ÍNDICE
Notas
À Segunda Edição
Nota
Preliminar
A
TERRA
I.Preliminares.
A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho para Monte Santo.
Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.
II.
Golpe de vista do alto de Monte Santo. Do alto da Favela.
III.
O clima. Higrômetros singulares.
IV.
As secas. Hipóteses sobre a sua gênese. As caatingas.O juazeiro. A
tormenta. Ressurreição da flora. O umbuzeiro. A jurema. O sertão é um
paraíso. Manhãs sertanejas.
V.
Uma categoria geográfica que Hegel não citou. Como se faz um deserto. Como
se extingue o deserto. O martírio secular da terra.
O
HOMEM
I.
Complexidade do problema etnológico no Brasil. Variabilidade do meio
físico e sua reflexão na História. Ação do meio na fase inicial da
formação das raças. A formação brasileira no Norte. Os primeiros
povoadores. A gênese do mulato. Os "Serenos".
II.
Gênese dos jagunços; colaterais prováveis dos paulistas. Função histórica
do rio S. Francisco. O vaqueiro, mediador entre o bandeirante e o padre.
Fundações jesuíticas na Bahia. Um parêntesis irritante. Causas favoráveis
à formação mestiça dos sertões, distinguindo-a dos cruzamentos no litoral.
Uma raça forte.
III.
O sertanejo. Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho. Os vaqueiros. Servidão
inconsciente; vida primitiva. A vaquejada e a arribada. Tradições. A seca.
Insulamento no deserto. Religião mestiça: seus fatores históricos. Caráter
variável da religiosidade sertanejo: a Pedra Bonita e Monte Santo. As
missões atuais.
IV.
Antônio Conselheiro, documento vivo de atavismo. Um gnóstico bronco.
Grande homem pelo avesso, representante natural do meio em que nasceu.
Antecedentes de família: os Maciéis. Uma vida bem auspiciada. Primeiros
reveses; e a queda. Como se faz um monstro. Peregrinações e martírios.
Lendas. As prédicas. Preceitos de montanista. Profecias. Um heresiarca do
século 2 em plena idade moderna. Tentativa de reação legal. Hégira para o
sertão.
V.
Canudos — antecedentes — aspecto original — e crescimento vertiginoso.
Regimen da urbs. Polícia de bandidos. População multiforme. O templo.
Estrada para o céu. As rezas. Agrupamentos bizarros. Por que não pregar
contra a República ? Uma missão abortada. Maldição sobre a Jerusalém de
taipa.
A
LUTA
I.
Preliminares. Antecedentes .
II.
Causas próximas da luta. Uauá. Primeiro combate.
III.
Preparativos da reação. A guerra das caatingas.
IV.
Autonomia duvidosa.
TRAVESSIA
DO CAMBAIO
I.
Monte Santo. Triunfos antecipados.
II.
Incompreensão da campanha. Em marcha para Canudos.
III.
O Cambaio. Baluartes sine calcii linimenti. Primeiro recontro. João
Grande. Episódio trágico.
IV.
Nos Tabuleirinhos. Segundo combate. A Legio Fulminata de João
Abade. Novo milagre de Antônio Conselheiro.
V.
Retirada.
VI.
Procissão dos jiraus.
EXPEDIÇÃO
MOREIRA CÉSAR
I.
O coronel Antônio Moreira César e o meio que o celebrizou. Floriano
Peixoto. Moreira César. Primeira expedição regular. Crítica. Cresce a
população de Canudos. Como a aguardam os jagunços a nova expedição.
Trincheiras. Armas. Pólvora. Balas. Lutadores. João Abade. Procissões.
Rezas.
II.
Partida de Monte Santo. Primeiros erros. Nova estrada. Em marcha para o
Angico. Psicologia do soldado brasileiro.
III.
Pitombas. O primeiro encontro. "Esta gente está desarmada...". O pânico e
a bravura. "Em acelerado!" Dois cartões de visita a Antônio Conselheiro.
Um olhar sobre Canudos. Chegada da força. Rebate.
IV.
A ordem de batalha. O terreno; crítica. Cidadela-mundéu. Conflitos
parciais. Saques antes do triunfo. No labirinto das vielas. Situação
inquietadora. Moreira César fora de combate. Recuo. Ao bater da
Ave-Maria.
V.
Sobre o Alto do Mário. O coronel Tamarindo. Alvitre de retirada. Protesto
de Moreira César. Retirada. Vaia.
VI.
Debandada; Fuga. Salomão da Rocha. Um arsenal ao ar livre. Uma diversão
cruel.
QUARTA
EXPEDIÇÃO
I.
Desastres. Canudos - uma diátese. Empastelamento de jornais
monárquicos. A rua do Ouvidor e as caatingas. Considerações. Versões
disparatadas. Mentiras heróicas. O cabo Roque. Levantamento em massa.
Planos. Um tropear de bárbaros.
II.
Mobilização de tropas. Concentração em Queimadas. Organiza-se a expedição.
Crítica. Delongas. Não há um plano de campanha. Crítica . A comissão de
engenharia. Siqueira de Meneses. Estrada de Calumbi. A marcha para
Canudos. O 5.° Corpo de Polícia Baiana. Alteração da formatura.
Incidentes. Um guia temeroso: Pajeú. No Rosário. Passagem nas Pitombas.
Recordações cruéis. O alto da Favela. Fuzilaria. Crítica. Trincheiras dos
jagunços. Continua a fuzilaria. Acampamento na Favela. Canudos. Chuva de
balas. Confusão e desordem. Baixas. Uma divisão aprisionada.
III.
Coluna Savaget. Carlos Teles. Cocorobó. Retrospecção geológica. Diante das
trincheiras. Carga de baionetas excepcional. A travessia. Macambira. Nova
carga de baionetas. Fuzilaria. Bombardeio. Trabubu. Emissário inesperado.
Destrói-se um plano de campanha.
IV.
Vitória singular. O medo. Baixas. Começo de uma batalha crônica.
Canhoneio; réplica dos jagunços. Regímen de privações. Aventuras do cerco;
caçadas perigosas. Desânimos. Assalto ao acampamento; a "matadeira". A
atitude do comando-em-chefe. Outro olhar sobre Canudos. Desânimo.
Deserções heróicas. Um choque galvânico na expedição combalida.
V.
O assalto: preparativos. Plano do assalto. O recontro. Linha de combate.
Crítica. Confusão. Tocaias dos jagunços. Nova vitória desastrosa. Baixas.
Nos flancos de Canudos. Posição crítica. Notas de um diário. Triunfos pelo
telégrafo.
VI.
Pelas estradas; os feridos. Depredações. Incêndios. Primeiras notícias
certas. Baixas. Versões e lendas. "Viva o Bom Jesus !". Um lance épico.
VII.
Outros reforços. A brigada Girard. Heroísmo estranho. Em viagem para
Canudos.
VIII.
Novos reforços. O marechal Bitencourt. Quadro lancinante. Colaboradores
prosaicos demais. Em Canudos. O sino da igreja. Fuzilaria.
NOVA
FASE DA LUTA
I.
Queimadas. Páginas demoníacas. Uma ficção geográfica. Fora da pátria. Em
Canudos. Prisioneiros. Diante de uma criança. Outra criança. Na estrada de
Monte Santo. Palimpsestos ultrajantes. Em Monte Santo. Em Canudos. Uma
"vaia entusiástica". Trincheira Sete de Setembro. Estrada de
Calumbi.
II.
Marcha da divisão auxiliar. Medo glorioso. Caxomongó. Rebate falso. Em
busca de meia ração de glória. Aspecto do acampamento. Em busca de uma
meia ração de glória. Aspecto do acampamento. Canudos. O charlatanismo da
coragem.
III.
Embaixada ao céu. Complemento do assédio. Cenário de tragédia.
ÚLTIMOS
DIAS
I.
O estrebuchar dos vencidos. Os prisioneiros. A degola
II.
Depoimento do autor. Um grito de protesto.
III.
Titãs contra moribundos. Constringe-se o assédio. Cavando o próprio
túmulo. Trincheira de cadáveres. Em torno das cacimbas. Sobre os muradais
da igreja nova
IV.
Passeio dentro de Canudos.
V.
O assalto. O canhoneio. Réplica dos jagunços. Baixas. Tupi Caldas. A
dinamite. Continua a réplica. Baixas. No hospital de sangue. Notas de um
Diário. Antônio, o Beatinho. Morte de Conselheiro. Prisioneiros.
VI.
O fim. Canudos não se rendeu. O cadáver do Conselheiro.
VII.
Duas linhas.
Notas à 2ª Edição
Este livro, secamante atirado à
publicidade, sem amparo de qualquer natureza, para que os protestos contra as
falsidades que acaso encerrasse se exercitassem perfeitamente desafogados,
conquistou - franca e espontânea - expressa pelo seus melhores
órgãos, a grande simpatia nobilitadora da minha terra, que não solicitei e que
me desvanece. Os únicos deslizes apontados pela crítica são, pela própria
desvalia, bastante eloqüentes no delatarem a segurança das idéias e
proposições aventadas.
É o que demonstra esta resenha
rápida:
I - ". . . Mercenários
inconscientes "
(Pág. VIII). Estranhou-se a expressão.
Mas devo mantê-la: mantenho-a.
Não tive o intuito de defender os
sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de
ataque.
Ataque franco e, devo dizê-lo,
involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos
civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão
lastimáveis selvatiguezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o
negará.
E se não temesse envaidar-me em
paralelo que não mereço, gravaria na primeira página a frase nobremente
sincera de Tucídides, ao escrever a história da guerra do Peloponeso -
porque eu também embora sem a mesma visão aquilina, escrevi
"sem dar crédito às primeiras
testemunhas que encontrei, nem às minhas próprias impressões, mas narrando
apenas os acontecimentos de que fui espectador ou sobre os quais tive
informações seguras."
II - " ... desabrigadas de todo
ante e acidez corrosiva dos aguaceiros tempestuosos..." (pág. 18).
Viu-se nesta frase uma inexatidão e um
dos imaginosos traços do meu apedrejado nefelibatismo científico ( * ).
( * ) Revista do Centro de Letras e
Artes, de Campinas, n.º 2, 31 de janeiro de 1903.
Ora, escasseando-me o tempo para atar
autores, limito-me a apontar a página 168 da Geologia de Contejean sobre a
erosão das rochas:
"des actions physiques et chimiques par
les eaux pluviales plus ou moins chargées d'acide carbonique -
principalement sur les roches les plus attaquables aux acides, comme les
calcaires" etc.
Para o caso especial do Brasil,
encontra-se ainda à página 151 do livro de Em. Liais, sobre a nossa
conformação geológica, a caracterização do fenômeno que "se montre en très
grande échelle, sans doute à cause de ia fréquence et de l' acidité des pluies
d'orage."
No entanto o crítico leciona: "Nem as
chuvas causam erosões por conterem algumas moléculas a mais de nitro ou de
amoníaco , senão pela rijeza da camada horizontal superior em relação às
camadas moles inferiores etc."
Extraordinária geologia, esta...
III - " ... as favelas tem, nas
folhas, de estômatos expandidos em vilosidades . . ." ( pág. 41).
Apresso-me em corrigir evidentíssimo
engano, tratando-se de noção tão simples.
Leia-se: nas folhas, de células
expandidas em vilosidades.
IV - "É que a morfologia da
terra viola as leis gerais dos climas" ( pág. 52 ) .
Outro dizer malsinado. Impugna-o
respeitável cientista:
"Penso que se a natureza combate os
desertos, apenas o facies geográfico modifica as condições extrínsecas do
meio. E se violência importa modificação, violar é desobedecer ao
preestabelecido. Assim, não há violação contra as leis gerais dos climas, eis
o que não padece duvida" ( * ).
( * ) Correio da Manhã de 3 de
fevereiro de 1903.
Inexplicável contradita, esta, que
investe com todas as conclusões da meteorologia moderna! Basta saber-se que
sendo as leis gerais de um clima as que se derivam das relações astronômicas
- as próprias ondulações dos isotermos , indisciplinadamente recurvos ,
mas que seguiriam os paralelos se respeitassem aquelas leis, são um atestado
da violação.
Nem precisávamos exemplificar o
predomínio permanente das causas particulares ou secundárias na constituição
climática de qualquer pais. De Santos, cujo clima equatorial é uma anomalia em
latitude superior à do trópico, à Groelândia coberta de gelos fronteira às
paragens benignas da Noruega, encontraríamos esplêndidos exemplos.
Ainda recentemente, no belo livro sobre
a psicologia dos ingleses, Boutmy assinala o fato de ter a Inglaterra, no
paralelo de 52.º, temperatura igual a 32.º de lat., dos Estados Unidos.
Quem quer que acompanhe num mapa o
isotermo de 0.º, partirá da frigidíssima Islândia, avançará para o sul, numa
curva caprichosa, para a Inglaterra, que não tocará; torcerá depois para o
extremo norte da Noruega, e volverá de novo ao sul e se aproximará, nos meses
frios, de Paris e de Viena - que assim se ligam malgrado latitudes
muito mais baixas, à enregelada terra polar.
E o viajante que perlonga a nossa
costa, do Rio à Bahia, demandando o Equador, não vai também, por uma linha
quase inalterável, traduzindo geometricamente um regímen constante, espelhado
na uniforme opulência das matas que ajardinam o litoral vastíssimo ?
Mas se parar em qualquer ponto e
avançar para o ocidente por um paralelo, pela linha definidora,
astronomicamente, da uniformidade climática, deparará transcorridas poucas
dezenas de léguas habitats inteiramente outros.
Não estão, nestes exemplos, que
multiplicaríamos se quiséssemos, palmares violações das leis gerais dos
climas?
V - Uma contradição apontada
pelo mesmo critico; diz ele:
". . . vejo à pág. 70 os dizeres
categóricos: Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. E à pág.
616 lá está a proposição de que em Canudos se atacava a rocha viva de nossa
raça."
Neste salto mortal de 616 -70 = 546
páginas, é natural que se encontrem coisas disparatadas. Mas quem segue as
considerações que alinhei acerca da nossa gênese, se compreende que de fato
não temos unidade de raça, admite também que nos vários caldeamentos operados
eu encontrei no tipo sertanejo uma subcategoria étnica já formada (pág. 108)
liberta pelas condições históricas (pág. 112) das exigências de uma
civilização de empréstimo que lhe perturbariam a constituição definitiva.
Quer dizer que neste composto
indefenível - o brasileiro - encontrei alguma coisa que é
estável, um ponto de resistência recordando a molécula integrante das
cristalizações iniciadas. E era natural que, admitida a arrojada e animadora
conjetura de que estamos destinados à integridade nacional, eu visse naqueles
rijos caboclos o núcleo de força da nossa constituição futura, a rocha viva da
nossa raça.
Rocha viva... A locução sugere-me um
símile eloqüente.
De fato, a nossa formação como a do
granito surge de três elementos principais. Entretanto quem ascende por um
cerro granítico encontra os mais diversos elementos: aqui a argila pura, do
feldspato decomposto, variavelmente colorida: além a mica fracionada,
rebrilhando escassamente sobre o chão; adiante a arena friável do quartzo
triturado; mais longo o bloco moutonné, de aparência errática; e por toda a
banda da a mistura desses mesmos elementos com a adição de outros,
adventícios, formando o incaracterístico solo arável, altamente complexo. Ao
fundo, porém, removida a camada superficial, está o núcleo compacto e rijo da
pedra. Os elementos esparsos, em cima, nas mais diversas misturas, porque o
solo exposto guarda até os materiais estranhos trazidos pelos ventos, ai
estão, embaixo, fixos numa dosagem segura, e resistentes, e íntegros.
Assim, à medida que aprofunda, o
observador se aproxima da matriz de todo definida, do local. Ora o nosso caso
é idêntico - desde que sigamos das cidades do litoral para os vilarejos
do sertão.
A princípio uma dispersão estonteadora
de atributos que vão de todas as nuanças da cor a todos os aspectos do
caráter. Não há distinguir-se o brasileiro no intricado misto de brancos,
negros e mulatos de todos os sangues e de todos os matizes. Estamos à
superfície da nossa gens, ou melhor, seguindo à letra a comparação de há
pouco, calcamos o húmus indefinido da nossa raça. Mas, entranhando-nos na
terra, vemos os primeiros grupos fixos - o caipira, no Sul, e o
tabaréu, ao Norte - onde já se tornam raros o branco, o negro e o índio
puros. A mestiçagem generalizada produz entretanto, ainda todas as variedades
das dosagens díspares do cruzamento. Mas, à medida que prosseguimos, estas
últimas se atenuam.
Vai-se notando maior uniformidade de
caracteres físicos e morais. Por fim, a rocha viva - o sertanejo.
VI - Mas não fujo ainda a nova
objeção, porque
"se tivemos, inopinadamente, ressurreta
e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta,
galvanizada por um doido, se tivemos aquilo (continua o critico) não se
compreende como na guerra de Canudos se atacasse a rocha viva da nossa
raça."
Ao falar em sociedade morta, referi-me
a uma situação excepcional da gente sertaneja corrompida por um núcleo de
agitados (pág. 205). O mesmo paralelo feito na mesma página com estados
idênticos de outros povos delata-lhe o caráter excepcional. De modo algum
enunciei uma proposição geral e permanente, senão transitória e especial,
reduzida a um fragmento do espaço - Canudos - e a um intervalo
de tempo - o ano de 1897.
Nada mais límpido. Encontraríamos
perfeito símile nessa misteriosa isomeria, mercê da qual corpos identicamente
constituídos, com os mesmos átomos num arranjo semelhante, apresentam todavia
propriedades diversíssimas. Assim pensando - e que se não irritem
demais as sensitivas do nosso meio científico com mais esta arrancada feroz de
nefelibatismo - eu vejo, e todos podem ver, no jagunço um corpo
isômetro do sertanejo. E compreendo que Antônio Conselheiro repontasse como
uma "integração de caracteres diferenciais, vagos e indefinidos, mal
percebidos quando dispersos pela multidão" - e não como simples caso
patológico, porque a sua figura de pequeno grande homem se explica
precisamente pela circunstância rara de sintetizar, de uma maneira empolgante
e sugestiva, todos os erros, todas as crendices e superstições, que são o
lastro do nosso temperamento.
VII - "A própria caatinga ali
assume aspecto novo . E uma melhor caracterização talvez a definisse mais
acertadamente como a paragem clássica das catanduvas" , etc. pág. 229.
Isto também sugeriu reparos. Prestadios
amadores, estremecendo por todas as corolas da botânica apisoadas pelo meu
nefelibatismo científico (eterno labéu!), puseram embargos ao dizer, doutrina
(sic) errônea do livro.
E pontificaram: "caatinga ( mato ruim )
é o resultado não do terreno mas da secura do ar, ao passo que as catanduvas
são florestas cloróticas (mato doente) resultantes da porosidade e da secura
do solo" ( * ) .
( * ) Revista de Centro de Letras e
Artes
Adorável objeção. Começa insurgindo
contra o tupi; termina insurgindo-se contra o português.
Caatinga ( mato ruim ! ) . . .
Catanduva ( mato doente ! ) . . .
Florestas cloróticas. . . Clorose de
uma planta significando, em vernáculo, o seu "estiolamento", isto é, alteração
mórbida determinada pela falta de luz, são originalíssimas aquelas matas nas
regiões brasileiras onde vegetam em pleno fustigar dos sóis!
Quanto à célebre doutrina duas
palavras. A discriminação dos aspectos da nossa flora é ainda um problema que
aguarda solução clara.
Observando que o aspecto principal da
caatinga ( mato branco ) e o de um cerrado rarefeito e tolhiço; e que o da
catanduva ( mato mau, áspero, doente ) é o de uma mata enfezada e dura, tracei
a frase com batida porque a flórula indicada, diversa da que prepondera no
sertão, me despontou aos olhos realmente com a última aparência.
VIII - Notaram-se, em todas as
páginas, termos que vários críticos caracterizaram como invenções ou
galicismos imperdoáveis. Mas foram infelizes com com os que apontaram. Cito-os
e defendo-os.
Esbotenar - esboicelar,
esborcinar ( Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo.
)
Ensofregar - tornar sôfrego (
Dic.. Cont.º, de Aulete. )
Preposterar - inverter a ordem
de qualquer coisa ( Idem )
Impacto - metido à força ( Idem.
)
Refrão - consideram-no
galicismo. Rep1ico com a frase de um mestre, Castilho: "Eis o eterno refrão
com que nos quebram o bichinho do ouvido."
Inusitado - Também se considerou
francesismo. Em latim, inusitatus.
Não notaram outros. Antes considerassem
à pág. 296, linha 3.ª a deplorável tortura de um verbo intransitivo que
sucessivas revisões não libertaram; e outros que exigem mais séria
mondadura.
27- 4-1903
Euclides da Cunha.
Nota Preliminar
Escrito nos raros intervalos de folga
de uma carreira fatigante, este livro, que a princípio se resumia à história
da Campanha de Canudos, perdeu toda a atualidade, remorada a sua publicação em
virtude de causas que temos por escusado apontar.
Demos lhe, por isto, outra feição,
tomando apenas variante de assunto geral o tema, a princípio dominante, que o
sugeriu.
Intentamos esboçar, palidamente embora,
ante o olhar de futuros historiadores, os traços atuais mais expressivos das
sub-raças sertanejas do Brasil. E fazêmo-lo porque a sua instabilidade de
complexos de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às
vicissitudes históricas e deplorável situação mental em que jazem, as tomam
talvez efêmeras, destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências
crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes
migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra.
O jagunço destemeroso, o tabaréu
ingênuo e o caipira simplório serão em breve tipos relegados às tradições
evanescentes, ou extintas.
Primeiros efeitos de variados
cruzamentos, destinavam-se talvez à formação dos princípios imediatos de uma
grande raça. Faltou-lhes, porém, uma situação de parada, o equilíbrio, que
Ihes não permite mais a velocidade adquirida pela marcha dos povos neste
século. Retardatários hoje, amanhã se extinguirão de todo.
A civilização avançará nos sertões
impelida por essa implacável "força motriz da História" que Gumplowicz, maior
do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças
fracas pelas raças fortes.
A campanha de Canudos tem por isto a
significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa. Nem
enfraquece o asserto o termo-la realizado nós filhos do mesmo solo, porque,
etnologicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo
parasitariamente à beira do Atlântico, dos princípios civilizadores elaborados
na Europa, e armados pela indústria alemã - tivemos na ação um papel
singular de mercenários inconscientes. Além disto, mal unidos àqueles
extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos
separa uma coordenada histórica - o tempo.
Aquela campanha lembra um refluxo para
o passado.
E foi, na significação integral da
palavra, um crime.
Denunciemo-lo.
E tanto quanto o permitir a firmeza do
nosso espírito façamos jus ao admirável conceito de Taine sobre o narrador
sincero que encara a História como ela merece:
"il s’ irrite contre les demi vérités
que sont des demi faussetés, contre les auteurs qui n’altèrent ni une date, ni
une généalogie, mais dénaturent les sentiments et les moeurs, qui gardent le
dessin des événements et en changent la couleur, qui copient les faits et
défigurent l'âme; il veut sentir en barbare, parmi les barbares, et, parmi les
anciens, en ancien. "
Euclides da Cunha.
São Paulo, 1901
A TERRA
Capítulo I
Preliminares. A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho
para Monte Santo. Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.
O Planalto Central do Brasil desce, nos
litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares;
e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas,
distendidas do Rio Grande a Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais
diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa
oriental em andares, ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza
afastando-o consideravelmente para o interior.
De sorte que quem o contorna, seguindo
para o norte, observa notáveis mudanças de relevos: a principio o traço
contínuo e dominante das montanhas, precintando-o, com destaque saliente,
sobre a linha projetante das praias; depois, no segmento de orla marítima
entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um aparelho litoral revolto, feito
da envergadura desarticulada das serras, riçado de cumeadas e corroído de
angras, e escancelando-se em baias, repartindo-se em ilhas, e desagregando-se
em recifes desnudos, à maneira de escombros do conflito secular que ali se
trava entre os mares e a terra; em seguida, transposto o 15° paralelo, a
atenuação de todos os acidentes - serranias que se arredondam e
suavizam as linhas dos taludes, fracionadas em morros de encostas indistintas
no horizonte que se amplia; até que em plena faixa costeira da Bahia, o olhar,
livre dos anteparos de serras que até lá o repulsam e abreviam, se dilata em
cheio para o ocidente, mergulhando no âmago da terra amplíssima lentamente
emergindo num ondear longínquo de chapadas...
Este facies geográfico resume a
morfogenia do grande maciço continental.
Demonstra-o análise mais íntima feita
por um corte meridiano qualquer, acompanhando à bacia do S. Francisco.
Vê-se, do fato, que três formações
geognósticas díspares, de idades mal determinadas, aí se substituem, ou se
entrelaçam, em estratificações discordantes, formando o predomínio exclusivo
de umas, ou a combinação de todas, os traços variáveis da fisionomia da terra.
Surgem primeiro as possantes massas gnaissegraníticas, que a partir do extremo
sul se encurvam em desmedido anfiteatro, alteando as paisagens admiráveis que
tanto encantam e iludem as vistas inexpertas dos forasteiros. A princípio
abeiradas do mar progridem em sucessivas cadeias, sem rebentos laterais, até
as raias do litoral paulista, feito dilatado muro de arrimo sustentando as
formações sedimentárias do interior. A terra sobranceia o oceano, dominante,
do fastígio das escarpas; e quem a alcança como quem vinga a rampa de um
majestoso palco, justifica todos os exageros descritivos - do
gongorismo de Rocha Pita às extravagâncias geniais de Buckle - que
fazem deste país região privilegiada, onde a natureza armou a sua mais
portentosa oficina.
É que, de feito, sob o tríplice aspecto
astronômico, topográfico e geológico a nenhuma se afigura tão afeiçoada à
Vida.
Transmontadas as serras, sob a linha
fulgurante do trópico, vêem-se, estirados para o ocidente e norte, extensos
chapadões cuja urdidura de camadas horizontais de grés argiloso, intercaladas
de emersões calcárias, ou diques de rochas eruptivas básicas, do mesmo passo
lhes explica a exuberância sem par e as áreas complanadas e vastas. A terra
atrai irresistivelmente o homem, arrebatando-o na própria correnteza dos rios
que, do Iguaçu ao Tietê, traçando originalíssima rede hidrográfica, correm da
costa para os sertões, como se nascessem nos mares e canalizassem as suas
energias eternas para os recessos das matas opulentas. Rasgam facilmente
aqueles estratos em traçados uniformes, sem talvegues deprimidos, e dão ao
conjunto dos terrenos até além do Paraná a feição de largos plainos ondulados,
desmedidos.
Entretanto, para leste a natureza é
diversa.
Estereografa-se, duramente, nas placas
rígidas dos afloramentos gnáissicos; e o talude dos planaltos dobra-se do
socalco da Mantiqueira, onde se encaixa o Paraíba, ou desfaz-se em rebentos
que, após apontarem as alturas de píncaros centralizados pelo Itatiaia, levam
até o âmago de Minas as paisagens alpestres do litoral. Mas ao penetrar-se
este Estado nota-se, malgrado o tumultuar das serranias, lenta descensão geral
para o norte. Como nos altos chapadões de São Paulo e do Paraná, todas as
caudais revelam este pendor insensível com derivarem em leitos contorcidos e
vencendo, contrafeitas, o antagonismo permanente das montanhas: o rio Grande
rompe, rasgando-a com a força viva da corrente, a serra da Canastra, e,
norteados pela meridiana, abrem-se adiante os fundos vales de erosão do rio
das Velhas e do S. Francisco. Ao mesmo tempo, transpostas as sublevações que
vão de Barbacena a Ouro Preto, as formações primitivas desaparecem, mesmo nas
maiores eminências, e jazem sotopostas a complexas séries de xistos
metamórficos, infiltrados de veeiros fartos, nas paragens lendárias do
ouro.
A mudança estrutural origina quadros
naturais mais imponentes que os da borda marítima. A região continua alpestre.
O caráter das rochas, exposto nas abas dos cerros de quartzito, ou nas grimpas
em que se empilham as placas do itacolomito avassalando as alturas, aviva
todos os acidentes, desde os maciços que vão de Ouro Branco a Sabará, à zona
diamantina expandindo-se para nordeste nas chapadas que se desenrolam
nivelando-se às cimas da serra do Espinhaço; e esta, apesar da sugestiva
denominação de Eschwege, mal sobressai, entre aquelas lombadas definidoras de
uma situação dominante. Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em
catadupas ou saltando "travessões" sucessivos, todos os rios que do
Jequitinhonha ao Doce procuram os terraços inferiores do planalto arrimados à
serra dos Aimorés; e volvem águas remansadas para o poente os que se destinam
à bacia de captação do S. Francisco, em cujo vale, depois de percorridas ao
sul as interessantes formações calcárias do rio das Velhas, salpintadas de
lagos, solapadas de sumidouros e ribeirões subterrâneos, onde se abrem as
cavernas do homem pré-histórico de Lund, se acentuam outras transições na
contextura superficial do solo.
De fato, as camadas anteriores, que
vimos superpostas às rochas graníticas, decaem, por sua vez sotopondo-se a
outras, mais modernas de espessos estratos de grés.
Novo horizonte geológico reponta com um
traço original e interessante. Mal estudado embora, caracteriza-o notável
significação orográfica, porque as cordilheiras dominantes do sul ali se
extinguem, soterradas, numa inumação estupenda, pelos possantes estratos mais
recentes, que as circundam. A terra, porém, permanece elevada, alongando-se em
planuras amplas, ou avultando em falsas montanhas de denudação, descendo em
aclives fortes, mas tendo os dorsos alargados em plainos inscritos num
horizonte de nível, apenas apontoado a leste pelos vértices dos albardões
distantes, que perlongam a costa.
Verifica-se, assim, a tendência para um
aplainamento geral.
Porque, neste coincidir das terras
altas do interior e a depressão das formações arqueanas, a região montanhosa
de minas se vai prendendo, sem ressaltos, à extensa zona dos tabuleiros do
norte.
A serra do Grão Mogol raiando as lindes
da Bahia, é o primeiro espécimen dessas esplêndidas chapadas imitando
cordilheiras, que tanto perturbam aos geógrafos descuidados; e as demais que a
convizinham, da do Cabral mais próxima, à da Mata da Corda alongando-se para
Goiás, modelam-se de maneira idêntica. Os sulcos de erosão que as retalham são
cortes geológicos expressivos. Ostentam em plano vertical, sucedendo-se a
partir da base, as mesmas rochas que vimos substituírem em alongado roteiro
pela superfície: embaixo os rebentos graníticos decaídos pelo fundo dos vales,
em cômoros esparsos; à meia encosta, inclinadas, as placas xistosas mais
recentes; no alto, sobrepujando-as, ou circuitando-lhes os flancos em vales
monoclínicos, os lençóis de grés, predominantes e oferecendo aos agentes
meteóricos plasticidade admirável aos mais caprichosos modelos. Sem linhas de
cumeadas, as maiores serranias nada mais são que planuras altas, extensas
rechãs terminando de chofre em encostas abruptas, na molduragem golpeante do
regímen torrencial sobre o terreno permeável e móvel. Caindo por ali há
séculos as fortes enxurradas, derivando a princípio em linhas divagantes de
drenagem, foram pouco a pouco reprofundando-as, talhando-as em quebradas que
se fizeram cañons, e se fizeram vales em declive, até orlarem de escarpamentos
e despenhadeiros aqueles plainos soerguidos. E consoante a resistência dos
materiais trabalhados variaram nos aspectos: aqui apontam, rijamente, sobre as
áreas de nível, os últimos fragmentos das rochas enterradas, desvendando-se em
fraguedos que mal relembram, na altura, o antiqüíssimo "Himalaia brasileiro",
desbarrancado, em desintegração contínua, por todo o curso das idades;
adiante, mais caprichosos, se escalonam em alinhamentos incorretos de menires
colossais, ou em círculos enormes, recordando na disposição dos grandes blocos
superpostos, em rimas, muramentos desmantelados de ciclópicos coliseus em
ruínas ou então, pelos visos das escarpas, oblíquos e sobreanceando as
planuras que, interopostos, ladeiam, lembram aduelas desconformes, restos da
monstruosa abóbada da antiga cordilheira, desabada...
Mas desaparecem de todo em vários
pontos.
Estiram-se então planuras vastas.
Galgando-as pelos taludes, que as soerguem dando-lhes a aparência exata de
tabuleiros suspensos, topam-se, a centenas de metros, extensas áreas
ampliando-se, boleadas, pelos quadrantes, numa prolongação indefinida, de
mares. É a paragem formosíssima dos campos gerais, expandida em chapadões
ondulantes -grandes tablados onde campeia a sociedade rude dos
vaqueiros...
Atravessêmo-la.
Adiante, a partir de Monte Alto, estas
conformações naturais se bipartem: no rumo firme do norte a série do grés
figura-se progredir até ao plateau arenoso do Açuruá, associando-se ao
calcário que aviva as paisagens na orla do grande rio, prendendo-as às linhas
dos cerros talhados em diáclase, tão bem expressos no perfil fantástico do Bom
Jesus da Lapa; enquanto para nordeste, graças a degradações intensas (porque a
serra Geral segue por ali como anteparo aos alísios, condensando-os em
diluvianos aguaceiros), se desvendam, ressurgindo, as formações antigas.
Desenterram-se as montanhas.
Reponta a região diamantina, na Bahia,
revivendo inteiramente a de Minas, como um desdobramento ou antes um
prolongamento, porque é a mesma formação mineira rasgando, afinal, os lençóis
de grés, e alteando-se com os mesmos contornos alpestres e perturbados, nos
alcantis que irradiam da Tromba ou avultam para o norte nos xistos huronianos
das cadeias paralelas de Sincorá.
Deste ponto em diante, porém, o eixo da
serra Geral se fragmenta, indefinido. Desfaz-se. A cordilheira eriça-se de
contrafortes e talhados de onde saltam, acachoando, em despenhos, para o
levante, as nascentes do Paraguaçu, e um dédalo de serranias tortuosas, pouco
elevadas mas inúmeras, cruza-se embaralhadamente sobre o largo dos gerais,
cobrindo-os. Transmuda-se o caráter topográfico, retratando o desapoderado
embater dos elementos, que ali reagem há milênios entre montanhas derruídas, e
a queda, até então gradativa, dos planaltos começa a derivar em
desnivelamentos consideráveis. Revela-os o S. Francisco, no vivo infletir com
que torce para o levante, indicando do mesmo passo a transformação geral da
região.
Esta é mais deprimida e mais
revolta.
Cai para os terraços inferiores, entre
um tumultuar de morros, incoerentemente esparsos. Último rebento da serra
principal, a da Itiúba reúne-lhe alguns galhos indecisos, fundindo as
expansões setentrionais das da Furna, Cocais e Sincorá. Alteia-se um momento,
mas descai logo para todos os rumos: para o norte, originando a corredeira de
quatrocentos quilômetros à jusante do Sobradinho; para o sul, em segmentos
dispersos que vão até além do Monte Santo; e para leste, passando sob as
chapadas de Jeremoabo, até se desvendar no salto prodigioso de Paulo
Afonso.
E o observador que seguindo este
itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contraste belíssimo, a
amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto
estaca surpreendido...
A entrada sertão
Está sobre um socalco do maciço
continental, ao norte.
Demarca-o de uma banda, abrangendo dois
quadrantes, em semicírculo, o rio de S. Francisco: e de outra, encurvando
também para sudeste, numa normal a direção primitiva, o curso flexuoso do
Itapicuru-açu. Segundo a mediana, correndo quase paralelo entre aqueles, com o
mesmo descambar expressivo para a costa, vê-se o traço de um outro rio, o
Vaza-Barris, o Irapiranga dos tapuias, cujo trecho de Jeremoabo para as
cabeceiras é uma fantasia de cartógrafo. De fato, no estupendo degrau, por
onde descem para o mar ou para jusante de Paulo Afonso as rampas esbarrancadas
do planalto, não há situações de equilíbrio para uma rede hidrográfica normal.
Ali reina a drenagem caótica das torrentes, a naquele da Bahia facies
excepcional e selvagem.
Terra ignota
Abordando-o, compreende-se que até hoje
escasseiem sobre tão grande trato de território, que quase abarcaria a Holanda
(9º 11' - 10º 20' de lat. e 4° - 3° de long. O.R.J. ), notícias
exatas ou pormenorizadas. As nossas melhores cartas, enfeixando informes
escassos, lá têm um claro expressivo, um hiato, Terra ignota, em que se
aventura o rabisco de um rio problemático ou idealização de uma corda de
serras.
E. que transpondo o Itapicuru, pelo
lado do sul, as mais avançadas turmas de povoadores estacaram em vilarejos
minúsculos - Maçacará, Cumbe ou Bom Conselho - entre os quais o
decaído Monte Santo tem visos de cidade: transmontada a Itiúba, a sudoeste,
disseminaram-se pelos povoados que a abeiram acompanhando insignificantes
cursos de água, ou pelas raras fazendas de gado, estremados todos por uma
tapera obscura - Uauá, ao norte e a leste pararam às margens do S.
Francisco, entre Capim Grosso e Santo Antônio da Glória.
Apenas naquele último rumo se avantajou
uma vila secular, Jeremoabo, batizando o máximo esforço de penetração em tais
lugares, evitados sempre pelas vagas humanas, que vinham do litoral baiano
procurando o interior.
Uma ou outra o cortou, rápida, fugindo,
sem deixar traços.
Nenhuma lá se fixou. Não se podia
fixar. O estranho território, a menos de quarenta léguas da antiga metrópole,
predestinava-se a atravessar absolutamente esquecido os quatrocentos anos da
nossa história. Porque enquanto as bandeiras do sul lhe paravam à beira e
envesgando, depois, pelos flancos da Itiúba, se lançavam para Pernambuco e
Piauí até o Maranhão as do levante, repelidas pela barreira intransponível de
Paulo Afonso, iam procurar, no Paraguaçu e rios que lhe demoram ao sul, linhas
de acesso mais praticáveis, Deixavam-no de permeio, inabordável, ignoto.
É que mesmo trilhando o último daqueles
rumos, adstritas a itinerário menos longo, as salteava impressionadoramente o
aspecto estranho da terra repontando em transições imprevistas.
Deixando a orla marítima e seguindo em
cheio para o ocidente, tinham, transcorridas poucas léguas, amolentada ou
desinfluída a atração das "entradas" aventurosas, e extinta a miragem do
litoral opulento. Logo a partir de Camassari as formações antigas cobrem-se de
escassas manchas terciárias, alternando com exíguas bacias cretáceas,
revestidas do terreno arenoso de Alagoinhas que mal esgarçam, a leste, as
emersões calcárias de Inhambupe. A vegetação em roda transmuda-se, copiando
estas alternativas com a precisão de um decalque. Rarefazem-se as matas, ou
empobrecem. Extinguem-se, por fim, depois de lançarem rebentos esparsos pelo
topo das serranias; e estas mesmo, aqui e ali, cada vez mais raras, ilham-se
ou avançam em promontório nas planuras desnudas dos campos, onde uma flora
característica - arbustos flexuosos entrechassados de bromélias rubras
- prepondera exclusiva em largas áreas, mal dominada pela vegetação
vigorosa irradiante da Pojuca sobre o massapé feraz das camadas cretáceas
decompostas.
Deste lugar em diante, reaparecem os
terrenos terciários esterilizadores, sobre os mais antigos que, entretanto,
depois, dominam em toda a zona centralizada em Serrinha. Os morros do Lopes e
do Lajedo aprumam-se, à maneira de disformes pirâmides de blocos arredondados
e lisos; e os que se sucedem, beirando de um e outro lado as abas das serras
da Saúde e da Itiúba, até Vila Nova da Rainha e Juazeiro, copiam-lhes os
mesmos contornos das encostas estaladas, exumando a ossatura partida das
montanhas.
O observador tem a impressão de seguir
torneando a truncadura malgradada da borda de um planalto.
Calca, de fato, estrada três vezes
secular, histórica vereda por onde avançavam os rudes sertanistas nas suas
excursões para o interior.
Não a alteraram nunca.
Não a variou, mais tarde, a
civilização, justapondo aos rastos do bandeirante os trilhos de uma via
férrea.
Porque o caminho em cuja longura de cem
léguas, da Bahia ao Juazeiro, se entroncam numerosíssimos desvios para o
poente e para o sul, jamais comportou, a partir de seu trecho médio, variante
apreciável para leste e para o norte.
Calcando-o, em demanda do Piauí,
Pernambuco, Maranhão e Pará, os povoadores, consoante vários destinos,
dividiam-se em Serrinha. E progredindo para Juazeiro, ou volvendo à direita,
pela estrada real do Bom Conselho que, desde o século 17, os levava a Santo
Antônio da Glória e Pernambuco - uns e outros contorneavam sempre,
evitando-a sempre, a paragem sinistra e desolada, subtraindo-se a uma
travessia torturante.
De sorte que aquelas duas linhas de
penetração, que vão interferir o S. Francisco em pontos afastados -
Juazeiro e Santo Antônio da Glória -, formavam, desde aqueles tempos,
as lindes de um deserto.
Em caminho para Monte Santo
No entanto quem se abalança a
atravessá-lo, partindo de Queimadas para nordeste, não se surpreende a
princípio. Recurvo em meandros, o Itapicuru alenta vegetação vivaz; e as
barrancas pedregosas do Jacurici debruam-se de pequenas matas. O terreno,
areento e chão, permite travessia desafogada e rápida. Aos lados do caminho
ondulam tabuleiros rasos. A pedra, aflorando em lajedos horizontais, mal
movimenta o solo, esgarçando a tênue capa das areias que o revestem.
Vêem-se, porém, depois, lugares que se
vão tornando crescentemente áridos.
Varada a estreita faixa de cerrados,
que perlongam aquele último rio, está-se em pleno agreste, no dizer expressivo
dos matutos: arbúsculos quase sem pega sobre a terra escassa, enredados de
esgalhos de onde irrompem, solitários, cereus rígidos e salientes, dando ao
conjunto a aparência de uma margem de desertos. E o facies daquele sertão
inóspito vai-se esboçando, lenta e impressionadoramente...
Galga-se uma ondulação qualquer
- e ele se desvenda ou se deixa adivinhar, ao longe, no quadro
tristonho de um horizonte monótono em que se esbate, uniforme, sem um traço
diversamente colorido, o pardo requeimado das caatingas.
Intercorrem ainda paragens menos
estéreis, e nos trechos em que se operou a decomposição in situ do granito,
originando algumas manchas argilosas, as copas virentes dos ouricurizeiros
circuitam - parêntesis breves abertos na aridez geral - as
bordas das ipueiras. Estas lagoas mortas, segundo a bela etimologia indígena,
demarcam obrigatória escala ao caminhante. Associando-se às cacimbas e
"caldeirões", em que se abre a pedra, são-lhe recurso único na viagem
penosíssima. Verdadeiros oásis, têm contudo, não raro, um aspecto lúgubre:
localizadas em depressões, entre colinas nuas, envoltas pelos mandacarus
despidos e tristes, como espectros de árvores; ou num colo de chapada,
recortando-se com destaque no chão poento e pardo, graças à placa verde-negra
das algas unicelulares que as revestem.
Algumas denotam um esforço dos filhos
do sertão. Encontram-se, orlando-as, erguidos como represas entre as encostas,
toscos muramentos de pedra seca. Lembram monumentos de uma sociedade obscura.
Patrimônio comum dos que por ali se agitam nas aperturas do clima feroz, vêm
em geral, de remoto passado. Delinearam-nos os que se afoitaram primeiro com
as vicissitudes de uma entrada naquelas bandas. E persistem indestrutíveis,
porque o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma
pedra que calce as suas junturas vacilantes.
Mas transpostos estes pontos -
imperfeita cópia das barragens romanas remanescentes na Tunísia -
entra-se outra vez nos areais exsicados. E avançando célere, sobretudo nos
trechos em que se sucedem pequenas ondulações, todas da mesma forma e do mesmo
modo dispostas, o viajante mais rápido tem a sensação da imobilidade.
Patenteiam-se-lhe uniformes, os mesmos quadros, num horizonte invariável que
se afasta à medida que ele avança. Raras vezes, como no povoado minúsculo de
Cansanção, larga emersão de terreno fértil se recama de vegetação virente.
Despontam vivendas pobres; algumas
desertas pela retirada dos vaqueiros que a seca espavoriu; em ruínas, outras,
agravando todas no aspecto paupérrimo o traço melancólico das paisagens...
Nas cercanias de Quirinquinquá, porem,
começa a movimentar-se o solo. O pequeno sítio ali ereto alevanta-se já sobre
alta expansão granítica, e atentando-se para o norte divisa-se região diversa
- riçada de vales e serranias, perdendo-se ao longe em grimpas
fugitivas. A serra de Monte Santo, com um perfil de todo oposto aos redondos
contornos que lhe desenhou o ilustre Martins, empina-se, a pique, na frente,
em possante dique de quartzito branco, de azulados tons, em relevo sobre a
massa gnáissica que Constitui toda a base do solo. Dominante sobre seu enorme
paredão, vincado pelas linhas dos estratos, expostas pela erosão eólia,
afigura-se cortina de muralha monumental. Termina em crista altíssima,
estremando-lhe o desenvolvimento no rumo de 13° NE, a cavaleiro da vila que se
lhe erige no sopé. Centraliza um horizonte vasto. Observa-se, então, que
atenuados para o sul e leste, os acidentes predominantes da terra progridem
avassalando os quadrantes do norte.
O sítio do Caldeirão, três léguas
adiante, ergue-se à margem dessa sublevação metamórfica; e alcançando-o, e
transpondo entra-se. afinal, em cheio, no sertão adusto...
Primeiras impressões
É uma paragem impressionadora
As condições estruturais da terra lá se
vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos
estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito,
depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há
muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries
mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades
cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se
ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma
flora tolhiça - dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o
aspecto atormentado das paisagens.
Porque o que estas denunciam -
no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido
dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase
convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos - é de algum
modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis,
distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura
dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do
calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe-lhes a alternativa
de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e
contrações que as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resistência.
De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas,
precipitam estas reações demoradas.
As forças que trabalham a terra
atacam-na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação
demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações
únicas da região.
Dissociam-na nos verões queimosos;
degradam-na nos invernos torrenciais. Vão do desequilíbrio molecular, agindo
surdamente, à dinâmica portentosa das tormentas. Ligam-se e completam-se. E
consoante o preponderar de uma e outra, ou o entrelaçamento de ambas,
modificam-se os aspectos naturais. As mesmas assomadas gnáissicas
caprichosamente cindidas em planos quase geométricos, à maneira de silhares,
que surgem em numerosos pontos, dando, às vezes, a ilusão de encontrar-se, de
repente, naqueles ermos vazios, majestosas ruinarias de castelos -
adiante se cercam de fraguedos, em desordem, mal seguros sobre as bases
estreitas, em ângulos de queda, incombentes e instáveis, feito loghans
oscilantes, ou grandes desmoronamentos de dolmens; e mais longe desaparecem
sob acervos de blocos, com a imagem perfeita desses "mares de pedra" tão
característicos dos lugares onde imperam os regímens excessivos. Pelas abas
dos cerros, que tumultuam em roda - restos de velhíssimas chapadas
corroídas -, se derramam, ora em alinhamentos relembrando velhos
caminhos de geleiras, ora esparsos a esmo, espessos lastros de seixos e lajens
fraturadas, delatando idênticas violências. As arestas dos fragmentos, onde
persistem ainda cimentados ao quartzo os cristais de feldspato, são novos
atestados desses eleitos físicos e mecânicos que, despedaçando as rochas, sem
que se decomponham os seus elementos formadores, se avantajaram ao vagar dos
agentes químicos em função dos fatos meteorológicos normais.
Deste modo se tem a cada passo, em
todos os pontos, um lineamento incisivo de rudeza extrema. Atenuando-o em
parte, deparam-se várzeas deprimidas, sedes de antigos lagos, extintos agora
em ipueiras apauladas, que demarcam os pousos dos vaqueiros. Recortam-nas, no
entanto, abertos em caixão, os leitos as mais das vezes secos de ribeirões que
só se enchem nas breves estações das chuvas. Obstruídos, na maioria, de
espessos lastros de blocos entre os quais, fora das enchentes súbitas, defluem
tênues fios de água, são uma reprodução completa dos oueds que marginam o
Saara. Despontam-lhes em geral, normais às barrancas, estratos de um
talcoxisto azul-escuro em placas brunidas reverberando a luz em fulgurar
metálico - e sobre elas, cobrindo extensas áreas, camadas menos
resistentes de argila vermelha, cindidas de veios de quartzo,
interceptando-lhes, discordantes, os planos estratigráficos. Estas últimas
formações, silurianas talvez, cobrem de todo as demais à medida que se caminha
para NE e apropriam-se a contornos mais corretos. Esclarecem a gênese dos
tabuleiros rasos, que se desatam, cobertos de uma vegetação resistente, de
mangabeiras, até Jeremoabo.
Para o norte, porém, inclinam-se mais
fortemente as camadas. Sucedem-se cômoros despidos, de pendores resvalantes,
descaindo em quebradas onde enxurram torrentes periódicas, solapando-os; e
pelos seus topos divisam-se, alinhadas em fileiras, destacadas em lâminas, as
mesmas infiltrações quartzosas, expostas pela decomposição dos xistos em que
se embebem.
À luz crua dos dias sertanejos aqueles
cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente - ofuscante, num
irradiar ardentíssimo.
As erosões constantes quebram, porém, a
continuidade destes estratos que ademais, noutros pontos, desaparecem sob as
formações calcárias. Mas o conjunto pouco se transmuda. A feição ruiniforme
destas, casa-se bem a dos outros acidentes. E nos trechos em que elas se
estiram, planas, pelo solo, desabrigadas de todo ante a acidez corrosiva dos
aguaceiros tempestuosos, crivam-se, escarificadas, de cavidades circulares e
acanaladuras fundas, diminutas mas inúmeras, tangenciando-se em quinas de
rebordos cortantes, em pontas e duríssimos estrepes que impossibilitam as
marchas.
Deste modo, por qualquer vereda,
sucedem-se acidentes pouco elevados mas abruptos, pelos quais tornejam os
caminhos, quando não se justapõem por muitas légua aos leitos vazios dos
ribeirões esgotados. E por mais inexperto que seja o observador - ao
deixar as perspectivas majestosas, que se desdobram ao Sul, trocando-as pelos
cenários emocionantes daquela natureza torturada, tem a impressão persistente
de calcar o fundo recém-sublevado de um mar extinto, tendo ainda estereotipada
naquelas camadas rígidas a agitação das ondas e das voragens...
Um sonho de geólogo
É uma sugestão empolgante.
Vai-se de boa sombra com um naturalista
algo romântico, imaginando-se que por ali turbilhonaram, largo tempo, na idade
terciária, as vagas e as correntes.
Porque, a despeito da escassez de dados
permitindo uma dessas profecias retrospectivas, no dizer elegante de Huxley,
capaz de esboçar a situação daquela zona em idades remotas, todos os
caracteres que sumariamos reforçam a concepção aventurosa.
Alentam-na ainda: o estranho
desnudamento da terra; os alinhamentos notáveis em que jazem os materiais
fraturados, orlando, em verdadeiras curvas de nível, os flancos das serranias;
as escarpas dos tabuleiros terminando em taludes a prumo, que recordam
falaises; e, até certo ponto, os restos da fauna pliocena, que fazem dos
caldeirões enormes ossuários de mastodontes, cheios de vértebras caldeirões
desconjuntadas e partidas, como se ali a vida fosse, de chofre, salteada e
extinta pelas energias revoltas de um cataclismo.
Há também a presunção derivada de
situação anterior, exposta em dados positivos. As pesquisas de Fred. Hartt, de
fato, estabelecem, nas terras circunjacentes a Paulo Afonso, a existência de
inegáveis bacias cretáceas; e sendo os fósseis que as definem idênticos aos
encontrados no Peru e México, e contemporâneos dos que Agassiz descobriu no
Panamá - todos estes elementos se acolchetam no deduzir-se que vasto
oceano cretáceo rolou as suas ondas sobre as terras fronteiras das duas
Américas, ligando o Atlântico ao Pacífico. Cobria, assim, grande parte dos
Estados setentrionais brasileiros, indo bater contra os terraços superiores
dos planaltos, onde extensos depósitos sedimentários denunciam idade mais
antiga, o paleozóico médio.
Então, destacadas das grandes ilhas
emergentes, as grimpas mais altas das nossas cordilheiras mal apontavam ao
norte, na solidão imensa das águas...
Não existiam os Andes o Amazonas, largo
canal entre altiplanuras das Guianas e as do continente, separava-as, ilhadas.
Para as bandas do sul o maciço de Goiás - o mais antigo do mundo
- segundo a dedução dedução de Gerber, o de Minas e parte do Planalto
Paulista, onde fulgurava, em plena atividade, o vulcão de Caldas, constituíam
o núcleo do continente futuro . . .
Porque se operava lentamente uma
sublevação geral: as Nassas graníticas alteavam-se ao norte arrastando o
conjunto geral das terras numa rotação vagarosa em torno de um eixo, imaginado
por Em. Liais entre os chapadões de Barbacena e a Bolívia. Simultaneamente ,ao
abrir-se a época terciária, se realiza o fato prodigioso do alevantamento dos
Andes; novas terras afloram nas águas: tranca-se, num extremo, o canal
amazônico, transmudando-se no maior dos rios; ampliam-se os arquipélagos
esparsos, e ganglionam-se em istmos, e fundem-se; arredondam-se, maiores, os
contornos das costas; e integra-se lentamente, a América.
Então os terrenos da extrema
setentrional da Bahia, que se resumiam nos cachopos de quartzito de Monte
Santo e visos de Itiúba, esparsos pelas águas, avolumaram-se, num ascender
contínuo. Elas nesse vagaroso altear-se, enquanto as regiões mais altas
recém-desvendadas, se salpintavam de lagos, toda a parte média daquela escarpa
permanecia imersa. Uma corrente impetuosa, de que é forma decaído a atual da
nossa costa, enlaçava-a. E embatendo-a longamente, domina enquanto o resto do
país, ao sul, se erigia já constituído, e corroendo-a, e triturando-a,
remoinhando para oeste e arrebatando todos os materiais desagregados, modelava
aquele recanto da Bahia até que ele emergisse de todo, seguindo o movimento
geral das terras, feito informe amontoado de montanhas derruídas.
