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Globalização, Parte 3 - Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

 

 

Introdução

O brilho que a Europa conquista com a exploração da conquista neocolonialista da África e da Ásia não poderia ser mais que fugaz. Mais uma das constantes crises do capitalismo logo vem a se manifestar, particularmente em função da própria contradição interna da "organiação" dos seres humanos sob o capitalismo: os que mais trabalham, sequer conseguem consumir os bens que produzem, enquanto no topo da pirâmide social uma casta de indivíduos extraordinariamente enriquecidos e cheios de GANÂNCIA por cada vez mais a ficar com praticamente a totalidade do que é gerado a partir do trabalho alheio. O apogeu da sociedade liberal, capitalista, traz em seu cerne, os germes da sua derrocada.

As máquinas são desligadas; um grande contingente de trabalhdores fica sem emprego - e sem quaisquer direitos trabalhistas, que só viriam a surgir ao longo de todo um processo de lutas que, lamentavelmente, vemos reverter-se gradualmente aos estágios iniciais do capitalismo em sua forma mais selvagem, predatória, hoje com a alcunha de "globalização". Os preços sobem, a produção decresce e a crise se impõe. Mas... Como é possível se há fábricas em grande quantidade, se os trabalhadores fazem fila para aceitar empregos em quaisquer fábricas ou condições e se há capital sobrando na Europa. O que leva a máquina produtiva à paralisação gerando esta nova crise? A resposta, como sói usualmente, está na GANÂNCIA.

O financista e o industrial não debatem coisas como "o que é preciso produzir?" ou "de que a sociedade precisa?" Só há uma e uma única questão na mente de quem deter o poder econômico e determina, em última instância, quem deterá o poder político e que rumos se tomarão: QUANTO SERÁ O LUCRO? Quando o financista e o industrial não vislumbram possibiliade de lucro, preferem estagnar a economia, até para pressionar por "soluções" que lhes permitam manter ou mesmo ampliar sua lucratividade.

Politicamente, na prática, a única solução encontrada foi tomar as colônias que outros países tomaram de seus donos originais. A Primeira Guerra, bem sinteticamente, foi uma Guerra entre nações colonialistas ansiosas por tomar as colônias afro-asiáticas umas das outras...

De um lado ficou a França e a Inglaterra - mais a Rússia, um dos países mais atrasados da Europa na época, melhor apenas do que Portugal, o realmente mais atrasado dos países europeus no século XIX, que, na prática era pouco mais que uma colônia da Inglaterra e da França - situação a que regressará na virada do século XX para o XXI, chegaremos lá - entra na Guerra apenas com "carne humana" para oferecer aos Aliados Ocidentais, piorando dramaticamente a situação já brutalmente crítica do país e criando as condições para a Primeira Revolução Socialista do mundo a ter sucesso por um período mais prolongado. Devemos manter em mente que não foi a primeira tentativa (desde os anabatistas de Thomaz Muenzer, passando pela Comuna de Paris de 1871, várias tentativas ocorreram) e seguramente não será a última, mesmo que os coveiros do socialismo vejam o seu final e sua derrocada desde o primeiro momento da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917. Do outro lado ficaram os chamados "Impérios do Centro", a Alemanha recém unificada e o Império Áustro-Húngaro a que se aliou, temporariamente, a Itália que, rocambolescamente muda de lado próximo ao final da Guerra. Os EUA declaram-se "neutros" tentando eximir-se de um conflito que sequer acontecia em nosso continente e, a princípio, em nada poderia beneficiar ou prejudicar os interesses industriais e financistas estadunidenses. Situação que mudará dramaticamente quando a Rússia sai da Guerra em 1917 deixando os Impérios do Centro numa posição de vitória iminente e obrigando a Inglaterra a comprar a intervenção estadunidense, transferindo rios de recursos para sua ex-colônia que sai da Guerra como Grande Potência e assim se mantém desde aquele tempo. Então, quem venceu a I Guerra Mundial? Os EUA, em primeiro lugar e a URSS que se libertou das amarras do capitalismo por um período não inferior a 70 anos.

As Alianças Militares da Europa em 1914 (clique sobre a imagem para vê-la ampliada)

  

 

 

Até 1914 – Hegemonia da Europa

 

Apesar do desenvolvimento dos Estados Unidos e do Japão, a Europa exercia em 1914 a supremacia econômica e política sobre o resto do mundo. Econômica porque controlava a maior parcela da produção mundial, 62% das exportações de produtos fabris e mais de 80% dos investimentos de capitais no exterior, dominando e ditando os preços no mercado mundial. Era a maior importadora de produtos agrícolas e matérias-primas dos países que hoje compõem o Terceiro Mundo.

