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Tempos que se transformam – aos quais não me acostumo

“The only person I can trust is the ugly guy in the mirror” 

“A única pessoa em quem posso confiar é no cara feioso que me olha do outro lado do espelho” – acrescentaria eu: quase sempre... 

De um filme “Classe C” estadunidense.

 

“Adeus a ti, a mais bela e mais medonha, 

Adeus oh pureza impura! Oh pura impureza! 

Por tua causa fecharei todas as portas do amor 

E nas minhas pálpebras ficará suspensa a suspeita 

Que fará de toda a Beleza o Espectro do Mal, 

E nunca mais será bela!” 

Muito Barulho para Nada, Ato IV, Cena 1

 

“O que, principalmente, caracteriza o envelhecimento é uma falta de capacidade de adaptação/aceitação aos novos valores e idéias dos jovens.” 

Isaac Asimov, “O Cérebro Humano”

 

 

 

            Estou ficando velho, disso não há dúvida. Disso fala minha barba, que fica branca sempre a deixo crescer por alguns dias (jamais terei cabelos brancos, a única vantagem em ser careca...). Comecei a pensar nisso ao lembrar-me, principalmente, do que diz Asimov sobre O Cérebro.

            Não consigo me adaptar aos novos tempos. A falta de respeito dos mais jovens para com seus professores só não é mais estranha do que o fato de certos professores (ou professoras) não se darem ao respeito. A violência gratuita praticada por jovens contra jovens por vestirem-se ou recusarem-se a vestir-se assim ou assado, por freqüentarem ambientes diferentes dos que se espera que freqüentasse mas, acima de tudo a violência gratuita quando nascida sabe-se lá por que motivo banal – “A violência é o último refúgio da ignorância, da falta de argumentos, da intolerância”, diz o mesmo Asimov na obra supra.

            Não consigo me adaptar aos novos tempos. Antes de desistir completa e totalmente de buscar companhia feminina fiz minhas tentativas, mas fui criado de acordo com um código de valores pertencente a outro tempo, outro povo, outro universo...

         Valorizava-se a Honra, a Fidelidade, a Sinceridade – valores que ainda trago em meu peito mas sem eco no mundo real. Uma moça que fazia psicologia no anexo III da UFF – nós de Sociologia estudávamos no anexo II do Campus de Gragoatá, assim a conheci numa palestra comum proferida pelo então reitor da Universidade de Havana (em plena ditadura militar, diga-se de passagem) que era psicólogo. Começamos algo parecido com um “relacionamento”, mas as Universidades, em geral, além de responder a perguntas que ninguém faz – tente ousar pesquisar algo sério em ciências humanas: serás taxado de “confundir teoria com prática”, pois a faculdade é o lugar da teoria. Se argumenta que sem teoria coerente estará fadado a uma prática cega, terá de ouvir que “esse é um discurso da prática política”, a Ciência Política almeja teorizar somente, sem “rebaixar” sua teoria à prática. Por isso não há teses de mestrado ou doutorado em ciências humanas (ao contrário das biomédicas e das chamadas “exatas”, cuja “exatidão” implicamos em questionar) voltadas a estudar e propor soluções para problemas concretos – enfim, a Universidade, além de responder a perguntas que ninguém faz e recusar-se a responder às perguntas concretas que as pessoas fazem, prega fanaticamente a descrença, a falta de fé, o individualismo, o culto ao “Ter” em contraposição ao “Ser”, etc. Por isso as Universidades estão em crise. Por isso se quer fazer uma reforma educacional mas, como sói acontecer, sempre que o governo fala em “reforma” podemos compreender “retrocesso”, infelizmente... Não consigo imaginar como poderia estar pior, mas a imaginação governamental não parece ter limites à desgraça que impinge ao povo. Isso há dez anos, começando com Collor de Mello, agudizando-se com FHC e culminando com o mais subserviente, para surpresa de todos: Lula.

            As Universidades – e aqui me refiro especificamente às de Ciências Humanas em geral – respondem a perguntas que ninguém faz. Estuda-se o passado da Ciência Política, a trajetória de um partido ou movimento ocorrido em período histórico há muito passado como um fim em si mesmo. Nas biomédicas, por exemplo, quando se estuda a trajetória de um vírus, bacilo ou bactéria é para compreender a melhor maneira de exterminá-lo na prática. Sem a teoria, não há prática consentânea... Não há Teoria Política sobre a Sociedade do Futuro, isso não é sequer admitido! Vive-se o cotidiano mesquinho, medíocre e mediocrizante. Vive-se o varejo de um presente bem mercadológico e fazem-se teorias políticas sobre messianismo no passado (como se o messianismo não fosse constituinte básico do ser humano, portanto vivo e presente!), sobre partidos políticos que já não existem mais e, se se pensa em teorizar acerca dos atuais e de como eles poderiam contribuir para um Brasil melhor, ou seja, fazer na Ciência Política o que se faz corriqueiramente na medicina, buscam-se mil desculpas para o desestímulo a esse tipo de pesquisa por um único motivo: nenhum dentre os nossos chamados sábios doutores está preocupado com o Futuro ou como aprimorá-lo a partir de uma Teoria Política bem planejada... Eu contribuo como posso e sempre sou considerado um trânsfuga da sociologia, seja na minha página, seja nas palestras que profiro. Embora haja grande interesse – os trânsfugas, os proscritos, os desviantes sempre chamam a atenção, até pelo excêntrico que representam em meio à mediocridade – creio que só as futuras gerações serão capazes de compreender minha mensagem. O presente mais teme do que compreende. O senhor deste mundo ainda é Mammom acima de tudo, e o Medo em segundo lugar...

