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O Que é Sociologia

Breve Introdução às Ciências Sociais

 

Introdução: A Vertigem da Modernidade – Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar

“Sacrifícios humanos sangram,

Gritos de horror e desespero cortam a noite ao meio...”

Fausto, de Goethe

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“... A burguesia despiu todas as atividades até aqui veneráveis e estimadas com piedosa reverência das sua aparência sagrada. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela. (...) A  burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, por conseguinte as relações de produção, por conseguinte ainda, todas as relações sociais. [Assim] todas as relações fixas e enferrujadas, com o seu cortejo de vetustas representações e concepções são dissolvidas, todas as recém-formadas ossificam-se antes de poderem envelhecer. Tudo o que era sagrado é profanado, tudo que é sólido desmancha no ar e os homens são por fim obrigados a encarar com os olhos bem abertos a sua posição na vida e as suas relações recíprocas...”

Manifesto Comunista, de Marx e Engels

 

A Humanidade, após conjurar o demônio da Moderidade Capitalista passa a servir a ele...

 

        O filósofo estadunidense Marshall Berman, em seu já clássico “Tudo o que é Sólido Desmancha no Ar” analisa as transformações da modernidade principalmente a partir de 3 Obras principais e algumas outras em ilações. As principais são o “Fausto”, de Goethe, “O Manifesto Comunista”, de Marx e Engels e “As Flores do Mal”, de Charles Baudelaire – outros Autores são ali também examinados dentro do contexto da modernidade a partir de algumas de suas Obras; autores como Dostoiévski, Gogol, Chernyshevski, Mandelstam, Bieli, Robert Moses, etc.

            Na abertura, registra o Autor:

“Logo depois de terminado este livro, meu filho bem-amado, Marc, de cinco anos, foi tirado de mim. A ele eu dedico Tudo que é sólido desmancha no ar”. Sua vida e sua morte trazem muitas das ideias e temas do livro para bem perto: no mundo moderno, aqueles que são mais felizes na tranquilidade doméstica, como ele era, talvez sejam os mais vulneráveis aos demônios que assediam esse mundo; a rotina diária dos parques e bicicletas, das compras, do comer e limpar-se, dos abraços e beijos costumeiros, talvez não seja apenas infinitamente bela e festiva, mas também infinitamente frágil e precária; manter essa vida exige talvez esforços desesperados e heróicos, e às vezes perdemos. Ivan Karamazov diz que, acima de tudo o mais, a morte de uma criança lhe dá ganas de devolver ao Universo seu bilhete de entrada. Mas ele não o faz. Ele continua a lutar e a amar; ele continua a continuar.”

Brevemente, Fausto, à meia-idade, pensa em cometer suicídio quando ouve o sino de uma igreja próxima e sente o cheiro de sabonete das pessoas que acabaram de tomar banho e para ela se dirigem como uma recordação infantil de um tempo feliz; arroja à lareira o frasco de veneno que estava prestes a tomar, pensando: “como esses sons e odores me chamam de volta à vida...” Alquimista, conjura Mefistófeles e assina com ele um pacto, Mefisto o servirá na Terra e ele, ao morrer passará a servir a Mefisto no Hades. Inicialmente pede juventude e vigor, o que lhe é concedido e Fausto deseja Gretchen, bela e jovem moça que acaba seduzida pelas artimanhas de um Fausto rejuvenescido em aliança com o poderoso Mefisto; Gretchen engravida e Fausto se recorda das condições de seu contrato com Mefisto: “No momento em que disseres para, ao instante que passa, ali tomarei sua alma”. Fausto não pode se acomodar a um casamento ou a qualquer coisa, tem de permanecer mergulhado na vertigem da modernidade. Abandona Gretchen, que perde o filho e morre de desgosto – infelizmente, aponta Berman, a maioria dos leitores abandona o texto nessa altura também – numa segunda transformação, Fausto é levado ao alto de uma montanha e, com sentidos ampliados, vê o carvão, o ferro e o ouro no interior da pedra; vê florestas e nelas imagina estradas cortadas por ferrovias construídas com os metais retirados das montanhas, vê camponeses expulsos de suas terras e os vislumbra a todos trabalhando para ele, etc. O Epreendedor Fáustico do Tempo Burguês tampouco pode parar; como se uma maldição pairasse sobre ele, precisa de cada vez mais: mais terras, mais gente a trabalhar para ele, mais riquezas, maior poder sobre coisas e pessoas e, acima de tudo, jamais parar. Muito citada ainda a metáfora do tubarão: diferentemente de outros peixes, o tubarão não tem guelras móveis, as suas são presas ao corpo, assim, para filtrar o Oxigênio da água do mar, o tubarão, bicho que nunca dorme, precisa estar sempre em movimento. Nunca para. “Se o tubarão parar de nadar ele morre” e assim, shark, tubarão em Inglês, é o nome mais aplicado ao empreendedor capitalista voraz. Frequentemente, por seus pares, em termos elogiosos, inclusive...

 

 

Lutas Históricas Contra a Injustiça

            Com os Cercamentos de Terras e o desenvolvimento da mecanização nas fábricas, inicialmente na Grã Bretanha entre os séculos XVIII e XIX, espalhando-se para a Europa, berço e centro irradiador cultural e tecnológico da nossa civilização, a produção artesanal de bens de consumo como alimentos e móveis domésticos foi-se extinguindo. Nas grandes fábricas e fazendas cada vez mais mecanizadas a produção foi-se ampliando e mesmo se tornando menos onerosa; a ponto de os pequenos camponeses e artesãos se virem na contingência de abandonar a propriedade privada de seus restritos meios de produção, passando a trabalhar para aquelas grandes fazendas e unidades fabris num processo consideravelmente lento e doloroso como ocorre sempre que se muda a forma como os seres humanos encaminham suas experiências existenciais.

 

 

            A mão de obra assim conquistada pelos donos das grandes fábricas e fazendas ainda era insuficiente para dar conta de toda a produtividade por eles almejada, tornando necessário o afluxo de mais trabalhadores e, naquele contexto, buscou-se incorporar também o trabalho de mulheres e crianças. Desde os primórdios da nossa civilização, aos homens cabia trabalhar e prover o necessário à família, as mulheres estavam restritas a atividades domésticas como a criação de seus filhos, manutenção da limpeza e asseio da casa e vestimentas além da elaboração dos alimentos. Quanto às crianças, eram consideradas em processo de formação, portanto ficavam fora dos processos produtivos assim como de vários outros processos sociais; na Idade Média, crianças de famílias abastadas recebiam o ensino através da tutela de professores itinerantes contratados por seus pais, enquanto as crianças de classes sociais subalternas eram orientadas nas artes e ofícios que seus pais dominavam, deles herdando seus conhecimentos específicos.