Hegemonia política porque na sua, expansão o capitalismo europeu levou à necessidade de se controlar os países da Ásia, África e, apesar da "Doutrina Monroe", mesmo alguns países na América Latina.

A Europa era desigual quanto à estrutura econômica e política. Dos 23 Estados europeus, 20 eram Monarquias e só a França, Suíça e Portugal eram Repúblicas. Os regimes políticos eram constitucionais, mas o Parlamentarismo, forma típica do Liberalismo Político, só existia de fato na Grã-Bretanha, Bélgica e França, pois os demais países, apesar de constitucionais, possuíam formas autoritárias de governo, como a Áustria-Hungria e a Alemanha.

Os problemas sociais refletiam a diversidade das estruturas sócio-econômicas. Nos países da Europa Centro-Oriental a nobreza predominava. Já nos países da Europa Ocidental, a industrialização colocara frente a frente a burguesia, trazendo a reboque uma nascente classe trabalhadora começando a conscientizar-se. Entretanto, a ameaça de uma revolução social era remota naquele momento, pois a maioria dos partidos socialistas tendia à moderação, aderindo ao jogo político do Liberalismo. As únicas exceções eram algumas facções mais à esquerda, como os Anarquistas e os Bolchevistas russos.

Só os Estados tinidos e o Japão colocavam-se fora da influência européia, disputando com o capitalismo europeu “áreas de influência”. Em 1914 os Estados Unidos já começavam a se constituir em potência econômica mundial, controlando pequena parcela do mercado mundial e recebendo investimentos da Europa. O Japão, após sua “abertura ao Ocidente”, desenvolveu-se rapidamente via Revolução Meiji, passando a integrar-se ao círculo das nações imperialistas voltando suas vistas para a China e a Manchúria, na Ásia.

 

 

Alianças e choques Internacionais no período anterior à Guerra

 

O clima internacional na Europa era carregado de antagonismos que se expressavam na formação de alianças secretas e de sistemas de alianças, tornando a ameaça de uma guerra inevitável.

O desenvolvimento desigual dos países capitalistas, a partir de fins do século XIX, levara países que chegaram tarde à corrida neocolonialista internacional, como a Alemanha, a reivindicarem uma redivisão do território econômica mundial (no popular: queriam tomar da Inglaterra e da França as colônias que aqueles países haviam tomado dos povos dos países conquistados) tendo se acentuado a rivalidade pela luta por mercados consumidores, pela aquisição de matérias-primas fundamentais e por áreas de investimentos. Essa rivalidade na época do imperialismo refletiu-se em âmbito mundial devido à interdependência criada entre as economias das diversas regiões do mundo pela expansão do capitalismo. Daí o caráter mundial do conflito.  Existiam inúmeros pontos de atrito entre as potências, os quais geravam antagonismos, os principais eram:

1° – o conflito anglo germânico: a Alemanha, unificada tardiamente e tendo se desenvolvido “rompendo etapas” no final do século XIX, já desalojara a Inglaterra da sua posição de “oficina do mundo”, mas não possuía colônias, áreas de investimentos e outros mercados correspondentes à sua pujança econômica, daí a política agressiva expressada também na corrida navalista, o que foi considerado uma ameaça à secular hegemonia marítima inglesa;

2° - o franco-alemão : girando principalmente em torno da questão da Alsácia-Lorena, territórios franceses ricos em ouro e minério de ferro, anexados à Alemanha em 1871 como "prêmio" pela ajuda que os alemães prestaram à repressão francesa à Comuna de Paris. Os alemães se opunham também à penetração francesa no Marrocos, o que “ameaçava” a “paz mundial” com os incidentes de Tânger (1905), Casablanca (1908) e Agadir (1911);

3° - o áustro-russo: acentuado quando os russos, afastados do Extremo Oriente após a derrota para o Japão em 1905, voltaram as atenções para os Bálcãs, onde a política russa foi de apoio à Sérvia, foco de agitação nacionalista anti-austríaca. Os sérvios e russos constituem o mesmo tronco étnico/cultural: têm um alfabeto cirílico e um idioma similar ao russo, além de também se considerarem herdeiros do Império Romano do Oriente ou Bizantino, através da Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, hegemônica à época em ambas as nações. Os "Eslavos do Sul" contavam com o apoio de seus "primos" do Norte. Veremos adiante que, ao término da II Guerra Mundial, a colcha de retalhos que constituía os países da Península Balcânica (Sérvia, Bósnia, Croácia, Montenegro...) serão unificadas pelo Partido Comunista e, sob a liderança de Iossip Broz Tito, passarão a se chamar "Iugoslávia", palavra que em sérvio e em russo significa "país dos eslavos do sul".