            A antropologia estuda excentricidades humanas, desta sociedade, cristã, ocidental  pró-Estado e pró-industrialização, ou sociedades diferentes desta, mas só suas exceções. A antropologia é a mais reacionária das ciências humanas, que em nada contribui para o aprimoramento do Futuro. Contribui bastante para o conhecimento do passado, mas essa não seria atividade para arqueólogos ou historiadores – que o fazem e assim o devem fazer? A antropologia não estuda o ser humano vivo, normal, trabalhando, amando, conhecendo. Estuda tão somente as discrepâncias e excentricidades. Enquanto o engenheiro busca elaborar um projeto, uma planta para, a partir dela, decidir-se quanto à melhor forma de erguer uma dada edificação, o sociólogo estuda excentricidades e penduricalhos de um prédio em frangalhos, recusando-se sequer a esboçar a planta da Sociedade do Futuro, sob as mais incongruentes e inconseqüentes alegações. O exemplo mais chocante que me fez perceber isso veio de um professor de antropologia social, nome imponente que não significa nada de útil. Perguntei-lhe o que achava de o general Figueiredo nomear um outro general – hoje membro da ABL –, Rubem Ludwig, para Ministro da Educação. Respondeu-me palavra por palavra: “eu não acho nada! Tinha um amigo meu que achava muito e hoje ninguém consegue achar ele!” Assim como na Idade Média filósofos e cientistas da área de astronomia, física, medicina e outras que tais tinham medo de lidar com o experimento prático porque contrariava os interesses dos maiores poderes da época, a Igreja e sua “Santa” Inquisição, hoje os cientistas da área de humanas têm medo de estudar a prática política principalmente por medo de contrariar os interesses da maior potência bélica e econômica do mundo...

            Letras? Cursos de teoria literária em geral dissecam a genialidade de algum escritor ou poeta do passado, tecendo críticas (o crítico é aquele que vê o gozo do outro e, impotente, tenta compreender melhor o gozo do outro, sem buscar a sua experiência pessoal). Alguém conhece um acadêmico de letras que se tenha notabilizado pela criatividade, inventividade ou genialidade que vê em Autor do passado? Enquanto médicos, engenheiros, astrônomos e físicos buscam superar o conhecimento de seu tempo, os cientistas da área de humanas chafurdam na reles felação do passado...

            E a moça de que falava linhas acima? Sempre que lhe dizia “até amanhã” ou “até sábado, se Deus quiser!”, ela, atéia, via de regra, respondia: nem sabemos se estaremos vivos amanhã ou sábado! A gente se encontra quando se encontrar, ninguém é de ninguém. Jamais tive senso de “posse” em relação a seres humanos, graças a Deus, mas, lá se vão cerca de 25 anos, não ter certeza quanto ao que sentiria no dia seguinte foi fator determinante de uma ruptura definitiva. Para meu espanto, ela protestou, afetou prometer mudar, disse que não era assim antes do curso mas o dano, irreparável, já estava feito. Ali comecei a sentir-me “velho”. Tinha eu meus 20 anos de idade...

            Ali estava começando essa prática esquisita, à qual me recuso a acostumar-me, de “ficar”, de fugir a qualquer tipo de comprometimento humano, se não somente no discurso, como minha amiga carioca fazia, na prática concreta, como sempre acontece. Prática voltada a transformar o ser humano em coisa, ao contrário de nossos sábios aborígenes que tentam humanizar a Natureza, irmanando-se à Terra, às aves, às plantas. Sabedoria que a ecologia tenta em vão, mas com mui justa beleza fazer ressurgir.

            Há uma grande vantagem em se optar definitiva e voluntariamente pelo celibato mais completo, particularmente para um postulante a estudos místicos, metafísicos e ocultistas (quem ler, entenda). Apesar disso, sou contra o celibato forçado, não voluntário que ocorre no clero católico apostólico romano ao contrário do católico apostólico ortodoxo – o padre Ortodoxo pode casar-se, constituir família se assim o desejar... –, responsável por doenças gravíssimas e aparentemente incuráveis como abusos e homossexualismo. 

