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Considerações sobre a Nova Era

"... Jesus expelia um demônio que era mudo. Tendo o demônio saído, o mudo pôs-se a falar e a multidão ficou admirada. Mas alguns deles disseram: ‘Ele expele os demônios por Belzebu, príncipe dos demônios’. E para pô-lo à prova, outros lhe pediam um sinal do céu. Penetrando nos seus pensamentos, disse-lhes Jesus: ‘Todo o reino dividido contra si mesmo será destruído e seus edifícios cairão uns sobre os outros. Se pois, Satanás está dividido contra si mesmo , como subsistirá o seu reino?...’" Lucas 11, 14-18

    Há no mundo contemporâneo um gigantesco movimento, escassamente articulado, com poucos contatos, mas com seus membros e participantes falando aproximadamente o mesmo "idioma". Tomemos, a título de exemplo, alguns de seus expoentes mais notáveis: John Lennon, Carlos Castañeda, Fritjof Capra, Roger Garaudy, Joseph Campbell, Plínio Marcos...

    O que diz esta gente toda? O que pensam aqueles que lêem e com eles concordam?

    "Haja paz no mundo em que vivemos!". Propõem o aproveitamento daquilo de melhor que a mente humana já pode atingir em termos de filosofia, política e religião; anseiam por um mundo sem fronteiras, sem ódio, sem medo, sem guerras, sem intolerância. Em seus projetos consta aproveitar o que de mais avançado existe na Bíblia cristã, no Alcorão, na Gita, no Tao-te-king etc. Tudo o que tiver valor e beleza; falar em harmonia e união; em compreensão, tolerância e perdão precisa ser considerado para a nova perspectiva. E isto é válido não apenas para os aspectos religiosos em si como também para aqueles científicos, filosóficos, políticos e tudo o que possa trazer avanços à humana espécie nesta fase de transição.

    Como cristão (claro que não-ortodoxo), pergunto: é concebível haver paz fora da perspectiva cristológica ou, como dizem os detratores da Nova Era, "paz sem Cristo"? Todo o cristão é, por definição, um homem novo e percebe a plenitude da Paz existente em Cristo. Como poderia um cristão conceber a paz sem percebê-la em sua perspectiva cristológica? Palavras do Mestre: "Um reino não subsiste dividido contra si mesmo!" Quem prega e pratica a paz, só pode estar plantado muito próximo - senão mesmo dentro - da agonística cristã, quer o assuma formalmente ou não, pois Cristo, filho unigênito de Deus é, entre outras coisas e por definição teológica PAZ em essência.

    Não fosse o aviso dos pastores sectários principalmente e dos padres ultra-ortodoxos em segundo lugar, a maioria sequer perceberia haver este movimento no mundo. Quando vemos uma quase unanimidade dos conservadores contra a chamada "Nova Era", ficamos no mínimo curiosos e buscamos maiores informações a respeito. De fato, rabinos, padres, pastores, pais-de-santo e toda e qualquer espécie de liderança religiosa ortodoxa expressiva, ao perceber o surgimento no horizonte dos esboços de algo novo no horizonte, algo realmente incrível acontece: uma união colocando muçulmanos, judeus, cristãos, budistas, xintoístas e representantes de outras correntes ortodoxas da religiosidade no mundo numa espécie de "Santa Aliança" contra o novo. Há alguns que, pouco informados a respeito, chegam a ponto de dizer sandices como: "nem sei do que se trata, mas não aprovo!" O irracionalismo humano não tem limites quando quer se expressar. Pena.

    Um destes panfleto difamatórios, não sei bem se católico ou evangélico, tão similares são as posturas de ambos ante a Nova Era trazia coisas tão hilariantes que só não pude chegar sequer a um esboço de sorriso pela seriedade com que utilizavam palavras contra os humanistas que vemos a possibilidade de chegarmos todos a um mundo melhor, a uma vida melhor e até mesmo, quem sabe, a um acordo religioso, pan-ecumênico mesmo.

    O panfleto fazia uma confusão com símbolos e nomenclaturas que, para quem entende um pouquinho de esoterismo, soa absolutamente ridículo - particularmente pelo exagerado número de agressões ao vernáculo no texto em pauta... Exemplos: O Tao, símbolo chinês de mais de cinco mil anos, representaria uma "aliança entre o homem e o demônio" (e o texto apelida o demônio e suas hostes de "Forças Cósmicas" seja lá o que for que isso possa significar àquela mundividência tacanha).

    Todos sabem que o Tao representa o equilíbrio, a busca do "caminho do meio" do reto-agir, a aliança - aí sim! - entre Deus e o homem, entre o homem e a natureza e mesmo entre o homem e a mulher. Note-se que, no símbolo em discussão, há um ponto preto no "peixe" branco e um ponto branco no "peixe" preto, como a recordar que há um pouco do divino no humano e vice-versa, há um pouco da mulher no homem e vice-versa, há um pouco da Natureza no homem e vice-versa...

    A cruz ansata, que os egípcios há mais de seis milênios chamavam de Ankh é apresentada no referido panfleto como "pregadora do desprezo ao pudor e à virgindade". Só que o Ankh representa, como todos sabemos, a continuidade da vida, a existência de algo após a morte, coisas rigorosamente sem qualquer eivor de conotação sexual!

    O mais escabroso mesmo foi ver o símbolo da paz criado pelos hippies norte-americanos na década de 60 - o "faça amor, não faça a guerra" - apresentado como "cruz de Nero", a que se seguia uma "explicação" de que "trata-se da representação da paz sem cristo, observem-se os braços da cruz como que caídos..." Mas somente pessoas com severos problemas psiquiátricos poderiam imaginar possível que o inimigo de Cristo pregasse a paz fosse como fosse (um reino dividido não subsiste...) e, o que é pior: sob a chancela de ninguém menos que o Imperador Nero, morto cerca de vinte séculos antes que aquele símbolo fosse criado!

    Em prol da vida, sejamos nós capazes de perdoar estas tristes demonstrações de intolerância; os defensores deste mito novo, desta formação religiosa nova pregam pura e simplesmente paz e amor entre todos os homens...

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