O regímen desértico ali se firmou,
então, em flagrante antagonismo com as disposições geográficas: sobre uma
escarpa, onde nada recorda as depressões sem escoamento dos desertos
clássicos.
Acredita-se que a região incipiente
ainda está preparando-se para a Vida: o líquen ainda ataca a pedra, fecundando
a terra. E lutando tenazmente com o flagelar do clima, uma flora de
resistência rara por ali entretece a trama das raízes, obstando, em parte, que
as torrentes arrebatem todos os princípios exsolvidos - acumulando-os
pouco a pouco na conquista da paragem desolada cujos contornos suaviza
- sem impedir, contudo, nos estios longos, as insolações inclementes e
as águas selvagens, degradando o solo.
Daí a impressão dolorosa que nos domina
ao atravessarmos aquele ignoto trecho do sertão - quase um deserto
- quer se aperte entre as dobras de serranias nuas ou se estire,
monotonamente, em descampados grandes...
Capítulo II
Golpe de vista do alto de Monte Santo. Do alto da Favela.
Do alto da serra de Monte Santo
atentando-se para a região, estendida em torno num raio de quinze léguas,
nota-se, como num mapa em relevo, a sua conformação orográfica. E vê-se que as
cordas de serras, ao invés de se alongarem para o nascente, medianas aos
traçados do Vaza-Barris e Itapicuru, formando-lhes o divortium aquarum,
progridem para o norte.
Mostram-no as serras Grande e do
Atanásio, correndo, e a princípio distintas, uma para NO e outra para N e
fundindo-se na do Acaru, onde abrolham os mananciais intermitentes do Bendegó
e seus tributários efêmeros. Unificadas, aliam-se às de Caraíbas e do Lopes e
nestas de novo se embebem, formando-se as massas do Cambaio, de onde irradiam
as pequenas cadeias do Coxomongó e Calumbi, e para o noroeste os píncaros
torreantes do Caipã. Obediente à mesma tendência, a do Aracati, lançando-se a
NO, à borda dos tabuleiros de Jeremoabo, progride, descontínua, naquele rumo
e, depois de entalhada pelo Vaza-Barris em Cocorobó, inflete para o poente,
repartindo-se nas da Canabrava e Poço-de-Cima, que a prolongam. Todas traçam,
afinal, elítica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de
larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos - e daí para
o norte, de novo se dispersam e decaem até acabarem em chapadas altas à borda
do S. Francisco.
Deste modo, no ascender para o norte,
procurando o chapadão que o Parnaíba escava, aquele talude dos planaltos
parece dobrar-se num ressalto, perturbando toda a área de drenagem do S.
Francisco abaixo da confluência do Patamuté, num traçado de torrentes sem
nome, inapreciáveis na mais favorável escala, e impondo ao Vaza-Barris um
curso tortuoso do qual ele se liberta em Jeremoabo, ao infletir para a
costa.
Este é um rio sem afluentes. Falta-lhe
conformidade com o declive da terra. Os seus pequenas tributários, o Bendegó e
Caraíbas, volvendo águas transitórias, dentro dos leitos rudemente escavados,
não traduzem as depressões do solo. Têm a existência fugitiva das estações
chuvosas. São, antes, canais de esgotamento, abertos a esmo pelos enxurros
- ou correntes velozes que, adstritas aos relevos topográficos mais
próximos, estão, não raro, em desarmonia com as disposições orográficas
gerais. São rios que sobem. Enchem-se de súbito; transbordam; reprofundam os
leitos, anulando o obstáculo do declive geral do solo; rolam por alguns dias
para o rio principal; e desaparecem, volvendo ao primitivo aspecto de valos em
torcicolos, cheios de pedras, e secos.
O próprio Vaza-Barris, rio sem
nascentes em cujo leito viçam gramíneas e pastam os rebanhos, não teria o
traçado atual se corrente perene lhe assegurasse um perfil de equilíbrio
através de esforço contínuo e longo. A sua função como agente geológico é
revolucionária. As mais vezes cortado, fracionando-se em gânglios estagnados,
ou seco, à maneira de larga estrada poenta e tortuosa, quando cresce,
empanzinado, nas cheias, captando as águas selvagens que estrepitam nos
pendores, volve por algumas semanas águas barrentas e revoltas, extinguindo-se
logo em esgotamento completo, vazando, como o indica o dizer português,
substituindo-lhe com vantagem a antiga denominação indígena. É uma onda
tombando das vertentes da Itiúba, multiplicando a energia da corrente no
apertado dos desfiladeiros, e correndo veloz entre barrancos, ou entalada em
serras, até Jeremoabo.
Vimos como a natureza, em roda, lhe
imita o regímen brutal - calcando-o em terreno agro, sem os cenários
opulentos das serras e dos tabuleiros ou dos sem-fins das chapadas -
mas feito um misto em que tais disposições naturais se baralham, em confusão
pasmosa: planícies que de perto revelam séries de cômoros, retalhados de
algares; morros que o contraste das várzeas faz de grande altura e estão
poucas dezenas de metros sobre o solo, e tabuleiros que em sendo percorridos
mostram a acidentação caótica de boqueirões escancelados e brutos. Nada mais
dos belos efeitos das denudações lentas, no remodelar os pendores, no
despertar os horizontes e no desatar - amplíssimos - os gerais
pelo teso das cordilheiras, dando aos quadros naturais a encantadora grandeza
de perspectivas em que o céu e a terra se fundem em difusão longínqua e
surpreendedora de cores...
Entretanto, inesperado quadro esperava
o viandante que subia, depois desta travessia em que supõe pisar escombros de
terremotos, as ondulações mais próximas de Canudos.
Do alto da Favela
Galgava o topo da Favela. Volvia em
volta o olhar para abranger de um lance o conjunto da terra. E nada mais
divisava recordando-lhe os cenários contemplados. Tinha na frente a antítese
do que vira. Ali estavam os mesmos acidentes e o mesmo chão, embaixo,
fundamente revolto, sob o indumento áspero dos pedregais e caatingas
estonadas... Mas a reunião de tantos traços incorretos e duros -
arregoados divagantes de algares, sulcos de despenhadeiros, socavas de
bocainas, criava-lhe perspectiva inteiramente nova. E quase compreendia que os
matutos crendeiros de imaginativa ingênua, acreditassem que "ali era o
céu...".
O arraial, adiante e embaixo, erigia-se
no mesmo solo perturbado. Mas vistos daquele ponto, de permeio a distância
suavizando-lhes as encostas e aplainando-os - todos os serrotes breves
e inúmeros, projetando-se em plano inferior e estendendo-se, uniformes, pelos
quadrantes, davam-lhe a ilusão de uma planície ondulante e grande.
Em roda uma elipse majestosa de
montanhas...
A Canabrava, a nordeste, de perfil
abaulado e simples; a do Poço de cima, próxima, mas íngreme e alta; a de
Cocorobó, no levante, ondulando em seladas, dispersa em esporões; as vertentes
retilíneas do Calumbi ao sul; as grimpas do Cambaio, no correr para o poente;
e, para o norte, os contornos agitados do Caipã -ligam-se e
articulam-se no infletir gradual traçando, fechada, a curva desmedida.
Vendo ao longe, quase de nível,
trancando-lhe o horizonte, aquelas grimpas altaneiras, o observador tinha a
impressão alentadora de se achar sobre plateau elevadíssimo, páramo
incomparável repousando sobre as serras.
Na planície rugada, embaixo, mal se
lobrigavam os pequenos cursos d'água, divagando, serpeantes...
Um único se distinguia, o Vaza-Barris.
Atravessava-a, torcendo-se em meandros. Presa numa dessas voltas via-se uma
depressão maior, circundada de colinas... E atulhando-a, enchendo-a toda de
confusos tetos incontáveis, um acervo enorme de casebres...
Capítulo III
O clima. Higrômetros singulares.
Dos breves apontamentos indicados,
resulta que os caracteres geológicos e topográficos, a par dos demais agentes
físicos, mutuam naqueles lugares as influências características de modo a não
se poder afirmar qual o preponderante.
Se, por um lado, as condições genéticas
reagem fortemente sobre os últimos, estes, por sua vez, contribuíram para o
agravamento daquelas; e todas persistem nas influência recíprocas. Deste
perene conflito feito num círculo vicioso indefinido, ressalta a dignificação
mesológica do local. Não há abrangê-la em todas modalidades. Escasseiam-nos as
observações às coisas desta terra, com uma inércia cômoda de mendigos
fartos.
Nenhum pioneiro da ciência suportou
ainda as agruras daquele rincão sertanejo, em prazo suficiente para o
definir.
Martius por lá passou, com a mira
essencial de observar o aerólito, que tombara à margem do Bendegó e era já,
desde 1810, conhecido nas academias européias, graças a F. Mornay e Wollaston.
Rompendo, porém, a região selvagem, desertus austral, como a batizou, mal
atentou para a teria recamada de uma flora extravagante, sylva horrida, no seu
latim alarmado. Os que o antecederam e sucederam palmilharam, ferretoados da
canícula, as mesmas trilhas rápidas, de quem foge. De sorte que sempre
evitado, aquele sertão, até hoje desconhecido, ainda o será por muito
tempo.
O que se segue são vagas conjeturas.
Atravessamo-lo no prelúdio de um estio ardente e, vendo-o apenas nessa quadra,
vimo-lo sob o pior aspecto. O que escrevemos tem o traço defeituoso dessa
impressão isolada, desfavorecida, ademais, por um meio contraposto à
serenidade do pensamento, tolhido pelas emoções da guerra. Além disto os dados
de um termômetro único e de um aneróide suspeito, misérrimo arsenal científico
com que ali lidamos, nem mesmo vagos lineamentos darão de climas que divergem
segundo as menores disposições topográficas, criando aspectos díspares entre
lugares limítrofes. O de Monte Santo, por ex., que é, ao primeiro comparar,
muito superior ao de Queimadas, diverge do dos lugares que lhe demoram ao
norte, sem a continuidade que era lícito prever de sua situação intermédia. A
proximidade das massas montanhosas torna-o estável, lembrando um regímen
marítimo em pleno continente: escala térmica oscilando em amplitudes
insignificantes; firmamento onde a transparência dos ares é completa e a
limpidez inalterável; e ventos reinantes, o SE no inverno e o NE no estio
- alternando-se com rigorismo raro. Mas está insulado. Para qualquer
das bandas, deixa-o o viajante num dia de viagem. Se vai para o norte,
salteiam-no transições fortíssimas: a temperatura aumenta; carrega-se o azul
dos céus; embaciam-se os ares; e as ventanias rolam desorientadamente de todos
os quadrantes - ante a tiragem intensa dos terrenos desabrigados, que
dali por diante se estiram. Ao mesmo tempo espelha-se o regímen excessivo: o
termômetro oscila em graus disparatados passando, já em outubro, dos dias com
35° à sombra para as madrugadas frias.
No ascender do verão acentua-se o
desequilíbrio. Crescem a um tempo as máximas e as mínimas, até que no fastígio
das secas transcorram as horas num intermitir inaturável de dias queimosos e
noites enregeladas.
A terra desnuda tendo contrapostas, em
permanente conflito, as capacidades emissiva e absorvente dos materiais que a
formam, do mesmo passo armazena os ardores das soalheiras e deles se esgota,
de improviso. Insola-se e enregela-se, em 24 horas. Fere-a o sol e ela
absorve-lhe os raios, e multiplica-os e reflete-os, e refrata-os, num
reverberar ofuscante: pelo topo dos cerros, pelo esbarrancado das encostas,
incendeiam-se as acendalhas da sílica fraturada, rebrilhantes, numa trama
vibrátil de centelhas; a atmosfera junto ao chão vibra num ondular vivíssimo
de bocas de fornalha em que se pressente visível, no expandir das colunas
aquecidas, a efervescência dos ares; e o dia, incomparável no fulgor, fulmina
a natureza silenciosa, em cujo seio se abate, imóvel, na quietude de um longo
espasmo, a galhada sem folhas da flora sucumbida.
Desce a noite, sem crepúsculo, de
chofre - um salto da treva por cima de uma franja vermelha do poente
- e todo este calor se perde no espaço numa irradiação intensíssima,
caindo a temperatura de súbito, numa queda única, assombrosa . . .
Ocorrem, todavia, variantes cruéis.
Propelidas pelo nordeste, espessas nuvens, tufando em cúmulos, pairam ao
entardecer sobre as areias incendidas. Desaparece o sol e a coluna mercurial
permanece imóvel, ou, de preferência, sobe. A noite sobrevém em fogo; a terra
irradia como um sol escuro, porque se sente uma dolorosa impressão de faúlhas
invisíveis; mas toda a ardência reflui sobre ela, recambiada pelas nuvens. O
barômetro cai, como nas proximidades das tormentas; e mal se respira no
bochorno inaturável em que toda a adustão golfada pela soalheira se concentra
numa hora única da noite.
Por um contraste explicável, este fato
jamais sucede nos paroxismos estivais das secas, em que prevalece a
intercadência de dias esbraseados e noites frigidíssimas, agravando todas as
angústias dos martirizados sertanejos.
Copiando o mesmo singular desequilíbrio
das forças que trabalham a terra, os ventos ali chegam, em geral,
turbilhonando revoltos, em rebojos largos. E, nos meses em que se acentua, o
nordeste grava em tudo sinais que lhe recordam o rumo.
Estas agitações dos ares desaparecem,
entretanto, por longos meses; reinando calmarias pesadas - ares imóveis
sob a placidez luminosa dos dias causticantes. Imperceptíveis exercem-se,
então, as correntes ascensionais dos vapores aquecidos sugando à terra a
umidade exígua; e quando se prolongam, esboçando o prelúdio entristecedor da
seca, a secura da atmosfera atinge a graus anormalíssimos.
Higrômetros singulares
Não a observamos através do rigorismo
de processos clássicos, mas graças a higrômetros inesperados e bizarros.
Percorrendo certa vez, nos fins de
setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneio frouxo
de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta,
anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando a um vale único.
Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando em tufos intermeados de
palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum
velho jardim em abandono. Ao lado uma árvore única, uma quixabeira alta,
sobranceando a vegetação franzina.
O sol poente desatava, longa, a sua
sombra pelo chão, e protegido por ela - braços largamente abertos, face
volvida para os céus, - um soldado descansava.
Descansava... havia três meses.
Morrera no assalto de 18 de julho. A
coronha da mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a
farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário
possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a
fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os
mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, à vala comum de menos de
um côvado de fundo em que eram jogados, formando pela última vez juntos, os
companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera do lar desprotegido
fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um
fosso repugnante; e deixara-o ali há três meses - braços largamente
abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares
claros, para as estrelas fulgurantes...
E estava intacto. Murchara apenas.
Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão
exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, à sombra
daquela árvore benfazeja. Nem um verme - o mais vulgar dos trágicos
analistas da matéria - lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da
vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho
revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares.
Os cavalos mortos naquele mesmo dia
semelhavam espécimens empalhados, de museus. O pescoço apenas mais alongado e
fino, as pernas ressequidas e o arcabouço engelhado e duro.
À entrada do acampamento, em Canudos,
um deles, sobre todos, se destacava impressionadoramente. Fora a montada de um
valente, o alferes Wanderley; e abatera-se, morto juntamente com o cavaleiro.
Ao resvalar, porém, estrebuchando malferido, pela rampa íngreme, quedou,
adiante, à meia encosta, entalado entre fraguedos. Ficou quase em pé, com as
patas dianteiras firmes num ressalto da pedra... E ali estacou feito um animal
fantástico, aprumado sobre a ladeira, num quase curvetear, no último arremesso
da carga paralisada, com todas as aparências de vida, sobretudo quando, ao
passarem as rajadas ríspidas do nordeste, se lhe agitavam as longas crinas
ondulantes . . .
Quando aquelas lufadas, caindo a
súbitas, se compunham com as colunas ascendentes, em remoinhos turbilhonantes,
à maneira de minúsculos ciclones, sentia-se, maior, a exsicação do ambiente
adusto: cada partícula de areia suspensa do solo gretado e duro irradiava em
todos os sentidos, feito um foco calorífico, a surda combustão da terra.
Fora disto - nas longas
calmarias, fenômenos óticos bizarros.
Do topo da Favela, se a prumo dardejava
o sol e a atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno, atentando-se
para os descambados, ao longe, não se distinguia o solo.
O olhar fascinado perturbava-se no
desequilíbrio das camadas desigualmente aquecidas, parecendo varar através de
um prisma desmedido e intáctil, e não distinguia a base das montanhas, como
que suspensas. Então, ao norte da Canabrava, numa enorme expansão dos plainos
perturbados, via-se um ondular estonteador; estranho palpitar de vagas
longínquas; a ilusão maravilhosa de um seio de mar, largo, irisado, sobre que
caísse, e refrangesse, e ressaltasse a luz esparsa em cintilações
ofuscantes...
Capítulo IV
As secas. Hipóteses sobre a sua gênese. As caatingas.
O sertão de Canudos é um índice
sumariando a fisiografia dos sertões do Norte. Resume-os, enfeixa os seus
aspectos predominantes numa escala reduzida. É-lhes de algum modo uma zona
central comum.
De fato, a inflexão peninsular,
extremada pelo cabo de S. Roque, faz que para ele convirjam as lindes
interiores de seis Estados - Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba,
Ceará e Piauí - que o tocam ou demoram distantes poucas léguas.
Desse modo é natural que as
vicissitudes climáticas daqueles nele se exercitem com a mesma intensidade,
nomeadamente em sua manifestação mais incisiva, definida numa palavra que é o
terror máximo dos rudes partícios que por ali se agitam - a seca.
Escusamo-nos de longamente a estudar,
averbando o desbarate dos mais robustos espíritos no aprofundar-lhe a gênese,
tateantes ao través de sem número de agentes complexos e fugitivos.
Indiquemos, porém, inscrita num traçado de números inflexíveis, esta
fatalidade inexorável.
De fato, os seus ciclos - porque
o são no rigorismo técnico do termo - abrem-se e encerram-se com um
ritmo tão notável que recordam o desdobramento de uma lei natural, ainda
ignorada.
Revelou-o, pela primeira vez, o senador
Tomás Pompeu, traçando um quadro por si mesmo bastante eloqüente, em que os
aparecimentos das secas, no século passado e atual, se defrontam em
paralelismo singular, sendo de presumir que ligeiras discrepâncias indiquem
apenas defeitos de observação ou desvios na tradição oral que as
registrou.
De qualquer modo ressalta à simples
contemplação uma coincidência repetida bastante para que se remova a intrusão
do acaso.
Assim, para citarmos apenas as maiores,
as secas de (1710-1711), (1723-1727), (1736-1737), (1744-1745), (1777-1778),
do século 18, se justapõem às de ( 1808-1809 ), ( 1824-1825 ) (1835-1837),
(1844-1845), (1877-1879), do atual.
Esta coincidência, espelhando-se quase
invariável, como se surgisse do decalque de uma quadra sobre outra, acentua-se
ainda na identidade das quadras remansadas e longas que, em ambas, atreguaram
a progressão dos estragos.
De fato, sendo, no século passado, o
maior interregno de 32 anos (1745-1777), houve no nosso outro absolutamente
igual e, o que é sobremaneira notável, com a correspondência exatíssima das
datas (1845-1877).
Continuando num exame mais íntimo do
quadro, destacam-se novos dados fixos e positivos, aparecendo com um rigorismo
de incógnitas que se desvendam. Observa-se, então, uma cedência raro
perturbada na marcha do flagelo, intercortado de intervalos pouco díspares
entre nove e doze anos, e sucedendo-se de maneira a permitirem previsões
seguras sobre a sua irrupção.
Entretanto, apesar desta simplicidade
extrema nos resultados imediatos, o problema, que se pode traduzir na fórmula
aritmética mais simples, permanece insolúvel.
Hipóteses sobre a gênese das secas
Impressionado pela razão desta
progressão raro alterada, e fixando-a um tanto forçadamente em doze anos, um
naturalista, o barão de Capanema, teve o pensamento de rastrear nos fatos
extraterrestres, tão característicos pelos períodos invioláveis em que se
sucedem, a sua origem remota. E encontrou na regularidade com que repontam e
se extinguem, intermitentemente, as manchas da fotosfera solar, um símile
completo.
De fato, aqueles núcleos obscuros,
alguns mais vastos que a Terra, negrejando dentro da cercadura fulgurante das
fáculas, lentamente derivando à feição da rotação do Sol, têm entre o máximo e
o mínimo da intensidade, um período que pode variar de nove a doze anos. E
como desde muito a intuição genial de Herschel lhes descobrira o influxo
apreciável na dosagem de calor emitido para a Terra, a correlação surgia
inabalável, neste estear-se em dados geométricos e físicos acolchetando-se num
efeito único.
Restava equiparar o mínimo das manchas,
anteparo à irradiação do grande astro, ao fastígio das secas no planeta
torturado - de modo a patentear, cômpares, os períodos de umas e
outras.
Falhou neste ponto, em que pese à sua
forma atraentíssima, a teoria planeada: raramente coincidem as datas do
paroxismo estival, no Norte, com as daquele.
O malogro desta tentativa, entretanto,
denuncia menos a desvalia de uma aproximação imposta rigorosamente por
circunstâncias tão notáveis, do que o exclusivismo de atentar-se para uma
causa única. Porque a questão, com a complexidade imanente aos fatos
concretos, se atém, de preferência, a razões secundárias, mais próximas e
enérgicas, e estas, em modalidades progredindo, contínuas, da natureza do solo
à disposição geográfica, só serão definitivamente sistematizadas quando
extensa série de observações permitir a definição dos agentes preponderantes
do clima sertanejo.
Como quer que seja, o penoso regímen
dos Estados do Norte está em função de agentes desordenados e fugitivos, sem
leis ainda definidas, sujeitas às perturbações locais, derivadas da natureza
da terra, e a reações mais amplas, promanadas das disposições geográficas. Daí
as correntes aéreas que o desequilibram e variam.
Determina-o em grande parte, e talvez
de modo preponderante, a monção de nordeste, oriunda da forte aspiração dos
planaltos interiores que, em vasta superfície alargada até ao Mato Grosso,
são, como se sabe, sede de grandes depressões barométricas, no estio. Atraído
por estas, o nordeste vivo, ao entrar, de dezembro a março, pelas costas
setentrionais, é singularmente favorecido pela própria conformação da terra,
na passagem célere por sobre os chapadões desnudos que irradiando intensamente
lhe alteiam o ponto de saturação diminuindo as probabilidades das chuvas, e
repelindo-o, de modo a lhe permitir acarretar para os recessos do continente,
intacta, sobre os mananciais dos grandes rios, toda a umidade absorvida na
travessia dos mares.
De fato, a disposição orográfica dos
sertões, à parte ligeiras variantes - cordas de serras que se alinham
para nordeste paralelamente à monção reinante - , facilita a travessia
desta. Canaliza-a. Não a contrabate num antagonismo de encostas,
abarreirando-a, alteando-a, provocando-lhe resfriamento e a condensação em
chuvas.
Um dos motivos das secas repousa,
assim, na disposição topográfica.
Falta às terras flageladas do Norte uma
alta serrania que, correndo em direção perpendicular àquele vento, determine a
dynamic colding, consoante um dizer expressivo.
Um fato natural de ordem mais elevada
esclarece esta hipótese.
Assim é que as secas aparecem sempre
entre duas datas fixadas há muito pela prática dos sertanejos, de 12 de
dezembro a 19 de março. Fora de tais limites não há um exemplo único de
extinção de secas. Se os atravessam, prolongam-se fatalmente por todo o
decorrer do ano, até que se reabra outra vez aquela quadra. Sendo assim e
lembrando-nos que é precisamente dentro deste intervalo que a longa faixa das
calmas equatoriais, no seu lento oscilar em torno do equador, paira no zênite
daqueles Estados. levando a borda até aos extremos da Bahia, não poderemos
considerá-la, para o caso, com a função de uma montanha ideal que correndo de
leste a oeste corrigindo momentaneamente lastimável disposição orográfica, se
anteponha a monção e lhe provoque a parada, a ascensão das correntes, o
resfriamento subseqüente e a condensação imediata nos aguaceiros diluvianos
que tombam então, de súbito, sobre os sertões ?
Este desfiar de conjeturas tem o valor
de indicar quantos fatores remotos podem incidir numa questão que duplamente
nos interessa pelo seu traço superior na ciência, e pelo seu significado mais
íntimo no envolver o destino de extenso trato do nosso país. Remove, por isto,
a segundo plano o influxo até hoje inutilmente agitado dos alísios, e é de
alguma sorte fortalecido pela intuição do próprio sertanejo para quem a
persistência do nordeste - o vento da seca, como o batiza
expressivamente - equivale à permanência de uma situação irremediável e
crudelíssima.
As quadras benéficas chegam de
improviso.
Depois de dois ou três anos, como de
1877-1879, em que a insolação rescalda intensamente as chapadas desnudas, a
sua própria intensidade origina um reagente inevitável. Decai afinal, por toda
a parte, de modo considerável, a pressão atmosférica. Apruma-se maior e mais
bem definida, a barreira das correntes ascensionais dos ares aquecidos,
antepostas às que entram pelo litoral. E entrechocadas umas e outras, num
desencadear de tufões violentos, alteiam-se, retalhadas de raios, nublando em
minutos o firmamento todo, desfazendo-se logo depois em aguaceiros fortes
sobre os desertos recrestados.
Então parece tornar-se visível o
anteparo das colunas ascendentes, que determinam o fenômeno, na colisão
formidável com o nordeste.
Segundo numerosas testemunhas -
as primeiras bátegas despenhadas da altura não atingem a terra. A meio caminho
se evaporam entre as camadas referventes que sobem, e volvem, repelidas, às
nuvens, para, outra vez condensando-se, precipitarem-se de novo e novamente
refluírem; até tocarem o solo que a princípio não umedecem, tornando ainda aos
espaços com rapidez maior, numa vaporização quase como se houvessem caído
sobre chapas incandescentes, para mais uma vez descerem, numa permuta rápida e
contínua, até que se formem, afinal, os primeiros fios de água derivando pelas
pedras, as primeiras torrentes em despenhos pelas encostas, afluindo em
regatos já avolumados entre as quebradas, concentrando-se tumultuariamente em
ribeirões correntosos; adensando-se, estes, em rios barrentos traçados ao
acaso, à feição dos declives, em cujas correntezas passam velozmente os
esgalhos das árvores arrancadas, rolando todos e arrebentando na mesma onda,
no mesmo caos de águas revoltas e escuras...
Se ao assalto subitâneo se sucedem as
chuvas regulares, transmudam-se os sertões, revivescendo. Passam, porém não
raro, num giro célere, de ciclone. A drenagem rápida do terreno e a
evaporação, que se estabelece logo mais viva, tornam-nos, outra vez, desolados
e áridos. E penetrando-lhes a atmosfera ardente, os ventos duplicam a
capacidade higrométrica, e vão, dia a dia, absorvendo a umidade exígua da
terra -reabrindo o ciclo inflexível das secas...
As caatingas
Então, a travessia das veredas
sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua.
Nesta, ao menos, o viajante tem o
desafogo de um horizonte largo e a perspectiva das planuras francas.
Ao passo que a caatinga o afoga;
abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e
não o atrai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os
gravetos estalados em lanças; e desdobra-se-lhe na frente léguas e léguas,
imutável no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e
secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se
flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora
agonizante . . .
Embora esta não tenha as espécies
reduzidas dos desertos - mimosas tolhiças ou eufórbias ásperas sobre o
tapete das gramíneas murchas - e se afigure farta de vegetais
distintos, as suas árvores, vistas em conjunto, semelham uma só família de
poucos gêneros, quase reduzida a uma espécie invariável, divergindo apenas no
tamanho, tendo todas a mesma conformação, a mesma aparência de vegetais
morrendo, quase sem troncos, em esgalhos logo ao irromper do chão. É que por
um efeito explicável de adaptação às condições estreitas do meio ingrato,
evolvendo penosamente em círculos estreitos, aquelas mesmo que tanto se
diversificam nas matas ali se talham por um molde único. Transmudam-se, e em
lenta metamorfose vão tendendo para limitadíssimo número de tipos
caracterizados pelos atributos dos que possuem maior capacidade de
resistência.
Esta impõe-se, tenaz e inflexível.
A luta pela vida, que nas florestas se
traduz como uma tendência irreprimível para a luz, desatando-se os arbustos em
cipós, elásticos, distensos, fugindo ao afogado das sombras e alteando-se
presos mais aos raios do Sol do que aos troncos seculares de ali, de todo
oposta, é mais obscura, é mais original, é mais comovedora. O Sol é o inimigo
que é forçoso evitar, iludir ou combater. E evitando-o pressente-se de algum
modo, como o indicaremos adiante, a inumação da flora moribunda, enterrando-se
os caules pelo solo. Mas como este, por seu turno, é áspero e duro, exsicado
pelas drenagens dos pendores ou esterilizado pela sucção dos estratos
completando as insolações, entre dois meios desfavoráveis - espaços
candentes e terrenos agros -as plantas mais robustas trazem no aspecto
anormalíssimo, impressos, todos os estigmas desta batalha surda.
As leguminosas, altaneiras noutros
lugares, ali se tornam anãs. Ao mesmo tempo ampliam o âmbito das frondes,
alargando a superfície de contato com o ar, para a absorção dos escassos
elementos nele difundidos. Atrofiam as raízes mestras batendo contra o subsolo
impenetrável e substituem-nas pela expansão irradiante das radículas
secundárias, ganglionando-as em tubérculos túmidos de seiva. Amiúdam as
folhas. Fitam-nas rijamente, duras como cisalhas, à ponta dos galhos para
diminuírem o campo da insolação. Revestem de um indumento protetor os frutos,
rígidos, às vezes, como estróbilos. Dão-lhes na deiscência perfeita com que as
vagens se abrem, estalando como se houvessem molas de aço, admiráveis
aparelhos para propagação das sementes, espalhando-as profusamente pelo chão.
E têm, todas, sem excetuar uma única, no perfume suavíssimo das flores ,
anteparos intácteis que nas noites frias sobre elas se alevantam e se arqueiam
obstando a que sofram de chofre as quedas de temperatura, tendas invisíveis e
encantadoras, resguardando-as...
Assim disposta, a árvore aparelha-se
para reagir contra o regímen bruto.
Ajusta-se sobre os sertões o cautério
das secas; esterilizam-se os ares urentes; empedra-se o chão, gretando,
recrestado; ruge o nordeste nos ermos; e, como um cilício dilacerador, a
caatinga estende sobre a terra as ramagens de espinhos... Mas, reduzidas todas
as funções, a planta, estivando, em vida latente, alimenta-se das reservas que
armazena nas quadras remansadas e rompe os estios, pronta a transfigurar-se
entre os deslumbramentos da primavera.
Algumas, em terrenos mais favoráveis,
iludem ainda melhor as intempéries, em disposição singularíssima.
Vêem-se numerosos aglomerados em capões
ou salpintando, isolados, as macegas, arbúsculos de pouco mais de metro de
alto, de largas folhas espessas e luzidias, exuberando floração ridente em
meio da desolação geral. São os cajueiros anões, os típicos anacardia humilis
das chapadas áridas, os cajuís dos indígenas. Estes vegetais estranhos, quando
ablaqueados em roda, mostram raízes que se entranham a surpreendente
profundura. Não há desenraizá-los. O eixo descendente aumenta-lhes maior à
medida que se escava. Por fim se nota que ele vai repartindo-se em divisões
dicotômicas. Progride pela terra dentro até a um caule único e vigoroso,
embaixo.
Não são raízes, são galhos. E os
pequeninos arbúsculos, esparsos, ou repontando em tufos, abrangendo às vezes
largas áreas, uma árvore única e enorme, inteiramente soterrada.
Espancado pelas canículas, fustigado
dos sóis, roído dos enxurros, torturado pelos ventos, o vegetal parece
derrear-se aos embates desses elementos antagônicos e abroquelar-se daquele
modo, invisível, no solo sobre que alevanta apenas os mais altos renovos da
fronde majestosa.
Outros, sem esta conformação, se
aparelham de outra sorte.
As águas que fogem no volver selvagem
das torrentes, ou entre as camadas inclinadas dos xistos, ficam retidas, longo
tempo, nas espatas das bromélias, aviventando-as. No pino dos verões, um pé de
macambira é para o matuto sequioso um copo d'água cristalina e pura. Os caroás
verdoengos, de flores triunfais e altas; os gravatás e ananases bravos,
trançados em touceiras impenetráveis, copiam-lhe a mesma forma, adrede feita
àquelas paragens estéreis. As suas folhas ensiformes, lisas e lustrosas, como
as da maioria dos vegetais sertanejos, facilitam a condensação dos vapores
escassos trazidos pelos ventos, por maneira a debelar-se o perigo máximo à
vida vegetativa, resultante de larga evaporação pelas folhas, esgotando e
vencendo a absorção pelas radículas.
Sucedem-se outros, diversamente
apercebidos, sob novos aprestos, mas igualmente resistentes.
As nopaleas e cactus, nativas em toda a
parte, entram na categoria das fontes vegetais, de Saint-Hilaire. Tipos
clássicos da flora desértica, mais resistentes que os demais, quando decaem a
seu lado, fulminadas, as árvores todas, persistem inalteráveis ou mais vívidos
talvez. Afeiçoaram-se aos regímens bárbaros; repelem os climas benignos em que
estiolam e definham. Ao passo que o ambiente em fogo dos desertos parece
estimular melhor a circulação da seiva entre os seus cladódios túmidos.
As favelas, anônimas ainda na ciência
- ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus -talvez
um futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células
alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa.
Por um lado, a sua epiderme ao resfriar-se, à noite, muito abaixo da
temperatura do ar, provoca, a despeito da secura deste, breves precipitações
de orvalho; por outro, a mão, que a toca, toca uma chapa incandescente de
ardência inaturável.
Ora, quando ao revés das anteriores as
espécies não se mostram tão bem armadas para a reação vitoriosa, observam-se
dispositivos porventura mais interessantes: unem-se, intimamente abraçadas,
transmudando-se em plantas sociais. Não podendo revidar isoladas,
disciplinam-se, congregam-se, arregimentam-se. São deste número todas as
cesalpinas e as catingueiras, constituindo, nos trechos em que aparecem,
sessenta por cento das caatingas; os alecrins-dos-tabuleiros, e os
canudos-de-pito, heliotrópios arbustivos de caule oco, pintalgado de branco e
flores em espiga, destinados a emprestar o nome ao mais lendário dos
vilarejos...
Não estão no quadro das plantas sociais
brasileiras, de Humboldt, e é possível que as primeiras vicejem, noutros
climas, isoladas. Ali se associam. E, estreitamente solidárias as suas raízes,
no subsolo, em apertada trama, retém as águas, retêm as terras que se
desagregam, e formam, ao cabo, num longo esforço, o solo arável em que nascem,
vencendo, pela capilaridade do inextricável tecido de radículas enredadas em
malhas numerosas, a sucção insaciável dos estratos e das areias. E vivem.
Vivem é o termo - porque há, no fato, um traço superior à passividade
da evolução vegetativa...
O juazeiro
Têm o mesmo caráter os juazeiros, que
raro perdem as folhas de um verde intenso, adrede modeladas às reações
vigorosas da luz. Sucedem-se meses e anos ardentes. Empobrece-se inteiramente
o solo aspérrimo. Mas, nessas quadras cruéis, em que as soalheiras se agravam,
à vezes, com os incêndios espontaneamente acesos pelas ventanias atritando
rijamente os galhos secos e estonados sobre o depauperamento geral da vida, em
roda, eles agitam as ramagens virentes, alheios às estações, floridos sempre,
salpintando o deserto com as flores cor de ouro, álacres, esbatidas no pardo
dos restolhos - à maneira de oásis verdejantes e festivos.
A dureza dos elementos cresce,
entretanto, em certas quadras, ao ponto de os desnudar: é que se enterroaram
há muito os fundos das cacimbas, e os leitos endurecidos das ipueiras mostram,
feito enormes carimbos, em moldes, os rastros velhos das boiadas; e o sertão
de todo se impropriou à vida.
Então, sobre a natureza morta, apenas
se alteiam os cereus esguios e silentes, aprumando os caules circulares
repartidos em colunas poliédricas e uniformes, na simetria impecável de
enormes candelabros. E avultando ao descer das tardes breves sobre aqueles
ermos, quando os abotoam grandes frutos vermelhos destacando-se, nítidos, à
meia luz dos crepúsculos, eles dão a ilusão emocionante de círios enormes,
fincados a esmo no solo, espalhados pelas chapadas, e acesos...
Caracterizam a flora caprichosa da
plenitude do estio.
Os mandacarus ( cereus jaramacaru ),
atingindo notável altura, raro aparecendo em grupos, assomando isolados acima
da vegetação caótica, são novidade atraente, a princípio. Atuam pelo
contraste. Aprumam-se tesos triunfalmente, enquanto por toda a banda a flora
se deprime. O olhar, perturbado pelo acomodar-se à contemplação penosa dos
acervos de ramalhos estorcidos, descansa e retifica-se percorrendo os seus
caules direitos e corretos. No fim de algum tempo, porém, são uma obsessão
acabrunhadora. Gravam em tudo monotonia inaturável, sucedendo-se constantes,
uniformes, idênticos todos, todos do mesmo porte, igualmente afastados,
distribuídos com uma ordem singular pelo deserto.
Os xiquexiques (cactus peruvianus) são
uma variante de proporções inferiores, fracionando-se em ramos fervilhantes de
espinhos, recurvos e rasteiros, recamados de flores alvíssimas. Procuram os
lugares ásperos e ardentes. São os vegetais clássicos dos areais queimosos.
Aprazem-se no leito abrasante das lajens graníticas feridas pelos sóis.
Têm como sócios inseparáveis neste
habitat, que as próprias orquídeas evitam, os cabeças-de-frade, deselegantes e
monstruosos melocactos de forma elipsoidal, acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior formado uma flor única intensamente
rubra. Aparecem de modo inexplicável, sobre a pedra nua, dando, realmente, no
tamanho, na conformação, no modo por que se espalham, a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo, numa desordem
trágica. É que estreitíssima frincha lhes permitiu insinuar, através da rocha,
a raiz longa e capilar até a parte inferior, onde acaso existam, livres de
evaporação, uns restos de umidade.
E a vasta família, revestindo todos os
aspectos, decai, a pouco e pouco, até aos quipás reptantes, espinhosos,
humílimos, trançados sobre a terra à maneira de espartos de um capacho
dilacerador; às ripsalides serpeantes, flexuosas, como víboras verdes pelos
ramos, de parceria com os frágeis cactos epifitas, de um glauco empalecido,
presos por adligantes aos estipites dos ouricurizeiros, fugindo do solo
bárbaro para o remanso da copa da palmeira.
Aqui, ali, outras modalidades: as
palmatórias-do-inferno opúntias de palmas diminutas, diabolicamente erriçadas
de espinhos - com o vivo carmim das cochonilhas que alimentam; orladas
de flores rutilantes, quebrando alacremente a tristeza solene das
paisagens...
E pouco mais especializa quem anda,
pelos dias claros, por aqueles ermos, entre árvores sem folhas e sem flores.
Toda a flora, como em uma derrubada, se mistura em baralhamento indescritível.
É a catanduva, mato doente, da etimologia indígena, dolorosamente caída sobre
o seu terrível leito de espinhos !
Vingado um cômoro qualquer, postas em
torno as vistas, perturba-as o mesmo cenário desolador: a vegetação
agonizante, doente e informe, exausta, num espasmo doloroso...
É a sylva oestu aphylla, a sylva
borrida, de Martius, abrindo no seio iluminado da natureza tropical um vácuo
de deserto.
Compreende-se, então, a verdade da
frase paradoxal, de Aug. de Saint-Hilaire: "Há, ali, toda a melancolia dos
invernos, com um sol ardente e os ardores do verão!"
A luz crua dos dias longos flameja
sobre a terra imóvel e não a anima. Reverberam as infiltrações de quartzo
pelos cerros calcários, desordenadamente esparsos pelos ermos, num alvejar de
banquises; e, oscilando à ponta dos ramos secos das árvores inteiriçadas,
dependuram-se as tilândsias alvacentas, lembrando flocos esgarçados, de neve,
dando ao conjunto o aspecto de uma paisagem glacial de vegetação hibernante,
nos gelos . . .
A tormenta
Mas no empardecer de uma tarde
qualquer, de março, rápidas tardes sem crepúsculos, prestes afogadas na noite,
as estrelas pela primeira vez cintilam vivamente.
Nuvens volumosas abarreiram ao longe os
horizontes, recortando-os em relevos imponentes de montanhas negras.
Sobem vagarosamente; incham, bolhando
em lentos e desmesurados rebojos, na altura; enquanto os ventos tumultuam nos
plainos, sacudindo e retorcendo as galhadas.
Embruscado em minutos, o firmamento
golpeia-se de relâmpagos precípites, sucessivos, sarjando fundamente a
imprimadura negra da tormenta. Reboam ruidosamente as trovoadas fortes. As
bátegas de chuva tombam grossas, espaçadamente, sobre o chão, adunando-se logo
em aguaceiro diluviano...
Ressurreição da flora
E ao tornar da travessia o viajante,
pasmo, não vê mais o deserto.
Sobre o solo, que as amarílis atapetam,
ressurge triunfalmente a flora tropical.
É uma mutação de apoteose.
Os mulungus rotundos, à borda das
cacimbas cheias, estafolhas; as caraíbas e baraúnas altas refrondescem à
margem dos ribeirões refertos; ramalham, ressoantes, os marizeiros esgalhados,
à passagem das virações suaves; assomam, vivazes, amortecendo as truncaduras
das quebradas, as quixabeiras de folhas pequeninas e frutos que lembram contas
de ônix; mais virentes, adensam-se os icozeiros pelas várzeas, sob o ondular
festivo das copas dos ouricuris: ondeiam, móveis, avivando a paisagem,
acamando-se nos plainos, arredondando as encostas, as moitas floridas do
alecrim-dos-tabuleiros, de caules finos e flexíveis; as umburanas perfumam os
ares, filtrando-os nas frondes enfolhadas, e - dominando a
revivescência geral - não já pela altura senão pelo gracioso do porte,
os umbuzeiros alevantam dois metros sobre o chão, irradiantes em círculo, os
galhos numerosos.
O umbuzeiro
É a árvore sagrada do sertão. Sócia
fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa
o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja. Foi, talvez, de talhe
mais vigoroso e alto - e veio descaindo, pouco a pouco, numa
interdecadência de estios flamívomos e invernos torrenciais, modificando-se à
feição do meio, desinvoluindo, até se preparar para a resistência e reagindo,
por fim, desafiando as secas duradouras, sustentando-se nas quadras miseráveis
mercê da energia vital que economiza nas estações benéficas das reservas
guardadas em grande cópia nas raízes.
E reparte-as com o homem. Se não
existisse o umbuzeiro aquele trato de sertão, tão estéril que nele escasseiam
os carnaubais tão providencialmente dispersos nos que o convizinham até ao
Ceará, estaria despovoado. O umbu é para o infeliz matuto que ali vive o mesmo
que a mauritia para os garaunos dos llanos.
Alimenta-o e mitiga-lhe a sede.
Abre-lhe o seio acariciador e amigo, onde os ramos recurvos e entrelaçados
parecem de propósito feitos para a armação das redes bamboantes. E ao chegarem
os tempos felizes dá-lhe os frutos de sabor esquisito para o preparo da
umbuzada tradicional.
O gado, mesmo nos dias de abastança,
cobiça o sumo acidulado das suas folhas. Realça-se-lhe, então, o porte,
levantada, em recorte firme, a copa arredondada, num plano perfeito sobre o
chão, à altura atingida pelos bois mais altos, ao modo de plantas ornamentais
entregues à solicitude de práticos jardineiros. Assim decotadas semelham
grandes calotas esféricas. Dominam a flora sertaneja nos tempos felizes, como
os cereus melancólicos nos paroxismos estivais.
A jurema
As juremas, prediletas dos caboclos
- o seu haxixe capitoso, fornecendo-lhes, grátis, inestimável
beberagem, que os revigora depois das caminhadas longas, extinguindo-lhes as
fadigas em momentos, feito um filtro mágico - derramam-se em sebes,
impenetráveis tranqueiras disfarçadas em folhas diminutas; refrondam os
marizeiros raros - misteriosas árvores que pressagiam a volta das
chuvas e das épocas aneladas do "verde" e o termo da "magrém" - quando,
em pleno flagelar da seca, Ihes porejam na casca ressequida dos troncos
algumas gotas d'água; reverdecem os angicos; lourejam os juás em moitas, e as
baraúnas de flores em cachos, e os araticuns à ourela dos banhados... mas,
destacando-se, esparsos pelas chapadas, ou no bolear dos cerros, os
umbuzeiros, estrelando flores alvíssimas, abrolhando em folhas, que passam em
fugitivos cambiantes de um verde pálido ao róseo vivo dos rebentos novos,
atraem melhor o olhar, são a nota mais feliz do cenário deslumbrante.
O sertão é um paraíso
E o sertão é um paraíso...
Ressurge ao mesmo tempo a fauna
resistente das caatingas: disparam pelas baixadas úmidas os caititus esquivos;
passam, em varas, pelas tigüeras num estrídulo estrepitar de maxilas
percutindo, os queixadas de canela ruiva; correm pelos tabuleiros altos, em
bandos, esporeando-se com os ferrões de sob as asas, as emas velocíssimas; e
as seriemas de vozes lamentosas, e as sericóias vibrantes, cantam nos
balsedos, à fimbria dos banhados onde vem beber o tapir estacando um momento
no seu trote, brutal, inflexivelmente retilíneo, pela caatinga, derribando
árvores; e as próprias suçuaranas, aterrando os mocós espertos que se aninham
aos pares, nas luras dos fraguedos, pulam, alegres, nas macegas altas, antes
de quedarem nas tocaias traiçoeiras aos veados ariscos ou novilhos
desgarrados...
Manhãs sertanejas
Sucedem-se manhãs sem par, em que o
irradiar do levante incendido retinge a púrpura das eritrinas e destaca
melhor, engrinaldando as umburanas de casca arroxeada, os festões multicores
das bignônias. Animam-se os ares numa palpitação de asas, céleres, ruflando.
- Sulcam-nos as notas de clarins estranhos. Num tumultuar de
desencontrados vôos passam, em bandos, as pombas bravas que remigram, e rolam
as turbas turbulentas das maritacas estridentes... enquanto feliz, deslembrado
de mágoas, segue o campeiro pelos arrastadores, tangendo a boiada farta, e
entoando a cantiga predileta...
Assim se vão os dias.
Passam-se um, dois, seis meses
venturosos, derivados da exuberância da terra, até que surdamente,
imperceptivelmente, num ritmo maldito, se despeguem, a pouco e pouco, e caiam,
as folhas e as flores, e a seca se desenhe outra vez nas ramagens mortas das
árvores decíduas...
Capítulo V
Uma categoria geográfica que Hegel não citou. Como se faz um
deserto. Como se extingue o deserto. O martírio secular da terra.
Resumamos, enfeixemos estas linhas
esparsas.
Hegel delineou três categorias
geográficas como elementos fundamentais colaborando com outros no reagi: sobre
o homem, criando diferenciações étnicas:
As estepes de vegetação tolhiça, ou
vastas planícies áridas; os vales férteis, profusamente irrigados; os litorais
e as ilhas.
Os llanos da Venezuela; as savanas que
alargam o vale do Mississípi, os pampas desmedidos e o próprio Atacama
desatado sobre os Andes - vasto terraço onde vagueiam dunas -
inscrevem-se rigorosamente nos primeiros.
Em que pese aos estios longos, as
trombas formidáveis de areia, e ao saltear de súbitas inundações, não se
incompatibilizam com a vida.
Mas não fixam o homem à terra.
A sua flora rudimentar, de gramíneas e
ciperáceas, reviçando vigorosa nas quadras pluviosas, é um incentivo à vida
pastoril, às sociedades errantes dos pegureiros, passando móveis, num
constante armar e desarmar de tendas, por aqueles plainas - rápidas,
dispersas aos primeiros fulgores do verão.
Não atraem. Patenteiam sempre o mesmo
cenário de uma monotonia acabrunhadora, com a variante única da cor: um oceano
imóvel, sem vagas e sem praias.
Têm a força centrífuga do deserto:
repelem; desunem; dispersam. Não se podem ligar a humanidade pelo vinculo
nupcial do sulco dos arados. São um isolador étnico como as cordilheiras e o
mar, ou as estepes da Mongólia, varejadas, em corridas doidas, pelas catervas
turbulentas dos tártaros errabundos.
Aos sertões do Norte, porém, que à
primeira vista se lhes equiparam, falta um lugar no quadro do pensador
germânico.
Ao atravessá-los no estio, crê-se que
entram, de molde, naquela primeira subdivisão; ao atravessá-los no inverno,
acredita-se que são parte essencial da segunda.
Barbaramente estéreis; maravilhosamente
exuberantes...
Na plenitude das secas são
positivamente o deserto. Mas quando estas não se prolongam ao ponto de
originarem penosíssimos êxodos, o homem luta como as árvores, com as reservas
armazenadas nos dias de abastança e, neste combate feroz, anônimo,
terrivelmente obscuro, afogado na solidão das chapadas, a natureza não o
abandona de todo. Ampara-o muito além das horas de desesperança, que
acompanham o esgotamento das últimas cacimbas.
Ao sobrevir das chuvas, a terra, como
vimos, transfigura-se em mutações fantásticas, contrastando com a desolação
anterior. Os vales secos fazem-se rios. Insulam-se os cômoros escalvados,
repentinamente verdejantes. A vegetação recama de flores, cobrindo-os, os
grotões escancelados, e disfarça a dureza das barrancas, e arredonda em
colinas os acervos de blocos disjungidos - de sorte que as chapadas
grandes, intermeadas de convales, se ligam em curvas mais suaves aos
tabuleiros altos. Cai a temperatura. Com o desaparecer das soalheiras anula-se
a secura anormal dos ares. Novos tons na paisagem: a transparência do espaço
salienta as linhas mais ligeiras, em todas as variantes da forma e da cor.
Dilatam-se os horizontes. O firmamento
sem o azul carregado dos desertos alteia-se, mais profundo, ante o expandir
revivescente da terra.
E o sertão é um vale fértil. É um pomar
vastíssimo, sem dono.
Depois tudo isto se acaba. Voltam os
dias torturantes; a atmosfera asfixiadora; o empedramento do solo; a nudez da
flora; e nas ocasiões em que os estios se ligam sem a intermitência das chuvas
- o espasmo assombrador da seca.
A natureza compraz-se em um jogo de
antíteses.
Eles impõem por isto uma divisão
especial naquele quadro. A mais interessante e expressiva de todas -
posta, como mediadora, entre os vales nimiamente férteis e as estepes mais
áridas.
Relegando a outras páginas a sua
significação como fator de diferenciação étnica, vejamos o seu papel na
economia da terra.
A natureza não cria normalmente os
desertos. Combate-os, repulsa-os. Desdobram-se, lacunas inexplicáveis, às
vezes sob as linhas astronômicas definidoras da exuberância máxima da vida.
Expressos no tipo clássico do Saara - que é um termo genérico da região
maninha dilatada do Atlântico ao Indico, entrando pelo Egito e pela Síria,
assumindo todos os aspectos da enorme depressão africana ao plateau arábico
ardentíssimo de Nedjed e avançando daí para as areias dos bejabans, na Pérsia
- são tão ilógicos que o maior dos naturalistas lobrigou a gênese
daquele na ação tumultuaria de um cataclismo, uma irrupção do Atlântico,
precipitando-se, águas revoltas, num irresistível remoinhar de correntes,
sobre o Norte da- África e desnudando-a furiosamente.
Esta explicação de Humboldt, embora se
erija apenas como hipótese brilhante, tem um significado superior.
Extinta a preponderância do calor
central e normalizados os climas, do extremo norte e do extremo sul, a partir
dos pólos inabitáveis, a existência vegetativa progride para a linha
equinocial. Sob esta ficam as zonas exuberantes por excelência, onde os
arbustos de outras se fazem árvores e o regímen, oscilando em duas estações
únicas, determina uniformidade favorável à evolução dos organismos simples,
presos diretamente às variações do meio. A fatalidade astronômica da
inclinação da eclética, que coloca a Terra em condições biológicas inferiores
às de outros planetas, mal se percebe nas paragens onde uma montanha única
sintetiza, do sopé às cumeadas, todos os climas do mundo.
Entretanto, por elas passa,
interferindo a fronteira ideal dos hemisférios, o equador termal, de traçado
perturbadíssimo de inflexões vivas, partindo-se nos pontos singulares em que a
vida é impossível; passando dos desertos às florestas, do Saara, que o repuxa
para o norte, à Índia opulentíssima, depois de tangenciar a ponta meridional
da Arábia paupérrima; varando o Pacífico num longo traço - rarefeito
colar de ilhas desertas e escalvadas - e abeirando, depois, em lento
descambar para o sul, a Hilae portentosa do Amazonas.
Da extrema aridez à exuberância
extrema...
É que a morfologia da terra viola as
leis gerais dos clima. Mas todas as vezes que o facies geográfico não as
combate de todo a natureza reage. Em luta surda, cujos efeitos fogem ao
próprio raio dos ciclos históricos, mas emocionante, para quem consegue
lobrigá-la ao, através de séculos sem conto, entorpecida sempre pelos agentes
adversos, mas tenaz, incoercível, num evolver seguro, a terra como um
organismo, se transmuda por intuscepção, indiferente aos elementos que lhe
tumultuam à face.
De sorte que se as largas depressões
eternamente condenadas, a exemplo da Austrália, permanecem estéreis se anulam,
noutros pontos, os desertos.
A própria temperatura abrasada acaba
lhes dar um mínimo de pressão atraindo o afluxo das chuvas; e as areias
móveis, riscadas pelos ventos, negando largo tempo a pega à planta mais
humilde, imobilizam-se, a pouco e pouco, presas nas radículas das gramíneas; o
chão ingrato e a rocha estéril decaem sob a ação imperceptível dos líquens,
que preparam a vinda das lecídeas frágeis; e por fim, os platôs desnudos,
llanos e pampas de vegetação escassa, as savanas e as estepes mais vivazes da
Ásia Central, surgem, num crescendo, refletindo sucessivas fases de
transfigurações maravilhosas.
Como se faz um deserto
Ora, os sertões do Norte, a despeito de
uma esterilidade menor, contrapostos a este critério natural, figuram talvez o
ponto singular de uma evolução regressiva.