 

Violência, Violência, Violência...

 

 

            Não consigo me adaptar aos novos tempos. Prega-se a Paz e mete-se a faca na barriga de um amigo de folguedos (falar em motivo banal ou fútil seria pior ainda, seria justificar esse tipo de prática estúpida diante de alguma “lógica” qualquer, o que seria uma absoluta contradição em termos!).

            Não consigo me adaptar aos novos tempos. Mandam-se aviões, tanques, óculos de visão noturna e bombas de penetração profunda a uma região que até hoje sofre terremotos em conseqüência disso somente porque ali se pratica um tipo de encaminhamento político e econômico diferente. Creches, Mesquitas e Hospitais Muçulmanos são bombardeados indiscriminadamente matando anciãos, crianças, senhoras... Gente pacífica e defensora da Paz que, desesperada, responde com o desespero da violência: se o Terrorismo de Estado esmaga palestinos, afegães, iranianos, iraquianos e outros povos de mesma Fé, a única resposta que encontram é o terrorismo desarticulado ou mal articulado, até porque não capitaneado por nenhum Estado Nacional ou Superpotência Mundial. Os rádios, os jornais e a TV, em geral, choram copiosamente a morte de “civis inocentes” nos EUA, Reino Unido das Grandes Barganhas e Espanha da Telefonica, sem acento. Há quem chore os centenas de mortos nos atentados na Espanha – eu mesmo aqui me incluo! – e há poucos que se lembram de chorar pelos Milhões e Milhões de mortos nos atentados da coalização terrorista muito mais sofisticada, articulada e organizada composta por Israel, EUA, Inglaterra, Espanha e outras nações. Eu choro pelas criancinhas, pelos anciãos, pelas senhoras, por toda a gente ingênua e inocente, que morreu sem sequer saber o que estava acontecendo no Afeganistão, na Palestina (Estado Nacional criado pela ONU em 1948 e que Israel nem EUA jamais respeitaram ou reconheceram como tal...), no Irã, no Iraque, por todos os cidadãos daquelas Nações que, de uma forma ou de outra foram e têm sido vítimas do Terrorismo de Estado.

Algo que jamais compreenderei é o “estupro” ou o “abuso”. Como é que um ser humano consegue manter uma ereção diante de uma pessoa que manifesta clara e nitidamente ser contrária a esse tipo de prática ou tratamento? Trata-se de doença mental, de uma perversão anti-natural de ímpetos que, encaminhados de outra maneira seriam absolutamente naturais. 

 

 

PT – Partido dos Traidores

 

 

Não consigo me adaptar aos novos tempos. Tempos em que o líder político tem de mentir a toda a Nação e toda a Nação, para salvar um mínimo de cidadania possível, tem de mentir ao líder da Nação. Getúlio Vargas cometeu suicídio cinco anos de eu nascer, com isso atrasando o Golpe Militar por dez anos. Aquilo era patriotismo, aquilo era preocupar-se e dar o tratamento correto aos pobres, trabalhadores e desempregados (à sua época as taxas de desemprego estavam próximas ao traço, ao zero, por sinal!). Não foi um anjo, perseguiu comunistas, manteve Prestes preso por cerca de dez anos, mandou a esposa de um dos mais importantes líderes brasileiros para a morte num campo de concentração nazista, mas pelo menos não se curvava a interesses estrangeiros, não alienava a soberania nacional.

Votei em Lula para presidente (MEA CULPA, novamente...), mas não para que se subordinasse à política monetária do FMI ou que tivesse de pedir a uma pessoa que responde pelo acrônimo de um pesadelo, “KRUGER”, clemência e o direito – soberanamente concedido a ele pelo povo brasileiro – de governar sua própria Nação.

Não votei no Lula para ele gastar 3/4 do que o FMI “autoriza” com a aquisição de um avião presidencial ficando seres humanos à míngua de Pão, Moradia, Educação, Segurança – numa nação supostamente em paz, como o Brasil, morre mais gente por gêneros variados de violência ((latrocínio, seqüestros, “vendettas”, disputa por mercados de drogas, (violência policial até!) do que no Iraque em Guerra há mais de um ano! E pouco ou nada se investe em Segurança, no “Social”, na Educação, etc. E tudo para um aeroplano que, ainda por cima, nem mesmo está sendo construído por brasileiros, mais do que competentes para tanto, exportadores de aeronaves que somos!

Um dia a Esquerda chegará ao poder. Isso é historicamente inevitável. A loucura não pode durar para sempre, por mais que seu poder cresça! Pensei que o momento da esquerda tinha chegado. Mas gerenciar, entre súplicas, gastos fúteis e corrupção, a massa falida do neoliberalismo dentro das regras do mercado pode ter qualquer nome, menos de esquerda!     

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 20/03/2004

 

 

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