            Cabem, sempre, exceções, lembrando que as exceções são muito úteis para confirmar a regra, como o caso das mulheres na cidade-estado de Esparta, que gozavam de maior liberdade que as mulheres de outras comunidades da Antiguidade Clássica, o mesmo acontecendo, mais como exceção do que como regra, em outros momentos da história europeia.

            Uma onda ideológica voltada à “libertação da mulher” começou a tomar conta da Europa nos primórdios da industrialização, pois sua força de trabalho era necessária nas fábricas. Aos poucos, as mulheres foram incorporadas aos processos fabris e, em seus primórdios, mesmo crianças a partir de 6 anos de idade já passavam a participar da produção, conforme análise detalhada feita, entre outros, por Friedrich Engels, por exemplo, na principal obra estatística para compreender aquele momento histórico “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”. Trabalhava-se da madrugada até alta noite, durante todos os dias da semana, e os salários eram calculados em termos do suficiente para que o trabalhador se mantivesse alimentado e pudesse se reproduzir gerando mais mãos para as fábricas em crescimento constante. Se alguém se machucasse gravemente, era simplesmente afastado da produção e se tornava inteiramente dependente da caridade para sobreviver pelo resto de seus dias.

            De forma um tanto ambígua, a Igreja tentou restabelecer o “dia do Senhor” no qual tradicionalmente os trabalhadores exerciam atividades laborais para a Igreja, mas somente conseguiu, no início, momentos de prece, dentro das fábricas, aos domingos.

            A Situçação da Classe Trabalhadora na Europa em geral, e na Inglaterra em particualar, era tão desesperadoramente inimaginável que Friedrich Engels elaborou, e fez publicar em 1845, um dos mais detalhados trabalhos estatísticos do período – relatando casos escabrosos e bastante comuns de abusos os mais diversos nas exploração do trabalho humano, contra mulheres e crianças principalmente – e sua publicação trouxa alguma reflexão às classes dominantes da época.

Vagas abertas: crianças a partir de 2 anos de idade podem se candidatar (clique sobre a imagem para vê-la ampliada)

            Alguns donos de fábricas e nobres, sensibilizados para com a situação dos trabalhadores, propuseram formas distintas de encaminhamento da produção e se tornaram fundadores de uma nova ciência, que hoje chamamos de Sociologia. Dentre estes, destaco Claude-Henri de Rouvroy, Conde de Saint-Simon (1760 — 1825), filósofo e economista que primeiro cunhou a expressão “socialismo”, de maneira idealista buscando formas de se conquistar justiça social; além deste, François Marie Charles Fourier (1772 – 1837), filósofo e crítico do capitalismo, propôs a criação de cooperativas, também visando conquistar justiça social; da teoria cooperativista de Fourier chegou-se aos sindicatos de trabalhadores, sempre criticados e combatidos – frequentemente com o uso da violência – por parte daqueles que, concentrando as riquezas, não partilhavam daqueles ideais de justiça.

            Com o passar dos anos, a busca de justiça social, proposta pelos socialistas – muitos dos quais também membros do clero – conseguiu, a alto preço em lutas, greves e sacrifícios, pequenas conquistas como o descanso semanal remunerado, a limitação nas horas de trabalho diárias e uma liberdade para a mulher que incluía ainda a sua participação em processos decisórios.

             Ao final da Idade Média, era patente a crise do Modo de Produção Feudal. Classicamente, se diz que o Modo de Produção entrou em contradição com os interesses das Forças Produtivas. Naquele caso, embora a densidade demográfica crescesse assustadoramente, de nada adiantava produzir mais porque o excedente não iria para aqueles deles necessitados; iria engordar ainda mais os cofres da Nobreza. Qualquer semelhança entre os primórdios do capitalismo e o quadro atual NÃO É MERA COINCIDÊNCIA, É RETORCESSO MESMO! Sério agora: é clara a crise (palavra mais difundida em todos os meios de comunicação contemporâneos) do Modo de Produção Capitalista em sua Etapa de Globalização ou entrega do poder Político às Empresas Privadas.

            Em outras palavras, dentre as conseqüências dos primórdios do que se chama de “Revolução” Industrial, destacamos: 1) diminuição da oferta de trabalhadores na indústria doméstica rural, no momento em que o mercado ganhava impulso, tornando-se indispensável adotar cada vez mais novas formas de produção capaz de satisfazê-lo; 2) a proletarização abriu espaço para o investimento de capital na agricultura, do que resultaram a especialização da produção, o avanço técnico e o crescimento da produtividade de produtos agrícolas mais voltados a atender ao consumismo crescente. Quando possível, pois a Revolução Industrial se, por um lado, trouxe avanços técnicos na produção de bens cada vez mais sofisticados, por outro tornou cada vez mais difícil a vida cotidiana de pessoas que viviam do próprio trabalho, seja no campo, seja nas cidades. Difícil consumir os bens onerosos gerados pela indústria se a situação existencial (salarial mesmo, refletindo-se na enorme dificuldade para a aquisição de alimentos, providência de moradia, tratamento médico, educação...) vem se tornando cada vez mais difícil.

Ainda assim, população cresceu e o mercado consumidor também; a sobra de mão-de-obra para os centros industriais fez com que o preço da carne humana, digo, da força de trabalho humana, na forma de salários, fosse cada vez mais aviltada. Um problema que vem se agravando espantosamente ao longo do último século e meio, com ênfase para a decadência brutal da Era do Capitalismo, que deixou de ser miseravelmente um Capitalismo Mercantil e adota cada vez mais a versão “Capitalismo de Cassino” entre o final do Século XX e este início de XXI.

