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Sociedade “pós”-capitalista?
(a nova cara do velho
demônio...)

Alguns intelectuais
contemporâneos fazem questão de expressar seu juízo de valor enaltecendo e
louvando um certo Peter Drucker, saudando-o entusiasticamente, ora como “notável
pensador”, ora como “guru do momento”. Fazem ainda questão de expressar seu
alívio “informando” que “para a tranqüilidade de alguns”, dentre os quais
obviamente se incluem, “não haverá nenhuma chance de reflorescimento do
comunismo no futuro”.
Curiosíssimo por conhecer
mais profundamente Autor que chama a atenção de parte da chamada intelegentsia
brasileira, entrei na página do Submarino ( http://www.submarino.com.br/ ) e
mandei vir o livro. Resultado: “queimei” os últimos dias de 2002 lendo um livro
medíocre, de um autodidata norte-americano reacionário, conservador, sem
formação acadêmica alguma, apresentado apenas como “Administrador de Empresas”
que, ainda por cima, foi um dos principais ideólogos de George Bush (o pai) e do
bombardeio ao Iraque; segue sendo intelectual orgânico de boa parte da extrema
direita norte-americana.
Mais um problema: o livro em
tela foi escrito há mais de dez anos! Data de 1992! Já ultrapassado, é
contemporâneo e compatível com aquelas ideologias trabalhadas como se fossem
teorias acadêmicas em torno do “Fim da História e das Utopias” logo após o
colapso do socialismo de tipo soviético e a euforia da reunificação alemã.
“Sociedade Pós-Capitalista”, não passa de um pastiche de preconceitos de classe
contra o socialismo, o comunismo e o marxismo de maneira generalizada. “Informa”
coisas como “o comunismo acabou e não ressuscitará jamais” – quem diz? Como
comprova essa assertiva mais aforismática do que científica? –, “A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Weber, está hoje desacreditada” –
como assim? Alguém avisou ao IUPERJ, à USP, a Cambridge, à Sorbonne e ao MIT que
Weber, assim como Marx, “já era?” Entre outros pseudo-alegatos para os quais não
apresenta fundamentação, explicação ou justificativa alguma que não a sua
“autoridade” no assunto, que, por sinal, é nenhuma, Drucker deixa clara a sua
vinculação de classe à extrema direita norte-americana, só isso.
Aprofundando a análise em alguns pontos
“Dialogando” com um Marx que nunca existiu
Drucker insiste em dialogar
com e tentar desacreditar um Karl Marx que ele mesmo criou em sua fantasia,
desprezando completamente os aspectos do marxismo que não lhe interessam para
defender seus pontos de vista. Direito dele. Se a gente cai na engambelação dele
é outra conversa...
Por exemplo, Marx acreditava,
de fato, que o Socialismo, ocorreria primeiro nos países centrais do
capitalismo, em seu tempo a Alemanha, a França e a Inglaterra. Muito depois da
morte do Filósofo (com “F” maiúsculo!) Lênin leu Marx e o retificou em um
tópico: o capitalismo é internacional por definição (os burgueses de hoje diriam
“globalizado”) e tende a se romper, como uma corrente, onde estiver o seu elo
mais débil. Provou não apenas na teoria, mas na prática, que o marxismo é uma
filosofia da práxis, ser a Rússia czarista, naquele momento histórico (1917), o
elo mais débil do capitalismo internacional. Foge ao escopo destas notas, mas
cabe brevemente refletir sobre o que ocorreu após a morte de Lênin. A ascensão
de Stálin trouxe vantagens (por exemplo: a então URSS derrotou praticamente
sozinha os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. O Ocidente burguês somente
se decidiu a enfrentar Hitler no continente europeu, com o famoso “Desembarque
na Normandia” quando a URSS já havia dominado as tropas nazistas na maior parte
das nações do Leste europeu; nunca é demais rememorar que a primeira bandeira a
tremular vitoriosa no Bundestag foi aquela vermelha, com uma foice e um martelo,
em meio a um mar de soldados russos, comunistas, em Berlim) e desvantagens – o
georgiano e ex-seminarista Koba trouxe muito autoritarismo para o seio de um
regime que deveria, por princípio, ser mais libertário, o que o levou a condenar
Trotski, por suas propostas internacionalistas e libertárias. Provavelmente
teria sido um muito melhor sucessor de Lênin e a história do socialismo
soviético, naquele caso, seria outra. Mas, como não existe “se” em história,
voltemos à nossa análise.
