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Nossas mais belas Utopias

*PEDRO DEMO

 

 

 

Embora irrealizável por definição, a utopia faz parte de nossa realidade, descrevendo seu conteúdo mais dialético. À primeira vista, parece apenas um jogo de palavras, e – é bom que se diga – como muitas diatribes dialéticas, esta discussão pode de fato tornar-se um simples jogo de palavras. Mas não cremos que seja assim necessariamente. Está por trás disto uma visão da dinâmica histórica, que a toma como uma realidade sempre necessariamente relativa, condicionada pela fase histórica vigente, dentro da perspectiva que aceita toda formação social como suficientemente conflituosa para ser historicamente superável. Não há fase definitiva, nem perfeita, que já não produzisse suas contradições. Os conflitos não são defeito, porquanto pertencem simplesmente ao modo de ser da realidade, de tal forma que a superação histórica também é um movimento normal, já que tudo é apenas fase. Tomando o exemplo do homem, ele inevitavelmente morre, por mais que não queira, porque pertence à sua própria constituição. Contém, portanto, um conflito interno congênito, que o torna uma fase apenas.

 

 

Dentro desta visão dinâmica da história, a perspectiva liga-se a dois parâmetros centrais. Um parâmetro é a realidade concreta, sempre relativa e imperfeita, necessariamente criticável e passível de superação, porquanto não esgota nunca a história. Outro parâmetro é a projeção perfeita que fazemos da sociedade, irrealizável por definição, mas que serve de norte para a trajetória histórica. Se não tivéssemos utopias, contentar-nos-íamos com a relatividade da fase vigente e não nos proporíamos mudanças maiores. Se a história passada fosse a medida do futuro, não haveria fundamento para imaginarmos sociedades melhores, já que todas foram muito imperfeitas, desiguais e opressoras. Nesta óptica, Maquiavel seria insuperável. É em nome da utopia da sociedade perfeita que criticamos as sociedades existentes e passadas, e guardamos a esperança de uma sociedade melhor.

 

 

Neste sentido, a utopia é a fonte de alternativa, a busca imorredoura de uma realização melhor, ainda que a história somente nos traga situações precárias. É na utopia que a humanidade deposita seus sonhos mais lindos, como a igualdade social, a autogestão, a autopromoção, a democracia, a participação, a solidariedade etc. E é em nome destas idéias que não paramos na marcha da história, embalados por uma música que vem de não sabemos onde, mas que não cessa de encantar. Qualquer revolução mais profunda produz sua mística, que se alimenta das utopias, como a revolução francesa com seus ideais de igualdade, fraternidade e liberdade. Só pode ser uma sociedade reacionária aquela que já não acalenta utopias, ou é uma sociedade cansada e resignada. Onde pulsa a utopia, fervem os ideais, projetam-se alternativas, gravitam as esperanças.

 

 

Trata-se de “utopismo”, quando se incorre no vício de imaginar realizável uma utopia ou de descrever como perfeita e insuperável uma situação histórica dada. É comum este erro em revolucionários que não gostam de ouvir que serão os reacionários de amanhã, porque, chegados ao poder, propor-se-ão mantê-lo e institucionalizá-lo, como sempre. Acontece igualmente com certos socialismos que apontam facilmente as contradições flagrantes do capitalismo como fundamento de sua necessária superação, mas que não sabem aplicar o mesmo esquema a si próprios, quando são, na verdade, também fase histórica apenas. É, desta maneira, necessário temperar a visão utópica com a visão de realidade, para não habitarmos um castelo no ar ou enfeitarmos precariedades com perfeições impossíveis. A história não somente se supera, mas igualmente se mantém.