            As pessoas começaram a se rebelar, fugir dos feudos (a que eram “presas” por laços de honra) e a roubar, eventualmente com os parcos recursos que conseguia amealhar, comprar bens baratos a grandes distâncias vendendo-os mais caros onde eram desejados – ressaltem-se as famosas especiarias –, ou seja, na Europa. A prática do lucro era condenada pela Igreja Católica, a maior potência do mundo à época. Mas para os fugitivos dos feudos, fundadores de burgos, que serão mais tarde chamados de “burgueses”, não restava outra alternativa exceto a atividade comercial voltada ao lucro, considerada tão desonesta em praticamente todas as culturas e civilizações do mundo a partir de todos os pontos de vista éticos que não raro o mercador Asteca ou Inuit (“Esquimó”) ou se despojava voluntariamente de seus bens ou enfrentava severa punição após devida execração pública!

            O capitalismo, enfim, começou como um câncer que surgiu no final da sociedade feudal. Foi crescendo, crescendo e hoje a Civilização Ocidental vive a metástase daquele mal que somente surgiu na nossa e em nenhuma outra Civilização Humana. Saltemos em pensamento para Civilizações chamadas de “tribais” ou historicamente mais distantes, como a dos Apache, Yanomami, Bosquímanos ou Hindus, passando pelos Babilônios, Vikings, Chineses, Aztecas... Em Cultura ou Civilização Humana alguma o acúmulo de bens causa tanta desgraça quanto na Civilização Globalizada atual – trazendo enormes vantagens para os poucos que chegam ao topo da pirâmide social e grande sofrimento para a esmagadora e sempre esmagada maioria. A burguesia, enfim, com seus interesses comerciais e especulativos, se sobrepõe ao ser do humano numa infecção que contamina todo o planeta. Aquelas sociedades que buscam a cura para este mal são “reconvertidas” ao satanismo pagão de holocaustos ao deus-mercado através de diversas formas de pressão e, no limite, uso da força física, como ocorreu no Chile de Salvador Allende, no Brasil de Jango (ambos estes casos e todas as Ditaduras Militares alinhadas com o Império, sabemos hoje dadas as provas documentais encontradas, foram Golpes de Estado articulados e apoiados pela metrópole estadunidense como se revelou recentemente em grandes detalhes e com abundantes provas documentais e testemunhais no documentário premiado “O Dia que Durou 21 Anos”, de Camilo Galli Tavares lançado no Brasil pela PEQUI Filmes em março de 2013); mais recentemente, no Afeganistão e no Iraque – na América Latina contra uma proposta socialista, no Oriente Médio contra uma islâmica: ambos intoleráveis hereges dentro do fundamentalismo de mercado, a Ideologia Hegemônica da Sociedade Globalizada Contemporânea que se insiste em auto-proclamar-se “não ideológica” ou “sem ideologia”, santa hipocrisia!

 

A Transição do Modo de Produção Feudal para o Modo de Produção Capitalista

            Tornou-se fundamental reorganizar a sociedade de maneira a que os novos donos da riqueza fossem também os donos do poder. Surge uma nova religião para reforçar uma ética mais consentânea com os tempos cambiantes: surge o protestantismo. Os padres diziam nas missas – embora sua prática fosse bem outra... – ser “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”, reiterando serem pecaminosos aqueles que praticavam a cobrança de juros, lucros... “Usurários”, enfim, eram todos enfileirados no caminho que conduz ao fogo do inferno. Por outro lado começam a surgir ex-padres, agora pastores, particularmente a maioria de orientação calvinista, que passam a informar: “se a mão de Deus estiver sobre a sua cabeça, você prosperará imensamente nesta terra; nisso você verá um sinal de estar sendo por ele abençoado”... Se você tivesse enriquecido à beça na base do comércio lucrativo, ou do empréstimo a juros, preferiria o discurso do padre (vale repetir, em contradição com a sua prática) ou o do pastor? Assim cresceram as seitas protestantes pelo mundo afora. Poderíamos ressaltar o quanto Calvino promoveu INVERSÕES RADICAIS no cristianismo tornando a pobreza um pecado e o lucro uma virtude, seja lá como conquistado, mas fugiríamos ao escopo destas notas. Desenvolveremos este tema em outra oportunidade...

            Politicamente a burguesia endinheirada sentia-se lesada tendo de pagar tributos à antiga nobreza, agora praticamente falida. No início compravam títulos de nobres aos de antiga linhagem – que os discriminavam! – a seguir passaram a pensar em alternativas mais radicais (ser radical é ir à raiz e a burguesia foi radical no período de suas glórias revolucionárias!) como convocar os trabalhadores a uma aliança contra a nobreza e implantar um novo tipo de regime político, muito mais interessante e lucrativo para a burguesia, a “república”. Os burgueses convocaram seus empregados, desempregados e desesperados, superiores em número, para uma aliança contra a nobreza ou “antigo regime” e, após muitos percalços, saem-se vitoriosos. Agora, “duque”, “king” e “marquesa” passam a ser nomes de animais domésticos da burguesia! O passo seguinte foi agradecer e condecorar trabalhadores, desempregados e desesperados e mandá-los de volta a seus trabalhos, a seus desempregos e a seu desespero...

            Estes, à medida que se conscientizavam de que foram usados para uma troca de poder que em absolutamente nada lhes beneficiou começam a organizar-se em sindicatos e outras agremiações classistas, por vezes secretas, maçônicas mesmo, por vezes aberta e sempre e imediatamente proclamadas ilegais ou heréticas e perseguidas por todo o aparato estatal e religioso que a burguesia podia colocar em marcha!

            O surgimento dos Trabalhadores Organizados como uma categoria multitudinária humana provoca o surgimento de reflexão entre os intelectuais europeus e surge, inicialmente, o que Augusto Comte chamava de “Física Social” ou “Sociologia”. Desde seus primórdios a Sociologia tenta em vão conseguir a precisão Científica existente nas Ciências Naturais. A Sociologia, portanto, nasce conservadora, em busca de compreender e controlar a massa dos trabalhadores. Aos poucos surgem pensadores Radicais (que vão à Raiz mesmo dos fatos sociais) que passam a questionar a ordem e a injustiça vigente. Destaque para os Anarquistas e para o Socialismo Científico de Karl Marx e Friedrich Engels.

