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A REBELIÃO DAS MASSAS
Jose Ortega y Gasset
Copyright
Autor: José Ortega y Gasset
Tradutor: Herrera Filho
Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores
Nelson Jahr Garcia (in memorian!)

ÍNDICE
Apresentação
Biografia do autor
PRÓLOGO PARA FRANCESES
PRIMEIRA PARTE
A REBELIÃO DAS MASSAS
I - O fato das aglomerações
II - A ascensão do nível histórico
III - A altura dos tempos
IV - O crescimento da vida
V - Um dado estatístico
VI - Começa a dissecação do homem-massa
VII - Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia
VIII - Porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm
violentamente
IX - Primitivismo e técnica
X - Primitivismo e história
XI - A época do "mocinho satisfeito"
XII - A barbárie do "especialismo"
XIII - O maior perigo, o Estado
SEGUNDA PARTE
QUEM MANDA NO MUNDO?
XIV - Quem manda no mundo?
XV - Desemboca-se na verdadeira questão
EPÍLOGO PARA INGLESES
Quanto ao pacifismo
DINÂMICA DO TEMPO
As vitrinas mandam
Juventude
Masculino ou feminino?
NOTAS
APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia
"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset,
começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol").
Retrata as grandes transformações do século XX, especialmente
na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das
massas urbanas. Não se refere às classes sociais mas às multidões e
aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute
temas, aparentemente contrários entre si, mas que se fundem (ou
devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe
individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado;
história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder
arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra
e pacifismo; masculino e feminino.
São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão
crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente
provocativa.
Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e
afirma:
"É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos
repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em
nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la
criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que
nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela
mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser
vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules."
Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo
desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se
masculinizando:
"A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de
atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha
sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século
XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela
pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito
nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou
preferiu sonhar com o hermafrodita."
Sobre a guerra, chega a afirmar:
"O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não
tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida
e para a vida."
Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva:
"Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da
escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou
quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os
vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou,
em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar
seu labor."
São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito
crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos
sólidos e uma lógica irreprensível. Em poucos momentos foi
totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que
possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as
ao nosso tempo e ao que viveremos no futuro.
BIOGRAFIA DO AUTOR
José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A
família de sua mãe era proprietária do jornal madrilenho "El
Imparcial" e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário.
Essa relação com o jornalismo foi essencial para o
desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de
expressão literária. Grande parte de seus escritos filosóficos foram
produzidos a partir do contato com a imprensa. Ortega, além de
considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é
lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do
século XX.
Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a
cursar o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga. Embora
reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida, reagiu contra
os tênues fundamentos da ciência adquirida, formulando um projeto
pessoal de reforma da filosofia européia.
Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos
universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid, onde se
doutorou em Filosofia. Buscando uma formação intelectual mais sólida
continuou seus estudos em Marburgo, na Alemanha, onde prevalecia o
neokantismo. Acabou por adotar uma atitude crítica em relação aos
seus mestres e a Kant, que se refletiu na afirmação: "Durante dez
anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei com a uma
atmosfera que foi, ao mesmo tempo, minha casa e minha prisão (...)
Com grande esforço, consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei
de sua influência atmosférica."
A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a
docência universitária e atividades políticas e culturais extra
acadêmicas.
Com o início da guerra civil espanhola, em julho de 1936,
Ortega decidiu andar pelo mundo, viajando à França, Holanda,
Argentina, Portugal, países onde proferiu inúmeras conferências.
Suas obras se revestem de um caráter extremamente crítico, as
mais polêmicas das quais foram: "Meditaciones del Quijote", "Que és
filosofia?", "En torno a Galileo", "Historia como sistema","Rebelión
de las masas", "Obras Completas". Foi também co-fundador do diário
"El Sol" e fundador e diretor da "Revista de Occidente".
Faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955.
PRÓLOGO PARA FRANCESES
I
Este livro - supondo que seja um livro - data... Começou a ser
publicado num jornal madrilenho em 1926, e o assunto de que trata é
demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. Há
sobretudo épocas em que a realidade humana, sempre instável, se
precipita em velocidade vertiginosa. Nossa época é dessa classe
porque é de descidas e quedas. Daí que os fatos ultrapassaram o
livro. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um
passado. Além disso, como este livro circulou muito durante estes
anos fora da França, não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor
francês por vias anônimas e são puro lugar comum. Teria sido, pois,
excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a
nosso tempo: não publicar livros supérfluos. Eu fiz tudo que me foi
possível em tal sentido - vai para cinco anos a Casa Stock me propôs
a sua versão -; mas me fizeram ver que o organismo das idéias
enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês, e que,
acertada ou erroneamente, seria útil submetê-lo a sua meditação e a
sua crítica.
Não estou convencido disso, mas não há motivo para formalismo.
Importa-me, entretanto, que não entre na sua leitura com ilusões
injustificadas. Conste, pois, que se trata simplesmente de uma série
de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação.
Como quase tudo que escrevi, estas foram páginas escritas para uns
quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. Não é
sobremodo improvável que minhas palavras, mudando agora de
destinatário, consigam dizer aos franceses o que elas pretendem
exprimir. Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de
que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe,
certamente, como quase tudo que o homem faz. Definimos a linguagem
como o meio de que nos servimos para manifestar nossos pensamentos.
Mas uma definição, se é verídica, é irônica, encerra tácitas
reservas, e quando não a interpretamos assim, produz funestos
resultados. Assim esta. O de menos é que a linguagem sirva também
para ocultar nossos pensamentos, para mentir. A mentira seria
impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. A moeda
falsa circula apoiada na verdadeira. No final das contas, o engano
vem a ser um humilde parasita da ingenuidade.
Não; o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista
com que costumamos escutá-la. Porque ela mesma não nos assegura que
mediante a linguagem possamos manifestar, com suficiente justeza,
todos os nossos pensamentos. Não se arrisca a tanto, mas tampouco
nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem
impossível entender-se com seus semelhantes, estando condenado à
radical solidão, esgota-se em esforços para chegar ao próximo.
Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com
maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós.
Apenas. Mas, habitualmente, não usamos estas reservas. Ao contrário,
quando o homem se põe a falar, isto faz porque crê que vai poder
dizer tudo que pensa. Pois bem, isso é o ilusório. A linguagem não
dá para tanto. Diz, mais ou menos, uma parte do que pensamos e põe
uma barreira infranqueável à transfusão do resto. Serve
bastantemente para enunciados e provas matemáticas; já ao falar de
física começa a ser equívoco e insuficiente. Porém quanto mais a
conversação se ocupa de temas mais importantes que esses, mais
humanos, mais "reais", tanto mais aumenta sua imprecisão, sua
inépcia e seu confusionismo. Dóceis ao prejuízo inveterado de que
falando nos entendemos, dizemos e ouvimos com tão boa fé que
acabamos muitas vezes por não nos entendermos, muito mais do que se,
mudos, procurássemos adivinhar-nos.
Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz
algo, como diz alguém a alguém. Em todo dizer há um emissor e um
receptor, os quais não são indiferentes ao significado das palavras.
Este varia quando aquelas variam. Duo si idem dicunt non est idem.
Todo vocábulo é ocasional (l). A linguagem é por
essência diálogo, e todas as outras formas do falar destituem sua
eficácia. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que
nos traz um diálogo latente, em que sentimos que o autor sabe
imaginar concretamente seu leitor e este percebe como se dentre as
linhas saísse u'a mão ectoplástica que tateia sua pessoa, que quer
acariciá-la - ou bem, mui cortesmente, dar-lhe um murro.
Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Como em
tantas outras coisas, o abuso aqui consistiu no uso sem preocupação,
sem consciência da limitação do instrumento. Há quase dois séculos
que se acredita que falar era falar urbi et orbi, isto é, a todos e
a ninguém. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei
concretamente a quem falo.
Contam, sem insistir demasiado sobre a realidade do fato, que
quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma
grande festa no palácio do Elíseo, da qual participaram, levando
suas homenagens, representações de todas as nações. O grande poeta
achava-se na grande sala de recepção, em solene atitude de estátua,
com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé. Os representantes
das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao
vate da França. Um porteiro, com voz estentórica, anunciava-os:
"Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo, com
voz de dramático trêmulo, virando os olhos, dizia: "L'Anglaterre!
Ah, Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de
l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah, Cervantes!" O porteiro:
"Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo:
"L'Allemagne! Ah, Goethe!"
Mas então chegou a vez de um senhor baixo, atarracado, balofo e
de andar desgracioso. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant
de la Mésopotamie!"
Victor Hugo, que até então permanecera impertérrito e seguro de
si mesmo, pareceu vacilar. Suas pupilas, ansiosas, fizeram um grande
giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não
encontrava. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio
da situação. Efetivamente, com o mesmo tom patético, com a mesma
convicção, respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La
Mésopotamie! Ah, L'Humanité!"
Contei isso a fim de declarar, sem a solenidade de Victor Hugo,
que não escrevi nem falei à Mesopotâmia, e nunca me dirigi à
Humanidade. Esse costume de falar para a Humanidade, que é a forma
mais sublime, e, portanto, a mais desprezível da demagogia, foi
adotada até 1750 por intelectuais desajustados, ignorantes de seus
próprios limites e que sendo, por seu ofício, os homens do dizer, do
logos, usaram dele sem respeito e precauções, sem perceberem que a
palavra é um sacramento de mui delicada administração.
II
Esta tese que sustenta a exiguidade do raio de ação eficazmente
concedido à palavra, podia parecer invalidada pelo fato mesmo de que
este volume tenha encontrado leitores em quase todas as línguas da
Europa. Eu creio, todavia, que este fato é de preferência sintoma de
outra coisa, de outra grave coisa: da pavorosa homogeneidade de
situações em que vai caindo todo o Ocidente. Desde o aparecimento
deste livro, pela mecânica que nele mesmo se descreve, essa
identidade cresceu de modo angustioso. Digo angustioso porque,
realmente, o que em cada país é sentido como circunstância dolorosa,
multiplica ao infinito seu efeito deprimente quando quem o sofre
adverte que apenas há lugar no continente onde não aconteça
estritamente o mesmo, Outrora podia ventilar-se a atmosfera
confinada de um país abrindo-se as janelas que dão para outro. Mas
agora esse expediente não serve de nada, porque em outro país a
atmosfera é tão irrespirável como no próprio. Daí a sensação
opressora de asfixia. Job, que era um terrível pince-sans-rire,
pergunta a seus amigos, os viajores e mercadores que rodaram pelo
mundo: Unde sapientia venit et quis est locus intelligentiae?
"Sabeis de algum lugar do mundo onde a inteligência exista?"
Convém, entretanto, que nessa progressiva assimilação das
circunstâncias distingamos duas dimensões diferentes e de valor
contraposto.
Este enxame de povos ocidentais que alçou vôo sobre a história
desde as ruínas do mundo antigo, caracterizou-se sempre por uma
forma dual de vida. Pois aconteceu que à medida que cada um ia
formando seu gênio peculiar, entre eles ou sobre eles se ia criando
um repertório de idéias, maneiras e entusiasmos. Mais ainda. Este
destino que os fazia, a par, progressivamente homogêneos e
progressivamente diversos, há de entender-se com certo superlativo
de paradoxo. Porque neles a homogeneidade não foi alheia à
diversidade. Pelo contrário: cada novo princípio uniforme
fertilizava a diversificação. A idéia cristã engendra as igrejas
nacionais; a lembrança do Imperium romano inspira as diversas formas
do Estado; a "restauração das letras" no século XV impele as
literaturas divergentes; a ciência e o princípio unitário do homem
como "razão pura" cria os distintos estilos intelectuais que modelam
diferencialmente até as extremas abstrações da obra matemática.
Finalmente e para cúmulo: até a extravagante idéia do século XVIII,
segundo a qual todos os povos hão de ter uma constituição idêntica,
produz o efeito de despertar romanticamente a consciência
diferencial das nacionalidades, que vem a ser como estimular em cada
um sua vocação particular.
E é que para esses povos chamados europeus, viver sempre foi -
claramente desde o século XI, desde Óton III - mover-se e atuar em
um espaço ou âmbito comum. Isto é, que para cada um viver era
conviver com os demais. Esta convivência tomava indiferentemente
aspecto pacífico ou combativo. As guerras inter-européias mostraram
quase sempre um curioso estilo que as faz parecer muito com as
altercações domésticas. Evitam a aniquilação do inimigo, e são
verdadeiros certames, lutas de emulação, como as dos jovens numa
aldeia ou disputas de herdeiros pela partilha de um legado familiar.
Um pouco de outro modo, todos vão ao mesmo. Eadem sed aliter. Como
Carlos V dizia de Francisco I: Meu primo Francisco e eu estamos de
perfeito acordo: ambos queremos Milão".
É de somenos importância que a esse espaço histórico comum,
onde todos os povos do Ocidente se sentiam como em sua casa,
corresponda um espaço físico que a geografia denomina Europa. O
espaço histórico a que aludo mede-se pelo raio de efetiva e
prolongada convivência - é um espaço social. Ora, convivência e
sociedade são termos equivalentes. Sociedade é o que se produz
automaticamente pelo simples fato da convivência. De sua essência e
inelutavelmente esta segrega costumes, usos, línguas, direito, poder
público. Um dos mais graves erros do pensamento "moderno", cujas
salpicaduras ainda padecemos, tem sido confundir a sociedade com a
associação, que é, aproximadamente, o contrário daquela. Uma
sociedade não se constitui do acordo das vontades. Ao contrário,
todo acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade, de
pessoas que convivem, e o acordo não pode consistir senão em
precisar uma ou outra forma dessa convivência, dessa sociedade
preexistente. A idéia da sociedade como reunião contratual, portanto
jurídica, é o mais insensato ensaio que se fez de pôr o carro
adiante dos bois. Porque o direito, a realidade "direito" - não as
idéias sobre ele do filósofo, jurista ou demagogo - é, se me
permitem a expressão barroca, secreção espontânea da sociedade e não
pode ser outra coisa. Querer que o direito reja as relações entre
seres que previamente não vivem em efetiva sociedade, parece-me -
perdoe-se-me a insolência - ter uma idéia muito confusa do que é o
direito.
Não deve estranhar, por outra parte, a preponderância dessa
opinião confusa e ridícula sobre o direito, porque uma das máximas
desditas do tempo é que, ao toparem os povos do Ocidente com os
terríveis conflitos públicos do presente, se encontraram aparelhados
com instrumental arcaico e ineficiente de noções sobre o que é
sociedade, coletividade, indivíduo, usos, lei, justiça, revolução,
etc. Boa parte da inquietação atual provém da incongruência entre a
perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso
escandaloso das "ciências morais". O ministro, o professor, o físico
ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um
barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro
suburbano quem dê a tonalidade do tempo? (2)
Mas voltemos a nossa rota. Queria insinuar que os povos
europeus são há muito tempo uma sociedade, uma coletividade, no
mesmo sentido que têm estas palavras aplicadas a cada uma das nações
que a integram. Essa sociedade manifesta todos os atributos
possíveis: há costumes europeus, usos europeus, opinião pública
européia, direito europeu, poder público europeu. Mas todos esses
fenômenos sociais se dão na forma adequada ao estado de evolução em
que se encontra a sociedade européia, que não é, evidentemente, tão
avançado como o de seus membros componentes, as nações.
Por exemplo: a forma de pressão social que é o poder público
funciona em toda sociedade, inclusive naquelas primitivas em que não
existe ainda um organismo especial encarregado de manejá-lo. Se a
esse órgão diferenciado a quem se entrega o exercício do poder
público se quer chamar Estado, diga-se que em certas sociedades não
há Estado, mas não se diga que nelas não há poder público. Onde há
opinião pública, como poderá faltar um poder público se este não é
mais que a violência coletiva suscitada por aquela opinião? Ora bem,
que há séculos e com intensidade crescente existe uma opinião
pública européia e até uma técnica para influir nela - é incômodo
negá-lo.
Por isso, recomendo ao leitor que poupe a malignidade de um
sorriso ao deparar que nos últimos capítulos deste volume se faz com
certo denodo, ante o cariz oposto das aparências atuais, a afirmação
de uma possível, de uma provável unidade estatal da Europa. Não nego
que os Estados Unidos da Europa são uma das fantasias mais módicas
que existem e não me solidarizo com o que os outros pensaram sob
esses signos verbais. Mas, por outra parte, é sumamente improvável
que uma sociedade, uma coletividade tão madura como a que já formam
os povos europeus, ande longe de criar para si seu artefato estatal
mediante o qual formalize o exercício do poder público europeu já
existente. Não é, pois, debilidade ante as solicitações da fantasia
nem propensão a um "idealismo" que detesto, e contra o qual hei
pugnado toda a minha vida, o que me leva a pensar assim. Foi o
realismo histórico que me ensinou a ver que a unidade da Europa como
sociedade não é um "ideal", mas um fato de velhíssima cotidianidade.
Ora bem, uma vez que se viu isso, a probabilidade de um Estado geral
europeu impõe-se necessariamente. A ocasião que leve subitamente a
término o processo pode ser qualquer, por exemplo, a cólera de um
chinês que apareça pelos Urais ou uma sacudida do grande magma
islâmico.
A figura desse Estado super-nacional será, é claro, muito
diferente das usadas, como, segundo nesses mesmos capítulos se tenta
mostrar, foi muito diferente o Estado nacional do Estado-cidade que
os antigos conheceram. Eu procurei nestas páginas pôr em franquia as
mentes para que saibam ser fiéis à sutil concepção do Estado e
sociedade que a tradição européia nos propõe.
Nunca foi fácil ao pensamento greco-romano conceber a realidade
como dinamismo. Não podia desprender-se do visível ou seus
sucedâneos, como um menino não entende do livro senão as
ilustrações. Todos os esforços de seus filósofos autóctones para
transcender essa limitação foram vãos. Em todos os seus ensaios para
compreender atua, mais ou menos, como paradigma, o objeto corporal,
que é, para eles, a "coisa" por excelência. Só conseguem ver uma
sociedade, um Estado onde a unidade tenha caráter de continuidade
visual; por exemplo, uma cidade. A vocação mental do europeu é
oposta. Toda coisa visível lhe parece, como tal, simples máscara
aparente de uma força latente que a está constantemente produzindo e
que é sua verdadeira realidade. Ali onde a força, a dynamis, atua
unitariamente, há real unidade, embora à vista se nos apareçam como
manifestação dela apenas coisas diversas.
Seria recair na limitação antiga não descobrir unidade de poder
público apenas onde este tomou máscaras já conhecidas e como
solidificadas de Estado; isto é, nas nações particulares da Europa.
Nego redondamente que o poder público decisivo atuante em cada uma
delas consista exclusivamente em seu poder público interior ou
nacional. Convém cair de uma vez na compreensão de que há muitos
séculos - e com consciência disso há quatro - vivem todos os povos
da Europa submetidos a um poder público que por sua própria pureza
dinâmica não tolera outra denominação que a extraída da ciência
mecânica: o "equilíbrio europeu" ou balance of Power.
Esse é o autêntico governo da Europa que regula em seu vôo pela
história o enxame de povos, solícitos e pugnazes como abelhas,
escapados às ruínas do mundo antigo. A unidade da Europa não é uma
fantasia, mas de fato a própria realidade, e a fantasia é
precisamente a crença de que a França, a Alemanha, a Itália ou a
Espanha são realidades substantivas e independentes.
Compreende-se, entretanto, que nem todo o mundo perceba com
evidência a realidade da Europa, porque a Europa não é uma "coisa",
mas um equilíbrio. Já no século XVIII o historiador Robertson
qualificou o equilíbrio europeu de the great secret of modern
politics.
Segredo grande e paradoxal, sem dúvida! Porque o equilíbrio ou
balança de poderes é uma realidade que consiste essencialmente na
existência de uma pluralidade. Se essa pluralidade se perde, aquela
unidade dinâmica se desvaneceria. A Europa é, com efeito, enxame;
muitas abelhas e um só vôo.
Esse caráter unitário da magnífica pluralidade européia é o a
que eu chamaria boa homogeneidade, a que é fecunda e desejável, a
que fazia Montesquieu dizer: L'Europe n'est qu'une nation composée
de plusieurs, (3) e Balzac, mais romanticamente,
falava da grande famille continentale, dont tous les efforts tendent
à je ne sais quel mystère de civilisation. (4)
III
Esta multidão de modos europeus que brotam constantemente de
sua radical unidade e reverte a ela mantendo-a, é o maior tesouro do
Ocidente. Os homens de cabeças toscas não conseguem congeminar uma
idéia tão acrobática como esta em que é preciso saltar, sem
descanso, da afirmação da pluralidade ao reconhecimento da unidade e
vice-versa. São cabeças pesadas nascidas para existir sob as
perpétuas tiranias do Oriente.
Triunfa hoje sobre toda a área continental uma forma de
homogeneidade que ameaça consumir completamente aquele tesouro. Onde
quer que tenha surgido o homem-massa de que este volume se ocupa, um
tipo de homem feito de pressa, montado tão somente numas quantas e
pobres abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico em qualquer
parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto de asfixiante
monotonia que vai tomando a vida em todo o continente. Esse
homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história,
sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as
disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um homem, é
apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola fori; carece
de um "dentro", de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de
um eu que não se possa revogar. Daí estar sempre em disponibilidade
para fingir ser qualquer coisa. Tem só apetites, crê que só tem
direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem nobreza que
obriga - sine nobilitate - snob. (5)
Este universal snobismo, que tão claramente aparece, por
exemplo, no operário atual, cegou as almas para compreender que,
embora toda estrutura dada da vida continental tenha de ser
transcendida, tudo isso há de se fazer sem perda grave de sua
interior pluralidade. Como o snob está vazio de destino próprio,
como não sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado
e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e
mensagens especiais. Por essa razão é hostil ao liberalismo, com uma
hostilidade que se assemelha à do surdo em relação à palavra. A
liberdade significou sempre na Europa franquia para ser o que
autenticamente somos. Compreende-se que aspire a prescindir dela
quem sabe que não tem autêntico mister.
Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para
combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque
as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser em coisas um
pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho
liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é
velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a
sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores
coletivistas, que começam por desconhecê-lo. Ademais, há nele uma
intuição do que a Europa tem sido, altamente perspicaz.
Quando Guizot, por exemplo, contrapõe a civilização européia às
demais fazendo notar que nela não triunfou nunca em forma absoluta
nenhum princípio, nenhuma idéia, nenhum grupo ou classe, e que a
isso se deve o seu crescimento permanente e seu caráter progressivo,
não podemos deixar de pôr o ouvido atento (6).
Este homem sabe o que diz. A expressão é insuficiente porque é
negativa, mas suas palavras chegam-nos carregadas de visões
imediatas. Como do mergulhador emergente transcendem olores
abismais, vemos que este homem chega efetivamente do profundo
passado da Europa onde soube submergir. É, com efeito, incrível que
nos primeiros anos do século XIX, tempo retórico e de grande
confusão, se tenha composto um livro como a Histoire de la
Civilisation en Europe. Todavia o homem de hoje pode aprender ali
como a liberdade e o pluralismo são duas coisas recíprocas e como
ambas constituem a permanente entranha da Europa.
Mas Guizot teve sempre péssima publicidade, como em geral, os
doutrinários. Não me surpreendo. Quando vejo que para um homem ou
grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a
veemente suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto a
dotes excelentes, há algo sobremodo impuro. Talvez isto seja um erro
em que incorro, mas devo dizer que não o procurei, que o foi dentro
de mim decantando a experiência. De qualquer maneira, quero ter a
coragem de afirmar que este grupo de doutrinários, de quem todo o
mundo riu e fez mofas truanescas, é, a meu ver, o mais valioso que
houve na política do continente durante o século XIX. Foram os
únicos que viram claramente o que havia que fazer na Europa depois
da Grande Revolução, e foram além disso homens que criaram em suas
pessoas uma atitude digna e distante, no meio da rusticidade e da
frivolidade crescente daquele século. Rotas e sem vigência quase
todas as normas com que a sociedade presta uma continência ao
indivíduo, não podia este constituir-se uma dignidade se não a
extraía do fundo de si mesmo. Mal pode fazer-se isso sem alguma
exageração, ainda que seja somente para se defender do abandono
orgiástico em que vivia seu contorno. Guizot soube ser, como Buster
Keaton, o homem que não ri (7). Não se abandona
jamais. Condensam-se nele várias gerações de protestantes nimeses
que haviam vivido em alerta perpétuo, sem poder flutuar à deriva no
ambiente social, sem poder abandonar-se. Havia chegado a
converter-se neles em um instinto a impressão radical de que existir
é resistir, fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza.
Numa época como a nossa, é bom tomar contacto com os homens que não
"se deixam levar". Os doutrinários são um caso excepcional de
responsabilidade intelectual; quer dizer, do que mais tem faltado
aos intelectuais europeus desde 1750, defeito que é, por sua vez,
uma das causas profundas do presente desconcerto
Mas eu não sei se, ainda que me dirigindo a leitores franceses,
Posso aludir ao doutrinarismo como a uma magnitude conhecida. Pois
se dá o fato escandaloso de que não existe um só livro onde se tenha
tentado precisar o que aquele grupo de homens pensava,
(8) como, ainda que pareça incrível, não há
tampouco um livro medianamente formal sobre Guizot nem sobre
Royer-Collard (9). É verdade que nem um nem o
outro publicaram jamais um soneto. Mas, enfim, pensaram
profundamente, originalmente, sobre os problemas mais graves da vida
pública européia, e constituíram o doutrinal político mais estimável
de toda a centúria. Nem será possível reconstruir a história desta
se não se estabelece intimidade com o modo em que se apresentaram as
grandes questões ante estes homens (10), Seu
estilo intelectual não é só diferente em espécie, mas o é de outro
gênero e de outra essência em face de todos os demais triunfantes na
Europa antes e depois deles. Por isso não os entenderam, apesar da
sua clássica lucidez. E, todavia, é muito possível que o porvir
pertença a tendências de intelecto muito semelhantes às suas. Pelo
menos, asseguro a quem se proponha formular com rigor sistemático as
idéias dos doutrinários, prazeres de pensamento não esperados e uma
intuição da realidade social e política totalmente diferente das
usadas. Perdura neles ativa a melhor tradição racionalista em que o
homem se compromete consigo mesmo a procurar coisas absolutas; mas
diferentemente do racionalismo linfático de enciclopedistas e
revolucionários, que encontram o absoluto em abstrações bon marché,
descobrem eles o histórico com o verdadeiro absoluto. A história é a
realidade do homem. Não tem outra. Nela chegou a fazer-se tal e como
é. Negar o passado é absurdo e ilusório, porque o passado é "o
natural do homem que volta a galope". O passado não está presente e
não teve o trabalho de acontecer para que o neguemos, mas para que o
integremos (11). Os doutrinários desprezavam os
"direitos do homem" porque são absolutamente "metafísicos",
abstrações e irrealidades. Os verdadeiros direitos são os que
absolutamente estão aí, porque foram aparecendo e se consolidando na
história: tais são as "liberdades", a legitimidade, a magistratura,
as "capacidades". Se alentassem hoje reconheceriam o direito de
greve (não política) e o contrato coletivo. A um inglês tudo isso
pareceria óbvio; mas os continentais ainda não chegamos a essa
estação. Talvez desde o tempo de Alcuino tenhamos vivido cinqüenta
anos pelo menos atrasados a respeito dos ingleses.
Igual desconhecimento do velho liberalismo sentem os
coletivistas de agora quando supõem, nem mais nem menos, como coisa
inquestionável, que era individualista. Em todos estes temas andam,
como eu disse, as noções sobremodo turvas. Os russos desses anos
passados costumavam chamar a Rússia de "o coletivo". Não seria
interessante averiguar que idéias ou imagens se espreguiçavam à
invocação deste vocábulo na mente um tanto gasosa do homem russo que
tão freqüentemente, como o capitão italiano de que falava Goethe,
bisogna aver una confusione nella testa? Diante disso tudo eu
rogaria ao leitor que tomasse em conta, não para aceitá-las, mas
para que sejam discutidas e passem depois à sentença, as seguintes
teses:
Primeira: o liberalismo individualista pertence à flora do
século XVIII; inspira, em parte, a legislação da Revolução francesa,
mas morre com ela.
Segunda: a criação característica do século XIX foi
precisamente o coletivismo, É a primeira idéia que inventa apenas
nascido e que ao longo de cem anos não fez senão crescer até inundar
todo o horizonte.
Terceira: esta idéia é de origem francesa. Aparece pela
primeira vez nos arquireacionários de Bonald e de Maistre. No
essencial é imediatamente aceita por todos, sem outra exceção que
não seja Benjamim Constant, um "atrasado" do século anterior. Mas
triunfa em Saint-Simon, em Ballanche, em Comte e pulula por toda a
parte (12). Por exemplo: um médico de Lyon, M.
Amard, falará em 1821 do collectivisme em face do personnalisme
(13). Leiam-se os artigos que em 1830 e 1831
publica L'Avenir contra o individualismo.
Mais importante, porém, que tudo isso é outra coisa. Quando,
avançando pela centúria, chegamos aos grandes teorizadores do
liberalismo - Stuart Mill ou Spencer - surpreende-nos que sua
suposta defesa não se baseia em mostrar que a liberdade beneficia ou
interessa a este, mas pelo contrário, em que interessa e beneficia à
sociedade. O aspecto agressivo do título que Spencer escolhe para
seu livro - O indivíduo contra o Estado - tem sido causa de que o
não entendam teimosamente os que não lêem dos livros senão os
títulos, Porque indivíduo e Estado significam nesse titulo dois
meros órgãos de um único sujeito - a sociedade. E o que se discute é
se certas necessidades sociais são melhor servidas por um ou pelo
outro órgão. Nada mais. O famoso "individualismo" de Spencer boxeia
continuamente dentro da atmosfera coletivista de sua sociologia. O
resultado, no final, é que tanto ele como Stuart Mill tratam os
indivíduos com a mesma crueldade socializante com que os termitas a
certos de seus congêneres, os quais cevam para depois chupar-lhes a
substância. Até esse ponto era a primazia do coletivo o fundo por si
mesmo evidente sobre o qual ingenuamente dançavam suas idéias!
De onde se infere que minha defesa lohengrinesca do velho
liberalismo é, completamente, desinteressada e gratuita. Porque o
caso é que eu não sou um "velho liberal". O descobrimento - sem
dúvida glorioso e essencial - do social, do coletivo, era demasiado
recente. Aqueles homens apalpavam, mais do que viam, o fato de que a
coletividade é uma realidade diferente dos indivíduos e de sua
simples soma, mas não sabiam bem em que consistia e quais eram seus
efetivos atributos. Por outra parte, os fenômenos sociais do tempo
camuflavam a verdadeira economia da coletividade, porque então
convinha a esta ocupar-se em cevar bem os indivíduos. Não chegara
ainda a hora da nivelação, da espoliação e da partilha em todas as
ordens.
Daí que os "velhos liberais" se abrissem sem suficientes
precauções ao coletivismo que respiravam. Mas quando se viu com
clareza o que no fenômeno social, no fato coletivo, simplesmente e
como tal, há por um lado de benefício, porém, por outro, de
terrível, de pavoroso, só se pode aderir ao liberalismo de estilo
radicalmente novo, menos ingênuo e de mais destra beligerância, um
liberalismo que está germinando já, próximo a florescer, na linha
mesma do horizonte.
Nem era possível que sendo estes homens, como eram, fartamente
perspicazes, não entrevissem de quando em quando as angústias que
seu tempo nos reservava. Contra o que sói acreditar-se tem sido
normal na história que o porvir seja profetizado
(14). Em Macaulay, em Tocqueville, em Comte, encontramos
pré-desenhada nossa hora. Veja-se, por exemplo, o que há mais de
oitenta anos escrevia Stuart Mill: "À parte as doutrinas
particulares de pensadores individuais, existe no mundo uma forte e
crescente inclinação a estender em forma extrema o poder da
sociedade sobre o indivíduo, tanto por meio da força da opinião como
pela legislativa. Ora bem, como todas as mudanças que se operam no
mundo têm por efeito o aumento da força social e a diminuição do
poder individual, este desbordamento não é um mal que tenda a
desaparecer espontaneamente, mas, ao contrário, tende a fazer-se
cada vez mais formidável. A disposição dos homens, seja como
soberanos, seja como concidadãos, a impor aos demais como regra de
conduta sua opinião e seus gostos, se acha tão energicamente
sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos
inerentes à natureza humana, que quase nunca se reprime senão quando
lhe falta poder. E como o poder não parece achar-se em via de
declinar, mas de crescer, devemos esperar, a menos que uma forte
barreira de convicção moral não se eleve contra o mal, devemos
esperar, digo, que nas condições presentes do mundo esta disposição
nada fará senão aumentar" (15).
Mas o que mais nos interessa em Stuart Mill é sua preocupação
pela homogeneidade de má classe que via crescer em todo o Ocidente.
Isso o faz acolher-se a um grande pensamento emitido por Humboldt na
sua juventude. Para que o humano se enriqueça, se consolide e se
aperfeiçoe é necessário, segundo Humboldt, que exista "variedade de
situações" (16). Dentro de cada nação, e tomando
em conjunto as nações, é preciso que se dêem circunstâncias
diferentes. Assim, ao falhar uma restam outras possibilidades
abertas. E insensato pôr a vida européia numa só carta, num só tipo
de homem, numa idêntica "situação". Evitar isso tem sido o secreto
acerto da Europa até hoje, e a consciência desse segredo é a que,
clara ou balbuciante, moveu sempre os lábios do perene liberalismo
europeu. Nessa consciência se reconhece a si mesma como valor
positivo, como bem e não como mal, a pluralidade continental.
Importava-me esclarecer isso para que não se tergiverse a idéia de
uma superação européia que este volume postula.
Tal e como vamos, com a míngua progressiva da "variedade de
situações", caminhamos em linha reta para o Baixo Império. Também
foi aquele um tempo de massa e de pavorosa homogeneidade. Já no
tempo dos Antoninos se nota claramente um estranho fenômeno, menos
sublinhado e analisado do que devera: os homens tornaram-se
estúpidos, O processo vinha de tempos atrás. Disse-se, com alguma
razão, que o estóico Possidônio, mestre de Cícero, é o último homem
antigo capaz de se colocar ante os fatos com a mente porosa e ativa,
disposto a investigá-los. Depois dele, as cabeças se obliteram, e
salvo os Alexandrinos, não farão outra coisa senão repetir,
estereotipar.
Mas o sistema e documento mais terrível desta forma, a um tempo
homogênea e estúpida - e uma eqüivale à outra - que adota a vida de
um a outro extremo do Império, está onde menos se podia esperar e
onde todavia, que eu saiba, ninguém o procurou: no idioma. A língua,
que não nos serve para dizer suficientemente o que cada um de nós
quiséramos dizer, revela pelo contrário e grita, sem que o
queiramos, a condição mais arcana da sociedade que a fala. Na porção
mais helenizada do povo romano, a língua vigente é a que se chamou
"latim vulgar", matriz de nossos romances. Não se conhece bem este
latim vulgar e, em boa parte, só se chega a ele mediante
reconstruções. Mas o que se conhece basta e sobra para que nos
espantem dois de seus caracteres. Um é a incrível simplificação do
seu mecanismo gramatical em comparação com o latim clássico. A
saborosa complexidade indo-européia, que conservava a linguagem das
classes superiores, ficou suplantada por uma fala plebéia, de
mecanismo muito fácil, porém, ao mesmo tempo, ou por isso mesmo,
pesadamente mecânico, como material; gramática balbuciante e
perifrástica, de ensaio e rodeio como a infantil. E, efetivamente,
uma língua pueril ou gaga que não permite a fina aresta do
raciocínio nem líricas cambiantes. É uma língua sem luz nem
temperatura, sem evidência e sem calor de alma, uma língua triste,
que avança às cegas. Os vocábulos parecem velhas moedas de cobre,
imundas e sem rotundidade, como fartas de rolar pelas tabernas
mediterrâneas. Que vidas evadidas de si mesmas, desoladas,
condenadas à eterna cotidianidade se adivinham atrás desse seco
artefato lingüístico!
O outro caráter aterrador do latim vulgar é precisamente sua
homogeneidade. Os lingüistas, que são talvez, depois dos aviadores,
os homens menos dispostos a assustar-se com coisa alguma, não
parecem admirar-se ante o fato de que falassem da mesma maneira
países tão díspares como Cartago e Gália, Tingitânia e Dalmácia,
Hispânia e Rumânia. Eu, pelo contrário, que sou bastante tímido, que
tremo quando vejo como o vento fatiga uns caniços, não posso
reprimir ante esse fato um estremecimento medular. Parece-me
simplesmente atroz. E verdade que trato de me representar como era
por dentro isso que olhado de fora nos aparece, tranqüilamente, como
homogeneidade; procuro descobrir a realidade vivente de que esse
fato é a quieta marca. Consta, é claro, que havia africanismos,
hispanismos, galicismos. Mas ao constar isto quer dizer-se que o
torso da língua era comum e idêntico, apesar das distâncias, do
escasso intercâmbio, da dificuldade de comunicações e de que não
contribuía para fixá-lo uma literatura. Como podiam vir à
coincidência o celtibero e o belga, o morador de Hipona e o de
Lutécia, o mauritânio e o dácio, senão em virtude de um achatamento
geral, reduzindo a existência à sua base, nulificando suas vidas? O
latim vulgar está aí nos arquivos, como um arrepiante
empedernimento, testemunho de que uma vez a história agonizou sob o
império homogêneo da vulgaridade por haver desaparecido a fértil
"variedade de situações".
IV
Nem este volume nem eu somos políticos. O assunto de que aqui
se fala é prévio à política e pertence a seu subsolo. Meu trabalho é
obscuro labor subterrâneo de mineiro. A missão do chamado
"intelectual" é, em certo modo, oposta à do político. A obra
intelectual aspira, com freqüência baldada, a esclarecer um pouco as
coisas, enquanto a do político sói, pelo contrário, consistir em
confundi-las mais do que estavam. Ser da esquerda é, como ser da
direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para
ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral.
Ademais, a persistência destes qualificativos contribui não pouco a
falsificar mais ainda a "realidade" do presente, já fala de per si,
porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que
respondem, como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem
revoluções e as esquerdas propõem tiranias.
Há obrigações de trabalhar sobre as questões do tempo. Isto,
sem dúvida. E eu o fiz durante toda a minha vida. Sempre estive na
estacada. Mas uma das coisas que agora se dizem - uma "corrente" - é
que, incluso a custo da claridade mental, todo o mundo tem de fazer
política sensu stricto. Dizem-no, é claro, os que não têm outra
coisa que fazer. E até o corroboram citando de Pascal o imperativo
d'abêtissement. Mas há muito tempo que aprendi a ficar em guarda
quando alguém cita Pascal. E uma cautela de higiene elemental.
O politicismo integral, a absorção de todas as coisas e de todo
o homem pela política, é uma e mesma coisa com o fenômeno de
rebelião das massas que aqui se descreve. A massa em rebeldia perdeu
toda a capacidade de religião e de conhecimento. Não pode ter dentro
mais que política exorbitada, frenética, fora de si, posto que
pretenda suplantar o conhecimento, a religião, a sagesse - enfim, as
únicas coisas que por sua substância são aptas para ocupar o centro
da mente humana -. A política despoja o homem de solidão e
intimidade, e por isso é a predicação do politicismo integral uma
das técnicas que se usam para socializá-lo.
Quando alguém nos pergunta o que somos em política, ou,
antecipando-se com a insolência que pertence ao estilo de nosso
tempo, nos adscreve simultaneamente em vez de responder devemos
perguntar ao impertinente que pensa ele que é o homem e a natureza e
a história, que é a sociedade e o indivíduo, a coletividade, o
Estado, o uso, o direito. A política apressa-se a apagar as luzes
para que todos estes gatos sejam pardos.
É preciso que o pensamento europeu proporcione sobre todos
estes temas nova claridade. Para isso está aí, não para fazer o
leque do pavão real nas reuniões acadêmicas. E é preciso que o faça
prontamente ou, como dizia Dante, que encontre a saída,
studiate il passo
Mentre que l'Occidente non s'annera.
(Purg. XXVII, 62-63)
Isso seria o único de que poderia esperar-se com alguma
probabilidade a solução do tremendo problema que as massas atuais
aventam.
Este volume não pretende, nem de longe, nada parecido. Como
suas últimas palavras fazem constar, é só uma primeira aproximação
ao problema do homem atual. Para falar sobre ele mais seriamente e
mais profundamente não haveria mais remédio senão pôr-se em roupa
abissal, vestir o escafandro e descer ao mais profundo do homem.
Importa fazer isso sem pretensões, mas com decisão, e eu o tentei
num livro próximo a aparecer em outros idiomas sob o título El
hombre y la gente.
Uma vez que nos afiguramos bem de como é esse tipo humano hoje
dominante, e que eu chamei o homem-massa, é quando se suscitam as
interrogações mais férteis e mais dramáticas: Pode-se reformar este
tipo de homem? Quero dizer: os graves defeitos que há nele, tão
graves que se não os extirpamos produzirão de modo inexorável a
aniquilação do Ocidente, toleram ser corrigidos? Porque, como verá o
leitor, se trata precisamente de um homem hermético, que não está
aberto de verdade a nenhuma instância superior.