Drucker ignora solenemente os
revisores e aprofundadores do marxismo na direção do humanismo socialista como
Lênin, Trotski, Luckács, Marcuse, Wilhelm Reich ou mesmo os mais recentes e
próximos como Leonardo Boff e Noam Chomsky. Insiste em “dialogar” com um Marx e
um “marxismo” que o próprio Marx rejeitaria se estivesse respirando entre nós
nos dias de hoje! Um pseudo-estudioso cristão que quisesse desacreditar a física
newtoniana não faria pior se escrevesse um livro cheio de citações infelizes de
Newton (que, como todo o mundo, teve lá suas limitações históricas, portanto se
equivocou em vários pontos), ignorando as retificações e aprofundamentos feitos
por ele mesmo anos depois ou mesmo por físicos posteriores como Albert Einstein,
Carl Sagan ou Stephen Hawking.
Pós-Neo-Má-Vontade!
Há anos aprendi que quando os
conservadores utilizam prefixos como “neo”, “pós” ou o que o valha, pretendem na
verdade disfarçar um retorno a coisas ultrapassadas ou tornar simpático algo que
há décadas vem se demonstrando em decadência ou se tornou tremendamente
antipático – ou mesmo quando tentam negar algum avanço, como no chamado
“pós”-modernismo.
Em síntese o projeto político
do Iluminismo, ou seja, da modernidade, é “libertar os homens do medo e fazer
vitoriosa a Razão”. Como ainda estamos muito longe de cumprir a meta da
modernidade – as pessoas seguem vivendo num mundo irracional, cheio de guerras e
hecatombes, os pobres com medo de passar ou já morrendo de fome, os ricos com
medo dos que passam fome –, falar em “pós”-moderno só poderia ser má fé mesmo.
“No pós-capitalismo (que ora é apresentado como já em vigor, ora projetado para
o futuro, numa indefinição irritante!) o mercado seguirá dominando”. E agora? As
práticas (não “as idéias”) de mercado e lucro DEFINEM o capitalismo. De novo: de
onde e para quê o prefixo “pós”? Cabe a repetição: é irritante como os
conservadores vivem inventando neologismos para fazer uma coisa hedionda parecer
simpática ou para negar um progresso ou evolução.
Agora isso: “pós”-capitalismo
mantendo todas as práticas maléficas do capetalismo e tentando forjar uma nova
dicotomia entre “trabalhadores do conhecimento” e “trabalhadores em serviço” sem
conseguir explicar direito onde estariam as fronteiras divisórias entre ambos. A
mim ficou parecendo algo como, de um lado “operários das letras” ou
“intelectuais” e, de outro, mas não “em luta de classes”, os “trabalhadores
braçais”, os executores práticos das teorias elaboradas.
Se for isso mesmo, de certa
forma já existe há séculos, todos conhecem gente rica, mas imbecil que tem
empregados com curso superior e gente com curso superior, mas pobre e defensora
de idéias conservadoras, descoladas de sua origem de classe, mas isso não
elimina o fato de haver proprietários dos meios de produção (que ainda são as
fábricas, as terras e instituições financeiras e não o “conhecimento”) e aqueles
que trabalham assalariados para os proprietários dos meios de produção. Aqui, na
periferia do capitalismo, numa Nação, como tantas outras, subordinada e
subjugada pelo imperialismo e neocolonialismo norte-americano (expressões
atualíssimas, utilizadas, por exemplo, pelo norte-americano, professor-doutor do
“Massachusets Institut of Technology”, Noam Chomsky no livro “Neoliberalism and
Global Order”, Ed. Seven Stories Press, 1999), nenhum trabalhador tem salário
tão elevado quanto o guarda-livros Peter Drucker alega ser o do operário nos
EUA. Drucker imagina uma sociedade com a posse de bens materiais diluída e
fraternalmente dividida entre os intelectuais e os trabalhadores braçais,
eliminando, de uma penada, que o papel aceita tudo, a dicotomia histórica que
está na práxis e não nos livros, entre os proprietários dos meios de produção e
seus empregados.
Novas idéias antigas, novamente “fora do lugar”
Se as “análises” de Drucker
são ou não aplicáveis a um país central do capitalismo como os EUA, que dispõem
de tantas fontes de recursos em empresas e bancos espalhados pelo mundo inteiro
– que imperializam tiranicamente – e mesmo assim são hoje a Nação mais
endividada do mundo, é um assunto para Noam Chomsky (se ele quiser, se tiver
tempo, paciência e considerar valer a pena rebaixar-se a esse tipo de diálogo
desigual com o auto-didata mal formado e mal informado). Pessoalmente considero
que os EUA estão prestes a uma crise sem precedentes cujos primeiros sinais já
se fazem ver com grandes empresas quebrando, fraudando informações, com o
endividamento pavoroso daquela Nação (de onde tirar o triplo da renda
norte-americana, o valor de sua dívida externa, sabendo-se que sua produção
equivale a um terço da economia mundial? Seria necessário que o mundo inteiro
travasse suas economias para cobrir o rombo enorme da economia norte-americana.