            Enquanto isso, os Eventos conhecidos como “Mecanismos de Conquista Neocolonial”, ou seja,  a partilha dos continentes americano, africano e asiático entre as grandes potências, começava e seus reflexões se fazem perceber até os dias de hoje. Depois de duas guerras mundiais ocorrem formas de Emancipação Política Limitada (o caso brasileiro, embora FORA deste contexto, também apresenta uma Emancipação Política muito limitada e uma Dependência Econômica notória!), a Nova Globalização e o alinhamento ideológico das colônias às novas metrópoles.

            De novo, a produção fabril cresce abundantemente na Europa durante os primórdios da industrialização e chega a um esgotamento tanto da matéria prima empregada na produção quanto na capacidade de consumo dos bens produzidos – os trabalhadores geram muitos bens, não conquistam os meios para, com o fruto salarial de sua labuta, sequer consumir o que produziam.

            A noção de “alienação” surge precisamente aí. ALIEN em Latim significa “estranho”; imagine um trabalhador que vá até uma fábrica no momento em que os trabalhos começam: despe-se de suas roupas civis, veste os paramentos da empresa fabril em que trabalha e opera máquinas que não são suas na confecção de bens que jamais poderá adquirir. O operário se tornou estranho ao que produz e, por ilação, a si mesmo enquanto classe social, até porque, desde sempre, a Classe Dominante remunera magnificamente bem aqueles que se dedicam a obnubilar a Consciêcia de Classe dos Trabalhadores: aqui entram desde os pregadores religiosos que buscam conformar o trabalhador à sua situação “por ser da vontade de Deus” até mesmo ideólogos burgueses que fazem gigantescos saltos malabarísticos em busca de demonstrar o contrário do que se percebe, ou seja  “que as chances são iguais para todos” e que “todos” podem chegar a se tornar exploradores, deixando dês ser explorados – apresentam “exemplos”, que são claramente exceção à regra e recordo mais uma vez que as exceções, ferramenta privilegiada de toda a propaganda a favor da manutenção das coisas como estão, são uma forma espetacular de comprovar a regra: as chances NÃO são iguais para todos. Evidentemente. Incidentalmente, certa feita um jornalista perguntou a Karl Marx qual, dentre os Romanos Antigos havia expressado sua frase ou máxima favorita. Sem pestanejar, Marx recitou Públio Terêncio Afer (185 - 159 ANE): "Homo sum; humani nil a me alienum putu", ou seja: "Sou humano e nada do que é humano me será estranho" - a expressão "putu" ao final da frase em latim é meramente indicativa de tempo futuro, sendo a versão "puto", que se eoncontra à farta até em trabalhos escritos, um besta e injustificável aportuguesamento de um latim mau citado...

Voltando: os Empreendedores Fáusticos da Europa encontram uma solução para seus problemas: “levar a civilização à África e à Ásia”. Os EUA, já se industrializando também, protestam “A América [todo o continente] para os Americanos [dos EUA]” – o então presidente estadunidense James Monroe, 1822 assim descrevia a Doutrina que levaria o seu nome. Começa o que entrou para a história como corrida neocolonialista, com a partilha da África e da Ásia entre as potências europeias. “Levar a civilização” era o eufemismo para a busca de novas fontes de matéria prima (tomadas manu militari aos povos que moravam onde estas ficavam) e força de trabalho barata para as fábricas que passaram a se instalar nos países incorporados às potências europeias – o Continente Americano começa ali a ficar e segue até os dias atuais sob o controle da grande potência do Norte.

            Últimos a se industrializar, mas também sequiosos pelas novas fontes de matéria prima e mão de obra barata, os Impérios do Centro (Alemanha e Império Austro-Húngaro) entram em confronto bélico contra as potências europeias que se anteciparam na corrida neocolonialista. Um dos maiores conflitos da história humana, a I Guerra Mundial, foi uma guerra para tomar Nações Soberanas transformadas em Colônias de seus próprios donos...

 
 
 

Socialismo e Comunismo

            A luta por melhores condições de trabalho na Europa e na América do Norte norteou a formação de correntes ideológicas novas e distintas. Nos sindicatos, trabalhadores almejavam ampliar sua participação nos volumosos lucros das empresas em que trabalhavam, não estavam satisfeitos vivendo miseravelmente na condição que Leonardo Da Vinci chamava de “enchedores de latrinas, condutos de comida de quem, após sua passagem pelo mundo nada mais fica senão latrina cheias”.

            A criação de bancos e a formação de trustes, cartéis e holdings evidenciou o sofisticado grau de organização dos proprietários dos grandes meios de produção. A única resposta possível constava em organizar também a classe operária. Era preciso ir além do que gente idealista e bem intencionada como Saint-Simon e Fourier pensou ou projetou.

            Desde os primórdios da civilização ocidental, um grande número de pensadores ao longo de todas as eras se debruçou sobre a questão da melhor sociedade, da sociedade ideal. Utopia, título de uma Obra publicada em 1516 por Thomas More, significa “lugar que não existe”. Do grego u = não e topos = lugar. Ressalte-se que não significa “lugar impossível de existir”. Enquanto construção ou projeto humano, a Utopia foi sonhada, imaginada e projetada por Autores distintos como Platão (“A República” – circa 380 Antes da Nossa Era), Tomaso Campanella (“A Cidade do Sol” circa 1630 da Nossa Era), o já citado Thomas More (“Utopia” – 1516) ou mesmo mais recentemente o behaviorista Burrhus Frederic (B. F.) Skinner (“Walden II – Uma Sociedade do Futuro“ – 1948).

 

Nascimento da Sociologia Crítica

          Com todas as dificuldades implícitas na própria concepção de se fazer uma ciência do social, Karl Marx e Friedrich Engels se debruçaram longamente sobre esta questão. Adotando o ponto de vista dos trabalhadores criaram um ferramental intelectual inédito e até hoje imbatido para a compreensão de [e ATUAÇÃO SOBRE] o Real. Com base no socialismo chamado “utópico” dos franceses, da filosofia clássica alemã (em particular o materialismo de Feuerbach e a dialética de Hegel) e a economia clássica inglesa construiu o que por vezes chama de Materialismo Histórico, por vezes Materialismo Dialético que, insista-se segue o mais avançado ferramental para análise e atuação sobre a realidade social injusta em que vivemos.

            Marx em particular conclui que chegou o momento de o filósofo não mais limitar-se a interpretar o mundo de maneiras diversas – frequentemente mesmo sem aferir a realidade de suas teses diante do mundo concreto – ao contrário, propõe que o filósofo saia de sua torre de marfim e vá às ruas, que vá enfim ao povo e que acompanhe o povo na realização prática da filosofia.