A outra pergunta decisiva, da qual, a meu juízo, depende toda
possibilidade de saúde, é esta: podem as massas, ainda que
quisessem, despertar a vida pessoal? Não cabe desenvolver aqui o
tremendo tema, porque está demasiado virgem. Os termos com que deve
ser levantado não constam na consciência pública. Nem sequer está
esboçado o estudo da distinta margem de individualidade que cada
época do passado deixou à existência humana. Porque é pura inércia
mental do "progressismo" supor que conforme avança a história, assim
cresce a folga que se concede ao homem para poder ser indivíduo
pessoal, como cria o honrado engenheiro, mas nulo historiador,
Herbert Spencer. Não; a história está cheia de retrocessos nesta
ordem, e talvez a estrutura da vida em nossa época impeça
superlativamente que o homem possa viver como pessoa.
Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomerações de
seres humanos, que vão e vêm por suas ruas ou se concentram em
festivais e manifestações políticas, incorpora-se em mim, obsedante,
este pensamento: Pode hoje um homem de vinte anos formar um projeto
de vida que tenha figura individual e que, portanto, necessitaria
realizar-se mediante suas iniciativas independentes, mediante seus
esforços particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem em
sua fantasia, não notará que é, senão impossível, quase improvável,
porque não há a sua disposição espaço em que possa alojá-la e em que
possa mover-se segundo seu próprio ditame? Logo advertirá que seu
projeto tropeça com o próximo, como a vida do próximo aperta a sua.
O desânimo o levará com a facilidade de adaptação própria de sua
idade a renunciar não só a todo ato, como até a todo desejo pessoal
e buscará a solução oposta: imaginará para si uma vida standard,
composta de desiderata comuns a todos e verá que para consegui-la
tem de solicitá-la ou exigi-la em coletividade com os demais. Daí a
ação em massa.
A coisa é horrível, mas não creio que exagera a situação
efetiva em que se vão achando quase todos os europeus. Em uma prisão
onde se amontoaram muito mais presos dos que cabem, ninguém pode
mover um braço ou uma perna por iniciativa própria, porque chocaria
com os corpos dos demais. Em tal circunstância, os movimentos têm de
se executar em comum, e até os músculos respiratórios têm de
funcionar a ritmo de regulamento. Isto seria a Europa convertida em
formigueiro. Mas nem sequer esta cruel imagem é uma solução. O
formigueiro humano é impossível, porque foi o chamado
"individualismo", que enriqueceu o mundo e a todos no mundo e foi
esta riqueza que prolificou tão fabulosamente a planta humana.
Quando os restos desse "individualismo" desaparecessem, faria sua
reaparição na Europa o esfomeamento gigantesco do Baixo Império, e o
formigueiro sucumbiria como ao sopro de um deus torvo e vingativo.
Restariam muito menos homens, que o seriam um pouco mais.
Ante o feroz patetismo desta questão que, queiramos ou não,
está visível, o tema da "justiça social", apesar de tão respeitável,
empalidece e se degrada até parecer retórico e insincero suspiro
romântico. Mas, ao mesmo tempo, orienta sobre os caminhos acertados
para conseguir o que dessa "justiça social", é possível e é justo
conseguir, caminhos que não parecem passar por uma miserável
socialização, mas dirigir-se em linha reta para um magnânimo
solidarismo. Este último vocábulo é, além do mais, inoperante,
porque até hoje não se condensou nele um sistema enérgico de idéias
históricas e sociais, pelo contrário ressuma só vagas filantropias.
A primeira condição para um melhoramento da situação presente é
perceber bem sua enorme dificuldade. Só isto nos levará a atacar o
mal nos estratos fundos de onde verdadeiramente se origina. É, com
efeito, muito difícil salvar uma civilização quando lhe chegou a
hora de cair sob o poder dos demagogos. Os demagogos têm sido apenas
os grandes estranguladores de civilizações. A grega e a romana
sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante, que fazia Macaulay
exclamar: "Em todos os séculos, os exemplos mais vis da natureza
humana deparam-se entre os demagogos" (17). Mas
um homem não é demagogo somente porque se ponha a gritar ante a
multidão. Isso pode ser em ocasiões uma magistratura sacrossanta. A
demagogia essencial do demagogo está dentro de sua mente, radica em
sua irresponsabilidade ante as idéias mesmas que maneja e que ele
não criou, mas recebeu dos verdadeiros criadores. A demagogia é uma
forma de degeneração intelectual, que como amplo fenômeno da
história européia aparece na França em 1750. Por que então? Por que
na França? Este é um dos pontos nevrálgicos do destino ocidental e
especialmente do destino francês.
Isso é o que, desde então, crê a França, e por sua irradiação,
quase todo o continente, que o método para resolver os grandes
problemas humanos é o método da revolução, entendendo por tal o que
já Leibnitz chamava uma "revolução geral" (18),
a vontade de transformar de chofre tudo e em todos os gêneros
(19). Graças a isso essa maravilha que é a
França chega em más condições à difícil conjuntura do presente.
Porque esse país tem ou crê que tem uma tradição revolucionária. E
se ser revolucionário é já coisa grave, quanto mais sê-lo,
paradoxalmente, por tradição! É verdade que na França fez-se uma
Grande Revolução e várias torvas ou ridículas; mas, se nos atemos à
verdade nua dos anais, o que encontramos é que essas revoluções
serviram principalmente para que durante todo um século, salvo uns
dias ou umas semanas, a França tenha vivido mais que outro qualquer
povo sob formas políticas, em maior ou menor escala, autoritárias e
contra-revolucionárias. Sobretudo, a grande depressão moral da
história francesa que foram os vinte anos do Segundo Império,
deveu-se bem claramente à extravagância dos revolucionários de 1848
(20), grande parte dos quais confessou o próprio
Raspail que haviam sido antes clientes seus.
Nas revoluções tenta a abstração sublevar-se contra o concreto;
por isso é consubstancial às revoluções o fracasso. Os problemas
humanos não são, como os astronômicos ou os químicos, abstratos. São
problemas de máxima concreção, porque são históricos. E o único
método de pensamento que proporciona alguma probabilidade de acerto
em sua manipulação é a "razão histórica". Quando se contempla
panoramicamente a vida pública da França durante os últimos cento e
cinqüenta anos, salta à vista que seus geômetras, seus físicos e
seus médicos se equivocaram sempre em seus juízos políticos, e que
conseguiram ao contrário, acertar seus historiadores. Mas o
racionalismo físico-matemático tem sido na França demasiado glorioso
para que não tiranize a opinião pública. Malebranche rompe com um
amigo seu porque viu sobre sua mesa um Tucídides
(21).
Estes meses passados, impelindo minha solidão pelas ruas de
Paris, compreendi que eu não conhecia ninguém na grande cidade,
salvo as estátuas. Algumas destas, entretanto, são velhas amizades,
antigas incitações ou perenes mestres de minha intimidade. E como
não tinha com quem falar, conversei com elas sobre grandes temas
humanos. Não sei se algum dia sairão à luz estas Conversaciones con
estatuas, que dulcificaram uma etapa dolorosa e estéril de minha
vida. Nelas se raciocina com o marquês de Condorcet, que está no
Quai Conti, sobre a perigosa idéia do progresso. Com o pequeno busto
de Comte que há em seu departamento da rue Monsieur-le-Prince falei
sobre pouvoir spirituel, insuficientemente exercido por mandarins
literários e por uma Universidade que ficou completamente excêntrica
diante da efetiva vida das nações. Ao mesmo tempo tive a honra de
receber o encargo de uma enérgica mensagem que esse busto dirige ao
outro, ao grande, erigido na praça de Sorbonne, e que é o busto do
falso Comte, do oficial, do de Littré. Mas era natural que me
interessasse sobretudo em ouvir uma vez mais a palavra do nosso sumo
mestre Descartes, o homem a quem a Europa mais deve.
O puro acaso que ciranda minha existência fez que eu redija
estas linhas tendo à vista o lugar da Holanda em que habitou em 1642
o novo descobridor da raison. Este lugar, chamado Endageest, cujas
árvores dão sombra a minha janela, é hoje um manicômio. Duas vezes
ao dia - em admoestadora vizinhança - vejo passar os idiotas e os
dementes que arejam por momentos à intempérie sua malograda
humanidade.
Três séculos de experiência "racionalista" obrigam-nos a
rememorar o esplendor e os limites daquela prodigiosa raison
cartesiana. Esta raison é só matemática, física, biológica. Seus
fabulosos triunfos sobre a natureza, superiores a quanto pudera
sonhar-se, sublinham tanto mais seu fracasso ante os assuntos
propriamente humanos e convidam a integrá-la em outra razão mais
radical, que é a "razão histórica" (22).
Esta nos mostra a vaidade de toda revolução geral, de tudo
quanto seja tentar a transformação súbita de uma sociedade e começar
de novo a história, como pretendiam os confusonários do 89. Ao
método da revolução opõe o único digno da larga experiência que o
europeu atual tem atrás de si. As revoluções tão incontinentes em
sua pressa, hipocritamente generosa, de proclamar direitos, violaram
sempre, espezinhado e esfarrapado, o direito fundamental do homem,
tão fundamental que é a definição mesma de sua substância: o direito
à continuidade. A única diferença radical entre a história humana e
a "história natural" é que aquela não pode nunca começar de novo.
Köhler e outros mostraram como o chimpanzé e o orangotango não se
diferenciam do homem pelo que, falando rigorosamente, chamamos
inteligência, mas porque têm muito menos memória que nós. Os pobres
animais cada manhã esquecem quase tudo que viveram no dia anterior,
e seu intelecto tem de trabalhar sobre um mínimo material de
experiências. Semelhantemente, o tigre de hoje é idêntico ao de seis
mil anos, porque cada tigre tem de começar de novo a ser tigre, como
se não houvesse outro antes. O homem, pelo contrário, mercê de seu
poder de recordar, acumula seu próprio passado, possui-o e o
aproveita. O homem não é nunca um primeiro homem: começa desde logo
a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. Este é o
tesouro único do homem, seu privilégio e sua marca. E a riqueza
menor desse tesouro consiste no que dele pareça acertado e digno de
conservar-se: o importante é a memória dos erros, que nos permite
não cometer os mesmos sempre. O verdadeiro tesouro do homem é o
tesouro dos seus erros, a extensa experiência vital decantada gota a
gota em milênios. Por isso Nietzsche define o homem superior como o
ser "de memória mais desenvolvida."
Romper a continuidade com o passado, querer começar de novo, é
aspirar a descer e plagiar o orangotango. Apraz-me que seja um
francês, Dupont-White, que em 1860 se atrevesse a clamar: "La
continuité est un droit de l'homme; elle est un hommage à tout ce
qui le distingue de la bête" (23).
Diante de mim está um jornal em que acabo de ler o relato das
festas com que a Inglaterra celebrou a coroação do novo rei. Diz-se
que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente
simbólica. Isso é verdade, mas dizendo-o assim deixamos escapar o
melhor. Porque, efetivamente, a Monarquia não exerce no Império
britânico nenhuma função material e palpável. Seu papel não é
governar, nem administrar a justiça, nem mandar o Exército. Mas nem
por isso é uma instituição vazia, carente de serviço. A Monarquia da
Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a
de simbolizar. Por isso o povo inglês, com deliberado propósito, deu
agora inusitada solenidade ao rito da coroação. Ante a turbulência
atual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam
sua vida. Deu-nos mais uma lição. Como sempre - já que a Europa
sempre pareceu um tropel de povos -, os continentais, cheios de
gênio, mas isentos de serenidade, nunca maduros, sempre pueris, e ao
fundo, atrás deles, a Inglaterra... como a nurse da Europa.
Este é o povo que sempre chegou antes ao porvir, que se
antecipou a todos em quase todas as ordens. Praticamente deveríamos
omitir o quase. E eis aqui que este povo nos obriga, com certa
impertinência do mais puro dandysmo, a presenciar seu vetusto
cerimonial e a ver como atuam - porque não deixaram nunca de ser
atuais os mais velhos e mágicos utensílios de sua história, a coroa
e o cetro que entre nós regem apenas a sorte do baralho. O inglês
faz empenho de nos fazer constar que seu passado, precisamente
porque passou, porque lhe passou, continua existindo para ele. Desde
um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louçã de seu
pretérito (24), Este povo circula por todo o seu
tempo, é verdadeiramente senhor de seus séculos, que conserva em
ativa posse. E isso é ser um povo de homens: poder hoje continuar no
seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro, poder existir
no verdadeiro presente, já que o presente é só a presença do passado
e do porvir, o lugar onde pretérito e futuro efetivamente existem.
Com as festas simbólicas da coroação, a Inglaterra opôs, mais
uma vez, ao método revolucionário o método da continuidade, o único
que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico
que faz da história uma luta ilustre e perene entre os paralíticos e
os epiléticos.
V
Como nestas páginas se faz a anatomia do homem hoje dominante,
procedo partindo de seu aspecto externo, por assim dizer, de sua
pele, e depois penetro um pouco mais em direção a suas vísceras. Daí
por que sejam os primeiros capítulos os que mais caducaram. A pele
do tempo mudou. O leitor deveria, ao ler esses capítulos, retroceder
aos anos 1926-1928. Já começou a crise na Europa, mas ainda parece
uma de tantas. As pessoas ainda sentem-se em segurança. Ainda gozam
os luxos da inflação. E, sobretudo, pensava-se: aí está a América!
Era a América da fabulosa prosperity.
O único do que vai dito nestas páginas que me inspira algum
orgulho, é não haver incorrido no inconcebível erro de ótica que
sofreram então quase todos os europeus, inclusive os próprios
economistas. Porque não convém esquecer que então se pensava mui
seriamente que os americanos haviam descoberto outra organização da
vida que anulava para sempre as perpétuas pragas humanas que são as
crises. Eu me envergonhava de que os europeus, inventores do mais
elevado que até agora se inventou - o sentido histórico -,
mostrassem carecer dele completamente. O velho lugar comum de que a
América é o porvir havia nublado por instantes sua perspicácia. Tive
então a coragem de me opor a semelhante deslize, sustentando que a
América, longe de ser o futuro, era, na realidade, um remoto passado
porque era primitivismo. E, também contra o que se crê, era-o e o é
muito mais a América do Norte do que a América do Sul, a hispânica.
Hoje a coisa vai sendo clara e os Estados Unidos não enviam já ao
velho continente senhoritas para - como me dizia uma naquela ocasião
- "convencer-se de que na Europa não há nada interessante"
(25).
Violentando-me isolei neste quase-livro, do problema total que
e para o homem e especialmente para o homem europeu seu imediato
porvir, um só fator: a caracterização do homem médio que hoje se vai
apoderando de tudo. Isto me obrigou a um duro ascetismo, à abstenção
de expressar minhas convicções sobre tudo quanto toco de passagem.
Mais ainda: a apresentar freqüentemente as coisas em forma que se
era a mais favorável para aclarar o tema exclusivo deste estudo, era
a pior para deixar ver minha opinião sobre estas coisas. Basta
assinalar uma questão, embora fundamental. Medi o homem médio quanto
a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto a sua
adesão à cultura. Dir-se-ia que essas duas coisas - a civilização e
a cultura - não são para mim questões. A verdade é que elas são
precisamente o que ponho em questão quase desde meus primeiros
estudos. Mas eu não devia complicar os assuntos. Qualquer que seja
nossa atitude ante a civilização e a cultura, está aí, como um fator
de primeira ordem com que se deve contar, a anomalia representada
pelo homem-massa. Por isso urgia isolar cruamente seus sintomas.
Não deve, pois, o leitor francês esperar mais deste volume, que
não é, no final das contas, senão um ensaio de serenidade em meio à
tormenta. JOSE ORTEGA Y GASSET. "Het Witte Huis".
Oegstgeest-Holanda, maio, 1937.
PRIMEIRA PARTE
A REBELIÃO DAS MASSAS
I. O FATO DAS AGLOMERAÇÕES (26)
Há um fato que, para bem ou para mal, é o mais importante na
vida pública européia da hora presente. Este fato é o advento das
massas ao pleno poderio social. Como as massas, por definição, não
devem nem podem dirigir sua própria existência, e menos reger a
sociedade, quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise
que a povos, nações, culturas, cabe padecer. Esta crise sobreveio
mais de uma vez na história. Sua fisionomia e suas conseqüências são
conhecidas. Também se conhece seu nome. Chama-se a rebelião das
massas.
Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar,
desde já, às palavras "rebelião", "massas", "poderio social", etc.
um significado exclusivo ou primariamente político. A vida pública
não é só política, mas, ao mesmo tempo e ainda antes, intelectual,
moral, econômica, religiosa; compreende todos os usos coletivos e
inclui o modo de vestir e o modo de gozar.
Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno
histórico consista em referir-nos a uma experiência visual,
sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da
cara.
Simplicíssima de enunciar, ainda que não de analisar, eu a
denomino o fato da aglomeração, do "cheio". As cidades estão cheias
de gente. As casas cheias de inquilinos. Os hotéis cheios de
hóspedes. Os trens, cheios de viajantes. Os cafés, cheios de
consumidores. Os passeios, cheios de transeuntes. As salas dos
médicos famosos, cheias de enfermos. Os espetáculos, desde que não
sejam muito extemporâneos, cheios de espectadores. As praias, cheias
de banhistas. O que antes não era problema, começa a sê-lo quase de
contínuo: encontrar lugar.
Nada mais. Há fato mais simples, mais notório, mais constante,
na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta
observação, e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo
inesperado, onde a branca luz do dia, deste dia, do presente, se
decompõe em todo o seu rico cromatismo interior.
Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a
multidão, como tal, possuidora dos locais e utensílios criados pela
civilização. Apenas refletimos um pouco, nos surpreendemos de nossa
surpresa. Mas quê, não é o ideal? O teatro tem suas localidades para
que se ocupem; portanto, para que a sala esteja cheia. E do mesmo
modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. Sim;
não há dúvida. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos
e veículos costumavam estar cheios, e agora transbordam, fica fora
gente afanosa de usufruí-los. Embora o fato seja lógico, natural,
não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim;
portanto, que houve uma mudança, uma inovação, a qual justifica,
pelo menos no primeiro momento, nossa surpresa.
Surpreender-se, estranhar, é começar a entender. E o esporte e
o luxo específico do intelectual. Por isso sua atitude gremial
consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza.
Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem
abertas. Isso, maravilhar-se, é a delícia vedada ao futebolista e
que, ao contrário, leva o intelectual pelo mundo em perpétua
embriaguez de visionário. Seu atributo são os olhos em pasmo. Por
isso, os antigos deram a Minerva a coruja, o pássaro com os olhos
sempre deslumbrados.
A aglomeração, ou cheio, antes não era freqüente. Por que o é
agora?
Os componentes dessas multidões não surgiram do nada.
Aproximadamente, o mesmo número de pessoas existia há quinze anos.
Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. Aqui
topamos, entretanto, com a primeira nota importante. Os indivíduos
que integram estas multidões preexistiam, mas não como multidão.
Repartidos pelo mundo em pequenos grupos, ou solitários, levavam uma
vida, pelo visto, divergente, dissociada, distante. Cada qual -
indivíduo ou pequeno grupo - ocupava o lugar, talvez o seu, no
campo, na aldeia, na vila, no bairro da grande cidade.
Agora, de repente, aparecem sob a espécie de aglomeração, e
nossos olhos vêm por toda a parte multidões. Por toda a parte? Não,
não; precisamente nos lugares melhores, criação realmente refinada
da cultura humana, reservados antes a grupos menores, em definitiva,
a minorias.
A multidão, de repente, tornou-se visível, e instalou-se nos
lugares preferentes da sociedade. Antes, se existia, passava
inadvertida, ocupava o fundo do cenário social; agora adiantou-se
até às gambiarras, ela é o personagem principal. Já não há
protagonistas: só há coro.
O conceito de multidão é quantitativo e visual. Traduzamo-lo,
sem alterá-lo, à terminologia sociológica. Então achamos a idéia de
massa social. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois
fatores: minorias e massas. As minorias são indivíduos ou grupos de
indivíduos especialmente qualificados. A massa é o conjunto de
pessoas não especialmente qualificadas. Não se entenda, pois, por
massas só nem principalmente "as massas operárias ". Massa é "o
homem médio". Deste modo se converte o que era meramente quantidade
- a multidão - numa determinação qualitativa: é a qualidade comum, é
o mostrengo social, é o homem enquanto não se diferencia de outros
homens, mas que repete em si um tipo genérico. Que ganhamos com esta
conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio
desta compreendemos a gênese daquela. E evidente, até acaciano, que
a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos,
idéias, de modo de ser nos indivíduos que a integram. Dir-se-á que é
o que acontece com todo grupo social, por seleto que pretenda ser.
Com efeito; mas há uma diferença essencial.
Nos grupos que se caracterizam por não ser multidão e massa, a
coincidência efetiva de seus membros consiste em algum desejo, idéia
ou ideal, que por si exclui o grande número. Para formar uma
minoria, seja qual seja, é preciso que antes cada qual se separe da
multidão por razões essenciais, relativamente individuais. Sua
coincidência com os outros que formam a minoria é, pois, secundário,
posterior a haver-se cada qual singularizado, e é, portanto, em boa
parte uma coincidência em não coincidir. Há casos em que esse
caráter singularizador do grupo aparece a céu descoberto: os grupos
ingleses que se chamam a si mesmos "não conformistas", isto é, a
agrupação dos que concordam só em sua desconformidade a respeito da
multidão ilimitada. Este ingrediente de juntarem-se os menos
precisamente para separar-se dos demais vai sempre misturado na
formação de toda minoria. Falando do reduzido público que ouvia um
músico refinado, diz graciosamente Mallarmé que aquele público
salientava com a presença de sua escassez a ausência multitudinária.
A rigor, a massa pode definir-se, como fato psicológico, sem
necessidade de esperar que apareçam os indivíduos em aglomeração.
Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. Massa é
todo aquele que não se valoriza a si mesmo - no bem ou no mal - por
razões especiais, mas que se sente "como todo o mundo", e,
entretanto, não se angustia, sente-se à vontade ao sentir-se
idêntico aos demais. Imagine-se um homem humilde que ao tentar
valorizar-se por razões especiais - ao perguntar de si para si se
tem talento para isto ou para aquilo, se sobressai em alguma ordem -
adverte que não possui nenhuma qualidade excelente. Este homem
sentir-se-á medíocre e vulgar, e mal dotado; mas não se sentirá
"massa".
Quando se fala de "minorias seletas", a velhacaria habitual
costuma tergiversar o sentido desta expressão, fingindo ignorar que
o homem seleto não é o petulante que se supõe superior aos demais,
mas o que exige mais de si que os demais, embora não consiga cumprir
em sua pessoa essas exigências superiores. E é indubitável que a
divisão mais radical que cabe fazer na humanidade, é esta em duas
classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si
mesmas dificuldades e deveres, e as que não exigem de si nada
especial, mas que para elas viver é ser em cada instante o que já
são, sem esforço de perfeição em si mesmas, bóias que vão à deriva.
Isto me lembra que o budismo ortodoxo se compõe de duas
religiões distintas: uma, mais rigorosa e difícil; outra, mais
frouxa e trivial; ou Mahayana - "grande veículo" ou "grande carril"
- e o Hinayana - "pequeno veículo", "caminho menor". O decisivo é se
pomos nossa vida num ou no outro veículo, a um máximo de exigências
ou a um mínimo.
A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é,
portanto, uma divisão em classes sociais, mas em classes de homens,
e não pode coincidir com a jerarquização em classes superiores e
inferiores. Claro está que nas superiores, quando chegam a sê-lo e
enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens
que adotam o "grande veículo", enquanto as inferiores estão
normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade. Mas, a rigor,
dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. Como
veremos, é característico do tempo o predomínio, ainda nos grupos
cuja tradição era seletiva, da massa e do vulgo. Assim, na vida
intelectual, que por sua própria essência requer e supõe a
qualificação, adverte-se o progressivo triunfo dos
pseudo-intelectuais inqualificados, inqualificáveis e
desclassificados por sua própria contextura. O mesmo nos grupos
sobreviventes da "nobreza" masculina e feminina. A seu turno, não é
raro encontrar hoje entre os obreiros, que antes podiam valer como o
exemplo mais puro disto que chamamos "massa", almas egregiamente
disciplinadas.
Ora bem: existem na sociedade operações, atividades, funções da
ordem mais diversa, que são, por sua mesma natureza, especiais, e,
conseqüentemente, não podem ser bem executadas sem dotes também
especiais. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e
luxuoso, ou bem as funções de governo e de juízo político sobre os
assuntos públicos. Antes eram exercidas estas atividades especiais
por minorias qualificadas - qualificadas, pelo menos, em pretensão
-. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria
intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e
deixar de ser massa. Conhecia seu papel numa saudável dinâmica
social.
Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio, eles
nos aparecerão inequivocamente como núncios de uma mudança de
atitude na massa. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para
o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e
gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. É evidente que, por
exemplo, os locais não estavam premeditados para as multidões, posto
que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde
constantemente deles, demonstrando aos olhos e com linguagem visível
o fato novo: a massa, que, sem deixar de sê-lo, suplanta as
minorias.
Ninguém, creio eu, deplorará que as pessoas gozem hoje em maior
medida e número que antes, já que têm para isso os apetites e os
meios. O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as
atividades próprias das minorias, não se manifesta, nem pode
manifestar-se, só na ordem dos prazeres, mas que é uma maneira geral
do tempo. Assim - antecipando o que logo veremos -, creio que as
inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra
coisa senão o império político das massas. A velha democracia vivia
temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela
lei. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a
sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. Ao amparo do princípio
liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias.
Democracia e Lei, convivência legal, eram sinônimos. Hoje assistimos
ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente
sem lei, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e
seus gostos. É falso interpretar as situações novas como se a massa
se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais
seu exercício. Pelo contrário. Isso era o que antes acontecia, isso
era a democracia liberal. A massa presumia que, no final das contas,
com todos os seus defeitos e vícios, as minorias dos políticos
entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. Agora, por
sua vez, a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei a
seus tópicos de café. Eu duvido que tenha havido outras épocas da
história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como
em nosso tempo. Por isso falo de hiperdemocracia.
O mesmo acontece nas demais ordens, muito especialmente na
intelectual. Talvez cometa eu um erro; mas o escritor, ao tomar da
pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente, deve
pensar que o leitor médio, que nunca se ocupou do assunto, se o lê,
não é com o fim de aprender algo dele, mas, pelo contrário, para
sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que
este leitor tem na cabeça. Se os indivíduos que integram a massa se
acreditassem especialmente dotados, teríamos não mais de um caso de
erro pessoal, mas não uma subversão sociológica. O característico do
momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de
afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. Como se
diz na América do Norte: ser diferente é indecente. A massa atropela
tudo que é diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto.
Quem não seja como todo o mundo, quem não pense como todo o mundo,
corre o risco de ser eliminado. E claro está que esse "todo o mundo"
não é "todo o mundo". "Todo o mundo" era, normalmente, a unidade
complexa de massa e minorias discrepantes, especiais. Agora todo o
mundo é só a massa.
II. A ASCENSÃO DO NÍVEL HISTÓRICO
Este é o fato formidável do nosso tempo, descrito sem ocultar a
brutalidade de sua aparência. É, ademais, de uma absoluta novidade
na história de nossa civilização. Jamais, em todo o seu
desenvolvimento, aconteceu nada semelhante. Se temos de achar algo
semelhante, teríamos de pular fora de nossa história e submergir-nos
em um orbe, em um elemento vital, completamente diferente do nosso;
teríamos de insinuar-nos no mundo antigo, e chegar a sua hora de
declinação. A história do Império romano é também a história da
subversão, do império das massas que absorvem e anulam as minorias
dirigentes e se colocam em seu lugar. Então se produz também o
fenômeno da aglomeração, do cheio. Por isso, como observou muito bem
Spengler, foi preciso construir, como se faz agora, edifícios
enormes. A época das massas é a época do colossal
(27).
Vivemos sob o brutal império das massas. Perfeitamente; já
chamamos duas vezes "brutal" a este império, já pagamos nosso
tributo ao deus dos tópicos; agora, com o bilhete na mão, podemos
alegremente ingressar no tema, ver por dentro o espetáculo. Ou
supunha-se que eu ia contentar-me com essa descrição, talvez exata,
mas externa, que é só a fachada, o frontispício sob os quais se
apresenta o fato tremendo quando é olhado desde o passado? Se eu
deixasse aqui este assunto e estrangulasse meu presente ensaio,
ficaria o leitor pensando, muito justamente, que este fabuloso
advento das massas à superfície da história não me inspirava outra
coisa senão algumas palavras displicentes, desdenhosas, um pouco de
abominação e outro pouco de repugnância; a mim, de quem é notório
que sustento uma interpretação da história radicalmente
aristocrática (28) É radical, porque eu não
disse nunca que a sociedade humana deva ser aristocrática, mas muito
mais que isso. Eu disse e continuo crendo, cada dia com mais
enérgica convicção, que a sociedade humana é aristocrática sempre,
queira ou não, por sua própria essência, até o ponto de que é
sociedade na medida em que seja aristocrática, e deixa de sê-lo na
medida em que se desaristocratize. Bem entendido que falo da
sociedade e não do Estado. Ninguém pode acreditar que diante deste
fabuloso encrespamento da massa, seja o aristocrático contentar-se
com fazer um breve trejeito amaneirado, como um fidalgote de
Versalhes. Versalhes - entende-se esse Versalhes dos trejeitos - não
é aristocracia, é o seu oposto: é a morte e a putrefação de uma
magnífica aristocracia. Por isso, de verdadeiramente aristocrático
só restava naqueles seres a graça digna com que sabiam receber em
seu pescoço a visita da guilhotina; aceitavam-na como o tumor aceita
o bisturi. Não: a quem sinta a missão profunda das aristocracias, o
espetáculo da massa o incita e aviva como ao escultor a presença do
mármore virgem. A aristocracia social não se parece nada a esse
grupo reduzidíssimo que pretende assumir para si íntegro o nome de
"sociedade", que se chama a si mesmo "a sociedade" e que vive
simplesmente de convidar-se ou de não convidar-se. Como tudo no
mundo tem sua virtude e sua missão, também tem as suas dentro do
vasto mundo este pequeno "mundo elegante", mas uma missão muito
subalterna e incomparável com a faina hercúlea das autênticas
aristocracias. Eu não teria inconveniente em falar sobre o sentido
que possui essa vida elegante, em aparência tão sem sentido; mas
nosso tema é agora outro de maiores proporções. Certamente que essa
mesma "sociedade distinta" está de acordo com o tempo. Muito me fez
meditar certa damazinha em flor, toda juventude e atualidade,
estrela de primeira grandeza no zodíaco da elegância madrilenha,
porque me disse: "Eu não tolero um baile ao qual tenham sido
convidadas menos de oitocentas pessoas". Através desta frase vi que
o estilo das massas triunfa hoje sobre toda a área da vida e se
impõe ainda naqueles últimos rincões que pareciam reservados aos
happy few.
Repilo, pois, igualmente, toda interpretação de nosso tempo que
não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das
massas e das que o aceitam, beatamente, sem estremecer de espanto.
Todo destino é dramático e trágico em sua profunda dimensão. Quem
não tenha sentido na mão palpitar o perigo do tempo, não chegou à
entranha do destino, não fez mais senão acariciar sua mórbida face.
No nosso, o ingrediente terrível é posto pela atropelante e violenta
sublevação moral das massas, imponente, indomável e equívoca como
todo destino. Para onde nos leva? É um mal absoluto, ou um bem
possível? Aí está, colossal, instalada sobre nosso tempo como um
gigante, cósmico sinal de interrogação, o qual tem sempre uma forma
equívoca, com algo, efetivamente, de guilhotina ou de forca mas
também com algo que quisera ser um arco triunfal!
O fato de que necessitamos submeter a anatomia pode formular-se
sob estas duas rubricas: primeira, as massas exercitam hoje um
repertório vital que coincide, em grande parte, com o que antes
parecia reservado exclusivamente às minorias; segunda, ao mesmo
tempo as massas tornaram-se indóceis diante das minorias; não lhes
obedecem, não as seguem, não as respeitam, mas, pelo contrário, as
puseram de lado e as suplantam.
Analisemos a primeira rubrica. Quero dizer com ela que as
massas gozam dos prazeres e usam os utensílios inventados pelos
grupos seletos e que antes só estes usufruíam. Sentem apetites e
necessidades que antes se qualificavam de refinamentos, porque eram
patrimônios de poucos. Um exemplo trivial: em 1820 não havia em
Paris dez quartos de banho em casas particulares; vejam-se as
Memórias da comtesse de Boigne. Mais ainda: as massas conhecem e
empregam hoje, com relativa suficiência, muitas das técnicas que
antes só os indivíduos especializados manejavam.
E não apenas as técnicas materiais, mas, o que é mais
importante, as técnicas jurídicas e sociais. No século XVIII, certas
minorias descobriram que todo indivíduo humano, pelo mero fato de
nascer, e sem necessidade de qualificação alguma, possuía certos
direitos políticos fundamentais, os chamados direitos do homem e do
cidadão, e que, a rigor, estes direitos comuns a todos são os únicos
existentes. Todo outro direito imposto a dotes especiais ficava
condenado como privilégio. Isto foi, primeiro, um puro teorema e
idéia de uns poucos; depois, esses poucos começaram a usar
praticamente dessa idéia, a impô-la e reclamá-la: as minorias
melhores. Não obstante, durante todo o século XIX a massa, que se ia
entusiasmando com a idéia desses direitos como com um ideal, não os
sentia em si, não os exercitava nem fazia valer senão de fato, sob
as legislações democráticas, continuava vivendo, continuava
sentindo-se a si mesma como no antigo regime. O "povo" - segundo
então era chamado -, o "povo" sabia já que era soberano; mas não
acreditava nisso. Hoje aquele ideal converteu-se numa realidade, não
já nas legislações, que são esquemas externos da vida pública, mas
no coração de todo indivíduo, quaisquer que sejam as suas idéias,
inclusive quando as suas idéias são reacionárias; quer dizer,
inclusive quando esmaga e tritura as instituições onde aqueles
direitos se sancionam. A meu juízo, quem não entende esta curiosa
situação das massas não pode compreender nada do que hoje começa a
acontecer no mundo. A soberania do indivíduo não qualificado, do
indivíduo humano genérico e como tal, passou, de idéia ou ideal
jurídico que era, a ser um estado psicológico constitutivo do homem
médio. E note-se bem: quando algo que foi ideal se faz ingrediente
da realidade, inexoravelmente deixa de ser ideal. O prestígio e a
magia autorizante, que são atributos do ideal, que são seu efeito
sobre o homem, se volatilizam. Os direitos niveladores da generosa
inspiração democrática converteram-se, de aspirações de ideais, em
apetites de supostos inconscientes.
Ora bem: o sentido daqueles direitos não era outro senão tirar
as almas humanas de sua interna servidão e proclamar dentro delas
certa consciência de senhorio e dignidade. Não era isto que se
queria? Que o homem médio se sentisse amo, dono, senhor de si mesmo
e de sua vida? Já está conseguido. Por que se queixam os liberais,
os democratas, os progressistas de há 30 anos? Ou é que, como os
meninos querem uma coisa, mas não suas conseqüências? Quer-se que o
homem médio seja senhor. Então não estranhe que atue por si, que
reclame todos os prazeres, que imponha decidido sua vontade, que se
negue a toda servidão, que não continue dócil, que cuide de sua
pessoa e seus ócios, que componha sua indumentária: são alguns dos
atributos perenes que acompanham a consciência de senhorio. Hoje os
achamos residindo no homem médio, na massa.
Julgamos pois, que a vida do homem médio está agora constituída
pelo repertório vital que antes caracterizava só as minorias
culminantes. Ora bem: o homem médio representa a área sobre que se
move a história de cada época; é na história o que é o nível do mar
na geografia. Se, pois, o nível médio se acha hoje onde antes só
tocavam as aristocracias, quer dizer-se lisa e lhanamente que o
nível da história ascendeu de repente - depois de largas e
subterrâneas preparações, mas em sua manifestação, de repente -, de
um salto, numa geração. A vida humana, em totalidade, ascendeu. O
soldado do dia, diríamos, tem muito de capitão; o exército humano se
compõe já de capitães. Basta ver a energia, a resolução, o
desembaraço com que qualquer indivíduo luta hoje pela existência,
agarra o prazer que passa, impõe sua decisão.
Todo o bem, todo o mal do presente e do imediato porvir tem
neste ascenso geral do nível histórico sua causa e sua raiz.
Mas agora nos ocorre uma advertência impremeditada. Isso, que o
nível médio da vida seja o das antigas minorias, é um fato novo na
história; mas era o fato nativo, constitucional, da América. Pense o
leitor, para ver clara minha intenção, na consciência de igualdade
jurídica. Esse estado psicológico de sentir-se amo e senhor de si e
igual a qualquer outro indivíduo, que na Europa só os grupos
preeminentes conseguiam adquirir, é o que desde o século XVIII,
praticamente desde sempre, acontecia na América. E nova
coincidência, ainda mais curiosa! Ao aparecer na Europa esse estado
psicológico do homem médio, ao subir o nível de sua existência
integral, o tom e maneiras da vida européia em todas as ordens
adquire de repente uma fisionomia que fez muitos dizer: "A Europa
está se americanizando". Os que isto diziam não davam ao fenômeno
importância maior; acreditavam que se tratava de uma leve mudança
nos costumes, de uma moda, e, desorientados pelo parecido externo, o
atribuíam a não se sabe que influxo da América na Europa. Com isso,
a meu juízo, banalizou-se a questão, que é muito mais sutil e
surpreendente e profunda.
A galanteria tenta agora subornar-me para que eu diga aos
homens de Ultramar que, com efeito, a Europa se americanizou e que
isto é devido a um influxo da América na Europa. Mas não: a verdade
entra agora em colisão com a galanteria, e deve triunfar. A Europa
não se americanizou. Não recebeu ainda influxo grande da América.
Tanto um como outro, eventualmente, iniciam-se agora mesmo; mas não
se produziram no próximo passado, de que o presente é broto. Há aqui
um cúmulo desesperante de idéias falsas que nos estorvam a visão
tanto aos americanos como aos europeus. O triunfo das massas e a
conseguinte magnífica ascensão de nível vital aconteceu na Europa
por razões internas, depois de dois séculos de educação progressista
das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da
sociedade. Mas isso é que o resultado coincide com o traço mais
decisivo da existência americana; e por isso, porque coincide a
situação moral do homem médio europeu com a do americano, aconteceu
que pela primeira vez o europeu entende a vida americana, que antes
lhe era um enigma e um mistério. Não se trata, pois, de um influxo,
que seria um pouco estranho, que seria um refluxo, mas do que menos
se suspeita ainda: trata-se de uma nivelação. Desde sempre se
entrevia obscuramente pelos europeus que o nível médio da vida era
mais alto na América que no velho continente. A intuição, pouco
analítica, mas evidente deste fato, deu origem à idéia, sempre
aceita, nunca posta em dúvida, de que a América era o porvir.
Compreender-se-á que idéia tão ampla e tão arraigada não podia vir
do vento, como dizem que as orquídeas se criam sem raízes no ar. O
fundamento era aquela entrevisão de um nível mais elevado na vida
média de Ultramar, que contrastava com o nível inferior das minorias
melhores da América comparadas com as européias. Mas a história,
como a agricultura, nutre-se dos vales e não dos cumes, da altitude
média social e não das eminências.
Vivemos em tempo de nivelações: nivelam-se as fortunas,
nivela-se a cultura entre as diferentes classes sociais, nivelam-se
os sexos. Pois bem: também se nivelam os continentes. E como o
europeu se achava vitalmente mais baixo, nesta nivelação não fez
senão ganhar. Portanto, olhada deste lado, a subversão das massas
significa um fabuloso aumento de vitalidade e possibilidades; tudo
ao contrário, pois, do que ouvimos tão amiúde sobre a decadência da
Europa. Frase confusa e tosca, onde não se sabe bem de que se fala,
se dos Estados europeus, da cultura européia ou do que está sob tudo
isso e importa infinitamente mais que tudo isto, a saber: da
vitalidade européia. Dos Estados e da cultura européia diremos algum
vocábulo mais adiante - e talvez a frase supradita valha para eles
-; mas quanto à vitalidade, convém desde logo fazer constar que se
trata de um erro crasso. Dita de outro modo, talvez minha afirmação
pareça mais convincente e menos inverossímil; digo, pois, que hoje
um italiano médio, um espanhol médio, um alemão médio, se
diferenciam menos em tom vital de um ianque ou de um argentino que
há trinta anos. E este é um dado que os americanos não devem
esquecer.
III. A ALTURA DOS TEMPOS
O império das massas apresenta, pois, um aspecto favorável
enquanto significa uma subida de todo o nível histórico, e revela
que a vida média se move hoje em altura superior à que ontem pisava.
