Um ótimo negócio
De
tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver
crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o
homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser
honesto. (Rui Barbosa.. In Obras Completas, Senado Federal, RJ v. 41, t. 3,
1914, p. 86)
O Banco Central do Brasil decidiu-se por antecipar o pagamento de U$ 15 bilhões
ao FMI – previstos para o final de 2007. Um ótimo negócio... Para os banqueiros,
como sempre.
O cinismo farisaico de Palocci não
faz questão de disfarçar para quem estão governando: “a economia brasileira dá
sinais de robustez, de força e com este gesto emitimos um sinal importante ao
investidor estrangeiro.”
Que a economia está robusta e os
números estão todos róseos não se discute. Pena que menos de 1% da população
brasileira se beneficie disso. Para esta pequeníssima e reduzidíssima parcela da
população vem-se governando o Brasil historicamente. Pensava-se que o PT faria
diferente mas ao primeiro rugido “dos mercados”, imediatamente plantou um tucano
no Banco Central e levou as taxas de juros para a estratosfera demonstrando
claramente a que vinha: dar continuidade à mesma política elitista praticada
neste país há séculos.
Naturalmente, estes 1% para quem
Lula vem governando são os donos de bancos, grandes conglomerados empresariais e
de comunicações e os maiores jogadores, como o próprio Henrique Meirelles –
funcionário remunerado do Banco de Boston, agente dos interesses privados de
poucos, encastelado no centro nevrálgico das decisões econômicas brasileiras.
São estes que acumulam grandes fortunas, subvencionam escolas e igrejas e
“formam opinião”. Enoja-os somente o fato de o tipo de corrupção praticada por
Lula da Silva e sua entourage (que nome dar a isso? Farândola? Quadrilha ou
bando? Equipe?) ser muito escandalosa. O orgulho deles é a chamada “jóia da
coroa”, ou seja, uma política econômica que deixa a maioria dos brasileiros na
miséria e concentra renda, disfarçando tudo com números maquiados e pesquisas de
opinião viciadas.
A força da economia brasileira
Vê-se a vigorosa força da economia brasileira nas filas gigantescas para
atendimento médico nos postos públicos (“nosso povo está doente”, comentam
alguns – outros povos se rebelariam contra a opressão, o brasileiro médio adoece
solitário e se isola ainda mais se sentindo culpado pela desgraceira em que se
encontra...).
Nas Forças Armadas o fardamento das
Praças está incompleto, não há o direito a três refeições por dia – o que sempre
aconteceu até pelo menos o final do governo Sarney. Collor de Mello cancelou
este direito aos militares instituindo o “meio período” e o direito a “fazer
bicos”, ou seja, estimulou a economia informal. Lula avilta os salários e
combate a economia informal, amarra as mãos dos militares e municia-lhes com
armamento da Segunda Grande Guerra. Com refeições de carne moída com xuxu e
fuzis da Segunda Guerra envia soldados para ocupar o Haiti. E não entende o que
leva o soldado brasileiro a se comportar no Haiti como vândalo...
As estradas brasileiras estão
abandonadas; nos hospitais falta de tudo; as escolas ensinam não se sabe muito
bem o quê, pois os professores mal remunerados e sem orientação maior, são
proibidos de reprovar, conduzem ao ensino médio vastos contingentes de
analfabetos.
Fora esses pequenos detalhes, a
economia está tão forte que o Brasil alegando “ter dinheiro sobrando”, opta por
quitar uma dívida espúria com o FMI e o resultado disso é o de aumentar sua
dívida para mais de U$ 900 bilhões aos mais diversos tipos de especuladores pelo
mundo afora.
Você, chefe ou mãe de família, se
tivesse “dinheiro sobrando” preferiria conceder três refeições ao dia, roupa e
diversão decente a seus filhos ou anteciparia em 2 anos o pagamento de uma
dívida não reconhecida como legítima?
Convocação do Congresso Nacional
Todo o ano é a mesma coisa. Esses caras recebem, além de um salário líquido
médio de R$ 12 mil, mais de 40 salários mínimos, absolutamente livres: dispõem
de apartamentos funcionais, carros com motorista e gasolina a vontade, direito
ao envio de correspondência virtualmente ilimitada, etc.
O parlamentar, ao contrário do
cidadão brasileiro normal, goza do direito de 14 salários por ano, com 3 meses
de férias. A semana útil do parlamentar em Brasília começa na terça-feira à
tarde e se encerra na quinta-feira pela manhã. Como haverá convocação para o
tempo previsto para o recesso parlamentar, este ano Papai Noel será ainda mais
generoso com eles que já se convocaram extraordinariamente e, assim, receberão
16 salários!
É sempre bom lembrar que eles –
usualmente representando somente a si mesmos ou às grandes empresas que custeiam
suas campanhas caríssimas – são levados a esta condição de abundância e fartura
por nós, eleitores. Nós demos esse emprego a eles!
Impunidade não!