Impossível. Mais provável uma nova quebradeira, bem pior do que aquela da Grande
Depressão dos anos 30...).
E para nós, aquelas análises têm
algum valor? Já na introdução ele descarta as Nações do Terceiro Mundo, “não por
desprezá-las”, observa Drucker com desprezo. Tanto que nem chega a informar por
que optou por desconsiderar o Terceiro Mundo em sua análise. Já no capítulo “Do
Capitalismo à Sociedade do Conhecimento” fornece um dado importante que nos
permite descobrir o motivo de tanto desprezo: “um trabalhador sindicalizado nos
EUA, trabalhando somente quarenta horas por semana, ganha US$ 50.000 anuais em
salários e benefícios”. Cinqüenta mil dólares ao ano, em valores atualizados de
92 para cá e traduzidos em “salários mensais”, que é o nosso costume, dá
aproximadamente R$ 35.000,00. Não há trabalhador sindicalizado algum no Brasil
que receba, “em salários e benefícios”, trinta e cinco mil reais mensais. A ser
isto verdade para os EUA (francamente, é difícil até mesmo de acreditar!) a
análise de Drucker está mais distante da nossa realidade que especulações sobre
a apicultura em Sumatra o estão daquelas em torno da possibilidade de prospecção
de petróleo em Marte!
No capítulo sobre “Organização” ele
chega a louvar a pior praga do Taylorismo e do Fordismo: a superespecialização
específica, a setorização e compartimentalização dos saberes. Cardiologistas não
devem nem precisam saber nada de ortopedia é um dos exemplos mais infelizes que
ele usa! Certa feita, quando ainda trabalhando no HCA, várias vezes testemunhei
casos incrivelmente ilustrativos do quanto “todas as coisas se relacionam entre
si”, numa comprovação da dialética, que Drucker despreza. Exemplifico: um
cidadão estava ficando surdo devido a um problema intestinal – se o
otorrinolaringologista e o gastroenterologista não fossem amigos e conhecessem o
cidadão ele se trataria de dois problemas diferentes (um no intestino e outro no
ouvido interno) sem resolver nenhum dos dois! Novamente, a tentativa de aplicar
a mentalidade da linha de produção fabril a todos os setores da vida humana. Ao
invés de a máquina servir ao homem, serve-se dele...
Nunca antes alguém tentou
teorizar sobre alguma coisa com tamanha carência de seu objeto de pesquisa!
Longe de ser um filósofo
respeitado internacionalmente como, por exemplo, Noam Chomsky, uma das mais
fulgurantes estrelas do pensamento internacional contemporâneo, Drucker não
passa de mais um propagandista do mercado como divindade laica a ser seguida
cegamente por todos em nome do próprio mercado. Ao invés de propor meios que
possibilitem ao ser humano utilizar-se das máquinas (inclusive governamentais e
empresariais) para promover-se, propõe meios de apaziguar os seres humanos com a
idéia de servir às máquinas (particularmente as empresariais), mais nada.
Defende ferrenhamente o “American Way of Life” tentando parecer erudito, mas
fica a PARSECS de distância de seu antecessor neste quesito, Francis Fukuyama
que, como todos se recordam, passou muito tempo “pregando” havermos chegado ao
“fim da história e das utopias” e que o máximo a que podíamos almejar em termos
organização política e econômica seria aquela burguesa de corte norte-americano.
O problema é que, ao contrário de Drucker, Fukuyama é dotado de uma erudição
fantástica e deu-nos muito mais trabalho, pois ele leu Marx, Lênin e,
principalmente, Hegel. Pouquíssimos filósofos burgueses contemporâneos pareceram
compreender tão bem a dialética hegeliana quanto Fukuyama, por sinal, daí a
dificuldade em “desmontá-lo”. Mas, quando percebido que se tratava de mais um
ideólogo do que um pensador, quando ele ficou sem resposta diante da crítica
incisiva e persistente de que ele repetia argumentos usados pelos Faraós do
antigo Egito, pelos ideólogos do Império Romano ou mesmo pelos que asseveravam
que o III Reich “duraria mil anos”, foi desacreditado e hoje, lemos e
recomendamos o livro dele a nossos alunos como fonte de erudição e conhecimento
mas, com o devido respeito, apontando-lhe os equívocos e as limitações todas.