            Testando sempre suas teses frente a outros filósofos, economistas e antropólogos de seu tempo, Marx argumentava com precisão em defesa dos trabalhadores. Vejamos alguns exemplos:

. Os empresários poderiam dizer algo como “mas sou eu quem entra com o dinheiro e corre todos os riscos”, a estes Marx dedica um capítulo inteiro de sua Obra mais comentada e menos lida, O Capital, o “processo de acumulação primitiva do capital”. Em síntese, o acúmulo de capital é um misto de expropriações de povos em outros tempos e terras, extração do fruto de uma quantidade extra de trabalho que não é paga a quem o produz e assim por diante. Contesta Proudhon, para quem “A Propriedade é o Roubo”, não por discordar de suas conclusões, mas apontando para a forma ingênua, bem intencionada, contudo, através da qual o Anarquista Francês chegava àquelas conclusões.

. Seus adversários poderiam ainda argumentar que “os trabalhadores tenderiam a uma preguiça generalizada e a produção seria paralisada caso todos os bens fossem socializados” ao que Marx retrucava simplesmente ser este um argumento vazio: “se fosse verdade, a sociedade capitalista estaria paralisada há muito tempo pois nela, os que mais trabalham, menos bens possuem e os que mais bens possuem não trabalham”.

Na economia, dentro da criação de um novo ferramental intelectual capaz de interpretar e agir sobre a realidade que se tornou intolerável, Marx bebe nas fontes dos Iluministas, como Adam Smith que, em “A Riqueza das Nações” contesta os fisiocratas da Idade Média e os mercantilistas da Era das Grandes Navegações. Para os primeiros era a terra a fonte primária da riqueza das nações; aquela teoria foi substituída pela tese de que as trocas comerciais vantajosas seriam o principal fruto da riqueza das nações. Smith, com precisão, argumenta que a terra não produz sem que nela se trabalhe e mesmo o comércio, para se realizar, depende da atuação humana, concluindo que a principal fonte da riqueza das nações está no Trabalho Humano. Marx dá um passo adiante e constata o que hoje é consenso: o fruto da riqueza das nações é o trabalho humano; contudo, aquela riqueza é apropriada de maneira desigual. Desenvolve o importante conceito de mais-valia que cabe conferir em detalhes em “O Capital”. Apresentamos a seguir uma aproximação genérica ao conceito.

Mais-valia: a cada hora trabalhada, o operário gera 100% de valor e, a cada hora, seu patrão paga menos de 10% do valor gerado pelo trabalhador; do restante, descontemos, a cada hora, cerca de 10% em manutenção de equipamento, mais 10% em valor da matéria prima, outros 10% para administração geral e a diferença, em torno de 60% do valor gerado pelo operário a cada hora é expropriado pelo dono em lucros líquidos cada vez mais astronômicos à medida que os outros fatores tendem a ser reduzidos, como o valor dos salários ou mesmo da matéria prima. A sensação vaga de injustiça que norteia os socialistas franceses que o precederam, dirá Marx, advém do fato de o lucro do dono dos meios de produção crescer cada vez mais, enquanto a participação destes lucros por parte de quem os gera se vai tornando cada vez menor.

            A injustiça é motivo de protestos nas mais diversas espécies animais de nosso planeta. Estudiosos como Jared Diamond e Frans De Waal detectam este traço em caninos, elefantes, girafas, primatas e mesmo roedores. Há várias experiências em que se busca colocar dois animais da mesma espécie realizando tarefas similares; para cada um se dá uma recompensa diferente e o animal se agita, claramente deixando clara a sua insatisfação para com a injustiça.

           Reproduzo abaixo trecho de uma apresentação de Frans De Waal demonstrando, em macacos-prego não treinados, como o sentido de injustiça está enraizado nos primatas desde antes da especiação se diversificar. Dois macacos-prego colocados lado a lado, recebem, pela mesma tarefa (devolver uma pedrinha a uma treinadora) recompensas diferentes. O da esquerda recebe lascas de pepino (satisfatório como recompensa para o macaco-prego, mas não tão saboroso); o da direita, sob o olhar cada vez mais insatisfeito do situado à esquerda, recebe uvas (um acepipe mais saboroso que o companheiro da esquerda percebe pela cor e odor com clareza) como recompensa. Vejamos como o que acontece...

         O vídeo completo, com legendas em português, da apresentação acerca do comportamento moral entre animais apresentado pelo Primatologista Frans De Waal, está disponível gratuitamente na magnífica página do TED Talks em http://www.ted.com/talks/frans_de_waal_do_animals_have_morals

            Já no início do século XIX surgiu um “movimento dos quebradores de máquinas”, idealizado pelo britânico Ned Ludd, conhecido ainda como “movimento ludita”. Na França surgiram os sabotadores; literalmente tiravam seus sapatos (sabot em francês) e os metiam entre as engrenagens das máquinas, quebrando-as. Ingenuamente se levantavam contra as máquinas, contra os avanços tecnológicos não vislumbrando neles o potencial de avanço em tempo de lazer que se poderia ter caso se optasse por um encaminhamento Racional e Humanista, justo, em síntese, da produção. Como tradicionalmente ocorre, a classe dominante apodava apelidos infamantes naqueles que assim protestavam e a quebra de uma máquina passou a ser punível com a morte do sabotador. Com o passar dos anos ficou claro que seus inimigos não eram as máquinas, mas os donos das máquinas!

 

            Movida pela sede de justiça, nasceu na Alemanha entre 1846 e 1847 uma organização operária chamada “Liga dos Justos”. Contando com sofrível organização, faltava-lhes ideias norteadoras mais sólidas que o vago clamor contra a injustiça; Marx dirá que “os trabalhadores jamais esperaram pelos intelectuais para se organizar e expressar seu protesto” e sempre vêem o intelectual – que o Húngaro Georg Lukács chamará de “operário das letras” – com compreensível desconfiança. Marx adere ao movimento, aos poucos fica claro aos “justos” que ali estava alguém que partilhava dos mesmos ideais e metas. Marx chega à liderança organizacional e muda o nome da organização para “Partido Comunista”. Com vistas a tornar suas ideias mais acessíveis a um público maior e menos informado acerca da temática filosófica ou social, publica um panfleto em que simplifica as ideias do movimento recém-nascido e o intitula Manifesto do Partido Comunista em 1848, em parceria com Friedrich Engels.

