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Manuel Bandeira: "Pasárgada"
PASÁRGADA. Antiga capital da Pérsia, hoje Murghab. Do persa, através do grego. Em latim: Pasargadae; em Prisciano, Pasargada, com o a penúltimo breve. (ANTENOR NASCENTES, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Rio, Alves, 1952, tomo II - nomes próprios) As palavras têm mesmo seu «canto e plumagem», como queria Guimarães Rosa: o problema está no encontrá-las e explorá-las. Pasárgada. Durante séculos, figurou nos mapas, nas crônicas e nos feitos. Ninguém, contudo, que lhe espremesse a sonoridade (alegre, com tantos aa) e as ocultas promessas. Bandeira sim. E por causa de um instante individual de fuga, nossa ainda pobre (especialmente de símbolos) literatura ganha um xangri-lá, um nirvana em que, paradoxalmente, a mobilidade é um prioritário objetivo a se alcançar.
«Vou-me embora pra Pasárgada (1) Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada».
O verso-título correu fácil em todas as bocas, entrou para o rol das citações corriqueiras e até mereceu eruditas polêmicas. Pazárgada ou Passárgada a pronúncia? – A primeira, sem dúvida. A segunda (Passárgada) talvez até evoque mais. O som /ssê/ lembra, quem sabe, um pássaro que alce vôo para bem longe. E admite ligação, por falsa analogia, com passar, no sentido de sair, mudar.
«Vou-me embora pra Pasárgada».
Vou-me embora. – Além da espontaneidade da ação, indicada pelo pronome pessoal vazio de conteúdo sintático, o poeta, para cortar amarras, busca a palavra que só nossa língua tem, perdido de vez o significado etimológico: embora, que há já séculos deixou de ser a aglutinação de em+boa+hora. No poema de Bandeira certamente tem outro sentido, quem sabe o de adjunto adverbial de despedida, como audaciosamente sugeriu um gramático não tão moderno. Vou-me embora pra Pasárgada. A forma contrata da preposição não serve apenas para indicar pronúncia popular ou para acomodar a métrica da redondilha - «uma cama estreita para o verso» - na reflexão do mesmo Bandeira. Se há que cortar amarras, que tudo seja logo. Pra é mais rápido e põe na frase a tenção de ir para não mais voltar.
«Lá sou amigo do rei».
O poeta ainda nem foi, mas já se tem como amigo do rei. Aquele rei cujo nome ninguém sabe e que, apesar disso (ou por isso), recebe com a melhor das recepções. . Sua única função, aliás, é tratar bem, satisfazer os secretos anseios, ser o último refúgio. Sem isso, nem é rei, perde irremissivelmente o trono, a coroa, o cetro. Ele que se cuide: é rei porque o fazem rei.
«Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei»
Tudo com a serena esperança do realizável, com verbos no tempo presente, numa confiante antevisão de fatos vindouros. Mais certezas de que Pasárgada só pode ser um admirável lugar que todos antecipam com pormenores e à sua maneira, na imaginação. Até Camões em «Sôbolos rios»: “Ditoso quem se partir/ Pera ti, terra excelente, / Tão justo e tão penitente, / Que despois de a ti subir, / Lá descanse eternamente!» ( em Obra Completa, Rio, Aguilar, 1963, p. 506). O tema é recorrente em vários autores, como em Danças, de Mário de Andrade; em Poemas de Bilu, de Augusto Meyer; em alguns textos de Sérgio Milliet e de Carlos Drummond de Andrade, ao longo de toda a obra de Murilo Mendes... Uma das excelências de Pasárgada que a psicanálise explica melhor que a literatura: a escolha da cama. E tudo dito em frase com o sujeito eu bem expresso, para impor sem nenhuma dúvida a vontade do agente. Ficar repetindo, de preferência com os olhos fechados, as coisas que desejamos – reforça o pedido e ajuda o seu entendimento por quem de direito. Assim fazem as crianças e os puros de coração. Assim se explica que a frase «Vou-me embora pra Pasárgada» apareça cinco vezes no corpo do pequeno poema.
«Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que nunca tive».
Eis aí um dos pontos altos do nonsense em língua portuguesa. Se o ilogismo não dá felicidade, imprime ao menos um insólito ritmo de aventura à vida.
«E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar!»
Para quem, desde a longínqua mocidade, correu o permanente risco de sair antecipadamente da vida levado por uma hemoptise mais forte, mobilidade é felicidade. Tanta, que merece ponto-de-admiração, num poema destituído de qualquer sinal de trânsito. Em Pasárgada a felicidade há de ser de pleno desfrute, nada será excesso, especialmente as atitudes e ações que contrariarem as prescrições médicas...
«E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar mãe-d’água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Pasárgada».
Depois da roda-viva, de que o poeta dá apenas os exemplos mais chocantes, a sucessão intérmina das aventuras cumprirá a mais importante de suas missões: religará os fios esgarçados da existência e ajudará miticamente a recompor a perdida felicidade dos tempos de criança. Esta, em essência, a mais notável finalidade de Pasárgada: tornar feliz o precário presente e refazer íntegro na sua felicidade o passado.
«Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar».
Pasárgada é o nihil obstat porque «outra civilização». Admite como coisa natural até o rompimento com «a sintaxe lusíada», que só « macaqueamos», como afirma o poeta em outro lugar (2). É o que explica o brasileiro e reiterado emprego do verbo ter, em construções onde classicamente só caberia haver. Ao entrar em Pasárgada, o fugitivo das durezas da vida nada tem com as imposições e restrições dos dias anteriores. O próprio amor não cobra o penoso preço da concepção, como também merecem livre curso as substâncias que levem à alucinação e ao sonho. O amor recobra o primário sentido de proporcionar apenas satisfação. Os alcalóides se despem, inocentes, das implicações psicológicas, sociais e policiais. Ah, o telefone automático, hoje nem mais almejado! Será sempre bom lembrar que o livro que primeiro abrigou este poema em estudo é Libertinagem, de 1930... Quase todas as pessoas de hoje nem podem imaginar o progresso e o conforto que o telefone sem auxílio de telefonista representou. O poeta não deixa, portanto, de consignar sua admiração e confiança nas conquistas da tecnologia do começo do século XX. Que palavra caberia melhor do que namorar, em referência a contatos com prostitutas? Ou se há de entender seu emprego como acabado exemplo de recomposição do sentido natural das coisas, retirando-se desse vocábulo o cascão aderido ao longo dos séculos? Namorar prostitutas... Só mesmo Manuel Bandeira e sua pacífica convivência com tantas delas na boêmia Lapa.
«E quando eu estiver mais triste Mais triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar -- Lá sou amigo do rei -- Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada».
Nascido em «momento de profundo cafard e desânimo» e como «grito de evasão» (3), o poema se encerra com uma inesperada realidade: nem em Pasárgada o homem se liberta da tristeza. O poeta reconhece, afinal, que a simples hipótese de não pode entristecer-se é antinatural. Tristeza não é necessariamente infelicidade. O poeta estará, não será triste; levará consigo as dores nascidas do próprio fato de existir. A conseqüência disso é que, mesmo em Pasárgada, haverá um momento de completa vontade de morrer – outra prova de que Pasárgada manterá íntegros os mais profundos anseios humanos. Surpreendido com o indesejado realismo que dá à sua vida, o poeta, para concluir, apega-se às duas únicas certezas de que Pasárgada é um lugar ideal: ser amigo do rei e ter livre escolha de mulheres e camas.No mais, aonde quer que vá, sua pobre condição humana o seguirá como sombra.
Márcio José Lauria, Autor de vasta obra literária em prosa e verso em livros como "Tratador de Palavras", sua Obra mais recente e instigante por atual, geniais "Ensaios Euclidianos", dentre outras de grande valor, é colaborador semanal da Imprensa local e agora com muito orgulho da página "Cultura Brasileira" é professor de Literatura e Teoria Literária na UNIP - São José do Rio Pardo Clique aqui e confira breve biobibliografia de Manuel Bandeira
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