4° - o russo-alemão : em torno do controle dos Estreitos de Dardanelos, já que a rota do expansionismo russo cortava a do imperialismo alemão (Berlim-Bagdá);

5° - o áustro-sérvio: nos Bálcãs, a Sérvia fomentava as agitações nacionalistas dentro do Império Áustro-Húngaro, sendo constante fonte de atritos, levando quase ao conflito em 1908 quando a Áustria ocupou a Bósnia-Herzegovina e em 1912 quando exigiu a independência da Albânia.

Em síntese, dada a série de potenciais conflitos localizados e os monumentais interesses econômicos dos financistas e industriais daquele período, a Europa estava mesmo à beira de um conflito generalizado. O foco deflagrador do conflito foi precisamente o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand, do Império Áustro-Húngaro, nas ruas de Sarajevo em 1914 que acendeu a centelha do conflito generalizado. O Império Austro-Húngaro envia tropas para punir a Sérvia; os russos enviam tropas para defender os  Sérvios; o Império Áustro-Húngaro chama a Alemanha em seu socorro e a Rússia, por sua vez, chama franceses e ingleses a honrar  os tratados da "Tríplice Aliança" e o conflito se generaliza...

 

Passo a passo...

Ideologicamente, cabe ressaltar, o período se caracterizou pela intensificação dos nacionalismos, os quais serviam para encobrir as ambições imperialistas. Podem ser mencionados o Pangermanismo (desenvolvido na Alemanha e afirmando a superioridade da “raça” alemã), o Revanchismo (dominando a França e com idéias de uma desforra contra a Alemanha por causa das perdas e humilhações sofridas em 1870) e o Pan-Eslavismo (difundido na Rússia e atribuindo aos russos a função de “proteger” os demais povos eslavos).

Para sustentar o nacionalismo agressivo e o imperialismo beligerante, os países empreenderam a corrida armamentista. Intensificou-se a produção de armas e munição, desenvolveu-se a construção naval, aumentaram-se os exércitos: era a Paz Armada. 

“Se a Alemanha fosse extinta amanhã, depois de amanhã não haveria um só inglês no mundo que não fosse rico. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou um direito de sucessão - não deveríamos nós lutar por um comércio de duzentos e cinqüenta milhões de libras? A Inglaterra deve compreender o que é inevitável e constitui sua mais grata esperança de prosperidade. A Alemanha deve ser destruí da “ (Trechos de The Saturdaw Review, citado por BLRNS, E.. MCNALL, . op. cit., pág.  784.)

 

“Um país desfibrado está à mercê do primeiro que chegar, um pais armado, anima do pelo espírito militar e pronto para o combate, está certo de impor o respeito e de evitar os horrores da guerra.”

(Afirmativa de Paul Cambon, diplomata francês, em 1909.)

Essa atmosfera de tensão explica a formação de dois sistemas de alianças. Um, a Tríplice aliança, aparentemente mais coesa, agrupando Alemanha, Áustria-Hungria e Itália. O único ponto fraco era a Itália, por ser incerta sua atitude na ocasião de um conflito e também por estar se aproximando das potências da Entente Cordiale. O outro sistema era a Tríplice Entente, formada de uma aliança militar (a franco-russa) e dois acordos (a Entente Cordiale - franco-inglesa — e o Acordo anglo-russo). Os vínculos entre tais países eram mais frágeis do que aqueles que entrelaçavam o “sistema alemão” e tinha contra si a fragilidade social, política e econômica da Rússia, sendo também difícil prever o comportamento da Inglaterra antes de iniciar-se um conflito armado.

O sistema de alianças secretas gerou um mecanismo tal, que bastava um incidente para desencadear um conflito generalizado. E foi o que ocorreu em julho de 1914, quando o Arquiduque, herdeiro do trono austríaco, Franz Ferdinand, foi assassinado em Sarajevo por um estudante da Bósnia-Herzegovina (província austríaca reivindicada pela Sérvia).

A partir daí os acontecimentos se precipitaram:

1 - a Áustria, apoiada pela Alemanha, enviou um ultimatum à Sérvia, o qual, não sendo atendido integralmente, levou os austríacos a declararem a guerra; 

2 - a Rússia mobilizou as tropas em defesa da Sérvia, recebendo um ultimatum alemão para se desmobilizar; 

3 - a 1 ° de agosto a Alemanha declarou guerra à Rússia e, dois dias após, à França; 

4 - imediatamente a Bélgica foi invadida, ignorando a Alemanha a sua neutralidade, o que levou em 4 de agosto, a Inglaterra a declarar-lhe guerra; 

5 - a Itália se omitiu, embora pertencesse à Tríplice Aliança, argumentando que o seu compromisso com a Áustria e com a Alemanha previa sua participação apenas no caso de tais países serem agredidos.