O que nos faz compreender que a vida pode ter altitudes diferentes,
e que é uma frase cheia de sentido a que sem sentido sói repetir-se
quando se fala da altura dos tempos. Convém que nos detenhamos neste
ponto, porque ele nos proporciona a maneira de fixar um dos
caracteres mais surpreendentes de nossa época.
Diz-se, por exemplo, que esta ou a outra coisa não é própria da
altura dos tempos. Com efeito: não o tempo abstrato da cronologia,
que é todo ele chão, mas o tempo vital, o que cada geração chama
"nosso tempo", tem sempre certa altitude, eleva-se ontem sobre hoje,
ou se mantém a par, ou cai por baixo. A imagem de cair, embainhada
no vocábulo decadência, procede desta intuição. Do mesmo modo cada
qual sente, com maior ou menor claridade, a relação em que sua
própria vida se encontra com a altura do tempo onde transcorre. Há
quem se sinta nos modos da existência atual como um náufrago que não
consegue sair a flutuar. A velocidade do tempo com que hoje marcham
as coisas, o ímpeto de energia com que se faz tudo, angustiam o
homem de têmpera arcaica, e esta angústia mede o desnível entre a
altura do seu pulso e a altura da época. Por outra parte, quem vive
com plenitude e a gosto as formas do presente, tem consciência da
relação entre a altura de nosso tempo e a altura das diversas idades
pretéritas. Qual é essa relação?
Fora errôneo supor que sempre o homem de uma época sente as
passadas, simplesmente porque passadas, como mais baixas de nível
que a sua. Bastaria recordar que, ao parecer de Jorge Manrique,
Qualquer tempo passado
foi melhor.
Mas isso tampouco é verdade. Nem todas as idades se sentiram
inferiores a algumas do passado, nem todas se supuseram superiores a
quantas foram e recordam. Cada idade histórica manifesta uma
sensação diferente ante esse estranho fenômeno da altura vital, e me
surpreende que não tenham reparado nunca pensadores e historiógrafos
em fato tão evidente e substancioso.
A impressão que Jorge Manrique declara tem sido certamente a
mais geral, pelo menos se se toma grosso modo. À maior parte das
épocas não lhes pareceu seu tempo mais elevado que outras idades
antigas. Ao contrário, o mais habitual tem sido que os homens
suponham em um vago pretérito tempos melhores, de existência mais
plenária: a "idade de ouro", dizemos os educados por Grécia e Roma;
a Alcheringa, dizem os selvagens australianos. Isso revela que esses
homens sentiam o pulso de sua própria vida mais ou menos falto de
plenitude, decaído, incapaz de encher por completo o canal das
veias. Por esta razão respeitavam o passado, os tempos "clássicos ",
cuja existência se lhes apresentava como algo mais amplo, mais rico,
mais perfeito e difícil que a vida de seu tempo. Ao olhar para trás
e imaginar esses séculos mais valiosos, parecia-lhes não dominá-los,
mas, ao contrário, ficar debaixo deles, como um grau de temperatura,
se tivesse consciência, sentiria que não contém em si o grau
superior; mas antes, que há neste mais calorias que nele mesmo.
Desde cento e cinqüenta anos depois de Cristo esta impressão de
encolhimento vital, de diminuição, de decair e perder pulso, cresce
progressivamente no Império Romano. Já Horácio havia cantado:
"Nossos pais, piores que nossos avós, nos engendraram ainda mais
depravados, e nós daremos uma progênie todavia mais incapaz". (Odes,
Livro III, 6.)
Aetas parentum peior avis tulit
nos nequiores, mox daturos
progeniem vitiosorem.
Dois séculos mais tarde não havia em todo o Império bastantes
itálicos medianamente valorosos com os quais preencher as praças de
centuriões, e foi necessário alugar para este ofício dálmatas, e
depois, bárbaros do Danúbio e do Reno. Enquanto isso, as mulheres
tornaram-se estéreis e a Itália se despovoou.
Vejamos agora outra classe de épocas que gozam de uma impressão
vital ao parecer a mais oposta a essa. Trata-se de um fenômeno muito
curioso que nos importa muito definir. Quando há não mais de trinta
anos os políticos peroravam ante as multidões, soíam rechaçar esta
ou outra medida de governo, tal ou qual desmando, dizendo que era
imprópria da plenitude dos tempos. É curioso recordar que a mesma
frase aparece empregada por Trajano na sua famosa carta a Plínio, ao
recomendar-lhe que não se perseguissem os cristãos em virtude de
denúncias anônimas: Nec nostri saeculi est. Houve, pois, várias
épocas na história que se sentiram como chegadas a uma altura plena,
definitiva: tempos em que se crê haver chegado ao término de uma
viagem, em que se cumpre um afã antigo e plenifica uma esperança. É
a "plenitude dos tempos", a completa madureza da vida histórica. Há
trinta anos, com efeito, acreditava o europeu que a vida humana
havia chegado a ser o que devia ser, o que desde muitas gerações se
vinha anelando que fosse, o que teria já que ser sempre. Os tempos
de plenitude se sentem sempre como resultante de muitas outras
idades preparatórias, de outros tempos sem plenitude, inferiores ao
próprio, sobre os quais vai montada esta hora bem granosa. Vistos de
sua altura, aqueles períodos preparatórios aparecem como se neles se
houvessem vivido de puro afã e ilusão não lograda; tempos de só
desejo insatisfeito, de ardentes precursores, de "ainda não", de
contraste penoso entre uma civilização clara e a realidade que não
lhe corresponde. Assim vê a Idade Média o século XIX. Por fim chega
um dia em que esse velho desejo, às vezes milenário, parece
cumprir-se; a realidade o recolhe e lhe obedece. Chegamos à altura
entrevista, à meta antecipada, ao cume do tempo! Ao "ainda não"
sucedeu o "por fim".
Esta era a sensação que de sua própria vida tinham os nossos
pais e toda a sua centúria. Não se esqueça disto: nosso tempo é um
tempo que vem depois de um tempo de plenitude. Daí que,
irremediavelmente, quem continua adscrito à outra margem, a esse
próximo plenário passado, e o olhe todo sob sua ótica, sofrerá o
espelhismo de sentir a idade presente como um cair desde a
plenitude, como uma decadência.
Mas um velho afeiçoado à história, empedernido tomador de pulso
de tempos, não se pode deixar alucinar por essa ótica da suposta
plenitude.
Segundo eu disse, o essencial para que exista "plenitude dos
tempos" é que um desejo antigo, o qual se vinha arrastando aneloso e
querulante durante séculos, por fim um dia fica satisfeito. E, com
efeito, esses tempos plenos são também satisfeitos de si mesmos; às
vezes, como no século XIX, arquisatisfeitos (29).
Mas agora compreendemos que esses séculos tão satisfeitos, tão
fruídos, estão mortos por dentro. A autêntica plenitude vital não
consiste na satisfação, na posse, na chegada. Já dizia Cervantes que
"o caminho é sempre melhor que a pousada". Um tempo que satisfez seu
desejo, seu ideal, é que já não deseja nada mais, que se lhe secou a
fonte do desejar. Isto é, que a famosa plenitude é em realidade uma
conclusão. Há séculos que por não saber renovar seus desejos morre
de satisfação, como morre o zângão afortunado depois do vôo nupcial
(30).
Daí o dado surpreendente de que essas etapas de chamada
plenitude tenham sentido sempre no sedimento de si mesmas uma
peculiaríssima tristeza.
O desejo tão lentamente gestado, e que no século XIX parece
finalmente realizar-se, é o que, resumindo, se denominou a si mesmo
"cultura moderna". Já o nome é inquietante: que um tempo se chame a
si mesmo "moderno", quer dizer, último, definitivo, diante do qual
todos os demais são puros pretéritos, modestas preparações e
aspirações para ele! Setas sem brio que erram o alvo!
(31).
Não se sonda já aqui a diferença essencial entre nosso tempo e
esse que acaba de preterir, de transpor? Nosso tempo, com efeito,
não se sente já definitivo; ao contrário, em sua raiz mesma encontra
obscuramente a intuição de que não há tempos definitivos, seguros,
para sempre cristalizados, mas que pelo contrário essa pretensão de
que um tempo de vida - o chamado "cultura moderna" - fosse
definitivo, parece-nos uma obcecação e estreiteza inverossímeis do
campo visual. E ao sentir assim percebemos uma deliciosa impressão
de nos havermos evadido de um recinto estreito e hermético, de haver
escapado, e sair de novo sob as estrelas ao mundo autêntico,
profundo, terrível, imprevisível e inesgotável, onde tudo, tudo é
possível: o melhor e o pior. A fé na cultura moderna era triste: era
saber que amanhã ia ser em todo o essencial igual a hoje, que o
progresso consistia só em avançar com todos os sempres sobre um
caminho idêntico ao que já estava sob nossos pés. Um caminho assim é
a bem dizer uma prisão que, elástica, se alarga sem nos libertar.
Quando nos começos do Império algum fino provinciano chegava a
Roma - Lucano, por exemplo, ou Sêneca - e via as majestosas
construções imperiais, símbolo de poder definitivo, sentia
contrair-se seu coração. Já nada novo podia haver no mundo. Roma era
eterna. E se há uma melancolia das ruínas, que se levanta delas como
a evaporação das águas mortas, o provinciano sensível percebia uma
melancolia não menos penosa, ainda que de signo inverso: a
melancolia dos edifícios eternos.
Diante desse estado emotivo, não é evidente que a sensação de
nossa época se parece mais à alegria e alvoroço de meninos que
escaparam da escola? Agora já não sabemos o que vai haver amanhã no
mundo, e isso secretamente nos regozija; porque isso, ser
imprevisível, ser um horizonte sempre aberto a toda possibilidade, é
a vida autêntica, é a verdadeira plenitude da vida.
Contrasta este diagnóstico, ao qual falta, é certo, sua outra
metade, com o queixume de decadência que choraminga nas páginas de
tantos contemporâneos. Trata-se de um erro ótico que provém de
múltiplas causas. Outro dia veremos algumas; mas hoje quero
antecipar a mais óbvia: provém de que, fiéis a uma ideologia, em
minha opinião perigosa, olham da história só a política ou a
cultura, e não advertem que tudo isso é só a superfície da história;
que a realidade histórica é, antes que isso e mais fundo que isso,
um puro afã de viver, uma potência parecida às cósmicas; não a
mesma, portanto, não natural, mas sim irmã da que inquieta o mar,
fecunda a fera, põe flor na árvore, faz tremeluzir a estrela.
Diante dos diagnósticos de decadência eu recomendo o seguinte
raciocínio:
A decadência é, claro está, um conceito comparativo. Decai-se
de um estado superior para um estado inferior. Ora bem: essa
comparação pode fazer-se desde os pontos de vista mais diferentes e
vários que caiba imaginar. Para um fabricante de boquilhas de âmbar,
o mundo está em decadência porque já não se fuma apenas com
boquilhas de âmbar. Outros pontos de vista serão mais respeitáveis
que este, mas, a rigor, não deixam de ser parciais, arbitrários e
externos à própria vida cujos quilates se trata precisamente de
avaliar. Não há mais que um ponto de vista justificado e natural:
instalar-se nessa vida, contemplá-la de dentro e ver se ela se sente
a si mesma decaída, isto é, minguada, debilitada e insípida.
Mas, embora olhada por dentro de si mesma, como se conhece que
uma vida se sente ou não decair? Para mim não cabe dúvida a respeito
do sintoma decisivo: uma vida que não prefere outra nenhuma de
antes, de nenhum antes, portanto, que se prefere a si mesma, não
pode em nenhum sentido sério chamar-se decadente. Toda a minha
excursão sobre o problema da altitude dos tempos perseguia esta
conclusão. Pois acontece que precisamente o nosso goza neste ponto
de uma sensação estranhíssima; que eu saiba, única até agora na
história conhecida.
Nos salões do último século chegava indefectivelmente uma hora
em que as damas e seus poetas amestrados faziam entre si esta
pergunta: Em que época quisera você haver vivido? E eis aqui que
cada um, encarnando a figura de sua própria vida, se dedicava a
vagar imaginavelmente pelas vias históricas em busca de um tempo
onde encaixar a gosto o perfil de sua existência. E é que, embora
sentindo-se, ou por sentir-se em plenitude, esse século XIX ficava,
com efeito, ligado ao passado, sobre cujos ombros acreditava estar;
via-se, com efeito, como a culminação do passado. Daí que ainda
acreditasse em épocas relativamente clássicas - o século de
Péricles, o Renascimento -, onde se haviam preparado os valores
vigentes. Isto bastaria para nos fazer suspeitar dos tempos de
plenitude; levam a cara voltada para trás, olham o passado que neles
se cumpre.
Pois bem: que diria sinceramente qualquer homem representativo
do presente a quem se fizesse uma pergunta parecida? Eu creio que
não é duvidoso: qualquer passado, sem excluir nenhum, lhe daria a
impressão de um recinto angustioso onde não podia respirar. Isto é,
que o homem do presente sente que sua vida é mais vida que todas as
antigas, ou dito às avessas, que o passado íntegro ficou pequeno
para a humanidade atual. Esta intuição de nossa vida de hoje anula
com sua claridade elemental toda lucubração sobre decadência que não
seja muito cautelosa.
Nossa vida sente-se, entretanto, de maior tamanho que todas as
vidas. Como poderá sentir-se decadente? Pelo contrário: o que
aconteceu é que, de tanto sentir-se mais vida, perdeu todo o
respeito, toda a atenção ao passado. Daí que pela primeira vez nos
encontremos com uma época que faz tábua rasa de todo classicismo,
que não reconhece em nada pretérito possível modelo ou norma, e
sobrevinda ao cabo de tantos séculos sem descontinuidade de
evolução, parece, não obstante, um começo, uma alvorada, uma
iniciação, uma infância. Olhamos para trás e o famoso Renascimento
nos parece um tempo angustiosíssimo; provincial, de atitudes vãs -
por que não dizê-lo? -, de mau gosto.
Eu resumia, há tempos, tal situação na forma seguinte: "Esta
grave dissociação de pretérito e presente é o fato geral de nossa
época e nela vai incluída a suspeita, mais ou menos confusa, que
engendra a inquietude peculiar da vida nestes anos. Sentimos que de
repente ficamos sós sobre a terra os homens atuais, que os mortos
não morreram de brincadeira, mas completamente; que já não nos podem
ajudar. O resto do espírito tradicional evaporou-se. Os modelos, as
normas, as pautas não nos servem. Temos de resolver nossos problemas
sem colaboração ativa do passado, em pleno atualismo - sejam de
arte, de ciência ou de política -. O europeu está só, sem mortos
viventes perto de si; como Pedro Schlehmil, perdeu sua sombra. E o
que acontece sempre que chega o meio-dia (32)
Qual é, em resumo, a altura de nosso tempo?
Não é plenitude dos tempos, e entretanto, sente-se sobre todos
os tempos sidos e por cima de todas as conhecidas plenitudes. Não é
fácil formular a impressão que de si mesma tem nossa época: crê ser
mais que as demais, e ao mesmo tempo sente-se como um começo, sem
estar segura de não ser agonia. Que expressão escolheremos? Talvez
esta: mais que os demais tempos e inferior a si mesma. Fortíssima e
ao mesmo tempo insegura de seu destino. Orgulhosa de suas forças e
ao mesmo tempo temendo-as.
IV. O CRESCIMENTO DA VIDA
O império das massas e o ascenso de nível, a altitude do tempo
que ele anuncia, não são por sua vez mais que sintoma de um fato
mais completo e geral. Este fato é quase grotesco e incrível em sua
simples evidência. É, simplesmente, que o mundo, de repente,
cresceu, e com ele e nele, a vida. A vida mundializou-se
efetivamente; quero dizer que o conteúdo da vida no homem de tipo
médio é hoje todo o planeta; que cada indivíduo vive habitualmente
todo o mundo. Há pouco mais de um ano, os sevilhanos acompanhavam,
hora a hora, em seus jornais populares, o que estava acontecendo com
uns homens junto ao Pólo; quero dizer, que sobre o fundo ardente da
campina bética passavam blocos de gelo à deriva. Cada pedaço de
terra não está já recluído em seu lugar geométrico, mas para muitos
efeitos vitais atua nos demais pontos do planeta. Segundo o
princípio físico de que as coisas estão ali onde atuam,
reconheceremos hoje a qualquer ponto do globo a mais efetiva
ubiqüidade. Esta proximidade do longínquo, esta presença do ausente,
aumentou em proporção fabulosa o horizonte de cada vida.
E o mundo cresceu também temporalmente. A pré-história e a
arqueologia descobriram âmbitos históricos de longitude quimérica.
Civilizações inteiras e impérios dos quais nem o nome se suspeitava,
foram anexados a nossa memória como novos continentes. O jornal
ilustrado e o cinema trouxeram estes remotíssimos pedaços de mundo à
visão imediata do vulgo.
Mas este aumento espácio-temporal do mundo não significaria por
si nada. O espaço e o tempo físicos são o absolutamente estúpido do
universo. Por isso é mais justificado do que sói crer-se o culto à
velocidade que transitoriamente exercitam nossos contemporâneos. A
velocidade feita de espaço e tempo não é menos estúpida que seus
ingredientes; mas serve para anular aqueles. Uma estupidez não se
pode dominar a não ser com outra. Era para o homem questão de honra
triunfar no espaço e no tempo cósmicos (33), que
carecem por completo de sentido, e não há razão para estranhar de
que nos produza um pueril prazer fazer funcionar a vazia velocidade,
com a qual matamos espaço e jugulamos tempo. Ao anulá-los,
vivificamo-los, tornamos possível ser o aproveitamento vital,
podemos estar em mais lugares que antes, gozar de mais idas e mais
vindas, consumir em menos tempo vital mais tempo cósmico.
Mas, em definitivo, o crescimento substantivo do mundo não
consiste em suas maiores dimensões, mas em que inclua mais coisas.
Cada coisa - tome-se a palavra em seu mais amplo sentido - é algo
que se pode desejar, tentar, fazer, desfazer, encontrar, gozar ou
repelir; nomes todos que significam atividades vitais.
Tome-se qualquer uma de nossas atividades; por exemplo,
comprar. Imaginem-se dois homens, um do presente e outro do século
XVIII, que possuam fortuna igual, proporcionalmente ao valor do
dinheiro em ambas as épocas, e compare-se o repertório de coisas em
venda que se oferece a um e a outro. A diferença é quase fabulosa. A
quantidade de possibilidades que se abrem ante o comprador atual
chega a ser praticamente ilimitada. Não é fácil imaginar com o
desejo um objeto que não exista no mercado, e vice-versa: não é
possível que um homem imagine e deseje quanto se acha à venda.
Dir-me-ão que, com fortuna proporcionalmente igual, o homem de hoje
não poderá comprar mais coisas que o do século XVIII. O fato é
falso. Hoje podem comprar-se muitas mais, porque a indústria
barateou quase todos os artigos. Mas finalmente não me importaria
que o fato fosse certo; pelo contrário, sublinharia mais o que tento
dizer.
A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto; mas
é também antes uma eleição, e a eleição começa por perceber as
possibilidades que oferece o mercado. De onde resulta que a vida, em
seu modo "comprar", consiste primeiramente em viver as
possibilidades de compra como tais. Quando se fala de nossa vida sói
esquecer-se disto, que me parece essencialíssimo: nossa vida é em
todo instante e antes que nada consciência do que nos é possível. Se
em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só
possibilidade, careceria de sentido chamá-la assim. Seria apenas
pura necessidade. Mas ai está: esse estranhíssimo fato de nossa vida
possui a condição radical de que sempre encontra ante si várias
saídas, que por serem várias adquirem o caráter de possibilidades
entre as quais havemos de decidir (34). Tanto
vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos em um ambiente
de possibilidades determinadas. A este âmbito costuma chamar-se "as
circunstâncias". Toda vida é achar-se dentro da "circunstância" ou
mundo (35). Porque este é o sentido originário
da idéia (mundo). Mundo é o repertório de nossas possibilidades
vitais. Não é, pois, algo à parte e alheio a nossa vida, mas que é
sua autêntica periferia. Representa o que podemos ser; portanto,
nossa potencialidade vital. Esta tem de se concretizar para
realizar-se, ou, dito de outra maneira, chegamos a ser só uma parte
mínima do que podemos ser. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão
enorme, e nós, dentro dele, uma coisa tão pequena. O mundo ou nossa
vida possível é sempre mais que nosso destino ou vida efetiva.
Mas agora importa-me só fazer notar como cresceu a vida do
homem na dimensão de potencialidade. Conta com um âmbito de
possibilidade fabulosamente maior que nunca. Na ordem intelectual
encontra mais caminho de possível ideação, mais problemas, mais
dados, mais ciências, mais pontos de vista. Enquanto os ofícios ou
carreiras na vida primitiva se numeram quase com os dedos de u'a mão
- pastor, caçador, guerreiro, mago -, o programa de misteres
possíveis hoje é superlativamente grande. Nos prazeres acontece
coisa parecida, se bem - e o fenômeno tem mais gravidade do que se
supõe - não é seu elenco tão exuberante como nos demais aspectos da
vida. Entretanto, para o homem de vida média que habita as urbes - e
as urbes são a representação da existência atual -, as
possibilidades de gozar aumentaram, no que vai de século, de uma
maneira fantástica.
Mas o crescimento da potencialidade vital não se reduz ao dito
até aqui. Aumentou também em um sentido mais imediato e misterioso.
É um fato constante e notório que no esforço físico e esportivo se
cumpram hoje performances que superam enormemente quantas se
conhecem do passado. Não basta admirar cada uma delas e reconhecer o
record que batem, mas advertir a impressão de que o organismo humano
possui em nosso tempo capacidades superiores às que nunca teve.
Porque coisa similar acontece na ciência. Em um par de lustros tão
somente, esta ampliou e inverossimilmente seu horizonte cósmico. A
física de Einstein move-se em espaços tão vastos, que a antiga
física de Newton ocupa neles apenas um sótão (36)
E este crescimento extensivo se deve a um crescimento intensivo na
precisão científica. A física de Einstein está feita atendendo às
mínimas diferenças que antes se desprezavam e não entravam em conta
por parecer sem importância. O átomo, enfim, limite ontem do mundo,
hoje inchou até se converter em todo um sistema planetário. E em
tudo isto não me refiro ao que possa significar como perfeição da
cultura - isso não me interessa agora -, mas ao crescimento das
potências subjetivas que tudo isso supõe. Não ressalto que a física
de Einstein seja mais exata que a de Newton, mas que o homem
Einstein seja capaz de maior exatidão e liberdade de espírito
(37) que o homem Newton; do mesmo modo que o
campeão de boxe dá hoje murros de maior calibre que jamais se deram.
Como o cinematógrafo e a ilustração põem ante os olhos do homem
médio os lugares mais remotos do planeta, os jornais e as
conversações lhe fazem chegar a notícia destas performances
intelectuais que os aparelhos técnicos recém-inventados confirmam
desde as vitrinas. Tudo isso decanta em sua mente a impressão de
fabulosa prepotência.
Não quero dizer com o dito que a vida humana seja hoje melhor
que em outros tempos. Não falei da atualidade da vida presente, mas
apenas de seu crescimento, de seu avanço quantitativo ou potencial.
Creio com isso descrever rigorosamente a consciência do homem atual,
seu tom vital que consiste em sentir-se com maior potencialidade que
nunca e parecer-lhe todo o pretérito afetado de pequenez.
Era necessária esta descrição para obviar as lucubrações sobre
decadência, e, em espécie, sobre decadência ocidental que pulularam
no ar do último decênio. Recorde-se o raciocínio que eu fazia, e que
me parece tão simples como evidente. Não vale falar de decadência
sem precisar que é o que decai. Refere-se o pessimista vocábulo à
cultura? Há uma decadência da cultura européia? Há somente uma
decadência das organizações nacionais européias? Suponhamos que sim.
Bastaria isso para falar da decadência ocidental? De modo algum.
Porque são estas decadências diminuições parciais, relativas a
elementos secundários da história - cultura e nações -. Só há uma
decadência absoluta: a que consiste numa vitalidade minguante; e
esta só existe quando se sente. Por esta razão me detive a
considerar um fenômeno que sói desatender-se: a consciência ou
sensação que toda época tem de sua altitude vital.
Isto nos leva a falar da "plenitude" que sentiram alguns
séculos diante de outros que, inversamente, se viam a si mesmos como
decaídos de maiores alturas, de antigas e deslumbrantes idades de
ouro. E concluía eu fazendo notar o fato evidentíssimo de que nosso
tempo se caracteriza por uma estranha presunção de ser mais que todo
o tempo passado; mais ainda: por desentender-se de todo pretérito,
não reconhecer épocas clássicas e normativas, senão ver-se a si
mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a
elas.
Duvido que sem se afiançar bem nesta advertência se possa
entender o nosso tempo. Porque esse é precisamente seu problema. Se
se sentisse decaído, veria outras épocas como superiores a ele e
isto seria uma e mesma coisa com estimá-las e admirá-las e venerar
os princípios que as informaram. Nosso tempo teria ideais claros e
firmes, ainda que fosse incapaz de realizá-los. Mas a verdade é
estritamente o contrário: vivemos em um tempo que se sente
fabulosamente capaz para realizar, mas que não sabe o que realizar.
Domina todas as coisas, mas não é dono de si mesmo. Sente-se perdido
em sua própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais técnicas
que nunca, o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido:
puramente ao acaso.
Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se
aninha na alma contemporânea. Acontece-lhe como se dizia do Regente
durante a infância de Luiz XV - que tinha todos os talentos, menos o
talento para usar deles. Muitas coisas pareciam já impossíveis ao
século XIX, firme em sua fé progressista. Hoje, de tanto nos parecer
tudo possível, pressentimos que é possível o pior: o retrocesso, a
barbárie, a decadência (38). Por si mesmo não
seria isto um mau sintoma: significaria que voltamos a tomar contato
com a insegurança essencial a todo viver, com a inquietude a um
tempo dolorosa e deliciosa que vai encerrada em cada minuto se
sabemos vivê-lo até o seu centro, até sua pequena víscera palpitante
e cruenta. Geralmente, recusamos tomar essa pulsação pavorosa que
faz de cada instante sincero um miúdo coração transeunte;
esforçando-nos por ganhar segurança e insensibilizar-nos para o
dramatismo radical do nosso destino, vertendo sobre ele o costume, o
uso, o tópico - todos os clorofórmios - .É, pois, benéfico que pela
primeira vez depois de quase três séculos nos surpreendamos com a
consciência de não saber o que vai acontecer amanhã.
Todo aquele que se coloque ante a existência numa atitude séria
e se faça dela plenamente responsável, sentirá certo gênero de
insegurança que o incita a permanecer alerta. A atitude que a
ordenança romana impunha à sentinela da legião era manter o
indicador sobre os lábios para evitar a sonolência e manter-se
atenta. Não está mal esse ademane, que parece imperar um maior
silêncio ao silêncio noturno, para poder ouvir a secreta germinação
do futuro. A segurança das épocas de plenitude - assim na última
centúria - é uma ilusão ótica que leva a despreocupar-se do porvir,
encarregando de sua direção a mecânica do universo. O mesmo que o
liberalismo progressista é o socialismo de Marx, supõem que o
desejado por eles como futuro ótimo se realizará, inexoravelmente,
com necessidade parelha à astronômica. Protegidos ante sua própria
consciência por essa idéia, soltaram o leme da história, deixaram de
estar alerta, perderam a agilidade e a eficácia. Assim, a vida se
lhes escapou dentre as mãos, fez-se por completo insubmissa, e hoje
anda solta, sem rumo conhecido. Sob sua máscara de generoso
futurismo, o progressista não se preocupa do futuro; convencido de
que não tem surpresa nem segredos, peripécias nem inovações
essenciais; certo de que já o mundo irá em linha reta, sem desvios
nem retrocessos, retrai sua inquietude do porvir e se instala num
definitivo presente. Não poderá estranhar que hoje o mundo pareça
vazio de projetos, antecipações e ideais. Ninguém se preocupou de
preveni-los. Tal tem sido a deserção das minorias dirigentes, que se
acha sempre ao reverso da rebelião das massas.
Mas já é tempo de que voltemos a falar desta. Depois de haver
insistido na vertente favorável que apresenta o triunfo das massas,
convém que nos deslizemos por sua outra ladeira, mais perigosa.
V. UM DADO ESTATÍSTICO
Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo, de
nossa vida atual. Vai enunciada a primeira parte dele, que pode
resumir-se assim: nossa vida, como repertório de possibilidades, é
magnífica, exuberante, superior a todas as historicamente
conhecidas. Mas assim como seu formato é maior, transbordou todos os
caminhos, princípios, normas e ideais legados pela tradição. É mais
vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não
pode orientar-se no pretérito (39). Tem de
inventar seu próprio destino.
Mas agora é preciso completar o diagnóstico. A vida, que é,
antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por
isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos
ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que
se compõe a vida. A circunstância - as possibilidades - é o que de
nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o
mundo. A vida não elege seu mundo, mas viver é encontrar-se,
imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de
agora. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa
vida. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos
arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja
trajetória está absolutamente predeterminada. A fatalidade em que
caímos ao cair neste mundo - o mundo é sempre este, este de agora -
consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória,
impõe-nos várias e, consequentemente, nos força... a eleger.
Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente
forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste
mundo. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de
decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira
vir, decidimos não decidir.
É, pois, falso dizer que na vida "decidem as circunstâncias ".
Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o
qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso caráter.
Tudo isto vale também para a vida coletiva. Também nela há,
primeiro, um horizonte de possibilidades, e, depois, uma resolução
que elege e decide o modo efetivo da existência coletiva. Esta
resolução emana do caráter que a sociedade tenha, ou, o que é o
mesmo, do tipo de homem dominante nela. Em nosso tempo, domina o
homem-massa; é ele quem decide. Não se diga que isto era o que
acontecia já na época da democracia, do sufrágio universal. No
sufrágio universal não decidem as massas, senão que seu papel
consistiu em aderir à decisão de uma ou outra minoria. Estas
apresentavam seus "programas" - excelente vocábulo -. Os programas
eram, com efeito, programas de vida coletiva. Neles convidava-se a
massa a aceitar um projeto de decisão.
Hoje acontece uma coisa muito diferente. Se se observa a vida
pública dos países onde o triunfo das massas avançou mais - são os
países mediterrâneos -, surpreende notar que neles se vive
politicamente ao dia. O fenômeno é sobremaneira estranho. O Poder
público acha-se em mãos de um representante de massas. Estas são tão
poderosas, que aniquilaram toda possível oposição. São donas do
Poder público em forma tão incontrastável e superlativa, que seria
difícil encontrar na história situações de governo tão prepotentes
como estas. E, entretanto, o Poder público, o Governo, vive ao dia;
não se apresenta como um porvir franco, não significa um anúncio
claro de futuro, não aparece como começo de algo cujo
desenvolvimento ou evolução seja imaginável. Em suma, vive sem
programa de vida, sem projeto. Não sabe aonde vai porque, a rigor,
não vai, não tem caminho prefixado, trajetória antecipada. Quando
esse poder público tenta justificar-se, não alude para nada ao
futuro, senão, pelo contrário, fecha-se no presente e diz com
perfeita sinceridade: "Sou um modo anormal de governo que é imposto
pelas circunstâncias". Quer dizer, pela urgência do presente, não
por cálculos do futuro. Daí que sua atuação se reduza a evitar o
conflito de cada hora; não a resolvê-lo, mas a escapar dele
imediatamente, empregando os meios que sejam, ainda à custa de
acumular com seu emprego maiores conflitos sobre a hora próxima.
Assim tem sido sempre o Poder público quando o exerceram diretamente
as massas: onipotente e efêmero. O homem-massa é o homem cuja vida
carece de projeto e caminha ao acaso. Por isso não constrói nada,
ainda que suas possibilidades, seus poderes, sejam enormes.
E este tipo de homem decide em nosso tempo. Convém, pois, que
analisemos seu caráter.
A chave para esta análise encontra-se quando, retrocedendo ao
começo deste ensaio, nos perguntamos: de onde vieram todas estas
multidões que agora enchem e transbordam o cenário histórico?
Há alguns anos destacava o grande economista Werner Sombart um
dado simplicíssimo, que é estranho não conste em toda cabeça que se
preocupe dos assuntos contemporâneos. Este simplicíssimo dado basta
por si só para esclarecer nossa visão da Europa atual, e se não
basta, põe na pista de todo esclarecimento. O dado é o seguinte:
desde que no século VI começa a história européia até o ano 1800 -
portanto, em toda a longitude de doze séculos -, a Europa não
consegue chegar a outra cifra de povoação senão a de 180 milhões de
habitantes. Pois bem: de 1800 a 1914 - portanto, em pouco mais de um
século, a população européia ascende de 180 a 460 milhões! Presumo
que o contraste destas cifras não deixa lugar a dúvidas a respeito
dos dotes prolíficos da última centúria. Em três gerações produziram
gigantescamente massa humana que, lançada como uma torrente sobre a
área histórica, a inundou. Bastaria, repito, este dado para
compreender o triunfo das massas e quanto nele se reflete e se
anuncia. Por outra parte, deve ser acrescido como o somando mais
concreto ao crescimento da vida como antes fiz constar.
Mas ao mesmo tempo nos mostra esse dado que é infundada a
admiração com que ressaltamos o crescimento de países novos como os
Estados Unidos da América. Maravilha-nos seu crescimento, que num
século chegou a 100 milhões de homens, quando o maravilhoso é a
proliferação da Europa. Eis aqui outra razão para corrigir o
espelhismo que supõe uma americanização da Europa. Nem sequer o
traço que pudera aparecer mais evidente para caracterizar a América
- a velocidade de aumento em sua povoação - lhe é peculiar. A Europa
cresceu no século passado muito mais que a América. A América está
feita com a sobra da Europa.
Mas ainda que não seja tão conhecido como devera o dado
calculado por Werner Sombart, era de sobra notório o fato confuso de
haver aumentado consideravelmente a povoação européia para insistir
nele. Não é, pois, o aumento de população o que nas cifras
transcritas me interessa, senão que mercê a seu contraste põe em
relevo a impetuosidade do crescimento. Esta é a que agora nos
importa. Porque esta impetuosidade significa que têm sido projetados
a magotes sobre a história montões e montões de homens em ritmo tão
acelerado, que não era fácil saturá-los da cultura tradicional.
E, com efeito, o tipo médio do atual homem europeu possui uma
alma mais sã e mais forte que as do passado século, porém muito mais
simples. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo
surgido inesperadamente em meio a uma velhíssima civilização. Nas
escolas que tanto orgulhavam o passado século, não se pode fazer
outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna, mas
não foi possível educá-las. Deram-se-lhe instrumentos para viver
intensamente, mas não sensibilidade para os grandes deveres
históricos; inoculou-se-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos
meios modernos, mas não o espírito. Por isto não querem nada com o
espírito, e as novas gerações dispõem-se a tomar o comando do mundo
como se o mundo fosse um paraíso sem rastros antigos, sem problemas
tradicionais e complexos.
Corresponde, pois, ao século passado a glória e a
responsabilidade de haver soltado sobre a face da história as
grandes multidões. Por essa razão oferece este fato a perspectiva
mais adequada para julgar com eqüidade essa centúria. Algo
extraordinário, incomparável, devia haver nela quando na sua
atmosfera se produzem tais colheitas de fruto humano. É frívola e
ridícula toda preferência dos princípios que inspiraram qualquer
outra idade pretérita se antes não demonstra que se encarregou deste
fato magnífico e tentou digeri-lo. Aparece a história inteira como
um gigantesco laboratório onde se fizeram os ensaios imagináveis
para obter uma fórmula de vida pública que favorecesse a planta
"homem". E ultrapassando toda possível sofisticação, encontramo-nos
com a experiência de que ao submeter a semente humana ao tratamento
destes dois princípios, democracia liberal e técnica, num só século,
triplicasse a espécie européia.
Fato tão exuberante força-nos, se não preferirmos ser dementes,
a tirar estas conseqüências: primeira, que a democracia liberal
fundada na criação técnica é o tipo superior de vida pública até
agora conhecido; segunda, que esse tipo de vida não será o melhor
imaginável, mas o que imaginemos melhor terá de conservar o
essencial daqueles princípios; terceira, que é suicida todo retorno
a formas de vida inferiores à do século XIX.
Uma vez reconhecido isto com toda a claridade que demanda a
claridade do próprio fato, é preciso revolver-se contra o século
XIX. Se é evidente que havia nele algo extraordinário e
incomparável, não o é menos que deveu padecer certos vícios
radicais, certas constitutivas insuficiências quando engendrou uma
casta de homens - os homens-massa rebeldes - que põem em perigo
iminente os princípios mesmos a que deveram a vida. Se esse tipo
humano continua dono da Europa e é definitivamente quem decide,
bastarão trinta anos para que nosso continente retroceda à barbárie.
As técnicas jurídicas e materiais se volatilizarão com a mesma
facilidade com que se perderam tantas vezes segredos de fabricação
(40). A vida toda se contrairá. A atual
abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua,
escassez, impotência angustiosa, em verdadeira decadência. Porque a
rebelião das massas é uma e mesma coisa com o que Rathenau chamava
"a invasão vertical dos bárbaros".
Importa, pois, muito conhecer a fundo este homem-massa, que é
pura potência do maior bem e do maior mal.
VI. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA
Como é este homem-massa que domina hoje a vida pública - a vida
política e a não política -? Por que é como é, quero dizer, como se
produziu?
Convém responder conjuntamente a ambas as questões, porque se
prestam mútuo esclarecimento. O homem que agora tenta pôr-se à
frente da existência européia é muito diferente daquele que dirigiu
o século XIX, mas foi produzido e preparado no século XIX. Qualquer
mente perspicaz de 1820, de 1850, 1880, pode, por um simples
raciocínio a priori, prever a gravidade da situação histórica atual.
E, com efeito, nada novo acontece que não tenha sido previsto há cem
anos. "As massas avançam!" dizia, apocalíptico, Hegel. "Sem um novo
poder espiritual, nossa época, que é uma época revolucionária,
produzirá uma catástrofe ", anunciava Augusto Comte.
"Vejo subir a preamar do nihilismo! ", gritava de um penhasco
alcantilado da Engadina o bigodudo Nietzche. É falso dizer que a
história não é previsível. Inúmeras vezes tem sido profetizada. Se o
porvir não oferecesse um flanco à profecia, não poderíamos tampouco
compreendê-la quando logo se cumpre e se faz passado. A idéia de que
o historiador é um profeta pelo avesso resume toda a filosofia.
Situação de tal modo aberta e franca tinha por força que
decantar no estrato mais profundo dessas da história. Certamente que
só cabe antecipar a estrutura geral do futuro; por isso mesmo é o
único que, em verdade, compreendemos do pretérito ou do presente.
Por isso, se o senhor quer ver bem sua época, olhe-a de longe. A que
distância? Muito simples: à distância justa que o impeça ver o nariz
de Cleópatra.
Que aspecto oferece a vida desse homem multitudinário, que com
progressiva abundância vai engendrando o século XIX? Desde já, um
aspecto de omnimoda facilidade material. Nunca pode o homem médio
resolver com tanta folga seu problema econômico. Enquanto em
proporção diminuíam as grandes fortunas e se tornava mais dura a
existência do operário industrial, o homem médio de qualquer classe
social encontrava cada dia mais franco seu horizonte econômico. Cada
dia ajuntava um novo luxo ao repertório de seu standard vital. Cada
dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio
alheio. O que antes se houvera considerado comum benefício da sorte
que inspirava humilde gratidão ao destino, converteu-se num direito
que não se agradece, mas que se exige.
Desde 1900 começa também o operário a ampliar e assegurar a sua
vida. Entretanto, tem de lutar para consegui-lo. Não se encontra,
como o homem médio, com um bem-estar posto diante dele solicitamente
por uma sociedade e um Estado que são um portento de organização.
A esta facilidade e segurança econômica ajuntam-se as físicas:
o confort e a ordem pública. A vida marcha sobre cômodos carris, e
não há verossimilitude de que intervenha nela nada violento e
perigoso. Tal imagem limita-se a incutir nas almas médias uma
impressão vital, que podia expressar-se com a perífrase, tão
graciosa e aguda, de nosso velho povo: "ampla é Castela". Quer dizer
que em todas essas ordens elementares e decisivas a vida se
apresentou ao homem novo isenta de impedimentos. A compreensão deste
fato e sua importância surgem automaticamente quando se recorda que
essa franquia vital faltou por completo aos homens vulgares do
passado. Foi, pelo contrário, para eles a vida um destino
angustiante - no econômico e no físico -. Sentiram o viver a
nativitate como um cúmulo de impedimentos que era forçoso suportar,
sem que coubera outra solução que não fosse adaptar-se a eles,
alojar-se na estreiteza que deixavam.
Mas é ainda mais clara a contraposição de situações se do
material passamos ao civil e moral. O homem médio, desde a segunda
metade do século XIX, não acha ante si barreiras sociais nenhumas.
Quer dizer, tampouco nas formas da vida pública encontra-se ao
nascer com entraves e limitações. Nada o obriga a conter sua vida.
Também aqui "ampla é Castela". Não existem os "estados" nem as
"castas". Não há ninguém civilmente privilegiado. O homem médio
aprende que todos os homens são legalmente iguais.