            Abro aqui mais um parêntese para ressaltar o quão difícil é aos trabalhadores que se dedicam a atividades fundamentalmente braçais de antes do nascer até depois do por do Sol se conscientizarem de sua própria situação – a consciência de classe, tema que o filósofo húngaro Georg Lukács aprofundará em “História e Consciência de Classe”. Quando os Nazistas invadiram e conquistaram a Hungria, um oficial das SS encarregado de levar Lukács preso exigiu: “Dê-me neste instante qualquer arma que você tenha!”. O professor universitário comunista, consciente do perigosíssimo potencial da única arma que portava, leva a mão cautelosamente ao bolso e, entre lágrimas, entrega sua caneta ao brutamontes nazista...

            Desde o início, ciente do potencial igualitário do movimento operário nascente e se organizando cada vez mais, os donos dos meios de produção engenham uma violenta campanha de difamação e propagandas voltadas a confundir a opinião pública. Apesar disso, muito se consegue. Em 1871, quando a Prússia invadiu a França durante o processo de Unificação da Alemanha, os operários de Paris declararam a cidade livre e instalaram o primeiro regime de economia planificada do mundo. Foi uma experiência em grande parte frutuosa, com dificuldades compreensíveis a quem tenta um novo projeto e o ataque furioso dos que perdiam o controle; decretou-se a abolição do trabalho noturno, a igualdade salarial entre os sexos, o cargo de juiz se tornou eletivo, os sindicatos foram legalizados, estabeleceu-se a educação gratuita e várias outros genuínos avanços. Após uma guerra em que a França havia perdido territórios e muitas vidas para os prussianos, o Sr. Louis Adolphe Thiers, chanceler francês conduzido ao poder pelos poderosos de França chama os prussianos para massacrar os parisienses numa vergonha nacional de que a própria França até hoje não se recompôs.

            Nas idas e vindas das lutas dos trabalhadores muito se conquistou em termos de melhoria nas condições de trabalho, como o estabelecimento de um valor mínimo para a remuneração, a limitação nas horas de trabalho diárias, descanso semanal e férias remuneradas. No século XX alguns outros direitos foram conquistados como a aposentadoria, pensão a órfãos e viúvas, serviços de educação e saúde públicos, etc. Chega-se ao século XXI com um retrocesso vigoroso nestas áreas: o colapso da experiência soviética (de que trato adiante) traz consigo um cortejo de “liberalizações” para o Capital encurralando mais e mais o ser humano que vive e trabalha.

 

A Dialética

 

          Fico a dever um estudo mais detalhado e aprofundado do que seja a Dialética. Para este ensaio inicial, o fundamental é manter em mente seu conceito nodal: MOVIMENTO. Tudo é transformação, movimento. Heráclito de Éfeso, em seu aforismo de número 91 informa: “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio.” – as águas passam e a própria pessoa se transforma. Hoje, por exemplo, sabemos que todas as células do nosso corpo são substituídas a cada 11 meses. Há permanência e transformação. Somos nós mesmos e um outro em processo de devenir perpétuo, em permanente transformação.

         Escrevo um diário desde os meus 11 anos de idade. Tenho mais de trezantos cadernos grafados à mão com idéias, impressões, alegrias e frustrações registradas pela vida afora. É impressionante reler particularmente os mais antigos e perceber o quanto me transformei, mudei de planos e idéias.

          Tenho também um álbum de fotos. Até os 18 anos tinha um corpo atlético e vasta cabeleira loira. Aos 55 estou calvo e fora de forma, muitos quilos acima do peso.

          Estes exemplos não são fortuitos. Estou seguro de que todas as pessoas têm vivências similares. O mais importante é não perder de vista que somos sempre nós mesmos e um outro em transformação. Há o que permanece e o que se transforma ao longo de nossas vidas.

          Não há lugar para conceitos absolutos e definitivos. Assim como nossa forma física, nossas idéias a respeito das coisas se transformam à medida que nosso conhecimento se amplia.

          A Igreja Católica Romana, durante a Idade Média, não admitia qualquer conhecimento que estivesse fora do que preconizavam os doutores da Lei. Se algo não estava escrito, por exemplo, na Obra de Aristóteles, simplesmente não era considerado verdade e quem argüisse a respeito corria o risco de sofrer os suplícios da Santa Inquisição.

           A Terra era considerada achatada e não havia clareza quanto a de que forma ela permanecia imóvel, mas este era o dogma. O “fim do mundo” estava além do Oceano ou “Mar Tenebroso”, como se referiam ao Atlântico naqueles tempos. Acreditava-se que as águas ferviam pela altura da linha do Equador e que havia sereias belíssimas que tinham particular predileção gastronômica pelos testículos dos marinheiros. Eram tempos de medo que exigiram dos Pioneiros Navegantes Espanhóis e Portugueses ainda mais destemor que o exigido dos Cosmonautas em suas viagens espaciais.

          Não se conhecia o Novo Mundo (América) ou mesmo a Austrália. Os mapas medievais faziam referências superficiais a locais existentes a partir de relatos de viajantes.

          O que outrora custou a vida de centenas de cientistas, alquimistas, rosacruzes e filósofos que discordavam racionalmente dos pontos de vista dogmáticos da Igreja é hoje aceito com naturalidade e comprovado por fotos de satélite.

          O mundo não mudou - não substancialmente a esse ponto -, ou seja, não era achatado e ficou redondo (ou, mais precisamente em formato de uma pêra) de um momento para o outro. O avanço da ciência e a modificação da percepção humana, hoje com fotos tiradas de satélites e mesmo da Lua, é que se transformou!

