Um povo sem memória vive repetindo a própria história O sucesso da operação militar de 2010 nos morros do Rio
É fundamental entender por que a operação conjunta da PM do Rio de Janeiro com o Exército, a Marinha e a Aeronáutica foi um sucesso. Talvez mais sucesso em 2010 do que tiveram em 2008, mas seguramente menos sucesso do que terão em 2012 ou 2014 e assim por diante... Em primeiro lugar, quem disser o contrário, além de estar remando contra a maré majoritária (quase unânime) da mídia corre o risco de sofrer retaliações dos governos federal, estadual e municipal. Um detalhe importante. O mesmo comportamento humano impediu Galileu Galilei de seguir adiante em sua pesquisa científica, as certezas majoritárias da sua época; o mesmo tipo de coisa impede o avanço da pesquisa científica (particularmente na área de humanas) hoje em dia. Em segundo lugar, pois envolveu um grupo grande de soldados treinados para situações de combate de um lado e um grupo grande de favelados vivendo da única maneira que aprenderam ser possível durante décadas. Deste ponto de vista ambos os lados se sofisticaram mais e foram bem sucedidos mesmo. Tanto os traficantes aprenderam rotas novas de fuga e meios mais ágeis de evadir-se quanto as turmas de ocupação se organizaram mais rapidamente para a intervenção. Em terceiro lugar porque a pressa e a pressão de mandatos limitados (4 anos de cada vez) impede os políticos de sequer pensarem (portanto desautorizarem) qualquer solução de longo prazo. Naturalmente, seria mais racional e eficaz levar (na vida real; só na propaganda não adianta, como temos visto) escolas, como os CIEPs inventados por Leonel Brizola e Darcy Ribeiro anos atrás e adotados em outras paragens com outros nomes e idêntico sucesso. Que os jovens moradores dos morros tivessem reais oportunidades de emprego e trabalho, subvencionados pelos governos (federal, estadual e municipal) na forma de obras reais, concretas, que acontecessem de fato e não miseravelmente na propaganda. Claro que “todos sabem disso”, daí estarmos, na prática, proibidos de falar nesse assunto. Ficamos “chatos e repetitivos”. Paradoxalmente, se dermos um espaço temporal de dois a 15 anos entre os comentários não ficaremos parecendo repetitivos. O principal, propositadamente colocado em quarto lugar nesta pequena lista está o papel da mídia. Principalmente o canal oficial de propaganda do governo, qualquer governo: a Rede Globo, seguida por uma miríade de outros que lhe seguem o triunfalismo. Um povo sem memória vive repetindo a própria história Da ideologia
Em 1992 o governador Leonel de Moura Brizola teve a idéia de enfrentar o tráfico diretamente com a Polícia Militar eficiente e mal paga do Rio de Janeiro. Não demorou muito para alguns policiais perceberem que o caminho para o heroísmo é muito íngreme, estreito e ninguém – literalmente ninguém – tem este tipo de consideração muito a sério no Brasil. Aprenderam ainda que poderiam receber o equivalente a um ano de seu salário miserável num único dia simplesmente fechando os olhos a algumas coisas. En passant: enquanto os policiais arriscavam a vida mais uma vez nos morros do Rio, em Brasília está em aberto, para fins de diminuição dos gastos do Estado, a discussão em torno de "repensar o piso salarial da categoria" - será que para mais, perguntaria alguém ingenuamente... É um aprendizado delicado e permanente na cultura do capitalismo nos tristes trópicos. Louva-se muito os que são “bem-sucedidos” numa jogada esperta no Mercado de Capitais da Bolsa de Valores, todos são incentivados a jogar suas reservas nas milhares de loterias formais e informais do Brasil para conseguir um atalho à fortuna... Louva-se muito e glamuriza-se demais quem consegue burlar algumas das regras do jogo (desde que nenhum de seus adversários possa produzir provas de suas pequeninas ou grandes fraudes) e enriquece assustadoramente em curto espaço de tempo. Tenho um problema moral contra esses atalhos à fortuna; todos são exageradamente cruéis para com grupos grandes de pessoas, senão vejamos: _ Quem joga em loterias jamais é convidado a refletir sobre coisas práticas como “como você fará para passar o resto do mês se expende uma parte de seu salário mensal com jogos?”. Antes, são convidados pela propaganda a refletir em termos de coisas altamente improváveis como “o que você faria se ganhasse tantos milhões duma vez na loteria?” Menos ainda num aprofundamento: “a Loja Lotérica em que você joga realmente registra todos os jogos?” – sabemos que a maior parte delas não o faz e é precisamente daí que vem o grosso de seu lucro e a proliferação destes templos profanos à ilusão. _ Quem joga na bolsa de valores está na prática jogando com a vida cotidiana de um sem-número de pessoas reais no mundo real. A economia é um sistema fechado, portanto um grande acúmulo de riqueza em poucas mãos é o outro lado da mesma moeda: um número bem grande de pessoas que perdem bastante. _ Candidatos a cargos públicos calculam quando e como burlar a lei para garantir seu sucesso eleitoral. Usam recursos públicos, fazem propaganda antecipada, inauguram projetos inexistentes e até se sujam com petróleo de origem suspeita ou custo de extração superior ao valor de mercado. Fato é que ganhando as eleições podem fazer muito mais falcatruas – sempre mantendo a população controlada pela propaganda maciça – e assim terem justificados todos os atos ilícitos que cometeram para se