|
Quem matou Taís?
Lá para
os idos de 1990, Renan Calheiros era um fiel escudeiro de Fernando Collor.
Lembro que ele chamava atenção pelo cabelo sempre despenteado. Era uma
figura estranha, vivendo na sombra do poder. Foi eleito senador pelo estado
de Alagoas em 1994 e reeleito em 2002. Quando do impeachment, fazia parte
da "tropa de choque" que defendia Collor.
Collor se foi, mas Renan ficou. E aprendeu como poucos a
navegar no mundo da política. Foi ministro da Justiça no governo de
Fernando Henrique Cardoso, ocasião em que presidiu a XI Conferência dos
Ministros da Justiça dos Países Ibero-Americanos, e pouco depois a reunião
dos ministros do Interior do Mercosul, Bolívia e Chile. Foi também
presidente do Conselho Nacional de Trânsito (Contran); do Conselho dos
Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda); do Conselho de Defesa dos
Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) e do Conselho Nacional de Segurança
Pública (Conasp).
Em 2002, foi um dos
mentores do Estatuto do Desarmamento. Chegou a Presidente do Senado Federal
em 2005 e foi reeleito em 2007. O cabelo despenteado desapareceu, a roupa
melhorou, o patrimônio aumentou. E ele acabou traçando aquela tetéia que era
repórter da Rede Globo. O resto já sabemos. O escudeiro transforma-se na
figura central da política brasileira durante o primeiro semestre de 2007.
Surgem denúncias em cima de denúncias. Mas o cara não
cai. Resiste bravamente, de tal forma que começamos a desconfiar que ele
tem mais do que inocência.
Ele sabe das coisas. Ou melhor, ele sabe de coisas. Sabe
tanto que pode ameaçar: - Se cair, levo um monte junto.
Esse é o risco que
corre quem tem escudeiro. O escudeiro conhece as manias do príncipe, as
fraquezas do príncipe, as sacanagens do príncipe. E seu conhecimento pode
destruir o príncipe. Para livrar-se dele o príncipe tem que mandar matar.
Ou aceitar a chantagem.
O que assistimos nos últimos meses talvez seja um dos
maiores escândalos de chantagem pública "destepaíz". Nunca antes um senador
teve em suas mãos tanto poder, tanto conhecimento para causar medo.
Veja só: provoca o
afastamento de Fernando Collor, que se licencia de seu mandato
reconquistado depois de cumprir a pena pelo impeachment. Collor não pode
votar contra seu ex-escudeiro.
Provoca a saída do país do Presidente Lula, que faz
teatro do outro lado do mundo. Destrói a carreira de Aloísio Mercadante,
que mais uma vez tenta explicar o inexplicável, justificar o
injustificável. Expõe a cara-de-pau de um Romero Jucá, de um Epitáfio
Cafeteira. Deixa explícito que a mídia pode muito, mas não pode tudo.
Mancha definitivamente a imagem do Senado. É poder
demais para um senador só, o que nos leva a perguntar: o que é que Renan
sabe?
Eu posso imaginar.
Sabe de outros senadores e deputados que usam dos mesmos expedientes que
ele usou para benefício próprio.
Sabe tudinho do
mensalão.
Sabe das negociatas para compra de votos, para mudança
de legenda, para proteção de empresas devedoras frente ao fisco. Sabe das
doações de bancos e grandes empresas. Sabe de concessões de rádio e
televisão. Sabe quem come quem. Sabe dos propinodutos variados (aliás,
quando é que uma CPI vai dedicar-se a esmiuçar os contratos da área de
informática no governo?).
Deve saber dos acordos envolvendo as Farcs. Chavez. Fidel
Castro. Sabe de muitos outros filhos fora do casamento. Talvez Renan saiba
quem matou Celso Daniel e o Toninho do PT. Deve saber sobre os bastidores
das privatizações.
Conhece alguns - ou muitos - podres envolvendo as
grandes estatais. Sabe do Kia, do Boris e do Corinthians...
Renan tem o poder
supremo: informação. Ele manda em quem quiser. Ele dita regras, exige apoio
e faz tremer. Renan pode tudo. E sabe que pode.
Daí aquela segurança, aquela arrogância, aquele
sorrisinho, aquele "abisolutamente", aquela certeza, aqueles abraços e
apertos de mão inexplicáveis. Renan é o cara. Quer saber? Eu acho que Renan
sabe até quem matou a Taís.
E nós, que pensamos que sabemos das coisas e na verdade
sabemos de nada?
Vamos seguir a vida, bovinamente resignados e
obedecendo ao supremo mandamento do novo Brasil: - Cale a boca. E compre.
Será que o Renan sabe até quando?
* Autoria desconhecida
Arquivo de Artigos Semanais, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
©
Copyleft LCC
Publicações Eletrônicas - Todo o conteúdo desta página pode ser
distribuído exclusivamente para fins não comerciais desde que mantida a citação
do Autor e da fonte. |