Drucker não chega sequer a
merecer esse tipo de atenção. Trata-se de um contador (um “book keeper”, um
“guarda-livros”, mesmo!) que, por defender um meio que entende e de que gosta,
ganhou prestígio entre os ultraconservadores e reacionários de extrema direita.
Inicialmente nos EUA, sua terra natal. A seguir entre todos os que idolatram o
bezerro de ouro capitalista selvagem que ele representa. Lastimabilíssimo que
tenha seguidores ou admiradores em países do Terceiro Mundo!
Termina suas considerações
lamuriando sua incompetência para escrever um livro cujo título, arrogante,
seria “O Conhecimento” que, em seu delírio, destinar-se-ia a ser tão importante
para a posteridade quanto o é hoje “O Capital” de Karl Marx.
Certa feita Marx remeteu uma
nota a Engels, queixando-se de “nunca antes alguém ter teorizado sobre alguma
coisa – O Capital – com tamanha carência de seu objeto de pesquisa”. Naquele
caso, embora inquestionavelmente eruditíssimo, Marx não tinha Capital sequer
para remeter os originais de sua Obra ao Editor... Drucker praticamente repete
isso em seu livro!
Fica mais uma vez provado:
quem tem profundidade acadêmica, particularmente em torno da filosofia da
práxis, consegue teorizar sobre algo de que não dispõe, mas que conhece de
perto, ainda que na condição de vítima: “Capital”. Do outro lado, ideólogos
pseudo-intelectuais ultraconservadores e incrivelmente bem remunerados como
Peter Drucker demonstram-se incompetentes para teorizar sobre algo de que sofrem
carência catatônica: “Conhecimento”...
Tivesse ele pelo menos
resquícios de pesquisas em torno da dialética – se tivesse lido Marcuse ou
Chomsky... – ou mesmo Hegel, se ele prefere os considerados clássicos há mais de
um século – perceberia as relações profundas entre a teoria e a prática. Há que
se agir, teorizar a respeito, verificar a aplicabilidade da teoria à prática,
voltar à mesa de trabalhos para retificar eventuais incongruências, aplicar
novamente a teoria à prática e assim por diante numa espiral sem fim. Aliás, nem
era preciso ir tão longe. O próprio Taylor, o organizador fascistóide que
Drucker assevera admirar tanto, não fez outra coisa durante sua vida inteira!
Recomendo:
As Idéias Fora do Lugar - Roberto Schwarz
Sobre o
governo Lula
Nunca é demais enfatizar – e
o próprio Lula o faz reiteradamente, tanto na teoria como na prática – que seu
governo não será socialista. Será capitalista, que é o regime econômico em vigor
no Brasil. A grande mudança consistirá em que, ao contrário do governo tucano –
que morre dizendo haver sido “social-democrata” em teoria, mas que em tudo
praticou o mais nefasto, cruel e rapinante neoliberalismo: enfraqueceu o Estado
na área social e o reforçou na defesa das grandes empresas, particularmente as
multinacionais, espera-se que o governo Lula seja verdadeiramente
Social-Democrata, ou seja, algo parecido com o que já acontece na Escandinávia:
espera-se do governo Lula um Estado Forte onde este é necessário ao povo
(educação, saúde, previdência e assistência social, etc) e praticamente
inexistente diante de quem pode defender-se sozinho, como as grandes empresas,
particularmente as multinacionais, uma experiência parecida com a verdadeira
social-democracia escandinava que podemos claramente colocar como o comunismo
com democracia e face humana, como tem de ser mesmo!
O comunismo, como o cristianismo, é imortal!
Os anti-utopistas sempre
fazem o que podem para anunciar a morte e sepultamento das idéias e projetos
otimistas, humanitários, igualitários que seguem revolucionariamente existindo
apesar de seus vãos e esdrúxulos esforços! Sempre se equivocam. Chato que, em
geral, isso só fica claro algumas gerações depois de estarem esses teóricos
peseudo-intelectualóides mortos... O Império Romano, por exemplo, vivia
produzindo conhecedores e conhecimentos que desacreditavam o cristianismo como
algo “morto”, “dominado”, “sem chances de reflorescimento” várias vezes por mais
de trezentos anos. A cada erro, equívoco ou derrota, contudo, ressurgia em
outros pontos do Império e cada vez mais poderoso. Enfim, apesar de seus
coveiros sepultarem-no várias vezes, o cristianismo ressuscitou outras tantas,
até que se transformou em Religião Oficial do Império Romano e já dura quase
dois mil anos! Não surpreende que os conservadores busquem com tanto empenho
desacreditar o comunismo. Mas será na prática e não meramente na teoria que o
comunismo demonstrará a sua superioridade. Aqui no Brasil? Só o Futuro pode
dizê-lo, mas eu acredito!