Imaginamo-los há pouco, numa
retrospecção em que, certo, a fantasia se insurgiu contra a gravidade da
ciência, a emergirem, geologicamente modernos, de um vasto mar terciário.
À parte essa hipótese absolutamente
instável, porém, o certo é que um complexo de circunstâncias lhes tem
dificultado regímen contínuo, favorecendo flora mais vivaz.
Esboçamos anteriormente algumas.
Esquecemo-nos, todavia, de um agente
geológico notável - o homem.
Este, de fato, não raro reage
brutalmente sobre a terra e entre nós, nomeadamente, assumiu, em todo o
decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos.
Começou isto por um desastroso legado
indígena.
Na agricultura primitiva dos silvícolas
era instrumento fundamental - o fogo.
Entalhadas as árvores pelos cortantes
dgis de diorito; encoivarados, depois de secos, os ramos, alastravam-lhes por
cima, crepitando, as caiçaras, em bulcão de fumo, tangidas pelos ventos.
Inscreviam, depois, nas cercas de troncos combustos das caiçaras, a área em
cinzas onde fora a mata exuberante. Cultivavam-na. Renovavam o mesmo processo
na estação seguinte, até que, de todo exaurida, aquela mancha da terra fosse,
imprestável, abandonada em caapuera - mato extinto - como o
denuncia a etimologia tupi, jazendo dali por diante irremediavelmente estéril
porque, por uma circunstância digna de nota, as famílias vegetais que surgiam
subsecutivamente no terreno calcinado eram sempre de tipos arbustivos
enfezados, de todo distintos dos da selva primitiva. O aborígine prosseguia
abrindo novas roças, novas derrubadas, novas queimas, alargando o círculo dos
estragos em novas caapueras, que ainda uma vez deixava para formar outras
noutros pontos, aparecendo maninhas, num evolver enfezado, inaptas para reagir
com os elementos exteriores, agravando, à medida que se ampliavam, os rigores
do próprio clima que as flagelava, e entretecidas de carrascais, afogadas em
macegas, espelhando aqui o aspecto adoentado da catanduva sinistra, além a
braveza convulsiva da caatinga brancacenta.
Veio depois o colonizador e copiou o
mesmo proceder. Engravesceu-o ainda com o adotar, exclusivo, no centro do
país, fora da estreita faixa dos canaviais da costa, o regímen francamente
pastoril.
Abriram-se desde o alvorecer do século
17, nos sertões abusivamente sesmados, enormíssimos campos, compáscuos sem
divisas, estendendo-se pelas chapadas em fora.
Abria-os, de idêntico modo, o fogo
livremente aceso, sem aceiros, avassalando largos espaços, solto nas lufadas
violentas do nordeste. Aliou-se-lhe ao mesmo tempo o sertanista ganancioso e
bravo, em busca do silvícola e do ouro. Afogado nos recessos de uma flora
estupenda que lhe escurentava as vistas e sombreava perigosamente as tocaias
do tapuia e as tocas do canguçu temido, dilacerou-a golpeando-a de chamas,
para desafogar os horizontes e destacar bem perceptíveis, tufando nos
descampados limpos, as montanhas que o norteavam, balizando a marcha das
bandeiras.
Atacou a fundo a terra, escarificando-a
nas explorações a céu aberto; esterilizou-a com os lastros das grupiaras;
feriu-a a pontaços de alvião; degradou-a corroendo-a com as águas selvagens
das torrentes; e deixou, aqui, ali, em toda parte, para sempre estéreis,
avermelhando nos ermos com o intenso colorido das argilas revolvidas, onde não
medra a planta mais exígua, as grandes catas, vazias e tristonhas, com a sua
feição sugestiva de imensas cidades mortas, derruídas...
Ora, estas selvatiquezas atravessaram
toda a nossa história. Ainda em meados deste século, no atestar de velhos
habitantes das povoações ribeirinhas do S. Francisco, os exploradores que em
1830 avançaram, a partir da margem esquerda daquele rio, carregando em
vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente,
alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo
batedor sinistro, o incêndio. Durante meses seguidos viu-se no poente,
entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.
Imaginem-se os resultados de semelhante
processo aplicado, sem variantes, no decorrer de séculos...
Previu-os o próprio governo colonial.
Desde 1713 sucessivos decretos visaram opor-lhes paradeiros. E ao terminar a
seca lendária de 1791-1792, a "grande seca", como dizem ainda os velhos
sertanejos, que sacrificou todo o Norte, da Bahia ao Ceará, o governo da
metrópole figura-se tê-la atribuído aos inconvenientes apontados,
estabelecendo desde logo, como corretivo único, severa proibição ao corte das
florestas.
Esta preocupação dominou-o por muito
tempo. Mostram-no-lo as cartas régias de 17 de março de 1796, nomeando um juiz
conservador das matas; e a de 11 de junho de 1799, decretando que "se coíba a
indiscreta e desordenada ambição dos habitantes ( da Bahia e Pernambuco ) que
têm assolado a ferro e fogo preciosas matas... que tanto abundavam e já hoje
ficam a distancias consideráveis etc.".
Aí estão dizeres preciosos relativos
diretamente à região que palidamente descrevemos.
Há outros, cômpares na eloqüência.
Deletreando-se antigos roteiros dos
sertanistas do Norte, destemerosos caatingueiros que pleiteavam parelhas com
os bandeirantes do Sul, nota-se a cada passo uma alusão incisiva à bruteza das
paragens que atravessavam, perquirindo as chapadas, em busca das "minas de
prata" de Melchior Moreia - e passando quase todos à margem do sertão
de Canudos, com escala em Monte Santo, então o Pico-araçá dos tapuias. E falam
nos "campos frios" ( certamente à noite, pela irradiação intensa do solo
desabrigado ) cortando léguas de caatinga sem água nem caravatá que a tivesse
e com raízes de umbu e mandacaru, remediando a gente" no penoso desbravar das
veredas .
Já nessa época, como se vê, tinham
função proverbial às plantas, para as quais, hoje, apelam os nossos
sertanejos.
É que o mal é antigo. Colaborando com
os elementos meteorológicos, com o nordeste, com a sucção dos estratos, com as
canículas, com a erosão eólia, com as tempestades subitâneas - o homem
fez-se uma componente nefasta entre as forças daquele clima demolidor. Se o
não criou, transmudou-o, agravando-o. Deu um auxiliar à degradação das
tormentas, o machado do caatingueiro; um supletivo à insolação, a
queimada.
Fez, talvez, o deserto. Mas pode
extingui-lo ainda, corrigindo o passado. E a tarefa não é insuperável. Di-lo
uma comparação histórica.
Como se extingue o deserto
Quem atravessa as planícies elevadas da
Tunísia, entre Beja e Biserta, à ourela do Saara, encontra ainda, no
desembocar dos vales, atravessando normalmente o curso caprichoso e em
torcicolos dos oueds, restos de antigas construções romanas. Velhos muradais
derruídos, embrechados de silhares e blocos rolados, cobertos em parte pelos
detritos de enxurros de vinte séculos, aqueles legados dos grandes
colonizadores delatam a um tempo a sua atividade inteligente e o desleixo
bárbaro dos árabes que os substituíram.
Os romanos depois da tarefa da
destruição de Cartago tinham posto ombros à empresa incomparavelmente mais
séria de vencer a natureza antagonista. E ali deixaram belíssimo traço de sua
expansão histórica.
Perceberam com segurança o vício
original da região, estéril menos pela escassez das chuvas do que pela sua
péssima distribuição adstrita aos relevos topográficos. Corrigiram-no. O
regímen torrencial que ali aparece, intensíssimo em certas quadras,
determinando alturas pluviométricas maiores que as de outros países férteis e
exuberantes, era, como nos sertões do nosso país, além de inútil, nefasto.
Caía sobre a terra desabrigada, desarraigando a vegetação mal presa a um solo
endurecido; turbilhonava por algumas semanas nos regatos transbordantes,
alagando as planícies; e desaparecia logo, derivando em escarpamentos, pelo
norte e pelo levante, no Mediterrâneo, deixando o solo, depois de uma
revivescência transitória, mais desnudo e estéril. O deserto, ao sul, parecia
avançar, dominando a paragem toda, vingando-lhe os últimos acidentes que não
tolhiam a propulsão do simum.
Os romanos fizeram-no recuar.
Encadearam as torrentes; represaram as correntezas fortes, e aquele regímen
brutal, tenazmente combatido e bloqueado, cedeu, submetido inteiramente, numa
rede de barragens. Excluído o alvitre de irrigações sistemáticas dificílimas,
conseguiram que as águas permanecessem mais longo tempo sobre a terra. As
ravinas recortando-se em gânglios estagnados dividiram-se açudes abarreirados
pelas muralhas que trancavam os vales, e os oueds, parando, intumesciam-se
entre os morros, conservando largo tempo as grandes massas líquidas, até então
perdidas, ou levando-as, no transbordarem, em canais laterais aos lugares
próximos mais baixos, onde se abriam em sangradouros e levadas, irradiantes
por toda a parte, e embebendo o solo. De sorte que este sistema de represas,
além de outras vantagens, criara um esforço de irrigação geral. Ademais, todas
aquelas superfícies líquidas esparsas em grande número e não resumidas a um
Quixadá único - monumental e inútil - expostas à evaporação,
acabaram reagindo sobre o clima, melhorando-o. Por fim a Tunísia, onde haviam
aproado os filhos prediletos dos fenícios, mas que até então se reduzira a um
litoral povoado de traficantes ou númidas erradios, com suas tendas de tetos
curvos branqueando nos ares como quilhas encalhadas - se fez,
transfigurada, a terra clássica da agricultura antiga. Foi o celeiro da
Itália; a fornecedora quase exclusiva, de trigo, dos romanos.
Os franceses, hoje, copiam-lhes em
grande parte os processos, sem necessitarem alevantar muramentos monumentais e
dispendiosos. Represam por estacadas, entre muros de pedras secas e terras, à
maneira de palancas, os oueds mais bem dispostos, e talham pelo alto das suas
bordas, em toda à largura das serranias que os ladeiam, condutos derivando
para os terrenos circunjacentes, em redes irrigadoras.
Deste modo as águas selvagens estacam,
remansam-se, sem adquirir a força acumulada das inundações violentas,
disseminando-se, afinal, estas, amortecidas, em milhares de válvulas, pelas
derivações cruzadas. E a histórica paragem, liberta da apatia do moslim
inerte, transmuda-se volvendo de novo à fisionomia antiga. A França salva os
restos da opulenta herança da civilização romana, depois desse declínio de
séculos.
*
Ora, quando se traçar, sem grande
precisão embora, a carta hipsométrica dos sertões do Norte, ver-se-á que eles
se apropriam a uma tentativa idêntica, de resultados igualmente seguros.
A. idéia não é nova. Sugeriu-a há
muito, em memoráveis sessões do Instituto Politécnico do Rio, em 1877, o belo
espírito do conselheiro Beaurepaire Rohan, talvez sugestionado pelo mesmo
símile, que acima apontamos.
Das discussões então travadas onde se
enterreiraram os melhores cientistas do tempo - da sólida experiência
de Capanema à mentalidade rara de André Rebouças - foi a única coisa
prática, factível, verdadeiramente útil que ficou.
Idearam-se, naquela ocasião, luxuosas
cisternas de alvenarias; miríades de poços artesianos, perfurando as chapadas;
depósitos colossais ou armazéns desmedidos para as reservas acumuladas; açudes
vastos, feitos cáspios artificiais; e por fim, como para caracterizar bem o
desbarate completo da engenharia, ante a enormidade do problema, estupendos
alambiques para a destilação das águas do Atlântico!…
O alvitre mais modesto porém, efeito
imediato de um ensinamento histórico, sugerido pelo mais elementar dos
exemplos, suplanta-os. Porque é, além de prático, evidentemente o mais
lógico.
O martírio secular da terra
Realmente, entre os agentes
determinantes da seca se intercalam, de modo apreciável, a estrutura e a
conformação do solo. Qualquer que seja a intensidade das causas complexas e
mais remotas que anteriormente esboçamos, a influência daquelas é manifesta
desde que se considere que a capacidade absorvente e emissiva dos terrenos
expostos, a inclinação dos estratos, que os retalham, e a rudeza dos relevos
topográficos, agravam, do mesmo passo, a crestadura dos estios e a degradação
intensiva das torrentes. De sorte que, saindo das insolações demoradas para as
inundações subitâneas, a terra, mal protegida por uma vegetação decídua, que
as primeiras requeimam e as segundas erradicam, se deixa, a pouco e pouco,
invadir pelo regímen francamente desértico.
As fortes tempestades que apagam o
incêndio surdo das secas, em que pese à revivescência que acarretam, preparam
de algum modo a região para maiores vicissitudes. Desnudam-na rudemente,
expondo-a cada vez mais desabrigada aos verões seguintes; sulcam-na numa
molduragem de contornos ásperos; golpeiam-na e esterilizam-na; e, ao
desaparecerem, deixam-na ainda mais desnuda ante a adustão dos sóis. O regímen
decorre num intermitir deplorável, que lembra um círculo vicioso de
catástrofes.
Deste modo a medida única a adotar-se
deve consistir no corretivo destas disposições naturais. Pondo de lado os
fatores determinantes do flagelo, oriundos da fatalidade de leis astronômicas
ou geográficas inacessíveis à intervenção humana, são, aquelas, as únicas
possíveis de modificações apreciáveis.
O processo que indicamos, em breve
recordação histórica, pela sua própria simplicidade dispensa inúteis
pormenores técnicos.
A França copia-o hoje, sem variantes,
revivendo o traçado de construções velhíssimas.
Abarreirados os vales, inteligentemente
escolhidos, em pontos pouco intervalados, por toda a extensão do território
sertanejo, três conseqüências inevitáveis decorreriam: atenuar-se-iam de modo
considerável a drenagem violenta do solo e as suas conseqüências lastimáveis;
formar-se-lhes-iam à ourela, inscritas na rede das derivações, fecundas áreas
de cultura; e fixar-se-ia uma situação de equilíbrio para a instabilidade do
clima, porque os numerosos e pequenos açudes, uniformemente distribuídos e
constituindo dilatada superfície de evaporação, teriam, naturalmente, no
correr dos tempos, a influência moderadora de um mar interior, de importância
extrema.
Não há alvitrar-se outro recurso. As
cisternas, poços artesianos e raros, ou longamente espaçados lagos como o de
Quixadá, têm um valor local, inapreciável. Visam, de um modo geral, atenuar a
última das conseqüências da seca - a sede; e o que há a combater e a
debelar nos sertões do Norte - é o deserto.
O martírio do homem, ali, é reflexo de
tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da Vida.
Nasce do martírio secular da terra…
O HOMEM
Capítulo I
Complexidade do problema etnológico no Brasil.
Variabilidade do meio físico e sua reflexão na História. Ação do meio na
fase inicial da formação das raças. A formação brasileira no
Norte.
Adstrita às influências que mutuam, em
graus variáveis, três elementos étnicos, a gênese das raças mestiças do Brasil
é um problema que por muito tempo ainda desafiará o esforço dos melhores
espíritos.
Está apenas delineado.
Entretanto no domínio das investigações
antropológicas brasileiras se encontram nomes altamente encarecedores do nosso
movimento intelectual. Os estudos sobre a pré-história indígena patenteiam
modelos de obervação sutil e conceito critico brilhante, mercê dos quais
parece definitivamente firmado, contravindo ao pensar dos caprichosos
construtores da ponte alêutica, o autoctonismo das raças americanas.
Neste belo esforço, rematado pela
profunda elaboração paleontológica de Wilhelm Lund, destacam-se o nome de
Morton, a intuição genial de Frederico Hartt, a inteiriça organização
cientifica de Meyer, a rara lucidez de Trajano de Moura, e muitos outros cujos
trabalhos reforçam os de Nott e Gordon no definir, de uma maneira geral mas
completa, a América como um centro de criação desligado do grande viveiro da
Ásia Central. Erige-se autônomo entre as raças o homo americanus.
A face primordial da questão ficou
assim aclarada. Que resultem do "homem da Lagoa Santa" cruzado com o
pré-colombiano dos sambaquis; ou se derivem, altamente modificados por
ulteriores cruzamentos e pelo meio, de alguma raça invasora do Norte, de que
se supõe oriundos os tupis tão numerosos na época do descobrimento - os
nossos silvícolas, com seus frisantes caracteres antropológicos, podem ser
considerados tipos evanescentes de velhas raças autóctones da nossa terra.
Esclarecida deste modo a preliminar da
origem do elemento indígena, as investigações convergiram para a definição da
sua psicologia especial; e enfeixaram-se, ainda, em algumas conclusões
seguras.
Não precisamos revivê-las. Sobre
faltar-nos competência. nos desviaríamos muito de um objetivo prefixado.
Os dois outros elementos formadores,
alienígenas, não originaram idênticas tentativas. O negro banto, ou catre, com
as suas várias modalidades, foi até neste ponto o nosso eterno desprotegido.
Somente nos últimos tempos um investigador tenaz, Nina Rodrigues, subordinou a
uma análise cuidadosa a sua religiosidade original e interessante. Qualquer,
porém, que tenha sido o ramo africano para aqui transplantado trouxe, certo,
os atributos preponderantes do homo afer, filho das paragens adustas e
bárbaras, onde a seleção natural, mais que em quaisquer outras, se faz pelo
exercício intensivo da ferocidade e da força.
Quanto ao fator aristocrático de nossa
gens, o português, que nos liga à vibrátil estrutura intelectual do celta,
está, por sua vez, malgrado o complicado caldeamento de onde emerge, de todo
caracterizado.
Conhecemos, deste modo, os três
elementos essenciais, e, imperfeitamente embora, o meio físico diferenciados
- e ainda, sob todas as suas formas; as condições históricas adversas
ou favoráveis que sobre eles reagiram. No considerar, porém, todas as
alternativas e todas as fases intermédias desse entrelaçamento de tipos
antropológicos de graus díspares nos atributos físicos e psíquicos, sob os
influxos de um meio variável, capaz de diversos climas, tendo discordantes
aspectos e apostas condições de vida, pode afirmar-se que pouco nos temos
avantajado. Escrevemos todas as variáveis de uma fórmula intricada, traduzindo
sério problema; mas não desvendamos todas as incógnitas.
É que, evidentemente, não basta, para o
nosso caso, que postos uns diante de outros o negro banto, o indo-guarani e o
branco, apliquemos ao conjunto a lei antropológica de Broca. Esta é abstrata e
irredutível. Não nos diz quais os reagentes que podem atenuar o influxo da
raça mais numerosa ou mais forte, e causas que o extingam ou atenuem quando ao
contrário da combinação binária, que pressupõe, despontam três fatores
diversos, adstritos às vicissitudes da história e dos climas.
É uma regra que nos orienta apenas no
indagarmos a verdade. Modifica-se, como todas as leis, à pressão dos dados
objetivos. Mas ainda quando por extravagante indisciplina mental alguém
tentasse aplicá-la, de todo despeada da intervenção daqueles, não
simplificaria o problema.
É fácil demonstrar.
Abstraiamos de inúmeras causas
perturbadoras, e consideremos os três elementos constituintes de nossa raça em
si mesmos, intactas as capacidades que Ihes são próprias.
Vemos, de pronto, que. mesmo nesta
hipótese favorável, deles não resulta o produto único imanente às combinações
binárias, numa fusão imediata em que se justaponham ou se resumam os seus
caracteres, unificados e convergentes num tipo intermediário. Ao contrário a
combinação ternária inevitável determina, no caso mais simples, três outras,
binárias. Os elementos iniciais não se resumem, não se unificam; desdobram-se;
originam número igual de subformações - substituindo-se pelos
derivados, sem redução alguma, em uma mestiçagem embaralhada onde se destacam
como produtos mais característicos o mulato, o mamaluco ou curiboca e o cafuz
. As sedes iniciais das indagações deslocam-se apenas mais perturbadas, graças
a reações que não exprimem uma redução, mas um desdobramento. E o estudo
destas subcategorias substitui o das raças elementares agravando-o e
dificultando-o, desde que se considere que aquelas comportam, por sua vez,
inúmeras modalidades consoante as dosagens variáveis do sangue.
O brasileiro, tipo abstrato que se
procura, mesmo no caso favorável acima firmado, só pode surdir de um
entrelaçamento consideravelmente complexo.
Teoricamente ele seria o pardo, para
que convergem os cruzamentos do mulato, do curiboca e do cafuz.
Avaliando-se, porém, as condições
históricas que têm atuado, diferentes nos diferentes tratos do território; as
disparidades climáticas que nestes ocasionam reações diversas diversamente
suportadas pelas raças constituintes; a maior ou menor densidade com que estas
cruzaram nos vários pontos do país; e atendendo-se ainda à intrusão -
pelas armas na quadra colonial e pelas imigrações em nossos dias - de
outros povos, fato que por sua vez não foi e não é uniforme, vê-se bem que a
realidade daquela formação é altamente duvidosa, senão absurda.
Como quer que seja, estas rápidas
considerações explicam as disparidades de vistas que reinam entre os nossos
antropólogos. Forrando-se, em geral, à tarefa penosa de subordinar as suas
pesquisas a condições tão complexas, têm atendido sobremaneira ao preponderar
das capacidades étnicas. Ora, a despeito da grave influência destas, e não a
negamos, elas foram entre nós levadas ao exagero, determinando a irrupção de
uma meia-ciência difundida num extravagar de fantasias, sobre ousadas,
estéreis. Há como que um excesso de subjetivismo no animo dos que entre nós,
nos últimos tempos, cogitam de coisas tão sérias com uma volubilidade algo
escandalosa, atentas as proporções do assunto. Começam excluindo em grande
parte os materiais objetivos oferecidos pelas circunstâncias mesológica e
histórica. Jogam, depois, e entrelaçam, e fundem as três raças consoante os
caprichos que os impelem no momento. E fazem repontar desta metaquímica
sonhadora alguns precipitados fictícios.
Alguns firmando preliminarmente, com
autoridade discutível, a função secundária do meio físico e decretando
preparatoriamente a extinção quase completa do silvícola e a influência
decrescente do africano depois da abolição do tráfico, prevêem a vitória final
do branco, mais numeroso e mais forte, como termo geral de uma série para o
qual tendem o mulato, forma cada vez mais diluída do negro, e o caboclo, em
que se apagam, mais depressa ainda, os traços característicos do
aborígine.
Outros dão maiores largas aos
devaneios. Ampliam a influência do último. E arquitetam fantasias que caem ao
mais breve choque da crítica: devaneios a que nem faltam a metrificação e as
rimas porque invadem a ciência na vibração rítmica dos versos de Gonçalves
Dias.
Outros vão terra a terra de mais.
Exageram a influência do africano, capaz, com efeito, de reagir em muitos
pontos contra a absorção da raça superior. Surge o mulato. Proclamam-no o mais
característico tipo da nossa subcategoria étnica.
O assunto assim vai derivando
multiforme e dúbio.
Acreditamos que isto sucede porque o
escopo essencial destas investigações se tem reduzido à pesquisa de um tipo
étnico único, quando há, certo, muitos.
Não temos unidade de raça.
Não a teremos, talvez, nunca.
Predestinamo-nos à formação de uma raça
histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional
autônoma. Invertemos, sob este aspecto, a ordem natural dos fatos. A nossa
evolução biológica reclama a garantia da evolução social.
Estamos condenados à civilização.
Ou progredimos, ou desaparecemos.
A afirmativa é segura.
Não a sugere apenas essa
heterogeneidade de elementos ancestrais. Reforça-a outro elemento igualmente
ponderável: um meio físico amplíssimo e variável, completado pelo variar de
situações históricas, que dele em grande parte decorreram.
A este propósito não será desnecessário
considerá-lo por alguns momentos.
Variabilidade do meio físico
Contravindo à opinião dos que demarcam
aos países quentes um desenvolvimento de 30° de latitude, o Brasil está longe
de se incluir todo em tal categoria. Sob um duplo aspecto, astronômico e
geográfico, aquele limite é exagerado.
Além de ultrapassar a demarcação
teórica vulgar, exclui os relevos naturais que atenuam ou reforçam os agentes
meteorológicos, criando climas equatoriais em altas latitudes ou regímens
temperados entre os trópicos. Toda a climatologia, inscrita nos amplos
lineamentos das leis cosmológicas gerais, desponta em qualquer parte adicta de
preferência às causas naturais mais próximas e particulares. Um clima é como
que a tradução fisiológica de uma condição geográfica. E definindo-o deste
modo concluímos que o nosso país, pela sua própria estrutura, se imprópria a
um regímen uniforme.
Demonstram-no os resultados mais
recentes, e são os únicos dignos de fé, das indagações meteorológicas. Estas o
subdividem em três zonas claramente distintas: a francamente tropical, que se
expande pelos Estados do Norte ao sul da Bahia, com uma temperatura média de
26°; a temperada, de S. Paulo ao Rio Grande, pelo Paraná e Santa Catarina,
entre os isotermos 15° e 20°; e como transição - a subtropical,
alongando-se pelo Centro e Norte de alguns Estados, de Minas ao Paraná.
Aí estão. claras, as divisas de três
habitats distintos.
Ora, mesmo entre as linhas mais ou
menos seguras destes despontam modalidades, que ainda os diversificam.
Indiquemo-las a traços rápidos.
A disposição orográfica brasileira,
possantes massas sublevadas que se orientam perlongando o litoral
perpendicularmente ao rumo do SE, determina as primeiras distinções em largos
tratos de território que demoram ao Oriente, criando anomalia climatológica
expressiva.
De fato, o clima aí inteiramente
subordinado aos facies geográficos viola as leis gerais que o regulam. A
partir dos trópicos para o Equador a sua caracterização astronômica, pelas
latitudes, cede às causas secundárias perturbadoras. Define-se, anormalmente,
pelas longitudes.
É um fato conhecido. Na extensa faixa
da costa, que vai da Bahia à Paraíba, se vêem transições mais acentuadas,
acompanhando os paralelos, no rumo do ocidente, do que os meridianos,
demandando o norte. As diferenças no regímen e nos aspectos naturais, que
segundo este rumo são imperceptíveis, patenteiam-se, claras, no primeiro.
Distendida até às paragens setentrionais extremas, a mesma natureza exuberante
ostenta-se sem variantes nas grandes matas que debruam a costa, fazendo que a
observação rápida do estrangeiro prefigure dilatada região vivaz e
feracíssima. Entretanto a partir do 13° paralelo as florestas mascaram vastos
territórios estéreis, retratando nas áreas desnudas as inclemências de um
clima em que os graus termométricos e higrométricos progridem em relação
inversa, extremando-se exageradamente.
Revela-o curta viagem para o ocidente,
a partir de um ponto qualquer daquela costa. Quebra-se o encanto de ilusão
belíssima. A natureza empobrece-se; despe-se das grandes matas; abdica o
fastígio das montanhas; erma-se e deprime-se - transmudando-se nos
sertões exsicados e bárbaros, onde correm rios efêmeros, e destacam-se em
chapadas nuas, sucedendo-se, indefinidas, formando o palco desmedido para os
quadros dolorosos das secas.
O contraste é empolgante.
Distantes menos de cinqüenta léguas,
apresentam-se regiões de todo opostas, criando opostas condições à vida.
Entra-se, de surpresa, no deserto.
E, certo, as vagas humanas que nos dois
primeiros séculos do povoamento embateram as plagas do Norte tiveram na
translação para o ocidente, demandando o interior, obstáculos mais sérios que
a rota agitada dos mares e das montanhas, na travessia das caatingas ralas e
decíduas. O malogro da expansão baiana, que entretanto precedera à paulista no
devassar os recessos do país, é exemplo frisante.
O mesmo não sucede, porém, dos trópicos
para o sul.
Aí a urdidura geológica da terra,
matriz de sua morfogenia interessante, persiste inalterável, abrangendo
extensas superfícies para o interior, criando as mesmas condições favoráveis,
a mesma flora, um clima altamente melhorado pela altitude, e a mesma feição
animadora dos aspectos naturais.
A larga antemural da cordilheira
granítica, derivando a prumo para o mar, nas vertentes interiores descamba
suavemente em vastos plainos ondulados.
É a escarpa abrupta e viva dos
planaltos.
Sobre estes os cenários, sem os traços
exageradamente dominadores das montanhas, revelam-se mais opulentos e amplos.
A terra patenteia essa manageability of nature, de que nos fala Buckle, e o
clima temperado quente desafia na benignidade o admirável regímen da Europa
Meridional. Não o regula mais, como mais para o norte, exclusivamente, o SE.
Rolando dos altos chapadões do interior, o NO prepondera então, em toda
extensíssima zona que vai das terras elevadas de Minas e do Rio ao Paraná,
passando por S. Paulo.
Ora, estas largas divisões, apenas
esboçadas, mostram já uma diferença essencial entre o Sul e o Norte,
absolutamente distintos pelo regímen meteorológico, pela disposição da terra e
pela transição variável entre o sertão e a costa.
Descendo à análise mais íntima
desvendaremos aspectos particulares mais incisivos ainda.
Tomemos os casos mais expressivos,
evitando extensa explanação do assunto.
Vimos em páginas anteriores que o SE,
sendo o regulador predominante do clima na costa oriental, é substituído, nos
Estados do Sul, pelo NO e nas extremas setentrionais pelo NE. Ora, estes, por
sua vez, desaparecem no âmago dos planaltos, ante o SO que, como um hausto
possante dos pampeiros, se lança pelo Mato Grosso, originando
desproporcionadas amplitudes termométricas, agravando a instabilidade do clima
continental, e submetendo as terras centrais a um regímen brutal, diverso dos
que vimos rapidamente delineando.
Com efeito, a natureza em Mato Grosso
balanceia os exageros de Buckle. É excepcional e nitidamente destacada.
Nenhuma se lhe assemelha. Toda a imponência selvagem, toda a exuberância
inconceptível, unidas à brutalidade máxima dos elementos, que o preeminente
pensador, em precipitada generalização, ideou no Brasil, ali estão francas,
rompentes em cenários portentosos. Contemplando-as, mesmo através da frieza
das observações de naturalistas pouco vezados a efeitos descritivos, vê-se que
aquele regímen climatológico anômalo é o mais fundo traço da nossa
variabilidade mesológica.
Nenhum se lhe equipara no jogar das
antíteses. A sua feição aparente é a de benignidade extrema: - a terra
afeiçoada à vida; a natureza fecunda erguida na apoteose triunfal dos dias
deslumbrantes e calmos; e o solo abrolhando em vegetação fantástica -
farto, irrigado de rios que irradiam pelos quatro pontos cardeais. Mas esta
placidez opulenta esconde, paradoxalmente, germens de cataclismos, que
irrompendo, sempre com um ritmo inquebrável, no estio, traindo-se nos mesmos
prenúncios infalíveis, ali tombam com a finalidade irresistível de uma
lei.
Mal poderemos traçá-los.
Esbocemo-los.
Depois de soprarem por alguns dias as
rajadas quentes e úmidas de NE, os ares imobilizam-se, por algum tempo,
estagnados. Então "a natureza como que se abate extática, assustada; nem as
grimpas das árvores balouçam; as matas, numa quietude medonha, parecem sólidos
inteiriços. As aves se achegam nos ninhos, suspendendo os vôos e se escondem"
.
Mas, volvendo-se o olhar para os céus,
nem uma nuvem! O firmamento límpido arqueia-se alumiado ainda por um Sol
obscurecido, de eclipse. A pressão, entretanto, decai vagarosamente, numa
descensão contínua, afogando a vida. Por momentos um cumulus compacto, de
bordas acobreado-escuras, negreja no horizonte, ao sul. Deste ponto sopra,
logo depois, uma viração, cuja velocidade cresce rápida, em ventanias fortes.
A temperatura cai em minutos e, minutos depois, os tufões sacodem
violentamente a terra. Fulguram relâmpagos; estrugem trovoadas nos céus já de
todo bruscos e um aguaceiro torrencial desce logo sobre aquelas vastas
superfícies, apagando, numa inundação única, o divortium aquarum indeciso que
as atravessa, adunando todas as nascentes dos rios e embaralhando-lhes os
leitos em alagados indefinidos...
É um assalto subitâneo. O cataclismo
irrompe arrebatadamente na espiral vibrante de um ciclone. Descolmam-se as
casas; dobram-se, rangendo, e partem-se, estalando, os carandás seculares;
ilham-se os morros; alagoam-se os plainos...
E uma hora depois o Sol irradia
triunfalmente no céu puríssimo! A passarada irrequieta descanta pelas frondes
gotejantes; suavizam os ares virações suaves - e o homem, deixando os
refúgios a que se acolhera trêmulo, contempla os estragos entre a
revivescência universal da vida. Os troncos e galhos das árvores rachadas
pelos raios, estorcidas pelos ventos; as choupanas estruídas, colmos por
terra; as últimas ondas barrentas dos ribeirões, transbordantes; a erva
acamada pelos campos, como se sobre eles passassem búfalos em tropel -
mal relembram a investida fulminante do flagelo...
Dias depois, os ventos rodam outra vez,
vagarosamente, para leste; e a temperatura começa a subir de novo; a pressão a
pouco e pouco diminui; e cresce continuamente o mal-estar, até que se reate
nos ares imobilizados a componente formidável do pampeiro e ressurja,
estrugidora, a tormenta, em rodeos turbilhonantes, enquadrada pelo mesmo
cenário lúgubre, revivendo o mesmo ciclo, o mesmo círculo vicioso de
catástrofe.
Ora - avançando para o
norte-desponta, contrastando com tais manifestações, o clima do Pará.
Os brasileiros de outras latitudes mal o compreendem, mesmo através das
lúcidas observações de Bates. Madrugadas tépidas, de 23° centígrados,
sucedendo-se inesperadamente a noites chuvosas; dias que irrompem como
apoteoses fulgurantes, revelando transmutações inopinadas: árvores, na véspera
despidas, aparecendo juncadas de flores; brejos apaulados transmudando-se em
prados. E logo depois, no círculo estreitíssimo de 24 horas, mutações
completas: florestas silenciosas, galhos mal vestidos pelas folhas requeimadas
ou murchas; ares vazios e mudos; ramos viúvos das flores recém-abertas, cujas
pétalas exsicadas se despegam e caem, mortas, sobre a terra imóvel sob o
espasmo enervante de um bochorno de 35°, à sombra. "Na manhã seguinte, o Sol
se alevanta sem nuvens e deste modo se completa o ciclo - primavera,
verão e outono num só dia tropical" .
A constância de tal clima faz que se
não percebam as estações que, entretanto, como em um índice abreviado, se
delineiam nas horas sucessivas de um só dia, sem que a temperatura quotidiana
tenha durante todo o ano uma oscilação maior que 1° ou 1°,5. Assim a vida se
equilibra numa constância imperturbável.
Entretanto, a um lado, para o ocidente,
no Alto Amazonas manifestações diversas caracterizam novo habitat. E este, não
há negá-lo, impõe aclimação penosa a todos os filhos dos próprios territórios
limítrofes.
Ali, no pleno dos estios quentes,
quando se diluem, mortas nos ares parados, as últimas lufadas de leste, o
termômetro é substituído pelo higrômetro na definição do clima. As existências
derivam numa alternativa dolorosa de vazantes e enchentes dos grandes rios.
Estas alteiam-se sempre de um modo assombrador. O Amazonas referto salta fora
do leito, levanta em poucos dias o nível das águas, de dezessete metros;
expande-se em alagados vastos, em furos, em paranamirins ,entrecruzados em
rede complicadíssima de mediterrâneo cindido de correntes fortes, dentre as
quais emergem, ilhados, os igapós verdejantes.
A enchente é unia parada na vida. Preso
nas malhas dos igarapés, o homem aguarda, então, com estoicismo raro ante a
fatalidade incoercível, o termo daquele inverno paradoxal, de temperaturas
altas. A vazante é o verão. É a revivescência da atividade rudimentar dos que
ali se agitam, do único modo compatível com uma natureza que se demasia em
manifestações dispares tornando impossível a continuidade de quaisquer
esforços.
Tal regímen acarreta o parasitismo
franco. O homem bebe o leite da vida sugando os vasos túmidos das
sifônias...
Mas neste clima singular e típico
destacam-se outras anomalias, que ainda mais o agravam. Não bastam as
intermitências de cheias e estiagens, sobrevindo rítmicas como a sístole e a
diástole da maior artéria na terra. Outros fatos tornam ao forasteiro inúteis
todas as tentativas de aclimação real.
Muitas vezes em plena enchente, em
abril ou maio, no correr de um dia calmoso e claro, dentro da atmosfera
ardente do Amazonas difundem-se rajadas frigidíssimas do sul.
É como uma bafagem enregelada do
pólo...
O termômetro desce, então, logo, numa
queda única e forte, de improviso. Estabelece-se por alguns dias uma situação
inaturável.
Os "regatões" espertos que esporeados
pela ganância se avantajam até ali, e os próprios silvícolas enrijados pela
adaptação, acolhem-se aos tejupás, tiritantes, abeirando-se das fogueiras.
Cessam os trabalhos. Abre-se um novo hiato nas atividades. Despovoam-se
aquelas grandes solidões alagadas, morrem os peixes nos rios, enregelados;
morrem as aves nas matas silenciosas, ou emigram; esvaziam-se os ninhos; as
próprias feras desaparecem, encafurnadas nas tocas mais profundas - ; e
aquela natureza maravilhosa do Equador, toda remodelada pela reação esplêndida
dos sois, patenteia um simulacro crudelíssimo de desolamento polar e lúgubre.
É o tempo da "friagem".
Terminemos, porém, esses debuxos
rápidos.
Os sertões do Norte, vimo-lo
anteriormente, refletem, por sua vez, novos regímens, novas exigências
biológicas. Ali a mesma intercadência de quadras remansadas e dolorosas se
espelha mais duramente talvez, sob outras formas.
Ora, se considerarmos que estes vários
aspectos climáticos não exprimem casos excepcionais, mas aparecem todos, desde
as tormentas do Mato Grosso aos ciclos das secas do Norte, com a feição
periódica imanente às leis naturais invioláveis, conviremos em que há no nosso
meio físico variabilidade completa.
Daí os erros em que incidem os que
generalizam, estudando a nossa fisiologia própria, a ação exclusiva de um
clima tropical. Esta exercita-se, sem dúvida, originando patologia sui
generis, em quase toda a faixa marítima do Norte e em grande parte dos Estados
que lhe correspondem, até ao Mato Grosso. O calor úmido das paragens
amazonenses, por ex., deprime e exaure. Modela organizações tolhiças em que
toda a atividade cede ao permanente desequilíbrio entre as energias impulsivas
das funções periféricas fortemente excitadas e a apatia das funções centrais:
inteligências marasmáticas, adormidas sob o explodir das paixões; enervações
periclitantes, em que pese à acuidade dos sentidos, e mal reparadas ou
refeitas pelo sangue empobrecido nas hematoses incompletas...
Daí todas as idiossincrasias de uma
fisiologia excepcional: o pulmão que se reduz, pela deficiência da função e é
substituído, na eliminação obrigatória do carbono, pelo fígado, sobre o qual
desce pesadamente a sobrecarga da vida: organizações combalidas pela
alternativa persistente de exaltações impulsivas e apatias enervadoras, sem a
vibratilidade, sem o tonus muscular enérgico dos temperamentos robustos e
sangüíneos. A seleção natural, em tal meio, opera-se à custa de compromissos
graves com as funções centrais, do cérebro, numa progressão inversa
prejudicialíssima entre o desenvolvimento intelectual e o físico, firmando
inexoravelmente a vitória das expansões instintivas e visando o ideal de uma
adaptação que tem, como conseqüências únicas, a máxima energia orgânica, a
mínima fortaleza moral. A aclimação traduz uma evolução regressiva. O tipo
deperece num esvaecimento contínuo, que se lhe transmite à descendência até a
extinção total. Como o inglês nas Barbadas, na Tasmânia ou na Austrália, o
português no Amazonas, se foge ao cruzamento, no fim de poucas gerações tem
alterados os caracteres físicos e morais de uma maneira profunda, desde a tez,
que se acobreia pelos sóis e pela eliminação incompleta do carbono, ao
temperamento, que se debilita despido das qualidades primitivas. A raça
inferior, o selvagem bronco, domina-o; aliado ao meio vence-o, esmaga-o,
anula-o na concorrência formidável ao impaludismo, ao hepatismo, às pirexias
esgotantes, às canículas abrasadoras, e aos alagadiços maleitosos.
Isto não acontece em grande parte do
Brasil Central e em todos os lugares do Sul.
Mesmo na maior parte dos sertões
setentrionais o calor seco, altamente corrigido pelos fortes movimentos aéreos
provindos dos quadrantes de leste, origina disposições mais animadoras e tem
ação estimulante mais benéfica.
E volvendo ao sul, no território que do
norte de Minas para o sudoeste progride até o Rio Grande, deparam-se condições
incomparavelmente superiores:
Uma temperatura anual média de 17° a
20°, num jogo mais harmônico de estações; um regímen mais fixo das chuvas que,
preponderantes no verão, se distribuem no outono e na primavera de modo
favorável às culturas. Atingindo o inverno, a impressão de um clima europeu é
precisa: sopra o SO frigidíssimo sacudindo chuvisqueiros finos e esgarçando
garoas; a neve rendilha as vidraças; gelam os banhados, e as geadas branqueiam
pelos campos...
... e sua reflexão na
História
A nossa história traduz notavelmente
estas modalidades mesológicas.
Considerando-a sob uma feição geral,
fora da ação perturbadora dos pormenores inexpressivos, vemos, logo na fase
colonial, esboçarem-se situações diversas.
Enfeudado o território, dividido pelos
donatários felizes, e iniciando-se o povoamento do país com idênticos
elementos, sob a mesma indiferença da metrópole, voltada ainda para as últimas
miragens da "Índia portentosa", abriu-se separação radical entre o Sul e o
Norte.
Não precisamos rememorar os fatos
decisivos das duas regiões. São duas histórias distintas, em que se averbam
movimentos e tendências opostas. Duas sociedades em formação, alheadas por
destinos rivais - uma de todo indiferente ao modo de ser da outra,
ambas, entretanto, evolvendo sob os influxos de uma administração única. Ao
passo que no Sul se debuxavam novas tendências, uma subdivisão maior na
atividade, maior vigor no povo mais heterogêneo, mais vivaz, mais prático e
aventureiro, um largo movimento progressista em suma - tudo isto
contrastava com as agitações, às vezes mais brilhantes mas sempre menos
fecundas, do Norte - capitanias esparsas e incoerentes, jungidas à
mesma rotina, amorfas e imóveis, em função estreita dos alvarás da corte
remota.
A história é ali mais teatral porém
menos eloqüente.
Surgem heróis, mas a estatura
avulta-lhes, maior, pelo contraste com o meio; belas páginas vibrantes mas
truncadas, sem objetivo certo, em que colaboram, de todo desquitadas entre si,
as três raças formadoras.
Mesmo no período culminante, a luta com
os holandeses, acampam, claramente distintos em suas tendas de campanha, os
negros de Henrique Dias, os índios de Camarão e os lusitanos de Vieira. Mal
unidos na guerra, distanciam-se na paz. O drama de Palmares, as correrias dos
silvícolas, os conflitos na orla dos sertões, violam a transitória
convergência contra o batavo.
Preso no litoral, entre o sertão
inabordável e os mares, o velho agregado colonial tendia a chegar ao nosso
tempo, imutável, sob o emperramento de uma centralização estúpida, realizando
a anomalia de deslocar para uma terra nova o ambiente moral de uma sociedade
velha.
Bateu-o, felizmente, a onda impetuosa
do Sul.
Aqui, a aclimação mais pronta, em meio
menos adverso, emprestou, cedo, mais vigor aos forasteiros. Da absorção das
primeiras tribos surgiram os cruzados das conquistas sertanejas, os mamalucos
audazes. O "paulista"- e a significação histórica deste nome abrange os
filhos do Rio de Janeiro, Minas, S. Paulo e regiões do Sul - erigiu-se
como um tipo autônomo, aventuroso, rebelde, libérrimo, com a feição perfeita
de um dominador da terra, emancipando-se, insurreto, da tutela longínqua, e
afastando-se do mar e dos galeões da metrópole, investindo com os sertões
desconhecidos, delineando a epopéia inédita das "bandeiras"...
Este movimento admirável reflete o
influxo das condições mesológicas. Não houvera distinção alguma entre os
colonizadores de um e outro lado. Em todos prevaleciam os mesmos elementos,
que eram o desespero de Diogo Coelho.
"Piores qua na terra que peste..."
Mas no Sul a força viva restante no
temperamento dos que vinham de romper o mar imoto não se delia num clima
enervante; tinha nova componente na própria força da terra; não se dispersava
em adaptações difíceis. - Alterava-se, melhorando. O homem sentia-se
forte. Deslocado apenas o teatro dos grandes cometimentos, podia volver para o
sertão impérvio a mesma audácia que o precipitara nos périplos africanos.
Além disto - frisemos este ponto
escandalizando embora os nossos minúsculos historiógrafos - a
disposição orográfica libertava-o da preocupação de defender o litoral, onde
aproava a cobiça do estrangeiro.
A serra do Mar tem um notável perfil em
nossa história. A prumo sobre o Atlântico desdobra-se como a cortina de
baluarte desmedido. De encontro às suas escarpas embatia, fragílima, a ânsia
guerreira dos Cavendish e dos Fenton. No alto, volvendo o olhar em cheio para
os chapadões, o forasteiro sentia-se em segurança. Estava sobre ameias
intransponíveis que o punham do mesmo passo a cavaleiro do invasor e da
metrópole. Transposta a montanha - arqueada como a precinta de pedra de
um continente - era um isolador étnico e um isolador histórico. Anulava
o apego irreprimível ao litoral, que se exercia ao norte; reduzia-o a estreita
faixa de mangues e restingas, ante a qual se amorteciam todas as cobiças, e
alteava, sobranceira às frotas, intangível no recesso das matas, a atração
misteriosa das minas...
Ainda mais - o seu relevo
especial torna-a um condensador de primeira ordem, no precipitar a evaporação
oceânica.
Os rios que se derivam pelas suas
vertentes nascem de algum modo no mar. Rolam as águas num sentido oposto à
costa. Entranham-se no interior, correndo em cheio para os sertões. Dão ao
forasteiro a sugestão irresistível das "entradas".
A terra atrai o homem; chama-o para o
seio fecundo; encanta-o pelo aspecto formosíssimo; arrebata-o, afinal,
irresistivelmente na correnteza dos rios.
Daí o traçado eloqüentíssimo do Tietê,
diretriz preponderante nesse domínio do solo. Enquanto no S. Francisco, no
Paraíba, no Amazonas, e em todos os cursos d'água da borda oriental, o acesso
para o interior seguia ao arrepio das correntes, ou embatia nas cachoeiras que
tombam dos socalcos dos planaltos, ele levava os sertanistas, sem uma remada,
para o rio Grande e daí ao Paraná e ao Paranaíba. Era a penetração em Minas,
em Goiás, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso, no Brasil
inteiro. Segundo estas linhas de menor resistência, que definem os lineamentos
mais claros da expansão colonial, não se opunham, como ao norte, renteando o
passo às bandeiras, a esterilidade da terra, a barreira intangível dos
descampados brutos.
Assim é fácil mostrar como esta
distinção de ordem física esclarece as anomalias e contrastes entre os
sucessos nos dois pontos do país, sobretudo no período agudo da crise
colonial, no século 17.
Enquanto o domínio holandês,
centralizando-se em Pernambuco, reagia por toda a costa oriental, da Bahia ao
Maranhão, e se travavam recontros memoráveis em que, solidárias, enterreiravam
o inimigo comum as nossas três raças formadoras, o sulista, absolutamente
alheio àquela agitação, revelava, na rebeldia aos decretos da metrópole,
completo divórcio com aqueles lutadores. Era quase um inimigo tão perigoso
quanto o batavo. Um povo estranho de mestiços levantadiços, expandindo outras
tendências, norteado por outros destinos, pisando, resoluto, em demanda de
outros rumos, bulas e alvarás entibiadores. Volvia-se em luta aberta com a
corte portuguesa, numa reação tenaz contra os jesuítas. Estes, olvidando o
holandês e dirigindo-se, com Ruy de Montoya a Madri e Dias Tãno a Roma,
apontavam-no como inimigo mais sério.
De feito, enquanto em Pernambuco as
tropas de von Schoppe preparavam o governo de Nassau, em S. Paulo se
arquitetava o drama sombrio de Guaíra. E quando a restauração em Portugal veio
alentar em toda a linha a repulsa ao invasor, congregando de novo os
combatentes exaustos, os sulistas frisaram ainda mais esta separação de
destinos, aproveitando-se do mesmo fato para estadearem a autonomia franca, no
reinado de um minuto de Amador Bueno.
Não temos contraste maior na nossa
história. Está nele a sua feição verdadeiramente nacional. Fora disto mal a
vislumbramos nas cortes espetaculosas dos governadores, na Bahia, onde
imperava a Companhia de Jesus com o privilégio da conquista das almas,
eufemismo casuístico disfarçando o monopólio do braço indígena.
Na plenitude do século 17 o contraste
se acentua.
Os homens do Sul irradiam pelo país
inteiro. Abordam as raias extremas do Equador. Até aos últimos quartéis do
século 18, o povoamento segue as trilhas embaralhadas das bandeiras. Seguiam
sucessivas, incansáveis, com a fatalidade de uma lei, porque traduziam, com
efeito, uma queda de potenciais, as grandes caravanas guerreiras, vagas
humanas desencadeadas em todos os quadrantes, invadindo a própria terra,
batendo-a em todos os pontos, descobrindo-a depois do descobrimento,
desvendando-lhe o seio rutilante das minas.
Fora do litoral, em que se refletia a
decadência da metrópole e todos os vícios de uma nacionalidade em decomposição
insanável, aqueles sertanistas, avantajando-se às terras extremas de
Pernambuco ao Amazonas, semelhavam uma outra raça, no arrojo temerário e
resistência aos reveses.
Quando as correrias do bárbaro
ameaçavam a Bahia, ou Pernambuco, ou a Paraíba, e os quilombos se escalonavam
pelas matas, nos últimos refúgios do africano revoltoso - o sulista,
di-lo a grosseira odisséia de Palmares, surgia como o debelador clássico
desses perigos, o empreiteiro predileto das grandes hecatombes.
É que o filho do Norte não tinha um
meio físico que o blindasse de igual soma de energias. Se tal acontecesse, as
bandeiras irromperiam também do oriente e do norte e, esmagado num movimento
convergente, o elemento indígena desapareceria sem traços remanescentes. Mas o
colono nortista, nas entradas para oeste ou para o sul, batia logo de encontro
à natureza adversa. Refluía prestes ao litoral sem o atrevimento dos
dominadores, dos que se sentem à vontade sobre uma terra amiga, sem as
ousadias oriundas da própria atração das, na segunda metade do século 16, por
Sebastião Tourinho, das, na segunda metade do século 16, por Sebastião
Tourinho, no rio Doce, Bastião Álvares, no S. Francisco, e Gabriel Soares,
pelo Norte da Bahia até às cabeceiras do Paraguaçu, embora tivessem depois os
estímulos enérgicos das Minas de Prata, de Belchior Dias, são um pálido
arremedo das arremetidas do Anhangüera ou de um Pascoal de Araújo.
Apertados entre os canaviais da costa e
o sertão, entre o mar e o deserto, num bloqueio engravecido pela ação do
clima, perderam todo o aprumo e este espírito de revolta, eloqüentíssimo, que
ruge em todas as páginas da história do Sul.
Tal contraste não se baseia, por certo,
em causas étnicas primordiais.
Delineada, deste modo, a influência
mesológica em nosso movimento histórico, deduz-se a que exerceu sobre a nossa
formação étnica.
Ação do meio na fase inicial da
formação das raças
Volvamos ao ponto de partida.
Convindo em que o meio não forma as
raças, no nosso caso especial variou demais nos diversos pontos do território
as dosagens de três elementos essenciais. Preparou o advento de sub-raças
diferentes pela própria diversidade das condições de adaptação. Além disso (é
hoje fato inegável) as condições exteriores atuam gravemente sobre as próprias
sociedades constituídas, que se deslocam em migrações seculares aparelhadas
embora pelos recursos de uma cultura superior. Se isto se verifica nas raças
de todo definidas abordando outros climas, protegidas pelo ambiente de uma
civilização, que é como o plasma sangüíneo desses grandes organismos
coletivos, que não diremos da nossa situação muito diversa ? Neste caso
- é evidente - a justaposição dos caracteres coincide com íntima
transfusão de tendências e a longa fase de transformação correspondente
erige-se como período de fraqueza, nas capacidades das raças que se cruzam,
alterando o valor relativo da influencia do meio. Este como que estampa,
então, melhor, no corpo em fusão, os seus traços característicos. Sem nos
arriscarmos demais a paralelo ousado, podemos dizer que, para essas reações
biológicas complexas, ele tem agentes mais enérgicos que para as reações
químicas da matéria.
Ao calor e à luz, que se exercitam em
ambas, adicionam-se, então, a disposição da terra, as modalidades do clima e
essa ação de presença inegável, essa espécie de força catalítica misteriosa
que difundem os vários aspectos da natureza.
Entre nós, vimo-lo, a intensidade
destes últimos está longe da uniformidade proclamada. Distribuíram, como o
indica a história, de modo diverso as nossas camadas étnicas, originando uma
mestiçagem dissímil.
Não há um tipo antropológico
brasileiro.
A formação brasileira no Norte
Procuremos, porém, neste intricado
caldeamento a miragem fugitiva de uma sub-raça, efêmera talvez. Inaptos para
discriminar as nossas raças nascentes, acolhamo-nos ao nosso assunto.
Definamos rapidamente os antecedentes históricos do jagunço.
Ante o que vimos a formação brasileira
do Norte é mui diversa da do Sul. As circunstâncias históricas, em grande
parte oriundas das circunstâncias físicas, originaram diferenças iniciais no
enlace das raças, prolongando-as até o nosso tempo.
A marcha do povoamento, do Maranhão à
Bahia, revela-as.
Os primeiros povoadores
Foi vagaroso. As gentes portuguesas não
abordavam o litoral do Norte robustecidas pela força viva das migrações
compactas, grandes massas invasoras capazes, ainda que destacadas do torrão
nativo, de conservar, pelo número, todas as qualidades adquiridas em longo
tirocínio histórico. Vinham esparsas, parceladas em pequenas levas de
degredados ou colonos contrafeitos, sem o desempenho viril dos
conquistadores.