         Devemos sempre ser cautelosos com aqueles que propagam “verdades absolutas”, úteis em determinado tempo histórico e um povo específico, contudo frequentemente distanciadas da realidade absoluta dos fatos. Voltarei a este tema, deixando como indicação para leitura e aprofundamento acerca do que seja a Dialética principalmente a Obra de Herbert Marcuse Razão e Revolução

Razão e Revolução - Herbert Marcuse

 

          Para trilhar com propriedade os caminhos do Saber em geral e da Dialética em particular, cabe a recomendação de William Buttler Yeats (1865–1939): "Estendi meus sonhos sob seus pés;
Caminhe suavemente: você caminha sobre meus sonhos." (Originalmente: "I have spread my dreams under your feet; Tread softly because you tread on my dreams."). A
Dialética já era considerada “difícil de entender” quando se estudava o tema com entusiasmo. Presentemente, na Era da Mediocridade, nestes tempos em que o pensar livre é violentamente combatido e praticamente obrigado a ser substituído por frases curtas e lugares-comuns eivados de imprecisões e preconceitos somos obrigados a insistir com o Entusiasta das Ciências Humanas que supere a repugnância pela época atual e mergulhe com o mesmo entusiasmo, a mesma alegria e prazer na busca do Saber com que se mergulhava antes de nos enfiarem nesta Era Medíocre...
 

       Além da dificuldade acima, durante quase oito décadas, particularmente com o surgimento de uma Economia Planificada numa Nação multitudinária importante como a Rússia, que passou a se chamar de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS ou União Soviética) de 1924 até 1991, autoproclamava-se “comunista” e praticamente ditava a-crítica e a-cientificamente "como se deve compreender o trabalho marxista", dialética inclusiva. Um dogmatismo, percebemos hoje, injustificável frente à primeira norma de qualquer Ciência digna deste nome: QUESTIONE A AUTORIDADE. SEMPRE. Conforme começamos a esboçar em outra parte: Aprendendo a Pensar Criticamente – Notas sobre Metodologia Científica

 

Karl Marx

           Originário da Renânia, um pedaço da enorme colcha de retalhos que mais tarde constituiria a Nação Alemã, filho de burgueses e educado no mais rigoroso protestantismo, incrivelmente perspicaz, cedo percebeu que enquanto houver neste mundo gente que se alimenta e gente que passa fome, enquanto houver opressores e oprimidos a espécie humana inteira estará refém da insânia. Chegou à conclusão de que somente a partir do ponto de vista de quem não tem absolutamente nada a perder se pode almejar a vislumbrar a verdade. Adotando o ponto de vista dos trabalhadores criou um ferramental intelectual inédito e até hoje imbatido para a compreensão do Real. Com base no socialismo chamado “utópico” dos franceses, da filosofia clássica alemã (em particular o materialismo de Feuerbach e a dialética de Hegel) e a economia clássica inglesa construiu o MATERIALISMO DIALÉTICO, filosofia voltada não apenas à ascensão da classe trabalhadora ao poder, mas à libertação de toda a espécie humana de todas as formas de opressão e exploração. Mais sobre Karl Marx aprofundarei em: http://culturabrasil.org/marx.htm

 

 

Augusto Comte e a “Física Social”

         Evidentemente era necessário que a burguesia também produzisse uma teoria em defesa de seus pontos de vista e poucos foram tão brilhantes – e influenciaram tanto a nossa combalida Nação – quanto o positivismo.
          Era necessário olvidar a essência e trabalhar com o que é perceptível aos sentidos físicos mais grosseiros e imediatos. Era necessário esquecer a “filosofia negativa” e, voltando ao reino das aparências criar uma filosofia capaz de compreender o social com tanta precisão quanto a matemática ou a física – que hoje sabemos também serem imprecisas...
          Eivado de motivos nobres, impregnado de boas intenções, aquelas mesmas que pavimentam todas as estradas do inferno, Comte pregava a necessidade de “libertar o conhecimento social de toda a ingerência filosófica”, como se isso fosse possível... Mas... Se o fosse? Seria desejável? Se a filosofia responde a muitas questões que dizem respeito ao ser do homem no mundo, qualquer ciência que se volte a compreender o homem “afastando a ingerência filosófica” tende mais a falsear a compreensão do ser humano do que a compreendê-lo. Falando claramente: para que uma ciência humana mereça ser chamada de “científica”, tem de ser filosófica! O oposto disso é simplesmente fechar os olhos ao que constitui o SER do homem...
          Mas Comte e seus discípulos criaram um sistema “científico” voltado a conciliar o inconciliável: a Luta de Classes. Olvidando totalmente a existência concreta de interesses antagônicos na Sociedade Burguesa, a Luta de Classes (que é um problema concreto existente no mundo real e precisa ser solucionado, não é "pregação" de um filósofo como a propaganda faz pensar...), busca integrar a todos em torno do ideal ou meta burguesa – “integralismo”, por sinal, nome que um movimento conservador adotou no Brasil em tempos não tão remotos, tem esta raiz... –; crescendo por etapas ou degraus seria possível chegar-se a uma precisão “científica”, não filosófica, acerca da sociedade e do ser do homem. Os positivistas contemporâneos, que já percebem as falhas do positivismo clássico, mantêm suas mesmas raízes, suas mesmas motivações – “conciliar Capital e Trabalho”, “que os ricos sejam mais ricos para que, através deles os pobres sejam menos pobres”, e outros absurdos similares só críveis porque repetidos em altos brados e
ad nauseam...

Augusto Comte Fundador da Física Social - Lelita Oliveira Benoit

 

Durkheim e “As Regras...”

        Discípulo genial de Comte, Émile Durkheim sistematizou algumas de suas idéias e foi o primeiro a usar efetivamente a expressão “Sociologia” para referir-se ao estudo em pauta, que seu mestre ainda chamava de “Física Social”.
         O que é fato social? Tudo o que é coletivo, exterior ao indivíduo e coercitivo, em linhas gerais.
        Como compreender o fato social? Primeiro passo: “Afastar sistematicamente as pré-noções”. Como se fosse possível ao ser humano estar acima de todos os sentimentos, emoções, e “juízos de valor”... Como se a própria colocação da questão – seja ela qual for – não traga nela embutidos os juízos ou as pré-noções... Posição, há consenso hoje,
indefensável, Durkheim tem contudo enorme valor para a Sociologia contemporânea.

           

As Regras do Método Sociológico - Émile Durkheim

 

 

 

 

Weber – a jaula de ferro do capitalismo...