O socialismo de tipo
soviético entrou em colapso em grande medida por causa da pressão
norte-americana na direção da corrida armamentista. Queriam Justiça social,
práticas humanistas, erradicação do analfabetismo e da mendicância (conquistas
efetivadas, apesar de o Império Ianque manter sua pressão para que houvesse
gastos com armamentos, criando uma “nomenklatura” belicosa que de comunista não
tinha rigorosamente nada!) Comunistas jamais tiveram por princípio armar-se ou
dominar outros povos. Podem fazê-lo e usualmente o fazem somente em Legítima
Defesa! Outro equívoco do livro do autodidata aqui analisado: fala em “Império
Soviético”, um conceito absurdamente inadequado, ilógico mesmo. Exemplo: a
ex-URSS comprava o açúcar cubano a valores muito acima do mercado e vendia-lhes
petróleo a preços muito abaixo do mercado. De que maneira “exploravam” o povo
cubano – ou qualquer outro povo desta Terra – como o conceito de “Império”
parece querer refletir? Já ao referir-se ao Império Ianque o faz em termos que o
colocam como “defensor da civilização”. Num evidente e escandaloso “ato falho” –
Freud dizia ser neles que a Verdade se apresenta... – faz o possível,
subliminarmente, para desacreditar conceitos como o de “Estado Nacional” ou
“Nação Soberana” mas ao reforçar as idéias empresários e empresas,
particularmente aquelas do Império Ianque e protegidas pelo Estado cai em
contradição. A “Teoria do Estado” para Drucker passa pela idéia – antiga, por
sinal – de um “Estado Mínimo” para defender somente os interesses de grandes
empresas e que o cidadão não seja “importunado” – assistido... – pelo Estado.
Uma inversão inadmissível! Se o Estado tem de existir (os comunistas pregamos o
fim do Estado quando todos tiverem suficiente elevação intelectual e moral para
prescindir deste paquiderme, não antes!) deve defender os mais fracos do poderio
econômico dos mais fortes. Que o Estado seja posto a serviço de grandes empresas
e o cidadão comum “que se vire” é de tão despauterada loucura que não pode ser
levada a sério... Os paralelos com o Império Romano do Ocidente, particularmente
em sua fase de decadência são incrivelmente coincidentes, por sinal.
Talvez, como Drucker diz, em seu
tempo de jovem o conhecimento específico estivesse mais no campo da prática e
das fábricas e menos nas Universidades. Mas hoje em dia, para escrever um livro
sobre o que ele chama de “Revolução do Conhecimento”, seria fundamental que ele
tivesse pelo menos efetivado um curso superior regular dentro da área de
Ciências Humanas! Ressalto: não tenho preconceitos! Acredito que uma pessoa não
precise de certificado de conclusão de curso superior para exercer determinadas
atividades. No campo das letras, ser escritor de ficção, por exemplo. Mas no
caso de Drucker, que escreve, se comporta e obtém espaço como “intelectual
orgânico” da classe dominante, determinadas lacunas são imperdoáveis! Assim, seu
desconhecimento da dialética, dos humanistas, dos teóricos de Frankfurt e muita
bobagem que deixou passar não nos ofenderia tanto os sentidos surgindo impressa
num trabalho que, a rigor, nem precisava ter sido escrito.
Faço minhas as palavras que
meu saudoso Amigo, o Capitão Luiz Carlos Prestes escreveu na dedicatória que me
fez da “Carta Aos Comunistas”, quando em visita ao apartamento em que eu morava
em Niterói, Rio de Janeiro: “morrerei acreditando firmemente no Futuro Comunista
da Humanidade!”
Acredito no ser humano. Sei
que no fundo do coração de cada ser humano brilha a centelha divina, portanto a
exploração do homem pelo homem não poderá ser perpétua. Enquanto houver crianças
a sorrir, poetas a sonhar e casais de namorados a fazer planos para o Futuro da
sua felicidade a Esperança seguirá, subversivamente, morando nesta Terra! Essa
maldita corrida de lobos chamada “Mercado”, a nova divindade laica a que toda a
humanidade deve curvar-se haverá de cessar até por esgotamento. Economia
(gerenciamento da casa, em grego) deveria fundamentar-se em Ecologia
(conhecimento da casa, também em grego), não no “deus-Mercado” do Capetalismo
contemporâneo, divindade com pés de barro que, breve, ruirá.
Lázaro Curvêlo Chaves
Artigo publicado no jornal "Democrata", de São
José do Rio Pardo, dia 4 de janeiro de 2003
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