 

 

Do outro lado do “utopismo” há a posição que exagera o aspecto institucional, execrando qualquer mudança, geralmente em nome de uma visão funcionalista a serviço do poder. Sacraliza uma postura de cultivo à mediocridade, porque perde a noção de alternativa, exclusivizando as tendências de conservação da fase histórica. Como os extremos se tocam, é fácil perceber que ambos caem no mesmo vício, ou seja, de pretender perenizar uma fase histórica, seja pela via do conservadorismo – propondo manter indefinidamente a mesma fase -, seja pela via do utopismo – introduzindo no relativo supostos traços de perfeição definitiva.

 

 

Cremos, assim, que o conceito de utopia, entendido como presença constante da criatividade histórica, que não se esgota nunca em qualquer fase dada, é capaz de calibrar um meio termo, que valoriza na proporção devida a dinâmica histórica – incapaz de se encerrar apenas na reforma, mas produzindo igualmente as condições de sua superação -, e a realização histórica – necessariamente precária, mas real. Todos parecem querer democracia, ainda que as realizadas sejam caricaturas do projeto sonhado. Acalenta-se a esperança de uma sociedade justa, igual, solidária, muito embora as que existem apontem para uma relatividade decepcionante. Não cessam de surgir novos grupos religiosos, embalados por ideais de fraternidade total, onde tudo é de todos, mas que acabam burocratizando-se, à medida que se tornam instituições.

 

 

Mas, se é possível sempre mostrar o lado fraco, também é possível mostrar o lado fascinante da utopia, porque representa o pulsar insaciável da esperança social. Ademais, não faz mal sonhar, se soubermos sempre que é sonho. Seria miséria excessiva termos de nos contentar com a realidade que temos. O princípio esperança encarna a emergência imorredoura da crítica, da contestação, da superação que são expressões naturais da dinâmica histórica. Sem elas, seria um deserto de areia, ressecado, sem vida, sem criatividade. É uma sociedade muito pobre aquela que não sabe ver-se diferente, melhor, e até superada. Quando a visão soviética do “comunismo científico” tenta pintar a situação atual, Bloch parodia Engels, e afirma que falta na União Soviética não ciência, mas utopia. Porque se perdeu o senso pela utopia, imagina-se definitiva uma realidade tão imperfeita.

 

 

[...] A utopia é geralmente um protesto contra o poder. Sugere fortemente que uma angústia fundamental da sociedade é, de um lado, a inevitabilidade do poder, e, de outro, sua tendência opressora. De fato, toda utopia é ao mesmo tempo realizada e traída pelo poder. É realizada pelo poder, já que se não se institucionalizar, jamais sairá da teoria e da especulação. Realizar-se na história significa assumir a característica de relatividade e de precariedade, que qualquer instituição tem, e que pode ser representada sobretudo pelo aspecto do poder, na sua dimensão mais típica de manutenção e persistência.

 

 

É traída pelo poder, já que a institucionalização reduz a perfeição da utopia à relatividade de sua realização histórica, que pode ser percebida sobretudo através da prevalência da outorga sobre a participação. O que começa na história sob o entusiasmo da utopia, vai cedendo à ferrugem do tempo. E é exatamente por isto que é preciso mudar, não porque seja possível exterminar o poder, mas porque é possível aumentar sempre mais a participação.

 

 

(SOCIOLOGIA – Uma Introdução Crítica, Ed. Atlas, 1989, 2ª Ed., páginas 142/144)

 

* PEDRO DEMO é Ph.D em Sociologia pela Alemanha Ocidental. Defesa de tese em 1971 e publicada em alemão em 1973. Foi professor da PUC/RJ, da UFF, do IUPERJ, entre 1972 e 1974. A partir de 1975 é do quadro do IPEA (Secretaria de Planejamento da Presidência da República), Brasília, e desde 1976 professor da UnB, onde se tornou professor titular a partir de 1981. Entre 1979 e 1982 foi secretário-geral adjunto do Ministério da Educação. É autor de Metodologia Científica em Ciências Sociais e Introdução à Metodologia da Ciência, publicados pela Atlas.

 

 

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