Deslumbrava-as ainda o Oriente.
O Brasil era a terra do exílio; vasto
presídio com que se amedrontavam os heréticos e os relapsos, todos os
passíveis do morra per ello da sombria justiça daqueles tempos. Deste modo nos
primeiros tempos o número reduzido de povoadores contrasta com a vastidão da
terra e a grandeza da população indígena. As instruções dadas, em 1615, ao
capitão Fragoso de Albuquerque, a fim de regular com o embaixador espanhol em
França o tratado de tréguas com La Ravardière, são claras a respeito. Ali se
afirma "que as terras do Brasil não estão despovoadas porque nelas existem
mais de 3 mil portugueses".
Isto para o Brasil todo - mais
de cem anos após o descobrimento. . .
Segundo observa Aires de Casal "a
população crescia tão devagar que na época da perda do sr. d. Sebastião (1580)
ainda não havia um estabelecimento fora da ilha de Itamaracá cujos vizinhos
andavam por uns duzentos, com três engenhos de açúcar".
Quando alguns anos mais tarde se povoou
melhor a Bahia, a desproporção entre o elemento europeu e os dois outros
continuou desfavorável, em progressão aritmética perfeita. Segundo Fernão
Cardim, ali existiam 2 mil brancos, 4 mil negros e 6 mil índios. É visível
durante muito tempo a predominância do elemento autóctone. Nos primeiros
cruzados, portanto, ele deve ter influído muito.
Os forasteiros que aproavam àquelas
plagas eram, ademais, de molde para essa mistura em larga escala. Homens de
guerra, sem lares, afeitos à vida solta dos acampamentos, ou degredados e
aventureiros corrompidos, norteava-os a todos como um aforismo o ultra
equinotialem non peccavi, na frase de Barleus. A mancebia com as caboclas
descambou logo em franca devassidão, de que nem o clero se isentava. O padre
Nóbrega definiu bem o fato, na célebre carta ao rei ( 1549) em que, pintando
com ingênuo realismo a dissociação dos costumes, declara estar o interior do
país cheio de filhos de cristãos, multiplicando-se segundo os hábitos
gentílicos. Achava conveniente que lhe enviassem órfãs, ou mesmo mulheres "que
fossem erradas, que todas achariam maridos, por ser a terra larga e grossa". A
primeira mestiçagem fez-se, pois, nos primeiros tempos, intensamente, entre o
europeu e o silvícola. "Desde cedo, di-lo Casal, os tupiniquins, gentio de boa
índole, foram cristianizados e aparentados com os europeus, sendo inúmeros os
brancos naturais do país com casta tupiniquina."
Por outro lado, embora existissem em
grande cópia mesmo no reino, os africanos tiveram, no primeiro século, uma
função inferior. Em muitos lugares rareavam. Eram poucos, diz aquele narrador
sincero, no Rio Grande do Norte, "onde os índios há largo tempo que foram
reduzidos, apesar da sua ferocidade e cujos descendentes por meio das alianças
com os europeus e africanos têm aumentado as classes dos brancos e dos pardos
".
Estes excertos são expressivos.
Sem idéia alguma preconcebida, pode-se
afirmar que a extinção do indígena, no Norte, proveio, segundo o pensar de
Varnhagen, mais em virtude de cruzamentos sucessivos que de verdadeiro
extermínio.
Sabe-se ainda que havia no animo dos
donatários a preocupação de aproveitar-lhes o mais possível a aliança,
captando-lhes o apego. Este proceder refletia os intuitos da metrópole.
Demonstram-no-lo as sucessivas cartas régias que, de 1570 a 1758 - em
que pese "a uma série nunca interrompida de hesitações e contradições"
- apareceram como minorativo à ganância dos colonos visando a
escravização do selvagem. - Sendo que algumas, como a de 1680,
estendiam a proteção ao ponto de decretar que se concedessem ao gentio terras
"ainda mesmo as já dadas a outros de sesmaria", visto que deviam ter
preferência os mesmos índios "naturais senhores da terra".
Contribuiu para esta tentativa
persistente de incorporação a Companhia de Jesus que, obrigando-se no Sul a
transigências forçadas, dominava no Norte. Excluindo quaisquer intenções
condenáveis, os jesuítas ali realizaram tarefa nobilitadora. Foram ao menos
rivais do colono ganancioso. No embate estúpido da perversidade contra a
barbaria, apareceu uma função digna àqueles eternos condenados. Fizeram muito.
Eram os únicos homens disciplinados de seu tempo. Embora quimérica a tentativa
de alçar o estado mental do aborígine às abstrações do monoteísmo, ela teve o
valor de o atrair por muito tempo, até a intervenção oportuna de Pombal, para
a nossa história.
O curso das missões, no Norte, em todo
o trato de terras do Maranhão à Bahia, patenteia sobretudo um lento esforço de
penetração no âmago das terras sertanejas, das fraldas da Ibiapaba às da
Itiúba, que completa de algum modo a movimentação febril das bandeiras. Se
estas difundiam largamente o sangue das três raças pelas novas paragens
descobertas, provocando um entrelaçamento geral, a despeito das perturbações
que acarretavam - os aldeamentos, centros da força atrativa do
apostolado, fundiam as malocas em aldeias; unificavam as cabildas; integravam
as tribos. Penetrando fundo nos sertões, graças a um esforço secular, os
missionários salvaram em parte este fator das nossas raças. Surpreendidos
vários historiadores pela vinda, em grandíssima escala, do africano, que
iniciada em fins do século 16 nunca mais parou até o nosso (1850) e
considerando que ele foi o melhor aliado do português na quadra colonial,
dão-lhe geralmente influência exagerada na formação do sertanejo do Norte.
Entretanto, em que pese a esta invasão de vencidos e infelizes, e à sua
fecundidade rara, e a suas qualidades de adaptação, apuradas na África adusta,
é discutível que ela tenha atingido profundamente os sertões.
É certo que o consórcio afro-lusitano
era velho, anterior mesmo ao descobrimento, porque se consumara desde o século
15, com os azenegues e jalofos de Gil Eanes e Antão Gonçalves. Em 1530
salpintavam as ruas de Lisboa mais de 10 mil negros, e o mesmo sucedia noutros
lugares. Em Évora tinham maioria sobre os brancos.
Os versos de um contemporâneo, Garcia
de Resende, são um documento:
"Vemos no reino meter,
Tantos cativos crescer,
Irem-se
os naturais,
Que, se assim for, serão mais
Eles que nós, a meu
ver."
A gênese do mulato
Assim a gênese do mulato teve uma sede
fora do nosso país. A primeira mestiçagem com o africano operou-se na
metrópole. Entre nós, naturalmente, cresceu. A raça dominada, porém, teve,
aqui, dirimidas pela situação social, as faculdades de desenvolvimento.
Organização potente afeita à humildade extrema, sem as rebeldias do índio, o
negro teve, de pronto, sobre os ombros toda a pressão da vida colonial. Era a
besta de carga adstrita a trabalhos sem folga. As velhas ordenações,
estatuindo o "como se podem enjeitar os escravos e bestas por os acharem
doentes ou mancos", denunciam a brutalidade da época. Além disto -
insistamos num ponto incontroverso - as numerosas importações de
escravos se acumulavam no litoral. A grande tarja negra debruava a costa da
Bahia ao Maranhão, mas pouco penetrava o interior. Mesmo em franca revolta, o
negro humilde feito quilombola temeroso, agrupando-se nos mocambos, parecia
evitar o âmago do país. Palmares, com seus 30 mil mocambeiros, distava afinal
poucas léguas da costa.
Nesta última a uberdade da terra fixara
simultaneamente dois elementos, libertando o indígena. A cultura extensiva da
cana, importada da Madeira, determinara o olvido dos sertões. Já antes da
invasão holandesa, do Rio Grande do Norte à Bahia havia 160 engenhos. E esta
exploração, em dilatada escala, progrediu depois em rápido crescendo.
O elemento africano de algum modo
estacou nos vastos canaviais da costa, agrilhoado à terra e determinando
cruzamento de todo diverso do que se fazia no recesso das capitanias. Aí
campeava, livre, o indígena inapto ao trabalho e rebelde sempre, ou mal
tolhido nos aldeamentos pela tenacidade dos missionários. A escravidão negra,
constituindo-se derivativo ao egoísmo dos colonos, deixava aqueles mais
desembaraçados que no Sul, nos esforços da catequese. Os próprios sertanistas
ao chegarem, ultimando as rotas atrevidas, àquelas paragens, tinham extinta a
combatividade.
Alguns, como Domingos Sertão, cerravam
a vida aventureira, atraídos pelos lucros das fazendas de criação, abertas
naqueles grandes latifúndios.
Deste modo se estabeleceu distinção
perfeita entre os cruzamentos realizados no sertão e no litoral.
Com efeito, admitido em ambos como
denominador comum o elemento branco, o mulato erige-se como resultado
principal do último e o curiboca do primeiro.
Capítulo II
Gênese dos jagunços; colaterais prováveis dos paulistas.
Função histórica do rio S. Francisco. O vaqueiro, mediador entre o bandeirante
e o padre. Fundações jesuíticas na Bahia. Um parêntesis irritante. Causas
favoráveis à formação mestiça dos sertões, distinguindo-a dos cruzamentos no
litoral. Uma raça forte.
A demonstração é positiva. Há um
notável traço de originalidade na gênese da população sertaneja, não diremos
do Norte, mas do Brasil subtropical.
Esbocemo-lo; e para não nos delongarmos
demais, afastemo-nos pouco do teatro em que se desenrolou o drama histórico de
Canudos, percorrendo rapidamente o rio de São Francisco, "o grande caminho da
civilização brasileira", conforme o dizer feliz de um historiador .
Vimos, de relance, em páginas
anteriores, que ele atravessa as regiões mais dispares. Ampla nas cabeceiras,
a sua dilatada bacia colhe na rede de numerosos afluentes a metade de Minas,
na zona das montanhas e das florestas. Estreita-se depois passando na parte
mediana pela paragem formosíssima dos gerais. No curso inferior, a jusante de
Juazeiro, constrita entre pendores que a desnivelam torcendo-a para o mar,
torna-se pobre de tributários, quase todos efêmeros, derivando, apertada por
uma corredeira única de centenares de quilômetros, até Paulo Afonso - e
corta a região maninha das caatingas.
Ora, sob esta tríplice disposição, é um
diagrama da nossa marcha histórica, refletindo, paralelamente, as suas
modalidades variáveis.
Balanceia a influência do Tietê.
Enquanto este, de traçado
incomparavelmente mais próprio a penetração colonizadora, se tornou o caminho
predileto dos sertanistas visando sobretudo a escravização e o "descimento" do
gentio, o S. Francisco foi, nas altas cabeceiras, a sede essencial da agitação
mineira; no curso inferior, o teatro das missões; e, na região média, a tem
clássica do regímen pastoril, único compatível com a situação econômica e
social da colônia.
Bateram-lhe por igual as margens o
bandeirante, o jesuíta e o vaqueiro.
Quando, mais tarde, maior cópia de
documentos permitir a reconstrução da vida colonial, do século 17 ao fim do
18, é possível que o último, de todo olvidado ainda, avulte com o destaque que
merece na formação da nossa gente. Bravo e destemeroso como o primeiro,
resignado e tenaz como o segundo, tinha a vantagem de um atributo supletivo
que faltou a ambos - a fixação ao solo.
As bandeiras, sob os dois aspectos que
mostram, já destacados, já confundidos, investindo com a tem ou com o homem,
buscando o ouro ou o escravo, desvendavam desmedidas paragens, que não
povoavam e deixavam porventura mais desertas, passando rápidas sobre as
malocas e as catas.
A sua história, às vezes inextricável
como os dizeres adrede obscuros dos roteiros, traduz a sucessão e enlace
destes estímulos únicos revezando-se quer consoante a índole dos aventureiros,
quer de acordo com a maior ou menor praticabilidade das empresas planeadas. E,
neste permanente oscilar entre aqueles dois desígnios, a sua função realmente
útil, no desvendar o desconhecido, repontava como incidente obrigado,
conseqüência inevitável em que se não cuidava.
Assim é que extinta com a expedição de
Glimmer (1601) a visão enganadora da serra das Esmeraldas, que desde meados do
século 18 atraíra para os flancos do Espinhaço, um após outros, inacessíveis a
constantes malogros, Bruzzo Spinosa, Sebastião Tourinho, Dias Adorno e Martins
Carvalho, e desaparecendo ao norte o pais encantado que idealizara a
imaginação romântica de Gabriel Soares, grande parte do século 17 é dominada
pelas lendas sombrias dos caçadores de escravos, centralizados pela figura
brutalmente heróica de Antônio Raposo. É que se haviam apagado quase que ao
mesmo tempo as miragens da misteriosa Sabará-buçu e as das Minas de Prata,
eternamente inatingíveis; até que, renovadas pelas pesquisas indecisas de Pais
Leme, que avivou, depois de um apagamento quase secular, as veredas de
Glimmer; alentadas pelas oitavas de ouro de Arzão pisando em 1693 as mesmas
trilhas de Tourinho e Adorno; e ao cabo francamente ressurgindo logo depois
com Bartolomeu Bueno, em Itaberaba, e Miguel Garcia, no Ribeirão do Carmo, as
entradas sertanejas volvessem ao anelo primitivo e, irradiando do distrito de
Ouro Preto, se espraiassem de novo, mais fortes, pelo país inteiro.
Ora, durante este período em que,
aparentemente, só se observam, no litoral, a luta contra o batavo e, no âmago
dos planaltos, o espantoso ondular das bandeiras, surgira na região que
interfere o médio São Francisco um notável povoamento do qual os resultados
somente depois apareceram.
Função histórica do rio S. Francisco
Formara-se obscuramente.
Determinaram-no, em começo, as entradas a procura das minas de Moreia que,
embora anônimas e sem brilho, parecem ter-se prolongado até o governo de
Lancastro, levando até as serranias de Macaúbas, além do Paramirim, sucessivas
turmas de povoadores . Vedado nos caminhos diretos e normais à costa, mais
curtos porém interrompidos pelos paredões das serras ou trancados pelas matas,
o acesso fazia-se pelo S. Francisco. Abrindo aos exploradores duas entradas
únicas, à nascente e à foz, levando os homens do Sul ao encontro dos homens do
Norte, o grande rio erigia-se desde o princípio com a feição de um unificador
étnico, longo traço de união entre as duas sociedades que se não conheciam.
Porque provindos dos mais diversos pontos e origens, ou fossem os paulistas de
Domingos Sertão, ou os baianos de Garcia d'Ávila, ou os pernambucanos de
Francisco Caldas, com os seus pequenos exércitos de tabajaras aliados, ou
mesmo os portugueses de Manuel Nunes Viana, que dali partiu da sua fazenda do
Escuro, em Carinhanha, para comandar os emboabas no rio das Mortes, os
forasteiros, ao atingirem o âmago daquele sertão, raro voltavam.
A terra, do mesmo passo exuberante e
acessível, compensava-lhes a miragem desfeita das minas cobiçadas. A sua
estrutura geológica original criando conformações topográficas em que as
serranias, últimos esporões e contrafortes da cordilheira marítima, têm a
atenuante dos tabuleiros vastos; a sua flora complexa e variável, em que se
entrelaçam florestas sem a vastidão e o trançado impenetrável das do litoral,
com o "mimoso" das planuras e o "agreste" das chapadas, desafogadas, todas,
salteadamente, nos vastos claros das caatingas; a sua conformação hidrográfica
especial de afluentes que se ajustam, quase simétricos, para o ocidente e o
oriente ligando-a, de um lado à costa, de outro ao centro dos planaltos
- foram laços preciosos para a fusão desses elementos esparsos,
atraindo-os, entrelaçando-os. E o regímen pastoril ali se esboçou como uma
sugestão dominadora dos gerais.
Nem faltava para isto, sobre a rara
fecundidade do solo recamado de pastagens naturais, um elemento essencial, o
sal, gratuito, nas baixadas salobras dos barreiros .
Constituiu-se, desta maneira
favorecida, a extensa zona de criação de gado que já no alvorecer do século 18
ia das raias setentrionais de Minas a Goiás, ao Piauí, aos extremos do
Maranhão e Ceará pelo ocidente e norte e às serranias das lavras baianas, a
leste. Povoara-se e crescera autônoma e forte, mas obscura, desadorada dos
cronistas do tempo, de todo esquecida não já pela metrópole longínqua senão
pelos próprios governadores e vice-reis. Não produzia impostos ou rendas que
interessassem o egoísmo da coroa. Refletia, entretanto, contraposta à
turbulência do litoral e às aventuras das minas, "o quase único aspecto
tranqüilo da nossa cultura". A parte os raros contingentes de povo adores
pernambucanos e baianos, a maioria dos criadores opulentos, que ali se
formaram? vinha do sul, constituída pela mesma gente entusiasta e enérgica das
bandeiras.
Os jagunços: colaterais prováveis dos paulistas
Segundo o que se colhe em preciosas
páginas de Pedro Taques, foram numerosas as famílias de S. Paulo que, em
contínuas migrações, procuraram aqueles rincões longínquos, e acredita-se,
aceitando o conceito de um historiógrafo perspicaz, que o "vale de S.
Francisco, já aliás muito povoado de paulistas e de seus descendentes desde o
século 18, tornou-se uma como colônia quase exclusiva deles" . É natural por
isto que Bartolomeu Bueno, ao descobrir Goiás, visse, surpreendido, sinais
evidentes de predecessores, anônimos pioneiros que ali tinham chegado, certo,
pelo levante, transmontando a serra de Paranã; e que ao se reabrir em 1697 o
ciclo mais notável das pesquisas do ouro, nas agitadas e ruidosas vagas de
imigrantes, que rolavam dos flancos orientais da serra do Espinhaço ao
talvegue do rio das Velhas, passassem mais fortes talvez, talvez precedendo as
demais no descobrimento das minas de Caeté, e sulcando-as de meio a meio, e
avançando em direção contrária como um refluxo promanado do Norte, as turmas
dos "baianos", termo que, como o de "paulista", se tornara genérico no
abranger os povoadores setentrionais.
O vaqueiro
É que já se formara no vale médio do
grande rio uma raça de cruzados idênticos àqueles mamalucos estrênuos que
tinham nascido em S. Paulo. E não nos demasiamos em arrojada hipótese
admitindo que este tipo extraordinário do paulista, surgindo e decaindo logo
no Sul, numa degeneração completa ao ponto de declinar no próprio território
que lhe deu o nome, ali renascesse e, sem os perigos das migrações e do
cruzamento, se conservasse prolongando, intacta, ao nosso tempo, a índole
varonil e aventureira dos avós.
Porque ali ficaram, inteiramente
divorciados do resto do Brasil e do mundo, murados a leste pela serra Geral,
tolhidos no ocidente pelos amplos campos gerais, que se desatam para o Piauí e
que ainda hoje o sertanejo acredita sem fins.
O meio atraía-os e guardava-os.
As entradas de um e outro lado da
meridiana, impróprias à dispersão, facilitavam antes o entrelaçamento dos
extremos do país. Ligavam-nos no espaço e no tempo. Estabelecendo no interior
a contigüidade do povoamento, que faltava ainda em parte na costa, e surgindo
entre os nortistas, que lutavam pela autonomia da pátria nascente, e os
sulistas, que lhe alargavam a área, abastecendo-os por igual com as fartas
boiadas que subiam para o vale do rio das Velhas ou desciam até as cabeceiras
do Parnaíba, aquela rude sociedade, incompreendida e olvidada, era o cerne
vigoroso da nossa nacionalidade.
Os primeiros sertanistas que a criaram,
tendo suplantado em toda a linha o selvagem, depois de o dominarem
escravizaram-no e captaram-no, aproveitando-lhe a índole na nova indústria que
abraçavam.
Veio subseqüentemente o cruzamento
inevitável. E despontou logo uma raça de curibocas puros quase sem mescla de
sangue africano, facilmente denunciada, hoje, pelo tipo normal daqueles
sertanejos. Nasciam de um amplexo feroz de vitoriosos e vencidos. Criaram-se
numa sociedade revolta e aventurosa, sobre a terra farta; e tiveram, ampliando
os seus atributos ancestrais, uma rude escola de forca e de coragem naqueles
gerais amplíssimos, onde ainda hoje ruge impune o jaguar e vagueia a ema
velocíssima, ou nas serranias de flancos despedaçados pela mineração
superficial, quando as lavras baianas, mais tarde, lhes deram esse derivativo
à faina dos rodeios.
Fora longo traçar-lhes a evolução do
caráter. Caldeadas a índole aventureira do colono e a impulsividade do
indígena, tiveram, ulteriormente, o cultivo do próprio meio que lhes
propiciou, pelo insulamento, a conservação dos atributos e hábitos avoengos,
ligeiramente modificados apenas consoante as novas exigências da vida. E ali
estão com as suas vestes características, os seus hábitos antigos, o seu
estranho aferro às tradições mais remotas, o seu sentimento religioso levado
até o fanatismo, e o seu exagerado ponto de honra, e o seu folclore belíssimo
de rimas de três séculos...
Raça forte e antiga, de caracteres
definidos e imutáveis mesmo nas maiores crises - quando a roupa de
couro do vaqueiro se faz a armadura flexível do jagunço - oriunda de
elementos convergentes de todos os pontos, porém diversa das demais deste
país, ela é inegavelmente um expressivo exemplo do quanto importam as reações
do meio. Expandindo-se pelos sertões limítrofes ou próximos, de Goiás, Piauí,
Maranhão, Ceará e Pernambuco, tem um caráter de originalidade completa
expresso mesmo nas fundações que erigiu. Todos os povoados, vilas ou cidades,
que lhe animam hoje o território, têm uma origem uniforme bem destacada das
dos demais que demoram ao norte e ao sul.
Enquanto deste lado se levantaram nas
cercanias das minas ou à margem das catas, e no extremo norte, a partir de
dilatada linha entre a Itiúba e Ibiapaba, sobre o local de antigas aldeias das
missões, ali surgiram, todas, de antigas fazendas de gado.
Escusamo-nos de apontar exemplos por
demais numerosos. Quem considera as povoações do S. Francisco, das nascentes à
foz, assiste à sucessão dos três casos apontados.
Deixa as regiões alpestres, cidades
alcandoradas sobre serras, refletindo o arrojo incomparável das bandeiras;
atravessa depois os grandes gerais, desmedidas arenas feitas à sociedade rude,
libérrima e forte dos vaqueiros; e atinge por fim as paragens pouco
apetecidas, amaninhadas pelas secas, eleitas aos roteiros lentos e penosos das
missões...
É o que indicam, completando estes
ligeiros confrontos, os traçados das fundações jesuíticas, no trato de terras
que há pouco demarcamos.
Fundações jesuíticas na Bahia
Com efeito, ali, totalmente diversos na
origem, os atuais povoados sertanejos se formaram de velhas aldeias de índios,
arrebatadas, em 1758, do poder dos padres pela política severa de Pombal.
Resumindo-nos aos que ainda hoje existem, próximos e em torno do lugar onde
existia há cinco anos a Tróia de taipa dos jagunços, vemos, mesmo em tão
estreita área, os melhores exemplos.
De fato, em toda esta superfície de
terras, que abusivas concessões de sesmarias subordinavam à posse de uma só
família, a de Garcia d'Ávila (Casa da Torre), acham-se povoados antiqüíssimos.
De Itapicuru-de-Cima a Jeremoabo e daí acompanhando o S. Francisco até os
sertões de Rodelas e Cabrobó, avançaram logo no século 17 as missões num lento
caminhar que continuaria até o nosso tempo.
Não tiveram um historiador.
A extraordinária empresa apenas se
retrata, hoje, em raros documentos, escassos demais para traçarem a sua
continuidade. Os que existem, porém, são eloqüentes para o caso especial que
consideramos. Dizem, de modo iniludível, que, enquanto o negro se agitava na
azáfama do litoral, o indígena se fixava em aldeamentos que se tornariam
cidades. A solicitude calculada do jesuíta e a rara abnegação dos capuchinhos
e franciscanos incorporavam as tribos à nossa vida nacional e quando no
alvorecer do século 18 os paulistas irromperam em Pambu e na Jacobina, deram
de vistas, surpresos, nas paróquias que, ali, já centralizavam cabildas. O
primeiro daqueles lugares, 22 léguas a montante de Paulo Afonso, desde 1682 se
incorporara à administração da metrópole. Um capuchinho dominava-o, desfazendo
as dissenções tribais e imperando, humílimo, sobre os morubixabas mansos. No
segundo preponderava, igualmente exclusivo, o elemento indígena da velhíssima
missão do Saí.
Jeremoabo aparece, já em 1698, como
julgado, o que permite admitir-se-lhe origem muito mais remota. Aí o elemento
indígena se mesclava ligeiramente com o africano, o canhembora ao quilombola .
Incomparavelmente mais animado do que hoje, o humilde lugarejo desviava para
si, não raro, a atenção de João de Lancastro, governador geral do Brasil,
principalmente quando se exacerbavam as rivalidades dos chefes índios, munidos
com as patentes, perfeitamente legais, de capitães. Em 1702 a primeira missão
dos franciscanos disciplinou aqueles lugares, tornando-se mais eficaz que as
ameaças do governo. Harmonizaram-se as cabildas; e o afluxo de silvícolas
captados pela Igreja foi tal que em um só dia o vigário de Itapicuru batizou
3.700 catecúmenos .
Perto se erigia, também vetusta, a
missão de Maçacará, onde, em 1687, tinha o opulento Garcia d'Ávila uma
companhia de seu regimento. Mais para o sul avultavam outras: Natuba, também
bastante antiga aldeia, ereta pelos jesuítas; Inhambupe, que no elevar-se a
paróquia originou larga controvérsia entre os padres e o rico sesmeiro
precitado; Itapicuru ( 1639 ), fundada pelos franciscanos.
M ais para o norte, ao começar o século
18, o povoamento, com os mesmos elementos, continuou mais intenso, diretamente
favorecido pela metrópole.
Na segunda metade do século 17 surgira
no sertão de Rodelas a vanguarda das bandeiras do sul. Domingos Sertão
centralizou na sua fazenda do Sobrado o círculo animado da vida sertaneja. A
ação desse rude sertanista, naquela região, não tem tido o relevo que merece.
Quase na confluência das capitanias setentrionais, próximo ao mesmo tempo do
Piauí, do Ceará, de Pernambuco e da Bahia, o rústico landlord colonial aplicou
no trato de suas cinqüenta fazendas de criação a índole aventurosa e
irrequieta dos curibocas. Ostentando, como os outros dominadores do solo, um
feudalismo achamboado - que o levava a transmudar, em vassalos os
foreiros humildes e em servos os tapuias mansos -, o bandeirante
atingindo aquelas paragens, e havendo conseguido o seu ideal de riqueza e
poderio, aliava-se na mesma função integradora ao seu tenaz e humilde
adversário, o padre. 1: que a metrópole, no Norte, secundava, sem vacilar, os
esforços deste último. Firmara-se desde muito o princípio de combater o índio
com o próprio índio, de sorte que cada aldeamento de catecúmenos era um reduto
ante as incursões dos silvícolas soltos e indomáveis.
Ao terminar o século 17, Lancastro
fundou com o indígena catequizado o arraial da Barra, para atenuar as
depredações dos Acaroazes e Mocoazes. E daquele ponto à feição da corrente do
São Francisco sucederam-se os aldeamentos e as missões, em Nossa Senhora do
Pilar, Sorobabé, Pambu, Aracapá, Pontal, Pajeú etc. É evidente, pois, que,
precisamente no trecho dos sertões baianos mais ligados aos dos demais Estados
do Norte - em toda a orla do sertão de Canudos - se estabeleceu
desde o alvorecer da nossa história um farto povoamento, em que sobressaía o
aborígine amalgamando-se ao branco e ao negro, sem que estes se avolumassem ao
ponto de dirimir a sua influência inegável.
As fundações ulteriores à expulsão dos
jesuítas calcaram-se no mesmo método. Do final do século 18 ao nosso, em
Pombal, no Cumbe, em Bom Conselho e Monte Santo etc., perseverantes
missionários, de que é modelo belíssimo Apolônio de Todi, continuaram até os
nossos dias o apostolado penoso.
Ora, toda essa população perdida num
recanto dos sertões lá permaneceu até agora, reproduzindo-se livre de
elementos estranhos, como que insulada, e realizando, por isso mesmo, a máxima
intensidade de cruzamento uniforme capaz de justificar o aparecimento de um
tipo mestiço bem definido, completo.
Enquanto mil causas perturbadoras
complicavam a mestiçagem no litoral revolvido pelas imigrações e pela guerra;
e noutros pontos centrais outros empeços irrompiam no rastro das bandeiras
- ali, a população indígena, aliada aos raros mocambeiros foragidos,
brancos escapos à justiça ou aventureiros audazes, persistiu dominante.
Causas favoráveis à formação mestiça nos sertões
distinguindo-a dos cruzamentos no litoral
Não sofismemos a História.
Causas muito enérgicas determinaram o
insulamento e conservação do autóctone. Destaquemo-las.
Foram, primeiro, as grandes concessões
de sesmarias, definidoras da feição mais durável do nosso feudalismo
tacanho.
Os possuidores do solo, de que são
modelos clássicos os herdeiros de Antônio Guedes de Brito, eram ciosos dos
dilatados latifúndios, sem raias, avassalando a terra. A custo toleravam a
intervenção da própria metrópole. A ereção de capelas, ou paróquias, em suas
terras fazia-se sempre através de controvérsias com os padres; e embora estes
afinal ganhassem a partida caíam de algum modo sob o domínio dos grandes
potentados. Estes dificultavam a entrada de novos povoadores ou concorrentes e
tornavam as fazendas de criação, dispersas em torno das freguesias
recém-formadas, poderosos centros de atração à raça mestiça que delas
promanava.
Assim, esta se desenvolveu fora do
influxo de outros elementos. E entregues à vida pastoril, a que por índole se
afeiçoavam, os curibocas ou cafuzos trigueiros, antecedentes diretos dos
vaqueiros atuais, divorciados inteiramente das gentes do sul e da colonização
intensa do litoral, evolveram, adquirindo uma fisionomia original. Como que se
criaram num país diverso.
A carta régia de 7 de fevereiro de 1701
foi, depois, uma medida supletiva desse isolamento. Proibira, cominando
severas penas aos infratores, quaisquer comunicações daquela parte dos sertões
com o sul, com as minas de São Paulo. Nem mesmo as relações comerciais foram
toleradas; interditas as mais simples trocas de produtos.
Ora, além destes motivos, sobreleva-se,
considerando a gênese do sertanejo no extremo norte, um outro: o meio físico
dos sertões em todo o vasto território que se alonga do leito do Vaza-Barris
ao do Parnaíba, no ocidente.
Vimos-lhe a fisionomia original: a
flora agressiva, o clima impiedoso, as secas periódicas, o solo estéril crespo
de serranias desnudas, insulado entre os esplendores do majestoso araxá do
centro dos planaltos e as grandes matas, que acompanham e orlam a curvatura
das costas. Esta região ingrata para a qual o próprio tupi tinha um termo
sugestivo pora-pora-eima, remanescente ainda numa das serranias que a fecham
pelo levante ( Borborema ), foi o asilo do tapuia. Batidos pelo português,
pelo negro e pelo tupi coligados, refluindo ante o número, os indômitos
Cariris encontraram proteção singular naquele colo duro da terra, escalavrado
pelas tormentas, endurado pela ossamenta rígida das pedras, ressequido pelas
soalheiras, esvurmando espinheirais e caatingas. Ali se amorteciam, caindo no
vácuo das chapadas, onde ademais nenhuns indícios se mostravam dos minérios
apetecidos, os arremessos das bandeiras. A tapui-retama misteriosa ataviara-se
para o estoicismo do missionário. As suas veredas multívias e longas
retratavam a marcha lenta, torturante e dolorosa dos apóstolos. As bandeiras,
que a alcançavam, decampavam logo, seguindo, rápidas, fugindo, buscando outras
paragens.
Assombrava-as a terra, que se modelara
para as grandes batalhas silenciosas da fé. Deixavam-na, sem que nada lhes
determinasse a volta; e deixavam em paz o gentio.
Daí a circunstância, revelada por uma
observação feliz, de predominarem ainda hoje, nas denominações geográficas
daqueles lugares, termos de origem tapuia resistentes às absorções do
português e do tupi, que se exercitaram noutros pontos. Sem nos delongarmos
demais, resumamos às terras circunjacentes a Canudos a exemplificação deste
fato de linguagem, que tão bem traduz uma vicissitude histórica.
"Transpondo o S. Francisco em direção
ao sul, penetra-se de novo numa região ingrata pela inclemência do céu, e
vai-se atravessando a bacia elevada do Vaza-Barris, antes de ganhar os trechos
esparsos e mais deprimidos das chapadas baianas que, depois do salto de Paulo
Afonso, depois de Canudos e de Monte Santo, levam a Itiúba, ao Tombador e ao
Açuruá. Aí, nesse trecho do pátrio território, aliás dos mais ingratos, onde
outrora se refugiaram os perseguidos destroços dos Orizes, Procás e Cariris,
de novo aparecem, designando os lugares, os nomes bárbaros de procedência
tapuia, que nem o português nem o tupi logrou suplantar.
Lêem-se então no mapa da região com a
mesma freqüência dos acidentes topográficos os nomes como Pambu, Patamuté,
Uauá, Bendegó, Cumbe, Maçacará, Cocorobó, Jeremoabo, Tragagó, Canché.
Chorrochó, Quincuncá, Conchó, Centocé, Açuruá, Xique-Xique, Jequié, Sincorá,
Caculé ou Catolé, Orobó, Mocugé, e outros, igualmente bárbaros e estranhos."
É natural que grandes populações
sertanejos, de par com as que se constituíam no médio S. Francisco, se
formassem ali com a dosagem preponderante do sangue tapuia. E lá ficassem
ablegadas, evolvendo em círculo apertado durante três séculos, até a nossa
idade, num abandono completo, de todo alheio aos nossos destinos, guardando,
intactas, as tradições do passado. De sorte que. hoje, quem atravessa aqueles
lugares observa uma uniformidade notável entre os que os povoam: feições e
estaturas variando ligeiramente em torno de um modelo único, dando a impressão
de um tipo antropológico invariável, logo ao primeiro lance de vistas distinto
do mestiço proteiforme do litoral. Porque enquanto este patenteia todos os
cambiantes da cor e se erige ainda indefinido, segundo o predomínio variável
dos seus agentes formadores, e homem do sertão parece feito por um molde
único, revelando quase os mesmos caracteres físicos, a mesma tez, variando
brevemente do mamaluco bronzeado ao cafuz trigueiro; cabelo corredio e duro ou
levemente ondeado; a mesma envergadura atlética e os mesmos caracteres morais
traduzindo-se nas mesmas superstições. nos mesmos vícios, e nas mesmas
virtudes.
A uniformidade, sob estes vários
aspectos, é impressionadora. O sertanejo do norte é, inegavelmente, o tipo de
uma subcategoria étnica já constituída.
Um parêntesis irritante
Abramos um parêntesis...
A mistura de raças mui diversas é, na
maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda
quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam
vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso. O
indo-europeu, o negro e o brasílio-guarani ou o tapuia, exprimem estádios
evolutivos que se fronteiam, e o cruzamento, sobre obliterar as qualidades
preeminentes do primeiro, é um estimulante à revivescência dos atributos
primitivos dos últimos. De sorte que o mestiço - traço de união entre
as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares
- é, quase sempre, um desequilibrado. Foville compara-os, de um modo
geral, aos histéricos. Mas o desequilíbrio nervoso, em tal caso, é incurável:
não há terapêutica para este embater de tendências antagonistas, de raças
repentinamente aproximadas, fundidas num organismo isolado. Não se compreende
que após divergirem extremadamente, através de largos períodos entre os quais
a História é um momento, possam dois ou três povos convergir, de súbito,
combinando constituições mentais diversas, anulando em pouco tempo distinções
resultantes de um lento trabalho seletivo. Como nas somas algébricas, as
qualidades dos elementos que se justapõem não se acrescentam, subtraem-se ou
destróem-se segundo os caracteres positivos e negativos em presença. E o
mestiço - mulato, mamaluco ou cafuz - menos que um
intermediário, é um decaído, sem a energia física dos ascendentes selvagens,
sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores. Contrastando com a
fecundidade que acaso possua, ele revela casos de hibridez moral
extraordinários: espíritos fulgurantes, às vezes, mais frágeis, irrequietos,
inconstantes, deslumbrando um momento e extinguindo-se prestes, feridos pela
fatalidade das leis biológicas, chumbados ao plano inferior da raça menos
favorecida. Impotente para formar qualquer solidariedade entre as gerações
opostas, de que resulta, reflete-lhes os vários aspectos predominantes num
jogo permanente de antíteses. E quando avulta - não são raros os casos
- capaz das grandes generalizações ou de associar as mais complexas
relações abstratas, todo esse vigor mental repousa (salvante os casos
excepcionais cujo destaque justifica o conceito) sobre uma moralidade
rudimentar, em que se pressente o automatismo impulsivo das raças
inferiores.
É que nessa concorrência admirável dos
povos, evolvendo todos em luta sem tréguas, na qual a seleção capitaliza
atributos que a hereditariedade conserva, o mestiço é um intruso. Não lutou;
não é uma integração de esforços; é alguma coisa de dispersivo e dissolvente;
surge, de repente, sem caracteres próprios, oscilando entre influxos opostos
de legados discordes. A tendência à regressão às raças matrizes caracteriza a
sua instabilidade. É a tendência instintiva a uma situação de equilíbrio. As
leis naturais pelo próprio jogo parecem extinguir, a pouco e pouco, o produto
anômalo que as viola, afogando-o nas próprias fontes geradoras. O mulato
despreza então, irresistivelmente, o negro e procura com uma tenacidade
ansiosíssima cruzamentos que apaguem na sua prole o estigma da fronte
escurecida; o mamaluco faz-se o bandeirante inexorável, precipitando-se,
ferozmente, sobre as cabildas aterradas...
Esta tendência é expressiva. Reata, de
algum modo, a série contínua da evolução, que a mestiçagem partira. A raça
superior torna-se o objetivo remoto para onde tendem os mestiços deprimidos e
estes, procurando-a, obedecem ao próprio instinto da conservação e da defesa.
É que são invioláveis as leis do desenvolvimento das espécies; e se toda a
sutileza dos missionários tem sido impotente para afeiçoar o espírito do
selvagem às mais simples concepções de um estado mental superior; se não há
esforços que consigam do africano, entregue à solicitude dos melhores mestres,
o aproximar-se sequer do nível intelectual médio do indo-europeu -
porque todo o homem é antes de tudo uma integração de esforços da raça a que
pertence e o seu cérebro uma herança -, como compreender-se a
normalidade do tipo antropológico que aparece, de improviso, enfeixando
tendências tão opostas ?
Uma raça forte
Entretanto a observação cuidadosa do
sertanejo do Norte mostra atenuado esse antagonismo de tendências e uma quase
fixidez nos caracteres fisiológicos do tipo emergente.
Este fato, que contrabate, ao parecer,
as linhas anteriores, é a sua contraprova frisante.
Com efeito, é inegável que para a
feição anormal dos mestiços de raças mui diversas contribui bastante o fato de
acarretar o elemento étnico mais elevado, mais elevadas condições de vida, de
onde decorre a acomodação penosa e difícil para aqueles. E desde que desça
sobre eles a sobrecarga intelectual e moral de uma civilização, o
desequilíbrio é inevitável.
A índole incoerente, desigual e revolta
do mestiço, como que denota um íntimo e intenso esforço de eliminação dos
atributos que lhe impedem a vida num meio mais adiantado e complexo. Reflete
- em círculo diminuto - esse combate surdo e formidável, que é a
própria luta pela vida das raças, luta comovedora e eterna caracterizada pelo
belo axioma de Gumplowicz como a força motriz da História. O grande professor
de Gratz não a considerou sob este aspecto. A verdade, porém, é que se todo o
elemento étnico forte "tende subordinar ao seu destino o elemento mais fraco
antes o qual se acha", encontra na mestiçagem um caso perturbador. A expansão
irresistível do seu círculo singenético, porém, por tal forma iludida,
retarda-se apenas. Não se extingue. A luta transmuda-se, tornando-se mais
grave. Volve do caso vulgar, do extermínio franco da raça inferior pela
guerra, à sua eliminação lenta, à sua absorção vagarosa, à sua diluição no
cruzamento. E durante o curso deste processo redutor, os mestiços emergentes,
variáveis, com todas as nuanças da cor, da forma e do caráter, sem feições
definidas, sem vigor, e as mais vezes inviáveis, nada mais são, em última
análise, do que os mutilados inevitáveis do conflito que perdura,
imperceptível, pelo correr das idades.
É que neste caso a raça forte não
destrói a fraca pelas armas, esmaga-a pela civilização.
Ora, os nossos rudes patrícios dos
sertões do Norte forraram-se a esta última. O abandono em que jazeram teve
função benéfica. Libertou-os da adaptação penosíssima a um estádio social
superior, e, simultaneamente, evitou que descambassem para as aberrações e
vícios dos meios adiantados.
A fusão entre eles operou-se em
circunstâncias mais compatíveis com os elementos inferiores. O fator étnico
preeminente transmitindo-lhes as tendências civilizadoras não lhes impôs a
civilização.
Este fato destaca fundamentalmente a
mestiçagem dos sertões da do litoral. São formações distintas, senão pelos
elementos, pelas condições do meio. O contraste entre ambas ressalta ao
paralelo mais simples. O sertanejo tomando em larga escala, do selvagem, a
intimidade com o meio físico, que ao invés de deprimir enrija o seu organismo
potente, reflete, na índole e nos costumes, das outras raças formadoras apenas
aqueles atributos mais ajustáveis à sua fase social incipiente.
É um retrógrado; não é um degenerado.
Por isto mesmo que as vicissitudes históricas o libertaram, na fase
delicadíssima da sua formação, das exigências desproporcionadas de uma cultura
de empréstimo, prepararam-no para a conquistar um dia.
A sua evolução psíquica, por mais
demorada que esteja destinada a ser, tem, agora, a garantia de um tipo
fisicamente constituído e forte. Aquela raça cruzada surge autônoma e, de
algum modo, original, transfigurando, pela própria combinação, todos os
atributos herdados; de sorte que, despeada afinal da existência selvagem, pode
alcançar a `:ida civilizada por isto mesmo que não a atingiu de repente.
Aparece logicamente.
Ao invés da inversão extravagante que
se observa nas cidades do litoral, onde funções altamente complexas se impõem
a órgãos mal constituídos, comprimindo-os e atrofiando-os antes do pleno
desenvolvimento - nos sertões a integridade orgânica do mestiço
desponta inteiriça e robusta, imune de estranhas mesclas, capaz de evolver,
diferenciando-se, acomodando-se a novos e mais altos destinos. porque é a
sólida base física do desenvolvimento moral ulterior.
Deixemos, porém, este divagar pouco
atraente.
Prossigamos considerando diretamente a
figura original dos nossos patrícios retardatários. Isto sem método,
despretensiosamente, evitando os garbosos neologismos etnológicos.
Faltaram-nos, do mesmo passo, tempo e
competência para nos enredarmos em fantasias psíquico-geométricas, que hoje se
exageram num quase materialismo filosófico, medindo o ângulo facial, ou
traçando a norma verticalis dos jagunços.
Se nos embaraçássemos nas imaginosas
linhas dessa espécie de topografia psíquica, de que tanto se tem abusado,
talvez não os compreendêssemos melhor. Sejamos simples copistas.
Reproduzamos, intactas, todas as
impressões, verdadeiras ou ilusórias, que tivemos quando, de repente,
acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta
do sertão, com aqueles desconhecidos singulares, que ali estão -
abandonados - há três séculos.
Capítulo III
O sertanejo. Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho. Os
vaqueiros. Servidão inconsciente; vida primitiva. A vaquejada e a arribada.
Tradições. A seca. Insulamento no deserto. Religião mestiça: seus fatores
históricos. Caráter variável da religiosidade sertanejo: a Pedra Bonita e
Monte Santo. As missões atuais.O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não
tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do
litoral.
A sua aparência, entretanto, ao
primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o
desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto.
Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar
sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de
membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar
de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando
parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra;
a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai
logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando,
mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança
celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço
geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo
motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar
ligeira conversa com um amigo, cai logo - cai é o termo - de
cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que
todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os
calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.
É o homem permanentemente fatigado.
Reflete a preguiça invencível, a atonia
muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar
desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à
imobilidade e à quietude.
Entretanto, toda esta aparência de
cansaço ilude.
Nada é mais surpreendedor do que vê-la
desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em
segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente
exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas. O homem transfigura-se.
Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e
a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes aclarada pelo olhar
desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa
instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura
vulgar do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de
um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e
agilidade extraordinárias.
Este contraste impõe-se ao mais leve
exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida sertaneja
- caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre
extremos impulsos e apatias longas.
É impossível idear-se cavaleiro mais
chucro e deselegante; sem posição, pernas coladas ao bojo da montaria, tronco
pendido para a frente e oscilando à feição da andadura dos pequenos cavalos do
sertão, desferrados e maltratados, resistentes e rápidos como poucos. Nesta
atitude indolente, acompanhando morosamente, a passo, pelas chapadas, o passo
tardo das boiadas, o vaqueiro preguiçoso quase transforma o "campeão" que
cavalga na rede amolecedora em que atravessa dois terços da existência.
Mas se uma rês "alevantada" envereda,
esquiva, adiante, pela caatinga garranchenta, ou se uma ponta de gado, ao
longe, se trasmalha, ei-lo em momentos transformado, cravando os acicates de
rosetas largas nas ilhargas da montaria e partindo como um dardo, atufando-se
velozmente nos dédalos inextricáveis das juremas.
Vimo-lo neste steeple-chase
bárbaro.
Não há contê-lo, então, no ímpeto. Que
se lhe antolhem quebradas, acervos de pedras, coivaras, moiras de espinhos ou
barrancas de ribeirões, nada lhe impede encalçar o garrote desgarrado, porque
"por onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavalo"...
Colado ao dorso deste, confundindo-se
com ele, graças a pressão dos jarretes firmes, realiza a criação bizarra de um
centauro bronco: emergindo inopinadamente nas clareiras; mergulhando nas
macegas altas; saltando valos e ipueiras; vingando cômoros alçados; rompendo,
célere, pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida, no largo
dos tabuleiros . . .
A sua compleição robusta ostenta-se,
nesse momento, em toda a plenitude. Como que é o cavaleiro robusto que
empresta vigor ao cavalo pequenino e frágil, sustenta-o nas rédeas
improvisadas de caroá, suspendendo-o nas esporas, arrojando-o na carreira
-estribando curto, pernas encolhidas, joelhos fincados para a frente, torso
colado no arção - "escanchado no rastro" do novilho esquivo: aqui
curvando-se agilíssimo, sob um ramalho, que lhe roça quase pela sela; além
desmontando, de repente, como um acrobata, agarrado às crinas do animal, para
fugir ao embate de um tronco percebido no último momento e galgando, logo
depois, num pulo, o selim; - e galopando sempre, através de todos os
obstáculos, sopesando à destra sem a perder nunca, sem a deixar no
inextricável dos cipoais, a longa aguilhada de ponta de ferro encastoada em
couro, que por si só constituiria, noutras mãos, sérios obstáculos à
travessia...
Mas terminada a refrega, restituída ao
rebanho a rès dominada, ei-lo, de novo caído sobre o lombilho retovado, outra
vez desgracioso e inerte, oscilando à feição da andadura lenta' com a
aparência triste de um inválido esmorecido.
Tipos díspares: o jagunço e o
gaúcho
O gaúcho do Sul, ao encontrá-lo nesse
instante, sobreolhá-lo-ia comiserado.
O vaqueiro do Norte é a sua antítese.
Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos não há equipará-los.
O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas
e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta, tem, certo, feição mais
cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da
dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos
com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da
devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo
calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do Equador. Não tem, no meio
das horas tranqüilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma
ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a
natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial,
diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma
diversão que lhe permite as disparadas, domando distancias, nas pastagens
planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos o pala inseparável, como uma
flâmula festivamente desdobrada.
As suas vestes são um traje de festa,
ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas
para a movimentação fácil sobre os baguaís, no galope fechado ou no corcovear
raivoso, não se estragam em espinhos dilaceradores de caatingas. O seu poncho
vistoso jamais fica perdido, embaraçado nos esgalhos das árvores
garranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do
redomão desensofrido, calçando as largas botas russilhonas, em que retinem as
rosetas das esporas de prata; lenço de seda encarnado, ao pescoço; coberto
pelo sombreiro de enormes abas flexíveis, e tendo à cinta, rebrilhando, presas
pela guaiaca, a pistola e a faca - é um vitorioso jovial e forte. O
cavalo, sócio inseparável desta existência algo romanesca, é quase objeto de
luxo. Demonstra-o o arreamento complicado e espetaculoso. O gaúcho andrajoso
sobre um "pingo" bem aperado está decente, está corretíssimo. Pode atravessar
sem vexames os vilarejos em festa.
O vaqueiro
O vaqueiro, porém, criou-se em
condições opostas, em uma intermitência, raro perturbada, de horas felizes e
horas cruéis, de abastança e misérias - tendo sobre a cabeça, como
ameaça perene, o sol, arrastando de envolta, no volver das estações, períodos
sucessivos de devastações e desgraças.
Atravessou a mocidade numa
intercadência de catástrofes. Fez-se homem, quase sem ter sido criança.
Salteou-o, logo, intercalando-lhe agruras nas horas festivas da infância, o
espantalho das secas no sertão. Cedo encarou a existência pela sua face
tormentosa. É um condenado à vida. Compreendeu-se envolvido em combate sem
tréguas, exigindo-lhe imperiosamente a convergência de todas as energias.
Fez-se forte, esperto, resignado e
prático.
Aprestou-se, cedo, para a luta.
O seu aspecto recorda, vagamente, à
primeira vista, o de guerreiro antigo exausto da refrega. As vestes são uma
armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado
no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda,
muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em
joelheiras de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e guarda-pés
de pele de veado - é como a forma grosseira de um campeador medieval
desgarrado em nosso tempo.
Esta armadura, porém, de um vermelho
pardo, como se fosse de bronze flexível, não tem cintilações, não rebrilha
ferida pelo sol. É fosca e poenta. Envolve ao combatente de uma batalha sem
vitórias.. .
A sela da montaria, feita por ele
mesmo, imita o lombilho rio-grandense, mas é mais curta e cavada, sem os
apetrechos luxuosos daquele. São acessórios uma manta de pele de bode, um
couro resistente, cobrindo as ancas do animal, peitorais que lhe resguardam o
peito, e as joelheiras apresilhadas às juntas.
Este equipamento do homem e do cavalo
talha-se à feição do meio. Vestidos doutro modo não romperiam, incólumes, as
caatingas e os pedregais cortantes.
Nada mais monótono e feio, entretanto,
do que esta vestimenta original, de uma só cor - o pardo avermelhado do
couro curtido - sem uma variante, sem uma lista sequer diversamente
colorida. Apenas, de longe em longe, nas raras encamisadas em que aos
descantes da viola o matuto deslembra as horas fatigadas, surge uma novidade
- um colete vistoso de pele de gato do mato ou de suçuarana, com o pelo
mosqueado virado para fora, ou uma bromélia rubra e álacre fincada no chapéu
de couro.
Isto, porém, é incidente passageiro e
raro.
Extintas as horas do folguedo, o
sertanejo perde o desgarre folgazão - largamente expandido nos
sapateados, em que o estalo seco das alpercatas sobre o chão se perde nos
tinidos das esporas e soalhas dos pandeiros, acompanhando a cadência das
violas vibrando nos rasgados - e cai na postura habitual, tosco,
deselegante e anguloso, num estranho manifestar de desnervamento e cansaço
extraordinários.
Ora, nada mais explicável do que este
permanente contraste entre extremas manifestações de força e agilidade e
longos intervalos de apatia.
Perfeita tradução moral dos agentes
físicos da sua terra, o sertanejo do norte teve uma árdua aprendizagem de
reveses. Afez-se, cedo, a encontrá-los, de chofre, e a reagir, de pronto.
Atravessa a vida entre ciladas,
surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de
tréguas. É o batalhador perenemente combalido e exausto, perenemente audacioso
e forte; preparando-se sempre para um rencontro que não vence e em que se não
deixa vencer; passando da máxima quietude à máxima agitação; da rede
preguiçosa e cômoda para o lombilho duro, que o arrebata como um raio pelos
arrastadores estreitos, em busca das malhadas. Reflete, nestas aparências que
se contrabatem, a própria natureza que o rodeia - passiva ante o jogo
dos elementos e passando, sem transição sensível, de uma estação à outra, da
maior exuberância à penúria dos desertos incendidos, sob o reverberar dos
estios abrasantes.
É inconstante como ela. É natural que o
seja. Viver é adaptar-se. Ela talhou-o à sua imagem: bárbaro, impetuoso,
abrupto. . .
O gaúcho
O gaúcho, o pealador valente, é, certo,
inimitável, numa carga guerreira; precipitando-se, ao ressoar estrídulo dos
clarins vibrantes, pelos pampas, com o conto da lança enristada, firme no
estribo; atufando-se loucamente nos entreveros; desaparecendo, com um grito
triunfal, na voragem do combate, onde espadanam cintilações de espadas;
transmudando o cavalo em projétil e varanda quadrados e levando de rojo o
adversário no rompão das ferraduras, ou tombando, prestes, na luta, em que
entra com despreocupação soberana pela vida.
O jagunço
O jagunço é menos teatralmente heróico;
é mais tenaz; é mais resistente; é mais perigoso; é mais forte; é mais
duro.
Raro assume esta feição romanesca e
gloriosa. Procura o adversário com o propósito firme de o destruir, seja como
for.
Está afeiçoado aos prélios obscuros e
longos, sem expansões entusiásticas. A sua vida é uma conquista arduamente
feita, em faina diuturna. Guarda-a como capital precioso. Não esperdiça a mais
ligeira contração muscular, a mais leve vibração nervosa sem a certeza do
resultado. Calcula friamente o pugilato. Ao "riscar da faca" não dá um golpe
em falso. Ao apontar a lazarina longa ou o trabuco pesado, dorme na pontaria.
. .
