Palestina? Há dúvidas de que, se não soubessem o latim, teriam dificuldades homéricas de comunicação com o Império Romano, dominadores da época? Em outras palavras somos, na América Latina um povo submisso ao domínio cultural e economicamente hegemonizados pela potência ianque. Ter isso claro em mente facilita o trabalho em prol da emancipação; em segundo lugar, conhecer o idioma do conquistador é um passo importantíssimo para a luta. Lênin, na Rússia de 1914, fazia uma menção (em alemão) a esta questão: “Wer der Feind Will verstehen muss in feindes landes gehen”, ou seja, “Quem quer conhecer o inimigo, tem de caminhar pelas terras do inimigo”.
Sociologia, Filosofia, Psicologia e Ensaios Críticos
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