Opção pela omissão
Quando se solicita o
cumprimento de um trabalho ou comissão, o comissionado tem as alternativas de
levar a atividade a cabo ou, em não sendo viável, apresentar uma explicação
plausível por não haver cumprido com o seu dever.
Interessante como, no Brasil,
opta-se geralmente e por princípio pela segunda alternativa. Somente quando toda
a possibilidade de postergação ou adiamento, seja sob que justificativa for, se
demonstra impraticável é que a comissão vai, efetivamente, a cabo.
Exemplificando
Quando precisava de recursos para a realização de um evento e o órgão público
competente confirmava a liberação dos recursos para a data prevista, durante os
4 anos em que estive à frente da Casa Euclidiana ouvia mais explicações sobre os
motivos que levavam à não liberação conforme o previsto do que recebia a própria
liberação de recursos mesmo.
Frequentemente, ainda quando na FAB,
solicitava um transporte de material eletrônico, por exemplo, de Brasília a
Belém, me via face a intermináveis explicações ao invés de ouvir a notícia dando
conta da efetiva entrega do material.
No magistério não encontrei quadro
diferente. Ministrando aulas de filosofia, precisava entregar as notas
bimestrais à Secretaria da Escola até uma determinada data. Sabedor disso,
solicitava a elaboração de trabalhos com a devida antecedência. Lembro-me que,
no primeiro bimestre de meu primeiro ano no magistério tinha até o dia 28 de
março para a entrega das notas do primeiro bimestre. Jamais considerei
apropriado o sistema de “provas” em data específica, que não aferem bem o
aprendizado. Sempre preferi a elaboração calma e profunda de um determinado tema
em casa. O desenvolvimento deveria ser entregue por escrito, no caso em pauta,
até o dia 20 de março. Alguns sempre se atrasavam. A estes concedia um prazo
suplementar negociando com a turma o que seria justo fazer com aqueles que se
atrasassem na entrega. Em geral a supressão de meio ponto ou algo assim era
estímulo suficiente para a entrega em dia.
Sempre havia aqueles que não
entregavam de forma alguma – estes em geral entregavam provas em branco de
outras matérias por sinal – e preferiam explicar longamente os motivos que o
levavam ao impedimento. Já para o segundo bimestre passei a solicitar o trabalho
até o dia x, aceitando entregas com atraso até o x + 5 dias e, em último caso,
uma justificativa por escrito em até x + 10 dias. Tendo em vista
tratar-se de turmas iniciais do ensino médio (1º ano, quando os jovens estão aí
com seus 14 a 16 anos) não aceitava explicações ou justificativas orais: era
fundamental ver como se expressavam por escrito!
Certa feita um jovem muito talentoso
– se alguém da turma dele ler estas linhas se lembrará da ocasião – me entregou
uma justificativa plausível no último dia do prazo. Era uma extraordinária peça
literária em duas páginas muito bem escritas. Nela o jovem expressava claramente
haver compreendido e estar dominando a pleno todos os conceitos filosóficos que
desenvolvíamos no período. Contudo ele não entregou “o trabalho”, preferiu
entregar “a justificativa”. Atribuí àquele caso uma nota elevada, pois realmente
a merecia. Só não levou a nota máxima pois o acordo inicial previa que esta
somente seria atribuída àqueles que entregassem o trabalho solicitado na data
certa. Mas foi a provavelmente a primeira oportunidade em que parei para
refletir em torno deste tema: por que será que uma parcela significativa das
pessoas com quem convivemos prefere sempre optar por não fazer o que foi
proposto e sim encontrar uma justificativa plausível para não fazê-lo?
Onde mais?
As CPI’s e o Conselho de Ética da Câmara estão plenas de exemplos deste
fenômeno. A letra fria da lei determina que não se utilizem recursos públicos
para fins ilícitos, que toda a contabilidade seja rigorosamente elaborada e as
prestações de contas ocorram nas datas antecipadamente previstas.
Diante das denúncias de malversação
de recursos públicos e utilização de um “caixa 2” nas campanhas políticas,
ouvimos estarrecidos as explicações: “não foi caixa 2, eram simplesmente
recursos não contabilizados”. O suborno a parlamentares passou a ser tratado
como “utilização de sobras de campanha” ou “recursos utilizados para pagar
dívidas de campanhas”. Explicação plausível, naturalmente, mas não seria melhor
se eles tivessem utilizado os recursos públicos corretamente? Não seria melhor
se o Executivo não subornasse o Legislativo? Não seria melhor que deputados
colocassem suas consciências acima de valores pecuniários?
Quando dizem: “fazemos o que sempre
foi feito neste país” incorrem em dois erros graves. O primeiro e mais gritante
é o que diz respeito a este grupo que está no poder haver sido eleito justamente
para romper “com o que sempre foi feito neste país” em termos de formas
anti-éticas no encaminhamento da coisa pública; o segundo é que, por mais que se
suspeite da roubalheira ser antiga no Brasil, nunca antes um governo, pela voz
de seus epígonos e defensores, ousou assumir publicamente o cometimento de um
crime – “utilização de recursos não contabilizados ou caixa 2” – para escapar do
apenamento pesado por um crime maior – desvio de recursos públicos para a compra
de consciências de Parlamentares venais.
E os documentos?
Este tema me ocorreu nesta semana por que um grande amigo prontificou-se a me
enviar uns documentos para leitura “daqui a dois dias”, e já lá se vão dois
meses. Para mim, a relevância destes documentos serem efetivamente entregues ou
não é a mesma, seja em dois dias, dois meses, dois anos ou duas décadas. Ou
nunca. Mas diante da afirmação taxativa: “seguem via postal daqui a dois dias” e
não chegando, comuniquei o fato. Meu amigo demonstra-se genuinamente contrariado
com algumas circunstâncias fortuitas que impediram o envio no momento azado e
apresenta longas e sofisticadas justificativas, asseverando novamente: “seguem
daqui a dois dias”. Então tá... Passa-se uma nova semana e nada de papéis
chegando. Comunico novamente. Nova – e criativa! – malha de explicações
plausíveis e nova promessa: “seguem daqui a dois dias”. Episódio que ainda se
repetiu 3 vezes até eu informar: “se o meu interesse por estes papéis que você
diz ter era pequeno, imagine o tamanho do meu interesse pelas suas
explicações...”
Mas o que leva uma pessoa a prometer
– 3, 4, 5 vezes – uma remessa que não acontece? Por que motivos prefere explicar
o não cumprimento do acordado ao seu efetivo cumprimento?
Tentando entender
O mundo é um deserto de idéias, de imaginação, de
humanidade... Onde haja uma pequenina centelha do Divino a brilhar ocorre
imediatamente uma grande admiração e uma forte vontade de combater esta
centelha.
Há alguns dados curiosos sobre a
Cultura do Brasileiro. Uma delas é o que se chama de jeitinho, quebra-galho,
favor. Outro fator cultural é este que nos impulsiona a preferir encontrar
justificativas plausíveis a efetivamente levar a cabo o que foi acordado.
Tentativa de chamar a atenção?
Vontade de se fazer ou parecer importante? Necessidade de auto-afirmação?
Seja como for, é um traço do qual
nos despediríamos sem a menor tristeza...
Lázaro Curvêlo Chaves – 23/12/2005
Ajude a manter esta página ativa! - Clique aqui e
veja como fazer
Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
©
Copyleft LCC
Publicações Eletrônicas - Todo o conteúdo desta página pode ser
distribuído exclusivamente para fins não comerciais desde que mantida a citação
do Autor e da fonte.
Contato |