           Estes eventos marcam o início de uma guerra tão sangrenta e brutal que muita gente, naquela época e mesmo alguns anos depois, consideravam inimaginável que um conflito de tais proporções viesse a ocorrer em qualquer lugar do mundo novamente. Por romântica que esta idéia pareça quando olhamos de longe, desta distância saudável que o Tempo propicia, somos obrigados a constatar que, meros 20 anos após o início daquele conflito, uma Guerra com ainda maiores proporções, virulência, violência e brutalidade ocorreu precisamente no mesmo palco histórico... E por motivos similares! 

      No início da guerra, sete Estados já se achavam envolvidos diretamente: Áustria-Hungria, Rússia, Sérvia, Inglaterra, Bélgica, França e Alemanha. Á 23 de agosto, o Japão juntou-se aos Aliados e, em novembro, a Turquia aderiu às Potências Centrais. A guerra tomou um  caráter mundial à medida que as colônias desses países se viram envolvidas. Monstruso! Gente colonizada a defender a potência que a tiraniza contra outras pessoas também tiranizadas por outras potências frente a frente e se matando uns aos outros por interesses que não são, nem remotamente, os deles...

 

A “Guerra de Movimentos”

 

          Em 1914, a tendência principal foi dada pela ofensiva alemã na frente ocidental, com a penetração em território francês, e pelo avanço nos Bálcãs, onde a presença dos turcos, colonizados pela Inglaterra, foi essencial . Entretanto, em setembro a ameaça que pesava sobre Paris foi detida pela batalha do Marne, que levou à estabilização da frente ocidental. Por mar, a Alemanha foi bloqueada pelos Aliados e suas poucas colônias ocupadas, ao mesmo tempo que os alemães iniciavam a campanha submarina, provocando enormes perdas dos Aliados. Na frente oriental, a ofensiva russa foi detida pelas vitórias alemãs nos Lagos Mazurinos e em Tannenberg.

 

 

A “Guerra de Trincheiras”

 

         Esta é realmente a parte mais constrangedoramente grosseira da Guerra. Compreendendo os anos de 1915 e 1916, genericamente com franceses e ingleses em suas trincheiras de um lado e alemães e austríacos de outro, todos apodreciam (literalmente!) com os pés na lama dias a fio sem higiene, com pouca alimentação e frequentes bombardeios de gases tóxicos. A carnificina foi monumental. O ano de 1915 foi marcado por gigantesca ofensiva alemã na frente ocidental visando eliminar a Rússia, antes de se voltar contra a França.

              Agora os exércitos russos começam a se desagregar.

            Naquele mesmo ano, a Itália entrou na guerra a favor dos Aliados, em troca de promesas inglesas de participar da partilha das colônias alemãs na África, receber vantagens territoriais na Ásia Menor e uma posição dominante no Adriático: isto permitiu a abertura e nova frente. A Bugária aderiu às Potências Centrais.

             A partir de 1916, o principal cenário da guerra foi a frente ocidental, onde se defrontavam franceses e alemães, destacando-se a batalha de Verdun, que paralisou a ofensiva germânica. Na Europa Oriental, a Entente realizou uma ofensiva que estimulou a ntrada, ao lado dos Aliados, da Romênia, logo ocupada pelas Potências Centrais.

 

Tropas Franco/Britânicas entrincheiradas em condições precaríssimas

O uso e abuso de gases tóxicos obrigava os combatentes a ampliar seu desconforto com o uso de nem sempre eficazes "máscaras contra gases"

Charles Chaplin retratou - com humor, por incrível que pareça - vários aspectos do período que estudamos. Para a I Guerra Mundial recomendo o filme "Ombro Armas", IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0009611/

 

1917 – A Rússia sai da Guerra

            Durante o conflito, a situação do povo russo se deteriora de maneira gritante. Como vimos acima, dado o atraso da Rússia Tsarista, a única contribuição possível para o chamado "esforço de guerra" das potências ocidentais era a carne humana. Soldados mal armados e despreparados morriam como moscas nas trincheiras e debaixo do ataque da bem azeitada máquina de guerra alemã. Enquanto isso, em casa, as mães dos soldados não tinham sequer pão para comer. A questão do trigo, portanto do pão, na Rússia, agrava-se tanto que as principais bandeiras dos trabalhadores russos se resume a três demandas básicas: "Pão! Paz! Terra" 