Jamais em toda a história havia sido posto o homem numa
circunstância ou contorno vital que se parecesse nem de longe ao que
essas condições determinam. Trata-se, com efeito, de uma inovação
radical no destino humano, que é implantada pelo século XIX. Cria-se
um novo cenário para a existência do homem, novo no físico e no
social. Três princípios fizeram possível esse novo mundo: a
democracia liberal, a experimentação científica e o industrialismo.
Os dois últimos podem resumir-se num: a técnica. Nenhum desses
princípios foi inventado pelo século XIX, mas procedem das duas
centúrias anteriores. A honra do século XIX não estriba em sua
invenção, mas em sua implantação. Ninguém desconhece isso. Mas não
basta com o reconhecimento abstrato, e assim é preciso compreender
perfeitamente suas inexoráveis conseqüências.
O século XIX foi essencialmente revolucionário. O que teve de
tal não deve ser buscado no espetáculo de suas barricadas, que,
simplesmente, não constituem uma revolução, mas que colocou o homem
médio - a grande massa social - em condições de vida radicalmente
opostas às que sempre a haviam rodeado. Virou pelo avesso a
existência pública. A revolução não é a sublevação contra a ordem
preexistente, mas a implantação de uma nova ordem que tergiversa a
tradicional. Por isso não há exageração nenhuma em dizer que o homem
engendrado pelo século XIX, é, para os efeitos da vida pública, um
homem à parte de todos os demais homens. O do século XVIII se
diferencia, está claro, do dominante no XVII, e este do que
caracteriza ao XVI, mas todos eles são parentes, similares e ainda
idênticos no essencial se se confronta com eles este homem novo.
Para o "vulgo" de todas as épocas, "vida" havia significado, antes
de tudo, limitação, obrigação, dependência; numa palavra, pressão.
Se se quer, diga-se opressão, contanto que não se entenda por esta
só a jurídica e social, esquecendo a cósmica. Porque esta última é a
que não faltou nunca até cem anos científica - física e
administrativa -, praticamente ilimitada. Ao contrário, até mesmo
para o rico e poderoso, o mundo era um âmbito de pobreza,
dificuldade e perigo (41)
O mundo que desde o nascimento rodeia o homem novo não o move a
limitar-se em nenhum sentido, não lhe apresenta veto nem contenção
alguma, mas pelo contrário fustiga seus apetites, que, em princípio,
podem crescer indefinidamente. Pois acontece - e isto é muito
importante - que esse mundo do século XIX e começos do XX não tem
apenas as perfeições e amplitudes que de fato possui, mas que além
disso sugere a seus habitantes uma segurança radical em que amanhã
será ainda mais rico, mas perfeito e mais amplo, como se gozasse de
um espontâneo e inesgotável crescimento. Todavia hoje, apesar de
alguns signos que iniciam uma pequena brecha nessa fé rotunda,
todavia hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis serão
dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os do dia.
Acredita-se nisto tão firmemente como na próxima saída do sol. O
sinal é formal. Porque, com efeito, o homem vulgar, ao encontrar-se
com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito, crê que o
produziu a natureza, e não pensa nunca nos esforços geniais de
indivíduos excelentes que supõe sua criação. Menos ainda admitirá a
idéia de que todas estas facilidades continuam apoiando-se em certas
difíceis virtudes dos homens, dos quais o menor malogro
volatilizaria rapidissimamente a magnífica construção.
Isto nos leva a apontar no diagrama psicológico do homem-massa
atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos
vitais, portanto, de sua pessoa, e a radical ingratidão a tudo
quanto tornou possível a facilidade de sua existência. Um e outro
traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. E, com
efeito, não erraria quem utilizasse esta como uma quadrícula para
olhar através dela a alma das massas atuais. Herdeiro de um passado
extensíssimo e genial - genial de inspirações e de esforços -, o
novo vulgo tem sido mimado pelo mundo circunstante. Mimar não é
limitar os desejos, dar a impressão a um ser de que tudo lhe está
permitido e a nada está obrigado. A criatura submetida a este regime
não tem a experiência de suas próprias limitações. À força de
evitar-lhe toda pressão em redor, todo choque com outros seres,
chega a crer efetivamente que só ele existe, e se acostuma a não
contar com os demais, sobretudo a não contar com ninguém como
superior a ele. Esta sensação da superioridade alheia só podia
ser-lhe proporcionada por quem, mais forte que ele, lhe houvesse
obrigado a renunciar a um desejo, a reduzir-se, a conter-se. Assim
teria aprendido esta essencial disciplina: "Aí termino eu e começa
outro que pode mais do que eu. No mundo, pelo visto, há dois: eu e
outro superior a mim". Ao homem médio de outras épocas ensinava-lhe
quotidianamente seu mundo esta elemental sabedoria, porque era um
mundo tão toscamente organizado, que as catástrofes eram freqüentes
e não havia nele nada seguro, abundante nem estável. Mas as novas
massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e além disso
segura, e tudo isso presto, a sua disposição, sem depender de seu
prévio esforço, como achamos o sol no alto sem que nós o tenhamos
subido ao ombro. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que
respira, porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao
conjunto do que "está aí", do que dizemos "é natural", porque não
falta. Estas massas mimadas são suficientemente pouco inteligentes
para crer que essa organização material e social, posta a sua
disposição como o ar, é de sua própria origem, já que tampouco
falha, ao que parece, e é quase tão perfeita como a natural.
Minha tese é, pois, esta: a própria perfeição com que o século
XIX deu uma organização a certas ordens da vida, é origem de que as
massas beneficiárias não a considerem como organização, mas como
natureza. Assim se explica e define o absurdo estado de ânimo que
essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar e ao
mesmo tempo são insolidárias das causas desse bem-estar. Como não
vêem nas vantagens da civilização um invento e construção
prodigiosos, que só com grandes esforços e cautelas se pode
sustentar, crêem que seu papel se reduz a exigi-las
peremptoriamente, como se fossem direitos nativos. Nos motins que a
escassez provoca soem as massas populares buscar pão, e o meio que
empregam sói ser destruir as padarias. Isto pode servir como símbolo
do comportamento que em mais vastas e sutis proporções usam as
massas atuais ante a civilização que as nutre (42).
VII. VIDA NOBRE E VIDA VULGAR, OU ESFORÇO E INÉRCIA
Somos aquilo que nosso mundo nos convida a ser, e as feições
fundamentais de nossa alma são impressas nela pelo perfil do
contorno como por um molde. Naturalmente: viver não é mais que
tratar com o mundo. O semblante geral que ele nos apresenta será o
semblante geral de nossa vida. Por isso insisto tanto em fazer notar
que o mundo de onde nasceram as massas atuais mostrava uma
fisionomia radicalmente nova na história. Enquanto no pretérito
viver significava para o homem médio encontrar a sua volta
dificuldades, perigos, escassez, limitações de destino e
dependência, o mundo novo aparece como um âmbito de possibilidades
praticamente ilimitadas, sem dúvida, onde não se depende de ninguém.
À volta desta impressão primária e permanente vai se formar cada
alma contemporânea, como em volta da oposta se formaram as antigas.
Porque esta impressão fundamental se converte em voz interior que
murmura sem cessar umas como palavras no mais profundo da pessoa e
lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é, ao mesmo tempo,
um imperativo. E se a impressão tradicional dizia: "Viver é
sentir-se limitado e, por isso mesmo, ter de contar com o que nos
limita", a voz novíssima grita: "Viver é não encontrar limitação
alguma; portanto, abandonar-se tranqüilamente a si mesmo.
Praticamente nada é impossível, nada é perigoso e, em princípio,
ninguém é superior a ninguém".
Esta experiência básica modifica por completo a estrutura
tradicional, perene, do homem-massa. Porque este se sentiu sempre
constitutivamente condicionado a limitações materiais e a poderes
superiores sociais. Isto era, a seus olhos, a vida. Se lograva
melhorar sua situação, se ascendia socialmente, atribuía-o a um
golpe da sorte, que lhe era nominativamente favorável. E quando não
a isto, a um enorme esforço e ele sabia muito bem quanto lhe havia
custado. Em um e outro caso tratava-se de uma exceção à índole
normal da vida e do mundo; exceção que, como tal, era devida a
alguma causa especialíssima.
Mas a nova massa encontra a plena franquia vital como estado
nativo e estabelecido, sem causa especial nenhuma. Nada de fora a
incita a reconhecer nela própria limites e, portanto, a contar em
todo momento com outras instâncias, sobretudo com instâncias
superiores. O labrego chinês acreditava, até há pouco, que o
bem-estar de sua vida dependia das virtudes privadas que possuísse o
seu Imperador. Portanto, sua vida era constantemente regulada por
esta instância suprema de que dependia. Mas o homem que analisamos
habitua-se a não apelar de si mesmo a nenhuma instância fora dele.
Está satisfeito tal como é. Ingenuamente, sem necessidade de ser
vão, como a coisa mais natural do mundo, tenderá a afirmar e
considerar bom tudo quanto em si acha; opiniões, apetites,
preferências ou gostos. Por que não, se, segundo vemos, nada nem
ninguém o força a compreender que ele é um homem de segunda classe,
limitadíssimo, incapaz de criar nem conservar a organização mesma
que dá à sua vida essa amplitude e esse contentamento, nos quais
baseia tal afirmação de sua pessoa?
Nunca o homem-massa teria apelado a nada fora dele se a
circunstância não lhe houvesse forçado violentamente a isso. Como
agora a circunstância não o obriga, o eterno homem-massa,
conseqüente com sua índole, deixa de apelar e sente-se soberano de
sua vida. Contrariamente, o homem seleto ou excelente está
constituído por uma íntima necessidade de apelar de si mesmo a uma
norma além dele, superior a ele, a cujo serviço livremente se põe.
Lembre-se de que, no início, distinguíamos o homem excelente do
homem vulgar dizendo: que aquele é o que exige muito de si mesmo, e
este, o que não exige nada, apenas contenta-se com o que é e está
encantado consigo mesmo (43). Contra o que sói
crer-se, é a criatura de seleção, e não a massa, quem vive em
essencial servidão. Sua vida não lhe apraz se não a faz consistir em
serviço a algo transcendente. Por isso não estima a necessidade de
servir como uma opressão. Quando esta, por infelicidade, lhe falta,
sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis, mais
exigentes, que a oprimam. Isto é a vida como disciplina - a vida
nobre -. A nobreza define-se pela exigência, pelas obrigações, não
pelos direitos. Noblesse oblige. "Viver a gosto é de plebeu: o nobre
aspira a ordenação e a lei" (Goethe). Os privilégios da nobreza não
são originariamente concessões ou favores, mas, pelo contrário, são
conquistas, e, em princípio, supõe sua conservação que o
privilegiado seria capaz de reconquistá-las em todo instante, se
fosse necessário e alguém se lho disputasse (44).
Os direitos privados ou privilégios não são, pois, posse passiva e
simples gozo, mas representam o perfil onde chega o esforço da
pessoa. Contrariamente, os direitos comuns, como são os "do homem e
do cidadão", são propriedade passiva, puro usufruto e benefício, tão
generoso do destino com que todo homem se encontra, e que não
corresponde a esforço algum, como não seja o respirar e evitar a
demência. Eu diria, pois, que o direito impessoal se tem e o pessoal
se mantém.
É irritante a degeneração sofrida no vocabulário usual por uma
palavra tão inspiradora como "nobreza". Porque ao significar para
muitos "nobreza de sangue" hereditária, converte-se em algo parecido
aos direitos comuns, numa qualidade estática e passiva, que se
recebe e transmite como uma coisa inerte. Mas o sentido próprio, o
étimo do vocábulo "nobreza" é essencialmente dinâmico. Nobre
significa o "conhecido", entende-se o conhecido de todo o mundo, o
famoso, que se deu a conhecer sobressaindo sobre a massa anônima.
Implica um esforço insólito que motivou a fama. Nobre, pois,
eqüivale a esforçado ou excelente. A nobreza ou fama do filho já é
puro benefício. O filho é conhecido porque seu pai conseguiu ser
famoso. É conhecido por reflexo, e, com efeito, a nobreza
hereditária tem um caráter indireto, é luz espelhada, é nobreza
lunar como feita com mortos. Só fica nela de vivo, autêntico,
dinâmico, a incitação que produz no descendente a manter o nível de
esforço que o antepassado alcançou. Sempre, ainda neste sentido
desvirtuado, noblesse oblige. O nobre originário obriga-se a si
mesmo, e ao nobre hereditário obriga-o a herança. Há, de qualquer
modo, certa contradição na transferência da nobreza, desde o nobre
inicial a seus sucessores. Mais lógicos os chineses, invertem a
ordem da transmissão, e não é o pai quem enobrece o filho, mas o
filho quem, ao conseguir a nobreza, a comunica a seus antepassados,
destacando com o seu esforço sua estirpe humilde. Por isso, ao
conceder os níveis de nobreza, graduam-se pelo número de gerações
passadas que ficam prestigiadas, e há quem só torna nobre seu pai e
quem alonga sua fama até o quinto ou décimo avô. Os antepassados
vivem do homem atual, cuja nobreza é efetiva, atuante; em suma: é;
não, foi (45).
A "nobreza" não aparece como termo formal até o Império romano,
e precisamente para opô-lo à nobreza hereditária, já em decadência.
Para mim, nobreza é sinônimo de vida esforçada, posta sempre a
superar-se a si mesma, a transcender do que já é para o que se
propõe como dever e exigência. Desta maneira, a vida nobre fica
contraposta à vida vulgar e inerte, que, estaticamente, se reclui a
si mesma, condenada à perpétua imanência, caso uma força exterior
não a obrigue a sair de si. Daí que chamemos massa a este modo de
ser homem - não tanto porque seja multitudinário, quanto porque é
inerte.
À medida que se avança pela vida, vamos nos fartando de
advertir que a maior parte dos homens - e das mulheres - são
incapazes de outro esforço que o estritamente imposto como reação a
uma necessidade externa. Por isso mesmo ficam mais isolados, e como
monumentalizados em nossa experiência, os pouquíssimos seres que
conhecemos capazes de um esforço espontâneo e luxuoso. São os homens
seletos, os nobres, os únicos ativos e não só reativos, para os
quais viver é uma perpétua tensão, um incessante treinamento.
Treinamento = áskesis. São os ascetas (46).
Não surpreenda esta aparente digressão. Para definir o
homem-massa atual, que é tão massa como o de sempre, mas quer
suplantar os excelentes, é preciso contrapô-lo às duas formas puras
que nele se mesclam: a massa normal e o autêntico nobre ou
esforçado.
Agora podemos caminhar mais depressa, porque já somos donos do
que, a meu juízo, é a chave ou equação psicológica do tipo humano
dominante hoje. Tudo que vem depois é conseqüência ou corolário
dessa estrutura radical que poderia resumir-se assim: o mundo
organizado pelo século XIX, ao produzir automaticamente um homem
novo, intrometeu nele formidáveis apetites, poderosos meios de toda
ordem para satisfazê-los - econômico, corporais (higiene, saúde
média superior à de todos os tempos), civis e técnicos (entendo por
estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática
que hoje o homem médio possui e de que sempre careceu no passado) -.
Depois de haver estabelecido nele todas estas potências, o século
XIX o abandonou a si mesmo, e então, seguindo o homem médio sua
índole natural, fechou-se dentro de si. Desta sorte, encontramo-nos
com uma massa mais forte que a de nenhuma época, mas, a diferença da
tradicional, hermética em si mesma, incapaz de atender a nada nem a
ninguém, acreditando que se basta - em suma: indócil
(47). Continuando as coisas como até aqui, cada dia se notará
mais em toda a Europa - e por reflexo em todo o mundo - que as
massas são incapazes de se deixar dirigir em nenhuma ordem. Nas
horas difíceis que chegam para nosso continente, é possível que,
subitamente angustiadas, tenham um momento a boa vontade de aceitar,
em certas matérias especialmente angustiosas, a direção de minorias
superiores.
Mas ainda essa boa vontade fracassará. Porque a disposição
radical de sua alma está feita de hermetismo e indocilidade, porque
lhe falta de nascença a função de atender ao que está além dela,
sejam fatos, sejam pessoas. Quererão acompanhar a alguém, e não
poderão. Quererão ouvir, e descobrirão que são surdas.
Por outra parte, é ilusório pensar que o homem médio vigente,
por muito que tenha ascendido seu nível vital em comparação com o de
outros tempos, poderá reger, por si mesmo, o processo da
civilização. Digo processo, não já progresso. O simples processo de
manter a civilização atual é superlativamente complexo e requer
sutilezas incalculáveis. Mal pode governá-lo este homem-massa que
aprendeu a usar muitos aparelhos de civilização, mas que se
caracteriza por ignorar de raiz os princípios mesmos da civilização.
Reitero ao leitor que, paciente, tenha lido até aqui, a
conveniência de não entender todos estes enunciados atribuindo-lhes,
imediatamente, um significado político. A atividade política, que é
de toda a vida pública a mais eficiente e mais visível, é,
contrariamente, a derradeira, resultante de outras mais íntimas e
impalpáveis. Assim, a indocilidade política não seria grave se não
proviesse de uma mais profunda e decisiva indocilidade intelectual e
moral. Por isso, enquanto não tenhamos analisado esta, faltará a
última claridade ao teorema deste ensaio.
VIII. POR QUE AS MASSAS INTERVÉM EM TUDO E POR QUE SÓ INTERVÊM
VIOLENTAMENTE
Ficamos em que aconteceu algo sobremodo paradoxal, mas que em
verdade era naturalíssimo: de tanto se mostrarem abertos mundo e
vida ao homem medíocre, a alma fechou-se para ele. Pois bem: eu
sustento que nessa obliteração das almas médias consiste a rebeldia
das massas em que, por sua vez, consiste o gigantesco problema hoje
levantado para a humanidade.
Já sei que muitos dos que me lêem não pensam como eu. Também
isto é naturalíssimo e confirma o teorema. Pois ainda que em
definitivo minha opinião fosse errônea, sempre ficaria o fato de que
muitos destes leitores discrepantes não pensaram cinco minutos sobre
tão complexa matéria. Como poderiam pensar como eu? Mas ao supor-se
com direito a ter uma opinião sobre o assunto sem prévio esforço
para forjá-la, manifestam seu exemplar senhorio ao modo absurdo de
ser homem que eu chamei "massa rebelde". Isso é precisamente ter
obliterada, hermética, a alma. Neste caso tratar-se-ia de hermetismo
intelectual. A pessoa encontra-se com um repertório de idéias dentro
de si. Decide contentar-se com elas e considerar-se intelectualmente
completa. Não sentindo nada de menos fora de si, instala-se
definitivamente naquele repertório. Eis aí o mecanismo da
obliteração.
O homem-massa sente-se perfeito. Um homem de seleção, para
sentir-se perfeito, necessita ser especialmente vaidoso, e a crença
na sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele, não é
ingênua, mas chega-lhe de sua vaidade e ainda para ele mesmo tem um
caráter fictício, imaginário e problemático. Por isso o vaidoso
necessita dos demais, busca neles a confirmação da idéia que quer
ter de si mesmo. De sorte que nem ainda neste caso mórbido nem ainda
"cegado" pela vaidade, consegue o homem nobre sentir-se em verdade
completo. Contrariamente ao homem medíocre de nossos dias, ao novo
Adão, não se lhe ocorre duvidar de sua própria plenitude. Sua
confiança em si é, como de Adão, paradisíaca. O hermetismo nato de
sua alma lhe impede o que seria condição prévia para descobrir sua
insuficiência: comparar-se com outros seres. Comparar-se seria sair
um pouco de si mesmo e trasladar-se ao próximo. Mas a alma medíocre
é incapaz de transmigrações - esporte supremo.
Encontramo-nos, pois, com a mesma diferença que eternamente
existe entre o tolo e o perspicaz. Este surpreende-se a si mesmo
sempre a dois passos de ser tolo; por isso faz um esforço para
escapar à iminente tolice, e nesse esforço consiste a inteligência.
O tolo, ao contrário, não suspeita de si mesmo: julga-se
discretíssimo, e daí a invejável tranqüilidade com que o néscio se
assenta e instala em sua inépcia. Como esses insetos que não há
maneira de extrair do orifício em que habitam, não há modo de
desalojar o tolo de sua tolice, levá-lo de passeio um pouco além de
sua cegueira e obrigá-lo a que contraste sua visão grosseira
habitual com outros modos de ver mais sutis. O tolo é vitalício e
impermeável. Por isso dizia Anatole France que o néscio é muito mais
funesto que o malvado. Porque o malvado descansa algumas vezes; o
néscio, jamais (48).
Não se trata de que o homem-massa seja tolo. Pelo contrário, o
atual é mais esperto, tem mais capacidade intelectiva que o de
nenhuma outra época. Mas essa capacidade não lhe serve de nada; a
rigor, a vaga sensação de possuí-la apenas lhe serve para fechar-se
mais em si mesmo e não usá-la. De uma vez para sempre consagra o
sortimento de tópicos, prejuízos, ou, simplesmente, vocábulos ocos
que o acaso amontoou no seu interior, e com um audácia que só se
explica pela ingenuidade, impô-los-á por toda a parte. Isto é o que
no primeiro capítulo enunciava eu como característico em nossa
época: não que o vulgar creia que é destacado e não vulgar, mas que
o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade, ou a
vulgaridade como um direito.
O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade
intelectual, é talvez o fator da presente situação mais novo, menos
assimilável a nada do pretérito. Pelo menos na história européia até
hoje, nunca o vulgo havia crido ter "idéias" sobre as coisas. Tinha
crenças, tradições, experiências, provérbios, hábitos mentais, mas
não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas
são ou devem ser - por exemplo, sobre política ou sobre literatura
-. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia; dava
ou retirava sua adesão, mas sua atitude reduzia-se a repercutir,
positiva ou negativamente, a ação criadora de outros. Nunca se lhe
ocorreu opor às "idéias" do político outras suas; nem sequer julgar
as "idéias" do político do tribunal de outras "idéias" que cria
possuir. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública.
Uma e inata consciência de sua limitação, de não estar qualificado
para teorizar (49), vedava-o completamente. A
conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava, nem de
longe, decidir em quase nenhuma das atividades públicas, que em sua
maior parte são de índole teórica.
Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as "idéias" mais
taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por
isso perdeu o uso da audição. Para que ouvir, se já tem dentro de si
o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de
julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão de vida pública em
que não intervenha, cego e surdo como é, impondo suas "opiniões".
Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme
que as massas tenham "idéias", quer dizer, que sejam cultas? De
maneira alguma. As "idéias" deste homem médio não são autenticamente
idéias, nem sua posse é cultura. A idéia é um xeque-mate à verdade.
Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade
e aceitar as regras do jogo que ela imponha. Não vale falar de
idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula,
uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. Estas normas
são os princípios da cultura. Não me importa quais são. O que digo é
que não há cultura onde não há normas. A que nossos próximos possam
recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil
a que apelar. Não há cultura onde não há acatamento de certas
últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa
(50). Não há cultura quando as relações
econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual
possam amparar-se. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não
reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte.
Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no
sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não tenhamos
ilusões, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião
das massas. O viajante que chega a um país bárbaro, sabe que naquele
território não regem princípios aos quais possa recorrer. Não há
normas bárbaras propriamente ditas, a barbárie é ausência de norma e
de possível apelação.
O mais e o menos de cultura mede-se pela maior ou menor
precisão das normas. Onde há pouca, regulam estas a vida só grosso
modo; onde há muita, penetram até o pormenor no exercício de todas
as atividades. A escassez da cultura intelectual espanhola, isto é,
do cultivo ou exercício disciplinado do intelecto, manifesta-se, não
em que se saiba mais ou menos, mas na habitual falta de cautela e
cuidados para ajustar-se à verdade que soem mostrar os que falam e
escrevem. Não, pois, em que se acerte ou não - a verdade não está em
nossa mão -, mas na falta de escrúpulo que leva a não cumprir os
requisitos elementais para acertar. Continuamos sendo o eterno padre
de aldeia que rebate triunfante o maniqueu, sem haver procurado
antes averiguar o que pensa o maniqueu.
Qualquer pessoa pode perceber que na Europa, há alguns anos,
começaram a acontecer "coisas esquisitas". Para dar algum exemplo
concreto destas coisas esquisitas mencionarei certos movimentos
políticos, como o sindicalismo e o fascismo. Não se diga que parecem
esquisitos simplesmente porque são novos. O entusiasmo pela inovação
é de tal modo ingênito no europeu, que o levou a produzir a história
mais inquieta de quantas se conhecem. Não se atribua, pois, o que
estes novos fatos têm de esquisito ao que têm de novo, mas à
estranhíssima bitola destas novidades. Sob as espécies de
sindicalismo e fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo
de homem que não quer dar razões nem quer ter razão, mas que,
simplesmente, se mostra resolvido a impor suas opiniões. Eis aqui o
novo: o direito a não ter razão, a razão da sem-razão. Eu vejo nisso
a manifestação mais palpável do novo modo de ser das massas, por
haverem resolvido dirigir a sociedade sem ter capacidade para isso.
Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da
maneira mais crua e contundente, mas a chave está no hermetismo
intelectual. O homem médio encontra-se com "ideais" dentro de si,
mas carece da função de idear. Nem sequer suspeita qual é o elemento
sutilíssimo em que as idéias vivem. Quer opinar, mas não quer
aceitar as condições e supostos de todo opinar. Daqui que suas
"idéias" não sejam efetivamente senão apetites ou palavras, como as
romanças musicais.
Ter uma idéia é crer que se possuem as razões dela, e é,
portanto, crer que existe uma razão, um orbe de verdades
inteligíveis. Idear, opinar, é uma mesma coisa como apelar a tal
instância, submeter-se a ela, aceitar seu Código e sua sentença,
crer, portanto, que a forma superior da convivência é o diálogo em
que se discutem as razões de nossas idéias. Mas o homem-massa
sentir-se-ia perdido se aceitasse a discussão, e instintivamente
repudia a obrigação de acatar essa instância suprema que se acha
fora dele. Por isso, o "novo" é na Europa "acabar com as
discussões", e detesta-se toda forma de convivência que por si mesma
implique acatamento de normas objetivas, desde a conversação até o
Parlamento, passando pela ciência. Isso quer dizer que se renuncia à
convivência de cultura, que é uma convivência sob normas, e
retrocede-se a uma convivência bárbara. Suprimem-se todos os
trâmites normais e se vai diretamente à imposição do que se deseja.
O hermetismo da alma, que, como vimos antes, propele a massa para
que intervenha em toda a vida pública, leva-a também,
inexoravelmente, a um procedimento único de intervenção: a ação
direta.
O dia em que se reconstrua a gênese de nosso tempo,
advertir-se-á que as primeiras notas de sua peculiar melodia soaram
naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de
1900, inventores da maneira e da palavra "ação direta".
Perpetuamente o homem tem recorrido à violência: às vezes este
recurso era simplesmente um crime, e não nos interessa. Em outras
era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os
demais para defender a razão e a justiça que cria ter. Será muito
lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de
violência, mas é inegável que ela significa a maior homenagem à
razão e à justiça. Tal violência não é outra coisa senão a razão
exasperada. A força era, com efeito, a ultima ratio. Um pouco
estupidamente tem se entendido com ironia esta expressão, que
declara muito bem o prévio rendimento da força às normas racionais.
A civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força a
ultima ratio. Agora começamos a ver isto com bastante clareza,
porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a
violência como prima ratio; a rigor, como única razão é ela a norma
que propõe a anulação de toda norma, que suprime tudo que medeia
entre nosso propósito e sua imposição. É a Charta magna da barbárie.
Convém recordar que em todos os tempos, quando a massa por um
ou outro motivo, atuou na vida pública, o fez em forma de "ação
direta". Foi, pois, sempre o modo de operar natural às massas. E
corrobora energicamente a tese deste ensaio o fato patente de que
agora, quando a intervenção direta das massas na vida pública passou
de casual e infreqüente a ser o normal, apareça a "ação direta"
oficialmente como norma reconhecida.
Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em
que se suprimem as instâncias indiretas. No trato social suprime-se
a "boa educação". A literatura, como "ação direta", constitui-se no
insulto. As relações sexuais reduzem seus trâmites.
Trâmites, normas, cortesia, usos intermediários, justiça,
razão! de que veio inventar tudo isso, criar tanta complicação? Tudo
isso se resume na palavra "civilização", que, através da idéia de
civis, o cidadão, descobre sua própria origem. Trata-se com tudo
isso de fazer possível a cidade, a comunidade, a convivência. Por
isso, se olhamos por dentro cada um desses instrumentos da
civilização que acabo de enumerar, acharemos uma mesma entranha em
todos. Todos, com efeito, supõem o desejo radical e progressivo de
cada pessoa contar com as demais. Civilização é, antes de tudo,
vontade de convivência. É se incivil e bárbaro na medida em que não
se conte com os demais. A barbárie é tendência à dissociação. .E
assim todas as épocas bárbaras têm sido tempo de espalhamento
humano, pululação de mínimos grupos separados e hostis.
A forma que na política representou a mais alta vontade de
convivência é a democracia liberal. Ela leva ao extremo a resolução
de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". O
liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder
público, não obstante ser onipotente, limita-se a si mesmo e
procura, ainda à sua custa, deixar espaço no Estado que ele impera
para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele, quer
dizer, como os mais fortes, como a maioria. O liberalismo - convém
hoje recordar isto - é a suprema generosidade: é o direito que a
maioria outorga à minoria e é, portanto, o mais nobre grito que soou
no planeta. Proclama a decisão de conviver com o inimigo; mais
ainda, com o inimigo débil. Era inverossímil que a espécie humana
houvesse chegado a uma coisa tão bonita, tão paradoxal, tão
elegante, tão acrobática, tão antinatural. Por isso, não deve
surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a
abandoná-la. E um exercício demasiado difícil e complicado para que
se consolide na terra.
Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a
ser já incompreensível semelhante ternura? Nada acusa com maior
clareza a fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão
poucos os países onde existe a oposição. Em quase todos, uma massa
homogênea pesa sobre o Poder público e esmaga, aniquila todo o grupo
opositor. A massa - quem o diria ao ver seu aspecto compacto e
multitudinário? - não deseja a convivência com o que não é ela.
Odeia de morte o que não é ela.
IX. PRIMITIVISMO E TÉCNICA
Importa-me muito recordar aqui que estamos submersos na análise
de uma situação - a do presente - substancialmente equívoca. Por
isso a princípio insinuei que todos os traços atuais e, em espécie,
a rebelião das massas, apresentam duplo aspecto. Qualquer deles não
só tolera, mas até reclama uma dupla interpretação, favorável e
pejorativa. E este equívoco não reside em nosso juízo, mas na
própria realidade. Não é que possa parecer-nos por um lado bem, por
outro mal, mas é que em si mesma a situação presente é potência
bifronte de triunfo ou de morte.
Não é coisa de lastrear este ensaio com toda uma metafísica da
história. Mas é claro que o vou construindo sobre a base subterrânea
de minhas convicções filosóficas, expostas ou aludidas em outros
lugares. Não creio na absoluta determinação da história. Pelo
contrário, penso que toda vida, e portanto, a história, se compõe de
puros instantes, cada um dos quais está relativamente indeterminado
com respeito ao anterior, de sorte que nele a realidade vacila,
piétine sur place, e não sabe bem se se decidir por uma ou outra
entre várias possibilidades. Este titubeio metafísico proporciona a
todo o vital essa inconfundível qualidade de vibração e
estremecimento.
A rebelião das massas pode, com efeito, ser trânsito de uma
nova e sem par organização da humanidade, mas também pode ser uma
catástrofe no destino humano. Não há razão para negar a realidade do
progresso, mas é preciso corrigir a noção que crê seguro este
progresso. Mais congruente com os fatos é pensar que não há nenhum
progresso seguro, nenhuma evolução, sem a ameaça de involução e
retrocesso. Tudo, tudo é possível na história - tanto o progresso
triunfal e indefinido como a periódica regressão -. Porque a vida,
individual ou coletiva, pessoal ou histórica, é a única entidade do
universo cuja substância é perigo. Compõem-se de peripécias. É,
rigorosamente falando, drama (51).
Isto, que é verdade em geral, adquire maior intensidade nos
"momentos críticos", como é o presente. E assim os sintomas de nova
conduta que sob o império atual das massas vão aparecendo e
agrupávamos sob o título "ação direta", podem anunciar também
futuras perfeições. É claro que toda velha cultura arrasta no seu
avanço tecidos caducos e não pequena carregação de matéria córnea,
estorvo à vida e tóxico resíduo. Há instituições mortas,
valorizações e respeitos sobreviventes e já sem sentido, soluções
indevidamente complicadas, normas que provaram sua
insubstancialidade. Todos estes elementos da ação indireta, da
civilização, demandam uma época de frenesi simplificador. A
sobrecasaca e o plastrão românticos solicitam uma vingança por meio
do atual deshabillé e o "em mangas de camisa". Aqui, a simplificação
é higiene e melhor gosto; portanto, uma solução mais perfeita, como
sempre que com menos meios se consegue mais. A árvore do amor
romântico exigia também uma poda para que caíssem as demasiadas
magnólias falsas cerzidas a seus ramos e o furor de lianas, volutas,
retorcimentos e intrincações que não a deixavam tomar sol.
Em geral, a vida pública, sobretudo a política, requeria
urgentemente uma redução ao autêntico, e a humanidade européia não
poderia dar o salto elástico que o otimista reclama dela se antes
não se desnuda, se não se aligeira até sua pura essencialidade, até
coincidir consigo mesma. O entusiasmo que sinto por esta disciplina
de nudificação, de autenticidade, a consciência de que é
imprescindível para franquear o passo a um futuro estimável, me faz
reivindicar plena liberdade de ideador diante de todo o passado. É o
porvir que deve imperar sobre o pretérito, e dele recebermos a ordem
para nossa conduta diante de tudo quanto foi (52).
Mas é preciso evitar o pecado maior dos que dirigiram o século
XIX: a defeituosa consciência de sua responsabilidade, que os fez
não se manterem alertas e em vigilância. Deixar-se deslizar pela
pendente favorável que apresenta o curso dos acontecimentos e
embotar-se para a dimensão de perigo e carranca que mesmo a hora
mais jocunda possui, é precisamente faltar à missão de responsável.
Hoje torna-se mister suscitar uma hiperestesia de responsabilidade
nos que sejam capazes de senti-la, e parece o mais urgente sublinhar
o lado palmariamente funesto dos sintomas atuais.
É indubitável que num balanço diagnóstico de nossa vida pública
os fatores adversos superem em muito os favoráveis, se o cálculo se
faz não tanto pensando no presente como no que anunciam e prometem.
Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida
experimentou corre risco de anular-se a si mesmo ao topar com o mais
pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo
formulo: apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não
interessam os princípios da civilização. Não os desta ou os daquela,
mas - ao que hoje pode julgar-se - os de nenhuma. Interessam-lhe
evidentemente os anestésicos, os automóveis e algumas coisas mais.
Mas isto confirma seu radical desinteresse pela civilização. Pois
estas coisas são só produtos dela, e o fervor que se lhes dedica faz
ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que
nascem. Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove
scienze, as ciências físicas - portanto, desde o Renascimento -, o
entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso, ao longo do tempo.
Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se
dedicavam a essas puras investigações era maior em cada geração. O
primeiro caso de retrocesso - repito, proporcional - produziu-se na
geração que hoje vai dos vinte aos trinta anos. Nos laboratórios de
ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos. E isso acontece
quando a indústria alcança seu maior desenvolvimento e quando as
pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas
criados pela ciência.
Se não fora prolixo, poderia demonstrar-se semelhante
incongruência na política, na arte, na moral, na religião e nas
zonas cotidianas da vida.
Que nos significa situação tão paradoxal? Este ensaio pretende
haver preparado a resposta a tal pergunta. Significa que o homem
hoje dominante é um primitivo, um Naturmensch emergindo em meio de
um mundo civilizado. O civilizado é o mundo, porém, seu habitante
não o é: nem sequer vê nele a civilização, mas usa dela como se
fosse natureza. O novo homem deseja o automóvel e goza dele, mas crê
que é fruta espontânea de uma árvore edênica. No fundo de sua alma
desconhece o caráter artificial, quase inverossímil, da civilização,
e não estenderá seu entusiasmo pelos aparelhos até os princípios que
os tornam possíveis. Quando mais acima, transpondo umas palavras de
Rathenau, dizia eu que assistimos à "invasão vertical dos bárbaros",
pode julgar-se - como é habitual - que se tratava apenas de uma
"frase". Agora se vê que a expressão poderá enunciar uma verdade ou
um erro, mas que é o contrário de uma "frase", a saber: uma
definição formal que condena toda uma complicada análise. O
homem-massa atual é, com efeito, um primitivo que pelos bastidores
deslizou no velho cenário da civilização.
A toda hora se fala hoje dos progressos fabulosos da técnica;
mas eu não vejo que se fale, nem pelos melhores, com uma consciência
de seu futuro suficientemente dramático. O próprio Spengler, tão
sutil e tão profundo - ainda que tão maníaco -, parece-me neste
ponto demasiado otimista. Pois crê que à "cultura" vai suceder uma
época de "civilização", sob a qual entende sobretudo a técnica. A
idéia que Spengler tem da cultura, e em geral da história, é tão
remota da pressuposta neste ensaio, que não é fácil, nem ainda para
retificá-las, trazer aqui a comento suas conclusões. Só saltando
sobre distâncias e precisões, para reduzir ambos os pontos de vista
a um comum denominador, pudera estabelecer-se assim a divergência:
Spengler crê que a técnica pode continuar vivendo quando morreu o
interesse pelos princípios da cultura. Eu não posso resolver-me a
crer tal coisa. A técnica é consubstancialmente ciência, e a ciência
não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma, e não
pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os
princípios gerais da cultura. Se se embota esse fervor - como parece
ocorrer -, a técnica só pode perviver um pouco de tempo, aquele que
lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou. Vive-se com a
técnica, mas não da técnica. Esta não se nutre nem se respira a si
mesma, não é causa sui, mas precipitado útil, prático, de
preocupações supérfluas, não práticas (53).
Vou, pois, à advertência de que o atual interesse pela técnica
não garante nada, e menos que nada, o progresso mesmo ou a
perduração da técnica. Está bem que se considere o tecnicismo como
um dos traços característicos da "cultura moderna", quer dizer, de
uma cultura que contém um gênero de ciência, o qual vem a ser
materialmente aproveitável. Por isso, ao resumir a fisionomia
novíssima da vida implantada pelo século XIX, eu ficava com estas só
duas feições: democracia liberal e técnica (54).
Mas repito que surpreende a frivolidade com que ao falar da técnica
se esquece que sua víscera cordial é a ciência pura, e que as
condições de sua perpetuação englobam as que tornam possível o puro
exercício científico. Pensou-se em todas as coisas que precisam
continuar vigentes nas almas para que possa continuar havendo de
verdade "homens de ciência"? Acredita-se seriamente que enquanto
haja dollars haverá ciência? Esta idéia em que muitos se
tranqüilizam não é senão uma prova mais de primitivismo.
Aí é nada a quantidade de ingredientes, os mais díspares entre
si, que é mister reunir e agitar para obter coquetel da ciência
físico-química! Ainda contentando-se com a pressão mais débil e
sumária do tema, sobressai já o claríssimo fato de que em toda a
amplitude da terra e em toda a do tempo, a físico-química só
conseguiu constituir-se, estabelecer-se plenamente no breve
quadrilátero que inscrevem Londres, Berlim, Viena e Paris. E ainda
dentro deste quadrilátero, só no século XIX. Isto demonstra que a
ciência experimental é um dos produtos mais improváveis da história.
Magos, sacerdotes, guerreiros e pastores têm pululado por toda a
parte e à vontade. Mas esta fauna do homem experimental requer, pelo
visto, para se produzir, um conjunto de condições mais insólito que
o que engendra o unicórnio. Fato tão sóbrio e tão magro devia fazer
refletir um pouco sobre o caráter supervolátil, evaporante, da
inspiração científica (55). Bem arranjado está
quem creia que se a Europa desaparecesse poderiam os
norte-americanos continuar a ciência!
Importaria muito tratar a fundo o assunto e especificar com
toda a minúcia quais são os supostos históricos vitais da ciência
experimental e, consequentemente, da técnica. Mas não espere que,
embora esclarecida a questão, o homem-massa se daria por inteirado.
O homem-massa não atende a razões e só aprende em sua própria carne.
Uma observação impede-me iludir-me sobre a eficácia de tais
prédicas, que a foro de racionais teriam que ser sutis. Não é
demasiado absurdo que nas circunstâncias atuais não sinta o homem
médio, espontaneamente e sem prédicas, fervor superlativo por
aquelas ciências e suas congêneres as biológicas? Porque repare-se
em qual é a situação atual: enquanto evidentemente todas as demais
coisas da cultura se tornaram problemáticas - a política, a arte, as
normas sociais, a própria moral -, há uma que cada dia comprova, da
maneira mais indiscutível e mais própria para fazer efeito no
homem-massa, sua maravilhosa eficiência: a ciência empírica. Cada
dia facilita um novo invento, que esse homem médio utiliza. Cada dia
produz um novo analgésico ou vacina, que beneficia esse homem médio.
