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Nostalgia

 

Infância

 

“Rua da União...

           Como eram lindos os nomes das ruas de minha infância

           Rua do Sol

          (Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de  Tal)”

Manuel Bandeira

 

            Como era bom o tempo de minha infância...

            Brincava na pracinha perto de casa com amigos da vizinhança sem a menor preocupação com o que quer que fosse.

            Eram meados do século passado: não havia Shopping Centers, Internet, Telefones Celulares, Seqüestros, Filhos matando pais, pais matando filhos, Rebeliões nos Presídios, Partidos Criminosos dentro das cadeias e nos palácios governamentais... Bons tempos aqueles... A vida era mais simples, humana, muito menos complicada!

            Aquele tempo não volta. Fica na memória, deixando saudades...

            Não me lembro de um único pai de amigo meu que estivesse desempregado. Não se trocava de carro todos os anos – os carros, raros, eram importados... – menos ainda geladeiras ou fogões, à época fabricadas para durar décadas. Hoje estas latas de sardinha duram um ou dois anos para ampliar o lucro das empresas...

            Ninguém de minhas relações era ou se considerava rico: todos tinham o suficiente para viver com conforto e sobra! Hoje em dia isto é exceção. O país está mais rico, mas a riqueza que geramos vai toda para os bancos e os bolsos dos criminosos enjaulados ou encastelados nos palácios governamentais e o povo vive muito pior do que outrora... Enquanto isso, os miseráveis endividados de hoje arrotam mais arrogância que os remediados do passado.

            No Hospital Central da Aeronáutica há em pleno funcionamento, ainda hoje, uma geladeira Westinghouse, pesada pra chuchou, com um fecho metálico, encaixe barulhento, vedação perfeita e zero defeito. Tem mais de 50 anos e fará um século brincando! As geladeiras de hoje são de plástico e duram pouquíssimo tempo que logo lançam “marcas melhores” – em geral inacreditavelmente inferiores à tradicionalíssima Westinghouse – e a moda obriga a trocar...

            Máquinas e eletrodomésticos eram fabricadas para durar. Relacionamentos humanos também eram duradouros naqueles tempos. Hoje troca-se de geladeiras e maridos com uma velocidade estarrecedora! Somos mais felizes?

Eu sou o quarto da esquerda para a direita, depois da freira...

 

Educação

 

            Pedíamos a bênção aos mais velhos, aprendíamos a ouvir silentes os diálogos dos adultos sem nos intrometer ou atrapalhar.

            As escolas públicas eram tão boas que os pais ameaçavam filhos eventualmente relapsos nos estudos: “se você não se emendar vou te botar numa escola particular!” Hoje a situação se inverteu. A escola pública sucateada é o destino dos humildes e o castigo dos relapsos nos estudos – para não mencionar dos professores, obrigados a lidar com classes abarrotadas, salários miseráveis e crianças sem as mais básicas noções de educação – que os pais precisam trabalhar e os filhos ficam aos cuidados pedagógicos de programas televisivos de péssima qualidade.

            Era um tempo de inocência... Lembro-me de um amiguinho que falou orgulhoso: “pai! Estou aprendendo álgebra!” O pai, orgulhoso, disse: “que bonitinho, meu filho, vai lá dizer bom dia para sua avó em álgebra!”

 

E a moral?

 

            Ser humano é ser humano onde quer que viva...

            Mas sou sobrevivente de um tempo em que a expressão “fidelidade conjugal” fazia sentido, era regra e não exceção. Quando se desconfiava que um sujeito casado “tinha uma amante” era um deus nos acuda!

            Hoje ninguém é de ninguém, estes valores estão ultrapassados e os dinossauros, como eu, não conseguem se adaptar ou se conformar: somos uma espécie em extinção...

 

E na política, então?

 

            Estadistas do porte de Getúlio Dornelles Vargas e Juscelino Kubitschek de Oliveira já não surgem mais. Políticos burgueses, em nada comprometidos com o socialismo ou a igualdade social, mas eram pessoas que pensavam primeiro no país, no bem-estar do povo brasileiro e não no seu próprio! Havia corrupção, claro! Não somos anjos! Mas, de novo, não era epidêmica! Era exceção e não regra, como hoje.

            Esperava-se dos líderes políticos realizações efetivas: obras, projetos, campanhas de saúde... A honestidade e a honradez eram dados, pré-requisitos.

            Juscelino inaugurava Universidades, Hospitais, abria estradas, projetava cidades... Hoje se inauguram buracos tapados e se anuncia pedras fundamentais de obras que jamais serão realizadas – e sob o aplauso do respeitável público, o que é estarrecedor!

           

URSS – um importante contraponto ao imperialismo ianque

 

            Já na adolescência comecei a nutrir sentimentos de admiração por uma Nação com pleno emprego, o preço do pão congelado em 3 copeques por meio século, o maior salário jamais ultrapassava 8 vezes o menor, ninguém passava fome ou pedia esmolas, todos se divertiam em teatros de elevadíssima categoria como o Bolshói e a única Estação Espacial em órbita era a soviética.

            Estudei russo no Instituto Cultural Brasil-União Soviética, na Rua das Marrecas, Passeio, lá no Rio. Estava praticamente de malas prontas para a Universidade Patrice Lumumba quando Mikhail Gorbatchov lançou os motes “Perestroika” e “Glasnost” – o fim da União Soviética. Convocando eleições diretas teve menos de 2% dos votos válidos e a justificativa dos moscovitas que conversavam comigo: “você votaria num cara que estraçalhou com a sua Nação?”

            No mundo havia um contraponto importante ao imperialismo estadunidense, à ganância e à ânsia de hegemonia do grande demônio do Norte. Não tenho a menor dúvida que o quadro geopolítico do mundo seria bem outro, caso a URSS não se tivesse desagregado.

            Aliados estratégicos dos árabes e muçulmanos (tendo a própria Rússia um vasto contingente de muçulmanos) dificilmente os estadunidenses esmigalhariam o Iraque em nome de “levar a democracia”. Não creio que hoje haja um único ser vivo no planeta que julgue melhores os dias de hoje no Iraque que ao tempo de Sadam Hussein. Demônios à parte, os invasores estrangeiros, desrespeitosos, torturadores e cruéis ultrapassam as raias da loucura do antigo ditador iraquiano. Faltam-lhes condições morais para julgá-lo, sejamos francos.

            A União Soviética não era o paraíso que imaginávamos, mas com o colapso do socialismo o inferno se colocou por lá com uma gravidade pavorosa. Caiu de superpotência a país “emergente” num piscar de olhos: mendigos pululam nas ruas; a prostituição virou epidêmica; a toxicomania atinge índices alarmantes; os níveis educacionais caem a padrões do terceiro mundo; a máfia russa é quase tão eficiente quanto os presidiários brasileiros, que governam o país das cadeias através dos telefones celulares e apoio dos funcionários corruptos e mal remunerados dos presídios. Não é casual que os russos estejam se questionando se fizeram uma boa troca...

            Num país com economia planificada, mercadorias importadas eram colocadas à disposição de quem o desejasse e, não raro, se esgotavam rapidamente, pois todos contavam com bom poder aquisitivo. Hoje, nas grandes cidades russas, os supermercados têm prateleiras cheias, mas não há mais filas: falta dinheiro para comprar os produtos...

            Não era o paraíso que imaginávamos, mas a comparação da superpotência soviética com esta colônia estadunidense em que vivemos nos deixava cheios de inveja e sonhos de liberdade...

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Todo o Poder aos Soviets! - Viktor Serov

           

MERDA! Tô ficando velho!

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 01/06/2006

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