               A Internacional Socialista fundada por Marx e Engels estava viva e forte na Europa e aos poucos levanta pelo menos parte da opinião pública internacional para o bestial irracionalismo daquela guerra insana enquanto busca unir os trabalhadores rumo à cessação da exploração de um país por outro assim como do homem pelo homem. Ansiavam chegar ao Comunismo e, segundo as teorias da época, a implantação de uma Economia Planificada numa Nação Socialista, dando plena liberdade aos seres humanos e mantendo todos os bens em circulação sob o controle vigilante de um Estado Forte que, em teoria, dividiria os bens socialmente gerados com justiça e equanimidade. "No Capítalismo", diz Marx num trecho do Manifesto Comunista, muito popular entre os trabalhadores europeus naqueles tempos sombrios, "aqueles que trabalham não têm acesso sequer aos bens que produzem (pense num operário na linha de produção de um automóvel de luxo) enquanto os que mais têm, não trabalham." Os que trabalham sustentam, na prática o conforto e o luxo dos ricos. Na Rússia esta contradição é mais gritante, com a desigualdade social verdadeiramente abismal entre os poucos riquíssimos e os milhões de empobrecidos que sustentam o luxo dos ricos.

           Karl Marx imaginava que a Revolução Socialista ocorreria num dos países mais industrializados (portanto com uma classe trabalhadora mais consciente de si e de sua situação) mas Vladimir Lênin, passando Marx a limpo, cria a tese, vital para a vitória dos trabalhadores russos sobre o regime tsarista, do "Elo mais débil". Segundo Lênin, o capitalismo seria como uma corrente atando todos os países e se romperia onde estivesse seu elo mais débil. Este elo, naquelas circunstâncias, era precisamente a Rússia.

          Lênin consegue sair de seu exílio na Suíça, embarca num trem blindado inicialmente em direção à Finlândia e, de lá a São Petersburgo, onde levanta os trabalhadores contra a guerra, pela paz. O grande inimigo do povo russo, argumenta Lênin, é precisamente o Tsar e toda a classe que ele representa. A Revolução Russa passa por uma fase burguesa, de fevereiro a outubro de 1917 e chega ao socialismo com "Todo o Poder aos Sovietes" em Outubro de 1917. Formalizando a paz em separado com a Alemanha, a Rússia sai, enfim, da I Guerra, para resolver seus problemas internos, muito mais prementes que uma guerra por colônias tomadas de outros povos. Aprofundamento do tema em Revolução Russa (ou Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917)

 

 

A Entrada dos EUA na Guerra

A eclosão do conflito ocorreu em 1917, caracterizando-se pelo agravamento da campanha submarina alemã, mesmo contra os navios neutros, pela entrada dos Estados Unidos no conflito e retirada da Rússia da guerra com a trégua assinada em dezembro, após os Bolchevistas terem tomado o poder. A entrada norte-americana no conflito foi decisiva porque todos os países envolvidos enfrentavam naquele ano problemas internos a Rússia assistiu à deposição da Monarquia em março e à tomada do poder pelos Bolchevistas em novembro; na França, após fracassada ofensiva, as tropas se amotinaram; a Inglaterra estava à beira do colapso, e mesmo entre as Potências Centrais a situação não era boa, uma vez que a campanha submarina alemã fracassara e as dificuldades de abastecimento eram enormes.

O acontecimento, principal, entretanto, foi a adesão dos Estados Unidos às potências da intente, praticamente decidindo o curso da guerra.

Desde o início, os EUA financiavam o esforço de guerra franco-inglês, sem, formalmente, abdicar de sua "neutralidade". Mas a ameaça de uma derrota da Entente, que poria em risco os investimentos norte-americanos nesses países, foi aos poucos levando os EUA a abandonar seu “neutralismo”. Os acontecimentos se precipitaram quando a Alemanha declarou ao Presidente Wilson sua intenção de bloquear as ilhas britânicas e a França, tornando perigosa a situação dos navios neutros. A campanha da imprensa igualmente estimulou a entrada dos EUA na guerra. Em abril, o Congresso, por proposta de Wilson, declarou guerra à Alemanha.

A contribuição norte-americana foi decisiva: financeiramente, os EUA passaram a auxiliar diretamente os países da Entente; economicamente, foi um golpe na campanha submarina da Alemanha, que passou a ser bloqueada, ao mesmo tempo que, a entrada em cena dos contingentes norte-americanos quebrou o equilíbrio, já precário, mantida pelas Potências Centrais; diplomaticamente, a maioria dos países da América Latina declarou guerra às Potências Centrais.

