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A
opinião pública ainda existe – O segundo turno nos devolve a dignidade – Arnaldo
Jabor
O Globo –
3/10/2006
São duas-horas da manhã de segunda-feira. Só
agora vou escrever este artigo, pois tinha de esperar o resultado da votação.
Estou vagamente irritado, pois escreverei até as cinco da matina, mas estou
contente, porque a resposta do país foi sensata. Se o Lula fosse eleito no
primeiro turno, como ele apregoava, aos berros, no palanque em São Bernardo, num
show onde ele parecia um Mick Jagger metalúrgico, a vitória seria péssima até
para ele.
Se Lula fosse eleito em primeiro turno,
estariam consagrados a mentira, o cinismo, a ocultação de provas, a arrogância
truculenta dos métodos de campanha. Se Lula fosse eleito no primeiro turno, o
país não entenderia seu destino, depois daquela campanha turbulenta, com a
gralha do agreste Heloísa berrando slogans dos anos 30, com o Cristovam falando
coisas sérias mas inaudíveis. Se Lula fosse eleito de cara, ele começaria um
governo do eusozinho, sem um programa que o segundo turno vai obrigá-lo a fazer;
se eleito fosse, o PT e aliados se sentiriam num clima “revolucionário”, os
cutistas e sindicalistas estariam legitimados em suas sabotagens.
O sabor de uma vitória em primeiro turno, com
tudo ocultado, seria a vitória da violência contra a razão, se consagraria a
idéia de que não precisava nem programa de governo, de que bastam as juras de
amor ao “povo”, as belezas do analfabetismo e a grandeza da “sagrada ignorância
operária” para justificar um presidente.
Tudo que intelectuais e artistas ignorantes
disseram, desde a “condenação da competência”, desde a atribuição dos mensalões
a “uma invenção da mídia”, desde os brados boçais de dizer que “tudo sempre foi
assim e que tem mais é que meter a mão na merda”, que democracia é uma “patranha
burguesa para enganar o povo”, todas as besteiras impunes que ouvimos nos
últimos meses estariam legitimadas, coonestadas pelo voto bovino e consagrador.
O segundo turno será uma psicanálise para o
Lula, uma revisão crítica de seu deslumbramento milagreiro, como um Tiradentes
ou um Cristo traído. O segundo turno será bom para o Lula voltar à humildade
mínima.
Nos últimos meses, houve uma batalha feroz
entre marketing e mídia, entre propaganda e imprensa. A democracia estava
desmoralizada pelos métodos pós-modernos de escolha.
O PT estava vencendo uma revolução ridícula,
mas era uma revolução: bolchevistas tardios estavam realizando o sonho secreto
dos comunas — desmoralizar a democracia.
Tinham imposto à opinião pública a depressão da
impotência. Os mensalões, a careca do Valério, os dólares na cueca, o sólido
cinismo dos acusados, a inutilidade das provas, tudo estava amortecido na
memória, enquanto o “comandante” proclamava que as “elites de direita” seriam
vencidas. E as “elites” (quem são?) estariam acoelhadas diante da eufórica
vitória populista. Mas nem precisaram despertar uma direita (quem, se Barbalho e
Newtão são aliados?). Os próprios petistas trapalhões mais uma vez deram uma
rasteira em Lula e em si mesmos. A invenção sublime do dossiê contra o Serra foi
um gol contra espantoso.
Aliás, essa fascinante propensão do PT para
destruir as próprias vitórias está a pedir um estudo sério. Freud tem um texto,
se não me engano, chamado “O fracasso do êxito”, em que o vitorioso acaba se
consumindo de culpa diante do sucesso. Nunca uma hipotética direita foi tão
auxiliada por uma ridícula esquerda.
O segundo turno será muito bom para a
democracia, pois os candidatos serão obrigados a discutir programas, para além
das baixarias inevitáveis.
Agora, o Lula e seus assessores terão de ser
democráticos. Os programas serão discutidos, e a oposição terá tempo e ânimo
para explicar ao “povo” a cartilha da subversão pela corrupção, explicar como se
invocam idéias sérias de grandes homens do passado para, hoje, no presente,
justificar uma chanchada oportunista de pelegos e bolchevistas aposentados.
Será claro como eles pretendiam desconstruir a
democracia reconquistada em 1985 em nome de um cadáver desmembrado apelidado de
“socialismo”, que, por ser impossível hoje, se degradaria num baixo populismo de
direita sob o apelido “de esquerda”.
Agora, o povo vai prestar atenção na disputa,
como um Fla-Flu decisivo. Acaba a profusão de times e de caras, acaba a poluição
visual dos ratos e toupeiras ganindo no horário eleitoral, e teremos um
confronto.
Agora, estamos diante do mistério de uma
disputa, mas não estamos mais perante o inevitável fracasso dos que venceriam.
Antes, eu tinha a certeza do desastre, pela lógica mais óbvia da ciência
política, pela banal previsibilidade dos voluntaristas e sindicalistas
truculentos.
Agora, a racionalidade vai se impor de novo.
Idéias vão surgir, provas e autocríticas terão de aparecer. Estamos diante de um
momento histórico interessantíssimo. Sei que os chineses dizem: “Pobres daqueles
que vivem um momento histórico interessante”...
Talvez, pois os “grandes momentos” são em geral
massacrantes e sanguinários. Mas não nosso momento. Veremos um país na mesa
posta. Veremos um país dividido, sim, não pela irracionalidade, mas entre duas
tendências políticas. Um segundo turno nos fez reviver, nos sentimos mais
respeitados.
Nós, que andávamos cabisbaixos, não somos mais
palhaços manipulados por uma ditadura mole, disfarçada de democrática.
Descobrimos, maravilhados, que a opinião pública ainda existe.
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