Se, ineficaz o arremesso fulminante,
contrário enterreirado não baqueia, o gaúcho, vencido ou pulseado, é fragílimo
nas aperturas de uma situação inferior ou indecisa.
O jagunço, não. Recua. Mas, no recuar é
mais temeroso ainda. É um negacear demoníaco. O adversário tem, daquela hora
em diante, visando-o pelo cano da espingarda, um ódio inextinguível, oculto no
sombreado das tocaias...
Os vaqueiros
Esta oposição de caracteres acentua-se
nas quadras normais.
Assim todo sertanejo é vaqueiro. À
parte a agricultura rudimentar das plantações da vazante pela beira dos rios,
para a aquisição de cereais de primeira necessidade, a criação de gado é, ali,
a sorte de trabalho menos impropriada ao homem e à terra.
Entretanto não há vislumbrar nas
fazendas do sertão a azáfama festiva das estâncias do Sul.
"Parar o rodeio" é para o gaúcho uma
festa diária, de que as cavalhadas espetaculosas são ampliações apenas. No
âmbito estreito das mangueiras ou em pleno campo, ajuntando o gado costeado ou
encalçando os bois esquivos pelas sangas e banhados, os pealadores, capatazes
e peões, preando à ilhapa dos laços o potro bravio, ou fazendo tombar,
fulminado pelas bolas silvantes, o touro alçado, nas evoluções rápidas das
carreiras, como se tirassem "argolinhas", seguem no alarido e na alacridade de
uma diversão tumultuosa. Nos trabalhos mais calmos, quando nos rodeios marcam
o gado, curam-lhe as feridas, apartam os que se destinam às charqueadas,
separam os novilhos tambeiros ou escolhem os baguais condenados às chilenas do
domador - o mesmo fogo, que encandesce as marcas, dá as brasas para os
ágapes rudes de assados com couro ou ferve a água para o chimarrão amargo.
Decorre-lhes a vida variada e
farta.
Servidão inconsciente
O mesmo não acontece ao Norte. Ao
contrário do entancieiro, o fazendeiro dos sertões vive no litoral, longe dos
dilatados domínios que nunca viu, às vezes. Herdaram velho vício histórico.
Como os opulentos sesmeiros da colônia, usufruem, parasitariamente, as rendas
das suas terras, sem divisas fixas. Os vaqueiros são-lhes servos
submissos.
Graças a um contrato pelo qual percebem
certa percentagem dos produtos, ali ficam, anônimos - nascendo, vivendo
e morrendo na mesma quadra de terra - perdidos nos arrastadores e
mocambos; e cuidando, a vida inteira, fielmente, dos rebanhos que Ihes não
pertencem.
O verdadeiro dono, ausente,
conhece-lhes a fidelidade sem par. Não os fiscaliza. Sabe-lhes, quando muito,
os nomes.
Envoltos, então, no traje
característico, os sertanejos encourados erguem a choupana de pau-a-pique à
borda das cacimbas, rapidamente, como se armassem tendas; e entregam-se,
abnegados, à servidão que não avaliam.
A primeira coisa que fazem é aprender o
a b c e, afinal, toda a exigência da arte em que são eméritos: conhecer os
"ferros" das suas fazendas e os das circunvizinhas. Chamam-se assim os sinais
de todos os feitios, ou letras, ou desenhos caprichosos como siglas,
impressos, por tatuagem a fogo, nas ancas do animal, completados pelos cortes,
em pequenos ângulos, nas orelhas. Ferrado o boi, está garantido. Pode romper
tranqueiras e tresmalhar-se. Leva, indelével, a indicação que o reporá na
"solta" primitiva. Porque o vaqueiro não se contentando com ter de cor os
ferros de sua fazenda, aprende os das demais. Chega, às vezes por
extraordinário esforço de memória, a conhecer, uma por uma, não só as reses de
que cuida, como as dos vizinhos, incluindo-lhes a genealogia e hábitos
característicos, e os nomes, e as idades etc. Deste modo, quando surge no seu
logrador um animal alheio, cuja marca conhece, o restitui de pronto. No caso
contrário, conserva o intruso, tratando-o como aos demais. Mas não o leva à
feira anual, nem o aplica em trabalho algum; deixa-o morrer de velho. Não lhe
pertence.
Se é uma vaca e dá cria, ferra a esta
com o mesmo sinal desconhecido, que reproduz com perfeição admirável; e assim
pratica com toda a descendência daquela. De quatro em quatro bezerros, porém,
separa um, para si. É a sua paga. Estabelece com o patrão desconhecido o mesmo
convênio que tem com o outro. E cumpre estritamente, sem juízes e sem
testemunhas, o estranho contrato, que ninguém escreveu ou sugeriu.
Sucede muitas vezes ser decifrada,
afinal, uma marca somente depois de muitos anos, e o criador feliz receber, ao
invés da peça única que lhe fugira e da qual se deslembrara, numa ponta de
gado, todos os produtos dela.
Parece fantasia este fato, vulgar,
entretanto, nos sertões.
Indicamo-lo como traço encantador da
probidade dos matutos. Os grandes proprietários da terra e dos rebanhos a
conhecem. Têm, todos, com o vaqueiro o mesmo trato de parceria, resumido na
cláusula única de lhe darem, em troca dos cuidados que ele despende, um quarto
dos produtos da fazenda. E sabem que nunca se violará a percentagem.
O ajuste de contas faz-se no fim do
inverno e realiza-se, ordinariamente, sem que esteja presente a parte mais
interessada. É formalidade dispensável. O vaqueiro separa escrupulosamente a
grande maioria de novas cabeças pertencentes ao patrão (nas quais imprime o
sinal da fazenda) das poucas, um quarto, que lhe couberam por sorte. Grava
nestas o seu sinal particular; e conserva-as ou vende-as. Escreve ao patrão,
dando-lhe conta minuciosa de todo o movimento do sítio, alongando-se aos
mínimos pormenores; e continua na faina ininterrupta.
Esta, ainda que, em dadas ocasiões,
fatigante, é a mais rudimentar possível. Não existe no Norte uma indústria
pastoril. O gado vive e multiplica-se à gandaia. Ferrados em junho, os
garrotes novos perdem-se nas caatingas, com o resto das malhadas. Ali os
rareiam epizootias intensas, em que se sobrelevam o "rengue" e o "mal triste".
Os vaqueiros mal procuram atenuá-las. Restinguem a atividade às corridas
desabaladas pelos arrastadores. Se a bicheira devasta a tropa, sabem de
específico mais eficaz que o mercúrio: a reza. Não precisam de ver o animal
doente. Voltam-se apenas na direção em que ele se acha e rezam, tracejando no
chão inextricáveis linhas cabalísticas. Ou então, o que é ainda mais
transcendente, curam-no pelo rastro.
E assim passam numa agitação
estéril.
Raro, um incidente, uma variante
alegre, quebra a sua vida monótona.
Solidários todos, auxiliam-se
incondicionalmente em todas as conjunturas. Se foge a algum boi levantadiço,
toma da "guiada", põe pernas ao campeão. e ei-lo escanchado no rastro, jogado
pelas veredas tiradas a facão. Se não pode levar avante a empresa, "pede
campo", frase característica daquela cavalaria rústica, aos companheiros mais
vizinhos, e lá seguem todos, aos dez, aos vinte, rápidos, ruidosos, amigos
- "campeando", voando pelos tombadores e esquadrinhando as caatingas
até que o bruto, "desautorizado" dê a venta no termo da corrida, ou tombe, de
rijo, mancornado às mãos possantes que se lhe aferram aos chifres.
A vaquejada
Esta solidariedade de esforços
evidencia-se melhor na "vaquejada", trabalho consistindo essencialmente no
reunir, e discriminar depois, os gados de diferentes fazendas convizinhas, que
por ali vivem em comum, de mistura, em um compáscuo único e enorme, sem cercas
e sem valos.
Realizam-na de junho a julho.
Escolhido um lugar mais ou menos
central, as mais das vezes uma várzea complanada e limpa, o "rodeador",
congrega-se a vaqueirama das vizinhanças. Concertam nos dispositivos da
empresa. Distribuem-se as funções que a cada um caberão na lide. E para logo,
irradiantes pela superfície da arena, arremetem com as caatingas que a
envolvem os encourados atléticos.
O quadro tem a movimentação selvagem e
assombrosa de uma corrida de tártaros.
Desaparecem em minutos os sertanejos,
perdendo-se no matagal circundante. O rodeio permanece por algum tempo
deserto. . .
De repente estruge ao lado um estrídulo
tropel de cascos sobre pedras, um estrépido de galhos estalando, um estalar de
chifres embatendo; tufa nos ares, em novelos, uma nuvem de pó; rompe, a
súbitas, na clareira, embolada, uma ponta de gado; e, logo após, sobre o
cavalo que estaca esbarrado, o vaqueiro, teso nos estribos...
Traz apenas exígua parte do rebanho.
Entrega-a aos companheiros que ali ficam, `'de esteira"; e volve em galope
desabalado, renovando a pesquisa. Enquanto outros repontam além, mais outros,
sucessivamente, por toda a banda, por todo o âmbito do rodeio, que se anima, e
tumultua em disparos: bois às marradas ou escarvando o chão, cavalos
curveteando, confundidos e embaralhados sobre os plainos vibrantes num
prolongado rumor de terremoto. Aos lados, na caatinga, os menos felizes se
agitam às voltas com os marruás recalcitrantes. O touro largado ou o garrote
vadio em geral refoge à revista. Afunda na caatinga. Segue-o o vaqueiro.
Cose-se-lhe no rastro. Vai com ele às últimas bibocas. Não o larga; até que
surja o ensejo para um ato decisivo: alcançar repentinamente o fugitivo, de
arranco; cair logo para o lado da sela, suspenso num estribo e uma das mãos
presa às crinas do cavalo; agarrar com a outra a cauda do boi em disparada e
com um rapelão fortíssimo, de banda, derribá-lo pesadamente em terra...
Põe-lhe depois a pela ou a máscara de couro, levando-o jugulado ou vendado
para o rodeador.
Ali o recebem ruidosamente os
companheiros. Conta-lhes a façanha. Contam-lhe outras idênticas, e trocam-se
as impressões heróicas numa adjetivação ad boc, que vai num crescendo do
"destalado" ríspido ao "temero" pronunciado num trêmulo enrouquecido e
longo.
Depois, ao findar do dia, a última
tarefa: contam as cabeças reunidas. Apartam-nas. Separam-se, seguindo cada um
para sua fazenda tangendo por diante as reses respectivas. E pelos ermos ecoam
melancolicamente as notas do "aboiado" . . .
A arribada
Segue a boiada vagarosamente, à
cadência daquele canto triste e preguiçoso. Escanchado, desgraciosamente, na
sela, o vaqueiro, que a revê unida e acrescida de novas crias, rumina os
lucros prováveis: o que toca ao patrão, e o que lhe toca a ele, pelo trato
feito. Vai dali mesmo contando as peças destinadas à feira; considera, aqui,
um velho boi que ele conhece há dez anos e nunca levou à feira, mercê de uma
amizade antiga; além, um mumbica claudicante, em cujo flanco se enterra
estrepe agudo, que é preciso arrancar; mais longe, mascarado, cabeça alta e
desafiadora, seguindo apenas guiado pela compressão dos outros, o garrote
bravo, que subjugou, pegando-o "de saia", e derrubando-o, na caatinga; acolá,
soberbo, caminhando folgado, porque os demais o respeitam, abrindo-lhe em roda
um claro, largo pescoço, envergadura de búfalo, o touro vigoroso, inveja de
toda a redondeza, cujas armas regidas e curtas relembram, estaladas, rombas e
cheias de terra, guampaços formidáveis, em luta com os rivais possantes, nos
logradouros; além, para toda a banda, outras peças, conhecidas todas,
revivendo-lhe todas, uma a uma, um incidente, um pormenor qualquer da sua
existência primitiva e simples.
E prosseguem, em ordem, lentos, ao toar
merencório da cantiga, que parece acalentá-los, embalando-os com o refrão
monótono:
E cou mansão
E cou...é cão...
ecoando saudoso nos
descampados mudos...
Estouro da boiada
De súbito, porém, ondula um frêmito
sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há
uma parada instantânea .Entrebatem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se
fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, embaralham-se milhares ele
chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura. . .
A boiada arranca.
Nada explica, às vezes, o
acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos campeiros.
Origina o incidente mais trivial
- o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo.
Uma rês se espanta e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o
espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando,
de pancada, por diante, revoltos, misturando-os embolados, em vertiginosos
disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos.
E lá se vão: não há mais contê-los ou
alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas, estalando em
lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres;
estrepitam, britando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos
tombadores; rola surdamente pelos tabuleiros ruído soturno e longo de trovão
longínquo...
Destroem-se em minutos, feito montes de
leivas, antigas roças penosamente cultivadas; extinguem-se, em lameiros
revolvidos, as ipueiras rasas; abatem-se, apisoados, os pousos; ou
esvaziam-se, deixando-os os habitantes espavoridos, fugindo para os lados,
evitando o rumo retilíneo em que se despenha a "arribada" - milhares de
corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal
fantástico, precipitado na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o,
ou arremessando-se impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela
avalancha viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e
cerros, e galhadas - enristado o ferrão, rédeas soltas, soltos os
estribos, estirado sobre o lombilho, preso às crinas do cavalo - o
vaqueiro !
Já se lhe tem associado, em caminho, os
companheiros, que escutaram, de longe, o estouro da boiada. Renova-se a lida:
novos esforços, novos arremessos, novas façanhas, novos riscos e novos perigos
a despender, a atravessar e a vencer, até que o boiadão, não já pelo trabalho
dos que o encalçam e rebatem pelos flancos senão pelo cansaço, a pouco e pouco
afrouxe e estaque, inteiramente abombado.
Reaviam-no à vereda da fazenda; e
ressoam, de novo, pelos ermos, entristecedoramente. as notas melancólicas do
aboiado.
Tradições
Volvem os vaqueiros ao pouso e ali, nas
redes bamboantes, relatando as peripécias da vaquejada ou famosas aventuras de
feira, passam as horas matando, na significação completa do termo, o tempo, e
desalterando-se com a umbuzada saborosíssima, ou merendando a iguaria
incomparável de jerimum com leite.
Se a quadra é propícia, e vão bem as
plantações da vazante, e viça o "panasco" e o "mimoso" nas soltas dilatadas, e
nada revela o aparecimento da seca, refinam a ociosidade nos braços da
preguiça benfazeja. Seguem para as vilas se por lá se fazem festas de
cavalhadas e mouramas, divertimentos anacrônicos que os povoados sertanejos
reproduzem, intactos, com os mesmos programas de há três séculos. E entre eles
a exótica "encamisada", que é o mais curioso exemplo do aferro às mais remotas
tradições. Velhíssima cópia das vetustas quadras dos fossados ou arrancadas
noturnas, na Península, contra os castelos árabes, e de todo esquecido na
terra onde nasceu, onde a sua mesma significação é hoje inusitado arcaísmo,
esta diversão dispendiosa e interessante, feita à luz de lanternas e archotes,
com os seus longos cortejos de homens a pé, vestidos de branco, ou à maneira
de muçulmanos, e outros a cavalo em animais estranhamente ajaezados,
desfilando rápidos, em escaramuças e simulados recontros, é o encanto máximo
dos matutos folgazãos.
Danças
Nem todos, porém, a compartem. Baldos
de recursos para se alongarem das rancharias, agitam-se, então, nos folguedos
costumeiros. Encourados de novo, seguem para os sambas e cateretês ruidosos,
os solteiros, famanazes no 'desafio, sobraçando os machetes, que vibram no
"choradinho" ou "baião", e os casados levando toda a "obrigação", a família.
Nas choupanas em festa recebem-se os convivas com estrepitosas salvas de
ronqueiras e como em geral não há espaço para tantos, arma-se fora, no
terreiro varrido, revestido de ramagens, mobiliado de cepos e troncos, e raros
tamboretes, mas imenso, alumiado pelo luar e pelas estrelas! o salão de baile.
"Despontam o dia" com uns largos traços de aguardente, a "teimosa". E rompem
estrídulamente os sapateados vivos.
Um cabra destalado ralha na viola.
Serenam, em vagarosos meneios, as caboclas bonitas. Revoluteia,, "brabo e
corado", o sertanejo moço.
Desafios
Nos intervalos travam-se os
desafios.
Enterreiram-se, adversários, dois
cantores rudes. As rimas saltam e casam-se em quadras muita vez
belíssimas.
Nas horas de Deus, amém,
Não é zombaria, não!
Desafio o mundo
inteiro
Pra cantar nesta função !
O adversário retruca logo,
levantando-lhe o último verso da quadra:
Pra cantar nesta função,
Amigo, meu camarada,
Aceita teu
desafio
O "fama" deste sertão!
É o começo da luta que só termina
quando um dos bardos se engasga numa rima difícil e titubeia, repinicando
nervosamente o machete, sob uma avalancha de risos saudando-lhe a derrota. E a
noite vai deslizando rápida no folguedo que se generaliza, até que as barras
venham quebrando e cantem as sericóias nas ipueiras, dando o sinal de debandar
ao agrupamento folgazão.
Terminada a festa volvem os vaqueiros à
tarefa ou à rede preguiçosa.
Alguns, de ano em ano, arrancam dos
pousos tranquilos para remotas paragens. Transpõem o S. Francisco; mergulham
nos gerais enormes do ocidente, vastos planaltos indefinidos em que se
confundem as bacias daquele e do Tocantins em alagados de onde partem os rios
indiferentemente para o levante e para o poente; e penetram em Goiás, ou,
avantajando-se mais para o norte, as serras do Piauí.
Vão à compra de gados. Aqueles lugares
longínquos, pobres e obscuros vilarejos que o Porto Nacional extrema,
animam-se, então, passageiramente, com a romaria dos "baianos" São os
autocratas das feiras. Dentro da armadura de couro, galhardos, brandindo a
guiada, sobre os cavalos ariscos, entram naqueles vilarejos com um desgarre
atrevido de triunfadores felizes. E ao tornarem - quando não se perdem
para todo o sempre, sem tino, na "travessia" perigosa dos descampados
uniformes - reatam a mesma vida monótona e primitiva.
A seca
De repente, uma variante trágica.
Aproxima-se a seca.
O sertanejo adivinha-a e graças ao
ritmo singular com que se desencadeia o flagelo.
Entretanto não foge logo, abandonando a
terra a pouco e pouco invadida pelo limbo candente que irradia do Ceará.
Buckle, em página notável, assinala a
anomalia de se não afeiçoar nunca, o homem, às calamidades naturais que o
rodeiam. Nenhum povo tem mais pavor aos terremotos que o peruano; e no Peru as
crianças ao nascerem tem o berço embalado pelas vibrações da terra.
Mas o nosso sertanejo faz exceção à
regra. A seca não o apavora. É um complemento à sua vida tormentosa,
emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a, estóico. Apesar das dolorosas
tradições que conhece através de um sem numero de terríveis episódios,
alimenta a todo o transe esperanças de uma resistência impossível.
Com os escassos recursos das próprias
observações e das dos seus maiores, em que ensinamentos práticos se misturam a
extravagantes crendices, tem procurado estudar o mal, para o conhecer,
suportar e suplantar. Aparelha-se com singular serenidade para a luta. Dois ou
três meses antes do solstício de verão, especa e fortalece os muros dos
açudes, ou limpa as cacimbas. Faz os roçados e arregoa as estreitas faixas de
solo arável à orla dos ribeirões. Está preparado para as plantações ligeiras à
vinda das primeiras chuvas.
Procura em seguida desvendar o futuro.
Volve o olhar para as alturas; atenta longamente nos quadrantes; e perquire os
traços mais fugitivos das paisagens.
Os sintomas do flagelo despontam-lhe,
então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais
comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam
as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos
ares ardentes, sem deixarem traços; e "pintam" as caatingas, aqui, ali, por
toda a parte, mosqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez
mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem
chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas...
Do mesmo passo nota que os dias, estuando logo ao alvorecer, transcorrem
abrasantes, à medida que as noites se vão tornando cada vez mais frias. A
atmosfera absorve-lhe, com avidez de esponja, o suor na fronte, enquanto a
armadura de couro, sem mais a flexibilidade primitiva, se lhe endurece aos
ombros, esturrada, rígida, feito uma couraça de bronze. E ao descer das
tardes, dia a dia menores e sem crepúsculos, considera, entristecido, nos
ares, em bandos, as primeiras aves emigrantes, transvoando a outros
climas.
É o prelúdio da sua desgraça.
Vê-o acentuar-se num crescendo, até
dezembro.
Precautela-se: revista, apreensivo, as
malhadas. Percorre os logradouros longos. Procura entre as chapadas que se
esterilizam várzeas mais benignas para onde tange os rebanhos. E espera,
resignado, o dia 13 daquele mês Porque, em tal data, usança avoenga lhe
faculta sondar o futuro, interrogando a Providência.
E a experiência tradicional de Santa
Luzia. No dia 12 ao anoitecer expõe ao relento, em linha, seis pedrinhas de
sal, que representam, em ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis
meses vindouros, de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se estão
intactas, pressagiam a seca; se a primeira apenas se deliu, transmudada em
aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a
maioria ou todas, é inevitável o inverno benfazejo.
Esta experiência é belíssima. Em que
pese ao estigma supersticioso, tem base positiva, e é aceitável desde que se
considera que dela se colhe a maior ou menor dosagem de vapor d'água nos ares,
e, dedutivamente, maiores ou menores probabilidades de depressões
barométricas, capazes de atrair o afluxo das chuvas.
Entretanto, embora tradicional, esta
prova deixa ainda vacilante o sertanejo. Nem sempre desanima, ante os seus
piores vaticínios. Aguarda, paciente, o equinócio da primavera, para
definitiva consulta aos elementos. Atravessa três longos meses de expectativa
ansiosa e no dia de S. José, 19 de março, procura novo augúrio, o último.
Aquele dia é para ele o índice dos
meses subseqüentes. Retrata-lhe, abreviadas em doze horas, todas as
alternativas climáticas vindouras. Se durante ele chove, será chuvoso o
inverno: se, ao contrário, o Sol atravessa abrasadoramente o firmamento claro,
estão por terra todas as suas esperanças.
A seca é inevitável.
Insulamento no deserto
Então se transfigura. Não é mais o
indolente incorrigível ou o impulsivo violento, vivendo às disparadas pelos
arrastadores. Transcende a sua situação rudimentar. Resignado e tenaz, com a
placabilidade superior dos fortes, encara de fito a fatalidade incoercível; e
reage. O heroísmo tem nos sertões, para todo o sempre perdidas, tragédias
espantosas. Não há revivê-las ou episodiá-las. Surgem de uma luta que ninguém
descreve - a insurreição da terra contra o homem. A princípio este
reza, olhos postos na altura. O seu primeiro amparo é a fé religiosa.
Sobraçando os santos milagreiros, cruzes alçadas, andores erguidos, bandeiras
do Divino ruflando, lá se vão, descampados em fora, famílias inteiras -
não já os fortes e sadios senão os próprios velhos combalidos e enfermos
claudicantes, carregando aos ombros e à cabeça as pedras dos caminhos, mudando
os santos de uns para outros lugares. Ecoam largos dias, monótonas, pelos
ermos, por onde passam as lentas procissões propiciatórias, as ladainhas
tristes. Rebrilham longas noites nas chapadas, pervagantes as velas dos
penitentes... Mas os céus persistem sinistramente claros; o Sol fulmina a
Terra; progride o espasmo assombrados da seca. O matuto considera a prole
apavorada; contempla entristecido os bois sucumbidos, que se agrupam sobre as
fundagens das ipueiras, ou, ao longe, em grupos erradios e lentos, pescoços
dobrados, acaroados com o chão, em mugidos prantivos "farejando a água";
- e sem que se lhe amorteça a crença, sem duvidar da Providência que o
esmaga, murmurando às mesmas horas as preces costumeiras, apresta-se ao
sacrifício. Arremete de alvião a enxada com a terra, buscando nos estratos
inferiores a água que fugiu da superfície. Atinge-os às vezes; outras, após
enormes fadigas, esbarra em uma lajem que lhe anula todo o esforço despendido;
e outras vezes, o que é mais corrente, depois de desvendar tênue lençol
líquido subterrâneo, o vê desaparecer um, dois dias passados, evaporando-se,
ou sugado pelo solo. Acompanha-o tenazmente, reprofundando a mina, em cata do
tesouro fugitivo. Volve, por fim, exausto, à beira da própria cova que abriu,
feito um desenterrado. Mas como frugalidade rara lhe permite passar os dias
com alguns manelos de paçoca, não se lhe afrouxa, tão de pronto, o ânimo.
Ali está, em torno, a caatinga, o seu
celeiro agreste. Esquadrinha-o. Talha em pedaços os mandacarus que desalteram,
ou as ramas verdoengas dos juazeiros que alimentam os magros bois famintos;
derruba os estipites dos ouricuris e rala-os, amassa-os, cozinha-os, fazendo
um pão sinistro, o "bró", que incha os ventres num enfarte ilusório,
empanzinando o faminto; atesta os jiraus de coquilhos; arranca as raízes
túmidas dos umbuzeiros, que lhe dessedentam os filhos, reservando para si o
sumo adstringente dos cladódios do xiquexique, que enrouquece ou extinguem a
voz de quem o bebe, e demasia-se em trabalhos, apelando infatigável para todos
os recursos - forte e carinhoso - defendendo-se e estendendo à
prole abatida e aos rebanhos confiados a energia sobre-humana.
Baldam-se-lhe, porém, os esforços.
A natureza não o combate apenas com o
deserto. Povoa-a, contrastando com a fuga das seriemas, que emigram para
outros "tabuleiros", e jandaias, que fogem para o litoral remoto, uma fauna
cruel. Miríades de morcegos agravam a "magrém", abatendo-se sobre o gado,
dizimando-o. Chocalham as cascavéis, inúmeras, tanto mais numerosas quanto
mais ardente o estio, entre as macegas recrestadas.
À noite, a suçuarana traiçoeira e
ladra, que lhe rouba os bezerros e os novilhos, vem beirar a sua lancharia
pobre.
É mais um inimigo a suplantar.
Afugenta-a e espanta-a, precipitando-se
com um tição aceso no terreiro deserto. E se ela não recua, assalta-a. Mas não
a tiro, porque sabe que, desviada a mira, ou pouco eficaz o chumbo, a onça,
"vindo em cima da fumaça", é invencível.
O pugilato é mais comovente. O atleta
enfraquecido, tendo à mão esquerda a forquilha e à direita a faca, irrita e
desafia a fera, provoca-lhe o bote e apara-a no ar, trespassando-a de um
golpe.
Nem sempre, porém, pode aventurar-se à
façanha arriscada. Uma moléstia extravagante completa a sua desdita - a
hemeralopia. Esta falsa cegueira é paradoxalmente feita pelas reações da luz;
nasce dos dias claros e quentes, dos firmamentos fulgurantes, do vivo ondular
dos ares em fogo sobre a terra nua. É uma pletora do olhar. Mas o Sol se
esconde no poente a vítima nada mais vê. Está cega. A noite afoga-se de
súbito, antes de envolver a Terra. E na manhã seguinte a vista extinta lhe
revive, acendendo-se no primeiro lampejo do levante, para se apagar, de novo,
à tarde, com intermitência dolorosa.
Renasce-lhe com ela a energia. Ainda se
não considera vencido. Restam-lhe, para desalterar e sustentar os filhos, os
talos tenros, os mangarás das bromélias selvagens. Ilude-os com essas iguarias
bárbaras.
Segue, a pé agora, porque se Ihe parte
o coração só de olhar para o cavalo, para os logradouros. Contempla ali a
ruína da fazenda: bois espectrais, vivos não se sabe como, caídos sob as
árvores mortas, mal soerguendo o arcabouço murcho sobre as pernas secas,
marchando vagarosamente, cambaleantes; bois mortos há dias e intactos, que os
próprios urubus rejeitam, porque não rompem a bicadas as suas peles
esturradas; bois jururus, em roda da clareira de chão entorroado onde foi a
aguada predileta; e, o que mais Ihe dói, os que ainda não de todo exaustos o
procuram, e o circundam, confiantes, urrando em longo apelo triste que parece
um choro.
E nem um cereus avulta mais em torno;
foram ruminadas as últimas ramas verdes dos juás...
Trançam-se, porém, ao lado,
impenetráveis renques de macambiras. É ainda um recurso. Incendeia-os, batendo
o isqueiro nas acendalhas das folhas ressequidas para os despir, em combustão
rápida, dos espinhos. E quando os rolos de fumo se enovelam e se diluem no ar
puríssimo, vêem-se, correndo de todos os lados, em tropel moroso de
estropeados, os magros bois famintos, em busca do último repasto.
Por fim tudo se esgota e a situação não
muda. Não há probabilidade sequer de chuvas. A casca das marizeiras não
transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolando, pelas
chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepitante das
caatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios
inextinguíveis da canícula. O sertanejo, assoberbado de reveses, dobra-se
afinal.
Passa certo dia, a sua porta, a
primeira turma de "retirantes". Vê-a, assombrado, atravessar o terreiro,
miseranda, desaparecendo adiante numa nuvem de poeira, na curva do caminho...
No outro dia, outra. E outras. É o sertão que se esvazia.
Não resiste mais. Amatula-se num
daqueles bandos, que lá se vão caminho em fora, debruando de ossadas as
veredas, e lá se vai ele no êxodo penosíssimo para a costa, para as serras
distantes, para quaisquer lugares onde o não mate o elemento primordial da
vida.
Atinge-os. Salva-se.
Passam-se meses. Acaba-se o flagelo.
Ei-lo de volta. Vence-o saudade do sertão. Remigra. E torna feliz, revigorado,
cantando; esquecido de infortúnios, buscando as mesmas horas passageiras da
ventura perdidiça e instável, os mesmos dias longos de transes e provações
demoradas.
Religião mestiça
Insulado deste modo no país, que o não
conhece, em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na
organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária, nômade ou mal fixo
à terra, o sertanejo não tem, por bem dizer, ainda capacidade orgânica para se
afeiçoar a situação mais alta.
O círculo estreito da atividade
remorou-lhe o aperfeiçoamento psíquico. Está na fase religiosa de um
monoteísmo incompreendido, eivado de misticismo extravagante, em que se rebate
o fetichismo do índio e do africano. E o homem primitivo, audacioso e forte,
mas ao mesmo tempo crédulo, deixando-se facilmente arrebatar pelas
superstições mais absurdas. Uma análise destas revelaria a fusão de estádios
emocionais distintos.
A sua religião é como ele -
mestiça.
Resumo dos caracteres físicos e
fisiológicos das raças de que surge, sumaria-lhes identicamente as qualidades
morais. E um índice da vida de três povos. E as suas crenças singulares
traduzem essa aproximação violenta de tendências distintas. E desnecessário
descrevê-las. As lendas arrepiadoras do caapora travesso e maldoso,
atravessando célere, montado em caititu arisco, as chapadas desertas, nas
noites misteriosas de luares claros; os sacis diabólicos, de barrete vermelho
à cabeça, assaltando o viandante retardatário, nas noites aziagas das
sextas-feiras, de parceria com os lobisomens e mulas-sem-cabeça notívagos;
todos os mal-assombramentos, todas as tentações do maldito ou do diabo
- este trágico emissário dos rancores celestes em comissão na Terra; as
rezas dirigidas a S. Campeiro, canonizado in partibus, ao qual se acendem
velas pelos campos, para que favoreça a descoberta de objetos perdidos; as
benzeduras cabalísticas para curar os animais, para 'amassar" e "vender"
sezões; todas as visualidades, todas aparições fantásticas, todas as profecias
esdrúxulas de messias insanos; e as romarias piedosas; e as missões; e as
penitências.... todas as manifestações complexas de religiosidade indefinida
são explicáveis.
Fatores históricos da religião mestiça
Não seria difícil caracterizá-las como
uma mestiçagem de crenças. Ali estão, francos, o antropismo do selvagem, o
animismo do africano e, o que é mais, o próprio aspecto emocional da raça
superior, na época do descobrimento e da colonização.
Este último é um caso notável de
atavismo, na História.
Considerando as agitações religiosas do
sertão e os evangelizadores e messias singulares, que, intermitentemente, o
atravessam, ascetas mortificados de flagícios, encalçados sempre pelos
sequazes numerosos, que fanatizam, que arrastam, que dominam, que endoidecem
- espontaneamente recordamos a fase mais crítica da alma portuguesa, a
partir do final do século 16, quando, depois de haver por momentos
centralizado a História, o mais interessante dos povos caiu, de súbito, em
decomposição rápida, mal disfarçada pela corte oriental de d. Manuel.
O povoamento do Brasil fez-se, intenso,
com d. João III, precisamente no fastígio de completo desequilíbrio moral,
quando "todos os terrores da Idade Média tinham cristalizado no catolicismo
peninsular".
Uma grande herança de abusões
extravagantes, extinta na orla marítima pelo influxo modificador de outras
crenças e de outras raças, no sertão ficou intacta. Trouxeram-na as gentes
impressionáveis, que afluíram para a nossa terra, depois de desfeito no
Oriente o sonho miraculoso da Índia. Vinham cheias daquele misticismo feroz,
em que o fervor religioso reverberava à cadência forte das fogueiras
inquisitoriais, lavrando intensas na península. Eram parcelas do mesmo povo
que em Lisboa, sob a obsessão dolorosa dos milagres e assaltado de súbitas
alucinações, via, sobre o paço dos reis, ataúdes agoureiros, línguas de flamas
misteriosas, catervas de mouros de albornozes brancos, passando
processionalmente; combates de paladinos nas alturas... E da mesma gente que
após Alcácer-Quibir, em plena "caquexia nacional", segundo o dizer vigoroso de
Oliveira Martins, procurava, ante a ruína iminente, como salvação única, a
fórmula superior das esperanças messiânicas.
De feito, considerando as desordens
sertanejas, hoje, e os messias insanos que as provocam, irresistivelmente nos
assaltam, empolgantes' as figuras dos profetas peninsulares de
outrora-o rei de Penamacor, o rei da Ericeira, errantes pelas faldas
das serras, devotados ao martírio, arrebatando na mesma idealização, na mesma
insânia, no mesmo sonho doentio, as multidões crendeiras.
Esta justaposição histórica calca-se
sobre três séculos. Mas é exata, completa, sem dobras. Imóvel o tempo sobre a
rústica sociedade sertaneja, despeada do movimento geral da evolução humana,
ela respira ainda na mesma atmosfera moral dos iluminados que encalçavam,
doidos, o Miguelinho ou o Bandarra. Nem lhe falta, para completar o símile, o
misticismo político do sebastianismo. Extinto em Portugal, ele persiste todo,
hoje, de modo singularmente impressionador, nos sertões do Norte.
Mas não antecipemos.
Caráter variável da religiosidade sertaneja
Estes estigmas atávicos tiveram entre
nós, favoráveis, as reações do meio, determinando psicologia especial.
O homem dos sertões - pelo que
esboçamos - mais do que qualquer outro, está em função imediata da
terra. É uma variável dependente no jogar dos elementos. Da consciência da
fraqueza para os debelar resulta, mais forte, este apelar constante para o
maravilhoso, esta condição inferior de pupilo estúpido da divindade. Em
paragens mais benéficas a necessidade de uma tutela sobrenatural não seria tão
imperiosa. Ali, porém, as tendências pessoais como que se acolchetam às
vicissitudes externas, e deste entrelaçamento resulta, copiando o contraste
que observamos entre a exaltação impulsiva e a apatia enervadora da atividade,
a indiferença fatalista pelo futuro e a exaltação religiosa. Os ensinamentos
dos missionários não poderiam exercitar-se estremes das tendências gerais da
sua época. Por isto, como um palimpsesto, a consciência imperfeita dos matutos
revela nas quadras agitadas, rompendo dentre os ideais belíssimos do
catolicismo incompreendido, todos os estigmas de estádio inferior.
É que, mesmo em períodos normais, a sua
religião é indefinida e vária. Da mesma forma que os negros Haúças, adaptando
à liturgia todo o ritual iorubano, realizam o fato anômalo, mas vulgar mesmo
na capital da Bahia, de seguirem para as solenidades da Igreja por ordem dos
fetiches, os sertanejos, herdeiros infelizes de vícios seculares, saem das
missas consagradas para os ágapes selvagens dos candomblés africanos ou
poracês do tupi. Não espanta que patenteiem, na religiosidade indefinida,
antinomias surpreendentes.
Quem vê a família sertaneja, ao cair da
noite, ante o oratório tosco ou registro paupérrimo, à meia luz das candeias
de azeite, orando pelas almas dos mortos queridos, ou procurando alentos à
vida tormentosa, encanta-se.
O culto dos mortos é impressionador.
Nos lugares remotos, longe dos povoados, inumam-nos à beira das estradas, para
que não fiquem de todo em abandono, para que os rodeiem sempre as preces dos
viandantes, para que nos ângulos da cruz deponham estes, sempre, uma flor, um
ramo, uma recordação fugaz mas renovada sempre. E o vaqueiro, que segue
arrebatadamente, estaca, prestes, o cavalo, ante o humilde monumento -
uma cruz sobre pedras arrumadas - e, a cabeça descoberta, passa
vagaroso, rezando pela salvação de quem ele nunca viu talvez, talvez de um
inimigo.
A terra é o exílio insuportável, o
morto um bem-aventurado sempre.
O falecimento de uma criança é um dia
de festa. Ressoam as violas na cabana dos pobres pais, jubilosos entre as
lágrimas; referve o samba turbulento; vibram nos ares, fortes, as coplas dos
desafios; enquanto, a uma banda, entre duas velas de carnaúba, coroado de
flores, o anjinho exposto espelha, no último sorriso paralisado, a felicidade
suprema da volta para os céus, para a felicidade eterna - que é a
preocupação dominadora daquelas almas ingênuas e primitivas.
No entanto há traços repulsivos no
quadro desta religiosidade de aspectos tão interessantes, aberrações brutais,
que a derrancam ou maculam.
A "Pedra Bonita"
As agitações sertanejas, do Maranhão à
Bahia, não tiveram ainda um historiador. Não as esboçaremos sequer. Tomemos um
fato, entre muitos, ao acaso.
No termo de Pajeú, em Pernambuco, os
últimos rebentos das formações graníticas da costa se alteiam, em formas
caprichosas, na serra Talhada, dominando, majestosos, toda a região em torno e
convergindo em largo anfiteatro acessível apenas por estreita garganta, entre
muralhas a pique. No âmbito daquele, como púlpito gigantesco, ergue-se um
bloco solitário - a Pedra Bonita.
Este lugar foi, em 1837, teatro de
cenas que recordam as sinistras solenidades religiosas dos Achantis. Um
mamaluco ou cafuz, um iluminado, ali congregou toda a população dos sítios
convizinhos e, engrimpando-se à pedra, anunciava, convicto, o próximo advento
do reino encantado do rei d. Sebastião. Quebrada a pedra, a que subira, não a
pancadas de marreta, mas pela ação miraculosa do sangue das crianças,
esparzido sobre ela em holocausto, o grande rei irromperia envolto de sua
guarda fulgurante, castigando, inexorável, a humanidade ingrata, mas cumulando
de riquezas os que houvessem contribuído para o desencanto.
Passou pelo sertão um frêmito de
necrose...
O transviado encontrara meio propício
ao contágio da sua insânia. Em torno da ara monstruosa comprimiam-se as mães
erguendo os filhos pequeninos e lutavam, procurando-lhes a primazia no
sacrifício... O sangue espadanava sobre a rocha jorrando, acumulando-se em
torno; e, afirmam os jornais do tempo, em copia tal que, depois de desfeita
aquela lúgubre farsa, era impossível a permanência no lugar infeccionado.
Por outro lado, fatos igualmente
impressionadores contrabatem tais aberrações. A alma de um matuto é inerte
ante as influências que a agitam. De acordo com estas pode ir da extrema
brutalidade ao máximo devotamento.
Vimo-la, neste instante, pervertida
pelo fanatismo. Vejamo-la transfigurada pela fé.
Monte Santo
Monte Santo é um lugar lendário.
Quando, no século 17, as descobertas
das minas determinaram a atração do interior sobre o litoral, os aventureiros
que ao norte investiam com o sertão, demandando as serras da Jacobina,
arrebatados pela miragem das minas de prata e rastreando o itinerário
enigmático de Belchior Dias, ali estacionavam longo tempo. A serra solitária
- a Piquaraçá dos roteiros caprichosos - , dominando os
horizontes, norteava-lhes a marcha vacilante.
Além disto, atraía-os por si mesma,
irresistivelmente.
É que em um de seus flancos, escritas
em caligrafia ciclópica com grandes pedras arrumadas, apareciam letras
singulares - um A, um L e um S - ladeadas por uma cruz, de modo
a fazerem crer que estava ali e não avante, para o ocidente ou para o sul, o
el-dorado apetecido.
Esquadrinharam-na, porém, debalde os
êmulos do Muribeca astuto, seguindo, afinal, para outros rumos, com as suas
tropas de potiguaras mansos e forasteiros armados de biscainhos . . .
A serra desapareceu outra vez entre as
chapadas que domina ...
No fim do século passado, porém,
descobriu-a um missionário - Apolônio de Todi. Vindo da missão de
Maçacará, o maior apóstolo do Norte impressionou-se tanto com o aspecto da
montanha, "achando-a semelhante ao calvário de Jerusalém", que planeou logo a
ereção de uma capela. Ia ser a primeira do mais tosco e do mais imponente
templo da fé religiosa.
Descreve o sacerdote, longamente, o
começo e o curso dos trabalhos e o auxílio franco que lhe deram os povoadores
dos lugares próximos. Pinta a última solenidade, procissão majestosa e lenta
ascendendo a montanha, entre as raladas de tufão violento que se alteou das
planícies apagando as tochas; e, por fim, o sermão terminal da penitencia,
exortando o povo a "que nos dias santos viesse visitar os santos lugares, já
que vivia em tão grande desamparo das coisas espirituais".
"E aqui, termina , sem pensar em mais
nada disse que daí em diante não chamariam mais serra de Piquaraçá, mas sim
Monte Santo."
E fez-se o templo prodigioso, monumento
erguido pela natureza e pela fé, mais alto que as mais altas catedrais da
Terra.
A população sertaneja completou a
empresa do missionário.
Hoje quem sobe a extensa via-sacra de
três quilômetros de comprimento, em que se origem, a espaços, 25 capelas de
alvenaria, encerrando painéis dos "passos", avalia a constância e a tenacidade
do esforço despendido.
Amparada por muros capeados; calçada em
certos trechos; tendo, noutros, como leito, a rocha viva talhada em degraus,
ou rampeada, aquela estrada branca, de quartzolito, onde ressoam, há cem anos,
as litanias das procissões da quaresma e têm passado legiões de penitentes, é
um prodígio de engenharia rude e audaciosa. Começa investindo com a montanha,
segundo a normal de máximo declive, em rampa de cerca de vinte graus. Na
quarta ou quinta capelinha inflete à esquerda e progride menos íngreme.
Adiante, a partir da capela maior - ermida interessantíssima ereta num
ressalto da pedra a cavaleiro do abismo - , volta à direita, diminuindo
de declive até a linha de cumeadas. Segue por esta segundo uma selada breve.
Depois se alteia, de improviso, retilínea, em ladeira forte, arremetendo com o
vértice pontiagudo do monte, até o Calvário no alto !
A medida que ascende, ofegante,
estacionando nos "passos", o observador depara perspectivas que seguem num
crescendo de grandezas soberanas: primeiro, os planos das chapadas e
tabuleiros, esbatidos embaixo em planícies vastas; depois, as serranias
remotas, agrupadas, longe, em todos os quadrantes; e, atingindo o alto, o
olhar a cavaleiro das serras - o espaço indefinido, a emoção estranha
de altura imensa, realçada pelo aspecto da pequena vila, embaixo, mal
percebida na confusão caótica dos telhados.
E quando, pela Semana Santa, convergem
ali as famílias da redondeza e passam os crentes pelos mesmos flancos em que
vaguearam outrora, inquietos de ambição, os aventureiros ambiciosos, vê-se que
Apolônio de Todi, mais hábil que o Muribeca, decifrou o segredo das grandes
letras de pedra descobrindo o el-dorado maravilhoso, a mina opulentíssima
oculta no deserto...
As missões atuais
Infelizmente o apóstolo não teve
continuadores. Salvo raríssimas exceções, o missionário moderno é um agente
prejudicialíssimo no agravar todos os desequilíbrios do estado emocional dos
tabaréus. Sem a altitude dos que o antecederam, a sua ação é negativa:
destrói, apaga e perverte o que incutiram de bom naqueles espíritos ingênuos
os ensinamentos dos primeiros evangelizadores, dos quais não tem o talento e
não tem a arte surpreendente da transfiguração das almas. Segue vulgarmente
processo inverso do daqueles: não aconselha e consola, aterra e amaldiçoa; não
ora, esbraveja. E brutal e traiçoeiro. Surge das dobras do hábito escuro como
da sombra de uma emboscada armada à credulidade incondicional dos que o
escutam. Sobe ao púlpito das igrejas do sertão e não alevanta a imagem
arrebatadora dos céus; descreve o inferno truculento e flamívomo, numa
algaravia de frases rebarbativas a que completam gestos de maluco e esgares de
truão.
É ridículo, e é medonho. Tem o
privilégio estranho das bufonerias melodramáticas. As parvoíces saem-lhe da
boca trágicas.
Não traça ante os matutos simples a
feição honesta e superior da vida - não a conhece; mas brama em todos
os tons contra o pecado; esboça grosseiros quadros de torturas; e espalha
sobre o auditório fulminado avalanchas de penitencias, extravagando largo
tempo, em palavrear interminável, fungando as pitadas habituais e engendrando
catástrofes, abrindo alternativamente a caixa de rapé e a boceta de
Pandora...
E alucina o sertanejo crédulo;
alucina-o, deprime-o, perverte-o.
Os "Serenos"
Busquemos um exemplo único, o
último.
Em 1850 os sertões de Cariri foram
alvorotados pelas depredações dos Serenos, exercitando o roubo em larga
escala.
Aquela denominação indicava "companhias
de penitentes" que à noite, nas encruzilhadas ermas, em torno das cruzes
misteriosas, se agrupavam, adoidadamente, numa agitação macabra de
flagelantes, impondo-se o cilício dos espinhos, das urtigas e outros duros
tratos de penitência. Ora, aqueles agitados saíram certo dia, repentinamente,
da matriz do Crato, dispersos, em desalinho - mulheres em prantos,
homens apreensivos, crianças trementes - em procura dos flagícios
duramente impostos. Dentro da igreja, missionários recém-vindos haviam
profetizado próximo fim do mundo. Deus o dissera - em mau português, em
mau italiano e em mau latim - estava farto dos desmandos da
Terra...
E os derivados foram pelos sertões em
fora, esmolando, chorando, rezando, numa mandria deprimente, e como a caridade
pública não os podia satisfazer a todos, acabaram - roubando.
Era fatal. Os instrutores do crime
foram, afinal, infelicitar outros lugares e a justiça a custo reprimiu o
banditismo incipiente.
Capítulo IV
Antônio Conselheiro, documento vivo de atavismo. Um
gnóstico bronco. Grande homem pelo avesso, representante natural do meio em
que nasceu. Antecedentes de família: os Maciéis. Uma vida bem auspiciada.
Primeiros reveses; e a queda. Como se faz um monstro. Peregrinações e
martírios. Lendas. As prédicas. Preceitos de montanista. Profecias. Um
heresiarca do século 2 em plena idade moderna. Tentativa de reação legal.
Hégira para o sertão.
É natural que estas camadas profundas
da nossa estratificação étnica se sublevassem numa anticlinal extraordinária
- Antônio Conselheiro...
A imagem é corretíssima.
Da mesma forma que o geólogo,
interpretando a inclinação e a orientação dos estratos truncados de antigas
formações, esboça o perfil de uma montanha extinta, o historiador só pode
avaliar a altitude daquele homem, que por si nada valeu, considerando a
psicologia da sociedade que o criou. Isolado, ele se perde na turba dos
nevróticos vulgares. Pode ser incluído numa modalidade qualquer de psicose
progressiva. Mas, posto em função do meio, assombra. É uma diátese e é uma
síntese. As fases singulares da sua existência não são, talvez, períodos
sucessivos de uma moléstia grave, mas são, com certeza, resumo abreviado dos
aspectos predominantes de mal social gravíssimo. Por isto o infeliz, destinado
à solicitude dos médicos, veio, impelido por uma potência superior, bater de
encontro a uma civilização, indo para a História como poderia ter ido para o
hospício. Porque ele para o historiador não foi um desequilibrado. Apareceu
como integração de caracteres diferenciais - vagos, indecisos, mal
percebidos quando dispersos na multidão, mas enérgicos e definidos, quando
resumidos numa individualidade.
Todas as crenças ingênuas, do
fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das
raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja, se
condensaram no seu misticismo feroz e extravagante. Ele foi, simultaneamente,
o elemento ativo e passivo da agitação de que surgiu. O temperamento mais
impressionável apenas fê-lo absorver as crenças ambientes, a princípio numa
quase passividade pela própria receptividade mórbida do espirito torturado de
reveses, e elas refluíram, depois, mais fortemente, sobre o próprio meio de
onde haviam partido, partindo da sua consciência delirante.
É difícil traçar no fenômeno a linha
divisória entre as tendências pessoais e as tendências coletivas: a vida
resumida do homem é um capítulo instantâneo da vida de sua sociedade...
Acompanhar a primeira é seguir
paralelamente e com mais rapidez a segunda: acompanhá-las juntas é observar a
mais completa mutualidade de influxos.
Considerando em torno, o falso
apóstolo, que o próprio excesso de subjetivismo predispusera à revolta contra
a ordem natural, como que observou a fórmula do próprio delírio. Não era um
incompreendido. A multidão aclamava-o representante natural das suas
aspirações mais altas. Não foi, por isto, além. Não deslizou para a demência.
No gravitar contínuo para o mínimo de uma curva, para o completo
obscurecimento da razão, o meio reagindo por sua vez amparou-o, corrigindo-o,
fazendo-o estabelecer encadeamento nunca destruído nas mais exageradas
concepções, certa ordem no próprio desvario, coerência indestrutível em. todos
os atos e disciplina rara em todas as paixões, de sorte que ao atravessar,
largos anos, nas práticas ascéticas, o sertão alvorotado, tinha na atitude, na
palavra e no gesto, a tranqüilidade, a altitude e a resignação soberana de um
apóstolo antigo.
Doente grave, só lhe pode ser aplicado
o conceito da paranóia, de Tanzi e Riva.
Em seu desvio ideativo vibrou sempre, a
bem dizer exclusiva, a nota étnica. Foi um documento raro de atavismo.
A constituição mórbida levando-o a
interpretar caprichosamente as condições objetivas, e alterando-lhe as
relações com o mundo exterior, traduz-se fundamentalmente como uma regressão
ao estádio mental dos tipos ancestrais da espécie.
Um gnóstico bronco
Evitada a intrusão dispensável de um
médico, um antropologista encontrá-lo-ia normal, marcando logicamente certo
nível da mentalidade humana, recuando no tempo, fixando uma fase remota da
evolução. O que o primeiro caracterizaria como caso franco de delírio
sistematizado, na fase persecutória ou de grandezas, o segundo indicaria como
fenômeno de incompatibilidade com as exigências superiores da civilização
- um anacronismo palmar, a revivescência de atributos psíquicos
remotíssimos. Os traços mais típicos do seu misticismo estranho, mas
naturalíssimo para nós, já foram, dentro de nossa era, aspectos religiosos
vulgares. Deixando mesmo de lado o influxo das raças inferiores, vimo-los há
pouco, de relance, em período angustioso da vida portuguesa.
Poderíamos apontá-los em cenário mais
amplo. Bastava que volvêssemos aos primeiros dias da Igreja, quando o
gnosticismo universal se erigia como transição obrigatória entre o paganismo e
o cristianismo, na última fase do mundo romano em que, precedendo o assalto
dos bárbaros, a literatura latina do ocidente declinou, de súbito, mal
substituída pelos sofistas e letrados tacanhos de Bizâncio.
Com efeito, os montanistas da Frígia,
os adamitas infames, os ofiolatras, os maniqueus bifrontes entre o ideal
cristão emergente e o budismo antigo, os discípulos de Markos, os encratitas
abstinentes e macerados de flagícios, todas as seitas em que se fracionava a
religião nascente, com os seus doutores histéricos e exegeses hiperbólicas,
forneceriam hoje casos repugnantes de insânia. E foram normais.
Acolchetaram-se bem a todas as tendências da época em que as extravagâncias de
Alexandre Abnótico abalavam a Roma de Marco Aurélio, com as suas procissões
fantásticas, os seus mistérios e os seus sacrifícios tremendos de leões
lançados vivos ao Danúbio, com solenidades imponentes presididas pelo
imperador filósofo...
A história repete-se.
Antônio Conselheiro foi um gnóstico
bronco.
Veremos mais longe a exação do
símile.
Grande homem pelo avesso
Paranóico indiferente, este dizer,
talvez, mesmo não lhe possa ser ajustado, inteiro. A regressão ideativa que
patenteou, caracterizando-lhe o temperamento vesânico, é, certo, um caso
notável de degenerescência intelectual, mas não o isolou -
incompreendido, desequilibrado, retrógrado, rebelde - no meio em que
agiu.
Ao contrário, este fortaleceu-o. Era o
profeta, o emissário das alturas, transfigurado por ilapso estupendo, mas
adstrito a todas as contingências humanas, passível do sofrimento e da morte,
e tendo uma função exclusiva: apontar aos pecadores o caminho da salvação.
Satisfez-se sempre com este papel de delegado dos céus. Não foi além. Era um
servo jungido à tarefa dura; e lá se foi, caminho dos sertões bravios, largo
tempo, arrastando a carcaça claudicante, arrebatado por aquela idéia fixa, mas
de algum modo lúcido em todos os atos, impressionando pela firmeza nunca
abalada e seguindo para um objetivo fixo com finalidade irresistível.
A sua frágil consciência oscilava em
torno dessa posição média, expressa pela linha ideal que Maudsley lamenta não
se poder traçar entre o bom senso e a insânia.