  

 

 

1918 – Vitória final do Aliados

 

        O inicio de 1918 foi inaugurado pela enorme ofensiva das Potências Centrais contra a Entente, visando a impor condições a esta, antes que as tropas norte-americanas chegassem totalmente à Europa. Nesse ano, foram utilizadas todas as inovações bélicas (tanques, aviões, gases venenosos etc.), recomeçando a “guerra de movimento”. Entretanto, a ofensiva alemã foi paralisada pela segunda batalha do Marne. A balança de forças se inclinou definitivamente para a Entente, que iniciou uma contra-ofensiva de grandes proporções, levando os alemães ao recuo.

         Na Europa Oriental, a Bulgária capitulou, o mesmo ocorrendo com a Turquia que, ameaçada delas vitórias inglesas na Síria e no Iraque, decidiu depor as armas. A Hungria foi ameaçada e os italianos em Vittorio Veneto iniciaram grande ofensiva. O Império Austro-Húngaro se decompôs, pois cada nação proclamou sua independência. Só a Alemanha prosseguiu a guerra, mas a partir de novembro estouraram rebeliões da esquerda e, a 9 de novembro, a República foi proclamada.

        A 11 de novembro, os representantes do Governo Provisório alemão assinaram em Rethondes o armistício que punha fim à guerra.

 

Mapa da Europa após o término da Primeira Grande Guerra (Clique sobre a imagem para vê-la ampliada)

 

Problemas causados pela Guerra

 

      Esta foi a primeira guerra da qual participaram todas as principais potências do mundo, embora de certa maneira não tivesse deixado de ser, no fundo, uma “guerra civil européia”. As guerras anteriores, contudo, se restringiram à Europa e eram travadas entre Estados de economia agrícola. Em 1914 foi diferente: as principais potências envolvidas eram industriais, foram utilizados todos os novos experimentos técnicos e a população civil sentiu na carne a guerra.

 

 

Economia de Guerra!

           A Primeira Grande Guerra, pela sua duração e, amplidão, levou à necessidade de mudança de atitude do Estado em relação à economia nacional. Cada Estado passou a controlam ou a submeter à sua autoridade a direção da economia, tomando medidas que revolucionaram os hábitos tradicionais, colocando em xeque as concepções doutrinárias tradicionais, uma vez que os diversos Estados: 

1) recrutaram obrigatoriamente os civis, já que, em pouco, as “reservas de homens” se tinham esgotada; 

2) modernizaram e intensificaram a produção de material bélico;  dispuseram da mão-de-obra e regulamentaram seu emprego.

            A economia de guerra, que suprimiu a liberdade econômica, incluiu a fixação dos preços de venda das mercadorias e o racionamento mediante o estabelecimento de cotas de consumo à população civil. Proibia-se ou se liberava a importação de produtos de primeira necessidade e se controlavam os transportes, inclusive com o congelamento dos fretes. As fábricas deveriam produzir apenas artigos de guerra, os salários ficavam congelados e proibidas as greves, aumentando a tensão entre as classes sociais européias. 

O financiamento da guerra ultrapassou as expectativas, tendo os Estados recorrido aos empréstimos externos e internos, destacando-se também o problema dos abastecimentos: pela primeira vez na História adotou-se o racionamento, iniciado na Alemanha e estendido a todos os países, em maior ou menor grau. A vida tornou-se muito difícil para a população civil, que teve seu poder aquisitivo diminuído com a alta desenfreada dos preços e o congelamento salarial em um momento em que a greve era proibida por ser considerada atividade “antipatriótica”...

 

Problemas Políticos e Sociais

 

As liberdades políticas foram suspensas e os Parlamentos deixaram de ter voz ativa, uma vez que a urgência das medidas a serem adotadas levou à iniciativa constante do Executivo. “A disciplina imposta pela guerra incrementou a autoridade dos ‘notáveis’ a quem os progressos da Democracia obrigavam, antes, a recuar lentamente: não só a autoridade dos chefes militares, ciosos de suas prerrogativas e cujas altercações com os governos civis nem sempre terminavam com a vitória destes últimos, mas também a da burguesia que fornece a quase totalidade dos quadros do exército (...) A luta contra as opiniões prejudiciais à Defesa Nacional, contra o derrotismo, estende-se não apenas a toda critica dos atos do comando ou do governo, mas a toda opinião que ponha em perigo a União Sagrada discutindo a estrutura social, o exercício da autoridade patronal ou os problemas religiosos.” ( CROUZET, M, op. cit., pág. 31.)

Toda essa situação foi-se tornando insustentável durante o desenrolar do conflito.