eleger. No Brasil, quem não aprende isso não se elege. Também os traficantes, precisam ser práticos. Têm de calcular o valor relativo do produto que vendem diante de coisas como “custo da matéria prima”, “valores de propina para manter o produto em circulação”, “riscos de intervenções inesperadas da polícia”, etc. Sua única certeza é a isenção de impostos, o que não é pouco no país com os impostos mais elevados do mundo e crescendo. _ Tanto políticos quanto traficantes estão jogando com a vida real de milhões de seres humanos e causando infelicidade a um sem-número de famílias. Falarei de algo de difícil mensuração, taxa de suicídio per capita no Brasil contemporâneo – pois não é sequer algo medido pelos institutos de maquiagem de estatística contemporâneos – contudo a intuição geral entre médicos e o depoimento de muitos farmacêuticos (para não mencionar os rios de SPAM que recebemos) dá conta de que o consumo de antidepressivos vem em ritmo crescente. O político fecha a porta das possibilidades reais de ascensão social no mundo real na prática, informa estar fazendo o melhor e colocando o país no melhor dos mundos na propaganda, lida diretamente com os sonhos e desejos da gente comum sempre disposta a acreditar mais em coisas bonitas (como a propaganda) e menos em coisas mesquinhas (como a sua vida real) e temos como resultado um crescimento firme e constante da depressão e de número de suicídios. De um lado temos grande louvação e aplauso dos pocos que conseguem, por vias tortuosas, ganhar um bocado de dinheiro extraído de todos, somado a um desprezo olímpico pela maioria, aqueles que, apesar de toda a conspiração governamental e propagandística em contrário, conseguem ainda auferir recursos suficientes para sua subsistência e de sua família. A última reportagem digna de nota louvando o chefe de família que trabalha e consegue manter sua família unida, foi publicada no Brasil em 1972, no extinto “O Jornal” do Rio de Janeiro. Mas toda semana há notícia de um espertalhão que conseguiu dar mais um golpe esperto na bolsa de valores ou mais um político esperto que, apesar de todas as falcatruas cometidas está sempre no poder e ganhando mais, etc. Para resolver de fato a situação concreta em que vivem as famílias moradoras das áreas mais pobres do Rio de Janeiro seriam necessárias, obviamente, as tais “Políticas públicas de longo prazo”, repetidas em todas as campanhas eleitorais e jamais levadas a cabo. Ajudaria muito parar de glamurizar criminosos (políticos, jogadores da bolsa, traficantes...) e passar a ver nos chefes de família que trabalham no cotidiano sofrido os heróis que verdadeiramente são ao ter sucesso sem cair nas malhas da criminalidade e até mesmo desenvolver repugnância por tudo o que tenha cheiro de desonestidade, políticos, jogadores, traficantes...
Um povo sem memória vive repetindo a própria história Bandeiras tremulando melancólicas no alto do morro por algum tempo: uma sucessão de vitórias temporárias
Em 2008 vimos tremular no alto do morro a bandeira do BOPE. Em 2010 preferiu-se colocar a Bandeira Nacional e a Bandeira da PM. Difícil saber antecipadamente qual será a escolha para 2012 (talvez a das Olimpíadas...) ou 2014 (talvez a da FIFA...) A PM do Rio de Janeiro periodicamente intervém nos mesmos morros com cada vez maior sucesso, de acordo com o parâmetro que haja traçado para medir este sucesso. Em linhas gerais, aparentemente as primeiras intervenções foram mais bem sucedidas no que diz respeito ao número de prisões efetuadas e quantidade de material proibido confiscado dos traficantes. Com o passar do tempo, talvez percebendo o poder da mídia e a vontade do povo trabalhador ter algum sossego, somado ao tipo de ideologia e propaganda existentes no Brasil do século XXI, o sucesso foi maior nestes setores do que propriamente nos resultados concretos das chamadas operações. Penso que a PM apreendeu mais material e prendeu mais gente em 2002 que em 2004 e bem menos em 2008. Tudo é aprendizado e a polícia vai ficando mais eficaz, mas também os traficantes, daí ser possível imaginar que em 2012 tenham ainda mais sucesso do que tiveram em 2010, em 2014 ainda mais do que tiveram em 2012 e assim por diante. Outro marco significativo é o papel da mídia. As TV’s a cabo conseguiram transmitir ao vivo vários detalhes da operação em 2010, mas ainda com falhas. Por exemplo, até compreendo que um policial declare que “prendeu um traficante que tentava escapar disfarçado de morador”. Mas é quase inacreditável ver essa sandice repetida em vários canais de televisão e mesmo na imprensa escrita. Para as futuras intervenções, de 2012, 2014 e assim por diante, a tendência é a cobertura ficar ainda mais eficaz e estas falhas tenderem a ser menores ou menos escandalosas. Mas não creio que a PM se iluda com relação à eficácia dos traficantes em evadirem-se das regiões ocupadas com proporcional eficácia. Menos se evadiram em 2002, mais se evadiram em 2004... Em 2010 menos prisões foram anunciadas e menos material apreendido... Talvez para 2012 ou 2014 a PM pense em bloquear as prováveis rotas de fuga antes da intervenção direta, o que obrigará os traficantes a estudar novas estratégias também, num aprimoramento crescente e cada vez mais eficiente. De parte a parte.
Lázaro Curvêlo Chaves – 29 de novembro de 2010 . Ajude a manter esta página ativa! - Clique aqui e veja como fazer |
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