         Max Weber, um dos maiores gênios do século XX, filho de pastor evangélico, lutou na Primeira Guerra Mundial como capitão do exército prussiano chegou à conclusão de que é necessário não tomar partido, separar o “lugar da teoria” do “lugar da prática” em ciência política. Segundo o capitão evangélico, ex-combatente na Primeira Guerra Mundial, a inteligência deve ser livre de vínculos (em alemão, Freischwebend Intelligenz). Sua posição de professor conservador, liberal, militar e evangélico talvez explique os motivos do “acidente de trabalho” que o conduziu a uma profundíssima crise depressiva que durou quatro longos anos em que até a alimentação era levada à sua boca pela esposa. Quatro anos em que, consta, não pronunciou uma única palavra, não escreveu uma única linha. De repente, o gênio adormecido desperta para o espanto de todos e compõe uma das mais geniais obras sociológicas do século XX – “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Há muito mais a se dizer sobre o tema; inevitavelmente a ele voltaremos.

 

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - Max Weber

 

Georg Lukács

 

          Húngaro, o mais notável discípulo de Weber, percebe-lhe as limitações e conduz os avanços sociológicos que esta corrente positivista havia logrado atingir ao marxismo, a que se alinha com muito maior conforto. O Clássico “História e Consciência de Classe” é um leitura obrigatória a todo aquele que queira compreender o ser humano vivendo em sociedade. O peso de sua erudição não tira o interesse do trabalho, ao contrário. Foi um dos últimos brilhos a ir mais longe que Marx dentro do pensamento marxista. É de seu mais brilhante discípulo, Lucien Goldman, o Clássico Ensaio "Ciências Humanas e Filosofia".

Georg Lukács - História e Consciência de Classe

 

Escola de Frankfurt

          É fundamental citar o lugar dos teóricos de Frankfurt, particularmente Herbert Marcuse, que resgata a Dialética Materialista com grande ênfase à Dialética. Sua grande obra ainda é “Razão e Revolução”. É nela que se defende que o grande critério a submeter o Real é a Razão Humanista. O Capital é irracional: desiguala os semelhantes e equaliza os dessemelhantes. Você vale o quanto é capaz de produzir e é avaliado não pela grandeza de sua alma e de seus valores humanos, mas do quanto você tem em bens materiais. Isso é a Destruição da Razão (em alemão, “Zerstorung der Vernunft”).

 

Teologia da Libertação

 

           Totalmente DESTRUÍDA pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (a famosa "Santa" Inquisição, sob o liderança do alemão Joseph Ratzinger) obedecendo ordens expressas do polaco Karol Wojtila, segundo os grandes filósofos europeus contemporâneos, esta aoi a maior contribuição da América Latina em geral e do Brasil em particular ao Saber Universal. O revolucionário em busca de um mundo melhor, como Che Guevara ou o padre Camilo Torres é equiparado aos primeiros cristãos. O comunismo nascente comparado ao cristianismo também em processo de parturição no Império Romano. Assim como o Império Romano negou o cristianismo por quase 400 anos, proclamando-lhe extinto, acabado, morto e era aterrorizado pelo fantasma de seu cadáver insepulto o Capital proclama reiteradas e repetidas vezes a “morte do comunismo”. O que Weber chamava de “jaula de ferro” os Teólogos da Libertação chamavam de “pessimismo defensivo” da burguesia. Em síntese, eles dizem: “não tem jeito”. “Sempre foi e sempre será assim” – preenchendo o futuro como se houvesse uma linha invisível a ligar todos os tempos, como se a Vontade humana não houvesse sido capaz de proezas memoráveis como a transformação do Império Romano num Império Cristão; a travessia do “Mar Tenebroso” que todos “sabiam” intransponível e a chegada ao Novo Mundo; os exemplos se multiplicam.

A Teologia da Libertação Morreu? - Reino de Deus e Espiritualidade Hoje - Claudio de Oliveira Ribeiro

A Teologia da Libertação Morreu? - Reino de Deus e Espiritualidade Hoje - Claudio de Oliveira Ribeiro

(O Autor, embora siga caminho distinto do que escolhi, apresenta bem a mesma questão aqui colocada)




E agora, o que fazer?

 

            Como o saudoso Capitão Luís Carlos Prestes, morrerei convicto do Futuro Comunista da Humanidade! Não é possível saber como vamos suplantar esta situação amarga em que “o homem é o lobo do homem”. Não é crível que a espécie humana tenha de ser condenada ao inferno capitalista pelo resto da eternidade. O escravismo antigo não foi eterno (durou alguns milhares de anos), tampouco o foi o feudalismo (que durou cerca de um milênio). O capitalismo existe no mundo aí há uns trezentos anos. No início como um pequenino carcinoma que hoje tomou conta do planeta todo, por metástase. Mas o poder regenerativo do Humano surpreende mesmo aos médicos e, mesmo sem saber como será a Sociedade do Futuro, caso o próprio nome “comunismo” tenha se tornado pouco palatável do ponto de vista do marketing político, seguramente capitalista não será! O Futuro da Humanidade, hoje na balança, por um fio, será Humanista, com uma Economia Planificada pelo menos nos setores cruciais à existência humana (principalmente Saúde e Educação, JAMAIS podem ser privados, sob pena de degradação, conforme assistimos neste e em vários outros países do mundo) ou NÃO SERÁ!

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 20 de Janeiro de 2004

Revisado a 11/11/2014

 

Leitura Mencionada no Texto/Indicada

 

Tudo o Que é Sólido Desmancha no Ar - Marshall Berman

Fausto - Primeira Parte da Tragédia - Johann Wolfgang Von Goethe

Fausto - Segunda Parte da Tragédia - Johann Wolfgang Von Goethe

A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra - Friedrich Engels

       

Manifesto Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels

Ter ou Ser? - Eric Fromm

Freud, Uma Vida para o Nosso Tempo - Peter Gay

A Primeira Guerra Mundial - História Completa - Lawrence Sondhaus 

A Transição do Feudalismo para o Capitalismo - Maurice Dobb

O Capital - Karl Marx

A Ideologia Alemã - Karl Marx

As Regras do Método Sociológico - Émile Durkheim

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - Max Weber

Ensaios de Sociologia - Max Weber

Georg Lukács - História e Consciência de Classe

 

Razão e Revolução - Herbert Marcuse

O Tratado de Versalhes, a Paz depois da I Guerra Mundial - Harold Nicolson 

A Sociedade Contra o Estado - Pierre Clastres 

Ensaio Sobre a Dádiva - Marcel Mauss 

Tempos Modernos - Charles Chaplin 

 

 
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