Começaram a se desenvolver, com diferentes gradações, opiniões pacifistas nos próprios governos e a oposição socialista continental aumentou. Em 1915 socialistas russos exilados, suíços, italianos, alemães e franceses realizaram em Zimmerwald, na Suíça, um congresso negando a União Sagrada e exigindo “uma paz, sem anexação e sem indenização”

Tudo isso estimulou motins, deserções e rebeliões da própria população civil. As greves, mesmo proibidas, aumentaram, e na Rússia o Czarismo foi derrubado com participação da própria burguesia, ao mesmo tempo que se desenvolvia a Revolução Socialista (1917).

 

Repercussões da Guerra

 

Do ponto de vista econômico, a guerra produziu crescente desequilíbrio entre a produção e o consumo, manifestando-se uma crise econômica que teve na inflação seu aspecto mais importante. Essa precária situação econômica, que marcou o declínio relativo da Europa, ocasionou. grande desequilríbrio social, destacando-se a pauperização da classe média e o aumento da pressão operária através dos sindicatos controlados pelos partidos socialistas, que se dividiram.

“Até aqui, era um fato elementar (...) que a Europa  dominava o mundo com toda a superioridade de sua grande e antiga civilização. Sua influência e seu prestígio irradiavam, desde séculos, até as extremidades da Terra (...)

Quando se pensa nas conseqüências da Grande Guerra, que agora finda, pode-se perguntar se a estrela da Europa não perdeu seu brilho, e se o conflito do qual ela tanto padeceu não iniciou para ela uma crise vital que anuncia a decadência (...)”

( DEMANGEON, A., Le Déclin de L’Europe, Payot, págs. 13 e 14.)

 

A ameaça de revolução pairava sobre a Europa, especialmente nos países derrotados. Tal situação levou a concessões por parte dos setores dominantes, ocorrendo, em contrapartida, o fortalecimento crescente das classes trabalhadoras através da ampliação da legislação social.

O elemento feminino, sobre o qual recaíra durante a guerra grande parte das responsabilidades da retaguarda, aumentou sua projeção social e política. 

Politicamente, a guerra, em um primeiro momento, assinalou a vitória dos princípios liberais e democráticos, com o desaparecimento dos Impérios Alemão, Áustro-Húngaro, Russo e Turco, e a adoção do regime republicano em quase todos os países, tendência muito breve, uma vez, que a crise que se seguiu à guerra, provocando a intranqüilidade e a instabilidade sociais, levou ao estabelecimento de ditaduras: aprofundava-se a crise do Estado Liberal.

 

“Tratados” de Paz; a Conferência de Paris

 

Em janeiro de 1919 reuniu-se em Paris uma conferência de paz, na qual eram representados 32 países - Aliados ou neutros. Os países vencidos e a Rússia não participaram. Tal situação inicial já mostrava o objetivo de impor uma “paz cartaginesa” (severa) aos derrotados. 

Desde janeiro de 1918 que, em uma mensagem ao Congresso, o Presidente norte-americano Wilson tinha estabelecido os Quatorze Pontos que deveriam, segundo ele servir de base aos futuros tratados regulamentadores da paz. Podemos destacar os seguintes Pontos:

1) abolição da diplomacia secreta;        

2) livre navegação nos mares;

3) supressão das barreiras econômicas;

4) redução ao mínimo dos armamentos nacionais aos limites compatíveis com a segu rança interna do país;

5) restauração da independência da Bélgica;

6) restituição da Alsácia e da Lorena à França;

7) autonomia para as nacionalidades do Império Austro-Húngaro;

8) regulamentação amigável das questões balcânicas;

9) reconstituição de um Estado polonês, com livre acesso ao mar;

10) instituição de uma Sociedade das Nações destinada a garantir a independência e a integridade territorial de todos os Estados. 

       As figuras principais da Conferência foram os representantes da França (Clejnenceau), Inglaterra (Lloyd George) e Estados Unidos ( Wilson) que concordaram em fundar a Liga das Nações, de vida curta e atividade medíocre, se tanto.

      Além da divisão entre os vencedores, dificultando a paz, os países vencidos se recusavam a assinar os injustos tratados impostos, procurando a Alemanha, por todos os meios, ludibriar as determinações neles contidas. A Áustria e a Hungria não se conformaram com os tratados, que reduziram a primeira a um “anão disforme”. A Bulgária não aceitou a perda de portos do Egeu e, na Turquia, o governo dos Jovens Turcos, chefiado por Mustafá Kemal, que havia deposto o Sultão, recusou-se a aceitar a “humilhação do Tratado de Sèvres”.

        Mas todos os vencidos tiveram que aceitar os tratados.