Todo o mundo sabe que, não cedendo à inspiração científica, se se
triplicassem ou decuplicassem os laboratórios, multiplicar-se-iam
automaticamente riqueza, comodidades, saúde, bem-estar. Pode
imaginar-se propaganda mais formidável e contundente em favor de um
princípio vital? Como, não obstante, não há sombra de que as massas
peçam a si mesmas um sacrifício de dinheiro e de atenção para dotar
melhor a ciência? Longe disso, o após-guerra converteu o homem de
ciência no novo pária social. E conste que me refiro a físicos,
químicos, biólogos - não aos filósofos -. A filosofia não necessita
de proteção, nem de atenção, nem de simpatia da massa. Cuida de seu
aspecto de perfeita inutilidade (56), e como
isso se liberta de toda submissão do homem médio. Sabe que é por
essência problemática, e abraça alegre seu livre destino de pássaro
do bom Deus, sem pedir a ninguém que conte com ela, nem
recomendar-se, nem defender-se. Se alguém de boa mente a aproveita
para algo, regozija-se por simples simpatia humana; mas não vive
desse proveito alheio, nem o premedita, nem o espera. Como vai
pretender que alguém a tome em sério, se ela começa por duvidar de
sua própria existência, se não vive mais que na medida em que se
combata a si mesma, em que se desvive a si mesma? Deixemos, pois, de
lado a filosofia, que é aventureira de outro nível.
Mas as ciências experimentais necessitam da massa, como esta
necessita delas, sob pena de sucumbir, já que num planeta sem
físico-química não se pode sustentar o número de homens hoje
existentes.
Que raciocínios podem conseguir o que não consegue o automóvel,
onde esses homens vão e vêm, e a injeção de pantopom que fulmina,
milagrosa., suas dores? A desproporção entre o benefício constante e
patente que a ciência lhes procura e o interesse que por ela mostram
é tal, que não há modo de subornar-se a si mesmo com ilusórias
esperanças, e esperar mais que barbárie de quem assim se comportar.
Maxime se, segundo veremos, este desapego pela ciência. como tal
aparece, talvez com maior clareza que em nenhuma outra parte, na.
massa dos técnicos mesmos - de médicos, engenheiros, etc., os quais
soem exercer sua profissão com um estado de espírito idêntico no
essencial ao de quem se contenta com usar do automóvel ou comprar o
tubo de aspirina -, sem a menor solidariedade íntima com o destino
da ciência, da civilização.
Haverá quem se sinta mais sobrecolhido por outros sintomas de
barbárie emergente que, sendo de qualidade positiva, de ação, e não
de omissão, saltam mais aos olhos e se materializam em espetáculo.
Para mim é este da desproporção entre o proveito que o homem médio
recebe da ciência e a gratidão que lhe dedica - que não lhe dedica -
o mais aterrador (57). Só posso explicar-me esta
ausência do adequado reconhecimento se recordo que no centro da
África os negros vão também em automóvel e se aspirinizam. O europeu
que começa a predominar - esta é minha hipótese - seria,
relativamente à complexa civilização em que nasceu, um homem
primitivo, um bárbaro emergindo por um alçapão, um "invasor
vertical".
X. PRIMITIVISMO E HISTÓRIA
A natureza está sempre aí. Sustenta-se a si mesma. Nela, na
selva, podemos impunemente ser selvagens. Podemos inclusive resolver
a não deixar de sê-lo nunca, sem mais risco que o advento de outros
seres que não o sejam. Mas, em princípio, são possíveis povos
perenemente primitivos. Há-os. Breyssig chamou-os de "os povos da
perpétua aurora", os que ficaram numa alvorada estática, congelada,
que não avança para nenhum meio-dia.
Isso acontece no mundo que é só Natureza. Mas não acontece no
mundo que é civilização, como o nosso. A civilização não está aí,
não se sustenta a si mesma. É artifício e requer um artista ou
artesão. Se o senhor quer aproveitar-se das vantagens da
civilização, mas não se preocupa de sustentar a civilização..., o
senhor está enfarado. A três por dois o senhor fica sem civilização.
Um descuido, e quando o senhor olha à sua volta tudo se volatilizou!
Como se houvessem recolhido uns tapetes que tapavam a pura Natureza,
reaparece repristinada a selva primitiva. A selva sempre é
primitiva. E vice-versa. Tudo que é primitivo é selva.
Os românticos de todos os tempos se desarticulavam ante esta
cena de desolação, em que o natural e subumano tornava a oprimir a
palidez humana da mulher, e pintavam o cisne sobre Lêda,
estremecido; o touro com Pasifae e Antíope sob o capro.
Generalizando acharam um espetáculo mais sutilmente indecente na
paisagem com ruínas, onde a pedra civilizada, geométrica, se afoga
sob o abraço da silvestre vegetação. Quando um bom romântico divisa
um edifício, a primeira coisa que seus olhos procuram é, sobre o
acrotério ou o telhado, o "amarelo saramago". Ele anuncia que, em
definitivo, tudo é terra; que por toda a parte a selva rebrota.
Seria estúpido rir do romântico. Também o romântico tem razão.
Sob essas imagens inocentemente perversas palpita um enorme e
sempiterno problema: o das relações entre a civilização e o que
ficou depois dela - a Natureza -, entre o racional e o cósmico.
Reclamo, pois, a franquia para ocupar-me dele em outra ocasião e
para ser na hora oportuna romântico.
Mas agora encontro-me em faina oposta. Trata-se de conter a
selva invasora, O "bom europeu" tem de se dedicar agora ao que
constitui, como é sabido, grave preocupação dos Estados
australianos: impedir que as figueiras ganhem terreno e joguem os
homens ao mar. Pelo ano quarenta e tantos, um emigrante meridional,
nostálgico de sua paisagem - Málaga? Sicília? -, levou para a
Austrália num vaso de barro uma figueirazinha. Hoje os orçamentos da
Oceania sobrecarregam-se com verbas onerosas destinadas à guerra
contra a figueira, que invadiu o continente e cada ano ganha em
corte mais de um quilômetro.
O homem-massa crê que a civilização em que nasceu e que usa é
tão espontânea e primigênea como a Natureza, e ipso facto
converte-se em primitivo. A civilização se lhe antolha selva. Eu já
o disse, mas agora é preciso acrescentar algumas precisões. Os
princípios em que se apoia o mundo civilizado - o que é preciso
sustentar - não existem para o homem médio atual. Não lhe interessam
os valores fundamentais da cultura, e não se faz solidário deles.
Não está disposto a pôr-se a seu serviço. Como aconteceu isto? Por
muitas causas; mas agora vou destacar apenas uma.
A civilização, quanto mais avança, torna-se tanto mais complexa
e mais difícil. Os problemas que hoje levanta são arqui-intrincados.
Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses
problemas. O após-guerra nos oferece um exemplo bem claro disso. A
reconstituição da Europa - está se vendo - é um assunto demasiado
algébrico, e o europeu vulgar revela-se inferior à tão sutil
empresa. Não é que faltem meios para a solução. Faltam cabeças. Mais
exatamente: há algumas cabeças, muito poucas; mas o corpo vulgar da
Europa central não quer pô-las sobre os ombros.
Este desequilíbrio entre a sutileza complicada dos problemas e
a das mentes será cada vez maior se não se remedeia, e constitui a
mais elementar tragédia da civilização. De tanto ser férteis e
certeiros os princípios que a informam, aumenta sua colheita em
quantidade e em agudeza até ultrapassar a receptividade do homem
normal. Não creio que isto tenha acontecido jamais no passado. Todas
as civilizações feneceram pela insuficiência de seus princípios. A
européia ameaça sucumbir pelo contrário. Na Grécia e em Roma não
fracassou o homem, mas seus princípios. O Império romano finda por
falta de técnica. Ao chegar a um grau de povoação grande e exigir
tão vasta convivência a solução de certas urgências materiais, que
só a técnica podia achar, começou o mundo a involuir, a retroceder e
consumir-se.
Mas agora é o homem quem fracassa por não poder continuar
emparelhado com o progresso de sua própria civilização. Causa
inquietude ouvir falar sobre os temas mais elementais do dia por
pessoas relativamente mais cultas. Parecem toscos labregos que com
dedos grossos e desajeitados querem colher uma agulha que está sobre
uma mesa. Manejam-se, por exemplo, os temas políticos e sociais com
o instrumental de conceitos rombudos que serviram a duzentos anos
para enfrentar situações de fato duzentas vezes menos sutis.
Civilização avançada é uma e mesma coisa com problemas árduos.
Daí que quanto maior seja o progresso, tanto mais em perigo está. A
vida é cada vez melhor; mas, bem entendido, cada vez mais
complicada. É claro que ao complicarem-se os problemas, vão-se
aperfeiçoando também os meios para resolvê-los. Mas é mister que
cada nova geração se torne senhora desses meios adiantados. Entre
estes - para concretizar um pouco - há um banalmente unido ao avanço
da civilização, que é ter muito passado às suas costas, muita
experiência; em suma: história. O saber histórico é uma técnica de
primeira ordem para conservar e continuar uma civilização provecta.
Não por que dê soluções positivas ao novo aspecto dos conflitos
vitais - a vida é sempre diferente do que foi -, mas porque evita
cometer os erros ingênuos de outros tempos. Mas se o senhor, além de
ser velho, e, portanto, de que sua vida começa a ser difícil, perdeu
a memória do passado, o senhor não aproveita sua experiência, então
tudo é desvantagem. Pois eu creio que esta é a situação da Europa.
As pessoas mais "cultas" de hoje padecem uma ignorância histórica
incrível. Eu sustento que hoje sabe o europeu dirigente muito menos
história que o homem do século XVIII e mesmo do XVII. Aquele saber
histórico das minorias governantes - governantes sensu lato - tornou
possível o avanço prodigioso do século XIX. Sua política está
pensada - pelo XVIII - precisamente para evitar erros de todas as
políticas antigas, está ideada em vista desses erros, e resume em
sua substância a mais longa experiência. Mas já o século XIX começou
a perder "cultura histórica", apesar de que no seu transcurso os
especialistas a fizeram avançar muitíssimo como ciência
(58). A este abandono se devem em boa parte seus
peculiares erros, que hoje gravitam sobre nós. Em seu último terço
iniciou-se - embora subterraneamente - a involução, o retrocesso à
barbárie; isto é, à ingenuidade e primitivismo de quem não tem ou
esquece seu passado.
Por isso são bolchevismo e fascismo, as duas tentativas "novas"
de política que na Europa e seus confinantes se estão fazendo, dois
claros exemplos de regressão substancial. Não tanto pelo conteúdo
positivo de suas doutrinas, que, isolado, tem naturalmente uma
verdade parcial - quem no universo não possui uma porciúncula de
razão? -, como pela maneira anti-histórica, anacrônica, com que
tratam sua parte de razão. Movimentos típicos de homens-massa
dirigidos, como todos os que o são, por homens medíocres,
extemporâneos e sem memória extensa, sem "consciência histórica",
comportam-se desde o início como se houvessem passado já, como se
sucedendo nesta hora pertencessem à fauna de antanho.
A questão não está em ser ou não ser comunista e bolchevista.
Não discuto o credo. O que é inconcebível e anacrônico é que um
comunista de 1917 se atire a fazer uma revolução que é em sua forma
idêntica a todas as que houve antes e na qual não se corrigem os
mínimos defeitos e erros das antigas. Por isso não é interessante
historicamente o acontecido na Rússia; por isso é estritamente o
contrário de um começo de vida humana. É, pelo contrário, uma
monótona repetição da revolução de sempre, é o perfeito lugar comum
das revoluções. Até o ponto de que não há frase feita, das muitas
que sobre as revoluções a velha experiência humana fez, que não
receba deplorável confirmação quando se aplica a esta. "A revolução
devora seus próprios filhos !" "A revolução começa por um partido
moderado, a seguir passa aos extremistas e começa mui rapidamente a
retroceder para uma restauração", etc., etc. A esses tópicos
veneráveis podiam ajuntar-se algumas outras verdades menos notórias,
porém não menos prováveis, entre elas esta: uma revolução não dura
mais de quinze anos, período que coincide com a vigência de uma
geração (59).
Quem aspire verdadeiramente a criar uma nova realidade social
ou política, necessita preocupar-se antes de tudo de que esses
humílimos lugares comuns da experiência histórica fiquem invalidados
pela situação que ele suscita. De minha parte reservarei a
qualificação de genial ao político que mal comece a operar comecem a
ficar loucos os professores de História dos Institutos, em vista de
que todas as "leis" de sua ciência aparecem caducadas, interrompidas
e feitas cisco.
Invertendo o signo que afeta o bolchevismo, poderíamos dizer
coisas similares do fascismo. Nem um nem outro ensaio estão "à
altura dos tempos", não levam dentro de si resumido todo o
pretérito, condição irremissível para superá-lo. Com o passado não
se luta corpo a corpo. O porvir o vence porque o devora. Se deixar
algo dele fora está perdido.
Um e outro - bolchevismo e fascismo - são duas falsas
alvoradas; não trazem a manhã do amanhã, mas a de um arcaico dia, já
usado uma ou muitas vezes; são primitivismo. E isto serão todos os
movimentos que recaiam na simplicidade de travar uma luta com tal ou
qual porção do passado, em vez de proceder a sua digestão.
Não há dúvida de que é preciso superar o liberalismo do século
XIX. Mas isso é justamente o que não pode fazer quem, como o
fascismo, se declara anti-liberal. Por isso - ser antiliberal ou não
liberal - é o que fazia o homem anterior ao liberalismo. E como já
uma vez este triunfou daquela, repetirá sua vitória inumeráveis
vezes ou se acabará tudo - liberalismo e anti-liberalismo - numa
destruição da Europa. Há uma cronologia vital inexorável. O
liberalismo é nela posterior ao anti-liberalismo, ou, o que é o
mesmo, é mais vida que este, como o canhão é mais arma que a lança.
Desde já, uma atitude anti-algo parece posterior a este algo,
posto que signifique uma reação contra ele e supõe sua prévia
existência. Mas a inovação que o anti representa se desvanece no
vazio ademane negador e deixa só como conteúdo positivo uma
"antigualha". Quem se declara anti-Pedro não faz, traduzindo sua
atitude à linguagem positiva, senão declarar-se partidário de um
mundo onde Pedro não existe. Mas isso é precisamente o que acontecia
ao mundo quando ainda não havia nascido Pedro. O antipedrista, em
vez de colocar-se depois de Pedro, coloca-se antes e retrocede toda
a película à situação passada, ao cabo da qual está inexoravelmente
o reaparecimento de Pedro. Acontece, pois, com todos estes anti o
que, segundo a lenda, aconteceu a Confúcio. O qual nasceu,
naturalmente, depois de seu pai; mas, diabo!, nasceu já com oitenta
anos enquanto seu progenitor não tinha mais que trinta. Todo anti
não é mais que um simples e vazio não.
Seria tudo muito fácil se com um não puro e simples
aniquilássemos o passado. Mas o passado é pura essência revenant. Se
o mandamos embora, volta, volta irremediavelmente. Por isso sua
única autêntica superação é não mandá-lo embora. Contar com ele.
Comportar-se à sua vista para sorteá-lo, evitá-lo. Em suma, "a
altura dos tempos", com hiperestésica consciência da conjuntura
histórica.
O passado tem razão, a sua. Se não se lhe dá essa que tem,
voltará a reclamá-la, e de passagem a impor a que não tem. O
liberalismo tinha uma razão, e essa é preciso dá-la per saecula
saecculorum. Mas não tinha toda a razão, e essa que não tinha é a
que se devia tirar-lhe. A Europa necessita conservar seu essencial
liberalismo. Esta é a condição para superá-lo.
Se falei aqui de fascismo e bolchevismo não foi senão
obliquamente, fixando-me só na sua feição anacrônica. Esta é, a meu
juízo, inseparável de tudo que hoje parece triunfar. Porque hoje
triunfa o homem-massa, e, portanto, só tentativas por eles
informadas, saturadas de seu estilo primitivo, podem celebrar uma
aparente vitória. Mas, à parte isso, não discuto agora a entranha de
um nem a do outro, como não pretendo dirimir o perene dilema entre
revolução e evolução. O máximo que este ensaio se atreve a solicitar
é que revolução ou evolução sejam históricas e não anacrônicas.
O tema que verso nestas páginas é politicamente neutro, porque
alenta em estrato muito mais profundo que a política e suas
dissensões. Não é mais nem menos massa o conservador que o radical,
e esta diferença - que em toda época tem sido muito superficial -
não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem, vulgo
rebelde.
A Europa não tem remissão se seu destino não é posto nas mãos
de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar
debaixo de si todo o subsolo histórico, que conheçam a latitude
presente da vida e repugnem toda atitude arcaica e silvestre.
Necessitamos da história íntegra para ver se conseguimos escapar
dela, não recair nela.
XI. A ÉPOCA DO "MOCINHO SATISFEITO"
Resumo: O novo fato social que aqui se analisa é este: a
história européia parece, pela primeira vez, entregue à decisão do
homem vulgar como tal. Ou dito em voz ativa: o homem vulgar, antes
dirigido, resolveu governar o mundo. Esta resolução de avançar para
o primeiro plano social produziu-se nele, automaticamente, mal
chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. Se
atendendo aos defeitos da vida pública, estuda-se a estrutura
psicológica deste novo tipo de homem-massa, encontra-se o seguinte:
1o., uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil, abastada,
sem limitações trágicas; portanto, cada indivíduo médio encontra em
si uma sensação de domínio e triunfo que, 2o., o convida a
afirmar-se a si mesmo tal qual é, a considerar bom e completo seu
haver moral e intelectual. Este contentamento consigo o leva a
fechar-se em si mesmo para toda instância exterior, a não ouvir, a
não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais.
Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer
predomínio. Atuará, pois, como se somente ele e seus congêneres
existissem no mundo; portanto, 3o., intervirá em tudo impondo sua
vulgar opinião, sem considerações, contemplações, trâmites nem
reservas; quer dizer, segundo um regime de "ação direta".
Este repertório de feições fez com que pensássemos em certos
modos deficientes de ser homem, como o "menino mimado" e o primitivo
rebelde; quer dizer, o bárbaro. (O primitivo normal, pelo contrário,
é o homem mais dócil a instâncias superiores que jamais existiu -
religião, tabus, tradição social, costumes -.) Não é necessário
estranhar que eu acumule dictérios sob esta figura de ser humano. O
presente ensaio não é mais que um primeiro ensaio de ataque a esse
homem triunfante, e o anúncio de que uns quantos europeus vão reagir
energicamente contra sua pretensão de tirania. Por enquanto trata-se
de um ensaio de ataque: o ataque a fundo virá depois, talvez muito
breve, em forma muito diferente da que este ensaio reveste, O ataque
a fundo tem de vir de maneira que o homem-massa não se possa
precaver contra ele, que o veja diante de si e não suspeite que
aquilo, precisamente aquilo, é o ataque a fundo.
Este personagem, que agora anda por toda a parte e onde quer
impor sua barbárie íntima, é, com efeito, o garoto mimado da
história humana. O garoto mimado é o herdeiro que se comporta
exclusivamente como herdeiro. Agora a herança é a civilização - as
comodidades, a segurança; em suma, as vantagens da civilização -.
Como vimos, só dentro da folga social que esta fabricou no mundo,
pode surgir um homem constituído por aquele repertório de feições,
inspirado por tal caráter. É uma de tantas deformações como o luxo
produz na matéria humana. Tenderíamos ilusoriamente a crer que uma
vida nascida em um mundo abastado seria melhor, mais vida e de
superior qualidade à que consiste, precisamente, em lutar com a
escassez. Mas não é verdade. Por razões muito rigorosas e
arquifundamentais que agora não é oportuno enunciar. Agora, em vez
dessas razões, basta recordar o fato sempre repetido que constitui a
tragédia de toda a aristocracia hereditária. O aristocrata herda,
quer dizer, encontra atribuídas a sua pessoa umas condições de vida
que ele não criou, portanto, que não se produzem organicamente
unidas a sua vida pessoal e própria. Acha-se ao nascer instalado, de
repente e sem saber como, em meio de sua riqueza e de suas
prerrogativas. Ele não tem, intimamente, nada que ver com elas,
porque não vêm dele. São a carapaça gigantesca de outra pessoa, de
outro ser vivente, seu antepassado. E tem de viver como herdeiro,
isto é, tem de usar a carapaça de outra vida. Em que ficamos? Que
vida vai viver o "aristocrata" de herança, a sua ou a do prócer
inicial? Nem uma nem outra. Está condenado a representar o outro,
portanto, a não ser nem o outro nem ele mesmo. Sua vida perde
inexoravelmente autenticidade, e converte-se em pura representação
ou ficção de outra vida. A abundância de meios que está obrigado a
manejar não o deixa viver seu próprio e pessoal destino, atrofia sua
vida. Toda vida é luta, esforço por ser ela mesma. As dificuldades
com que tropeço para realizar minha vida são, precisamente, o que
desperta e mobiliza minhas atividades, minhas capacidades. Se meu
corpo não me pesasse eu não poderia andar. Se a atmosfera não me
oprimisse, sentiria meu corpo como uma coisa vaga, fofa,
fantasmática. Assim, no "aristocrata" herdeiro toda a sua pessoa vai
se desvanecendo, por falta de uso e esforço vital. O resultado é
essa específica parvoíce das velhas nobrezas, que não se assemelha a
nada e que, a rigor, ninguém descreveu ainda em seu interno e
trágico mecanismo - o interno e trágico mecanismo que conduz toda a
aristocracia hereditária à sua irremediável degeneração.
Valha isto tão somente para enfrentar nossa ingênua tendência a
crer que a abundância de meios favorece a vida. Pelo contrário. Um
mundo abundoso (60) de possibilidades produz
automaticamente graves deformações e viciosos tipos de existência
humana - os que se podem reunir na classe geral "homem-herdeiro", de
que o "aristocrata" não é senão um caso particular, e outro um
menino mimado e outro, muito mais amplo e radical, o homem-massa de
nosso tempo -. (Por outra parte, caberia aproveitar mais
detalhadamente a anterior alusão ao "aristocrata", mostrando como
muitos dos traços característicos deste, em todos os povos e tempo,
se dão, de maneira germinal, no homem-massa. Por exemplo: a
propensão de fazer ocupação central da vida os jogos e os esportes;
o cultivo do seu corpo - regime higiênico e atenção à beleza do
traje -; falta de romanticismo na relação com a mulher; divertir-se
com o intelectual, mas, no fundo, não estimá-lo e mandar que os
lacaios ou os esbirros o açoitem; preferir a vida sob a autoridade
absoluta a um regime de discussão (61), etc.
etc.).
Insisto, pois, com leal desgosto em fazer ver que este homem
cheio de tendências incivis, que este novíssimo bárbaro é um produto
automático da civilização moderna, especialmente da forma que esta
civilização no século XIX. Não veio de fora ao mundo civilizado como
os "grandes bárbaros brancos" do século V; não nasceu tampouco
dentro dele por geração espontânea e misteriosa, como, segundo
Aristóteles, os girinos na alverca, mas é o seu fruto natural. Cabe
formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a
vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava
estavam equilibrados pelos problemas que sentia. Isto é verdade,
tanto na ordem espiritual como na física. Assim, para me referir a
uma dimensão muito concreta da vida corporal, recordarei que a
espécie humana brotou em zonas do planeta onde a estação quente
ficava compensada por uma estação de frio intenso. Nos trópicos, o
animal-homem degenera, e vice-versa, as raças inferiores - por
exemplo, os pigmeus - foram repelidas para os trópicos por raças
nascidas depois delas e superiores na escala da evolução
(62).
Pois bem, a civilização do século XIX é de tal índole que
permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante, do qual
percebe só a superabundância de meios, mas não as angústias.
Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicinas
benéficas, de Estados previdentes, de direitos cômodos. Ignora, por
seu turno, o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e
assegurar para o futuro sua produção; não percebe o instável que é a
organização do Estado, e mal sente dentro de si obrigações. Este
desequilíbrio o falsifica, vicia-o em sua raiz de ser vivente,
fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida, que é
absoluto perigo, radical problematismo. A forma mais contraditória
da vida humana que pode aparecer na vida humana é o "mocinho
satisfeito". Por isso, quando se torna figura predominante, é
preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se acha ameaçada
de degeneração; quer dizer, de relativa morte. Segundo isto, o nível
vital que representa a Europa de hoje é superior a todo o passado
humano; mas se olhamos o porvir, faz temer que nem conserve sua
altura nem produza outro nível mais elevado, porém, pelo contrário,
que retroceda e recaia em altitudes inferiores.
Isto, penso, faz ver com suficiente clareza a anormalidade
superlativa que representa o "mocinho satisfeito". Porque é um homem
que veio à vida para fazer o que bem entende. Com efeito, o "filho
de família" forja para si esta ilusão. Já sabemos por que: no âmbito
familiar, tudo, até os maiores delitos, pode ficar no final das
contas impune. O âmbito familiar é relativamente artificial, e
tolera dentro de si muitos atos que na sociedade, no ar da rua
trariam automaticamente conseqüências desastrosas e iniludíveis para
seu autor. Mas o "mocinho" é aquele que acredita poder comportar-se
fora de casa como em casa, aquele que acredita que nada é fatal,
irremediável e irrevogável. Por isso acredita que pode fazer o que
bem entende (63). Grande equívoco! Vossa Mercê
irá aonde o levem, como se diz ao papagaio no conto do português.
Não é o que não se deva fazer o que esteja na vontade da pessoa; é
que não se pode fazer senão o que cada qual tem que fazer, tem que
ser. Cabe unicamente negar-se a fazer isso que é preciso fazer; mas
isto não nos deixa em liberdade para fazer outra coisa que esteja na
nossa vontade. Neste ponto possuímos apenas uma liberdade negativa
de arbítrio - a nolição -. Podemos perfeitamente desertar de nosso
destino mais autêntico; mas é para cair prisioneiro nos graus
inferiores de nosso destino. Eu não posso fazer isto evidente a cada
leitor no que seu destino individualíssimo tem como tal, porque não
conheço a cada leitor, mas é possível fazê-lo ver naquelas porções
ou facetas de seu destino que são idênticas às de outros. Por
exemplo: todo europeu atual sabe, com uma certeza muito mais
vigorosa que a de todas as suas idéias e "opiniões" expressas, que o
homem europeu atual tem de ser liberal. Não discutamos se esta ou a
outra forma de liberdade é a que tem de ser. Refiro-me a que o
europeu mais reacionário sabe, no fundo de sua consciência, que isso
que a Europa tentou no último século com o nome de liberalismo é, em
última instância, algo iniludível, inexorável, que o homem ocidental
de hoje é, queira ou não queira.
Embora se demonstre, com plena e incontrastável verdade, que
são falsas e funestas todas as maneiras concretas em que se tentou
até agora realizar esse imperativo irremissível de ser politicamente
livre, inscrito no destino europeu, fica em pé a última evidência de
que no século último tinha substancialmente razão. Esta evidência
última atua tanto no comunista europeu como no fascista, por muitas
atitudes que tenham para nos convencer e convencer-se do contrário,
como atua - queira ou não queira, creia-o ou não - no católico que
presta mais leal adesão ao Syllabus (64). Todos
"sabem" que além das justas críticas com que se combatem as
manifestações do liberalismo fica a irrevogável verdade deste, uma
verdade que não é teórica, científica, intelectual, mas de uma ordem
radicalmente diferente e mais decisiva de tudo isso - a saber, uma
verdade de destino -. As verdades teóricas não são discutíveis, mas
todo seu sentido e sua força estão em ser discutidas; nascem da
discussão, vivem enquanto se discutem e estão feitas exclusivamente
para a discussão. Mas o destino - o que vitalmente se tem que ser ou
não se tem que ser - não se discute, mas sim aceita-se ou não. Se o
aceitamos, somos autênticos; se não o aceitamos, somos a negação, a
falsificação de nós mesmos (65), O destino não
consiste naquilo que temos vontade de fazer; mas melhormente se
reconhece e mostra seu claro, rigoroso perfil na consciência de ter
que fazer o que não está na nossa vontade.
Pois bem: "o mocinho-satisfeito" caracteriza-se por "saber" que
certas coisas não podem ser e, entretanto, e por isso mesmo, fingir
com seus atos e palavras a convicção contrária, O fascista se
mobilizará contra a liberdade política, precisamente porque sabe que
esta não faltará nunca no fim das contas e em sério, mas que está
aí, irremediavelmente, na substância mesma da vida européia, e que
nela se recairá sempre que a verdade seja necessária, na hora das
seriedades. Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a
inseriedade, a "piada". O que fazem, fazem-no sem o caráter de
irrevogável, como faz suas travessuras o "filho de família". Toda
essa pressa para adotar em todas as ordens atitudes aparentemente
trágicas, últimas, talhantes, é só a aparência. Brincam de tragédia
porque crêem que não é verossímil a tragédia efetiva no mundo
civilizado.
Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico
ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. Se
alguém se obstina em afirmar que dois mais dois é igual a cinco e
não há motivo para supô-lo clemente, devemos afirmar que não o crê,
por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo.
Um furacão de farsa geral e onímoda sopra sobre o torrão
europeu. Quase todas as posições que se tomam e ostentam são
internamente falsas. Os únicos esforços que fazem destinam-se a
fugir do próprio destino, a cegar-se ante sua evidência e sua
chamada profunda, a evitar cada qual o confronto com isso que tem
que ser. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais trágica
seja a máscara adotada. Há humorismo onde quer que se vive de
atitudes revogáveis, em que a pessoa não se finca inteira e sem
reservas. O homem-massa não afirma o pé sobre a firmeza incomovível
de seu signo; pelo contrário, vegeta suspenso ficticiamente no
espaço. Por isso é que nunca como agora estas vidas sem peso e sem
raiz - déracinées de seu destino - se deixem arrastar pela mais
inconstante corrente. É a época das "correntes" e do "deixar-se ir".
Quase ninguém apresenta resistência aos superficiais torvelinhos que
se formam em arte ou em idéias, ou em política, ou nos usos sociais.
Por isso, mais que nunca triunfa a retórica. O superrealista
acredita haver superado toda a história literária quando escreveu
"aqui uma palavra que não é necessário escrever" onde outros
escreveram "jasmins, cisnes e faunesas". Mas é claro que com isso só
fez extrair outra retórica que até agora jazia nas latrinas.
Esclarece a situação atual advertir, não obstante a
singularidade de sua fisionomia, a porção que de comum tinha com
outras do passado. Assim acontece que mal chega à sua máxima atitude
a civilização mediterrânea - por volta do século III A. C. - aparece
o cínico. Diógenes pateia com suas sandálias sujas de lama os
tapetes de Arístipo. O cínico tornou-se um personagem pululante, que
se achava atrás de cada esquina e em todas as alturas. Ora bem, o
cínico não fazia outra coisa senão sabotar aquela civilização. Era o
nihilista do helenismo. Jamais criou nem fez nada, seu papel era
desfazer - melhor dito, tentar desfazer, porque tampouco conseguiu
seu propósito -- O cínico, parasita da civilização, vive de negá-la,
pela mesma razão de que está convencido de que ela não desaparecerá.
Que faria o cínico num povo selvagem onde todos, naturalmente e a
sério, fazem o que ele em farsa, considera como seu papel pessoal?
Que é um fascista se não fala mal da liberdade e um superrealista se
não perjura da arte!
Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem
nascido no mundo demasiadamente bem organizado, do qual só percebe
as vantagens e não os perigos. O contorno o mima, porque é
"civilização" - isto é, uma casa -, e o "filho de família" não sente
nada que o faça sair de sua índole caprichosa, que incite a ouvir
instâncias externas superiores a ele, e muito menos que o obrigue a
tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino.
XII. A BARBÁRIE DO "ESPECIALISMO"
A tese era que a civilização do século XIX produziu
automaticamente o homem-massa. Convém não fechar sua exposição geral
sem analisar, num caso particular, a mecânica dessa produção. Desta
sorte, ao concretizar-se, a tese ganha em força persuasiva.
Esta civilização do século XIX, dizia eu, pode resumir-se em
duas grandes dimensões: democracia liberal e técnica. Tomemos agora
somente a última. A técnica contemporânea nasce da copulação entre o
capitalismo e a ciência experimental. Não toda técnica é científica.
Aquele que fabricou os machados de pedra, no período chelense,
carecia de ciência, e, não obstante, criou uma técnica. A China
chegou a um alto grau de tecnicismo sem suspeitar em nada a
existência da física. Só a técnica moderna da Europa possui uma raiz
científica, e dessa raiz lhe vem seu caráter específico, a
possibilidade de um ilimitado progresso. As demais técnicas -
mesopotâmica, nilota, grega, romana, oriental - espraiam-se até um
ponto de desenvolvimento que não podem ultrapassar, e apenas o tocam
começam a retroceder em lamentável involução.
Esta maravilhosa técnica ocidental tornou possível a
maravilhosa proliferação da casta européia. Recorde-se o dado de que
tomou seu vôo este ensaio e que, como eu disse, encerra
germinalmente todas estas meditações. Do século V a 1800 a Europa
não consegue ter uma população superior a 180 milhões. De 1800 a
1914 ascende a mais de 460 milhões. O pulo é único na história
humana. Não há dúvida de que a técnica - junto com a democracia
liberal - engendrou o homem-massa no sentido quantitativo desta
expressão. Mas estas páginas tentaram mostrar que também é
responsável da existência do homem-massa no sentido qualitativo e
pejorativo do termo.
Por "massa" - prevenia eu no princípio - não se entende
especialmente o obreiro; não designa aqui uma classe social, mas uma
classe ou modo de ser homem que se dá hoje em todas as classes
sociais, que por isso mesmo representa o nosso tempo, sobre o qual
predomina e impera. Agora vamos ver isso com sobrada evidência.
Quem exerce o poder social? Quem impõe a estrutura de seu
espírito na época? Sem dúvida, a burguesia. Quem, dentro dessa
burguesia é considerado como o grupo superior, com a aristocracia do
presente? Sem dúvida, o técnico: engenheiro, médico, financista,
professor etc. etc. Quem, dentro do grupo técnico, o representa com
maior altitude e pureza? Sem dúvida, o homem de ciência. Se um
personagem astral visitasse a Europa, e com ânimo de julgá-la lhe
perguntasse por que tipo de homem, entre os que a habitam, preferia
ser julgada, não há dúvida de que a Europa apontaria satisfeita e
certa de uma sentença favorável, seus homens de ciência. É claro que
o personagem astral não perguntaria por indivíduos excepcionais, mas
procuraria a regra, o tipo genérico "homem de ciência", cume da
humanidade européia.
Pois bem: o homem de ciência atual é o protótipo do
homem-massa. E não por casualidade, nem por defeito unipessoal de
cada homem de ciência, mas porque a técnica mesma - raiz da
civilização - o converte automaticamente em homem-massa; quero
dizer, faz dele um primitivo, um bárbaro moderno.
A coisa é muito conhecida: fez-se constar inúmeras vezes; mas,
somente articulada no organismo deste ensaio, adquire a plenitude de
seu sentido e a evidência de sua gravidade.
A ciência experimental inicia-se ao finalizar o século XVI
(Galileu), consegue constituir-se nos finais do XVII (Newton) e
começa a desenvolver-se nos meados do XVIII. O desenvolvimento de
algo é coisa diferente de sua constituição e está submetido a
condições diferentes. Assim, a constituição da física, nome coletivo
da ciência experimental, obrigou a um esforço de unificação. Tal foi
a obra de Newton e demais homens de seu tempo. Mas o desenvolvimento
da física iniciou uma faina de caráter oposto à unificação para
progredir, a ciência necessitava que os homens de ciência se
especializassem. Os homens de ciência, não a ciência. A ciência não
é especialista. Ipso facto deixaria de ser verdadeira. Nem sequer a
ciência empírica, tomada na sua integridade, é verdadeira se a
separamos da matemática, da lógica, da filosofia. Mas o trabalho
nela tem de ser - irremissivelmente - especializado.
Seria de grande interesse, e maior utilidade que a aparente à
primeira vista, fazer uma história das ciências físicas e
biológicas, mostrando o processo de crescente especialização no
trabalho dos investigadores. Isso faria ver como, geração após
geração, o homem de ciência tem sido constrangido, encerrado num
campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito. Mas não é isto
o importante que essa história nos ensinaria, mas justamente o
inverso: como em cada geração o científico, por ter de reduzir sua
órbita de trabalho, ia progressivamente perdendo contato com as
demais partes da ciência, com uma interpretação integral do
universo, que é o único merecedor dos nomes de ciência, cultura,
civilização européia.
A especialização começa, precisamente, num tempo que chama
homem civilizado ao homem "enciclopédico". O século XIX inicia seus
destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente,
embora sua produção tenha já um caráter de especialismo. Na geração
seguinte, a equação se deslocou, e a especialidade começa a
desalojar dentro de cada homem de ciência a cultura integral. Quando
em 1890 uma terceira geração assume o comando intelectual da Europa,
encontramo-nos com um tipo de científico sem exemplo na história. É
um homem que, de tudo quanto há de saber para ser um personagem
discreto, conhece apenas determinada ciência, e ainda dessa ciência
só conhece bem a pequena porção em que ele é ativo investigador.
Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de
quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva, e
denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber.
O caso é que, fechado na estreiteza de seu campo visual,
consegue, com efeito, descobrir novos fatos e fazer avançar sua
ciência, que ele apenas conhece, e com ela a enciclopédia do
pensamento, que conscienciosamente desconhece. Como foi e é possível
coisa semelhante? Porque convém repisar a extravagância deste fato
inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte mercê do
trabalho de homens fabulosamente medíocres, e menos que medíocres.
Quer dizer, que a ciência moderna, raiz e símbolo da civilização
atual, deu guarida dentro de si ao homem intelectualmente médio e
lhe permite operar com bom êxito. A razão disso está no que é, ao
mesmo tempo, vantagem maior e perigo máximo da ciência nova e de
toda civilização que esta dirige e representa: a mecanização. Uma
boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em biologia é
faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer
pessoa. Para os efeitos de inúmeras investigações é possível dividir
a ciência em pequenos segmentos, encerrar-se em um e
desinteressar-se dos demais. A firmeza e exatidão dos métodos
permitem esta transitória e prática desarticulação do saber.
Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina, e nem sequer
é forçoso para obter abundantes resultados possuir idéias rigorosas
sobre o sentido e fundamento deles. Assim a maior parte dos
científicos propelem o progresso geral da ciência encerrados num
nicho de seu laboratório, como a abelha no seu alvéolo.
Por isso cria uma casta de homens sobremodo estranhos. O
investigador que descobriu um novo fato da Natureza tem por força de
sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua pessoa. Com
certa aparente justiça se considerará como "um homem que sabe". E,
com efeito, nele se dá um pedaço de algo que, junto com outros
pedaços não existentes nele, constituem verdadeiramente o saber.
Esta é a situação íntima do especialista, que nos primeiros anos
deste século chegou à sua mais frenética exageração. O especialista
"sabe" muito bem seu mínimo rincão de universo; mas ignora
basicamente todo o resto.
Eis aqui um precioso exemplar deste estranho homem novo que eu
tentei, por uma e outra de suas vertentes e aspectos, definir. Eu
disse que era uma configuração humana sem igual em toda a história.
O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e
fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. Porque outrora os
homens podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em
mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista
não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. Não é um
sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua
especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é "um homem de
ciência" e conhece muito bem sua porciúncula de universo. Devemos
dizer que é um sábio ignorante, coisa sobremodo grave, pois
significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que
ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na
sua questão especial é um sábio.
E, com efeito, este é o comportamento do especialista. Em
política, em arte, nos usos sociais, nas outras ciências tomará
posições de primitivo, e ignorantíssimo; mas as tomará com energia e
suficiência, sem admitir - e isto é o paradoxal - especialistas
dessas coisas. Ao especializá-lo a civilização o tornou hermético e
satisfeito dentro de sua limitação; mas essa mesma sensação íntima
de domínio e valia o levará a querer predominar fora de sua
especialidade. E a conseqüência é que, ainda neste caso, que
representa um maximum de homem qualificado - especialismo - e,
portanto, o mais oposto ao homem-massa, o resultado é que se
comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as
esferas da vida.
A advertência não é vaga. Quem quiser pode observar a estupidez
com que pensam, julgam e atuam hoje na política, na arte, na
religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os "homens de
ciência", e é claro, depois deles, médicos, engenheiros,
financistas, professores, etc. Essa condição de "não ouvir", de não
se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei
como característica do homem-massa, chega ao cúmulo nesses homens
parcialmente qualificados. Eles simbolizam, e em grande parte
constituem o império atual das massas, e sua barbárie é a causa mais
imediata da desmoralização européia.
Por outra parte, significam o mais claro e preciso exemplo de
como a civilização do último século abandonada à sua própria
inclinação, produziu esse broto de primitivismo e barbárie.