Quarta-feira passada foi um
dia de luto para a política brasileira. Os senhores deputados federais optaram
pela recusa à cassação do deputado Romeu Queiroz (PTB – MG), comprovadamente
sacador das contas de Marcos Valério e beneficiário do propinoduto do PT.
Sua cassação foi recomendada
pelo Conselho de Ética da Casa que, através do voto secreto, contabilizou 250
votos contra e 162 a favor da cassação. Por outro ponto de vista, 250 senhores
deputados votaram a favor do deputado mensaleiro e somente 162 votaram contra o
colega corrupto. Seriam necessários no mínimo 257 votos para que fosse cassado.
A seguir nesta linha, além de
pagarmos mais dois salários nababescos para os senhores parlamentares, eles
terão este orçamento encorpado por nós para livrar a cara de seus ilustres
colegas...
O discurso e a prática
O filósofo argelino Roger Garaudy tem uma frase lapidar: “Não
importa o que um homem diz a respeito de sua fé. Importa sim verificar como esta
fé se manifesta no comportamento cotidiano deste homem.”
Em que Lula acreditar? No que
compara o Bingo com a prostituição infantil ou no Lula que envia ao Senado
Federal um Projeto de Lei legalizando esta prática? No que diz que “caixa 2 é
prática comum no Brasil” ou no que diz que “caixa 2 é prática de um crime
hediondo”. Eu prefiro ficar com a noção da prática como critério de verdade:
Lula tinha com homem forte ao tempo dos Bingos, tempo em que se falava em
construir uma sede monumental para o PT com o excesso de recursos de que o
Partido mais rico do país gozaria, aquele tempo em que Waldomiro Diniz, amigo de
contraventores, era chefe de gabinete e funcionava como porta-voz do governo
Lula com o Congresso Nacional. Não combatendo a prática da jogatina, antes
estimulando-a, fica o discurso moralizante completamente no vazio. Como já
começaram a fazer caixa 2 para a campanha do próximo ano, ou Lula está
praticando o que ele classifica como “crime hediondo” ou nem ele acredita em
suas próprias palavras...
Reprimindo a economia informal
É revoltante e deprimente. Num dia o Ministro do Trabalho – ao tempo, Berzoíni,
aquele que obrigou os maiores de 90 anos a comparecer ao posto mais próximo da
Previdência Social e explicar o que cargas d’água ainda estavam fazendo vivos –
informa que “se contar a economia informal, nós geramos quase 8 milhões de
empregos”. Por um lado, é bom lembrar que a Economia Informal não entra no
cômputo da contagem do emprego e renda em lugar nenhum do mundo. Por outro,
ressalto a quantidade surpreendente de vezes em que vi nos noticiários escritos,
televisionados e pela mídia eletrônica – Internet – referências a repressão
governamental à Economia Informal. Prendem e arrebentam com camelôs pelo Brasil
afora, apreendem (roubam, esta é a verdade) suas mercadorias e processam aqueles
que prestam serviços informais, pois não o declaram ao Imposto de Renda.
Há ainda um terceiro dado
inquietante. O Presidente da República, que deveria dar o exemplo, é um dos mais
notórios usuários de produtos pirateados adquiridos na economia informal, como o
DVD “Os Filhos de Francisco”, que assistiu em seu caríssimo avião novo – o
Aerolula – entre uma passagem e outra pelo Brasil.
Não há trabalho na economia formal
para todos os brasileiros (estima-se em cerca de 30% o nível de desemprego do
brasileiro segundo os parâmetros tradicionais da OIT – Organização Internacional
do Trabalho – que leva em conta as pessoas em idade produtiva sem colocação no
mercado de trabalho ao contrário das medições do IBGE que somente levam em conta
quem procurou emprego no último mês e não foi bem sucedido. Do segundo mês em
diante já deixa de fazer parte da estatística...) e aquele que ousa trabalhar
informalmente em busca de garantir sua mera sobrevida material é severamente
reprimido mas o discurso governamental vai na direção de um elogio ao trabalho
informal...
O brasileiro trabalha, em média, 8
horas semanais A MAIS que o japonês médio. No entanto considera-se o povo
japonês mais trabalhador. Por causa da inserção no mercado formal de trabalho.
Por aqui, a maior parte dos cidadãos em idade produtiva tem um emprego – ou não
– e ainda preenche seu tempo com diversas outras atividades ditas informais ou
ajeitadas para um pseudo-formalismo dentro do jeitinho brasileiro, senão nem se
sobrevive, em busca de conseguir um padrão de sobrevida material minimamente
condigno a si e aos seus. Não raro ocorrem acidentes de trabalho os mais
diversos por estas jornadas duplas ou triplas (professores, médicos,
enfermeiras... Todos são profissionais que exercem o seu ofício em 3, 4, por
vezes cinco lugares diferentes!)
No capitalismo brasileiro desta
época sombria, as saídas encontradas são individuais, envergonhadas, como o são
todas as taras e aberrações...
Continua: O bordão da
reeleição de Lula da Silva
Lázaro
Curvêlo Chaves – 16/12/2005
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