 

 

O “Tratado” de Versalhes

 

      Regulava a paz com a Alemanha, sendo composto de 440 artigos; ratificado pela Alemanha em 28 de junho de 1919, na Galeria dos Espelhos. Seus artigos dividiam-se em cinco capítulos:

        1) o Pacto da Sociedade das Nações;

        2) Cláusulas de segurança;

               3) Cláusulas territoriais;

               4) Cláusulas financeiras e econômicas;

              5) Cláusulas diversas. Eis as principais estipulações:

 

1) Cláusulas de segurança; exigidas pela França, que temia a desforra dos alemães: proibição de fortificar ou alojar tropas na margem esquerda do Reno, totalmente desmilitarizada; fiscalização do seu desarmamento por uma comissão interaliada; em caso de agressão alemã à França, esta receberia auxílio anglo-norte-americano; redução dos efetivos militares; supressão do serviço militar obrigatório, sendo o recrutamento feito pelo sistema do voluntariado; supressão da marinha de guerra e proibição de possuir submarinos, aviação de guerra e naval, e artilharia pesada;  

2) Clausulas territoriais: devolução da Alsácia e da Lorena à França, de Eupen e Malmédy à Bélgica, do Slesvig à Dinamarca; entrega de parte da Alta Silésia à Checoslováquia; cessão da Pomerânia e dá Posnânia à Polônia, garantindo-lhe uma saída para o mar, mas partindo em dois o território alemão pelo corredor polonês; renúncia a todas as colônias que foram atribuídas principalmente à França e à Inglaterra; entrega de Dantzig, importante porto do Báltico, à Liga das Nações, que confiou sua administração à Polônia; 

3) Cláusulas econômico-financeiras: a título de reparação, deveria entregar locomotivas, parte da marinha mercante, cabeças de gado, produtos químicos; entrega à França da região do Sane, com o direito de explorar as jazidas carboníferas aí existentes, durante 15 anos; durante dez anos, fornecimento de determinada tonelagem de carvão à França, Bélgica e Itália; como “culpada pela guerra”, pagaria, no prazo de 30 anos, os danos materiais sofridos pelos Aliados, cujo montante seria calculado por uma Comissão de Reparações (em 1921, foi fixado em 400 bilhões de marcos); concessão do privilégio alfandegário de “nação mais favorecida” aos Aliados; 

4) Cláusulas diversas: reconhecimento da independência da Polônia e da Tchecoslováquiá; proibição de se unir à Áustria (“Anschluss”); responsabilidade pela violação das leis e usos da guerra: utilização de gases venenosos e atrocidades diversas; reconhecimento dos demais tratados assinados.

 

 

Outros “Tratados” de Paz

 

        No mesmo ano, foram assinados tratados de paz em separado com os demais vencidos consagrando modificações de fato já ocorridas, com o desmembramento do Império Austro-Húngaro - devido a revoltas nacionais- e as anexações feitas pela Sérvia, Romênia e Grécia às custas da Turquia, Hungria e Bulgária. A questão das províncias asiáticas da Turquia ficou para ser discutida mais tarde. Foram assinados três tratados: o de Saint-Germain, com a Áustria; o de Trianon, com a Hungria; e o de Neuilly, com a Bulgária. O último a ser assinado (em 1923) foi o de Lausanne, com a Turquia, por causa da reação turca às imposições do Tratado de Sèvres.

       Os tratados de paz refletiram o caráter imperialista da guerra. Embora a tendência na década de 1920 fosse a de se estabelecer um “esfriamento” nas relações internacionais, a paz rigorosa imposta aos vencidos, sobretudo à Alemanha, aumentou os antagonismos.

     Fora da Europa, os principais beneficiários da guerra foram o Japão, que manteve a ocupação de colônias da Alemanha no Pacífico e se apossou das concessões alemãs na China, e a Inglaterra e a França, que receberam da Liga das Nações antigas colônias alemãs na África sob a forma de mandatos.

     A União Soviética, ignorada pelas potências ocidentais na convocação para a Conferência de Paris, teve seus territórios invadidos pelos antigos aliados; o fracasso da intervenção militar resultou em uma política de isolamento ao primeiro Estado socialista do mundo: a Política do Cordão Sanitário.

Por outro lado, do conflito participaram pela primeira vez tropas coloniais que, ao retornar aos seus países de origem, iniciaram os movimentos nacionais de libertação, em nome da própria ideologia liberal européia: começava a Descolonização da Ásia e da África.

A guerra também abalou o Liberalismo Político e Econômico e a Revolução Russa comprovou na prática a aplicação das teorias socialistas do século XIS. A guerra não pusera fim às rivalidades. Tudo recomeçaria, pois em Versalhes foram lançadas as sementes da Segunda Guerra Mundial ... 

 

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