O resultado mais imediato desse especialismo não compensado tem
sido que hoje, quando há maior número de "homens de ciência" que
nunca, haja muito menos homens "cultos" que, por exemplo, em 1750. E
o pior é que com esses perdigueiros do forno científico nem sequer
está garantido o progresso íntimo da ciência. Porque esta necessita
de tempo em tempo, como orgânica regulação de seu próprio
incremento, um trabalho de reconstituição, e, como eu disse, isso
requer um esforço de unificação, cada vez mais difícil, que cada vez
complica regiões mais vastas do saber total. Newton pode criar seu
sistema físico sem saber muita filosofia, mas Einstein precisou
saturar-se de Kant e de Mach para poder chegar a sua aguda síntese.
Kant e Mach - com estes nomes simboliza-se só a massa enorme de
pensamentos filosóficos e psicológicos que influíram em Einstein -
serviram para liberar a mente desse e deixar-lhe a via livre para
sua inovação. Mas Einstein não é suficiente. A física entra na crise
mais profunda de sua história, e só poderá salvá-la uma nova
enciclopédia mais sistemática que a primeira.
O especialismo, pois, que tornou possível o progresso da
ciência experimental durante um século, aproxima-se a uma etapa em
que não poderá avançar por si mesmo se não se encarrega uma geração
melhor de construir-lhe um novo forno mais poderoso.
Mas se o especialista desconhece a fisiologia interna da
ciência que cultiva, muito mais radicalmente ignora as condições
históricas de sua perduração, isto é, como devem estar organizados a
sociedade e o coração do homem, para que possa continuar havendo
investigadores. A decadência de vocação científica que se observa
nestes anos - à qual já aludi - é um sintoma preocupador para todo
aquele que tenha uma idéia clara do que é civilização, a idéia que
sói faltar ao típico "homem de ciência", cume de nossa atual
civilização. Também ele acredita que a civilização está aí,
simplesmente, como a crosta terrestre e a selva primigênea.
XIII. O MAIOR PERIGO, O ESTADO
Numa boa ordenação das coisas públicas, a massa é o que não
atua por si mesma. Tal é a sua missão. Veio ao mundo para ser
dirigida, influída, representada, organizada - até para deixar de
ser massa, ou, pelo menos, aspirar a isso -. Mas não veio ao mundo
para fazer tudo isso por si. Necessita referir sua vida à instância
superior, constituída pelas minorias excelentes. Discuta-se quanto
se queira quem são os homens excelentes; mas que sem eles - sejam
uns ou outros - a humanidade não existiria no que tem de mais
essencial, é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma,
embora leve a Europa todo um século metendo a cabeça debaixo da asa,
ao modo dos estrúcios para ver se consegue não ver tão radiante
evidência. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais
ou menos freqüentes e prováveis, mas numa lei da "física" social,
muito mais incomovível que as leis da física de Newton. No dia em
que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia
(66) - única coisa que pode salvá-la -,
compreender-se-á que o homem é, tenha ou não vontade disso, um ser
constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. Se
consegue por si mesmo encontrá-la, é que é um homem excelente;
senão, é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele.
Pretender a massa atuar por si mesma é, pois, rebelar-se contra
seu próprio destino, e como isso é o que faz agora, falo eu da
rebelião das massas. Porque no final das contas a única coisa que
substancialmente e com verdade pode chamar-se é a que consiste em
não aceitar cada qual seu destino, em rebelar-se contra si mesmo. A
rigor, a rebelião do arcanjo Luzbel não o houvera sido menos se em
vez de empenhar-se em ser Deus - o que não era seu destino - se
houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos, que tampouco o
era. (Se Luzbel tivesse sido russo, como Tolstoi, teria talvez
preferido este último estilo de rebeldia, que não é mais nem menos
contra Deus que o outro tão famoso).
Quando a massa atua por si mesma, fá-lo só de uma maneira,
porque não tem outra: lincha. Não é completamente casual que a lei
de Lynch seja americana, já que a América é de certo modo o paraíso
das massas. Nem muito menos poderá estranhar que agora, quando as
massas triunfam, triunfe a violência e se faça dela a única ratio, a
única doutrina. Há muito tempo que eu fazia notar este comércio da
violência como norma (67), Hoje chegou a seu
máximo desenvolvimento, e isso é um bom sintoma, porque significa
que automaticamente vai iniciar-se seu descenso. Hoje é já a
violência a retórica do tempo; os retóricos, os inanes, a fazem sua.
Quando uma realidade humana cumpriu sua história, naufragou e
morreu, as ondas a cospem nas costas da retórica, onde, cadáver,
pervive largamente. A retórica é o cemitério das realidades humanas;
no mínimo, seu hospital de inválidos. À realidade sobrevive seu nome
que, ainda sendo sua palavra, é, afinal de contas, nada menos que
palavra e conserva sempre algo de seu poder mágico.
Mas ainda quando não seja impossível que tenha começado a
minguar o prestígio da violência como norma cinicamente
estabelecida, continuaremos sob seu regime, bem que em outra forma.
Refiro-me ao perigo maior que hoje ameaça a civilização
européia. Como todos os demais perigos que ameaçam esta civilização,
também este nasceu dela. Mais ainda: constitui uma de suas glórias;
é o Estado contemporâneo. Encontramo-nos, pois, com uma réplica do
que no capítulo anterior se disse sobre a ciência: a fecundidade de
seus princípios a propelem a um fabuloso progresso; mas este impõe
inexoravelmente a especialização, e a especialização ameaça afogar a
ciência.
A mesma coisa acontece com o Estado.
Rememore-se o que era o Estado nos fins do século XVIII em
todas as nações européias. Bem pouca coisa! O primeiro capitalismo e
suas organizações industriais, onde pela primeira vez triunfa a
técnica, a nova técnica, a racionalizada, haviam produzido um
primeiro crescimento da sociedade. Uma nova classe social apareceu,
mais poderosa em número e potência que as preexistentes: a
burguesia. Esta burguesia sem mérito possuía, antes de tudo e
sobretudo uma coisa: talento, talento prático. Sabia organizar,
disciplinar, dar continuidade e articulação ao esforço. No meio
dela, como num oceano, navegava ao azar a "nave do Estado". A nave
do Estado é uma metáfora reinventada pela burguesia, que se sentia a
si mesma oceânica, onipotente e grávida de tormentas. Aquela nave
era coisa de nada ou pouco mais: apenas tinha soldados, apenas tinha
burocratas, apenas tinha dinheiro. Havia sido fabricada na Idade
Média por uma classe de homens muito diferentes dos burgueses: os
nobres, gente admirável por sua coragem, por seu dom de mando, por
seu sentido de responsabilidade. Sem eles não existiriam as nações
da Europa. Mas com todas essas virtudes do coração, os nobres
andavam, sempre andaram, mal de cabeça. Viviam da outra víscera. De
inteligência muito limitada, sentimentais, instintivos, intuitivos;
em suma, "irracionais". Por isso não puderam desenvolver nenhuma
técnica, coisa que obriga à racionalização. Não inventaram a
pólvora. Entediaram-se. Incapazes de inventar novas armas, deixaram
que os burgueses - tomando-as do Oriente ou outro lugar -
utilizassem a pólvora, e com isso, automaticamente, ganharam a
batalha ao guerreiro nobre, ao "cavalheiro", coberto estupidamente
de ferro, que apenas podia mover-se na lida, e a quem não ocorrera
que o segredo eterno da guerra não consiste tanto nos meios de
defesa como nos de agressão (segredo que Napoleão redescobriria)
(68)
Como o Estado é uma técnica - de ordem pública e de
administração -, o "antigo regime" chega aos fins do século XVIII
com um Estado fraquíssimo, açoitado de todos os lados por uma ampla
e revolta sociedade. A desproporção entre o poder do Estado e o
poder social é tal nesse momento, que comparando a situação com a
vigente em tempo de Carlos Magno, aparece o Estado do século XVIII
como uma degeneração. O Estado carolíngio era, está claro, muito
menos poderoso que o de Luís XVI, mas, em compensação, a sociedade
que o rodeava não tinha força nenhuma (69). O
enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou
possível a Revolução, as revoluções (até 1848).
Mas com a Revolução apossou-se do Poder público a burguesia e
aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes, e em pouco mais de uma
geração criou um Estado poderoso, que acabou com as revoluções.
Desde 1848, quer dizer, desde que começa a segunda geração de
governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. E não
certamente porque não houvesse motivos para elas, mas porque não
havia meios. Nivelou-se o Poder público com o poder social. Adeus
revoluções para sempre! Já não cabe na Europa mais que o contrário:
o golpe de Estado. E tudo que com posterioridade pode dar-se ares de
revolução, não foi mais que um golpe de Estado com máscara.
Em nosso tempo, o Estado chegou a ser máquina formidável que
funciona prodigiosamente, de uma maravilhosa eficiência pela
quantidade e precisão dos seus meios. Plantada no meio da sociedade,
basta tocar u'a mola para que atuem suas enormes alavancas e operem
fulminantes sobre qualquer parte do corpo social.
O Estado contemporâneo é o produto mais visível e notório da
civilização. E é muito interessante, é revelador, precatar-se da
atitude que ante ele adota o homem-massa. Este o vê, admira-o, sabe
que está aí, garantindo sua vida; mas não tem consciência de que é
uma criação humana inventada por certos homens e mantida por certas
virtudes e por certo que houve ontem nos homens e que pode
evaporar-se amanhã. Por outra parte, o homem-massa vê no Estado um
poder anônimo, e como ele se sente a si mesmo anônimo vulgo -, crê
que o Estado é coisa sua. Imagine-se que sobrevem na vida pública de
um país qualquer dificuldade, conflito ou problema: o homem-massa
tenderá a exigir que imediatamente o assuma o Estado, que se
encarregue diretamente de resolvê-lo com seus gigantescos e
incontrastáveis meios.
Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a
estatificação da vida, o intervencionismo do Estado, a absorção de
toda espontaneidade social pelo Estado; quer dizer, a anulação da
espontaneidade histórica, que em definitivo sustenta, nutre e impele
os destinos humanos. Quando a massa sente uma desventura, ou
simplesmente algum forte apetite, é uma grande tentação para ela
essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo - sem
esforço, luta, dúvida nem risco - apenas ao premir a mola e fazer
funcionar a portentosa máquina. A massa diz a si mesma: "o Estado
sou eu", o que é um perfeito erro. O Estado é a massa só no sentido
em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum
dos dois se chama João. Estado contemporâneo e massa coincidem só em
ser anônimos. Mas o caso é que o homem-massa crê, com efeito, que
ele é o Estado, e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a
qualquer pretexto, a esmagar com ele toda minoria criadora que o
perturbe - que o perturbe em qualquer ordem: em política, em idéias,
em indústria.
O resultado desta tendência será fatal. A espontaneidade social
ficará violentada uma vez e outra pela intervenção do Estado;
nenhuma nova semente poderá frutificar. A sociedade terá de viver
para o Estado; o homem, para a máquina do Governo. E como no final
das contas não é senão u'a máquina cuja existência e manutenção
dependem da vitalidade circundante que a mantenha, o Estado, depois
de sugar a medula da sociedade, ficará héctico, esquelético, morto
com essa morte ferrugenta da máquina, muito mais cadavérica que a do
organismo vivo.
Este foi o signo lamentável da civilização antiga. Não há
dúvida que o Estado imperial criado pelos Júlios e os Cláudios foi
u'a máquina admirável, incomparavelmente superior como artefato ao
velho Estado republicano das famílias patrícias. Mas, curiosa
coincidência, apenas chegou a seu pleno desenvolvimento, começa a
decair o corpo social. Já nos tempos dos Antoninos (século II) o
Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. Esta
começa a ser escravizada, a não poder viver mais que em serviço do
Estado. A vida toda se burocratiza. Que acontece? A burocratização
da vida produz sua diminuição absoluta - em todas as ordens -. A
riqueza diminui e as mulheres parem pouco. Então o Estado, para
subvencionar suas próprias necessidades, força mais a burocratização
da existência humana. Esta burocratização em segunda potência é a
militarização da sociedade. A urgência maior do Estado é seu aparato
bélico, seu exército. O Estado é, antes de tudo, produtor de
segurança (a segurança de que nasce o homem-massa, não se esqueça).
Por isso é, antes de tudo, exército. Os Severos, de origem africana,
militarizam o mundo. Faina vã! A miséria aumenta, as matrizes são
cada vez menos fecundas. Faltam até soldados. Depois dos Severos, o
exército tem de ser recrutado entre estrangeiros.
Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo?
A sociedade, para viver melhor, cria, como um utensílio, o Estado.
Depois, o Estado se sobrepõe, e a sociedade tem de começar a viver
para o Estado (70). Mas, no final das contas, o
Estado se compõe ainda dos homens daquela sociedade. Entretanto,
estes não bastam para sustentar o Estado e é preciso chamar
estrangeiros: primeiro, dálmatas; depois, germanos. Os estrangeiros
tornaram-se donos do Estado, e os restos da sociedade, do povo
inicial, têm de viver escravo deles, de gente com a qual não tem
nada que ver. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se
converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que
é o Estado. O esqueleto come a carne que o rodeia. O andaime se
torna proprietário e inquilino da casa.
Quando se sabe disso, sobressalta um pouco ouvir que Mussolini
apregoa com exemplar petulância, como um prodigioso descobrimento
feito agora na Itália, a fórmula Tudo pelo Estado; nada fora do
Estado; nada contra o Estado. Bastaria isso para descobrir no
fascismo um típico movimento de homens-massa. Mussolini encontrou um
Estado admiravelmente construído - não por ele, mas precisamente
pelas forças e idéias que ele combate: pela democracia liberal -.
Ele se limita a usá-lo incontinentemente; e, sem que eu me permita
agora julgar os detalhes de sua obra, é indiscutível que os
resultados obtidos até o presente não podem ser comparados aos
obtidos na função política e administrativa pelo Estado liberal. Se
algo conseguiu, é tão miúdo, pouco visível e nada substantivo, que
dificilmente equilibra a acumulação de poderes anormais que lhe
consentem empregar aquela máquina em forma extrema.
O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação
direta constituídas em normas. Através e por meio do Estado, máquina
anônima, as massas atuam por si mesmas.
As nações européias têm diante de si uma etapa de grande
dificuldade em sua vida interior, problemas econômicos, jurídicos e
de ordem pública sobremodo árduos. Como não temer que sob o império
das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do
indivíduo, do grupo, e extinguir assim definitivamente o porvir?
Um exemplo concreto deste mecanismo achamo-lo num dos fenômenos
mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em
todos os países das forças de Polícia. O crescimento social obrigou
iniludivelmente a isso. Por muito habitual que nos seja, não deve
perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a
população de uma grande urbe atual, para caminhar pacificamente e
atender a seus negócios, necessita, sem remédio, uma Polícia que
regule a circulação. Mas é uma inocência das pessoas de "ordem"
pensar que essas "forças de ordem pública", criadas para a ordem,
vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. O
inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão
impor - e que será, naturalmente, o que lhes convenha.
Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar
a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma
ou outra sociedade. Quando, em 1800, a nova indústria começa a criar
um tipo de homem - o obreiro industrial - mais criminoso que os
tradicionais, a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. Em
1810 surge na Inglaterra, pelas mesmas causas, um aumento da
criminalidade, e então os ingleses percebem de que não têm Polícia.
Governam os conservadores. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada
disso. Preferem agüentar, até onde se possa, o crime. "As pessoas
conformam-se em se adaptar à desordem, considerando-a como resgate
da liberdade". "Em Paris - escreve John William Ward - têm uma
Polícia admirável, mas pagam caro suas vantagens. Prefiro ver que
cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife
Road, a estar submetido a visitas domiciliárias, à espionagem e a
todas as maquinações de Fouché (71) "São duas
idéias diferentes do Estado. O inglês quer que o Estado tenha
limites.
SEGUNDA PARTE
QUEM MANDA NO MUNDO?
XIV. QUEM MANDA NO MUNDO?
A civilização européia - tenho repetido uma e outra vez -
padeceu automaticamente a rebelião das massas. Por seu anverso, o
fato desta rebelião apresenta um aspecto ótimo; já o dissemos: a
rebelião das massas é uma e mesma coisa com o crescimento fabuloso
que a vida humana experimentou em nosso tempo. Mas o reverso do
mesmo fenômeno é tremebundo; olhada por esse lado a rebelião das
massas é uma e mesma coisa com a desmoralização radical da
humanidade. Olhemos esta agora de vários pontos de vista.
I
A substância ou índole de uma nova época histórica é resultante
de variações internas - do homem e de seu espírito -. Entre estas
últimas, a mais importante, quase sem dúvida, é a deslocação do
poder. Mas este traz consigo uma deslocação do espírito.
Por isso, ao aparecermos a um tempo com ânimo de compreendê-lo,
uma de nossas primeiras perguntas deve ser esta: "Quem manda no
mundo atualmente?" Poderá ocorrer que neste momento a humanidade
esteja dispersa em vários pedaços sem comunicação entre si, que
formam mundos interiores e independentes. No tempo de Milcíades, o
mundo mediterrâneo ignorava a existência do mundo extremo oriental.
Nestes casos teríamos que estabelecer nossa pergunta: "Quem manda no
mundo?" a cada grupo de convivência. Mas desde o século XVI entrou a
humanidade toda num processo gigantesco de unificação, que em nossos
dias chegou a seu término insuperável. Já não há pedaço de
humanidade que viva à parte - não há ilhas de humanidade -.
Portanto, desde aquele século pode dizer-se que quem manda no mundo
exerce, efetivamente, seu influxo autoritário em todo ele. Esse tem
sido o papel do grupo homogêneo formado pelos povos europeus durante
três séculos. A Europa mandava, e sob sua unidade de mando o mundo
vivia com um estilo unitário, ou, pelo menos, progressivamente
unificado.
Esse estilo de vida sói denominar-se "Idade Moderna", nome
incolor e inexpressivo sob o qual se oculta esta realidade: época da
hegemonia européia.
Por "mando" não se entende aqui primordialmente exercícios de
poder material, de coação física. Porque aqui aspira-se a evitar
estupidezes, pelo menos as mais ordinárias e palmares. Ora bem: essa
relação estável e normal entre homens que se chama "mando" não
descansa nunca na força, mas, pelo contrário, porque um homem ou
grupo de homens exerce o mando, tem à sua disposição esse aparato ou
máquina social que se chama "força". Os casos em que à primeira
vista parece ser a força o fundamento do mando, revelam-se ante uma
inspeção ulterior como os melhores exemplos para confirmar aquela
tese. Napoleão dirigiu à Espanha uma agressão, sustentou esta
agressão durante algum tempo; mas não mandou propriamente na Espanha
nem um dia sequer. E isso porque tinha a força e precisamente porque
só tinha a força. Convém distinguir entre um fato ou processo de
agressão e uma situação de mando. O mando é o exercício normal da
autoridade. O qual se funda sempre na opinião pública - sempre, hoje
como há dez mil anos, entre os ingleses como entre os botocudos -.
Jamais alguém mandou na terra nutrindo seu mando essencialmente de
outra coisa que não fosse a opinião pública.
Ou acredita-se que a soberania da opinião pública foi um
invento feito pelo advogado Danton em 1789 ou por S. Tomás de Aquino
no século XIII? A noção desta soberania terá sido descoberta aqui ou
ali, nesta ou naquela data; mas o fato de que a opinião pública é a
força radical que nas sociedades humanas produz o fenômeno de
mandar, é coisa tão antiga e perene como o próprio homem. Assim, na
física de Newton a gravitação é a força que produz o movimento. E a
lei da opinião pública é a gravitação universal da história
política. Sem ela, nem a ciência histórica seria possível. Por isso
muito agudamente insinua Hume que o tema da história consiste em
demonstrar como a soberania da opinião pública, longe de ser uma
aspiração utópica, é o que pesou sempre e a toda hora nas sociedades
humanas. Pois até quem pretende governar com os janízaros depende da
opinião destes e da que tenham sobre estes os demais habitantes.
A verdade é que não se manda com os janízaros. Assim,
Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas, Sire, pode-se fazer tudo,
menos uma coisa: sentar-se sobre elas." E mandar não é atitude de
arrebatar o poder, mas tranqüilo exercício dele. Em suma, mandar é
sentar-se. Trono, cadeira curul, banco azul, poltrona ministerial,
sede. Contra o que uma ótica inocente e folhetinesca supõe, o mandar
não é tanto questão de punhos como de nádegas. O Estado é, em
definitivo, o estado da opinião: uma situação de equilíbrio, de
estática.
O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. Uma
sociedade dividida em grupos discrepantes, cuja força de opinião
fica reciprocamente anulada, não dá lugar a que se constitua um
mando. E como a Natureza tem horror ao vácuo, esse oco que deixa a
força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. Em
suma, pois, avança esta como substituta daquela.
Por isso, se se quer expressar com toda a precisão a lei da
opinião pública como lei da gravitação histórica, convém ter em
conta esses casos de ausência, e então chega-se a uma fórmula que é
o conhecido, venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar
contrariando a opinião pública.
Isso nos faz cair na conclusão de que mando significa
prepotência de uma opinião; portanto, de um espírito; de que mando
não é, no final das contas, outra coisa senão poder espiritual. Os
fatos históricos confirmam isso escrupulosamente. Todo mando
primitivo tem um caráter "sacro", porque se funda no religioso, e o
religioso é a forma primeira sob a qual aparece sempre o que depois
vai ser espírito, idéia, opinião; em suma, o imaterial e
ultra-físico. Na Idade Média se reproduz com formato maior o mesmo
fenômeno. O Estado ou Poder público primeiro que se forma na Europa
é a Igreja - com seu caráter específico e já nominativo de "poder
espiritual" -. Da Igreja aprende o Poder político que ele também não
é originariamente senão poder espiritual, vigência de certas idéias,
e cria-se o Sacro Romano Império. Deste modo lutam dois poderes
igualmente espirituais que, não podendo diferenciar-se na substância
- ambos são espírito -, convêm no acordo de se instalar cada um em
um modo de tempo: o temporal e o eterno. Poder temporal e poder
religioso são identicamente espirituais; mas um é espírito do tempo
- opinião pública intramundana e cambiante -, enquanto o outro é
espírito de eternidade - a opinião de Deus, a que Deus tem sobre o
homem e seus destinos.
Tanto vale, pois, dizer: em tal data manda tal homem, tal povo
ou tal grupo homogêneo de povos, como dizer: em tal data predomina
no mundo tal sistema de opiniões - idéias, preferências, aspirações,
propósitos.
Como há de se entender este predomínio? A maior parte dos
homens não têm opinião, e é preciso que esta lhe venha de fora a
pressão, como entra o lubrificante nas máquinas. Por isso é preciso
que o espírito - seja qual seja - tenha poder e o exerça, para que a
gente que não opina - e é a maioria - opine. Sem opiniões, a
convivência humana seria o caos; menos ainda: o nada histórico. Sem
opiniões, a vida dos homens careceria de arquitetura, de
organicidade. Por isso, sem um poder espiritual, sem alguém que
mande, e na medida que isso seja necessário, reina na humanidade o
caos. E paralelamente, toda deslocação de poder, toda mudança de
imperantes, é ao mesmo uma mudança de opiniões, e, consequentemente,
nada menos que uma mudança de gravitação histórica.
Voltemos agora ao começo. Durante vários séculos mandou no
mundo a Europa, um conglomerado de povos com um espírito afim. Na
Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal. É o que aconteceu
em todas as idades médias da história. Por isso representam sempre
um relativo caos e uma relativa barbárie, um déficit de opinião. São
tempos em que se ama, se odeia, se anseia, se repugna, e tudo isso
em grande escala. Mas, em compensação, opina-se pouco. Tempos assim
não carecem de delícias. Mas nos grandes tempos a humanidade vive da
opinião, e por isso há ordem. Do outro lado da Idade Média achamos
novamente uma época em que, como na Moderna, manda alguém, embora
sobre uma porção limitada do mundo: Roma, a grande mandona. Ela pôs
ordem no Mediterrâneo e confinantes.
Nestas jornadas de após-guerra começa a dizer-se que a Europa
não manda mais no mundo. Adverte-se toda a gravidade deste
diagnóstico? Com ele anuncia-se uma deslocação do poder. Para onde
se dirige? Quem vai suceder a Europa no mando do mundo? Mas há mesmo
certeza de que alguém vai suceder à Europa? E se não fosse ninguém,
que aconteceria?
II
A pura verdade é que no mundo acontece a todo instante, e,
portanto, agora, infinidade de coisas. A pretensão de dizer o que é
que acontece agora no mundo deve ser entendida, pois, como
ironizando-se a si mesma. Mas assim como é impossível conhecer
diretamente a plenitude do real, não temos mais remédio senão
construir arbitrariamente uma realidade, supor que as coisas são de
certa maneira. Isto nos proporciona um esquema, quer dizer, um
conceito ou entretecido de conceitos. Com ele, como através de uma
quadrícula, olhamos depois a efetiva realidade, e então, só então,
conseguimos uma visão aproximada dela. Nisto consiste o método
científico. Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto. Quando
ao ver chegar nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: "Este é
Pedro», cometemos deliberadamente, ironicamente, um erro. Porque
Pedro significa para nós um esquemático repertório de modos de se
comportar física e moralmente - o que chamamos "caráter" -, e a pura
verdade é que nosso amigo Pedro não se parece, em certos momentos,
em quase nada à idéia "nosso amigo Pedro".
Todo conceito, o mais vulgar como o mais técnico, vai incluso
na ironia de si mesmo, nos entredentes de um sorriso tranqüilo, como
o geométrico diamante vai implícito na dentadura de ouro de seu
engaste. Ele diz muito seriamente: "Esta coisa é A, e esta outra
coisa é B." Mas é a sua a seriedade de um pince-sans-rire. É a
seriedade instável de quem engoliu uma gargalhada e se não aperta
bem os lábios a vomita. Ele sabe muito bem que nem esta coisa é A,
assim, à valentona, nem a outra é B, sem reservas. O que o conceito
pensa a rigor é um pouco outra coisa que o que diz, e nesta
duplicidade consiste a ironia. O que verdadeiramente pensa é isto:
eu sei que, falando com todo rigor, esta coisa não é A, nem aquela
B; mas, admitindo que são A e B, eu me entendo comigo mesmo para os
efeitos de meu comportamento vital diante de uma ou de outra coisa.
Esta teoria do conhecimento da razão houvera irritado a um
grego. Porque o grego acreditou haver descoberto na razão, no
conceito, a realidade mesma. Nós, contrariamente, acreditamos que a
razão, o conceito, é um instrumento doméstico do homem, que este
necessita e usa para esclarecer sua própria situação em meio da
infinita e arqui-problemática realidade que é sua vida. Vida é luta
com as coisas para sustentar-se entre elas. Os conceitos são o plano
estratégico que nos formamos para responder a seu ataque. Por isso,
se se escruta bem a entranha última de qualquer conceito, acha-se
que não nos diz nada da coisa mesma, mas que resume o que um homem
pode fazer com essa coisa ou padecer dela. Esta opinião taxativa,
segundo a qual o conteúdo de todo conceito é sempre vital, é sempre
ação possível, ou padecimento possível de um homem, não foi até
agora, que eu saiba, sustentada por ninguém; mas é, a meu juízo, o
término indefectível do processo filosófico que se inicia com Kant.
Por isso, se revisamos a sua luz todo o passado da filosofia até
Kant, parecer-nos-á que no fundo todos os filósofos disseram a mesma
coisa. Ora bem, todo descobrimento filosófico não é mais que um
descobrimento e um trazer à superfície o que estava no fundo.
Mas semelhante intróito é desmesurado para o que vou dizer, tão
alheio a problemas filosóficos. Eu ia dizer simplesmente que o que
agora acontece no mundo - entende-se, o histórico - é exclusivamente
isto: durante três séculos a Europa mandou no mundo, e agora a
Europa não está convicta de mandar nem de continuar mandando.
Reduzir a fórmula tão simples a infinitude de coisas que integram a
realidade histórica atual, é sem dúvida e no melhor caso uma
exageração, e eu necessitava por isso recordar que pensar é,
queira-se ou não, exagerar. Quem prefira não exagerar deve calar-se;
mais ainda: tem de paralisar seu intelecto e ver a maneira de
idiotizar-se.
Creio, com efeito, que é aquilo que realmente está acontecendo
no mundo, e que tudo o mais é conseqüência, condição, sintoma ou
anedota disso.
Eu não disse que a Europa tenha deixado de mandar, mas,
estritamente, que nestes anos a Europa sente graves dúvidas sobre se
manda ou não, sobre se amanhã mandará. A isto corresponde nos demais
povos da Terra um estado de espírito congruente: duvidar de se agora
são mandados por alguém. Tampouco estão certos disso.
Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. Eu suplico
fervorosamente que não se continue cometendo a ingenuidade de pensar
em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou
do Ocidente. Antes de que seu livro aparecera, todo o mundo falava
disso, e o êxito de seu livro deveu-se, como é notório, a que tal
suspeita ou preocupação preexistia em todas as cabeças, com os
sentidos e pelas razões mais heterogêneas.
Falou-se tanto da decadência européia, que muitos chegaram a
dá-la como um fato. Não que acreditavam a sério e com evidência
nele, mas que se habituaram a dá-lo como certo, embora não recordem
sinceramente haver-se convencido resolutamente disso em nenhuma data
determinada. O recente livro de Waldo Frank, Redescobrimento da
América, apoia-se integralmente no suposto de que a Europa agoniza.
Não obstante, Frank nem analisa nem discute, nem faz questão de tão
enorme fato, que lhe vai servir de formidável premissa. Sem mais
averiguações, parte dele como de algo inconcusso. E esta ingenuidade
no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está
convencido da decadência da Europa; longe disso, nem sequer levantou
tal questão. Toma-a como um bonde. Os lugares comuns são os bondes
do transporte intelectual.
E como ele fazem muitas pessoas. Sobretudo, fazem-no os povos,
povos inteiros.
E uma paisagem de exemplar puerilidade a que agora oferece o
mundo. Na escola, quando alguém notifica que o mestre saiu, a turba
parvular faz bagunça. Cada um sente a delícia de evadir-se da
pressão que a presença do mestre impunha, de sacudir os jugos das
normas, de ficar de cabeça para baixo, de sentir-se dono do próprio
destino. Mas, como tirada a norma que fixava as ocupações e as
tarefas, a turba parvular não tem um afazer próprio, uma ocupação
formal, uma tarefa com sentido, continuidade e trajetória,
consequentemente só pode executar uma só coisa: a cabriola.
É deplorável o frívolo espetáculo que os povos menores
oferecem. À vista de que, segundo se diz, a Europa decai e,
portanto, deixa de mandar, cada nação e naçãozinha brinca,
gesticula, fica de cabeça para baixo, entesa-se, dando-se ares de
pessoa maior que rege seus próprios destinos. Daí o vibriônico
panorama de "nacionalismos" que se nos oferece por toda a parte.
Nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo do homem
que hoje predomina no mundo: chamei-o homem-massa, e fiz notar que
sua principal característica consiste em que, sentindo-se vulgar,
proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias
superiores a ele. Era natural que se esse modo de ser predomina
dentro de cada povo, o fenômeno também se produza quando olhamos o
conjunto das nações. Também há, relativamente, povos-massa
resolvidos a rebelar-se contra os grandes povos criadores, minorias
de estirpes humanas que organizaram a história. É verdadeiramente
cômico contemplar como esta ou a outra republiqueta, desde seu
perdido rincão, se põe na ponta dos pés a increpar a Europa e
declarar sua cessação na história universal.
Qual é o resultado? A Europa havia criado um sistema de normas
cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. Estas normas
não são, de modo algum, as melhores possíveis. Mas são, sem dúvida,
definitivas enquanto não existam ou se divisem outras. Para
superá-las é imprescindível parir outras. Ora, os povos-massa
resolveram dar como caduco aquele sistema de normas que é a
civilização européia, mas como são incapazes de criar outro, não
sabem o que fazer, e para encher o tempo entregam-se à cabriola.
Esta é a primeira conseqüência que sobrevem quando no mundo
deixa de mandar alguém: que os demais, ao rebelar-se, ficam sem
tarefa, sem programa de vida.
III
O cigano foi se confessar; mas o padre, precavido, começou por
interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus. Ao que o cigano
respondeu: "Olhe aqui, seu padre, eu ia aprender isso, mas depois
ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor".
Não é essa a situação presente do mundo? Corre o zum-zum de que
não vigorem mais os mandamentos europeus, e em vista disso, as
pessoas - homens e povos - aproveitam a ocasião para viver sem
imperativos. Porque existiam só os europeus. Não se trata de que -
como outras vezes aconteceu - uma germinação de normas novas
substitui as antigas e um fervor novíssimo absorva em seu fogo jovem
os velhos entusiasmos de minguante temperatura. Isso seria o
admitido. Mais ainda: o velho advém velho não por sua senectude, mas
porque já está aí um princípio novo, que apenas com sua novidade
avantaja-se de repente ao preexistente. Se não tivéssemos filhos,
não seríamos velhos ou levaríamos mais tempo a sê-lo. A mesma coisa
acontece com os artefatos. Um automóvel envelhece em dez anos mais
do que uma locomotiva em vinte, simplesmente porque os inventos da
técnica automobilística têm ocorrido com mais rapidez. Esta
descendência oriunda do broto de novas juventudes é um sintoma de
saúde.
Mas o que agora acontece na Europa é coisa insalubre e
estranha. Os mandamentos europeus perderam vigência sem que se
vislumbrem outros no horizonte. A Europa - diz-se - deixa de mandar,
e não se vê quem possa substituí-la. Por Europa entende-se, antes de
tudo e propriamente, a trindade França, Inglaterra, Alemanha. Na
região do globo que elas ocupam amadureceu o módulo de existência
humana conforme ao qual foi organizado o mundo. Se, como agora se
diz, esses três povos estão em decadência e seu programa de vida
perdeu validez, não é de estranhar que o mundo se desmoralize.
E esta é a pura verdade. Todo o mundo - nações, indivíduos -
está desmoralizado. Durante uma temporada, esta desmoralização
diverte e até vagamente ilude. Os inferiores pensam que lhes tiraram
um peso de cima. Os decálogos conservam do tempo em que eram
inscritos sobre pedra ou bronze seu caráter de pesadume. A
etimologia de mandar significa carregar, pôr em alguém algo nas
mãos. Quem manda é, sem remissão, quem tem o encargo. Os inferiores
do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e
sobrecarreguem, e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados
imperativos. Mas a festa dura pouco. Sem mandamentos que nos
obriguem a viver de um certo modo, fica nossa vida em pura
disponibilidade. Esta é a horrível situação íntima em que se
encontram já as juventudes melhores do mundo. De puro sentir-se
livres, isentas de entraves, sentem-se vazias. Uma vida em
disponibilidade é maior negação que a morte. Porque viver é ter que
fazer algo determinado - é cumprir um encargo -, e na medida em que
iludamos pôr em algo nossa existência desocupamos nossa vida. Dentro
de pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta, que
subirá, como uivo de cães inumeráveis, até as estrelas, pedindo
alguém e algo que mande, que imponha um afazer ou obrigação.
Vá isto dito para os que, com inconsciência de crianças, nos
anunciam que a Europa já não manda. Mandar é dar ocupação às gentes,
metê-las em seu destino, em seu eixo; impedir sua extravagância, a
qual sói ser vacância, vida vazia, desolação.
Não importaria que a Europa deixasse de mandar se houvesse
alguém capaz de substituí-la. Mas não há sombra de tal. Nova York e
Moscou não são nada novo com respeito à Europa. São um e outro duas
parcelas do mandamento europeu que, ao dissociar-se do resto,
perderam seu sentido. A rigor, causa horror falar de Nova York e de
Moscou. Porque não se sabe com plenitude o que são: só se sabe que
nem sobre um nem sobre outro se disseram palavras decisivas. Mas
ainda sem saber plenamente o que são, alcança-se o bastante para
compreender seu caráter genérico. Ambos, com efeito, pertencem de
cheio ao que algumas vezes chamei "fenômenos de camouflage
histórica". A camouflage é, por essência, uma realidade que não é a
que parece. Seu aspecto oculta, em vez de declarar, sua substância.
Por isso engana a maior parte das pessoas. Só se pode livrar da
equivocação que produz a camouflage quem saiba de antemão, e em
geral, que a camouflage existe. A mesma coisa acontece com o
espelhismo. O conceito corrige os olhos.
Em todo fato de camouflage histórica há duas realidades que se
superpõem: uma, profunda, efetiva, substancial; outra, aparente,
acidental e de superfície. Assim, em Moscou há uma película de
idéias européias - o marxismo - pensadas na Europa em vista de
realidades e problemas europeus. Debaixo dela há um povo, não só
diferente como matéria étnica do europeu, mas - o que importa muito
mais - de uma idade diferente da nossa. Um povo ainda em fermento;
quer dizer, juvenil. Que o marxismo tenha triunfado na Rússia - onde
não há indústria - seria a contradição maior que podia sobrevir ao
marxismo. Mas não há tal contradição, porque não há tal triunfo. A
Rússia é marxista aproximadamente como eram romanos os tudescos do
Sacro Império Romano. Os povos novos não têm idéias. Quando crescem
num âmbito onde existe ou acaba de existir uma velha cultura,
disfarçam-se na idéia que esta lhes oferece. Aqui está a camouflage
e sua razão. Esquece-se - como notei várias vezes - que há dois
grandes tipos de evolução para um povo. Há o povo que nasce em um
"mundo" vazio de toda civilização. Exemplo: o egípcio ou o chinês.
Num povo assim, tudo é autóctone, e suas atitudes têm um sentido
claro e direto. Mas há outros povos que germinam e se desenvolvem
num âmbito ocupado já por uma cultura de história anosa. Assim Roma,
que cresce em pleno Mediterrâneo, cujas águas estavam impregnadas de
civilização greco-oriental. Daqui que a metade das atitudes romanas
não sejam suas, mas aprendidas. E a atitude aprendida, recebida, é
sempre dupla, e sua verdadeira significação não é direta, mas
oblíqua. Quem faz um gesto aprendido - por exemplo, um vocábulo de
outro idioma - faz por baixo dele o seu gesto, o autêntico; por
exemplo, traduz a sua própria linguagem o vocábulo exótico. Daí que
para entender as camouflages seja mister também um olhar oblíquo: o
de quem traduz um texto com um dicionário ao lado. Eu espero um
livro em que o marxismo de Stalin apareça traduzido à história da
Rússia. Porque isso, o que tem de russo, é o que tem de forte, e não
o que tem de comunista. Vá lá saber o que será! O único que cabe
afirmar é que a Rússia necessita de séculos ainda para optar ao
mando. Porque carece ainda de mandamentos necessitou fingir sua
adesão ao princípio europeu de Marx. Porque lhe sobra juventude
bastou-lhe essa ficção. O jovem não necessita de razões para viver;
só necessita de pretextos.
Coisa muito semelhante acontece com Nova York. Também é um erro
atribuir sua força atual aos mandamentos a que obedece. Em última
instância reduz-se a este: a técnica. Que casualidade! Outro invento
europeu, não americano. A técnica é inventada pela Europa durante os
séculos XVIII e XIX. Que casualidade! Os séculos em que a América
nasce. E a sério nos dizem que a essência da América é sua concepção
praticista e técnica da vida! Em vez de nos dizer: A América é, como
sempre as colônias, uma repristinação ou rejuvenescimento de raças
antigas, sobretudo da Europa. Em virtude de razões diferentes da
Rússia, os Estados Unidos significam também um caso dessa específica
realidade histórica que chamamos "povo novo". Supõe-se que isso seja
uma frase, quando é uma coisa tão efetiva como a juventude de um
homem. A América é forte por sua juventude, que se pôs a serviço do
mandamento contemporâneo "técnica", como podia haver-se posto a
serviço do budismo se este fosse a ordem do dia. Mas a América não
faz com isso senão começar sua história. Agora vão começar suas
angústias, suas dissenções, seus conflitos. Ainda tem de ser muitas
coisas; entre elas, algumas as mais opostas à técnica e ao
praticismo. A América conta menos anos que a Rússia. Eu sempre, com
medo de exagerar, sustentei que era um povo primitivo camuflado
pelos últimos inventos (72). Agora Waldo Frank,
em seu Redescobrimento da América, o declara francamente. A América
ainda não sofreu; é ilusório pensar que possa possuir as virtudes do
mando.
Quem evite cair na conseqüência pessimista de que ninguém vai
mandar, e que, portanto, o mundo histórico volta ao caos, tem de
retroceder ao ponto de partida e perguntar-se a sério: É tão certo
como se diz que a Europa está em decadência e resigne o mandato,
abdique? Não será esta aparente decadência a crise benfeitora que
permita à Europa ser literalmente Europa? A evidente decadência das
nações européias, não era a priori necessária se algum dia haviam de
ser possível os Estados Unidos da Europa, a pluralidade européia
substituída por uma formal unidade?
IV
A função de mandar e obedecer é a decisiva em toda sociedade.
Como ande nesta turvação a questão de quem manda e quem obedece,
tudo o mais marchará impura e torpemente. Até a mais íntima
intimidade de cada indivíduo, salvas geniais exceções, ficará
perturbada e falsificada. Se o homem fosse um ser solitário que
acidentalmente se acha travado em convivência com outros, talvez
permanecesse intacto de tais repercussões, oriundas dos
deslocamentos e crises do imperar, do Poder. Mas, como é social em
sua mais elementar estrutura, fica transtornado em sua índole
privada por mutações que a rigor só afetam imediatamente à
coletividade. Daí que se tomamos à parte um indivíduo e o
analisamos, cabe coligir sem mais dados como anda em seu país a
consciência de mando e obediência.