Parou aí indefinidamente, nas
fronteiras oscilantes da loucura, nessa zona mental onde se confundem
facínoras e heróis, reformadores brilhantes e aleijões tacanhos, e se
acotovelam gênios e degenerados. Não a transpôs. Recalcado pela disciplina
vigorosa de uma sociedade culta, a sua nevrose explodiria na revolta, o seu
misticismo comprimido esmagaria a razão. Ali, vibrando a primeira uníssona com
o sentimento ambiente, difundido o segundo pelas almas todas que em torno se
congregavam, se normalizaram.
Representante natural do meio em que
nasceu
O fator sociológico, que cultivara a
psicose mística do indivíduo, limitou-a sem a comprimir, numa harmonia
salvadora. De sorte que o espírito predisposto para a rebeldia franca contra a
ordem natural cedeu à única reação de que era passível. Cristalizou num
ambiente propício de erros e superstições comuns.
Antecedentes de família. Os Maciéis
A sua biografia compendia e resume a
existência da sociedade sertaneja. Esclarece o conceito etiológico da doença
que o vitimou. Delineemo-la de passagem.
"Os Maciéis, que formavam, nos sertões
entre Quixeramobim e Tamboril, uma família numerosa de homens válidos, ágeis,
inteligentes e bravos, vivendo de vaqueirice e pequena criação, vieram, pela
lei fatal dos tempos, a fazer parte dos grandes fastos criminais do Ceará, em
uma guerra de família. Seus êmulos foram os Araújos, que formavam uma família
rica, filiada a outras das mais antigas do norte da província.
Viviam na mesma região, tendo como sede
principal a povoação de Boa Viagem, que demora cerca de dez léguas de
Quixeramobim.
Foi uma das lutas mais sangrentas dos
sertões do Ceará, a que se travou entre estes dois grupos de homens, desiguais
na fortuna e posição oficial, ambos embravecidos na prática das violências, e
numerosos."
Assim começa o narrador consciencioso
breve notícia sobre a genealogia de Antônio Conselheiro.
Os fatos criminosos a que se refere são
um episódio apenas entre as razias, quase permanentes, da vida turbulenta dos
sertões. Copiam mil outros de que ressaltam, evidentes, a prepotência sem
freios dos mandões de aldeia e a exploração pecaminosa por eles exercida sobre
a bravura instintiva do sertanejo. Luta de famílias - é uma variante
apenas de tantas outras, que ali surgem, intermináveis, comprometendo as
próprias descendências que esposam as desavenças dos avós, criando uma quase
predisposição fisiológica e tornando hereditários os rancores e as vinganças.
Lutas entre Maciéis e Araújos
Surgiu de incidente mínimo: pretensos
roubos cometidos pelos Maciéis em propriedade de família numerosa, a dos
Araújos.
Tudo indicava serem aqueles vítimas de
acusação descabida. Eram "homens vigorosos, simpáticos, bem apessoados.
verdadeiros e serviçais" gozando em toda a redondeza de reputação
invejável.
Araújo da Costa e um seu parente,
Silvestre Rodrigues Veras, não viam, porém, com bons olhos, a família pobre
que lhes balanceava a influência, sem a justificativa de vastos latifúndios e
boiadas grandes. Criadores opulentos, senhores de baraço e cutelo, vezados a
fazer justiça por si mesmos, concertaram em dar exemplar castigo aos
delinqüentes. E como estes eram bravos até à temeridade, chamaram a postos a
guarda pretoriana dos capangas.
Assim apercebidos abalaram na expedição
criminosa para Quixeramobim.
Mas volveram logo depois, contra a
expectativa geral, em derrota. Os Maciéis, reunida toda a parentela, rapazes
desempenados e temeros, haviam-se afrontado com a malta assalariada,
repelindo-a vigorosamente, suplantando-a, espavorindo-a.
O fato passou em 1333.
Batidos, mal sofreando o desapontamento
e a cólera, os potentados, cuja imbecilidade triunfante passara por tão duro
trato, apelaram para recursos mais enérgicos. Não faltavam então, como não
faltam hoje, facínoras de fama que lhes alugassem a coragem. Conseguiram dois,
dos melhores: José Joaquim de Meneses, pernambucano, sanhudo, célebre pela
rivalidade sanguinolenta com os Mourões famosos; e um cangaceiro terrível,
Vicente Lopes, de Aracatiaçu. Reunida a matula turbulenta, a que se ligaram os
filhos e genros de Silvestre, seguiu, de pronto, para a empreitada
criminosa.
Ao acercarem-se, porém, da vivenda dos
Maciéis, os sicários - embora fossem em maior número -
temeram-lhes a resistência. Propuseram-lhes que se entregassem,
garantindo-lhes, sob palavra, a vida. Aqueles, certos de não poderem resistir
por muito tempo, aquiesceram. Renderam-se. A palavra de honra dos bandidos
teve o valor que poderia ter. Quando seguiam debaixo de escolta e algemados,
para a cadeia de Sobral, logo no primeiro dia da viagem foram os presos
trucidados. Morreram nesta ocasião, entre outros, o chefe da família, Antônio
Maciel, e um avô de Antônio Conselheiro .
Mas um tio deste, Miguel Carlos, logrou
escapar. Manietado além disto com as pernas amarradas por baixo da barriga do
cavalo que montava, a sua fuga é inexplicável. Afirma-a, contudo, a sisudez de
cronista sincero.
Ora, os Araújos tinham deixado fugir o
seu pior adversário. Perseguiram-no. Bem armados, bem montados, encalçaram-no,
prestes, em monteria bárbara, como se fossem sobre rastros de suçuarana
bravia. O foragido, porém, emérito batedor de matas, seguido na fuga por uma
irmã, iludiu por algum tempo a escolta perseguidora chefiada por Pedro Martins
Veras; e no sítio da Passagem, perto de Quixeramobim, ocultou-se exausto, numa
choupana abandonada, coberta de ramos de oiticica.
Ali chegaram, em breve, rastreando-o,
os perseguidores. Eram nove horas da manhã. Houve então uma refrega desigual e
tremenda. O temerário sertanejo, embora estropiado e doente de um pé que
luxara, afrontou-se com a horda assaltante, estendendo logo em terra a um
certo Teotônio, desordeiro façanhudo, que se avantajara aos demais. Este caiu
transversalmente à soleira da porta, impedindo-a que se fechasse. A irmã de
Miguel Carlos, quando procurava arrastá-lo dali, caiu atravessada por uma
bala. Alvejara-a o próprio Pedro Veras, que pagou logo a façanha, levando à
queima-roupa uma carga de chumbo. Morto o cabecilha, os agressores recuaram
por momentos, o suficiente para que o assaltado trancasse rapidamente a porta.
Isto feito, o casebre fez-se um reduto.
Pelas frinchas das paredes estourava de minuto em minuto um tiro de
espingarda. Os bandidos não ousaram investi-lo; mas foram de cobardia feroz.
Atearam fogo à cobertura de folhas.
O efeito foi pronto. Mal podendo
respirar no abrigo em chamas, Miguel Carlos resolve abandoná-lo. Derrama toda
a água de um pote na direção do fundo da choupana, apagando momentaneamente as
brasas, e, saltando por sobre o cadáver da irmã, arroja-se, de clavina
sobraçada e parnaíba em punho, contra o círculo assaltante. Rompe-o e afunda
na caatinga. . .
Tempos depois um dos Araújos contratou
casamento com a filha de rico criador de Tapaiara; e no dia das núpcias, já
perto da igreja, tombou varado por uma bala, entre o alarma dos convivas e o
desespero da noiva desditosa.
Velava, inextinguivelmente, a vingança
do sertanejo...
Este tinha, agora, uma sócia no rancor
justificado e fundo, outra irmã, Helena Maciel, a "Nêmesis da família",
conforme o dizer do cronista referido. A sua vida transcorria em lances
perigosos, muitos dos quais desconhecidos senão fabulados pela imaginação
fecunda dos matutos. O certo, porém, é que, desfazendo a urdidura de todas as
tocaias, não raro lhe caiu sob a faca o espião incauto que o rastreava, em
Quixeramobim.
Diz a narrativa a que acima nos
reportamos:
"Parece que Miguel Carlos tinha ali
protetores que o garantiam. O que é certo é que, não obstante a sorte tivera
aquele seu apaniguado, costumava estar na vila.
Uma noite, estando à porta da loja de
Manuel Procópio de Freitas, viu entrar um indivíduo, que procurava comprar
aguardente. Dando-o como espião, falou em matá-lo ali mesmo, mas, sendo detido
pelo dono da casa, tratou de acompanhar o suspeito, e o matou, à faca, ao sair
da vila, no riacho da Palha.
Uma manhã, finalmente, saiu da casa de
Antônio Caetano de Oliveira, casado com uma sua parenta, e foi banhar-se no
rio, que corre por trás dessa casa, situada quase no extremo da praça
principal da vila, junto a garganta que conduz a pequena praça Cotovelo. Nos
fundos da casa indicada era então a embocadura do riacho da Palha, que em
forma quase circular contornava aquela praça, e de inverno constituía uma
cinta lindíssima de águas represadas. Miguel Carlos estava já despido, como
muitos companheiros, quando surgiu um grupo de inimigos, que o esperavam
acocorados por entre o denso "mata-pasto". Estranhos e parentes de Miguel
Carlos, tomando as roupas depostas na areia, e vestindo-as ao mesmo tempo que
corriam, puseram-se em fuga. Em ceroulas somente, e com a sua faca em punho,
ele correu também na direção dos fundos de uma casa, que quase enfrenta com a
embocadura do riacho da Palha; casa na qual morava em 1845 Manuel Francisco da
Costa. Miguel Carlos chegou a abrir o portão do quintal, de varas, da casa
indicada; mas, quando quis fechá-lo, foi prostrado por um tiro, partido do
séquito que o perseguia. Outros dizem que isto se dera quando ele passava pelo
buraco da cerca de uma vazante que havia por ali. Agonizava, caído, com a sua
faca na mão, quando Manuel de Araújo, chefe do bando, irmão do noivo outrora
assassinado, pegando-o por uma perna, lhe cravou uma faca. Moribundo, Miguel
Carlos lhe respondeu no mesmo instante com outra facada na carótida, morrendo
ambos instantaneamente, este por baixo daquele ! Helena Maciel, correndo em
fúria ao lugar do conflito, pisou a pés a cara do matador de seu irmão,
dizendo-se satisfeita da perda dele pelo fim que dera ao seu inimigo !"
Pretendem que os sicários tinham
passado a noite em casa de Inácio Mendes Guerreiro, da família de Araújo,
agente do correio da Vila. Vinham a título de prender os Maciéis; mas, só no
propósito de matá-los.
Helena não se abateu com esta desgraça.
Nêmesis da família imolou um inimigo aos manes do seu irmão. Foi ela, como
ousou confessar muitos anos depois, quem mandou espancar barbaramente a André
Jacinto de Souza Pimentel, moço de família importante da vila, aparentado com
os Araújos, a quem atribuía os avisos que estes recebiam em Boa Viagem, das
vindas de Miguel Carlos. Desse espancamento resultou uma lesão cardíaca, que
fez morrer em transes horrorosos o infeliz, em verdade culpado dessa
derradeira agressão dos Araújos.
O fato de ter sido o crime perpetrado
por soldados do destacamento de linha, ao mando do alferes Francisco Gregório
Pinto, homem insolente, de baixa educação e origem, com quem Pimentel andava
inimizado, fez acreditar muito tempo que fora esse oficial mal reputado o
autor do crime.
Helena deixara-se ficar queda e
silenciosa.
Inúmeras vítimas anônimas fez esta lota
sertaneja, que dizimava os sequazes das duas famílias, sendo o último dos
Maciéis - Antônio Maciel, irmão de Miguel Carlos, morto em Boa Viagem.
Ficou célebre muito tempo a valentia de Miguel Carlos e era por ele e seus
parentes a estima e respeito dos coevos, testemunhas da energia dessa família,
dentre a qual surgiram tantos homens de esforço, para uma luta com poderosos
tais, como os da Boa Viagem e Tamboril.
Uma vida bem auspiciada
Nada se sabe ao certo sobre o papel que
coube a Vicente Mendes Maciel, pai de Antônio Vicente Mendes Maciel ( o
Conselheiro ), nesta luta deplorável. Os seus contemporâneos pintam-no como
"homem irascível mas de excelente caráter, meio visionário e desconfiado, mas
de tanta capacidade que, sendo analfabeto, negociava largamente em fazendas,
trazendo tudo perfeitamente contado e medido de memória, sem mesmo ter escrita
para os devedores".
O filho, sob a disciplina de um pai de
honradez proverbial e ríspido, teve educação que de algum modo o isolou da
turbulência da família. Indicam-no testemunhas de vista, ainda existentes,
como adolescente tranqüilo e tímido, sem o entusiasmo feliz dos que seguem as
primeiras escalas da vida; retraído, avesso à troça, raro deixando a casa de
negócio do pai, em Quixeramobim, de todo entregue aos misteres de caixeiro
consciencioso, deixando passar e desaparecer vazia a quadra triunfal dos vinte
anos. Todas as histórias, ou lendas entretecidas de exageros, segundo o hábito
dos narradores do sertão, em que eram muita vez protagonistas os seus próprios
parentes, eram-lhe entoadas em torno evidenciando-lhes sempre a coragem
tradicional e rara. A sugestão das narrativas, porém, tinha o corretivo
enérgico da ríspida sisudez do velho Mendes Maciel e não abalava o animo do
rapaz. Talvez ficasse latente, pronta a se expandir em condições mais
favoráveis. O certo é que falecendo aquele em 1855, vinte anos depois dos
trágicos sucessos que rememoramos, Antônio Maciel prosseguiu na mesma vida
corretíssima e calma.
Arrostando com a tarefa de velar por
três irmãs solteiras revelou abnegação rara. Somente depois de as ter casado
procurou, por sua vez, um enlace que lhe foi nefasto.
Primeiros reveses
Data daí a sua existência dramática. A
mulher foi a sobrecarga adicionada à tremenda tara hereditária, que
desequilibraria uma vida iniciada sob os melhores auspícios.
A partir de 1858 todos os seus atos
denotam uma transformação de caráter. Perde os hábitos sedentários.
Incompatibilidades de gênio com a esposa ou, o que é mais verossímil, a
péssima índole desta, tornam instável a sua situação.
Em poucos anos vive em diversas vilas e
povoados. Adota diversas profissões.
Nesta agitação, porém, percebe-se a
luta de um caráter que se não deixa abater. Tendo ficado sem bens de fortuna,
Antônio Maciel, nesta fase preparatória de sua vida, a despeito das desordens
do lar, ao chegar a qualquer nova sede de residência procura logo um emprego,
um meio qualquer honesto de subsistência. Em 1859, mudando-se para Sobral,
emprega-se como caixeiro. Demora-se, porém, pouco ali. Segue para Campo
Grande, onde desempenha as funções modestas de escrivão do juiz de paz. Daí,
sem grande demora, se desloca para Ipu. Faz-se solicitador, ou requerente no
forum.
Nota-se já em tudo isto um crescendo
para profissões menos trabalhosas, exigindo cada vez menos a constância do
esforço; o contínuo despear-se da disciplina primitiva, a tendência acentuada
para a atividade mais irrequieta e mais estéril, o descambar para a vadiagem
franca. Ia-se-lhe ao mesmo tempo, na desarmonia do lar, a antiga
serenidade.
Este período de vida mostra-o, todavia,
aparelhado de sentimentos dignos. Ali estavam, em torno, permanentes lutas
partidárias abrindo-lhe carreira aventurosa, em que poderia entrar como tantos
outros, ligando-se aos condutícios de qualquer conquistador de urnas, para o
que tinha o prestígio tradicional da família. Evitou-as sempre. E na descensão
contínua, percebe-se alguém que perde o terreno, mas lentamente, reagindo,
numa exaustão dolorosa.
A queda
De repente, surge-lhe revés violento. O
plano inclinado daquela vida em declive termina, de golpe, em queda
formidável. Foge-lhe a mulher, em Ipu, raptada por um policial. Foi o
desfecho. Fulminado de vergonha, o infeliz procura o recesso dos sertões,
paragens desconhecidas, onde lhe não saibam o nome; o abrigo da absoluta
obscuridade.
Desce para o sul do Ceará.
Ao passar em Paus Brancos, na estrada
do Crato, fere com ímpeto de alucinado, à noite, um parente, que o hospedara.
Fazem-se breves inquirições policiais, tolhidas logo pela própria vítima
reconhecendo a não culpabilidade do agressor. Salva-se da prisão. Prossegue
depois para o sul, à toa, na direção do Crato. E desaparece...
Passam-se dez anos. O moço infeliz de
Quixeramobim ficou de todo esquecido. Apenas uma ou outra vez lhe recordavam o
nome e o termo escandaloso da existência, em que era magna pars um Lovelace de
coturno reúno, um sargento de polícia.
Graças a este incidente, algo ridículo,
ficara nas paragens natais breve resquício de sua lembrança.
Morrera por assim dizer.
Como se faz um monstro
... E surgia na Bahia o anacoreta
sombrio, cabelos crescidos até aos ombros, barba inculta e longa; face
escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim
americano; abordoado ao clássico bastão em que se apóia o passo tardo dos
peregrinos...
É desconhecida a sua existência durante
tão largo período. Um velho caboclo, preso em Canudos nos últimos dias da
campanha, disse-me algo a respeito, mas vagamente, sem precisar datas, sem
pormenores característicos. Conhecera-o nos sertões de Pernambuco, um ou dois
anos depois da partida do Crato. Das palavras desta testemunha, concluí que
Antônio Maciel, ainda moço, já impressionava vivamente a imaginação dos
sertanejos. Aparecia por aqueles lugares sem destino fixo, errante. Nada
referia sobre o passado. Praticava em frases breves e raros monossílabos.
Andava sem rumo certo, de um pouso para outro, indiferente à vida e aos
perigos, alimentando-se mal e ocasionalmente, dormindo ao relento à beira dos
caminhos, numa penitência demorada e rude...
Tornou-se logo alguma coisa de
fantástico ou mal-assombrado para aquelas gentes simples. Ao abeirar-se das
rancharias dos tropeiros aquele velho singular, de pouco mais de trinta anos,
fazia que cessassem os improvisos e as violas festivas.
Era natural. Ele surdia -
esquálido e macerado - dentro do hábito escorrido, sem relevos, mudo,
como uma sombra, das chapadas povoadas de duendes...
Passava, buscando outros lugares,
deixando absortos os matutos supersticiosos.
Dominava-os, por fim, sem o querer.
No seio de uma sociedade primitiva, que
pelas qualidades étnicas e influxo das santas missões malévolas compreendia
melhor a vida pelo incompreendido dos milagres, o seu viver misterioso
rodeou-o logo de não vulgar prestígio, agravando-lhe, talvez, o temperamento
delirante. A pouco e pouco todo 0 domínio que, sem cálculo, derramava em
torno, parece haver refluído sobre si mesmo. Todas as conjeturas ou lendas que
para logo o circundaram fizeram o ambiente propício ao germinar do próprio
desvario. A sua insânia estava, ali, exteriorizada. Espelhavam-na a admiração
intensa e o respeito absoluto que o tornaram em pouco tempo árbitro
incondicional de todas as divergências ou brigas, conselheiro predileto em
todas as decisões. A multidão poupara-lhe o indagar torturante acerca do
próprio estado emotivo, o esforço dessas interrogativas angustiosas e dessa
intuspecção delirante, entre os quais envolve a loucura nos cérebros abalados.
Remodelava-o à sua imagem. Criava-o. Ampliava-lhe, desmesuradamente, a vida,
lançando-lhe dentro os erros de 2 mil anos.
Precisava de alguém que lhe traduzisse
a idealização indefinida, e a guiasse nas trilhas misteriosas para os
céus...
O evangelizador surgiu, monstruoso, mas
autômato.
Aquele dominador foi um títere. Agiu
passivo, como uma sombra. Mas esta condensava o obscurantismo de três
raças.
E cresceu tanto que se projetou na
História...
Peregrinações e martírios
Dos sertões de Pernambuco passou aos de
Sergipe, aparecendo na cidade de Itabaiana em 1874.
Ali chegou, como em toda a parte,
desconhecido e suspeito, impressionando pelos trajes esquisitos -
camisolão azul, sem cintura; chapéu de abas largas derrubadas, e sandálias. Às
costas um surrão de couro em que trazia papel, pena e tinta, a Missão
Abreviada e as Horas Marianas.
Vivia de esmolas, das quais recusava
qualquer excesso, pedindo apenas o sustento de cada dia. Procurava os pousos
solitários. Não aceitava leito algum, além de uma tábua nua e, na falta desta,
o chão duro.
Assim pervagou largo tempo, até
aparecer nos sertões, ao norte da Bahia. Ia-lhe crescendo o prestígio. Já não
seguia só. Encalçavam-no na rota desnorteada os primeiros fiéis. Não os
chamara. Chegavam-lhe espontâneos, felizes por atravessarem com ele os mesmos
dias de provações e misérias.
Eram, no geral, gente ínfima e
suspeita, avessa ao trabalho, farândula de vencidos da vida, vezada à mandria
e à rapina.
Um dos adeptos carregava o templo
único, então, da religião minúscula e nascente: um oratório tosco, de cedro,
encerrando a imagem do Cristo.
Nas paradas pelos caminhos prendiam-no
a um galho de árvore; e, genuflexos, rezavam. Entravam com ele, triunfalmente
erguido, pelos vilarejos e povoados, num coro de ladainhas.
Assim se apresentou o Conselheiro, em
1816, na vila do Itapicuru-de-Cima. Já tinha grande renome.
Di-lo documento expressivo publicado
aquele ano, na capital do Império.
"Apareceu no sertão do norte um
indivíduo, que se diz chamar Antônio Conselheiro, e que exerce grande
influencia no espírito das classes populares servindo-se de seu exterior
misterioso e costumes ascéticos, com que impõe à ignorância e à simplicidade.
Deixou crescer a barba e cabelos, veste uma túnica de algodão e alimenta-se
tenuamente, sendo quase uma múmia. Acompanhado de duas professas, vive a rezar
terços e ladainhas e a pregar e a dar conselhos às multidões, que reúne, onde
lhe permitem os párocos; e, movendo sentimentos religiosos, vai arrebanhando o
povo e guindo-o a seu gosto. Revela ser homem inteligente, mas sem
cultura".
Estes dizeres rigorosamente verídicos,
de um anuário impresso centenares de léguas de distancia, delatam bem a fama
que ele já granjeara.
Lendas
Entretanto a vila de Itapicuru esteve
para ser o fecho da sua carreira extraordinária. Foi, ali, naquele mesmo ano,
entre o espanto dos fiéis, inopinadamente preso. Determinara a prisão uma
falsidade, que o seu modo de vida excepcional e as antigas desordens
domésticas de algum modo justificavam: diziam-no assassino da esposa e da
própria mãe.
Era uma lenda arrepiadora.
Contavam que a última, desadorando a
nora, imaginara perdê-la. Revelara, por isto, que era traído; e como este,
surpreso, lhe exigisse provas do delito, propôs-se apresentá-las sem tardança.
Aconselhou-o a que fantasiasse qualquer viagem, permanecendo, porém, nos
arredores, porque veria, à noite, invadir-lhe o lar o sedutor que o desonrara.
Aceito o alvitre, o infeliz, cavalgando e afastando-se cerca de meia légua,
torceu depois de rédeas, tornando, furtivamente, por desfreqüentados desvios,
para uma espera adrede escolhida, de onde pudesse observar bem e agir de
pronto.
Ali quedou longas horas, até lobrigar,
de fato, noite velha, um vulto aproximando-se de sua vivenda. Viu-o achegar-se
cautelosamente e galgar uma das janelas. E não lhe deu tempo para entrar.
Abateu-o com um tiro.
Penetrou, em seguida, de um salto, no
lar e fulminou com outra descarga a esposa infiel, adormecida.
Voltou, depois, para reconhecer o homem
que matara... e viu com horror que era a sua própria mãe, que se disfarçara
daquele modo para a consecução do plano diabólico.
Fugira, então, na mesma hora apavorado,
doido, abandonando tudo, ao acaso, pelos sertões em fora...
A imaginação popular, como se vê,
começava a romancear-lhe a vida, com um traço vigoroso de originalidade
trágica.
O asceta
Como quer que fosse, porém, o certo é
que em 1870 a repressão legal o atingiu quando já se ultimara a evolução do
seu espírito, imerso de todo no sonho de onde não mais despertaria. O asceta
despontava, inteiriço, da rudeza disciplinar de quinze anos de penitência.
Requintara nessa aprendizagem de martírios, que tanto preconizam os velhos
luminares da Igreja. Vinha do tirocínio brutal da fome, da sede, das fadigas,
das angústias recalcadas e das misérias fundas. Não tinha dores desconhecidas.
A epiderme seca rugava-se-lhe como uma couraça amolgada e rota sobre a carne
morta. Anestesiara-a com a própria dor; macerara-a e sarjara-a de cilícios
mais duros que os buréis de esparto; trouxera-a, de rojo, pelas pedras dos
caminhos; esturrara-a nos rescaldos das secas; inteiriçara-a nos relentos
frios; adormecera-a em transitórios repousos, nos leitos dilacerantes das
caatingas...
Abeirara muitas vezes a morte nos
jejuns prolongados, com requinte de ascetismo que surpreenderia Tertuliano,
esse
sombrio propagandista da eliminação
lenta da matéria, "descarregando-se do seu sangue, fardo pesado e importuno da
alma impaciente por fugir..."
Para quem estava neste tirocínio de
amarguras, aquela ordem de prisão era incidente mínimo. Recebeu-a indiferente.
Proibiu aos fiéis que o defendessem. Entregou-se. Levaram-no à capital da
Bahia. Ali, a sua fisionomia estranha: face morta, rígida como uma máscara,
sem olhar e sem risos; pálpebras descidas dentro de órbitas profundas; e o seu
entrajar singularíssimo; e o seu aspecto repugnante, de desenterrado, dentro
do camisolão comprido, feito uma mortalha preta; e os longos cabelos corredios
e poentos caindo pelos ombros, emaranhando-se nos pelos duros da barba
descuidada, que descia até à cintura - aferroaram a curiosidade
geral.
Passou pelas ruas entre ovações de
esconjuros e "pelos sinais" dos crentes assustados e das beatas retransidas de
sustos.
Interrogaram-no os juízes
estupefatos.
Acusavam-no de velhos crimes, cometidos
no torrão nativo. Ouviu o interrogatório e as acusações, e não murmurou
sequer, revestido de impassibilidade marmórea.
A escolta que o trouxera, soube-se
depois, espancara-o covardemente nas estradas. Não formulou a mais leve
queixa.
Quedou na tranqüila indiferença
superior de um estóico.
Apenas - e este pormenor curioso
ouvimo-lo a pessoa insuspeita - no dia do embarque para o Ceará pediu
às autoridades que o livrassem da curiosidade pública, a única coisa que o
vexava.
Chegando à terra natal, reconhecida a
improcedência da denúncia, é posto em liberdade. E no mesmo ano reaparece na
Bahia entre os discípulos, que o aguardavam sempre.
Esta volta - coincidindo,
segundo afirmam, com o dia que prefixara, no momento de ser preso-tomou
aspectos de milagre.
Tresdobrou a sua influência.
Vagueia, então, algum tempo, pelos
sertões de Curaçá, estacionando ( 1877 ) de preferência em Chorrochó, lugarejo
de poucas centenas de habitantes, cuja feira movimentada congrega a maioria
dos povoadores daquele trecho do S. Francisco. Uma capela elegante indica-lhe,
ainda hoje, a estada. E, mais venerável talvez, pequena árvore, à entrada da
vila, que foi por muito tempo objeto de uma fitolatria extraordinária. À sua
sombra descansara o peregrino. Era um arbusto sagrado. A sua sombra curavam-se
os crédulos doentes; as suas folhas eram panacéia infalível.
O povo começava a grande série de
milagres de que não cogitava talvez o infeliz...
De 1877 a 1887 erra por aqueles
sertões, em todos os sentidos, chegando mesmo até ao litoral, em Vila do Conde
( 1887 ).
Em toda esta área não há, talvez, uma
cidade ou povoado onde não tenha aparecido. Alagoinhas, Inhambupe, Bom
Conselho, Jeremoabo, Cumbe, Mucambo, Maçacará, Pombal, Monte Santo, Tucano e
outros viram-no chegar, acompanhado da farândola de fiéis. Em quase todas
deixava um traço da passagem: aqui um cemitério arruinado, de muros
reconstruídos; além uma igreja renovada; adiante uma capela que se erguia,
elegante sempre.
A sua entrada nos povoados, seguido
pela multidão contrita, em silencio, alevantando imagens, cruzes e bandeiras
do Divino, era solene e impressionadora. Paralisavam-se as ocupações normais.
Ermavam-se as oficinas e as culturas. A população convergia para a vila onde,
em compensação, avultava o movimento das feiras; e durante alguns dias,
eclipsando as autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o
mando, fazia-se autoridade única.
Erguiam-se na praça, revestidas de
folhagens, as latadas, onde à tarde entoavam, os devotos, terços e ladainhas;
e quando era grande a concorrência, improvisava-se um palanque ao lado do
barracão da feira, no centro do largo, para que a palavra do profeta pudesse
irradiar para todos os pontos e edificar todos os crentes.
As prédicas
Ele ali subia e pregava. Era
assombroso, afirmam testemunhas existentes. Uma oratória bárbara e
arrepiadora, feita de excertos truncados das Horas Marianas, desconexa,
abstrusa, agravada, às vezes, pela ousadia extrema das citações latinas;
transcorrendo em frases sacudidas; misto inextricável e confuso de conselhos
dogmáticos, preceitos vulgares da moral cristã e de profecias
esdrúxulas...
Era truanesco e era pavoroso.
Imagine-se um bufão arrebatado numa
visão do Apocalise...
Parco de gestos, falava largo tempo,
olhos em terra, sem encarar a multidão abatida sob a algaravia, que derivava
demoradamente, ao arrepio do bom senso, em melopéia fatigante.
Tinha, entretanto, ao que parece, a
preocupação do efeito produzido por uma ou outra frase mais decisiva.
Enunciava-a e emudecia; alevantava a cabeça, descerrava de golpe as pálpebras;
viam-se-lhe então os olhos extremamente negros e vivos, e o olhar - uma
cintilação ofuscante... Ninguém ousava contemplá-lo. A multidão sucumbida
abaixava, por sua vez, as vistas, fascinada, sob o estranho hipnotismo daquela
insânia formidável.
E o grande desventurado realizava,
nesta ocasião, o seu único milagre: conseguia não se tornar ridículo...
Nestas prédicas, em que fazia vitoriosa
concorrência aos capuchinhos vagabundos das missões, estadeava o sistema
religioso incongruente e vago. Ora, quem as ouviu não se forra a aproximações
históricas sugestivas. Relendo as páginas memoráveis em que Renan faz
ressurgir, pelo galvanismo do seu belo estilo, os adoidados chefes de seita
dos primeiros séculos, nota-se a revivescência integral de suas aberrações
extintas. Não há desejar mais completa reprodução do mesmo sistema, das mesmas
imagens, das mesmas fórmulas hiperbólicas, das mesmas palavras quase. É um
exemplo belíssimo da identidade dos estados evolutivos entre os povos. O
retrógrado do sertão reproduz o facies dos místicos do passado.
Considerando-o, sente-se o efeito maravilhoso de uma perspectiva através dos
séculos...
Está fora do nosso tempo. Está de todo
entre esses retardatários que Fouillée compara, em imagem feliz, à des
coureurs sur le champ de la civilisation, de plus en plus en retard.
Preceitos de montanista
É um dissidente do molde exato de
Themison. Insurge-se contra a Igreja romana, e vibra-lhe objurgatórias,
estadeando o mesmo argumento que aquele: ela perdeu a sua glória e obedece a
Satanás. Esboça uma moral que é a tradução justalinear da de Montano: a
castidade exagerada ao máximo horror pela mulher, contrastando com a licença
absoluta para o amor livre, atingindo quase à extinção do casamento.
O frígio pregava-a, talvez como o
cearense, pelos ressaibos remanescentes das desditas conjugais. Ambos proíbem
severamente que as moças se ataviem; bramam contra as vestes realçadoras;
insistem do mesmo modo, especialmente sobre o luxo dos toucados; e - o
que é singularíssimo - cominam, ambos, o mesmo castigo a este pecado: o
demônio dos cabelos, punindo as vaidosas com dilaceradores pentes de
espinho.
A beleza era-lhes a face tentadora de
Satã. O Conselheiro extremou-se mesmo no mostrar por ela invencível horror.
Nunca mais olhou para uma mulher. Falava de costas mesmo às beatas velhas,
feitas para amansarem sátiros.
Profecias
Ora, esta identidade avulta, mais
frisante, quando se comparam com as do passado as concepções absurdas do
esmaniado apóstolo sertanejo. Como os montanistas, ele surgia no epílogo da
Terra... O mesmo milenarismo extravagante, o mesmo pavor do anti-Cristo
despontando na derrocada universal da vida. O fim do mundo próximo...
Que os fiéis abandonassem todos os
haveres, tudo quanto os maculasse com um leve traço da vaidade. Todas as
fortunas estavam a pique da catástrofe iminente e fora temeridade inútil
conservá-las.
Que abdicassem as venturas mais fugazes
e fizessem da vida um purgatório duro; e não a manchassem nunca com o
sacrilégio de um sorriso. O juízo final aproximava-se, inflexível.
Prenunciavam-no anos sucessivos de
desgraças:
". . .Em 1896 hade rebanhos mil correr
da praia para o certão; então o certão virará praia e a praia virará
certão.
" Em 1897 haverá muito pasto e pouco
rasto e um só pastor e um só rebanho.
" Em 1898 haverá muitos chapéus e
poucas cabeças.
" Em 1899 ficarão as águas em sangue e
o planeta hade apparecer no nascente com o raio do sol que o ramo se
confrontará na terra e a terra em algum lugar se confrontará no céu...
" Hade chover uma grande chuva de
estrellas e ahi será o fim do mundo. Em 1900 se apagarão as luzes. Deus disse
no Evangelho: eu tenho um rebanho que anda fóra deste aprisco e é preciso que
se reunam porque há um só pastor e um só rebanho !"
Como os antigos, o predestinado atingia
a terra pela vontade divina. Fora o próprio Cristo que pressagiara a sua vinda
quando
"na hora nona, descançando no monte das
Oliveiras um dos seus apóstolos perguntou: Senhor! para o fim desta edade que
signaes vós deixaes ?
"Elle respondeu: muitos signaes na Lua,
no Sol e nas Estrellas. Hade apparecer um Anjo mandado por meu pae terno,
prégando sermões pelas portas, fazendo povoações nos desertos, fazendo egrejas
e capellinhas e dando seus conselhos..."
E no meio desse extravagar adoidado,
rompendo dentre o messianismo religioso, o messianismo da raça levando-o à
insurreição contra a forma republicana:
"Em verdade vos digo, quando as nações
brigam com as nações, o Brazil com o Brazil, a Inglaterra com a Inglaterra, a
Prussia com a Prussia, das ondas do mar D. Sebastião sahirá com todo o seu
exercito.
"Desde o princípio do mundo que
encantou com todo seu exercito e o restituio em guerra.
"E quando encantou-se afincou a espada
na pedra, ella foi até os copos e elle disse: Adeus mundo!
"Até mil e tantos a dois mil não
chegarás !
"Neste dia quando sahir com o seu
exercito tira a todos no fio da espada deste papel da Republica. O fim desta
guerra se acabará na Santa Casa de Roma e o sangue hade ir até á junta grossa
. . . "
Um heresiarca do século 2 em plena
idade moderna
O profetismo tinha, como se vê, na sua
boca, o mesmo tom com que despontou na Frígia, avançando para 0 Ocidente.
Anunciava, idêntico, o juízo de Deus, a desgraça dos poderosos, o esmagamento
do mundo profano, o reino de mil anos e suas delícias.
Não haverá, com efeito, nisto, um traço
superior do judaísmo ?
Não há encobri-lo. Ademais este
voltar-se à idade de ouro dos apóstolos e sibilistas, revivendo vetustas
ilusões, não é uma novidade. É o permanente refluxo do cristianismo para o seu
berço judaico. Montano reproduz-se em toda a história, mais ou menos alterado
consoante o caráter dos povos, mas delatando, na mesma rebeldia contra a
jerarquia eclesiástica, na mesma exploração do sobrenatural, e no mesmo ansiar
pelos céus, a feição primitivamente sonhadora da velha religião, antes que a
deformassem os sofistas canonizados dos concílios.
A exemplo de seus comparsas do passado,
Antônio Conselheiro era um pietista ansiando pelo reino de Deus, prometido,
delongado sempre e, ao cabo, de todo esquecido pela Igreja ortodoxa do século
2.
Abeirara-se apenas do catolicismo mal
compreendido.
Tentativas de reação legal
Coerente com a missão a que se
devotara, ordenava, depois destas homílias, penitências que, de ordinário
redundavam em benefício das localidades. Reconstruíam-se templos abatidos;
renovavam-se cemitérios em abandono; erigiam-se construções novas e elegantes.
Os pedreiros e carpinteiros trabalhavam de graça; os abastados forneciam,
grátis, os materiais indispensáveis; o povo carregava pedras. Durante dias
seguidos, na azáfama piedosa, se agitavam os operários cujos salários se
averbavam nos céus.
E terminada a empresa o predestinado
abalava... para onde ? Ao acaso, tomando a primeira vereda, pelos sertões em
fora, pelas chapadas multívias, sem olhar sequer para os que o encalçavam.
Não o contrariava o antagonismo de um
adversário perigoso, o padre. A dar-se crédito a testemunho valioso , aquele,
em geral, estimulava-lhe ou permitia-lhe as práticas pelas quais, sem nada
usufruir, promovia todos os atos de onde saem os rendimentos do clero:
batizados, desobrigas, festas e novenas.
Os vigários toleravam com boa sombra os
despropósitos do Santo endemoninhado que ao menos lhe acrescia a côngrua
reduzida. Percebeu-o em 1882, o arcebispo da Bahia, procurando por paradeiro a
esta transigência, senão mal disfarçada proteção, por uma circular dirigida a
todos os párocos.
"Chegando ao nosso conhecimento que,
pelas freguesias do centro deste arcebispado, anda um indivíduo denominado
Antônio Conselheiro, pregando ao povo, que se reúne para ouvi-lo, doutrinas
supersticiosas e uma moral excessivamente rígida com que está perturbando as
consciências e enfraquecendo, não pouco, a autoridade dos párocos destes
lugares, ordenamos a V. Rev.ma, que não consinta em sua freguesia semelhante
abuso, fazendo saber aos paroquianos que Ihes proibimos, absolutamente, de se
reunirem para ouvir tal pregação, visto como, competindo na Igreja católica,
somente aos ministros da religião, a missão santa de doutrinar os novos, um
secular, quem quer que ele seja, ainda quando muito instruído e virtuoso. não
tem autoridade para exercê-lo.
"Entretanto sirva isto para excitar
cada vez
mais o zelo que V. Rev.ma, no exercício
do ministério da pregação, a fim de que os seus paroquianos, suficientemente
instruídos, não se deixem levar por todo o vento de doutrina etc."
Foi inútil a intervenção da Igreja.
Antônio Conselheiro continuou sem
embaraços a sua marcha de desnorteado apóstolo, pervagando nos sertões. E,
como se desejasse reviver sempre a lembrança da primeira perseguição sofrida,
volve constantemente ao Itapicuru, cuja autoridade policial, por fim, apelou
para os poderes constituídos, em oficio onde, depois de historiar ligeiramente
os antecedentes do agitador, disse:
". . . Fez neste termo seu acampamento
e presentemente está no referido arraial construindo uma capela a expensas do
povo.
"Conquanto esta obra seja de algum
melhoramento, aliás dispensável, para o lugar, todavia os excessos e
sacrifícios não compensam este bem, e, pelo modo por que estão os ânimos, é
mais justo e fundado o receio de grandes desgraças.
"Para que V. S. saiba quem é Antônio
Conselheiro, basta dizer que é acompanhado por centenas e centenas de pessoas,
que ouvem-no e cumprem suas ordens de preferência às do vigário da
paróquia.
"O fanatismo não tem limites e assim é
que, sem medo de erro, e firmado em fatos, posso afirmar que adoram-no, como
se fosse um Deus vivo.
"Nos dias de sermões, terços e
ladainhas, o ajuntamento sobe a mil pessoas. Na construção desta capela, cuja
féria semanal é de quase cem mil-réis, décuplo do que devia ser pago, estão
empregados cearenses, aos quais Antônio Conselheiro presta a mais cega
proteção, tolerando e dissimulando os atentados que cometem, e esse dinheiro
sai dos crédulos e ignorantes, que, além de não trabalharem, vendem o pouco
que possuem e até furtam para que não haja a menor falta, sem falar nas
quantias arrecadadas que tem sido remetidas para outras obras do Chorrochó,
termo do Capim Grosso."
E depois de apontar a última tropelia
dos fanáticos:
"Havendo desinteligência entre o grupo
de Antônio Conselheiro e o vigário de Inhambupe, está aquele municiado como se
tivesse de ferir uma batalha campal, e consta que estão à espera que o vigário
vá ao lugar denominado Junco para assassiná-lo. Faz medo aos transeuntes
passar por alto, vendo aqueles malvados munidos de cacetes, facas, facões,
clavinotes; e ai daquele que for suspeito de ser infenso a Antônio
Conselheiro."
Ao que se figura, este apelo, feito em
termos tão alarmantes, não foi correspondido. Nenhuma providencia se tomou até
meados de 1887, quando a diocese da Bahia interveio de novo, oficiando o
arcebispo ao presidente da província, pedindo providências que contivessem o
"indivíduo Antônio Vicente Mendes Maciel que, pregando doutrinas subversivas,
fazia um grande mal à religião e ao Estado, distraindo o povo de suas
obrigações e arrastando-o após si, procurando convencer de que era
Espírito-Santo etc."
Ante o reclamo, o presidente daquela
província dirigiu-se ao ministro do Império, pedindo um lugar para o
tresloucado no hospício de alienados do Rio. O ministro respondeu ao
presidente contrapondo o notável argumento de não haver, naquele
estabelecimento, lugar algum vago; e o presidente oficiou de novo ao prelado,
tornando-o ciente da resolução admirável do governo.
Assim se abriu e se fechou o ciclo das
providências legais que se fizeram durante o Império.
Mais lendas
O Conselheiro continuou sem tropeços na
missão pervertedora, avultando na imaginação popular.
Apareciam as primeiras lendas.
Não as arquivaremos todas.
Fundou o arraial do Bom Jesus; e contam
as gentes assombradas que em certa ocasião, quando se construía a belíssima
igreja que lá está, esforçando-se debalde dez operários por erguerem pesado
baldrame, o predestinado trepou sobre o madeiro e ordenou, em seguida, que
dois homens apenas o levantem; e o que não haviam conseguido tantos,
realizaram os dois rapidamente, sem esforço algum...
Outra vez - ouvi o estranho caso
a pessoas que se não haviam deixado fanatizar! - chegou a Monte Santo e
determinou que se fizesse uma procissão pela montanha acima, até a última
capela, no alto. Iniciou-se à tarde a cerimônia. A multidão derivou, lenta,
pela encosta clivosa, entoando benditos, estacionando nos "passos", contrita.
Ele seguia na frente - grave e sinistro - descoberto, agitada
pela ventania forte a cabeleira longa, arrimando-se ao bordão inseparável.
Desceu a noite. Acenderam-se as tochas dos penitentes, e a procissão,
estendida na linha de cumeadas, traçou uma estrada luminosa no dorso da
montanha...
Ao chegar à Santa Cruz, no alto,
Antônio Conselheiro, ofegante, senta-se no primeiro degrau da tosca escada de
pedra, e queda-se estático, contemplando os céus, o olhar imerso nas
estrelas...
A primeira onda de fiéis enche logo o
âmbito restrito da capela, enquanto outros permanecem fora ajoelhados sobre a
rocha aspérrima.
O contemplativo, então, levanta-se. Mal
sofreia o cansaço. Entre alas respeitosas, penetra, por sua vez, na capela,
pendida para o chão a cabeça, humílimo e abatido, arfando.
Ao abeirar-se do alta-mor, porém, ergue
o rosto pálido, emoldurado pelos cabelos em desalinho. E a multidão estremece
toda, assombrada... Duas lágrimas sangrentas rolam, vagarosamente, no rosto
imaculado da Virgem Santíssima...
Estas e outras lendas são ainda
correntes no sertão. natural. Espécie de grande homem pelo avesso, Antônio
Conselheiro reunia no misticismo doentio todos os erros e superstições que
formam o coeficiente de redução da nossa nacionalidade. Arrastava o povo
sertanejo não porque o dominasse, mas porque o dominavam as aberrações
daquele. Favorecia-o o meio e ele realizava, às vezes, como vimos, o absurdo
de ser útil. Obedecia à finalidade irresistível de velhos impulsos ancestrais;
e jugulado por ela espelhava em todos os atos a placabilidade de um
evangelhista incomparável.
De feito, amortecia-lhe a nevrose
inexplicável placidez.
Certo dia o vigário de uma freguesia
sertaneja vê chegar à sua porta um homem extremamente magro e sucumbido:
longos cabelos despenteados pelos ombros, longas barbas descendo pelo peito;
uma velha figura de peregrino a que não faltavam o crucifixo tradicional,
suspenso a um lado entre as camândulas da cintura, e o manto poento e gasto, e
a borracha d'água, e o bordão comprido...
Dá-lhe o pároco com que se alimente,
aceita um pedaço de pão apenas; oferece-lhe um leito, prefere uma tábua sobre
que se deita sem cobertas, vestido, sem mesmo desatacar as sandálias.
No outro dia o singularíssimo hóspede,
que poucas palavras até então pronunciara, pede ao padre lhe conceda pregar
por ocasião da festa que ia realizar-se na igreja.
- Irmão não tendes ordens; a
Igreja não permite que pregueis.
- Deixai-me, então, fazer a
via-sacra.
- Também não posso, vou eu
fazê-la, contraveio mais uma vez o sacerdote.
O peregrino, então, encarou-o fito por
algum tempo, e sem dizer palavra tirou de sob a túnica um lenço. Sacudiu o pó
das alpercatas. E partiu.
Era o clássico protesto inofensivo e
tranqüilo dos apóstolos . . .
Hégira para o sertão
A reação, porém, crescendo,
malignou-lhe o animo. Dominador incondicional, principiou de se irritar ante a
menor contrariedade.
Certa vez, em Natuba, estando ausente o
vigário, com quem não estava em boas graças, apareceu e mandou carregar pedras
para consertos da igreja. Chega o padre; vê a invasão dos domínios sagrados;
irrita-se e resolve pôr embargos à desordem. Era homem prático; apelou para o
egoísmo humano.
Tendo a Câmara, dias antes, imposto aos
proprietários o calçamento dos passeios das casas, cedeu ao povo, para tal
fim, as pedras já acumuladas.
O Conselheiro não se limitou, desta
vez, a sacudir as sandálias. Saiu-lhe da boca a primeira maldição, às portas
da cidade ingrata; e partiu.
Tempos depois, a pedido do mesmo
vigário, certa influência política do local o chamou. O templo desabava em
ruínas; o mato invadira todo o cemitério; e a freguesia era pobre. Só podia
renová-los quem tão bem dispunha dos matutos crédulos. O apóstolo deferiu ao
convite. Mas fê-lo através de imposições discricionárias, relembrando, com
altanaria destoante da pacatez antiga, a afronta recebida.
Iam-no tornando mau.
Viu a República com maus olhos e
pregou, coerente, a rebeldia contra as novas leis. Assumiu desde 1893 uma
feição combatente inteiramente nova.
Originou-a fato de pouca monta.
Decretada a autonomia dos municípios,
as Câmaras das localidades do interior da Bahia tinham afixado nas tábuas
tradicionais, que substituem a imprensa, editais para a cobrança de impostos
etc.
Ao surgir esta novidade Antônio
Conselheiro estava em Bom Conselho. Irritou-o a imposição; e planeou revide
imediato. Reuniu o povo num dia de feira e, entre gritos sediciosos e
estrepitar de foguetes, mandou queimar as tábuas numa fogueira, no largo.
Levantou a voz sobre o "auto-de-fé", que a fraqueza das autoridades não
impedira, e pregou abertamente a insurreição contra as leis.
Avaliou, depois, a gravidade do
atentado.
Deixou a vila, tomando pela estrada de
Monte Santo, para o norte.
O acontecimento repercutira na capital,
de onde partiu numerosa força de polícia para prender o rebelde e dissolver os
grupos turbulentos. Estes naquela época não excediam a duzentos homens. A
tropa alcançou-os em Maceté, lugar desabrigado e estéril entre Tucano e Cumbe,
nas cercanias dás serras do Ovó. As trinta praças, bem armadas, atacaram
impetuosamente a turba de penitentes depauperados, certas de os destroçarem à
primeira descarga. Deram, porém, de frente, com os jagunços destemerosos.
Foram inteiramente desbaratadas, precipitando-se na fuga, de que fora o
primeiro a dar o exemplo o próprio comandante.
Esta batalha minúscula teria,
infelizmente, mais tarde muitas cópias ampliadas.
Realizada a façanha, os crentes
acompanharam, reatando a marcha, a hégira do profeta. Não procuravam mais os
povoados, como dantes. Demandavam o deserto.
O desbarato da tropa prenunciava-lhes
perseguições mais vigorosas; e, certos do amparo da natureza selvagem,
contavam com a vitória enterreirando entre as caatingas os novos contendores.
Estes partiram, de fato, sem perda de tempo, da Bahia, em número de oitenta
praças, de linha. Mas não prosseguiram além de Serrinha, de onde tornaram sem
se aventurarem com o sertão. Antônio Conselheiro, porém, não se iludiu com o
inexplicável recuo, que o salvara. Arrastou a matula de fiéis, a que se
aliavam, dia a dia, dezenas de prosélitos, pelas trilhas sertanejas fora,
seguindo prefixado rumo.
Conhecia o sertão. Percorrera-o todo
numa romaria ininterrupta de vinte anos. Sabia de paragens ignotas de onde o
não arrancariam. Marcara-as já, talvez prevenindo futuras vicissitudes.
Endireitou, rumo firme, em cheio para o
norte.
Os crentes acompanharam-no. Não
inquiriram para onde seguiam. E atravessaram serranias íngremes, tabuleiros
estéreis e chapadas rasas, longos dias, vagarosamente, na marcha cadenciada
pelo toar das ladainhas e pelo passo tardo do profeta. . .
Capítulo V
Canudos - antecedentes - aspecto original
- e crescimento vertiginoso. Regimen da urbs. Polícia de bandidos.
População multiforme. O templo. Estrada para o céu. As rezas. Agrupamentos
bizarros. Por que não pregar contra a República ? Uma missão abortada.
Maldição sobre a Jerusalém de taipa.
Canudos , velha fazenda de gado à beira
do Vaza-Barris, era, em 1890, uma tapera de cerca de cinqüenta capuabas de
pau-a-pique.
Já em 1876, segundo o testemunho de um
sacerdote, que ali fora, como tantos outros, e nomeadamente o vigário de
Cumbe, em visita espiritual às gentes de todo despeadas da terra, lá se
aglomerava, agregada à fazenda então ainda florescente, população suspeita e
ociosa, "armada até aos dentes" e "cuja ocupação, quase exclusiva, consistia
em beber aguardente e pitar uns esquisitos cachimbos de barro em canudos de
metro de extensão" , de tubos naturalmente fornecidos pelas solanáceas
(canudos-de-pito), vicejantes em grande cópia à beira do rio.
Assim, antes da vinda do Conselheiro,
já o lugarejo obscuro - e o seu nome claramente se explica -
tinha, como a maioria dos que jazem desconhecidos pelos nossos sertões, muitos
germens da desordem e do crime. Estava, porém, em plena decadência quando lá
chegou aquele em 1893: tajupares em abandono; vazios os pousos; e, no alto de
um esporão da Favela, destelhada, reduzida às paredes exteriores, a antiga
vivenda senhoril, em ruínas...
Data daquele ano a sua revivescência e
crescimento rápido. O aldeamento efêmero dos matutos vadios, centralizado pela
igreja velha, que já existia, ia transmudar-se, ampliando-se, em pouco tempo,
na Tróia de taipa dos jagunços.
Era o lugar sagrado, cingido de
montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito.
A sua topografia interessante
modelava-o ante a imaginação daquelas gentes simples como o primeiro degrau,
amplíssimo e alto, para os céus...
Crescimento vertiginoso
Não surpreende que para lá
convergissem, partindo de todos os pontos, turmas sucessivas de povoadores
convergentes das vilas e povoados mais remotos.
Diz uma testemunha : "Alguns lugares
desta comarca e de outras circunvizinhas, e até do Estado de Sergipe, ficaram
desabitados, tal a aluvião de famílias que subiam para os Canudos, lugar
escolhido por Antônio Conselheiro para o centro de suas operações. Causava dó
verem-se expostos à venda, nas feiras, extraordinária quantidade de gado
cavalar, vacum, caprino etc., além de outros objetos, por preços de nonada,
como terrenos, casas etc. O anelo extremo era vender, apurar algum dinheiro e
ir reparti-lo com o Santo Conselheiro."
Assim se mudavam os lares.
Inhambupe, Tucano, Cumbe, Itapicuru,
Bom Conselho, Natuba, Maçacará, Monte Santo, Jeremoabo, Uauá, e demais lugares
próximos; Entre Rios, Mundo Novo, Jacobina, Itabaiana e outros sítios remotos,
forneciam constantes contingentes. Os raros viajantes que se arriscavam a
viagens naquele sertão topavam grupos sucessivos de fiéis que seguiam,
ajoujados de fardos, carregando as mobílias toscas, as canastras e os
oratórios, para o lugar eleito. Isoladas a princípio, essas turmas adunavam-se
pelos caminhos, aliando-se a outras, chegando, afinal, conjuntas, a
Canudos.
O arraial crescia vertiginosamente,
coalhando as colinas.
A edificação rudimentar permitia à
multidão sem lares fazer até doze casas por dia; e, à medida que se formava, a
tapera colossal parecia estereografar a feição moral da sociedade ali
acoitada. Era a objetivação daquela insânia imensa.
Documento iniludível permitindo o corpo
de delito direto sobre os desmandos de um povo.
Aquilo se fazia a esmo,
adoidadamente.