Fora interessante e até útil submeter a este exame o caráter
individual do espanhol médio. A operação seria, não obstante,
enfadonha, e, embora útil, deprimente; por isso a evito. Mas faria
ver a enorme dose de desmoralização íntima, de acanalhamento que no
homem médio do nosso país produz o fato de ser a Espanha uma nação
que vive há séculos com uma consciência suja na questão de mando e
obediência. O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como
estado habitual e constituído de uma irregularidade, de algo que
enquanto se aceita continua parecendo indevido. Como não é possível
converter em sã normalidade o que em sua essência é criminoso e
anormal, o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido, fazendo-se
totalmente homogêneo com o crime ou irregularidade que arrasta. Em
um mecanismo parecido ao que o adágio popular enuncia quando diz:
"Uma mentira faz cento". Todas as nações atravessaram jornadas em
que aspirou a mandar sobre elas quem não devia mandar; mas um forte
instinto lhes fez concentrar ao ponto suas energias e expelir aquela
irregular pretensão de mando. Rechaçaram a irregularidade
transitória e reconstituíram assim sua moral pública. Mas o espanhol
fez o contrário: em vez de opor-se a ser imperado por quem sua
íntima consciência rechaçava, preferiu falsificar todo o resto de
seu ser para o acomodar àquela fraude inicial. Enquanto isso
persistir em nosso país, é vão esperar nada dos homens de nossa
raça. Não pode ter vigor elástico para a difícil faina de
sustentar-se com decoro na história uma sociedade cujo Estado, cujo
império ou mando, é constitutivamente fraudulento.
Não há, pois, nada de estranho em que bastasse uma ligeira
dúvida, uma simples vacilação sobre quem manda no mundo, para que
todo o mundo - em sua vida pública e em sua vida privada - haja
começado a desmoralizar-se.
A vida humana, por sua natureza própria, tem de estar posta em
algo, em uma empresa gloriosa ou humilde, em um destino ilustre ou
trivial. Trata-se de uma condição estranha, mas inexorável, inscrita
em nossa existência. Por um lado, viver é algo que cada qual faz por
si e para si. Por outro lado, se essa vida minha, que só a mim me
importa, não é entregue por mim a algo, caminhará desvencilhada, sem
tensão e sem "forma". Estes anos assistimos ao gigantesco espetáculo
de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas no labirinto de si
mesmas por não ter a que se entregar. Todos os imperativos, todas as
ordens ficaram em suspenso. Parece que a situação devia ser ideal,
pois cada vida fica em absoluta franquia para fazer o que lhe der na
vontade, para vagar a si mesma. Sucede o mesmo a cada povo. A Europa
afrouxou sua pressão sobre o mundo. Mas o resultado foi contrário ao
que se poderia esperar. Livrada a si mesma, cada vida fica sem si
mesma, vazia, sem ter o que fazer. E como há de se encher com algo,
inventa-se ou finge frivolamente a si mesma, dedica-se a falsas
ocupações, que nada íntimo, sincero, impõe. Hoje é uma coisa,
amanhã, outra, oposta à primeira. Está perdida ao encontrar-se só
consigo. O egoísmo é labiríntico. Compreende-se. Viver é ir arrojado
para alguma direção, é caminhar para uma meta. A meta não é o meu
caminhar, não é a minha vida; é algo a que ponho esta e que por isso
mesmo está fora dela, mais além. Se resolvo andar só por dentro de
minha vida, egoisticamente, não avanço, não vou a parte alguma; dou
voltas e mais voltas em um mesmo lugar. Isto é o labirinto, um
caminho que não leva a nada, que se perde em si mesmo, de tanto não
ser mais que caminhar por dentro de si.
Depois da guerra, o europeu fechou-se em seu interior, ficou
sem empresa para si e para os demais. Por isso continuamos
historicamente como há dez anos.
Não se manda em seco. O mando consiste em uma pressão que se
exerce sobre os demais. Mas não consiste só nisso. Se fosse isto só,
seria violência. Não se esqueça que mandar tem duplo efeito:
manda-se em alguém, mas manda-se-lhe algo. E o que se lhe manda é,
no final das contas, que participe em uma empresa, em um grande
destino histórico. Por isso não há império sem programa de vida,
precisamente sem um plano de vida imperial. Como diz o verso de
Schiller:
Quando os reis constróem, os carreiros têm o que fazer.
Não convém, pois, embarcar na opinião trivial que crê ver na
atuação dos grandes povos - como dos homens - uma inspiração
puramente egoísta. Não é tão fácil como se crê ser puro egoísta, e
ninguém, sendo-o, triunfou jamais. O egoísmo aparente dos grandes
povos e dos grandes homens é a dureza inevitável com que se deve
comportar quem tem sua vida posta em uma empresa. Quando de verdade
se vai fazer algo e nos entregamos a um projeto, não se nos pode
pedir que estejamos em disponibilidade para atender aos transeuntes
e que nos dediquemos a pequenos altruísmos ocasionais. Uma das
coisas que mais encantam os viajantes quando cruzam a Espanha é que
se perguntam a alguém na rua onde fica uma praça ou edifício, com
freqüência o perguntado deixa o caminho que leva e generosamente se
sacrifica pelo estranho, conduzindo-o ao lugar que a este interessa.
Eu não nego que possa haver nesta índole do bom celtibero algum
fator de generosidade, e me alegro que o estrangeiro interprete
assim sua conduta. Mas nunca ao ouvi-lo ou lê-lo pude reprimir este
receio: é que o compatriota perguntado ia de fato a alguma parte?
Porque poderia ocorrer muito bem que, em muitos casos, o espanhol
não está fazendo nada, não tem projeto nem missão, pelo contrário,
sai à vida para ver se as dos outros enchem um pouco a sua. Em
muitos casos consta-me que meus compatriotas saem à rua para ver se
encontram algum forasteiro a quem acompanhar.
Grave é que esta dúvida sobre o mando do mundo, exercido até
agora pela Europa, tenha desmoralizado o resto dos povos, salvo
aqueles que por sua juventude estão ainda em sua pré-história. Mas é
muito mais grave que este piétenement sur place chegue a
desmoralizar por completo o europeu mesmo. Não penso assim porque eu
seja europeu ou coisa parecida. Não é que diga: se o europeu não há
de mandar no futuro próximo, não me interessa a vida do mundo. Nada
me importaria a cessação do mando europeu se existisse hoje outro
grupo de povos capaz de substitui-lo no Poder e na direção do
planeta. Mas nem sequer isso pediria. Aceitaria que não mandasse
ninguém, se isso não trouxesse consigo a volatilização de todas as
virtudes e de todos os dotes do homem europeu.
Ora bem, isso é irremissível. Se o europeu se habitua a não
mandar, bastarão geração e meia para que o velho continente, e atrás
dele o mundo todo, caía na inércia moral, na esterilidade
intelectual e na barbárie omnímoda. Só a ilusão do império e a
disciplina de responsabilidade que ela inspira podem manter em
tensão as almas do Ocidente. A ciência, a arte, a técnica e tudo o
mais vivem da atmosfera tônica que cria a consciência de mando. Se
falta esta, o europeu se irá envilecendo. Já não terão as mentes
essa fé radical em si mesmas que as lança enérgicas, audazes,
tenazes, à captura de grandes idéias, novas em toda ordem. O europeu
se fará definitivamente cotidiano. Incapaz de esforço criador e
luxuoso, recairá sempre no ontem, no hábito, na rotina. Tornar-se-á
vulgar, formulista, oco, como os gregos da decadência e como os de
toda a história bizantina.
A vida criadora supõe um regime de alta higiene, de grande
decoro, de constantes estímulos, que excitam a consciência da
dignidade. A vida criadora é vida enérgica, e esta só é possível em
uma destas situações: ou sendo quem manda ou achando-se alojado em
um mundo onde manda alguém a quem reconhecemos pleno direito para
tal função; ou mando ou obedeço. Mas obedecer não é agüentar -
agüentar é envilecer-se - mas, pelo contrário, estimar quem manda e
acompanhá-lo, solidarizando-se com ele, situando-se com fervor sob o
drapejar de sua bandeira.
V
Convém que agora retrocedamos ao ponto de partida destes
artigos: ao fato, tão curioso, de que no mundo se fale estes anos
tanto sobre a decadência da Europa. Já é surpreendente o detalhe de
que esta decadência não tenha sido notada primeiramente pelos
estranhos, mas que o descobrimento dela se deva aos europeus mesmos.
Quando ninguém, fora do velho continente, pensava nisso, ocorreu a
alguns homens da Alemanha, da Inglaterra, da França, esta sugestiva
idéia: Não será que começamos a decair? A idéia teve boa Imprensa, e
hoje todo o mundo fala da decadência européia como de uma realidade
inconcussa.
Mas detende ao que a enunciar com um leve gesto e perguntai-lhe
em que fenômenos concretos e evidentes funda seu diagnóstico.
Prontamente vereis a pessoa fazer vagos ademanes e praticar essa
agitação de braços para a rotundidade do universo que é
característica de todo náufrago. Não sabe, com efeito, a que se
agarrar. A única coisa que sem grandes precisões aparece quando se
quer definir a atual decadência européia, é o conjunto de
dificuldades econômicas que encontra hoje diante de cada uma das
nações européias. Mas quando se vai precisar um pouco o caráter
dessas dificuldades, adverte-se que nenhuma delas afeta seriamente o
poder de criação da riqueza e que o velho continente passou por uma
crise muito mais grave nesta ordem.
É que, porventura, o alemão ou o inglês não se sentem hoje
capazes de produzir mais e melhor que nunca? Em modo algum, e
importa muito filiar o estado de espírito desse alemão ou desse
inglês nesta dimensão do econômico. Pois o curioso é, precisamente,
que a depressão indiscutível de seus ânimos não provém de que se
sintam pouco capazes, mas pelo contrário, de que sentindo-se com
mais potencialidade do que nunca, tropecem com certas barreiras
fatais que os impedem de realizar o que muito bem poderiam. Essas
fronteiras fatais da economia atual alemã, inglesa, francesa, são as
fronteiras políticas dos Estados respectivos. A dificuldade
autêntica não radica, pois, neste ou no outro problema econômico que
esteja levantado, mas em que na forma da vida pública em que se
haviam de mover as capacidades econômicas é incongruente como o
tamanho destas. A meu ver, a sensação de menoscabo, de impotência
que abruma inegavelmente estes anos à vitalidade européia, nutre-se
dessa desproporção entre o tamanho da potencialidade européia atual
e o formato da organização política em que tem de atuar. O arranco
para resolver as graves questões urgentes é tão vigoroso como quando
mais o tenha sido; mas tropeça no mesmo instante com as reduzidas
jaulas em que está alojado, com as pequenas nações em que até agora
vivia organizada a Europa. O pessimismo, o desânimo que hoje pesa
sobre a alma continental parece-me muito ao da ave de asa larga que
ao bater os remígios se fere contra as grades da jaula.
A prova disso é que a combinação se repete em todas as demais
ordens, cujos fatores são em aparência tão diferentes do econômico.
Por exemplo, na vida intelectual. Todo bom intelectual da Alemanha,
da Inglaterra ou da França sente-se hoje afogado nos limites de sua
nação, sente sua nacionalidade como uma limitação absoluta. O
professor alemão já viu claro que é absurdo o estilo de produção a
que o obriga seu público imediato de professores alemães, e sente
falta da superior liberdade de expressão que desfrutam o escritor
francês ou o ensaísta inglês. Vice-versa, o homem de letras
parisiense começa a compreender que está esgotada a tradição de
mandarinismo literário, de verbal formalismo, a que o condena sua
proveniência francesa, e preferiria, conservando as melhores
qualidades dessa tradição, integrá-la com algumas virtudes do
professor alemão.
Na ordem da política interior acontece a mesma coisa. Não se
analisou ainda a fundo a estranhíssima questão de por que anda tão
em agonia a vida política de todas as grandes nações. Diz-se que as
instituições democráticas caíram em desprestígio. Mas isso é
justamente o que conviria explicar. Porque é um desprestígio
estranho. Fala-se mal do Parlamento em toda a parte; mas não se vê
que em nem uma das que contam se intente sua substituição, nem
sequer que existam perfis utópicos de outras formas de Estado que,
ao menos idealmente, pareçam preferíveis. Não há, pois, que crer
muito na autenticidade deste aparente desprestígio. Não são as
instituições, em quanto instrumento de vida pública, as que vão mal
na Europa, mas as tarefas em que empregá-las. Faltam programas de
tamanho congruente com as dimensões efetivas que a vida chegou a ter
dentro de cada indivíduo europeu.
Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez para
sempre, porque enfara escutar as inépcias que a toda hora se diz,
por exemplo, a propósito do Parlamento. Existe toda uma série de
objeções válidas ao modo de conduzir-se os Parlamentos tradicionais;
mas se se tomam uma a uma, vê-se que nem uma delas permite a
conclusão de que deve suprimir-se o Parlamento, mas, pelo contrário,
todas levam por via direta e evidente à necessidade de reformá-lo.
Ora bem: o melhor que humanamente pode dizer-se de algo é que
necessita ser reformado, porque isso implica que é imprescindível e
que é capaz de nova vida. O automóvel atual saiu das objeções que se
opuseram ao automóvel de 1910. Mas a desestima vulgar em que caiu o
Parlamento não procede dessas objeções. Fala-se, por exemplo, que
não é eficaz. Nós devemos então perguntar: Para que não é eficaz?
Porque a eficácia é a virtude que um utensílio tem para produzir uma
finalidade. Neste caso a finalidade seria a solução dos problemas
públicos em cada nação. Por isso exigimos de quem proclama a
ineficácia dos Parlamentos que ele possua uma idéia clara de qual é
a solução dos problemas públicos atuais. Porque do contrário, se em
nenhum país está hoje claro, nem ainda teoricamente, em que consiste
o que há que fazer, não tem sentido acusar de ineficácia os
instrumentos institucionais. Mais valia recordar que jamais
instituição alguma criou na história Estados mais formidáveis, mais
eficientes que os Estados parlamentares do século XIX. O fato é tão
indiscutível que esquecê-lo demonstra franca estupidez. Não se
confunda, pois, a possibilidade e a urgência de reformar
profundamente as Assembléias legislativas, para fazê-las "ainda
mais" eficazes, com declarar sua inutilidade.
O desprestígio dos Parlamentos não tem nada que ver com seus
notórios defeitos. Procede de outra causa, alheia de todo a eles no
que diz respeito a utensílios políticos. Procede de que o europeu
não sabe em que empregá-los, de que não estima as finalidades da
vida pública tradicional; em suma, de que não sente ilusão pelos
Estados nacionais em que está inscrito e prisioneiro. Se se olha com
um pouco de cuidado esse famoso desprestígio, o que se vê é que o
cidadão, na maior parte dos países, não sente respeito a seu Estado.
seria inútil substituir o detalhe de suas instituições, porque o
irrespeitável não são estas, mas o Estado mesmo, que se ananicou.
Pela primeira vez, ao tropeçar o europeu em seus projetos
econômicos, políticos, intelectuais, com os limites de sua nação,
sente que aqueles - quer dizer, suas possibilidades de vida, seu
estilo vital - são incomensuráveis com o tamanho do corpo coletivo
em que está encerrado. E então descobriu que ser inglês, alemão ou
francês é ser provinciano. Deparou-se, pois, com que é "menos" que
antes, porque antes o inglês, o francês e o alemão acreditavam, cada
qual por si, que eram o universo. Este é, parece-me, a autêntica
origem dessa impressão de decadência que achaca o europeu. Portanto,
uma origem puramente íntima e paradoxal, já que a presunção de haver
minguado nasce precisamente de que cresceu sua capacidade e tropeça
com uma organização antiga, dentro da qual já não cabe.
Para dar ao dito um apoio plástico que o sustente, tome-se
qualquer atividade concreta: por exemplo, a fabricação de
automóveis. O automóvel é invento puramente europeu. Entretanto,
hoje é superior a fabricação norte-americana desse artefato.
Conseqüência: o automóvel europeu está em decadência. Todavia, o
fabricante europeu - industrial e técnico - de automóveis sabe muito
bem que a superioridade do produto americano não procede de nenhuma
virtude específica usufruída pelo homem de ultramar, mas apenasmente
de que a fábrica americana pode oferecer seu produto sem dificuldade
alguma a cento e vinte milhões de homens. Imagine-se que uma fábrica
européia visse ante si uma área mercantil formada por todos os
Estados europeus e suas colônias e seus protetorados. Ninguém duvida
de que esse automóvel previsto para quinhentos ou seiscentos milhões
de homens seria muito melhor e mais barato que o "Ford". Todas as
graças peculiares da técnica americana são quase positivamente
efeitos e não causas da amplitude e homogeneidade de seu mercado. A
"racionalização" da indústria é conseqüência automática de seu
tamanho.
A situação autêntica da Europa viria, portanto, a ser esta: seu
magnífico e longo passado a faz chegar a um novo estádio de vida
onde tudo cresceu; mas às vezes as estruturas sobreviventes desse
passado são anãs e impedem a atual expansão. A Europa fez-se em
forma de pequenas nações. Em certo modo, a idéia e o sentimento
nacionais foram sua invenção mais característica. E agora vê-se
obrigada a superar-se a si mesma. É este o esquema do drama enorme
que se representará nos anos vindouros. Saberá libertar-se de
sobrevivências, ou ficará prisioneira para sempre delas? Porque já
ocorreu uma vez na história que uma grande civilização morreu por
não poder substituir sua idéia tradicional de Estado...
VI
Contei em outro lugar a paixão e morte do mundo greco-romano, e
quanto a certos pormenores, reporto-me ao que ali disse
(73). Mas agora podemos considerar o assunto
desde outro aspecto.
Gregos e latinos aparecem na história alojados, como abelhas em
sua colmeia, dentro de urbes, de poleis. Este é um fato que nestas
páginas necessitamos tomar como absoluto e de gênese misteriosa; um
fato de que há que partir tal como o zoólogo parte do dado bruto e
inexplicado de que o sphex vive solitário, errabundo, peregrino, ao
passo que a abelha vermelha só existe em enxame construtor de favos
(74). 0 caso é que a escavação e a arqueologia
nos permitem ver algo do que havia no solo de Atenas e no de Roma
antes de que Atenas e Roma existissem. Mas o trânsito desta
pré-história, puramente rural e sem caráter específico, ao brotar da
cidade, fruta de nova espécie que dá o solo de ambas as penínsulas,
fica arcano; nem sequer está claro o nexo étnico entre aqueles povos
proto-históricos e essas estranhas comunidades, que aportam ao
repertório humano uma grande inovação: a de construir uma praça
pública e em torno uma cidade fechada ao campo. Porque, com efeito,
a definição mais certa do que é a urbe e a polis parece-se muito com
a que comicamente se dá do canhão: rodeia-se o bocal de um poço com
arame muito apertado e tem-se um canhão. O mesmo acontece com a urbe
ou polis que começa por ser um buraco: o foro, o ágora; e tudo o
mais é pretexto para assegurar esse buraco, para delimitar seu
contorno. A polis não é primordialmente um conjunto de casas
habitáveis, mas um lugar de ajuntamento civil, um espaço demarcado
para funções públicas. A urbe não está feita, como a cabana ou o
domus, para proteger-se da intempérie e engendrar, que são misteres
privados e familiares, mas para discutir sobre a coisa pública.
Note-se que isto significa nada menos que a invenção de uma nova
classe de espaço, muito mais nova que o espaço de Einstein. Até
então só existia um espaço: o campo, e nele se vivia com todas as
conseqüências que isso traz para o ser do homem. O homem campesino é
todavia um vegetal. Sua existência, quanto pensa, sente e quer
conserva a modorra inconsciente em que vive a planta. As grandes
civilizações asiáticas e africanas foram neste sentido grandes
vegetações antropomorfas. Mas o greco-romano decide separar-se do
campo, da "natureza", do cosmos geobotânico. Como é isso possível?
Como pode o homem subtrair-se ao campo? Onde irá, se o campo é toda
a terra, se é o ilimitado? Muito simples: limitando um pedaço de
campo mediante uns muros que oponham o espaço incluso e finito ao
espaço amorfo e sem fim. Eis aqui a praça. Não é, como a casa, um
"interior" fechado por cima, igual às covas que existem no campo,
mas que é pura e simplesmente a negação do campo. A praça, mercê dos
muros que a balizam, é um pedaço de campo que volta costas ao resto,
que prescinde do resto e se opõe a ele. Este campo menor e rebelde,
que pratica secção do campo infinito e se reserva a si mesmo diante
dele, é campo abolido, e, portanto, um espaço sui generis,
novíssimo, em que o homem se liberta de toda comunidade com a planta
e o animal, deixa estes fora e cria um âmbito à parte puramente
humano. É o espaço civil. Por isso Sócrates, o grande urbano,
tríplice extrato do sumo que ressuma a polis, dirá: "Eu não tenho
nada que ver com as árvores no campo; eu só tenho quer ver com os
homens na cidade". Que souberam disso jamais o hindu, o persa, nem o
chinês, nem o egípcio?
Até Alexandre e César, respectivamente, a história da Grécia e
de Roma consiste na luta incessante entre esses dois espaços: entre
a cidade racional e o campo vegetal, entre o jurista e o labrego,
entre o ius e o rus.
Não se pense que esta origem da urbe é uma pura construção
minha e que só lhe corresponde uma verdade simbólica. Com rara
insistência, no extrato primário e mais fundo de sua memória
conservam os habitantes da cidade greco-latina a lembrança de um
synoikismos. Não há, pois, que solicitar os textos; basta
traduzi-los. Synoikismos é acordo de ir viver juntos; portanto,
ajuntamento, estritamente no duplo sentido físico e jurídico desse
vocábulo. A dispersão vegetativa pela campina sucede a concentração
civil na cidade. A urbe é a super-casa, a superação da casa ou ninho
infra-humano, a criação de uma entidade mais abstrata e mais alta
que o oikos familiar. É a república, a politea, que não se compõe de
homens e mulheres; mas de cidadãos. Uma dimensão nova, irredutível
às primigênias e mais próximas ao animal, oferece-se ao existir
humano, e nela vão pôr os que antes só eram homens suas melhores
energias. Desta maneira nasce a urbe, desde logo como Estado.
Em certo modo, toda a costa mediterrânea mostrou sempre uma
espontânea tendência a este tipo estatal. Com mais ou menos pureza,
o Norte da África (Cartago = a cidade) repete o mesmo fenômeno.
Itália não saiu até o século XIX do Estado-cidade, e nosso Levante
cai em quanto pode no cantonalismo, que é um ressábio daquela
milenária inspiração (75).
O Estado-cidade, pela relativa pequenez de seus ingredientes,
permite ver claramente o específico do princípio estatal. Por uma
parte, a palavra "estado" indica que as forças históricas conseguem
uma combinação de equilíbrio, de assento. Neste sentido significa o
contrário do movimento histórico: o Estado é convivência
estabilizada, constituída, estática. Mas este caráter de
imobilidade, de forma quieta e definida, oculta, como todo
equilíbrio, o dinamismo que produziu e sustém o Estado. Faz
esquecer, em suma, que o Estado constituído é só o resultado de um
movimento anterior de luta, de esforços, que a ele tendiam. Ao
Estado constituído precede o Estado constituinte, e este é um
princípio de movimento.
Com isto quero dizer que o Estado não é uma forma de sociedade
que o homem acha presenteada, mas que necessita forjá-la
penosamente. Não é como a horda ou a tribo e demais sociedades
fundadas na consangüinidade que a Natureza se encarrega de fazer sem
colaboração com o esforço humano. Pelo contrário, o Estado começa
quando o homem se afana por fugir da sociedade nativa dentro da qual
o sangue o inscreveu. E quem diz o sangue, diz também qualquer outro
princípio natural; por exemplo, o idioma. Originariamente o Estado
consiste na mescla de sangues e línguas. É superação de toda
sociedade natural. É mestiço e plurilíngüe.
Assim, a cidade nasce por reunião de povos diversos. Constrói
sobre a heterogeneidade zoológica uma homogeneidade abstrata de
jurisprudência (76). Está claro que a unidade
jurídica não é a aspiração que propele o movimento criador do
Estado. O impulso é mais substantivo que todo direito, é o propósito
de empresas vitais maiores que as possíveis às minúsculas sociedades
consangüíneas. Na gênese de todo Estado vemos ou entrevemos sempre o
perfil de um grande empresário.
Se observamos a situação histórica que precede imediatamente o
nascimento de um Estado, encontraremos sempre o seguinte esquema:
várias coletividades pequenas cuja estrutura social está feita para
que viva cada qual dentro de si mesma. A forma social de cada uma
serve só para uma convivência interna. Isto indica que no passado
viveram efetivamente isoladas, cada uma por si e para si, sem mais
contatos que os excepcionais com as limítrofes. Mas a este
isolamento efetivo sucedeu de fato uma convivência externa,
sobretudo econômica. O indivíduo de cada coletividade não vive já só
desta, mas parte de sua vida está travada com indivíduos de outras
coletividades com os quais comercia mercantil e intelectualmente.
Sobrevem, pois, um desequilíbrio entre duas convivências: a interna
e a externa. A forma social estabelecida - direitos, "costumes" e
religião - favorece a interna e dificulta a externa, mais ampla e
nova. Nesta situação, o princípio estatal é o movimento que leva a
aniquilar as formas sociais de convivência interna, substituindo-as
por uma forma social adequada à nova convivência externa. Aplique-se
isto ao momento atual europeu, e estas expressões abstratas
adquirirão figura e cor.
Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz
de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência, e,
além disso, de imaginar outra nunca sida. Por isso é autêntica
criação. O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. A
imaginação é o poder libertador que o homem tem. Um povo é capaz de
Estado na medida em que saiba imaginar. Daí que todos os povos
tenham tido um limite em sua evolução estatal, precisamente o limite
imposto pela Natureza a sua fantasia.
O grego e o romano, capazes de imaginar a cidade que triunfa da
dispersão campesina, detiveram-se nos muros urbanos. Houve quem quis
levar as mentes greco-romanas mais além, quem tentou libertá-las da
cidade; mas foi vão empenho. A escuridão imaginativa do romano,
representada por Bruto, encarregou-se de assassinar César - a maior
fantasia da antigüidade -. Importa-nos muito aos europeus de hoje
recordar esta história, porque a nossa chegou ao mesmo capítulo.
VII
Mentes lúcidas, o que se chama mentes lúcidas, não houve
provavelmente em todo o mundo antigo mais que duas: Temístocles e
César; dois políticos. A coisa é surpreendente porque, em geral, o
político, incluso o famoso, é político precisamente porque é torpe
(77). Houve, sem dúvida, na Grécia e em Roma
outros homens que pensaram idéias claras sobre muitas coisas -
filósofos, matemáticos, naturalistas -. Mas sua claridade foi de
ordem científica; isto é, uma claridade sobre coisas abstratas.
Todas as coisas de que fala a ciência, seja ela qual for, são
abstratas, e as coisas abstratas são sempre claras. De sorte que a
claridade da ciência não está tanto na cabeça dos que a fazem como
nas coisas de que falam. O essencialmente confuso, intricado, é a
realidade vital concreta, que é sempre única. Quem seja capaz de
orientar-se com precisão nela; aquele que vislumbre sob o caos que
apresenta toda situação vital a anatomia secreta do instante; em
suma, quem não se perca na vida, esse é de verdade uma mente lúcida.
Observai os que vos rodeiam e vereis como avançam perdidos em sua
vida; vão como sonâmbulos, dentro de sua boa ou má sorte, sem ter a
mais leve suspeita do que lhes acontece. Ouvi-los-eis falar em
fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno, o que
indicaria que possuem idéias sobre tudo isso. Porém, se analisais
superficialmente essas idéias, notareis que não refletem muito nem
pouco a realidade a que parecem referir-se, e se aprofundais na
análise achareis que nem sequer pretendem ajustar-se a tal
realidade. Pelo contrário: o indivíduo trata com elas de interceptar
sua própria visão do real, de sua vida mesma. Porque a vida é
inteiramente um caos onde a criatura está perdida. O homem o
suspeita; mas aterra-o encontrar-se cara a cara com essa terrível
realidade, e procura ocultá-la com um véu fantasmagórico onde tudo
está muito claro. Não lhe interessa que suas "idéias" não sejam
verdadeiras; emprega-as como trincheiras para defender-se de sua
vida, como espantalhos para afugentar a realidade.
Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas "idéias"
fantasmagóricas e olha de frente a vida, e se convence de que tudo
nela é problemático, e se sente perdido. Como isso é a pura verdade
- a saber, que viver é sentir-se perdido -, quem o aceita já começou
a encontrar-se, já começou a descobrir sua autêntica realidade, já
está no firme. Instintivamente, como o náufrago, buscará algo para
se agarrar, e esse olhar trágico, peremptório, absolutamente veraz
porque se trata de salvar-se, lhe facultará pôr ordem no caos de sua
vida. Estas são as únicas idéias verdadeiras; as idéias dos
náufragos. O resto é retórica, postura, íntima farsa. Quem não se
sente de verdade perdido perde-se inexorávelmente; é dizer, não se
encontra jamais, não topa nunca com a própria realidade.
Isto é certo em todas as ordens, ainda na ciência, não obstante
ser a ciência, de seu, uma fuga da vida (a maior parte dos homens de
ciência dedicaram-se a ela por terror a defrontar sua própria vida.
Não são mentes claras; daí sua notória falta de jeito ante qualquer
situação concreta). Nossas idéias científicas valem na medida em que
nos tenhamos sentido perdidos ante uma questão, em que tenhamos
visto bem seu caráter problemático e compreendamos que não podemos
apoiar-nos em idéias recebidas, em receitas, em lemas nem vocábulos.
Quem descobre uma nova verdade científica teve antes que triturar
quase tudo que havia aprendido e chega a essa nova verdade com as
mãos sangrentas por haver jugulado inumeráveis lugares comuns.
A política é muito mais real que a ciência, porque se compõe de
situações únicas em que o homem se encontra de repente submerso,
queira ou não queira. Por isso é o tema que nos permite distinguir
melhor quais as mentes lúcidas e quais as mentes rotineiras.
César é o exemplo máximo que conhecemos de dom para encontrar o
perfil da realidade substantiva em um momento de confusão pavorosa,
em uma hora das mais caóticas que há vivido a humanidade. E como se
o destino se houvesse comprazido em sublinhar a exemplaridade, pôs a
sua direita uma magnífica cabeça de intelectual, a de Cícero,
dedicada durante toda a sua vida a confundir as coisas.
O excesso de boa fortuna havia deslocado o corpo político
romano. A cidade tiberina, dona da Itália, da Espanha, da Ásia
Menor, do Oriente clássico e helenístico, estava a ponto de
rebentar. Suas instituições públicas tinham uma força municipal e
eram inseparáveis da urbe, como as amadríadas estão, sob pena de
consunção, adscritas à árvore que tutelam.
A saúde das democracias, quaisquer que sejam seu tipo e seu
grau, depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento
eleitoral. Tudo o mais é secundário. Se o regime de comícios é
acertado, se se ajusta à realidade, tudo vai bem; se não, embora o
resto marche otimamente, tudo vai mal. Roma, ao começar o século I
antes de Cristo, é onipotente, rica, não tem inimigos à sua frente.
Entretanto, está a ponto de fenecer porque se obstina em conservar
um regime eleitoral estúpido. Um regime eleitoral é estúpido quando
é falso. Havia que votar na cidade. Já os cidadãos do campo não
podiam assistir aos comícios. Mas muito menos os que viviam
repartidos por todo o mundo romano. Como as eleições eram
impossíveis, foi necessário falsificá-las, e os candidatos
organizavam partidas de cacete - com veteranos do exército, com
atletas do circo - que se encarregavam de romper as urnas.
Sem o apoio de autêntico sufrágio as instituições democráticas
estão no ar. No ar estão as palavras. "A República não era mais que
uma palavra". A expressão é de César. Nenhuma magistratura gozava de
autoridade. Os generais da esquerda e da direita - Mário e Sila -
exibiam insolências em vazias ditaduras que não levavam a nada.
César não explicou nunca sua política, entreteve-se em fazê-la.
Dava a casualidade de que era precisamente César e não o manual de
cesarismo que sói vir depois. Não temos mais remédio, se queremos
entender aquela política, que tomar seus atos e dar-lhes seu nome. O
segredo está em sua façanha capital: a conquista das Gálias. Para
empreendê-la teve de se declarar rebelde ante o Poder constituído.
Por que?
Constituíam o Poder os republicanos, quer dizer, os
conservadores, os fiéis ao Estado-cidade. Sua política pode
resumir-se em duas cláusulas: Primeira, os transtornos da vida
pública romana provêem de sua excessiva expansão. A cidade não pode
governar tantas nações. Toda nova conquista é um delito de
lesa-república. Segunda, para evitar a dissolução das instituições é
preciso um príncipe.
Para nós a palavra "príncipe" tem um sentido quase oposto ao
que tinha para um romano. Este entendia por tal precisamente um
cidadão como os demais, mas que era investido de poderes superiores,
a fim de regular o funcionamento das instituições republicanas.
Cícero, em seus livros Sobre a República, e Salústio, em seus
memoriais a César, resumem o pensamento de todos os publicistas
pedindo um princips civitatis, um rector rerum publicarum, um
moderator.
A solução de César é totalmente oposta à conservadora.
Compreende que para curar as conseqüências das anteriores conquistas
romanas não havia mais remédio senão prossegui-las aceitando até o
fim tão enérgico destino. Sobretudo urgia conquistar os povos novos,
mais perigosos em um futuro não muito remoto que as nações corruptas
do Oriente. César sustentará a necessidade de romanizar a fundo os
povos bárbaros do Ocidente.
Disse-se (Spengler) que os greco-romanos eram incapazes de
sentir o tempo, de ver sua vida como uma dilatação na temporalidade.
Existiam em um presente pontual. Eu suspeito que esse diagnóstico é
errôneo, ou, pelo menos, que confunde duas coisas. O greco-romano
padece de uma surpreendente cegueira para o futuro. Não o vê, como o
daltonista não vê a cor vermelha. Mas, em compensação, vive
radicalmente no pretérito. Antes de fazer agora algo dá um passo
atrás, como Lagartijo ao projetar-se para matar; busca no passado um
modelo para a situação presente, e informado por aquele mergulha na
atualidade, protegido e deformado pelo escafandro ilustre. Daí que
todo o seu viver é em certo modo reviver. Isto é ser arcaizante e
isto o foi quase sempre o antigo. Mas isso não é ser insensível ao
tempo. Significa simplesmente um cronismo incompleto, defeituoso da
asa futurista e com hipertrofia de antanhos. Os europeus sempre
gravitamos em direção ao futuro e sentimos que é esta a dimensão
mais substancial do tempo, o qual, para nós, começa pelo "depois" e
não pelo "antes". Compreende-se, pois, que ao olhar a vida
greco-romana nos pareça anacrônica.
Esta como mania de tomar todo presente com as pinças de um
exemplo pretérito, transferiu-se do homem antigo ao filósofo
moderno. Também ele retrograda, indaga em toda atualidade um
precedente, ao qual denomina, com lindo vocábulo de égloga, sua
"fonte". Digo isto porque já os antigos biógrafos de César se fecham
à compreensão desta enorme figura supondo que tratava de imitar
Alexandre. A equação impunha-se: se Alexandre não podia dormir
pensando nos lauréis de Milcíades, César devia forçosamente sofrer
de insônia pelos de Alexandre. E assim sucessivamente. Sempre o
passo atrás e o pé de hoje na pegada de ontem. O filólogo
contemporâneo repercute o biógrafo clássico.
Crer que César aspirava a fazer algo assim como o que fez
Alexandre - e isto creram quase todos os historiadores - é renunciar
radicalmente a entendê-lo. César é aproximadamente o contrário de
Alexandre. A idéia de um reino universal é o único que os emparelha.
Mas esta idéia não é de Alexandre, mas vem da Pérsia. A imagem de
Alexandre teria empurrado César para o Oriente, para o prestigioso
passado. Sua preferência radical pelo Ocidente revela melhor a
vontade de contradizer o macedônio. Mas, ainda mais, não é um reino
universal, apenas, o que César se propõe. Seu propósito é mais
profundo. Quer um Império romano que não viva de Roma, mas da
periferia, das províncias, e isso implica a superação absoluta do
Estado-cidade. Um Estado onde os povos mais diversos colaborem, de
que todos se sintam solidários. Não um centro que manda e uma
periferia que obedece, mas um gigantesco corpo social, onde cada
elemento seja por sua vez passivo e ativo do Estado. Tal é o Estado
moderno, e esta foi a fabulosa antecipação de seu gênio futurista.
Mas isso supunha um poder extraromano, anti-aristocrata,
infinitamente elevado sobre a oligarquia republicana, sobre seu
príncipe, que era só um primus inter pares. Este poder executor e
representante da democracia universal só podia ser a Monarquia com
sua sede fora de Roma.
República! Monarquia! Duas palavras que na história trocam
constantemente de sentido autêntico, e que por isso é preciso a todo
instante triturar para certificar-se de sua eventual força.
Seus homens de confiança, seus instrumentos mais imediatos, não
eram arcaicas ilustrações da urbe, mas gente nova, provinciais,
personagens enérgicos e eficientes. Seu verdadeiro ministro foi
Cornélio Balbo, um homem de negócios gaditano, um atlântico, um
"colonial ".
Mas a antecipação do novo Estado era excessiva: as cabeças
lentas do Lácio não podiam dar brinco tão grande. A imagem da
cidade, com seu tangível materialismo, impediu que os romanos
"vissem" aquela organização novíssima do corpo público. Como podiam
formar um Estado homens que não viviam numa cidade? Que gênero de
unidade era essa, tão sutil e tão mística?
Repito uma vez mais: a realidade que chamamos Estado não é a
espontânea convivência de homens que a consangüinidade uniu. O
Estado começa quando se obriga a conviver a grupos nativamente
separados. Esta obrigação não é desnuda violência, mas que supõe um
processo incitativo, uma tarefa comum que se propõe aos grupos
dispersos. Antes que nada é o Estado projeto de um fazer e programa
de colaboração. Chama-se às pessoas para que juntas façam algo. O
Estado não é consangüinidade, nem unidade lingüística, nem unidade
territorial, nem contiguidade de habitação. Não é nada material,
inerte, dado e limitado. É um puro dinamismo - a vontade do fazer
algo em comum -, e mercê a isso a idéia estatal não está por nenhum
termo físico (78).
Agudíssima a conhecida empresa política de Saavedra Fajardo:
uma flecha, e debaixo: "Ou sobe ou desce". Isso é o Estado. Não uma
coisa, mas um movimento. O Estado é em todo instante algo que vem de
e vai para. Como todo movimento, tem um terminus a quo e um terminus
ad quem. Corte-se por qualquer hora a vida de um Estado que o seja
verdadeiramente, e se achará uma unidade de convivência que parece
fundada em tal ou qual atributo material: sangue, idioma,
"fronteiras naturais". A interpretação estática nos levará a dizer:
isso é o Estado. Mas logo advertimos que essa agrupação humana está
fazendo algo comunal: conquistando outros povos, fundando colônias,
federando-se com outros Estados; quer dizer, que em toda hora está
superando o que parecia princípio material de sua unidade. E o
terminus ad quem, é o verdadeiro Estado, cuja unidade consiste
precisamente em superar toda unidade dada. Quando esse impulso para
o mais além cessa, o Estado automaticamente sucumbe, e a unidade que
já existia e parecia fisicamente cimentada - raça, idioma, fronteira
natural - não serve de nada: o Estado se desagrega, se dispersa, se
atomiza.
Só essa duplicidade de momentos no Estado - a unidade que já é
e a mais ampla que projeta - permite compreender a essência do
Estado nacional. Sabido é que ainda não se logrou dizer em que
consiste uma nação, se damos a este vocábulo uma acepção moderna. O
Estado-cidade era uma idéia muito clara, que se via com os olhos da
cara. Mas o novo tipo de unidade pública que germinava em galos e
germanos, a inspiração política do Ocidente, é coisa muito mais vaga
e fugidia. O filólogo, o historiador atual, que é de seu arcaizante,
encontra-se ante este formidável fato quase tão perplexo como César
e Tácito quando com sua terminologia romana queriam dizer o que eram
aqueles Estados incipientes, transalpinos e ultra-renanos, ou bem os
espanhóis. Chamam-nos civitas, gens, natio, percebendo que nenhum
destes nomes coincide com a coisa (79). Não são
civitas, pela simples razão de que não são cidades
(80). Mas nem sequer cabe indefinir o termo e aludir com ele um
território delimitado. Os povos novos trocam com suma facilidade de
torrão, ou pelo menos ampliam e reduzem o que ocupavam. Tampouco são
unidades étnicas - gentes, nationes. - Por muito longe que
recorramos, os novos Estados aparecem já formados por grupos de
nacionalidades independentes. São combinações de sangues diferentes.