Aspecto original
A urbs monstruosa, de barro, definia
bem a civitas sinistra do erro. O povoado novo surgia, dentro de algumas
semanas, já feito ruínas. Nascia velho. Visto de longe, desdobrado pelos
cômoros, atulhando as canhadas, cobrindo área enorme, truncado nas quebradas,
revolto nos pendores - tinha o aspecto perfeito de uma cidade cujo solo
houvesse sido sacudido e brutalmente dobrado por um terremoto.
Não se distinguiam as ruas.
Substituía-as dédalo desesperador de becos estreitíssimos, mal separando o
baralhamento caótico dos casebres feitos ao acaso, testadas volvidas para
todos os pontos, cumeeiras orientando-se para todos os rumos, como se tudo
aquilo fosse construído, febrilmente, numa noite, por uma multidão de
loucos...
Feitas de pau-a-pique e divididas em
três compartimentos minúsculos, as casas eram paródia grosseira da antiga
morada romana: um vestíbulo exíguo, um atrium servindo ao mesmo tempo de
cozinha, sala de jantar e de recepção; e uma alcova lateral, furna escuríssima
mal revelada por uma porta estreita e baixa. Cobertas de camadas espessas de
vinte centímetros, de barro, sobre ramos de icó, lembravam as choupanas dos
gauleses de César. Traíam a fase transitória entre a caverna primitiva e a
casa. Se as edificações em suas modalidades evolutivas objetivam a
personalidade humana, o casebre de teto de argila dos jagunços equiparado ao
wigwan dos peles-vermelhas sugeria paralelo deplorável. O mesmo desconforto e,
sobretudo, a mesma pobreza repugnante, traduzindo de certo modo, mais do que a
miséria do homem, a decrepitude da raça.
Quando o olhar se acomodava à penumbra
daqueles cômodos exíguos, lobrigava, invariavelmente, trastes raros e
grosseiros: um banco tosco; dois ou três banquinhos com a forma de escabelos;
igual número de caixas de cedro, ou canastras; um jirau pendido do teto; e as
redes. Eram toda a mobília. Nem camas, nem mesas. Pendurados aos cantos,
viam-se insignificantes acessórios: o bogó ou borracha, espécie de balde de
couro para o transporte de água; pares de caçuás ( jacás de cipó ) e os aiós,
bolsa de caça, feita das fibras de caroá. Ao fundo do único quarto, um
oratório tosco. Neste, copiando a mesma feição achamboada do conjunto, santos
mal acabados, imagens de linhas duras, a objetivarem a religião mestiça em
traços incisivos de manipansos: Santos Antônios proteiformes e africanizados,
de aspecto bronco, de fetiches; Marias Santíssimas, feias como megeras...
Por fim as armas - a mesma
revivescência de estádios remotos: o facão jacaré, de folha larga e forte; a
parnaíba dos cangaceiros, longa como uma espada; o ferrão ou guiada. de três
metros de comprido, sem a elegância das lanças, reproduzindo os piques
antigos; os cacetes ocos e cheios pela metade de chumbo, pesados como
montantes; as bestas e as espingardas.
Entre estas últimas, gradações
completas, desde a de cano fino, carregada com escumilha, até à "legítima de
Braga", cevada com chumbo grosso, ao trabuco brutal ao modo de uma colubrina
portátil, capaz de arremessar calhaus e pontas de chifre, à lazarina ligeira,
ou ao bacamarte de boca-de-sino.
Nada mais. De nada mais necessitava
aquela gente. Canudos surgia com a feição média entre a de um acampamento de
guerreiros e a de um vasto kraal africano. A ausência de ruas, as praças que,
à parte a das igrejas, nada mais eram que o fundo comum dos quintais, e os
casebres unidos, tornavam-no como vivenda única, amplíssima, estendida pelas
colinas, e destinada a abrigar por pouco tempo o clã tumultuário de Antônio
Conselheiro.
Sem a alvura reveladora das paredes
caiadas e telhados encaliçados, a certa distancia era visível. Confundia-se
com o próprio chão. Aparecia, de perto, de chofre, constrito numa volta do
Vaza-Barrís, que o limitava do levante ao sul abarcando-o.
Emoldurava-o uma natureza morta:
paisagens tristes; colinas nuas, uniformes, prolongando-se, ondeantes, até às
serranias distantes, sem uma nesga de mato; rasgadas de lascas de talcoxisto,
mal revestidas, em raros pontos, de acervos de bromélias, encimadas, noutros,
pelos cactos esguios e solitários. O monte da Favela, ao sul, empolava-se mais
alto, tendo no sopé, fronteiro à praça, alguns pés de quixabeiras, agrupados
em horto selvagem. À meia encosta via-se solitária, em ruínas, a antiga casa
da fazenda...
A uma banda, perto e dominante, um
contraforte, o morro dos Pelados, termina de chofre em barranca a prumo sobre
o rio e este, dali por diante progredindo numa inflexão forte para montante,
abarca o povoado em leito escavado e fundo, como um fosso. Ali vão ter
quebradas de bordas a pique, abertas pelas erosões intensas por onde, no
inverno, rolam acachoando afluentes efêmeros tendo os nomes falsos de rios: o
Mucuim, o Umburanas, e outro, que sucessos ulteriores denominariam da
Providência.
Canudos, assim circunvalado quase todo
pelo Vaza-Barris, embatia ao sul contra as vertentes da Favela e dominado no
ocidente pelas lombas mais altas de flancos em escarpa em que se comprimia
aquele nas enchentes, desatava-se para o levante segundo o expandir dos
plainos ondulados. As montanhas longínquas fechavam-se em roda, formando,
quase contínua, uma elipse de eixos dilatados. Feito postigos em baluarte
desmedido, abriam-se, estreitas, as gargantas em que passavam os caminhos: o
do Uauá, estrangulado entre os pendores fortes do Caipã; o de Jeremoabo,
insinuando-se nos desfiladeiros de Cocorobó; o do Cambaio, em aclives,
investindo com as vertentes do Calumbi; e o do Rosário.
Ora, por estas veredas, prendendo, no
se ligarem a outras trilhas, o povoado nascente ao fundo dos sertões do Piauí,
Ceará, Pernambuco e Sergipe - chegavam sucessivas caravanas de fiéis.
Vinham de todos os pontos, carregando os haveres todos; e, transpostas as
últimas voltas do caminho, quando divisavam o campanário humilde da antiga
Capela, caíam genuflexos sobre o chão aspérrimo. Estava atingido o termo da
romagem. Estavam salvos da pavorosa hecatombe, que vaticinavam as profecias do
evangelizador. Pisavam, afinal, a terra da promissão - Canaã sagrada,
que o Bom Jesus isolara do resto do mundo por uma cintura de serras.. .
Chegavam, estropiados da jornada longa,
mas felizes. Acampavam à gandaia pelo alto dos cômoros. A noite acendiam-se as
fogueiras nos pousos dos peregrinos relentados. Uma faixa fulgurante enlaçava
o arraial; e, uníssonas, entrecruzavam-se, ressoando nos pousos e nas casas,
as vozes da multidão penitente, na melopéia plangente dos benditos.
Ao clarear da manhã entregavam-se à
azáfama da construção dos casebres. Estes, a princípio apinhando-se próximos à
depressão em que se erigia a primitiva igreja, e descendo desnivelados ao viés
das encostas breves até ao rio, começaram a salpintar, esparsos, o terreno
rugado, mais longe.
Construções ligeiras, distantes do
núcleo compacto da casaria, pareciam obedecer ao traçado de um plano de
defesa. Sucediam-se escalonadas, ladeando os caminhos. Marginavam o de
Jeremoabo, eretas numa e outra margem do Vaza-Barris, para jusante, até
Trabubu e o ribeirão de Macambira. Pontilhavam o do Rosário, transpondo o rio
e contornando a Favela. Espalhavam-se pelos cerros que se sucediam inúmeros
seguindo o rumo de Uauá. Inscritas em cercas impenteráveis de gravatás,
plantados na borda de um fosso envolvente, cada uma era, do mesmo passo, um
lar e um reduto. Dispunham-se formando linhas irregulares de baluartes.
Porque a cidade selvagem, desde o
princípio, tinha em torno, acompanhando-a no crescimento rápido, um círculo
formidável de trincheiras cavadas em todos os pendores, enfiando todas as
veredas, planos de fogo volvidos, rasantes com o chão, para todos os rumos.
Veladas por touceiras inextricáveis de macambiras ou lascas de pedra, não se
revelavam a distancia. Vindo do levante, o viajor que as abeirasse, ao
divisar, esparsas sobre os cerros, as choupanas exíguas à maneira de guaritas,
acreditaria topar uma rancharia esparsa de vaqueiros inofensivos. Atingia, de
repente, a casaria compacta, surpreso, como se caísse numa tocaia.
Para quem viesse do sul, porém, pelo
Rosário ou Calumbi, galgado o alto da Favela, ou as ladeiras fortes que se
derivam para o rio Sargento, o casario aparecia a um quilômetro, ao norte,
esbatido num plano inferior, francamente exposto, de modo a se poder num lance
único de vista aquilatar-lhe as condições de defesa.
Eram na aparência deploráveis. O
arraial parecia disposto para o choque das cargas fulminantes, rolando
impetuosas, com a força viva de uma queda, pelos aclives abruptos. O inimigo,
livre de escaladas penosas, varejá-lo-ia em tiros mergulhantes. Podia
assediá-lo todo, batendo todas as estradas, com uma bateria única.
Tinha, entretanto, condições táticas
preexcelentes. Compreendera-as algum Vauban inculto...
Fechado ao sul pelo morro, descendo
escancelado de gargantas até ao rio, fechavam-no, a oeste, uma muralha e um
valo. De fato, infletindo naquele rumo, o Vaza-Barris, comprimido entre as
últimas casas e as escarpas a pique dos morros sobranceiros, torcia para norte
feito um cañon fundo. A sua curva forte rodeava, circunvalando-a, a depressão
em que se erigia o povoado, que se trancava a leste pelas colinas, a oeste e
norte pelas ladeiras das terras mais altas, que dali se entumescem até aos
contrafortes extremos do Cambaio e do Caipã; e ao sul pela montanha.
Canudos era uma tapera dentro de uma
furna. A praça das igrejas, rente ao rio, demarcava-lhe a área mais baixa.
Dali, segundo um eixo orientado ao norte, se expandia alteando-se a. pouco e
pouco, em plano inclinado breve, feito um valo largo, em declive. Lá dentro se
apertavam os casebres, atulhando toda a baixada, subindo, mais esparsos, pelas
encostas de leste, transbordando, afinal, nas exíguas vivendas que vimos
salpitando, raras, o alto dos cerros minados de trincheiras. A grei revoltosa
- como se vê - não se ilhava em uma eminência, assoberbando os
horizontes, a cavaleiro dos assaltos. Entocara-se. Naquela região belíssima,
em que as linhas de cumeadas se rebatem no plano alto dos tabuleiros,
escolhera precisamente o trecho que recorda uma vala comum enorme.. .
Regímen da "urbs"
Lá se firmou logo um regímen modelado
pela religiosidade do apóstolo extravagante.
Jugulada pelo seu prestígio, a
população tinha, engravecidas, todas as condições do estádio social inferior.
Na falta da irmandade do sangue, a consangüinidade moral dera-lhe a forma
exata de um clã, em que as leis eram o arbítrio do chefe e a justiça as suas
decisões irrevogáveis. Canudos estereotipava o facies dúbio dos primeiros
agrupamentos bárbaros.
O sertanejo simples transmudava-se,
penetrando-o, no fanático destemeroso e bruto. Absorvia-o a psicose coletiva.
E adotava, ao cabo, o nome até então consagrado aos turbulentos de feira, aos
valentões das refregas eleitorais e saqueadores de cidades -
jagunços.
População multiforme
De sorte que ao fim de algum tempo a
população constituída dos mais dispares elementos, do crente fervoroso
abdicando de si todas as comodidades da vida noutras paragens, ao bandido
solto, que lá chegava de clavinote ao ombro em busca de novo campo de
façanhas, se fez a comunidade homogênea e uniforme, massa inconsciente e
bruta, crescendo sem evolver, sem órgãos e sem funções especializadas, pela só
justaposição mecânica de levas sucessivas à maneira de um polipeiro humano. É
natural que absorvesse, intactas, todas as tendências do homem extraordinário
do qual a aparência protéica - de santo exilado na terra, de fetiche de
carne e osso, e de bonzo claudicante -estava adrede talhada para
reviver os estigmas degenerativos de três raças.
Aceitando, às cegas, tudo quanto lhe
ensinara aquele; imersa de todo no sonho religioso; vivendo sob a preocupação
doentia da outra vida, resumia o mundo na linha de serranias que a cingiam.
Não cogitava de instituições garantidoras de um destino na terra.
Eram-lhe inúteis. Canudos era o
cosmos.
E este mesmo transitório e breve: um
ponto de passagem, uma escala terminal, de onde decampariam sem demora; o
último pouso na travessia de um deserto - a Terra. Os jagunços errantes
ali armavam pela derradeira vez as tendas, na romaria miraculosa para os
céus...
Nada queriam desta vida. Por isto a
propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos
beduínos: a apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas,
comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos
produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota-parte, revertendo o
resto para a "companhia". Os recém-vindos entregavam ao Conselheiro noventa e
nove por cento do que traziam, incluindo os santos destinados ao santuário
comum. Reputavam-se felizes com a migalha restante. Bastava-lhes de sobra. O
profeta ensinara-lhes a temer o pecado mortal do bem-estar mais breve.
Voluntários da miséria e da dor, eram venturosos na medida das provações
sofridas. Viam-se bem, vendo-se em andrajos. Este desprendimento levado às
últimas conseqüências chegava a despi-los das belas qualidades morais,
longamente apuradas na existência patriarcal dos sertões. Para Antônio
Conselheiro - e neste ponto ele ainda copia velhos modelos históricos
- a virtude era como que o reflexo superior da vaidade. Uma quase
impiedade. A tentativa de enobrecer a existência na terra implicava de certo
modo a indiferença pela felicidade sobrenatural iminente, o olvido do além
maravilhoso anelado.
O seu senso moral deprimido só
compreendia a posse deste pelo contraste das agruras suportadas.
De todas as páginas de catecismo que
soletrara ficara-lhe preceito único:
Bem-aventurados os que sofrem. . .
A extrema dor era a extrema-unção. O
sofrimento duro a absolvição plenária; e teriaga infalível para a peçonha dos
maiores vícios.
Que os homens se desmandassem ou
agissem virtuosamente - era questão de somenos . Consentia de boa
feição que errassem, mas que todas as impurezas e todas as escorralhas de uma
vida infame caíssem, afinal, gota a gota, nas lágrimas vertidas.
Ao saber de caso escandaloso em que a
lubricidade de um devasso maculara incauto donzela teve, certa vez, uma frase
ferozmente cínica, que os sertanejos repetiam depois sem lhe aquilatarem a
torpeza:
"Seguiu o destino de todas; passou por
baixo da árvore do bem e do mal !"
Não é para admirar que se esboçasse
logo, em Canudos, a promiscuidade de um hetairismo infrene. Os filhos espúrios
não tinham à fronte o labéu indelével da origem, a situação infamante dos
bancklings entre os germanos. Eram legião.
Porque o dominador, se não estimulava,
tolerava o amor livre. Nos conselhos diários não cogitava da vida conjugal,
traçando normas aos casais ingênuos. E era lógico. Contados os últimos dias do
mundo, fora malbaratá-los agitando preceitos vãos, quando o cataclismo
iminente viria, em breve, apagar para sempre as uniões mais íntimas, dispersar
os lares e confundir no mesmo vórtice todas as virtudes e todas as
abominações. O que urgia era antecipá-lo pelas provações e pelo martírio.
Pregava, então, os jejuns prolongados, as agonias da fome, a lenta exaustão da
vida. Dava o exemplo fazendo constar, pelos fiéis mais íntimos, que
atravessava os dias alimentando-se com um pires de farinha. Conta-se que em
certo dia foi visitado por um crente abastado das cercanias. Repartiu com ele
a refeição escassa; e este - milagre que abalou o arraial inteiro !
- saiu, do banquete minúsculo, repleto, empanzinado, como se volvesse
de festim soberbo.
Este regímen severo tinha efeito duplo:
tornava, pela própria debilidade, mais vibrátil a enervação enferma dos
crentes e preparava-os para as aperturas dos assédios, talvez previstos. Era,
talvez, intenção recôndita de Antônio Conselheiro. Nem de outro modo se
compreende que permitisse assistissem no arraial indivíduos cuja índole se
contrapunha à sua placabilidade humilde.
Canudos era o homízio de famigerados
facínoras. Ali chegavam, de permeio com os matutos crédulos e vaqueiros
iludidos, sinistros heróis da faca e da garrucha. E estes foram logo os mais
quistos daquele homem singular, os seus ajudantes de ordens prediletos,
garantindo-lhe a autoridade inviolável. Eram, por um contraste natural, os
seus melhores discípulos. A seita esdrúxula - caso de simbiose moral em
que o belo ideal cristão surgia mostruoso dentre aberrações fetichistas
- tinha os seus naturais representantes nos Batistas truculentos,
capazes de carregar os bacamartes homicidas com as contas dos rosários...
Polícia de bandidos
Graças a seus braços fortes, Antônio
Conselheiro dominava o arraial, corrigindo os que saíam das trilhas
demarcadas. Na cadeia ali paradoxalmente instituída - a "poeira", no
dizer dos jagunços - viam-se diariamente, presos pelos que haviam
cometido a leve falta de alguns homicídios os que haviam perpetrado o crime
abominável de faltar às rezas.
Inexorável para as pequenas culpas,
nulíssima para os grandes atentados, a justiça era, como tudo o mais,
antinômica, no clã policiado por facínoras. Visava uma delinqüência especial,
traduzindo-se na inversão completa do conceito do crime. Exercitava-se, não
raro duramente, cominando penas severíssimas sobre leves faltas.
O uso da aguardente, por exemplo, era
delito sério. Ai! dipsomaníaco incorrigível que rompesse o interdito
imposto!
Conta-se que de uma feita alguns
tropeiros inexpertos, vindos do Juazeiro, foram ter a Canudos, levando alguns
barris do líquido inconcesso. Atraía-os o engodo de lucro inevitável. Levavam
a eterna cúmplice das horas ociosas dos matutos. Ao chegarem, porém, tiveram,
depois de descarregarem na praça a carga valiosa, desagradável surpresa.
Viram, ali mesmo, abertos os barris, a machado, e inutilizado o contrabando
sacrílego. E volveram rápidos, desapontados, tendo às mãos, ao invés do ganho
apetecido, o ardor de muitas dúzias de palmatoadas, amargos bolos com que os
presenteara aquela gente ingrata.
Este caso é expressivo. Sólida
experiência ensinara ao Conselheiro todos os perigos que adviriam deste haxixe
nacional. Interdizia-o menos por debelar um vício que para prevenir desordens.
Mas, fora do povoado, estas podiam espalhar-se à larga. Dali partiam bandos
turbulentos arremetendo com os arredores. Toda a sorte de tropelias eram
permitidas, desde que aumentassem o patrimônio da grei. Em 1894, as algaras,
chefiadas por valentões de nota, tornaram-se alarmantes. Foram em um crescendo
tal, de depredações e desacatos, que despertaram a atenção dos poderes
constituídos, originando mesmo calorosa e inútil discussão na Assembléia
Estadual da Bahia.
Depredações
Em dilatado raio em torno de Canudos,
talavam-se fazendas, saqueavam-se lugarejos, conquistavam-se cidades ! No Bom
Conselho, uma horda atrevida, depois de se apossar da Vila, pô-la em estado de
sítio, dispersou as autoridades, a começar pelo juiz da comarca e, como
entreato hilariante na razia escandalosa, torturou o escrivão dos casamentos
que se viu em palpos de aranhas para impedir que os crentes sarcásticos lhe
abrissem, tosquiando-o, uma coroa larga, que lhe justificasse o invadir as
atribuições sagradas do vigário.
Os desordeiros volviam cheios de
despojos para o arraial, onde ninguém Ihes tomava conta dos desmandos.
Muitas vezes, diz o testemunho unânime
da população sertaneja, tais expedições eram sugeridas por intuito diverso.
Alguns fiéis abastados tinham veleidades políticas. Sobrevinha a quadra
eleitoral. Os grandes conquistadores de urnas que, a exemplo de milhares de
comparsas disseminados neste país, transformam a fantasia do sufrágio
universal na clava de Hércules da nossa dignidade, apelavam para o
Conselheiro.
Canudos fazia-se, então,
provisoriamente, o quartel das guardas pretorianas dos capangas, que de lá
partiam, trilhando rumos prefixos, para reforçarem, a pau e a tiro, a
soberania popular, expressa na imbecilidade triunfante de um régulo qualquer;
e para o estraçoamento das atas; e para as mazorcas periódicas que a lei
marca, denominando-as "eleições", eufemismo que é entre nós o mais vivo traço
das ousadias da linguagem. A nossa civilização de empréstimo arregimentava,
como sempre o fez, o banditismo sertanejo.
Ora, estas arrancadas eram um
ensinamento. Eram úteis. Eram exercícios práticos indispensáveis ao preparo
para recontros mais valentes. Compreendera-as, talvez, assim, o Conselheiro.
Tolerava-as. No arraial, porém , exigia, digamos em falta de outro termo
- porque os léxicos não o têm para exprimir um tumulto disciplinado
- ordem inalterável. Ali permaneciam, inofensivos porque eram
inválidos, os seus melhores crentes: mulheres, crianças, velhos alquebrados,
doentes inúteis. Viviam parasitariamente da solicitude do chefe, que Ihes era
o Santo protetor, ao qual saudavam entoando versos há vinte e tantos anos
correntes nos sertões:
Do céu veio uma luz
Que Jesus Cristo mandou
Santo Antônio
Aparecido
Dos castigos nos livrou!
Quem ouvir e não
aprender
Quem souber e não ensinar
No dia do Juízo
A sua alma
penará!
Estas velhas quadras, que a tradição
guardara, lembravam ao infeliz os primeiros dias da vida atormentada e
avivam-lhe, porventura, os últimos tragos da vaidade, no confronto vantajoso
com o santo milagreiro por excelência.
O certo é que abria aos desventurados
os celeiros fartos pelas esmolas e produtos do trabalho comum. Compreendia que
aquela massa, na aparência inútil, era o cerne vigoroso do arraial.
Formavam-na os eleitos, felizes por terem aos ombros os frangalhos imundos,
esfiapados sambenitos de uma penitência, que Ihes fora a própria vida;
bem-aventurados porque o passo trôpego, remorado pelas muletas e pelas
anquiloses, Ihes era a celeridade máxima, no avançar para a felicidade
eterna.
O templo
Além disto ali os aguardava, no termo
da jornada, a última penitência: a construção do templo.
A antiga capela não bastava. Era frágil
e pequena. Mal sobranceava os colmos achatados. Retratava por demais, no
aspecto modestíssimo, a pureza principal da religião antiga.
Era necessário que se lhe contrapusesse
a arx monstruosa, erigida como se fosse o molde monumental da seita
combatente.
Começou a erigir-se a igreja nova.
Desde antemanhã, enquanto uns se entregavam às culturas ou tangiam os rebanhos
de cabras, ou abalavam para "fazer o saco" nas vilas próximas, e outros,
dispersando-se em piquetes vigilantes, estacionavam nas cercanias, bombeando
quem chegava, o resto do povo moirejava na missão sagrada.
Defrontando o antigo, o novo templo
erguia-se no outro extremo da praça. Era retangular, e vasto, e pesado. As
paredes mestras, espessas, recordavam muralhas de reduto. Durante muito tempo
teria esta feição anômala, antes que as duas torres muito altas, com ousadias
de um gótico rude e imperfeito, o transfigurassem.
É que a catedral admirável dos jagunços
tinha essa eloqüência silenciosa dos edifícios, de que nos fala Bossuet...
Devia ser como foi. Devia surgir, mole,
formidável e bruta, da extrema fraqueza humana, alteada pelos músculos gastos
dos velhos, pelos braços débeis das mulheres e das crianças. Cabia-lhes a
forma dúbia de santuário e de antro, de fortaleza e de templo, irmanando no
mesmo âmbito, onde ressoariam mais tarde as ladainhas e as balas, a suprema
piedade e os supremos rancores...
Delineara-a o próprio Conselheiro.
Velho arquiteto de igrejas, requintara no monumento que lhe cerraria a
carreira. Levantava, volvida para o levante, aquela fachada estupenda, sem
módulos, sem proporções, sem regras; de estilo indecifrável, mascarada de
frisos grosseiros e volutas impossíveis, cabriolando num delírio de curvas
incorretas; rasgada de ogivas horrorosas, esburacada de troneiras; informe e
brutal, feito a testada de um hipogeu desenterrado; como se tentasse
objetivar, a pedra e cal, a própria desordem do espírito delirante.
Era a sua obra-prima. Ali passava os
dias, sobre os andaimes altos e bailéus bamboantes. O povo enxameando embaixo,
na azáfama do transporte dos materiais, estremecia muita vez ao vê-lo passar,
lentamente, sobre as tábuas flexuosas e oscilantes, impassível, sem um tremor
no rosto bronzeado e rígido, feito uma cariátide errante sobre o edifício
monstruoso.
Não faltavam braços para a tarefa. .Não
cessavam reforços e recursos à sociedade acampada no deserto. Metade, por
assim dizer, das gentes de Tucano e de Itapicuru para lá abalou. De
Alagoinhas, Feira de Santana e Santa Luzia, iam toda a sorte de auxílios. De
Jeremoabo, Bom Conselho e Simão Dias, grandes fornecimentos de gados.
Não assombravam aos recém-vindos os
quadros que se lhes antolhavam. Tinham-nos como obrigatória a prova
desafiando-lhes a fé inabalável.
Estrada para o céu
Os ingênuos contos sertanejos desde
muito Ihes haviam revelado as estradas facinadoramente traiçoeiras que levam
ao inferno. Canudos, imunda ante-sala do paraíso, pobre peristilo dos céus,
devia ser assim mesmo - repugnante, aterrador, horrendo...
Entretanto, lá tinham ido, muitos,
alimentando esperanças singulares. "Os aliciadores da seita se ocupam em
persuadir o povo de que todo aquele que se quiser salvar precisa vir para
Canudos, porque nos outros lugares tudo está contaminado e perdido pela
República. Ali, porém, nem é preciso trabalhar, é a terra da promissão, onde
corre um rio de leite e são de cuscuz de milho as barrancas."
Chagavam.
Deparavam o Vaza-Barris seco, ou
empanzinado, volvendo apenas águas barrentas das enchentes, entre os flancos
entorroados das colinas...
Tinham esvaecida a miragem feliz; mas
não se despeavam no misticismo lamentável. . .
As rezas
Ao cair da tarde, a voz do sino
apelidava os fiéis para a oração. Cessavam os trabalhos. O povo adensava-se
sob a latada coberta de folhagens. Derramava-se pela praça. Ajoelhava-se.
Difundia-se nos ares o coro da primiera
reza.
A noite sobrevinha, prestes, mal
prenunciada pelo crepúsculo sertanejo, fugitivo e breve como o dos
desertos.
Fulguravam as fogueiras, que era
costume acenderem-se acompanhando o perímetro do largo. E os seus clarões
vacilantes emolduravam a cena meio afogada nas sombras.
Consoante antiga praxe, ou, melhor,
capricho de A. Conselheiro , a multidão repartia-se, separados os sexos, em
dois agrupamentos destacados . E em cada um deles s um baralhamento enorme de
contrastes...
Agrupamentos bizarros
Ali estavam, gafadas de pecados velhos,
serodiamente penitenciados, as beatas - êmulas das bruxas das igrejas
- revestidas da capona preta lembrando a holandilha fúnebre da
Inquisição: as "solteiras" , termo que nos sertões tem o pior dos
significados, desenvoltas e despejadas, "soltas" na gandaíce sem freios; as
"moças donzelas" ou "moças damas", recatadas e tímidas; e honestas mães de
famílias; nivelando-se pelas mesmas rezas .
Faces murchas de velhas -
esgrouviados viragos em cuja boca deve ser um pecado mortal a prece; rostos
austeros de matronas simples; fisionomias ingênuas de raparigas crédulas,
misturavam-se em conjunto estranho.
Todas as idades, todos os tipos, todas
as cores...
Grenhas maltratadas de crioulas
retintas; cabelos corredios e duros, de caboclas, trunfas escandalosas, de
africanas madeixas castanhas e louras de brancas legítimas embaralhavam-se,
sem uma fita, sem um grampo, sem uma flor, o toucado ou a coifa mais pobre.
Nos vestuários singelos, de algodão ou de chita, deselegantes e escorridos,
não havia lobrigar-se a garridice menos pretensiosa: um xale de lã, uma
mantilha ou um lenço de cor, atenuando a monotonia das vestes encardidas quase
reduzidas a saias e camisas estraçoadas, deixando expostos os peitos cobertos
de rosários, de verônicas, de cruzes, de figas, de amuletos, de dentes de
animais, de bentinhos, ou de nôminas encerrando "cartas santas", únicos
atavios que perdoava a ascese exigente do evangelizador.
Aqui, ali, extremando-se a relanços
naqueles acervos de trapos, um ou outro rosto formosíssimo, em que ressurgiam,
impressionadoramente suplantando impressionadoramente a miséria e o sombreado
das outras faces rebarbativas, as linhas dessa beleza imortal que o tipo
judaico conserva imutável através dos tempos. Madonas emparceiradas a fúrias,
belos olhos profundos, em cujos negrumes afuzila o desvario místico; frontes
adoráveis, mal escampadas sob os cabelos em desalinho, eram profanação cruel
afogando-se naquela matulagem repugnante que exsudava do mesmo passo o fartum
angulhento das carcaças imundas e o lento salmear dos "benditos" lúgubres como
responsórios...
As reveses, as fogueiras quase
abafadas. vasquejando sob nuvens de fumo, crepitam, revivendo ao sopro da
viração noturna e chofrando precípites clarões sobre a turba. Destaca-se,
então, mais compacto, o grupo varonil dos homens, mostrando idênticos
contrastes: vaqueiros rudes e fortes, trocando, como heróis decaídos, a bela
armadura de couro pelo uniforme reles de brim americano; criadores, ricos os
outrora, felizes pelo abandono das boiadas e dos pousos animados; e menos
numerosos, porem mais em destaque, gandaieiros de todos os matizes , recidivos
de todos os delitos.
Na claridade amortecida dos braseiros
esbatem-se os seus perfis interessantes e vários. Já são famosos alguns.
Prestigia-os o renome de arriscadas aventuras, que a imaginação popular
romanceia e amplia. Lugar-tenentes do ditador humilde, tomam armados a frente
do ajuntamento. Mas na há distinguir-se-lhes neste instante, na atitude e no
gesto, o desgarre provocante dos valentões incorrigíveis.
De joelhos, mãos enclavinhadas sobre o
peito, o olhar tençoeiro e mau e esvai-se-lhes contemplativo e vago. . .
José Venâncio, o terror da Volta
Grande. deslumbra-se das dezoito mortes cometidas e do espantalho dos
processos à revelia, dobrando, contrito, o fronte para a terra.
Ladeia-o o afoito Pajeú, rosto de
bronze vincado de apófises duras, mal aprumado o arcabouço atlético. Estático,
mãos postas, volve, como as suçuaranas em noite de luar, olhar absorto para os
céus. Logo após o seu ajudante de ordens inseparável, Lalau, queda-se
igualmente humílimo, joelhos dobrados sobre o trabuco carregado. Chiquinho e
João da Mota, dois irmãos aos quais estava entregue o comando dos piquetes
vigilantes nas entradas de Cocorobó e Uauá, aparecem unidos, desfiando,
crédulos, as contas do mesmo rosário. Pedrão, cafuz entroncado e bruto, que
com trinta homens escolhidos guardava as vertentes da Canabrava, mal se
distingue, afastado, próximo de um digno êmulo de tropelias. Estêvão, negro
reforçado, disforme, corpo tatuado à bala e à faca, que lograra vingar
centenas de conflitos graças à disvulnerabilidade rara. Era o guarda do
Cambaio.
Joaquim Tranca-pés, outro espécimen de
guerrilheiro sanhudo, que velava no Angico, ombreia com o major Sariema, de
estatura mais elegante, lidador sem posição fixa, destemeroso mas irrequieto,
talhado para as arrancadas subitâneas e atrevidas. Antepõe-se-lhe, no aspecto,
o tragicômico Raimundo Boca-torta, do Itapicuru, espécie de funâmbulo
patibular, face contorcida em esgar ferino, como um traumatismo hediondo. O
ágil Chico Ema, a quem se confiara coluna volante de espias, surge junto a um
cabecilha de primeira linha, Norberto, predestinado à chefia suprema nos
últimos dias de Canudos.
Quinquim de Coiqui, um crente abnegado
que alcançaria a primeira vitória sobre a tropa legal; Antônio Fogueteiro, do
Pau Ferro, incansável aliciador de prosélitos; José Gamo; Fabrício de
Cocobocó...
A massa restante dos fiéis volve-lhes,
intermitentes, nos intervalos dos kyries inçados de silabadas incríveis,
olhares carinhosos, refertos de esperanças.
O velho Macambira, pouco afeiçoado à
luta, de "coração mole", segundo o dizer expressivo dos matutos, mas espírito
infernal no gizar tocaias incríveis; espécie de Imanus decrépito, mas perigoso
ainda, tomba de bruços no chão, tendo ao lado o filho, Joaquim, criança
arrojada e impávida, que figuraria em belo lance de heroísmo, mais tarde.
Alheio à credulidade geral , um
explorador solerte, Vila -Nova, finge que ora, remascando cifras. E na frente
de todos. O comandante da praça, o "chefe do povo", o astuto João Abade,
abrange no olhar dominador a turba genuflexa.
No meio destes perfis trágicos uma
figura ridícula, Antônio Beato, mulato espigado, magríssimo, adelgaçado pelos
jejuns, muito da privança do Conselheiro; meio sacristão, meio soldado,
misseiro de bacamarte, espiando, observando, indagando, insinuando-se
jeitosamente pelas casas, esquadrinhando todos os recantos do arraial, e
transmitindo a todo instante ao chefe supremo, que raro abandonava o
santuário, as novidades existentes. Completa-o, como um prolongamento, José
Félix, o Taramela, quinhoneiro da mesma predileção, guarda das igrejas,
chaveiro e mordomo do Conselheiro, tendo sob as ordens as beatas de vestidos
azuis cingidas de cordas de linho, encarregadas da roupa, da refeição exígua
daquele e de acenderem diariamente as fogueiras para as rezas.
E um tipo adorável, Manuel Quadrado,
olhando para tudo aquilo com indiferença nobilitadora. Era o curandeiro; o
médico. Na multidão suspeita a natureza tinha, afinal, um devoto. alheio à
desordem, vivendo num investigar perene pelas drogarias primitivas das
matas.
O "beija" das imagens
As rezas, em geral, prolongavam-se.
Percorridas todas as escalas das ladainhas, todas as contas dos rosários,
rimados todos os benditos, restava ainda a cerimônia final do culto, remate
obrigado daquelas.
Era o "beija" das imagens.
Instituíra-o o Conselheiro, completando
no ritual fetichista a transmutação do cristianismo incompreendido.
Antônio Beatinho, o altareiro, tomava
de um crucifixo, contemplava-o com o olhar diluído de um faquir em êxtase;
aconchegava-o do peito, prostrando-se profundamente; imprimia-lhe ósculo
prolongado; e entregava-o, com gesto amolentado, ao fiel mais próximo, que lhe
copiava, sem variantes, a mímica reverente. Depois erguia uma virgem santa,
reeditando os mesmos atos; depois o Bom Jesus. E lá vinham, sucessivamente,
todos os santos, e registros, e verônicas, e cruzes, vagarosamente, entregues
à multidão sequiosa, passando, um a um , por todas as mãos, por todas as bocas
e por todos os peitos. Ouviam-se os beijos chirriantes, inúmeros e, num
crescendo, extinguindo-lhes a assonância surda, o vozear indistinto das
prédicas balbuciadas à meia voz, dos mea-culpas ansiosamente socados nos
peitos arfantes e das primeiras exclamações abafadas, reprimidas ainda, para
que se não perturbasse a solenidade.
O misticismo de cada um, porém, ia-se a
pouco e pouco confundindo na nevrose coletiva. De espaço a espaço a agitação
crescia, como se o tumulto invadisse a assembléia, adstrito às fórmulas de
programa preestabelecido, à medida que passavam as sagradas relíquias. Por fim
as últimas saíam, entregues pelo Beato, quando as primeiras alcançavam as
derradeiras filas dos crentes. E cumulava-se a ebriez e o estonteamento
daquelas almas simples. Desbordavam as emoções isoladas, confundindo-se
repentinamente, avolumando-se, presas no contágio irreprimível da mesma febre;
e, como se as forças sobrenaturais, que o animismo ingênuo emprestava às
imagens, penetrassem afinal as consciências, desequilibrando-as em violentos
abalos, salteava à multidão um desvairamento irreprimível. Estrugiam
exclamações entre piedosas e coléricas; desatavam-se movimentos impulsivos, de
iluminados; estalavam gritos lancinantes, de desmaios. Apertando ao peito as
imagens babujadas de saliva, mulheres alucinadas tombavam escabujando nas
contorções violentas da histeria, crianças assustadiças desandavam em choros;
e, invadido pela mesma aura de loucura, o grupo varonil dos lutadores, dentre
o estrépito, e os tinidos, e o estardalhaço das armas entrebatidas, vibrava no
mesmo ictus assombroso, em que explodia, desapoderadamente, o misticismo
bárbaro...
Mas de repente o tumulto cessava.
Todos se quedavam ofegantes, olhares
presos no extremo da latada junto à porta do santuário, aberta e enquadrando a
figura singular de Antônio Conselheiro.
Este abeirava-se de uma mesa pequena. E
pregava...
Por que não pregar contra a República
?
Pregava contra a República; é
certo.
O antagonismo era inevitável. Era um
derivativo à exacerbação mística; uma variante forçada ao delírio
religioso.
Mas não traduzia o mais pálido intuito
político; o jagunço é tão inapto para apreender a forma republicana como a
monárquico-constitucional.
Ambas lhe são abstrações inacessíveis.
É espontaneamente adversário de ambas. Está na fase evolutiva em que só é
conceptível o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro.
Insistamos sobre esta verdade: a guerra
de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, inopinadamente,
ressurreta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade
morta, galvanizada por um doido. Não a conhecemos. Não podíamos conhecê-la. Os
aventureiros do século 17, porém, nela topariam relações antigas, da mesma
sorte que os iluminados da Idade Média se sentiriam à vontade, neste século,
entre os demonopatas de Varzenis ou entre os Stundistas da Rússia. Porque
essas psicoses epidêmicas despontam em todos os tempos e em todos os lugares
como anacronismos palmares, contrastes inevitáveis na evolução desigual dos
povos, patentes sobretudo quando um largo movimento civilizador lhes impele
vigorosamente as camadas superiores.
Os perfectionists exagerados rompem,
então, lógicos, dentre o industrialismo triunfante da América do Norte, e a
sombria Sturmisch, inexplicavelmente inspirada pelo gênio de Klopstock,
comparte o berço da renascença alemã...
Entre nós o fenômeno foi porventura
ainda mais explicável.
Vivendo quatrocentos anos no litoral
vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso,
como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados na
caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no
âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de
empréstimo; respigando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe
nos códigos orgânicos de outras nações, tornamos, revolucionariamente, fugindo
ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade,
mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes
patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque
não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos . . .
E quando pela nossa imprevidência
inegável deixamos que entre eles se formasse um núcleo de maníacos, não vimos
o traço superior do acontecimento. Abreviamos o espírito ao conceito estreito
de uma preocupação partidária. Tivemos um espanto comprometedor ante aquelas
aberrações monstruosas; e, com arrojo digno de melhores causas, batemo-los a
carga de baionetas. reeditando por nossa vez o passado, numa "entrada"
inglória, reabrindo nas paragens infelizes as trilhas apagadas das
bandeiras...
Vimos no agitador sertanejo, do qual a
revolta era um aspecto da própria rebeldia contra a ordem natural, adversário
sério, estrênuo paladino do extinto regímen, capaz de derruir as instituições
nascentes.
E Canudos era a Vendéia...
Entretanto, quando nos últimos dias do
arraial foi permitido o ingresso nos casebres estraçoados, salteou o animo dos
triunfadores decepção dolorosa. A vitória duramente alcançada dera-lhes
direito à devassa dos lares em ruínas. Nada se eximiu à curiosidade
insaciável.
Ora, no mais pobre dos saques que
registra a História, onde foram despojos opimos imagens mutiladas e rosários
de coco, o que mais acirrava a cobiça dos vitoriosos eram as cartas, quaisquer
escritos e, principalmente os desgraciosos versos encontrados. Pobres papéis,
em que a ortografia bárbara corria parelhas com os mais ingênuos absurdos e a
escrita irregular e feia parecia fotografar o pensamento torturado, eles
resumiam a psicologia da luta. Valiam tudo porque nada valiam. Registravam as
prédicas de Antônio Conselheiro; e, lendo-as, põe-se de manifesto quanto eram
elas afinal inócuas, refletindo o turvamento intelectual de um infeliz. Porque
o que nelas vibra em todas as linhas é a mesma religiosidade difusa e
incongruente, bem pouca significação política, permitindo emprestar-se às
tendências messiânicas expostas. O rebelado arremetia com a ordem constituída
porque se lhe afigurava iminente o reino de delícias prometido. Prenunciava-o
a República - pecado mortal de um povo -heresia suprema
indicadora do triunfo efêmero do anti-Cristo. Os rudes poetas, rimando-lhe os
desvairos em quadras incolores, sem a espontaneidade forte dos improvisos
sertanejos, deixaram bem vivos documentos nos versos disparatados, que
deletreamos pensando, como Renan, que há, rude e eloqüente, a segunda Bíblia
do gênero humano, nesse gaguejar do povo.
Copiemos ao acaso alguns:
"Sahiu D. Pedro segundo
"Para o reino de Lisboa
"Acabosse
a monarquia
"O Brasil ficou atôa !
A República era a impiedade:
"Garantidos pela lei
"Aquelles malvados estão
"Nós temos a
lei de Deus
"Elles tem a lei do cão !
"Bem desgraçados são
elles
"Pra fazerem a eleição
"Abatendo a lei de Deus
"Suspendendo a
lei do cão !
"Casamento vão fazendo
"Só para o povo iludir
"Vão
casar o povo todo
"No casamento civil!
O governo demoníaco,
porém, desaparecerá em breve:
"D. Sebastião já chegou
"E traz muito regimento
"Acabando
com o civil
"E fazendo o casamento !
"O Anti-Cristo
nasceu
"Para o Brasil governar
"Mas ahi está o Conselheiro
"Para
delle nos livrar!
" Visita nos vem fazer
"Nosso rei D.
Sebastião.
"Coitado daquelle pobre
"Que estiver na lei do
cão!
A lei do cão...
Este era o apotegma mais elevado da
seita. Resumia-lhe o programa. Dispensa todos os comentários.
Eram, realmente, fragílimos aqueles
pobres rebelados...
Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a
outra luta.
Entretanto enviamos-lhes o legislador
Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador - a
bala.
Mas antes tentou-se empresa mais nobre
e mais prática.
Uma missão abortada
Em 1895, em certa manhã de maio, no
alto de um contraforte da Favela, apareceu, ladeada de duas outras, figura
estranha àqueles lugares. Era um missionário capuchinho.
Considerou por instantes o arraial
imenso, embaixo. Desceu devagar a encosta.
Daniel vai penetrar na furna dos leões
..
Acompanhemo-lo.
Seguido de frei Caetano de S. Léu e do
vigário do Cumbe, frei João Evangelista de Monte-Marciano passa o rio e
abeira-se dos primeiros casebres. Alcança a praça desbordante de povo "perto
de mil homens armados de bacamartes, garrucha, facão etc."; e tem a impressão
de haver caído, de súbito, no meio de um acampamento de beduínos. Não se lhe
entibia, porém, o ânimo blindado pela fortaleza tranqüila dos apóstolos.
Passa, impassível, por diante da capela, em cuja porta se adensam mais
compactos agrupamentos. Envereda logo por um beco tortuoso. Atravessa-o,
seguido dos companheiros de apostolado. Enquanto às portas os moradores
surpreendidos saem a vê-los, "ar irrequieto e o olhar ao mesmo tempo indagador
e sinistro, denunciando consciências perturbadas e intenções hostis".
Chega por fim à casa do velho vigário
do Cumbe (que não se abria há mais de ano, porque a tanto remontava a sua
ausência, ressentido por desacato que sofrera) e mal se refaz da jornada
extenuadora. Comoviam-no o espetáculo dos infelizes que acabava de encontrar
armados até os dentes, e o quadro emocionante daquela Tebaida turbulenta.
Antolham-se-lhe novas impressões
desagradáveis.
A breve trecho passam-lhe à porta oito
defuntos levados sem sinal algum religioso para o cemitério ao fundo da igreja
velha: oito redes de caroá sob que arcavam carregadores ofegantes passando,
rápidos, ansiosos por alijá-las, como se na cidade sinistra o morto fosse um
desertor do martírio, indigno da atenção mais breve.
Entrementes, correra a nova da chegada,
sem que o Conselheiro se abalasse ao encontro dos emissários da Igreja.
Permanecera indiferente, assistindo aos trabalhos de reconstrução da capela.
Procuraram-no, então, os padres.
Deixam a casa. Tomam de novo pela viela
sinuosa. Entram na praça. Atravessam-na, sem que o menor brado hostil os
perturbe, e ao chegarem à sede dos trabalhos "os magotes de homens cerram
fileiras junto à porta da capela" abrindo-lhes extensa ala.
Do ajuntamento temeroso parte animadora
saudação de paz: "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristal" à qual era de praxe
a resposta:
"Para sempre seja louvado tão bom
Senhor!"
Entram no pequeno templo e acham-se
diante de Antônio Conselheiro, que os acolhe com boa sombra; e, com a
placabilidade habitual, dirige-lhes a mesma saudação pacífica.
Retrato do Conselheiro
"Vestia túnica de azulão, tinha a
cabeça descoberta e empunhava um bordão. Os cabelos crescidos sem nenhum
trato, a caírem sobre os ombros; as longas barbas grisalhas mais para brancas;
os olhos fundos raramente levantados para fitar alguém; o rosto comprido de
uma palidez quase cadavérica; o porte grave e ar penitente" impressionaram
grandemente os recém-vindos .
Reanima-os, contudo, recepção quase
cordial. De encontro ao que previam, o Conselheiro parece aprazer-se da
visita. Quebra a habitual reserva e o obstinado mutismo. Informa-os do
andamento dos trabalhos; convida-os a visitá-los; e presta-se de boa feição a
servir-lhes de guia pelos repartimentos do edifício. E lá seguem todos,
vagarosos, guiados pelo velho solitário que orçava nesse tempo dos sessenta
anos, e cujo corpo franzino, arcado sobre o bordão, avançava em andar
remorado, sacudido de instante a instante por súbitos acessos de tosse...
Não se podiam exigir melhores
preliminares à missão.
Aquele agasalho era meia vitória. Mas
coube ao missionário anulá-la, desajeitadamente. Ao atingirem o coro, como se
achassem um tanto afastados do grosso dos fiéis, que os seguiam a distância,
pareceu-lhe que a oportunidade era de moldo para interpelação decisiva.
Era uma precipitação, sobre inútil,
contraproducente. O insucesso sobreveio, inevitável.
. . . " aproveitei a ocasião de
estarmos quase a sós e disse-lhe que o fim a que eu ia era todo de paz e que
assim muito estranhava só enxergar ali homens armados e não podia deixar de
condenar que se reunissem em lugar tão pobre tantas famílias entregues à
ociosidade, num abandono e misérias tais que diariamente se davam de oito a
nove óbitos. Por isto, de ordem, e em nome do sr. arcebispo, ia abrir uma
santa missão e aconselhar o povo a dispersar-se e a voltar aos lares e ao
trabalho no interesse de cada um e para o bem geral."
Esta intransigência, este mal sopitado
assomo, partindo a finura diplomática nas arestas rígidas do dogma, não teria,
certo, o beneplácito de S. Gregório - o Grande - a quem não
escandalizaram os ritos bárbaros dos saxônios; e foi um desafio imprudente.
"Enquanto isto dizia, a capela e o coro
enchiam-se de gente e ainda não acabara eu de falar e já eles a uma voz
clamavam:
Nós queremos acompanhar o nosso
Conselheiro !''
Era a desordem iminente. Sobresteve-a,
porém, a placidez admirável, a mansuetude - por que não dizer cristã ?
- de Antônio Conselheiro. Que o próprio missionário fale:
"Este os fez calar, e voltando-se para
mim disse:
- É para minha guarda que tenho
comigo estes homens armados, porque V. V.Rev.ma há de saber que a polícia
atacou-me e quis matar-me no lugar chamado Maceté, onde houve mortes de um e
outro lado. No tempo da monarquia deixei-me prender, porque reconhecia o
governo, hoje não, porque não reconheço a República."
Esta explicação, de forma respeitosa e
clara, não satisfez o capuchinho, que tinha a coragem de um crente mas não o
tato finíssimo de um apóstolo. Contraveio, parafraseando a Prima-Petri:
"- Senhor, se é católico, deve
considerar que a Igreja condena as revoltas e, aceitando todas as formas de
governo. ensina que os poderes constituídos regem os povos em nome de
Deus."
Era quase, sem variantes, a própria
frase de S. Paulo, em pleno reinado de Nero...
E continuou:
"É assim em toda parte: a Franca, que é
uma das principais nações da Europa, foi monarquia por muitos séculos, mas há
mais de vinte anos é República; e todo o povo, sem exceção dos monarquistas de
lá, obedece às autoridades e às leis do governo."
Fr. Monte-Marciano, nesse remoer
nulíssimas considerações políticas, insciente da significação real da desordem
sertaneja, diz por si mesmo as causas do insucesso. Desdobrou, afinal,
inteira, a estatura anômala de propagandista, faltando apenas ter sob as
dobras do hábito a escopeta do cura de Santa Cruz:
"Nós, mesmo aqui no Brasil, a
principiar do bispo até o último católico, reconhecemos o governo atual;
somente vós não vós quereis sujeitar ?
É mau pensar esse, e uma doutrina
errada a vossa!'
A frase final vibrou como uma
apóstrofe. De dentro da multidão partiu pronta, a réplica arrogante:
"V.Rev.ma é que tem uma falsa doutrina
e não o nosso Conselheiro!"
Desta vez ainda o tumulto. prestes a
explodir, retraiu-se a um gesto lento do Conselheiro que. voltando-se para o
missionário, disse
" - Eu não desarmo a minha
gente, mas também não estorvo a santa missão."
Esta iniciava-se agora sob maus
auspícios. Apesar disto correu em paz até ao quarto dia, e concorridíssima:
cerca de cinco mil assistentes, entre os quais todos os homens válidos se
destacavam :
"... carregando bacamartes, garruchas,
espingardas, pistolas c facões, de cartucheiras à cinta e gorro à cabeça, na
atitude de quem vai à guerra."
Assistia-a também o Conselheiro, ao
lado do altar, atento e impassível como um fiscal severo, "deixando escapar
alguma vez gestos de desaprovação que os maiores da grei confimavam com
incisivos protestos."
Estes, contudo, ao que parece, não
tinham gravidade alguma. Apenas um ou outro exaltado, violando velho
privilégio, se permitia sulcar de apartes a oratória sagrada.
Assim que, praticando o pregador sobre
o jejum, como meio de mortificar a matéria e refrear as paixões, pela
sobriedade, sem entretanto exigir demoradas angústias, porque "podia-se jejuar
muitas vezes comendo carne ao jantar e tomando, pela manhã, uma chávena de
café", tolheu-lhe o sermão irreverente e irônica contradita:
- Ora ! isto não é jejum, é
comer a fartar !"
No quarto dia da missão, porém,
reincidindo o capuchinho no descabido tema político pioraram as coisas.
Começou intensa propaganda contra a pregação do padre maçon protestante e
republicano" "emissário do governo e que de inteligência com este ia abrir
caminho à tropa que viria de surpresa prender o Conselheiro e exterminar todos
eles."
Não se temeu aquele da rebelião
emergente. Afrontou-se com ela acirrando-a temerariamente. Escolheu como
assunto da prédica subsequente o homicídio, e, sem se furtar aos perigos da
arrojada tese, falando em corda na casa do enforcado espraiou se em alusões
imprudentes que temos por escusado registrar.
A reação foi imediata. Chefiava-a João
Abade, cujo apito vibrando e na praça, congregou todos os fiéis. O caso passou
em 20 de maio, sétimo da missão. Reunidos arrancaram dali em algazarra
estrepitante de vivas ao Bom Jesus e ao Divino Espírito Santo, na direção da
casa em que se acolhiam os visitantes, fazendo-lhes sentir que deles não
careciam para a salvação eterna.
Estava extinta a missão. Excetuando "55
casamentos de amancebados, 102 batizados e mais de 400 confissões" , o
resultado fora nulo, ou antes, negativo.
Maldição sobre a Jerusalém de taipa
O missionário "como outrora os
apóstolos às portas das cidades que os repeliam, sacudiu o pó das sandálias"
apelando para o veredictum tremendo da Justiça Divina...
E abalou, furtando-se a seguro pelos
becos, acompanhado dos dois sócios de reveses...
Galga a estrada coleante, entre os
declives da Favela.
Atinge o alto da montanha. Pára um
momento...
Considera pela última vez o povoado,
embaixo...
É invadido de súbita onda de tristeza.
Equipara-se " ao Divino Mestre diante de ,lerusalém."
Mas amaldiçoou...
A LUTA
Capítulo I
Preliminares
Quando se tornou urgente pacificar o
sertão de Canudos, o governo da Bahia estava a braços com outras insurreições.
A cidade de Lençóis fora investida por atrevida malta de facínoras, e as suas
incursões alastravam-se pelas Lavras Diamantinas; o povoado de Brito Mendes
caíra às mãos de outros turbulentos; e em Jequié se cometiam toda a sorte de
atentados.
Antecedentes
O mal era antigo.
O trato do território, que recortam as
cadeias de Sincorá até às margens do S. Francisco, era, havia muito, dilatado
teatro de tropelias às gentes indisciplinadas do sertão.
Opulentada de esplêndidas minas, aquela
paragem, malsina-a a própria opulência. Procuram-na há duzentos anos
irrequietos aventureiros ferrotoados pelo anelo de espantosas riquezas, e
eles, esquadrinhando afanosamente os flancos das suas serranias e as nascentes
dos rios, fizeram mais do que amaninhar a terra com a ruinaria das catas e o
indumento áspero das grupiaras: legaram à prole erradia e, de contágio, aos
rudes vaqueiros que os seguiram, a mesma vida desenvolta e inútil livremente
expandida na região fecunda, onde por muitos anos foram moeda corrente o ouro
em pó e o diamante bruto.
De sorte que, sem precisarem despertar
pela cultura as energias de um solo em que não se fixam e atravessam na faina
desnorteada de faiscadores, conservaram na ociosidade turbulenta a índole
aventureira dos avós, antigos fazedores de desertos. E como, a pouco e pouco,
se foram exaurindo os cascalhos e afundando os veeiros, o banditismo franco
impôs-se-lhes como derivativo à vida desmandada.
O jagunço, saqueador de cidades,
sucedeu ao garimpeiro, saqueador da terra. O mandão político substituiu o
capangueiro decaído.
A transição e antes de tudo um belo
caso de reação mesológica.
Caracterizemo-la, de relance.
Vimos como se formaram ali os mamalucos
bravos e diligentes, interpostos tão a propósito na quadra colonial, entre o
torvelinho das bandeiras e o curso das missões, como elemento conservador
formando o cerne da nossa nacionalidade nascente e criando uma situação de
equilíbrio entre o desvario das pesquisas mineiras e as utopias românticas do
apostolado. Ora, aqueles homens, depois de esboçarem talvez a única feição
útil da nossa atividade naqueles tempos, tiveram desde o começo do século 18,
quando se desvendaram as lavras do rio de Contas à Jacobina, perigosos agentes
que, se Ihes não derrancaram o caráter varonil, o nortearam a lamentáveis
destinos. De feito, transmudaram-se em contato com os sertanistas gananciosos.
Estes vinham, então, do oriente, espavorindo a ferro e fogo o selvagem e
fundando povoados que, ao revés dos já existentes, não tinham o gérmen de uma
fazenda de gado, mas as ruínas das malocas. Bateram rudemente a região,
estacionando largo tempo ante a barreira de serras que vão de Caetité para o
norte; e quando as minas esgotadas lhes demandaram aparelhos para a exploração
intensiva, tiveram, logo adiante, entre as matas que vão de Macaúbas e Açuruá,
novas paragens opulentas, atraindo-os para o âmago das terras.
Devassaram-nas até nova barreira, o rio
S. Francisco. Transpuseram-na. Na frente, indefinido, se lhes antolhou, cavado
nos chapadões, aquele maravilhoso vale da rio das Éguas, tão aurífero que o
ouvidor de Jacobina, em carta dirigida à rainha Maria II (1794) , afirmava
"que as suas minas eram a coisa mais rica de que nunca se descobriu nos
domínios de Sua Majestade".
Naquele ponto se abeiravam das lindes
de Goiás.
Não deram mais um passo além.
Ultimara-se uma empresa deplorável. Pelos campos de criação avermelhavam,
nodoando-os, os montões de argila revolvida das catas entorroadas; e da
envergadura atlética do vaqueiro surgira, destemeroso, o jagunço. A nossa
historia, tão malsinada de indisciplinados heróis, adquiria um de seus mais
sombrios atores. Fez-se a metamorfose da situação anterior: de par com a
sociedade robusta e tranqüila dos campeiros, uma outra caracterizando-se pelo
nomadismo desenvolto, pela combatividade irrequieta, e por uma ociosidade
singular sulcada de tropelias.
Imaginemos que dentro do arcabouço
titânico do vaqueiro estale, de súbito, a vibratilidade incomparável do
bandeirante. Teremos o jagunço.
É um produto histórico expressivo.
Nascendo de cruzamento tardio entre colaterais, que o meio físico já
diversificara, resume os atributos essenciais de uns e outros - na
atividade bifronte que oscila, hoje, das vaquejadas trabalhosas às incursões
dos quadrilheiros. E a terra, aquela incomparável terra que mesmo quando
abrangida pelas secas, desnuda e empobrecida, ainda lhe sustenta os rebanhos
nas baixadas salinas dos barreiros, ampara-o de idêntico modo ante as
exigências da vida combatente: dá-lhe grátis em toda a parte o salitre para a
composição da pólvora, enquanto as balas, luxuosos projéteis feitos de chumbo
e prata, lá estão, incontáveis, na galena argentífera do Açuruá...
É natural que desde o começo do século
passado a história dramática dos povoados do S. Francisco começasse a refletir
uma situação anômala . E embora em todas as narrativas emocionantes, que a
formam, se destaquem rivalidades partidárias e desmandos impunes de uma
política intolerável de potentados locais, todas as desordens, surgindo sempre
precisamente nos lugares em que se ostentou, outrora, mais ativa a ânsia
mineradora, denunciam a gênese remota que esboçamos.
Exemplifiquemos. Todo o vale do rio das
Éguas e, para o norte, o do rio Preto, formam a pátria original dos homens
mais bravos e mais inúteis da nossa terra . Dali abalam para as algaras
aventurosas alugando a bravura aos potentados, e têm sempre, culminando-lhas,
o incêndio e o saque de vilas e cidades, em todo o vale do grande rio.
Avançando contra a corrente já chegaram, em 1879, à cidade mineira de
Januária, que conquistaram, tornando a Carinhanha, de onde haviam partido,
carregados de despojos. Desta vila para o norte a história das depredações
avulta cada vez maior, até Xique-Xique, lendária nas campanhas eleitorais do
Império.
Não há traçá-la em meia dúzia de
páginas. O mais obscuro daqueles arraiais tem a sua tradição especial e
sinistra.
Um único, talvez, se destaca sob outro
aspecto, o de Bom Jesus da Lapa. É a Meca dos sertanejos. A sua conformação
original, ostentando-se na serra de grimpas altaneiras, que ressoam como
sinos; abrindo-se na gruta de âmbito caprichoso, semelhando a nave de uma
igreja, escassamente aclarada; tendo pendidos dos tetos grandes candelabros de
estalactites; prolongando-se em corredores cheios de velhos ossuários
diluvianos; e a lenda emocionante do monge que ali viveu em companhia de uma
onça - tornaram-no objetivo predileto de romarias piedosas,
convergentes dos mais longínquos lugares, de Sergipe, Piauí e Goiás.
Ora, entre as dádivas que jazem em
considerável cópia no chão e às paredes do estranho templo, o visitante
observa , de par com as imagens e as relíquias, um traço sombrio de
religiosidade singular: facas e espingardas.
O clavinoteiro ali entra, contrito,
descoberto. Traz à mão o chapéu de couro, c a arma à bandoleira. Tomba
genuflexo, a fronte abatida sobre o chão úmido do calcário, transudante... E
reza. Sonda longo tempo, batendo no peito, as velhas culpas. Ao cabo cumpre
devotamente a promessa que fizera para que lhe fosse favorável o último
conflito que travara: entrega ao Bom Jesus o trabuco famoso, tendo na coronha
alguns talhos de canivete lembrando o número de mortes cometidas. Sai
desapertado de remorsos , feliz pelo tributo que rendeu. Amatula-se de novo à
quadrilha. Reata a vida temerosa.
Pilão Arcado, outrora florescente e
hoje deserta, na derradeira fase de uma decadência que começou em 1856;
Xique-Xique, onde durante decênios se digladiaram liberais e conservadores;
Macaúbas, Monte Alegre e outras, e todas as fazendas de seus termos, delatam,
nas vivendas derruídas ou esburacadas à bala, esse velho regímen de
desmandos.
São lugares em que se normalizou a
desordem esteada no banditismo disciplinado.
O conceito é paradoxal, mas exato.
Porque há, de fato, uma ordem notável
entre os jagunços. Vaidosos de seu papel de bravos condutícios e batendo-se
lealmente pelo mandão que os chefia, restringem as desordens às minúsculas
batalhas em que entram, militarmente, arregimentados.
O saque das povoações que conquistam,
têm-no como direito de guerra, e neste ponto os absolve a História
inteira.
Fora disto, são raros os casos de
roubos, que consideram desaire e indigno labéu. O mais frágil "positivo" pode
atravessar, inerme e indene, procurando o litoral, aquelas matas e campos, com
os "piquás" atestados de diamantes e pepitas. Não lhe faltará um só termo da
viagem. O forasteiro, alheio às lotas partidárias, atravessa-os igualmente
imune.
Não raro um mascate, seguindo por ali,
com seus cargueiros rengueando ao peso das caixas preciosas, estaca -
tremendo - ao ver aparecer inesperadamente um grupo de jagunços,
acampado na volta do caminho...
Mas perde em momentos o modo. O
clavinoteiro - chefe aproxima-se. Saúda-o com boa sombra; dirige-lhe a
palavra risonha; e mete-lhe à bulha o terror, galhofeiro. Depois lhe exige um
tributo - um cigarro. Acende-o numa pancada única do isqueiro; e
deixa-o passar, levando, intactas, a vida e a fortuna.
São numerosos os casos deste teor
revelando notável nobreza entre aqueles valentes desgarrados.
Cerca de dez ou oito léguas de
Xique-Xique demora a sua capital, o arraial de Santo Inácio, ereto entre
montanhas e inacessível até hoje a todas as diligências policiais.
Estas, de ordinário, conseguem
pacificar os lugares conflagrados, tornando-se interventoras neutras ante as
facções combatentes. E: uma ação diplomática entre potências. A justiça armada
parlamenta com os criminosos; balanceia as condições de um e outro partido;
discute; evita os ultimatos; e acaba ratificando verdadeiros tratados de paz,
sancionando a soberania da capangagem impune.
Assim os estigmas hereditários da
população mestiça se têm fortalecido na própria transigência das leis.
Não surpreende que hajam crescido,
avassalando todo o vale do S. Francisco, e desbordando para o norte.
Porque o cangaceiro da Paraíba e
Pernambuco é um produto idêntico , com diverso nome Distingue-o do jagunço
talvez a nulíssima variante da arma predileta: a parnaíba, de lamina rígida e
longa, suplanta a fama tradicional do clavinote de boca-de-sino. As duas
sociedades irmãs tiveram, entretanto, longo afastamento que as isolou uma da
outra. Os cangaceiros nas incursões para o sul, e os jagunços nas incursões
para o norte, defrontavam-se, sem se unirem, separados pelo valado em declive
de Paulo Afonso.
A insurreição da comarca de Monte Santo
ia ligá-las.
A campanha de Canudos despontou da
convergência espontânea de todas estas forças desvairadas, perdidas nos
sertões.
Capítulo II
Causas próximas da luta
Determinou-a incidente desvalioso.
Antônio Conselheiro adquirira em
Juazeiro certa quantidade de madeiras, que não podiam fornecer-lhe as
caatingas paupérrimas de Canudos. Contratara o negócio com um dos
representantes da autoridade daquela cidade. Mas ao terminar o prazo ajustado
para o recebimento do material, que se aplicaria no remate da igreja nova, não
lho entregaram. Tudo denuncia que o distrato foi adrede feito, visando o
rompimento anelado.
O principal representante da justiça do
Juazeiro tinha velha dívida a saldar com o agitador sertanejo, desde a época
em que, sendo juiz do Bom Conselho, fora coagido a abandonar precipitadamente
a comarca, assaltada pelos adeptos daquele.
Aproveitou, por isto, a situação, que
surgia a talho para a desafronta. Sabia que o adversário revidaria à
provocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com
a ameaça de uma investida sobre a bela povoação do S. Francisco: as madeiras
seriam de lá arrebatadas, à força.
O caso passou em dias de outubro de
1896.
Historiemos, adstritos a documentos
oficiais:
"Era esta a situação quando recebi do
dr. Arlindo Leôni, juiz de direito de Juazeiro, um telegrama urgente
comunicando-me correrem boatos mais ou menos fundados de que aquela
florescente cidade seria por aqueles dias assaltada por gente de Antônio
Conselheiro, pelo que solicitava providências para garantir a população e
evitar o êxodo que da parte desta já se ia iniciando. Respondi-lhe que o
governo não podia move. força por simples boatos e recomendei, entretanto, que
mandasse vigiar as estradas em distancia e, verificado o movimento dos
bandidos, avisasse por telegrama, pois o governo ficava prevenido para enviar
incontinente, em trem expresso, a força necessária para rechaçá-los e garantir
a cidade.
Desfalcada a força policial aquartelada
nesta capital, em virtude das diligências a que anteriormente me referi,
requisitei do sr. general comandante do distrito cem praças de linha, a fim de
seguirem para Juazeiro, apenas me chegasse aviso do juiz de direito daquela
comarca. Poucos dias depois recebi daquele magistrado um telegrama em que me
afirmava estarem os sequazes de Antônio Conselheiro distantes de Juazeiro
pouco mais ou menos dois dias de viagem. Dei conhecimento do fato ao sr.
general que, satisfazendo a minha requisição, fez seguir, em trem expresso e
sob o comando do tenente Pires Ferreira, a força preparada, a qual devia ali
proceder de acordo com o juiz de direito.
Esse distinto oficial, chegando ao
Juazeiro, combinou com aquela autoridade seguir ao encontro dos bandidos, a
fim de evitar que eles invadissem a cidade."
Não se podem imaginar móveis mais
insignificantes para sucessos tão graves. O trecho acima extratado,
entretanto, diz de modo claro que, desdenhando os antecedentes da questão, o
governo da Bahia não lhe deu a importância merecida.
Antônio Conselheiro há vinte e dois
anos, desde 1874, era famoso em todo o interior do Norte e mesmo nas cidades
do litoral até onde chegavam, entretecidos de exageros e quase lendários, os
episódios mais interessantes de sua vida romanesca; dia a dia ampliara o
domínio sobre as gentes sertanejas; vinha de uma peregrinação incomparável, de
um quarto de século, por todos os recantos do sertão, onde deixara como
enormes marcos, demarcando-lhe a passagem, as torres de dezenas de igrejas que
construíra; fundara o arraial de Bom Jesus, quase uma cidade; de Chorrochó à
Vila do Conde, de Itapicuru a Jeremoabo, não havia uma só vila, ou lugarejo
obscuro, em que não contasse adeptos fervorosos, e não lhe devesse a
reconstrução de um cemitério, a posse de um templo ou a dádiva providencial de
um açude; insurgira-se desde muito, atrevidamente, contra a nova ordem
política e pisara, impune, sobre as cinzas dos editais das câmaras de cidades
que invadira; destroçara completamente, em 1893, forte diligencia policial, em
Macete, e fizera voltar outra, de oitenta praças de linha, que seguira até
Serrinha; em 1894, fora, nu Congresso Estadual da Bahia, assunto de calorosa
discussão na qual, impugnando a proposta de um deputado, chamando a atenção
dos poderes públicos para a "parte dos sertões perturbada pelo indivíduo
Antônio Conselheiro", outros eleitos do povo, e entre eles um sacerdote,
apresentaram-no como benemérito do qual os conselhos se modelavam pela
ortodoxia a cristã mais rígida; fizera voltar, abortícia, em 1895, a missão
apostólica planeada pelo arcebispo baiano, e no relatório alarmante a
propósito escrito por frei João Evangelista afirmara o missionário a
existência, em Canudos - excluídas as mulheres, as crianças, os velhos
e os enfermos - de mil homens, mil homens robustos e destemerosos
"armados até aos dentes"; por fim, sabia-se que ele imperava sobre extensa
zona dificultando o acesso à cidadela em que se entocara, porque a dedicação
dos seus sequazes era incondicional, e fora do círculo dos fiéis que o
rodeavam havia, em toda a parte, a cumplicidade obrigatória dos que o
temiam... E achou-se suficiente para debelar uma situação de tal porte uma
força de cem soldados.
Relata o general Frederico Solon,
comandante do 3.° Distrito Militar:
"A 4 de novembro do ano findo (1896) em
obediência à ordem já referida, prontamente satisfiz a requisição,
pessoalmente feita pelo dr. governador do Estado, de uma força de cem praças
da guarnição para ir bater os fanáticos do arraial de Canudos, asseverando-me
que, para tal fim, era aquele número mais que suficiente.
Confiando no inteiro conhecimento, que
ele devia ter, de tudo quanto se passava no interior de seu Estado, não
hesitei; fazendo-lhe apresentar. sem demora, o bravo tenente Manuel da Silva
Pires Ferreira, do 9.° Batalhão de Infantaria, a fim de receber as suas ordens
e instruções, o qual, para cumpri-las, seguiu, a 7 do dito mês, para Juazeiro,
ponto terminal da estrada de ferro, na margem direita do rio S. Francisco,
comandando três oficiais e 104 praças de pré daquele Corpo, conduzindo apenas
uma pequena ambulância, fazendo eu seguir logo depois um médico com mais
alguns recursos para o exercício de sua profissão. O mais correu pelo
Estado."
Aquele punhado de soldados foi recebido
com surpresa em Juazeiro, onde chegou a 7 de novembro, pela manhã.
Não obstou a fuga de grande parte da
população, subtraindo-se ao assalto iminente. Aumentou-a. Conhecendo a
situação, os habitantes viram, de pronto, que um contingente tão diminuto
tinha o valor negativo de exercer maior atração sobre a horda invasora.
Previram a derrota inevitável. E
enquanto os partidários encobertos do Conselheiro, que os havia em toda a
roda, se rejubilavam, prefigurando-a, alguns homens sinceros pediram ao
comandante expedicionário para não seguir avante.
As dificuldades encontradas na
aquisição de elementos essenciais à marcha ali retiveram a força até ao dia 12
em que partiu, ao anoitecer, quando, certo, já chegara a Canudos a nova da
investida . Partiu sem os recursos indispensáveis a uma travessia de duzentos
quilômetros, em terreno agro e despovoado, orientada por dois guias
contratados em Juazeiro.
De sorte que logo em princípio o
comandante reconheceu inexeqüível dar à marcha uma norma capaz de poupar as
forças das praças. No sertão, mesmo antes do pleno estio, é impossível o
caminhar de homens equipados, ajoujados de mochilas e cantis, depois das dez
horas da manhã. Pelos tabuleiros o dia desdobra-se abrasador, sem sombras; a
terra nua reverbera os ardores da canícula, multiplicando-os; e sob o influxo
exaustivo de uma temperatura altíssima aceleram-se de modo pasmoso as funções
vitais, determinando assaltos súbitos de cansaço. Por outro lado raro é
possível o itinerário disposto de maneira a aproveitarem-se as horas da
madrugada ou da noite. É forçoso avançar a despeito das soalheiras fortes até
às cacimbas dos pousos dos vaqueiros.
Além disto, aqueles lugares estão, como
vimos, entre os mais desconhecidos da nossa terra. Poucos se têm afrontado com
o aspérrimo vale do Vaza-Barris que, das vertentes orientais da Itiúba até
Jeremoabo, se prolonga inóspito, desfreqüentado , tendo, de léguas em léguas,
esparsas, insignificantes vivendas. É o trecho da Bahia mais assolado pelas
secas.
Por um contraste explicável entre as
disposições orográficas, rodeiam-no, contudo, paragens exuberantes: ao norte o
belo sertão de Curaçá e as várzeas feracíssimas estendidas para leste até
Santo Antônio da Glória, perlongando a margem direita do S. Francisco; a oeste
as terras fecundas centralizadas em Vila Nova da Rainha. Emolduram, porém, o
deserto. O Vaza-Barris, quase sempre seco, atravessa-o, feito um oued tortuoso
e longo.
Piores que os "gerais, onde ficam
vários ", as vezes mais atilados pombeiros , sem rumo, desnorteados pela
uniformidade dos plainos indefinidos, as paisagens sucedem-se, uniformes e
mais melancólicas mostrando os mais selvagens modelos, engravecidos por uma
flora aterradora.
A própria caatinga assume um aspecto
novo. E uma melhor caracterização da flora sertaneja, segundo os vários
cambiantes que apresenta acarretando denominações diversas, talvez a definisse
mais acertadamente como a paragem clássica das catanduvas, progredindo,
extensa, para o levante e para o sul até às cercanias de Monte Santo .
A pequena expedição penetrou-a logo ao
segundo dia de viagem, quando, depois de repousar bivacando duas léguas além
de Juazeiro, teve que calcar, seguidamente, quarenta quilômetros de estrada
deserta, até uma ipueira minúscula, a lagoa do Boi, onde havia uns restos de
água. Dali por diante caminhou no deserto com escalas por Caraibinhas, Mari,
Mucambo, Rancharia e outros pousos solitários, ou fazendas. Alguns estavam
abandonados. O estio prenunciava a seca.
Os raros moradores, ou por evitá-la, ou
aterrados pelas novas alarmantes, haviam abalado para o norte tangendo por
diante os rebanhos de cabras, únicos animais afeitos àquele clima e àquele
solo.
Uauá
A tropa chegou exausta a Uauá no dia
19, depois de uma travessia penosíssima.
Este arraial - duas ruas
desembocando numa praça irregular - é o ponto mais animado daquele
trecho do sertão. Como a maior parte dos vilarejos pomposamente gravados nos
nossos mapas, é uma espécie de transição entre maloca e aldeia -
agrupamento desgracioso de cerca de cem casas mal feitas e tijupares pobres,
de aspecto deprimido e tristonho.
Alcançam-no quatro estradas que, a
partir de Jeremoabo passando em Canudos, de Monte Santo, de Juazeiro e
Patamuté, conduzem para a sua feira, aos sábados, grande número de tabaréus
sem recursos para viagens longas a lugares mais prósperos. Ali chegam por
ocasião das festas como se procurassem opulenta capital das "terras grandes";
entrajados das melhores vestes, ou encourados de novo; pasmos ante os
mostradores de duas ou três casas de negócio, e contemplando no barracão da
feira, no largo, os produtos de uma indústria pobre em que aparecem, como
valiosos espécimens, courinhos curtidos e redes de caroá. Nos demais dias,
aberta uma ou outra venda, deserta a praça, Uauá figura-se um local
abandonado. E foi num destes que a população recolhida, aguardando a passagem
das horas mais ardentes, despertou surpreendida por uma vibração de
cornetas.
Era a tropa.
Entrou pela rua em continuação à
entrada e fez alto no largo. Foi um sucesso. Entre curiosos e tímidos, os
habitantes atentavam para os soldados - poentos, mal firmes na
formatura, tendo aos ombros as espingardas cujas baionetas fulguravam -
como se vissem exército brilhante.
Ensarilhadas as armas, a força
acantonou.
Fez-se em torno um círculo de
vigilância: postaram-se sentinelas à saídas dos quatro caminhos e nomeou-se o
pessoal das rondas.
Feito praça de guerra, o vilarejo
obscuro era, entretanto; uma escala transitória. A expedição, depois de breve
descanso, devia abalar imediatamente para Canudos, ao alvorecer do dia
subseqüente, 20. Não o fez. Ali, como em toda a parte, variavam, díspares, as
informações, impedindo ajuizar-se sobre as coisas.
De sorte que todo aquele dia foi
despendido inutilmente, em indagações, sendo resolvido o acometimento para o
imediato, depois de demora prejudicialíssima. E ao cair da noite operou-se um
incidente só explicado na manhã seguinte: a população, quase na totalidade,
fugira. Deixara as vivendas, sem ser percebida em pequenos grupos deslizando,
furtivos, entre os claros das guardas avançadas. No repentino êxodo lá se
foram os próprios doentes, famílias inteiras, ao acaso, pela noite dentro,
dispartindo espavoridos, descampados em fora.
Ora, este fato era um aviso. Uauá, como
os demais lugares convizinhos estava sob o domínio de Canudos. Habitavam-no
dedicados adeptos de Antônio Conselheiro; de sorte que, mal a força fizera
alto no largo, haviam-se aqueles precipitado para o arraial ameaçado, onde
chegaram no amanhecer de 20, levando o alarma...
Aquela fuga de uma população em massa
delatava que os emissários haviam tido tempo de voltar prevenindo os moradores
do contra-ataque, resolvido pelos homens de Canudos. Ficaria, assim, o campo
livre aos lutadores.
Os expedicionários não ligaram, porém,
grande importância ao caso. Aprestaram-se para continuar a marcha na manhã
seguinte; e inscientes da gravidade das coisas repousaram tranqüilamente,
acantonados.
Primeiro combate
Despertou-os o adversário, que
imaginavam ir surpreender.
Na madrugada de 21 desenhou-se no
extremo da várzea o agrupamento dos jagunços...
Um coro longínquo esbatia-se na mudez
da terra ainda adormida, reboando longamente nos ermos desolados. A multidão
guerreira avançava para Uauá, derivando à toada vagarosa dos kyries, rezando.
Parecia uma procissão de penitência, dessas a que há muito se afeiçoaram os
matutos crendeiros para abrandarem os céus quando os estios longos geram os
flagícios das secas.
O caso é original e verídico. Evitando
as vantagens de uma arrancada noturna, os sertanejos chegavam com o dia e
anunciavam-se de longe. Despertavam os adversários para a luta.
Mas não tinham, ao primeiro lance de
vistas, aparências guerreiras. Guiavam-nos símbolos de paz: a bandeira do
Divino e, ladeando-a, nos braços fortes de um crente possante, grande cruz de
madeira, alta como um cruzeiro. Os combatentes armados de velhas espingardas,
de chuços de vaqueiros, de foices e varapaus, perdiam-se no grosso dos fiéis
que alteavam, inermes, vultos e imagens dos santos prediletos, e palmas
ressequidas retiradas dos altares. Alguns, como nas romarias piedosas, tinham
à cabeça as pedras dos caminhos e desfiavam rosários de coco. Equiparavam aos
flagelos naturais, que ali descem periódicos, a vinda dos soldados. Seguiam
para a batalha rezando, cantando - como se procurassem decisiva prova
às suas almas religiosas.
Eram muitos. Três mil. disseram depois
informantes exagerados, triplicando talvez o número. Mas avançavam sem ordem.
Um pelotão escasso de infantaria que os aguardasse, distribuído pelas
caatingas envolventes, dispersá-los-ia em alguns minutos.
O arraial na frente, porém, não
revelava lutadores a postos. Dormia.
A multidão aproximou-se, tudo o indica,
até beirar a linha de sentinelas avançadas. E despertou-as. Os vedetas
estremunhando, surpresos, dispararam, à toa, as carabinas e refluíram
precipitadamente para a praça que ficava à retaguarda, deixando em poder dos
agressores um companheiro, espostejado a faca. Foi, então, o alarma: correndo
estonteadamente pelo largo e pelas ruas; saindo, seminus, pelas portas;
saltando pelas janelas; vestindo-se e armando-se às carreiras e às
encontroadas... Não formaram. Mal se distendeu às pressas, dirigida por um
sargento, incorreta linha de atiradores. Porque os jagunços lá chegaram logo,
de envolta com os fugitivos. E o recontro empenhou-se brutalmente, braço a
braço, adversários enleados entre disparos de garruchas e revólveres, pancadas
de cacetes e coronhas, embates de facões e sabres - adiante, sobre a
frágil linha de defesa. Esta cedeu logo. E a turba fanatizada, entre vivas ao
Bom Jesus e ao Conselheiro, e silvos estridentes de apitos de taquara,
desdobrada, ondulante, a bandeira do Divino, erguidos para os ares os santos e
as armas, seguindo empós o curiboca audaz que levava meio inclinada em aríete
a grande cruz de madeira - atravessou o largo arrebatadamente...
Este movimento foi instantâneo e foi,
afinal, a única manobra percebida pelos que testemunhavam a ação. Dali por
diante não a descrevem os próprios protagonistas. Foi uma desordem de feira
turbulenta.
Na maioria, as praças, protegidas pelas
casas, e abrindo-lhes as paredes em seteiras, volveram à defensiva franca.
Foi a salvação. Os matutos conjuntos à
roda dos símbolos sacrossantos, no largo, começaram de ser fuzilados em massa.
Baquearam em grande número; e tornou-se-lhes a luta desigual a despeito da
vantagem numérica. Batidos pelas armas de repetição, opunham um disparo de
clavinote a cem tiros de Comblain. Enquanto o soldado os alvejava em descargas
nutridas, os jagunços revolviam os aiós, tirando sucessivamente a pólvora, a
bucha e as balas do demorado processo da carga de seu armamento grosseiro;
enfiando depois pelo cano largo do trabuco a vareta; cevando-o devagar,
socando lá dentro aqueles ingredientes como se enchessem uma mina;
escorvando-o depois; aperrando-o afinal, e ao cabo disparando-o; realizando o
heroísmo de uma imobilidade de dois minutos na estonteadora ebriez do
tiroteio...
Renunciaram, por isto, transcorrido
algum tempo, à operação inexeqüível. Caíram sobre os contrários, de facão
desembainhado e ferrão em riste, vibrando as foices reluzentes.
Mas foi-lhes ainda nefasta esta
arremetida doida. Rareavam-se-lhes as fileiras sem vantagem contra adversários
abrigados, ou aparecendo de golpe nas janelas, que se abriam em explosões de
descargas. Numa delas, um alferes, serodiamente espertado, bateu-se longo
tempo, quase desnudo, abocando, sobre o peitoril, a carabina ao peito dos
assaltantes, sem errar um tiro; até cair morto, sobre o leito em que dormira e
não tivera tempo de deixar.
O conflito continuou, deste modo,
ferozmente, cerca de quatro horas, sem episódios dignos de nota e sem
vislumbrar um único movimento tático; batendo-se cada um por conta própria,
consoante as circunstâncias. No quintal da casa em que se aboletara, o
comandante se ateve à missão única compatível com a desordem: distribuía,
jogando-os por sobre a cerca, cartuchos, sofregamente retirados, às mancheias,
dos cunhetes abertos a machado.
Reunidos sempre em volta da bandeira do
Divino, estraçoada de balas e vermelha como um pendão de guerra, os jagunços
enfiavam pelas ruas. Contorneavam o arraial. Volviam ao largo, vozeando
imprecações e vivas, em ronda desnorteada e célere. E foram, lentamente,
nesses giros revoltos, abandonando a ação e dispersando-se pelas cercanias.
Reconheciam a inutilidade dos esfoços feitos, ou imaginavam atrair os
antagonistas para o plaino desafogado da várzea.
Como quer que fosse, abandonaram, a
pouco e pouco, o campo. Em breve, ao longe, desapareceu, listrando uma ponta
das caatingas, a bandeira sagrada que reconduziam a Canudos.
Os soldados não os encalçaram. Estavam
exaustos.
Uauá patenteava quadro lastimoso.
Lavraram incêndios em vários pontos. Sobre os soalhos e balcões ensagüentados,
à soleira das portas, pelas ruas e na praça, onde dardejava o sol,
contorciam-se os feridos e estendiam-se os mortos.
Entre estes, dezenas de sertanejos
- 150 - diz a parte oficial do combate, número desconforme ante
as dez mortes - um alferes, um sargento, seis praças e os dois guias
- e dezesseis feridos da expedição. Apesar disto, o comandante, com
setenta homens válidos, renunciou prosseguir na empresa. Assombrara-o o
assalto. Vira de perto o arrojo dos matutos. Apavorara-o a própria vitória, se
tal nome cabe ao sucedido, pois as suas conseqüências o desanimavam. O médico
da força enlouquecera... Desvairara-o o aspecto da peleja. Quedava-se, inútil,
ante os feridos, alguns graves.
A retirada impunha-se, por tudo isto,
urgente, antes da noite, ou de um outro recontro, idéia que fazia tremer
aqueles triunfadores. Resolveram-na logo. Mal inumados na capela de Uauá os
companheiros mortos, largaram dali sob um sul ardentíssimo.
Foi como uma fuga.
A travessia para Juazeiro fez-se a
marchas, em quatro dias. E quando lá chegou o bando dos expedicionários,
fardas em trapos, feridos, estropiados, combalidos, davam a imagem da derrota.
Parecia que lhes vinham em cima, nos rastros, os jagunços. A população
alarmou-se, reatando o êxodo. Ficaram de fogos acesos na estação da via-férrea
todas as locomotivas. Arregimentaram-se todos os habitantes válidos, dispostos
ao combate. E as linhas do telégrafo transmitiram ao país inteiro o prelúdio
da guerra sertaneja...
Capítulo III
Preparativos da reação
O revés de Uauá requeria reação
segura.
Esta, porém, preparou-se sob
extemporânea disparidade de vistas entre o chefe da força federal da Bahia e o
governador do Estado. Ao otimismo deste, resumindo a agitação sertaneja a
desordem vulgar acessível às diligencias policiais, contrapunha-se aquele,
considerando-a mais séria, capaz de determinar verdadeiras operações de
guerra.
De tal modo, a segunda expedição
organizou-se sem um plano firme, sem responsabilidades definidas, através de
explicações recíprocas entre as duas autoridades independentes e iguais.
Compôs-se a princípio de 100 praças e 8 oficiais de linha, e 100 praças e 3
oficiais da força estadual.
Assim constituída, seguiu, a 25 de
novembro, para Queimadas, sob o comando de um major do 9.° Batalhão de
Infantaria, Febrônio de Brito.
Simultaneamente o comandante do
Distrito apelava para o governo federal requisitando, para a aparelhar melhor,
4 metralhadoras Nordenfeldt, 2 canhões Krupp, de campanha, e mais 250
soldados: 100 do 26.° Batalhão, de Aracaju, e 150 do 33.º, de Alagoas.
Todo este aparato era justificável.
Sucediam-se informações alarmantes, dando, dia a dia, realce à gravidade das
coisas. À parte os exageros que houvessem, delas se colhia a grandeza do
número de rebeldes e os sérios empecilhos inerentes à região selvagem em que
se acoitavam.
Estas novas, porém, baralhavam-nas sem
número de versões contraditórias agravadas pelos interesses inconfessáveis de
uma falsa política sobre a qual nos dispensamos de discorrer.
Nem os apontaremos, embora largo tempo
se perdesse, inútil, nesse agitar estéril de minudências desvaliosas -
enquanto as linhas telegráficas vibravam da orla dos sertões para o Brasil
inteiro, e permanecia, expectante, em Queimadas, o chefe da nova expedição, à
frente de 243 praças de pré.
Baldo de recursos e a braços com toda
espécie de dificuldades; oscilando no desencontro das informações; ora em
desalentos, afigurando-se-lhe insuperável a empresa; ora cheio de inesperadas
esperanças no alcançar o fim que se propunha, dali abalou somente em dezembro,
para Monte Santo, ao tempo que lhe era mandado da Bahia novo reforço de cem
praças.
Esta avançada já ia adstrita a um plano
de campanha.
O comandante do Distrito compreendera a
situação. Planeara atacar a revolta por dois pontos, fazendo avançar para um
objetivo único não uma, mas duas colunas, sob a direção geral do coronel do
9.° de Infantaria Pedro Nunes Tamarindo. Era um plano compatível com as
circunstâncias da luta: estabelecer antes de tudo um cerco à distancia; bater
os insurretos parceladamente e apertá-los em movimentos envolventes de forças
pouco numerosas e adestradas.
Realmente, libertas, estas, da
morosidade própria às grandes massas, ajustar-se-iam melhor às escabrosidades
do terreno, e do mesmo passo enfraqueceriam todas as causas de insucesso. Por
outro lado, por mais original que seja o método combatente dos matutos
- guerrilheiros impalpáveis dentro da tática estonteadora da fuga!
- rola todo neste círculo único. Não se desenvolve num plano qualquer,
permitindo dar aos grupos dispersos o centro unificador de um objetivo
prefixado. Atacá-los, atraindo-os para diferentes pontos, é vencê-los.
Foi o que perceberam, desde muito, os
nossos patrícios de há cem anos. Práticos nas vicissitudes das lutas
sertanejas tinham organização militar correlativa - visando a formação
sistemática de "tropas irregulares", que, sem o embaraço das unidades táticas
inalteráveis, e sem formaturas, agissem folgadamente no trançado das matas e
sobre as asperezas do solo, auxiliando, reforçando e esclarecendo a ação das
tropas regulares.
Daí as façanhas que crivam a nossa
história nos 17 e 18 séculos; o sem conto de revoltas debeladas ou quilombos
dissolvidos por aqueles minúsculos exércitos de "capitães-do-mato", através de
batalhas ferocíssimas e sem nome. Imitando o próprio sistema do africano e do
índio, os sertanistas dominavam-nos graças à mesma norma que se traduz por uma
fórmula paradoxal: - dividir para fortalecer.
Devíamos, num transe igual, adotá-la.
Era sem dúvida um recuo inevitável à guerra primitiva. Mas, quando não o
impusesse o jagunço solerte e bravo, impunha-o a natureza excepcional que o
defendia.
Vejamos.
A guerra das caatingas
Os doutores na arte de matar que hoje,
na Europa, invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com
um retinir de esporas insolentes - e formulam leis para a guerra, pondo
em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente
tático precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais
- guerreiros de cujas mãos caiu o franquisque heróico trocado pelo
lápis calculista - se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe
função mais definida e grave que às grandes matas virgens.
Porque estas, malgrado a sua
importância para a defesa do território - orlando as fronteiras e
quebrando o embate às invasões, impedindo mobilizações rápidas e
impossibilitando a translação das artilharias - se tornam de algum modo
neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente, aos dois
beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas,
dificultando-lhes por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a
estratégia desencadeia os exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema
tenebroso da guerra, capaz dos mais opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado
incorruptível do sertanejo em revolta. Entram também de certo modo na luta.
Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis, ante o
forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e
cresceu.
E o jagunço faz-se o
guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas,
amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em
marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos em torcicolos, aforradamente. E
os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas, nem pensam no
inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas, prosseguem
envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas
de tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se
os adversários imprudentes com eles se afrontarem, serão varridos em momentos.
Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve choque de espadas e não é
crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras prontas. E lá se
vão, marchando, tranqüilamente heróicos...
De repente, pelos seus flancos,
estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende,
morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas, outras, passando sobre as
tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos perscrutadores,
volvem-se, impacientes, em roda. Nada vêem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de
espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas
insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita, pela frente agora,
irrompendo de toda a banda.
Então estranha ansiedade invade os mais
provados valentes, ante o antagonista que vê e não é visto. Forma-se
celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de batalhões
constritos na vareda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma
voz de comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das
galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados
sempre, zunem os projéteis dos atiradores invisíveis batendo em cheio nas
fileiras.
A situação rapidamente engravesce,
exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras unidades combatentes,
escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
- e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se
contra os duendes. A força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal
numa expansão irradiante de cargas. Avança com rapidez. Os adversários parecem
recuar apenas. Nesse momento surge o antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos
onde estalam os estampidos e estacam ante uma barreira flexível, mas
impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que Ihes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos
lados. Vê-se um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando
pelos gravetos secos. Lampeja por momentos entre os raios do sol joeirados
pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando, adiante, dispersa, batendo
contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados cheios, de
falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os
soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto de galhos. Caem, presos
pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas imobilizadas
por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das
macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o
desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e inúteis. Por fim a ordem
dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros.
Seguem reforços. Os mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a
confusão e a desordem; -enquanto em torno, circulando-os, rítmicos,
fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem inflexivelmente os
projetis tio adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo
que ninguém viu.
As seções voltam desfalcadas para a
coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E voltam como se saíssem de
recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas estrondadas ou
perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
Reorganiza-se a tropa. Renova-se a
marcha. A coluna estirada a dois de fundo deriva pelas veredas em fora,
estampando no cinzento da paisagem o traço vigoroso das fardas azuis listradas
de vermelho e o coruscar intenso das baionetas ondulantes. Alonga-se;
afasta-se; desaparece.
Passam-se minutos. No lugar da refrega
, então, surgem, dentre moitas esparsas, cinco, dez, vinte homens no máximo.
Deslizam, rápidos, em silêncio, entre os arbúsculos secos. . .
Agrupam-se na estrada. Consideram por
momentos a tropa, indistinta, ao longe; e, sopesando as espingardas ainda
aquecidas, tomam precípites pelas veredas dos pousos ignorados.
A força vai prosseguindo mais cautelosa
agora.
Subjugam o animo dos combatentes,
caminhando em silencio, o império angustioso do inimigo impalpável e a
expectativa torturante dos assaltos imprevistos. O comandante rodeia-os de
melhores resguardos: ladeiam-nos companhias dispersas, pelos flancos: duzentos
metros na frente, além da vanguarda, norteia-os um esquadrão de praças
escolhidas.
No descair de encosta agreste, porém,
escancela-se um sulco de quebrada que é preciso transpor. Felizmente as
barrancas, esterilizadas dos enxurros, estão limpas: escassos restolhos de
gramíneas; cactos esguios avultando raros, entre blocos em monte; ramalhos
mortos de umbuzeiros alvejando na estonadura da seca...
Desce por ali a guarda da frente.
Seguem-se-lhe os primeiros batalhões. Escoam-se, vagarosas, as brigadas pela
ladeira agreste. Embaixo, coleando nas voltas do vale estreito já está toda a
vanguarda, armas fulgurantes, feridas pelo sol, feito uma torrente escura
transudando raios...
E um estremecimento, choque convulsivo
e irreprimível, fá-la estacar de súbito.
Passa, ressoando, uma bala.
Desta vez os tiros partem, lentos, de
um só ponto, do alto, parecendo feitos por um atirador único.
A disciplina contém as fileiras; debela
o pânico emergente; e, como anteriormente, uma seção se destaca e vai, encosta
acima, rastreando a direção dos estampidos. O torvelinho dos ecos numerosos,
porém, torna aquela variável; e os tiros não revelados, porque o fumo não se
condensa naqueles ares ardentes, continuam lentos, assustadores, seguros.
Afinal cessam. Soldados esparsos pelos
pendores pesquisam-nos inutilmente.
Volvem exaustos. Vibram os clarins. A
tropa renova a marcha com algumas praças de menos. E quando as últimas armas
desaparecem, ao longe, na última ondulação do solo, desenterra-se de montões
de blocos - feito uma cariátide sinistra em ruínas ciclópicas -
um rosto bronzeado e duro; depois um torso de atleta, encourado e rude; e
transpondo velozmente as ladeiras vivas desaparece, em momentos, o trágico
caçador de brigadas...
Estas seguem desenfluídas de todo. Daí
por diante velhos lutadores têm pavores de crianças. Há estremecimentos em
cada volta do caminho, a cada estalido seco nas macegas. O exército sente na
própria força a própria fraqueza.
Sem plasticidade segue numa exaustão
contínua pelos ermos, atormentado no golpear das ciladas, lentamente sangrado
pelo inimigo, que o assombra e que foge.
A luta é desigual. A força militar
decai a um plano interior Batem-na o homem e a terra. E quando o sertão estua
nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de
aço e grifos de baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos
primeiros sintomas da fome, reflui à retaguarda, fugindo ante o deserto
ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo um seio
carinhoso e amigo.
Então - nas quadras indecisas
entre a "seca" e o "verde", quando se topam os últimos fios de água no lodo
das ipueiras e as últimas folhas amarelecidas nas ramas das baraúnas, e o
forasteiro se assusta e foge ante o flagelo iminente, aquele segue feliz nas
travessias longas, pelos desvios das veredas, firme na rota como quem conhece
a palmo todos os recantos do imenso lar sem teto. Nem lhe importa que a
jornada se alongue, e as habitações rareiem, e se extingam as cacimbas e
escasseiem, nas baixadas, os abrigos transitórios, onde sesteiam os vaqueiros
fatigados.
Cercam-lhe relações antigas. Todas
aquelas árvores são para ele velhas companheiras. Conhece-as todas. Nasceram
juntos; cresceram irmãmente; cresceram através das mesmas dificuldades,
lutando com as mesmas agruras, sócios dos mesmos dias remansados.
O umbu desaltera-o e dá-lhe a sombra
escassa das derradeiras folhas; o araticum, ouricuri virente, a mari elegante,
a quixaba de frutos pequeninos, alimentam-no a fartar; as palmatórias,
despidas em combustão rápida dos espinhos numerosos, os mandacarus talhados a
facão, ou as folhas dos juás - sustentam-lhe o cavalo; os últimos lhe
dão ainda a cobertura para o rancho provisório; os caroás fibrosos fazem-se
cordas flexíveis e resistentes... E se é preciso avançar a despeito da noite,
e o olhar afogado no escuro apenas lobriga a fosforescência azulada das
cumanãs dependurando-se pelos galhos como grinaldas fantásticas, basta-lhe
partir e acender um ramo verde de candombá e agitar pelas veredas, espantando
as suçuaranas deslumbradas, um archote fulgurante...
A natureza toda protege o sertanejo.
Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado fazendo vacilar a marcha
dos exércitos.
Capítulo IV
Autonomia duvidosa
Ia-o demonstrar a campanha emergente...
cópia mais ampla de outras que em todo o Norte têm aparecido, permitindo
aquilatar-se de antemão tais dificuldades.
As medidas planeadas pelo general Solon
denotavam, portanto, exata previsão de sucessos semelhantes, na luta
excepcionalíssima para a qual nenhum Jomini delineara regras, porque invertia
até os preceitos vulgares da arte militar.
Malgrado os defeitos do confronto,
Canudos era a nossa Vendéia. O chouan e as charnecas emparelham-se bem como o
jagunço e as caatingas. O mesmo misticismo, gênese da mesma aspiração
política; as mesmas ousadias servidas pelas mesmas astúcias, e a mesma
natureza adversa, permitiam que se lembrasse aquele lendário recanto da
Bretanha, onde uma revolta, depois de fazer recuar exércitos destinados a um
passeio militar por toda a Europa, só cedeu ante as divisões volantes de um
general sem fama, "as colunas infernais" do general Turreau - pouco
numerosas mas céleres, imitando a própria fugacidade dos vendeanos, até
encurralá-los num círculo de dezesseis campos entrincheirados.
Não se olhou, porém, para o ensinamento
histórico.
É que se preestabelecera a vitória
inevitável sobre a rebeldia sertaneja insignificante.
O governo baiano afirmou "serem mais
que suficientes as medidas tomadas para debelar e extinguir o grupo de
fanáticos e não haver necessidade de reforçar a força federal para tal
diligência, pois as medidas tomadas pelo comandante do Distrito significavam
mais prevenção que receio"; e aditava "não ser tão numeroso o grupo de Antônio
Conselheiro, indo pouco além de quinhentos homens etc."
Contravinha o chefe militar entendendo
ter a repressão legal vingado o círculo das diligências policiais,
cumprindo-lhe não mais prender criminosos, "mas extirpar o móvel de
decomposição moral que se observava no arraial de Canudos em manifesto
desprestígio à autoridade e às instituições", acrescentando que a força
federal deveria seguir bastante forte para se subtrair à contingência de
"retiradas prejudiciais e indecorosas". O governo estadual, porém, agindo
dentro do elástico art. 6.° da Constituição de 24 de fevereiro, cerrou a
controvérsia levantando o espantalho de uma ameaça à soberania do Estado, e
repelindo a intervenção que lhe implicava incompetência para manter a ordem
nos seus próprios domínios. Deslembrara-se que em documento público se
confessara desarmado para suplantar a revolta e que, apelando para os recursos
da União, justificava, naturalmente, a intervenção que procurava encobrir.
Vinha serôdio o falar em soberania
apisoada pelos turbulentos impunes. Ademais ninguém se iludia ante a situação
sertaneja. Acima do desequilibrado que a dirigia estava toda uma sociedade de
retardatários. O ambiente moral dos sertões favorecia o contágio e o
alastramento da novrose. A desordem local ainda, podia ser núcleo de uma
conflagração em todo o interior do Norte. De sorte que a intervenção federal
exprimia o significado superior dos próprios princípios federativos: era a
colaboração dos Estados numa questão que interessava não já à Bahia, mas ao
país inteiro.
Foi o que sucedeu. A nação inteira
interveio. Mas sobre as bandeiras vindas de todos os pontos, do extremo norte
e do extremo sul, do Rio Grande ao Amazonas, pairou sempre, intangível,
miraculosamente erguida pelos exegetas constitucionais, a soberania do
Estado...
Para a resguardar melhor foi removido
da Bahia o chefe da força militar, que traçara a sua atitude retilineamente
pela lei. E somente depois disto a coluna do major Febrônio - até então
oscilante entre Monte Santo e Queimadas e objetivando nas contramarchas as
vacilações do governo - seguiu reforçada pela tropa policial e adstrita
as deliberações do governo baiano.
Perdera-se esterilmente o tempo
- que o adversário aproveitara, aparelhando-se a um revide enérgico.
Num raio de três léguas em roda de Canudos, fizera-se o deserto. Para todos os
rumos e por todas as estradas e em todos os lugares, os escombros carbonizados
das fazendas e dos pousos avultavam, insulando o arraial num grande círculo
isolador, de ruínas. Estava pronto o cenário para um emocionante drama da
nossa história.
TRAVESSIA DO CAMBAIO
Capítulo I
Monte Santo
No dia 29 de dezembro entraram os
expedicionários em Monte Santo.
O povoado de frei Apolônio de Todi ia,
a partir daquela data, celebrizar-se como base das operações de todas as
arremetidas contra Canudos. Era o que mais se avantajava por aqueles sertões
em fora na direção do objetivo da campanha, permitindo, além disto, mais
rápidas comunicações com o litoral, por intermédio da estação de
Queimadas.
A tais requisitos aliavam-se
outros.
Vimos-lhe em páginas anteriores a
gênese tocante.
Não dissemos, porém, que, criando-o, o
estóico Anchieta do Norte aquilatara bem as condições privilegiadas do
local.
De fato, a vila - ereta no sopé
da serrania de onde promana a única fonte perene da redondeza -
contrasta, insulada, com a esterilidade ambiente. Decorre isto de sua situação
topográfica. A sublevação de rochas primitivas que se alteiam aos lados, para
o norte e para leste, levanta-se como anteparo aos ventos regulares, que até
lá progridem, e torna-se condensador admirável dos escassos vapores que ainda
os impregnam, graças ao resfriamento decorrente de uma ascensão repentina
pelos flancos das serranias. Depõe-se, então, aqueles, em chuvas quase
regulares, originando regímen climatológico mais suportável, a dois passos dos
sertões estéreis para onde rolam, mais secos, os ventos, depois da
travessia.
De sorte que, enquanto em roda se
desenrolam plainos desolados, num raio de alguns quilômetros partindo de
Monte
Santo se estende região
incomparavelmente mais vivaz. Recortam-na pequenos cursos d'água resistentes
às secas. Pelas baixadas, para onde descaem os morros, notam-se rudimentos de
florestas, transmudando-se as caatingas em cerradões virentes; e o rio de
Cariacá com seus tributários minúsculos, embora efêmero como os demais das
cercanias, não se esgota de todo nas maiores secas: fraciona-se, retalhado em
cacimbas reduzidas a imperceptíveis filetes deslizando entre pedras, mas
permitindo ainda que resistam ao flagelo os habitantes convizinhos.
É natural que seja Monte Santo, desde
muito, uma paragem remansada, predileta aos que se aventuram naquele sertão
bravio. Não surgia pela primeira vez na historia. Muito antes dos que agora o
procuravam, outros expedicionários, por ventura mais destemerosos e, com
certeza, mais interessantes, por ali haviam passado, norteados por outros
desígnios. Mas quer para os bandeirantes do século 17, quer para os soldados
destes tempos, o lugar predestinado constituiu-se escala transitória e breve,
mal relumbrando em acontecimentos de maior monta. Não deixa, contudo, de ser
expressiva a sua função histórica, entre devassadores de sertão, distintos por
opostos intuitos e desunidos por três séculos, porem tendo - como
veremos - a afinidade dos mesmos rancores e das mesmas arrancadas
violentas.
Ali estacionara o pai de Robério Dias,
Belchior Moreia, na sua rota atrevida "do rio Real para as serras da Jacobina
pelo rio Itapicuru acima, buscando os sertões de Maçacará". E em torno desta
"entrada" continuaram outras, orientadas pelos roteiros confusos, nos quais,
todavia, o antigo nome da serra - Piquaraçá - se lê sempre,
demarcando uma paragem benfazeja naqueles terrenos agros.
Por isto centralizou, de algum modo, a
primeira agitação feita em torno das lendárias "minas de prata", desde as
pesquisas inúteis do Muribeca, que até lá chegara e não passara avante, "com
pouco efeito e pouca diligência", até ao tenaz Pedro Barbosa Leal,
acompanhando as trilhas de Moreia e estacionando por muitos dias na montanha,
onde marcas indecifráveis denotavam a passagem de antecessores igualmente
audazes.
Passaram-se porém, os tempos. Ficou
perdida no sertão a serrania misteriosa onde muitos imaginavam, talvez, a sede
do el-dorado apetecido, ate que Apolônio de Todi a transformasse em templo
majestoso e rude, como vimos.
E hoje quem segue pelo caminho de
Queimadas, trilhando um solo abrolhando cactos e pedras, ao divisá-la, das
cercanias de Quirinquinquá, duas léguas aquém - estaca: volve em cheio
pare o levante a vista deslumbrada, e acredita que o ondular dos ares
referventes e a fascinação da luz lhe alteiam defronte, entre o firmamento
claro e as chapadas amplas, uma miragem estonteadora e grande.
A serra feita dessa massa de quartzito,
tão própria às arquiteturas monumentais da terra, alteia-se, ao longe,
acrescida a altitude pelas várzeas deprimidas em torno. Lança, retilínea, a
linha de cumeadas. A vertente oriental cai, a pique, lembrando uma muralha,
sobre o vilarejo. Este ali se encosta, sobre o socalco breve, humílimo,
assoberbado pela majestade da montanha.
Entretanto é por esta acima ate ao
vértice que se prolonga, saindo da praça, a mais bela de suas ruas - a
via-sacra dos sertões, macadamizada de quartzito alvíssimo, por onde tem
passado multidões sem conta em um século de romarias. A religiosidade ingênua
dos matutos ali talhou , em milhares de degraus, coleante, em caracol pelas
ladeiras sucessivas, aquela vereda branca de sílica, longa de mais de dois
quilômetros, como se construísse uma escada pare os céus...
Esta ilusão é empolgante ao longe.
Vêem-se as capelinhas alvas, que a
pontilham a espaços,, subindo a principio em rampa fortíssima, derivando
depois, tornejantes, à feição dos pendores; alteando-se sempre, eretas sobre
despenhadeiros, perdendo-se nas alturas, cada vez menores, diluídas a pouco e
pouco no azul puríssimo dos ares, até à última, no alto...
E quem segue pelo caminho de Queimadas,
atravessando um esboço do deserto, onde agonize uma flora de gravetos -
arbustos que nos esgalhos revoltos retratam contorções de espasmos, cardos
agarrados a pedras ao mo