Que é, pois, uma nação, já que não é nem comunidade de sangue, nem
adscrição a um território, nem coisa alguma desta ordem?
Como sempre acontece, também neste caso uma pulcra submissão
aos fatos nos dá a chave. Que é que salta aos olhos quando
repassamos a evolução de qualquer "nação moderna" - França, Espanha,
Alemanha -? Simplesmente isto: o que em certa data parecia
constituir a nacionalidade aparece negado numa data posterior.
Primeiro, a nação parece a tribo, e a não-nação a tribo de ao lado.
Depois a nação se compõe de duas tribos, mais tarde é uma comarca e
pouco depois é já todo um condado ou ducado ou "reino". A nação é
Leão, mas não Castela; depois é Leão e Castela, mas não Aragão. É
evidente a presença de dois princípios: um, variável e sempre
superado - tribo, comarca, ducado, "reino", com seu idioma ou
dialeto -; outro, permanente, que salta libérrimo sobre todos esses
limites e postula como unidade o que aquele considerava precisamente
como radical contraposição.
Os filólogos - chamo assim aos que hoje pretendem denominar-se
"historiadores" - praticam o mais delicioso truísmo quando partem do
que agora, nesta data fugaz, nestes dois ou três séculos, são as
nações do Ocidente e supõem que Vercingetorix ou que Cid Campeador
queriam já uma França deste Saint-Malo a Estrasburgo - precisamente
- ou uma Spania desde Finisterre a Gibraltar. Estes filólogos - como
o ingênuo dramaturgo - fazem quase sempre que seus heróis partam
para a guerra dos Trinta Anos. Para nos explicar como se formaram a
França e a Espanha, supõem que a França e a Espanha preexistiam como
unidades no fundo das almas francesas e espanholas. Como se
existissem franceses e espanhóis originariamente antes de que a
França e a Espanha existissem! Como se o francês e o espanhol não
fossem simplesmente coisas que foram formadas em dois mil anos de
faina!
A verdade pura é que as nações atuais são apenas a manifestação
atual daquele princípio variável, condenado à perpétua superação.
Esse princípio não é agora o sangue nem o idioma, posto que a
comunidade de sangue e de idioma na França ou na Espanha foi efeito,
e não causa, da unificação estatal; esse princípio é agora a
"fronteira natural".
Está bem que um diplomata empregue em sua esgrima astuta este
conceito de fronteiras naturais, como ultima ratio de suas
argumentações. Mas um historiador não pode entrincheirar-se atrás
dele como se fosse um reduto definitivo. Nem é definitivo, nem
sequer suficientemente específico.
Não se esqueça qual é, rigorosamente proposta, a questão.
Trata-se de averiguar que é o Estado nacional - o que hoje
costumamos chamar nação -, a diferença de outros tipos de Estado,
como o Estado-cidade ou, indo ao outro extremo, como o Império que
Augusto fundou (81). Se se quer formular o tema
de modo ainda mais claro e preciso, diga-se assim: Que força real
produziu essa convivência de milhões de homens sob uma soberania de
Poder público que chamamos França, ou Inglaterra, ou Espanha, ou
Itália, ou Alemanha? Não foi a prévia comunidade de sangue, porque
cada um desses corpos coletivos está regado por torrentes cruentas
muito heterogêneas. Não foi tampouco a unidade lingüística, porque
os povos hoje reunidos em um Estado falavam ou falam ainda idiomas
diferentes. A relativa homogeneidade de raça e língua de que hoje
gozam - supondo que isso seja um gozo - é resultado da prévia
unificação política. Portanto, nem o sangue nem o idioma fazem o
Estado nacional; pelo contrário, é o Estado nacional quem nivela as
diferenças originárias de glóbulo vermelho e som articulado. E
sempre aconteceu assim. Poucas vezes, para não dizer nunca, terá o
Estado coincidido com uma identidade prévia de sangue ou idioma. Nem
a Espanha é hoje um Estado nacional porque se fale em toda ela o
espanhol (82), nem foram Estados nacionais
Aragão e Catalunha porque em certo dia, arbitrariamente escolhido,
coincidissem os limites territoriais de sua soberania com os da fala
aragonesa ou catalã. Estaríamos mais próximos da verdade se,
respeitando a casuística que toda realidade oferece, nos
inclinássemos a esta presunção: toda unidade lingüística que abarca
um território de alguma extensão é quase certamente precipitado de
alguma unificação política precedente (83). O
Estado tem sido sempre o grande turgimão.
Há muito tempo que isto consta, e é muito estranha a obstinação
com que, entretanto, se persiste em dar à nacionalidade como
fundamentos o sangue e o idioma. Nisso eu vejo tanta ingratidão como
incongruência. Porque o francês deve sua França atual, e o espanhol
sua atual Espanha, a um princípio X, cujo impulso consistiu
precisamente em superar a estreita comunidade de sangue e de idioma.
De sorte que a França e a Espanha consistiriam hoje no contrário do
que as tornou possíveis.
Igual tergiversação comete-se ao querer fundar a idéia de nação
numa grande figura territorial, descobrindo o princípio de unidade,
que sangue e idioma não proporcionam, no misticismo geográfico das
"fronteiras naturais". Tropeçamos aqui com o mesmo erro de ótica . O
acaso da data atual mostra-nos as chamadas nações instaladas em
amplos torrões do continente ou nas ilhas adjacentes. Desses limites
atuais quer fazer-se algo definitivo e espiritual. São, dizem,
"fronteiras naturais", e com sua "naturalidade" significa-se uma
como mágica predeterminação da história pela via telúrica. Mas este
mito volatiliza-se imediatamente submetendo-o ao mesmo raciocínio
que invalidou a comunidade de sangue e de idioma como fontes da
nação. Também aqui, se retrocedemos alguns séculos, surpreende-nos a
França e a Espanha dissociadas em nações menores, com suas
inevitáveis "fronteiras naturais". A montanha fronteiriça seria
menos prócer que o Pirineu ou os Alpes e barreira líquida menos
caudalosa que o Reno, o passo de Calais ou o estreito de Gibraltar.
Mas isso apenas demonstra que a "naturalidade" das fronteiras é
meramente relativa. Depende dos meios econômicos e bélicos da época.
A realidade histórica da famosa "fronteira natural" consiste
simplesmente em ser um estorvo à expansão do povo A sobre o povo B.
Porque é um estorvo - de convivência ou de guerra - para A, é uma
defesa para B. A idéia de "fronteira natural" implica, pois,
ingenuamente, como mais natural ainda que a fronteira, a
possibilidade da expansão e fusão ilimitada entre os povos. Pelo
visto, só um obstáculo material lhes põe um freio. As fronteiras de
ontem e de anteontem não nos parecem hoje fundamentos da nação
francesa ou espanhola, pelo contrário: estorvos que a idéia nacional
encontrou em seu processo de unificação. Não obstante o que,
queremos atribuir um caráter definitivo e fundamental às fronteiras
de hoje, apesar de que os novos meios de tráfego e guerra anularam
sua eficácia como estorvos.
Qual tem sido então o papel das fronteiras na formação das
nacionalidades, já que não têm sido o fundamento positivo destas? A
coisa é clara e de suma importância para entender a autêntica
inspiração do Estado nacional diante do Estado-cidade. As fronteiras
serviram para consolidar em cada momento a unificação política já
alcançada. Não foram, pois, princípio da nação, mas ao contrário: a
princípio foram estorvo, e depois, uma vez alheada, foram meio
material para assegurar a unidade.
Pois bem: exatamente o mesmo papel corresponde à raça e à
língua. Não é a comunidade nativa de uma ou outra o que constituiu a
nação, mas ao contrário: o Estado nacional encontrou-se sempre, em
seu afã de unificação, frente às muitas raças e às muitas línguas,
como com outros tantos estorvos. Dominados estes energicamente,
produziu uma relativa unificação de sangues e idiomas que serviu
para consolidar a unidade.
Não há, pois, outro remédio senão desfazer a tergiversação
tradicional padecidas pela idéia de Estado nacional e habituar-se a
considerar como estorvos primários para a nacionalidade precisamente
as três coisas em que se acreditava consistir. E claro que ao
desfazer uma tergiversação serei eu quem pareça cometê-la agora.
É preciso resolver-se a procurar o segredo do Estado nacional
em sua peculiar inspiração como tal Estado, em sua política mesma, e
não em princípios forasteiros de caráter biológico ou geográfico.
Por que, afinal das contas, se acreditou necessário recorrer a
raça, língua e território nativos para compreender o fato
maravilhoso das modernas nações? Pura e simplesmente, porque nestas
achamos uma intimidade e solidariedade radical dos indivíduos com o
Poder público desconhecidas no Estado antigo. Em Atenas e em Roma só
uns quantos homens eram o Estado; os demais - escravos, aliados,
provincianos, colonos - eram apenas súditos. Na Inglaterra, na
França, na Espanha, ninguém foi nunca só súdito do Estado, mas
sempre participou dele, uno com ele. A forma, sobretudo jurídica,
desta união com e no Estado, tem sido muito diferente conforme os
tempos. Tem havido grandes diferenças de condição social e estatuto
pessoal, classes relativamente privilegiadas e classes relativamente
postergadas; mas, se se interpreta a realidade efetiva da situação
política em cada época e se revive seu espírito, aparece evidente
que todo indivíduo se sentia sujeito ativo do Estado, participe e
colaborador. Nação - no sentido que este vocábulo emite no Ocidente
de há mais de um século - significa a "união hipostática" do Poder
público e a coletividade por ele regida.
O Estado é sempre, qualquer que seja sua forma - primitiva,
antiga, medieval ou moderna -, o convite que um grupo de homens faz
a outros grupos humanos para juntos executar uma empresa. Esta
empresa, quaisquer que sejam seus trâmites intermediários, consiste,
finalmente, em organizar certo tipo de vida comum. Estado e projeto
de vida, programa de ação ou conduta humanos, são termos
inseparáveis. As diferentes classes de Estado nascem das maneiras
segundo as quais o grupo empresário estabeleça a colaboração com os
outros. Assim, o Estado antigo não acerta nunca a fundir-se com os
outros. Roma manda e educa os italiotas e as províncias, mas não os
eleva a união consigo. Na mesma urbe não conseguiu a fusão política
dos cidadãos. Não se esqueça que, durante a República, Roma foi, a
rigor, duas Romas: o Senado e o povo. A unificação estatal não
passou nunca de mera articulação entre os grupos que permaneceram
externos e estranhos uns aos outros. Por isso o Império ameaçado não
pode contar com o patriotismo dos outros, e teve de se defender
exclusivamente com seus meios burocráticos de administração e de
guerra.
Esta incapacidade de todo grupo grego e romano para fundir-se
com outros provém de causas profundas que não convém perscrutar
agora, e que finalmente se resumem em uma: o homem antigo
interpretou a colaboração em que, queira-se ou não, o Estado
consiste, de uma maneira simples, elemental e tosca; a saber: como
dualidade de dominantes e dominados (84). A Roma
tocava mandar e não obedecer; aos demais, obedecer e não mandar.
Desta sorte, o Estado se materializa no pomoerium, no corpo urbano
que uns muros delimitam fisicamente.
Mas os povos novos trazem uma interpretação do Estado menos
material. Se ele é um projeto de empresa comum, sua realidade é
puramente dinâmica: um fazer, a comunidade na atuação. Segundo isto,
forma parte ativa do Estado, é sujeito político, todo aquele que
preste adesão à empresa - raça, sangue, adscrição geográfica, classe
social, ficam em segundo plano. Não é a comunidade anterior,
pretérita, tradicional e imemorial - em suma, fatal e irreformável -
a que proporciona título para a convivência política, mas a
comunidade futura no efetivo fazer. Não o que fomos ontem, mas o que
vamos fazer amanhã juntos, nos reúne em Estado. Daí a facilidade com
que a unidade política brinca no Ocidente sobre todos os limites que
aprisionaram o Estado antigo. E é que o europeu, relativamente ao
homo antiquus, se comporta como um homem aberto ao futuro, que vive
conscientemente instalado nele e dele decide sua conduta presente.
Tendência política tal avançará inexoravelmente para
unificações cada vez mais amplas, sem que haja nada que em princípio
a detenha. A capacidade de fusão é ilimitada. Não só de um povo com
outro, mas o que é mais característico ainda do Estado nacional: a
fusão de todas as classes sociais dentro de cada corpo político.
Conforme cresce a nação, territorial e etnicamente, vai-se fazendo
mais una a colaboração interior. O Estado nacional é em sua raiz
mesma democrático, num sentido mais decisivo que todas as diferenças
nas formas de governo.
E curioso notar que, ao definir a nação fundando-a numa
comunidade de pretérito, acaba-se sempre por aceitar como a melhor a
fórmula de Renan, simplesmente porque nela se ajunta ao sangue, o
idioma e as tradições comuns um atributo novo, e se diz que é um
"plebiscito cotidiano". Mas, entende-se bem o que esta expressão
significa? Não podemos dar-lhe agora um conteúdo de signo oposto ao
que Renan lhe insufla, e que é, entretanto, muito mais verdadeiro?
VIII
"Ter glórias comuns no passado, uma vontade comum no presente;
haver feito juntos grandes coisas, querer fazer outras mais; eis
aqui as condições essenciais para ser um povo... No passado, uma
herança de glórias e remorsos; no porvir, um mesmo programa para
realizar... A existência de uma nação é um plebiscito cotidiano".
Tal é a conhecidíssima sentença de Renan. Como se explica sua
excepcional fortuna? Sem dúvida, pela graça da nota. Esta idéia de
que a nação consiste num plebiscito cotidiano opera sobre nós como
uma liberação. Sangue, língua e passado comuns são princípios
estáticos, fatais, rígidos, inertes; são prisões. Se a nação
consistisse nisso e em mais nada, a nação seria uma coisa situada às
nossas costas, com o que não teríamos nada que fazer. A nação seria
algo que se é, mas não algo que se faz. Nem sequer teria sentido
defendê-la quando alguém a ataca.
Queira-se ou não, a vida humana é constante ocupação com algo
futuro. Desde o instante atual nos ocupamos do que sobrevem, Por
isso viver é sempre, sempre, sem pausa nem descanso, fazer. Por que
não se reparou em que fazer, todo fazer, significa realizar um
futuro? Inclusive quando nos entregamos a recordar. Fazemos memória
neste segundo para lograr algo no imediato, ainda que não seja mais
que o prazer de reviver o passado. Este modesto prazer solitário se
nos apresentou há pouco como um futuro desejável; por isso o
fazemos. Conste, pois: nada tem sentido para o homem, senão em
função do porvir (85).
Se a nação consistisse não mais que em passado e presente,
ninguém se ocuparia de defendê-la contra um ataque. Os que afirmam o
contrário são hipócritas ou mentecaptos. Mas acontece que o passado
nacional projeta aliciantes - reais ou imaginários - no futuro.
Parece-nos desejável um porvir no qual nossa nação continue
existindo. Por isso nos mobilizamos em sua defesa; não pelo sangue,
nem pelo idioma, nem pelo comum passado. Ao defender a nação
defendemos nosso amanhã, não nosso ontem.
Isso é o que reverbera na frase de Renan: a nação como
excelente programa para amanhã. O plebiscito decide um futuro. Que
neste caso o futuro consista numa perduração do passado não modifica
em nada a questão; unicamente revela que também a definição de Renan
é arcaizante.
Portanto, o Estado nacional representaria um princípio estatal
mais próximo à pura idéia de Estado que a antiga polis ou que a
"tribo" dos árabes, circunscrita pelo sangue. De fato, a idéia
nacional conserva não pouco lastro de adscrição ao passado, ao
território, à raça; mas por isso mesmo é surpreendente notar como
nela triunfa o puro princípio de unificação humana em torno a um
incitante programa de vida. Mais: eu diria que esse lastro de
pretérito e essa relativa limitação dentro de princípios materiais
não têm sido nem são por completo espontâneos nas almas do Ocidente,
mas que procedem da interpretação erudita dada pelo romanticismo à
idéia de nação. De haver existido na Idade Média esse conceito
oitocentista de nacionalidade, a Inglaterra, a França, a Espanha, a
Alemanha, teriam ficado inexistentes (86).
Porque essa interpretação confunde o que impulsa e constitui uma
nação com o que meramente a consolida e conserva. Não é o
patriotismo - diga-se de uma vez - quem fez as nações. Crer o
contrário é o truísmo a que já aludi e que o próprio Renan admite em
sua famosa definição. Se para que exista uma nação é preciso que um
grupo de homens conte com um passado comum, eu me pergunto como
chamaremos a esse mesmo grupo de homens enquanto vivia em presente
isso que visto hoje é um passado. Pelo visto era forçoso que essa
existência comum fenecesse, passasse, para que pudessem dizer: somos
uma nação. Não se adverte aqui o vício gremial do filósofo, do
arquivista, sua ótica profissional que lhe impede ver a realidade
quando não é pretérita? O filólogo é quem necessita para ser
filólogo que, antes de tudo, exista um passado; mas a nação, antes
de possuir um passado comum, teve de criar essa comunidade, e antes
de criá-la teve de sonhá-la, de querê-la, de projetá-la. E até que
tenha o projeto de si mesma para que a nação exista, ainda que não
se alcance, ainda que fracasse a execução, como aconteceu tantas
vezes. Falaríamos em tal caso de uma nação malograda (por exemplo,
Borgonha).
Com os povos do Centro e da América Meridional tem a Espanha um
passado comum, raça comum, linguagem comum, e, entretanto, não forma
com eles uma nação. Por que? Falta só uma coisa, que, pelo visto, é
a essencial: o futuro comum. A Espanha não soube inventar um
programa de porvir coletivo que atraísse esses grupos zoologicamente
afins, O plebiscito futurista foi adverso à Espanha, e de nada
valeram então os arquivos, as memórias, os antepassados, a "pátria",
Quando há aquilo, tudo isso serve de forças de consolidação; mas tão
somente (87).
Vejo, pois, no Estado nacional uma estrutura histórica de
caráter plebiscitário. Tudo que além disso pareça ser, tem um valor
transitório e cambiante, representa o conteúdo, ou a forma, ou a
consolidação que em cada momento requer o plebiscito. Renan
encontrou a palavra mágica, que estoura de luz. Ela nos permite
vislumbrar catodicamente o segredo essencial de uma nação, que se
compõe destes dois ingredientes: primeiro, um projeto de convivência
total numa empresa comum; segundo, a adesão dos homens a esse
projeto incitativo. Esta adesão de todos engendra a interna solidez
que distingue o Estado nacional de todos os antigos, nos quais a
união se produz e mantém por pressão externa do Estado sobre os
grupos díspares, enquanto aqui nasce o vigor estatal da coesão
espontânea e profunda entre os "súditos". Na realidade, os súditos
são já o Estado e não o podem sentir - isto é o novo, o maravilhoso,
da nacionalidade - como algo estranhos a eles.
Entretanto, Renan anula ou quase seu acerto, dando ao
plebiscito um conteúdo retrospectivo, que se refere a uma nação já
feita, cuja perpetuação decide. Eu preferiria trocar-lhe o signo e
fazê-lo valer para a nação in statu nascendi. Esta é a ótica
decisiva. Porque, em verdade, uma nação não está nunca feita. Nisto
se diferencia de outros tipos de Estado. A nação está sempre ou
fazendo-se ou desfazendo-se. Tertium non datur. Ou está ganhando
adesões ou está perdendo-as, conforme seu Estado represente ou não
no momento uma empresa vivaz.
Por isso o mais instrutivo seria reconstruir a série de
empresas unitivas que sucessivamente inflamaram os grupos humanos do
Ocidente. Então ver-se-ia como delas têm vivido os europeus, não só
no público, mas até em sua existência mais privada; como "treinaram"
ou se desmoralizaram, na medida de que houvesse ou não empresa à
vista.
Outra coisa mostraria claramente esse estudo. As empresas
estatais dos antigos, por isso que não implicavam a adesão fundente
dos grupos humanos sobre os quais se tentavam, por isso que o Estado
propriamente tal ficava sempre inscrito em uma limitação fatal -
tribo ou urbe -, eram praticamente limitadas. Um povo - o persa, o
macedônio ou o romano - podia submeter à unidade de soberania
quaisquer porções do planeta. Como a unidade não era autêntica,
interna nem definitiva, não estava sujeita a outras condições senão
à eficácia bélica e administrativa do conquistador. Mas no Ocidente
a unificação nacional teve de seguir uma série inexorável de etapas.
Deveria estranhar mais o fato de que na Europa não tenha sido
possível nenhum império do tamanho que alcançaram o persa, o de
Alexandre ou o de Augusto.
O processo criador de nações teve sempre na Europa este ritmo:
Primeiro momento. O peculiar instinto ocidental, que faz sentir o
Estado como fusão de vários povos em uma unidade de convivência
política e moral, começa a atuar sobre os grupos mais próximos
geográfica, étnica e lingüisticamente. Não porque esta proximidade
funde a nação, mas porque a diversidade entre próximos é mais fácil
de dominar. Segundo momento. Período de consolidação, em que se
sentem os outros povos além do novo Estado como estranhos e mais ou
menos inimigos. É o período em que o processo nacional toma um
aspecto de exclusivismo, de fechar-se em si mesmo dentro do Estado;
em suma, o que hoje denominamos nacionalismo. Mas o fato é que
enquanto se sente politicamente os outros como estranhos e
concorrentes, convive-se econômica, intelectual e moralmente com
eles. As guerras nacionalistas servem para nivelar as diferenças de
técnica e de espírito. Os inimigos habituais vão se fazendo
historicamente homogêneos (88). Pouco a pouco
vai se destacando no horizonte a consciência de que estes povos
inimigos pertencem ao mesmo círculo humano que o nosso Estado. Não
obstante, continuamos considerando-os como estranhos e hostis.
Terceiro momento. O Estado goza de plena consolidação. Então surge a
nova empresa: unir-se aos povos que até então eram seus inimigos.
Cresce a convicção de que são afins com o nosso em moral e
interesses, e que juntos formamos um círculo nacional ante outros
grupos mais distantes e ainda mais estrangeiros. Eis aqui madura a
nova idéia nacional.
Um exemplo esclarecerá o que tento dizer. Sói afirmar-se que em
tempo do Cid era já a Espanha - Spania - uma idéia nacional, e para
superfetação da tese acrescenta-se que séculos antes já S. Isidoro
falava da "mãe Espanha". A meu ver, isso é um erro crasso de
perspectiva histórica. No tempo do Cid estava se começando a urdir o
Estado Leão-Castela, e esta unidade leon-castelã era a idéia
nacional do tempo, a idéia politicamente eficaz. Spania, ao
contrário, era uma idéia principalmente erudita; em todo caso, uma
de tantas idéias fecundas que deixou semeadas no Ocidente o Império
romano. Os "espanhóis" haviam se acostumado a ser reunidos por Roma
numa unidade administrativa, numa diocese do Baixo Império. Mas esta
noção geográfico-administrativa era pura recepção, não íntima
inspiração, e em modo algum aspiração.
Por muita realidade que se queira dar a essa idéia no século
XI, reconhecer-se-á que não chega sequer ao vigor e precisão que já
tem para os gregos do IV a idéia da Hélade. E, não obstante, a
Hélade não foi nunca verdadeira idéia nacional. A efetiva
correspondência histórica seria melhor esta: a Hélade foi para os
gregos do século IV, e Spania para os "espanhóis" do XI e ainda do
XIV, o que a Europa foi para os "europeus" no século XIX.
Mostra isto como as empresas de unidade nacional vão chegando à
sua hora do modo como os sons em uma melodia. A mera afinidade de
ontem terá de esperar até amanhã para entrar em erupção de
inspirações nacionais. Mas, por seu turno, é quase certo que chegará
sua hora.
Agora chega para os europeus a sazão em que a Europa pode
converter-se em idéia nacional. E é muito menos utópico crer nisso
hoje assim como o houvera sido vaticinar no século XI a unidade da
Espanha e da França. O Estado nacional do Ocidente, quanto mais fiel
permaneça a sua autêntica substância, tanto mais diretamente caminha
para se depurar num gigantesco Estado continental.
IX
Apenas as nações do Ocidente preenchem seu atual perfil surge
em torno delas e sob elas, como um fundo, a Europa. E esta a unidade
de paisagem em que se vai mover desde o Renascimento, e essa
paisagem européia são elas mesmas, que sem adverti-lo começam já a
abstrair de sua belicosa pluralidade. França, Inglaterra, Espanha,
Itália, Alemanha, pelejam entre si, formam ligas contrapostas,
desfazem-nas, recompõem-nas. Mas tudo isso, guerra como paz, é
conviver de igual para igual, o que nem na paz nem na guerra pode
nunca fazer Roma com o celtibero, o galo, o britânico e o germano. A
história destacou em primeiro termo as querelas e, em geral, a
política, que é o terreno mais tardio para a espiga da unidade; mas,
enquanto se batalhava numa gleba, em cem se comerciava com o
inimigo, permutavam-se idéias e formas de arte e artigos da fé.
Dir-se-ia que aquele fragor de batalhas foi só uma tela atrás da
qual tanto mais tenazmente trabalhava a pacífica polipeira da paz,
entretecendo a vida das nações hostis. Em cada nova geração, a
homogeneidade das almas se acrescentava. Se se quer mais exatidão e
mais cautela, diga-se deste modo: as almas francesas e inglesas e
espanholas eram, são e serão tão diferentes como se queira; mas
possuem um mesmo plano ou arquitetura psicológicos e, sobretudo, vão
adquirindo um conteúdo comum. Religião, ciência, direito, arte,
valores sociais e eróticos vão sendo comuns. Ora bem: essas são as
coisas espirituais de que se vive. A homogeneidade redunda, pois,
maior que se as almas fossem de idêntico calibre.
Se hoje fizéssemos balanço de nosso conteúdo mental - opiniões,
normas, desejos, presunções -, notaríamos que a maior parte de tudo
isso não vem para o francês de sua França, nem para o espanhol de
sua Espanha, mas do fundo comum europeu. Hoje, com efeito, pesa
muito mais em cada um de nós o que tem de europeu que sua porção
diferencial de francês, espanhol, etc. Se se fizesse a experiência
imaginária de se reduzir a viver puramente com o que somos, como
"nacionais", e em obra de mera fantasia se extirpasse do homem médio
francês tudo que usa, pensa, sente, em virtude de recepção dos
outros países continentais, sentiria terror. Veria que não lhe era
possível viver só disso; que as quatro quintas partes de seu haver
íntimo são bens jacentes europeus.
Não se vislumbra que outra coisa de monta possamos fazer os que
existimos neste lado do planeta se não é realizar a promessa que há
quatro séculos significa o vocábulo Europa. Só se opõe a isso o
prejuízo das velhas "nações", a idéia de nação como passado. Agora
se vai ver se os europeus são também filhos da mulher de Lot e se
obstinam em fazer história com a cabeça virada para trás. A alusão a
Roma, e, em geral, ao homem antigo, serviu-nos de admoestação; é
muito difícil que certo tipo de homem abandone a idéia de Estado uma
vez que ela se lhe encasquetou. Afortunadamente, a idéia do Estado
nacional que o europeu, apercebendo-se dela ou não, trouxe ao mundo,
não é a idéia erudita, filológica, que se lhe predicou.
Resumo agora a tese deste ensaio. Sofre hoje o mundo uma grave
desmoralização, que entre outros sintomas se manifesta por uma
desatorada rebelião das massas, e tem sua origem na desmoralização
da Europa. As causas desta última são muitas. Uma das principais, o
deslocamento do poder que outrora exercia sobre o resto do mundo e
sobre si mesmo nosso continente. A Europa não está certa de mandar,
nem o resto do mundo de ser mandado. A soberania histórica acha-se
em dispersão.
Já não há "plenitude dos tempos", porque isto supõe um porvir
claro, prefixado, inequívoco, como era o do século XIX. Então
acreditava-se saber o que ia acontecer amanhã. Mas agora abre-se
outra vez o horizonte para novas linhas incógnitas, posto que não se
sabe quem vai mandar, como se vai articular o poder sobre a terra.
Quem, isto é, que povo ou grupo de povos; portanto, que tipo étnico;
portanto, que ideologia, que sistema de preferências, de normas, de
molas vitais...
Não se sabe para que centro de gravitação vão ponderar em um
futuro próximo as coisas humanas, e por isso a vida do mundo
entrega-se a uma escandalosa interinidade. Tudo, tudo que hoje se
faz em público e na vida privada - até no íntimo -, sem mais exceção
que algumas partes de algumas ciências, é provisional. Acertará quem
não se fie de quanto hoje se apregoa, se ostenta, se ensaia e se
encomia. Tudo isso irá com mais celeridade do que veio. Tudo, desde
a mania do esporte físico (a mania, não o esporte em si) até a
violência em política; desde a "arte nova" até os banhos de sol nas
ridículas praias da moda. Nada disso tem raízes, porque tudo isso é
pura invenção, no mau sentido da palavra, que a faz eqüivaler a
capricho leviano. Não é criação do fundo substancial da vida; não é
afã nem mister autêntico. Em suma: tudo isso é vitalmente falso.
Dá-se o caso contraditório de um estilo de vida que cultiva a
sinceridade e ao mesmo tempo é uma falsificação. Só há verdade na
existência quando sentimos seus atos como irrevogavelmente
necessários. Não há hoje nenhum político que sinta a inevitabilidade
de sua política, e quanto mais extremo é seu gesto, tanto mais
frívolo, menos exigido pelo destino. Não há mais vida com raízes
próprias, não há mais vida autóctone que a que se compõe de cenas
iniludíveis. O resto, o que está em nossa mão pegar ou largar ou
substituir, é precisamente falsificação da vida.
A atual é fruto de interregno, de um vazio entre duas
organizações do mundo histórico: a que foi, a que vai ser. Por isso
é essencialmente provisória. E nem os homens sabem bem a que
instituições de verdade servir, nem as mulheres que tipo de homens
preferem realmente.
Os europeus não sabem viver se não se lançam numa grande
empresa unitiva. Quando esta falta, envilecem-se, afrouxam,
desconjunta-se-lhes a alma. Um começo disto oferece-se hoje a nossos
olhos. Os círculos que até agora se chamaram nações chegaram há um
século ou pouco menos à sua máxima expansão. Já não se pode fazer
nada com eles a não ser transcendê-los. Já não são senão passado que
se acumula em torno e debaixo do europeu, aprisionando-o,
lastrando-o. Com mais liberdade vital que nunca sentimos todos que o
ar é irrespirável dentro de cada povo, porque é um ar confinado.
Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta, arejada,
transformou-se em província e "interior". Na supernação européia que
imaginamos, a pluralidade atual não pode nem deve desaparecer.
Enquanto o Estado antigo aniquilava o diferencial dos povos ou o
deixava inativo fora ou em suma o conservava mumificado, a idéia
nacional, mais puramente dinâmica, exige a permanência ativa desse
plural que sempre foi a vida do Ocidente.
Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida.
Mas - como sempre acontece em crises parelhas - alguns ensaiam
salvar o momento por uma intensificação extremada e artificial,
precisamente do princípio caduco. Este é o sentido da erupção
"nacionalista" nos anos que correm. E sempre - repito - aconteceu
assim. A última chama, a mais extensa. O derradeiro suspiro, o mais
profundo. A véspera de desaparecer, as fronteiras se hiperestesiam -
as fronteiras militares e as econômicas.
Mas todos estes nacionalismos são becos sem saída. Tente-se
projetá-los para o futuro e sentir-se-á o choque. Por aí não se sai
para lado nenhum. O nacionalismo é sempre um impulso de direção
oposta ao princípio nacionalizador. É exclusivista, enquanto este é
inclusivista. Em época de consolidação tem, por sua vez, um valor
positivo e é uma alta norma. Mas na Europa tudo está de sobra
consolidado, e o nacionalismo não é mais que uma mania, o pretexto
que se oferece para iludir o dever de invenção e de grandes
empresas. A simplicidade de meios com que opera e a categoria dos
homens que exalta revelam de sobra que é o contrário de uma criação
histórica.
Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos
povos continentais tornaria a dar tom à pulsação da Europa. Voltaria
ela a crer em si mesma, e automaticamente a exigir muito de si, a
disciplinar-se.
Mas a situação é muito mais perigosa do que se pode apreciar.
Vão passando os anos e corre-se o risco de que o europeu se habitue
a este tom menor de existência que leva agora; acostume-se a não
mandar nem se mandar. Em tal caso, ir-se-iam volatilizando todas as
suas virtudes e capacidades superiores.
Mas à unidade da Europa opõem-se, como sempre aconteceu no
processo de nacionalização, as classes conservadoras. Isto pode
trazer para elas a catástrofe, pois ao perigo genérico de que a
Europa se desmoralize definitivamente e perca toda a sua energia
histórica, ajunta-se outro muito concreto e iminente. Quando o
comunismo triunfou na Rússia muitos acreditaram que todo o Ocidente
ficaria inundado pela torrente vermelha. Eu não participei de
semelhante prognóstico. Pelo contrário: por aqueles anos escrevi que
o comunismo russo era uma substância inassimilável para os europeus,
casta que pôs todos os esforços e fervores de sua história na carta
Individualidade. O tempo correu, e hoje voltaram à tranqüilidade os
temerosos de outrora. Voltaram à tranqüilidade quando chega
justamente a época para que a perdessem. Porque agora sim pode
derramar-se sobre a Europa o comunismo de roldão e vitorioso.
Minha presunção é a seguinte: agora, como antes, o conteúdo do
credo comunista à russa não interessa, não atrai, não desenha um
porvir desejável aos europeus. E não pelas razões triviais que seus
apóstolos, porfiados, surdos e sem veracidade, como todos os
apóstolos, soem verbificar. Os bourgeois do Ocidente sabem muito bem
que, mesmo sem comunismo, o homem que vive exclusivamente de suas
rendas e que as transmite a seus filhos tem os dias contados. Não é
isso o que imuniza a Europa para a fé russa, nem é muito menos
temor. Hoje parecem-nos bastante ridículos os arbitrários supostos
em que há vinte anos fundava Sorel sua tática da violência. O
burguês não é covarde, como ele cria, e atualmente está mais
disposto à violência que os operários. Ninguém ignora que se
triunfou na Rússia o bolchevismo, foi porque na Rússia não havia
burgueses (89). O fascismo, que é um movimento
petit bourgeois, revelou-se como mais violento que todo o obreirismo
junto. Não é, pois, nada disso o que impede ao europeu embalar-se
comunisticamente, mas uma razão muito mais simples e prévia. Esta:
que o europeu não vê na organização comunista um aumento da
felicidade humana.
Entretanto - repito -, parece-me muitíssimo possível que nos
anos próximos a Europa se entusiasme pelo bolchevismo. Não por ele
mesmo, mas apesar dele.
Imagine-se que o "plano qüinqüenal" seguido herculeamente pelo
Governo soviético conseguisse suas previsões e a enorme economia
russa ficasse não só restaurada, mas exuberante. Qualquer que seja o
conteúdo do bolchevismo, representa um ensaio gigantesco de empresa
humana. Nele os homens abraçaram resolutamente um destino de reforma
e vivem tensos sob a alta disciplina que essa fé lhes injeta. Se a
matéria cósmica, indócil aos entusiasmos do homem, não faz fracassar
gravemente a tentativa, tão só que lhe deixe via um pouco franca,
seu esplêndido caráter de magnífica empresa irradiará sobre o
horizonte continental como uma ardente e nova constelação. Se a
Europa, entretanto, persiste no ignóbil regime vegetativo destes
anos, frouxos os nervos por falta de disciplina, sem projeto de vida
nova, como poderia evitar o efeito contaminador daquela empresa tão
prócer? E não conhecer o europeu esperar que possa ouvir sem se
acender essa chamada a novo fazer quando ele não tem outra bandeira
de semelhante altaneria que desfraldar ovante. Contanto que sirva a
algo que dê um sentido à vida e fugir do próprio vazio existencial,
não é difícil que o europeu engula suas objeções ao comunismo, e já
que não por sua substância, se sinta arrastado por sua atitude
moral.
Eu vejo na construção da Europa, como grande Estado nacional, a
única empresa que poderia contrapor-se à vitória do "plano
qüinqüenal".
Os técnicos da economia política garantem que essa vitória tem
mui escassas probabilidades de sua parte. Mas seria demasiado vil
que o anticomunismo esperasse tudo das dificuldades materiais
encontradas por seu adversário. O fracasso deste equivaleria à
derrota universal: de todos e de tudo, do homem atual. O comunismo é
uma "moral" extravagante - algo assim como uma moral -. Não parece
mais decente e fecundo opor a essa moral eslava uma nova moral do
Ocidente, a incitação de um novo programa de vida?
XV. DESEMBOCA-SE NA VERDADEIRA QUESTÃO
Esta é a questão: a Europa ficou sem moral. Não é que o
homem-massa menospreze uma antiquada em benefício de outra
emergente, mas que o centro de seu regime vital consiste
precisamente na aspiração a viver sem sujeitar-se a moral alguma.
Não acrediteis uma palavra quando ouvirdes os jovens falar da "nova
moral". Nego rotundamente que exista em lugar algum do continente
grupo algum informado por um novo ethos que tenha visos de u'a
moral. Quando se fala da "nova" não se faz senão cometer uma
imoralidade mais e buscar o meio mais cômodo para passar
contrabando.
Por essa razão seria uma ingenuidade lançar em rosto ao homem
de hoje sua falta de moral. A imputação não lhe causaria a menor
impressão, ou melhor, o lisonjearia. O imoralismo chegou a ser tão
barato que qualquer um alardeia exercitá-lo.
Se deixamos de um lado - como se fez neste ensaio - todos os
grupos que significam sobrevivências do passado - os cristãos, os
"idealistas", os velhos liberais, etc. -. não se achará entre todos
os que representam a época atual um só cuja atitude ante a vida não
se reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação. É
indiferente que se mascare de reacionário ou de revolucionário: por
ativa ou por passiva, ao cabo de umas ou outras voltas, seu estado
de ânimo consistirá, decisivamente, em ignorar toda obrigação e
sentir-se, sem que ele mesmo suspeite por que sujeito de ilimitados
direitos.
Qualquer substância que caia sobre uma alma assim, dará um
mesmo resultado, e se converterá em pretexto para não se sujeitar a
nada concreto. Se se apresenta como reacionário ou antiliberal, será
para poder afirmar que a salvação da pátria, do Estado, dá direito a
alhear todas as outras normas e a massacrar o próximo, sobretudo se
o próximo possui uma personalidade valiosa. Mas a mesma coisa
acontece se dá para ser revolucionário: seu aparente entusiasmo pelo
operário manual, o miserável e a justiça social, lhe serve de
disfarce para poder desentender-se de toda obrigação - como a
cortesia, a veracidade, e, sobretudo, o respeito ou estimação dos
indivíduos superiores. Eu sei de não poucos que ingressaram em um ou
outro partido operário apenas para conquistar dentro de si mesmos o
direito a desprezar a inteligência e poupar-se aos salamaleques
diante dela. Quanto às outras Didaturas, bem vimos como afagam o
homem-massa, pateando quanto parecia eminência.
Essa esquivança a toda obrigação explica, em parte, o fenômeno,
entre ridículo e escandaloso, de que se tenha feito em nossos dias
uma plataforma da "juventude" como tal. Quiçá não ofereça nosso
tempo traço mais grotesco. As pessoas, comicamente, se declaram
"jovens" porque ouviram que o jovem tem mais direitos que
obrigações, já que pode demorar o cumprimento destas até as calendas
gregas da madureza. Sempre o jovem, como tal, considerou-se isento
de fazer ou haver feito façanhas. Sempre viveu de crédito. Isto se
acha na natureza do humano. Era como um falso direito, entre irônico
e terno, que os não jovens concediam aos moços. Mas é estupefaciente
que agora o tomem estes como um direito efetivo, precisamente para
atribuir-se todos os demais que pertencem só a quem tenha feito já
alguma coisa.
Embora pareça mentira, chegou a fazer-se da juventude uma
chantagem. Em realidade, vivemos um tempo de chantagem universal que
toma duas formas de esgar complementário: há a chantagem da
violência e a chantagem do humorismo. Com um ou com outro aspira-se
sempre ao mesmo: que o inferior, que o homem vulgar possa sentir-se
livre de toda sujeição.
Por isso não cabe enobrecer a crise presente mostrando-a como o
conflito entre duas morais ou civilizações, uma caduca e a outra em
alvor. O homem-massa carece simplesmente de moral, que é sempre, por
essência, sentimento de submissão a algo, consciência de serviço e
obrigação. Mas talvez é um erro dizer "simplesmente". Porque não se
trata só de que este tipo de criatura se desentenda da moral. Não;
não lhe façamos tão fácil a tarefa. Da moral não é possível
desentender-se simplesmente. O que com um vocábulo falto até de
gramática se chama amoralidade, é uma coisa que não existe. Se você
não quer submeter-se a nenhuma norma, tem, velis nolis, de
sujeitar-se à norma de negar toda moral, e isto não é amoral, mas
imoral. E uma moral negativa que conserva da outra a forma em oco.
Como se pode acreditar na amoralidade da vida? Sem dúvida
porque toda a cultura e a civilizacão moderna levam a esse
convencimento. Agora recolhe a Europa as penosas conseqüências de
sua conduta espiritual. Embalou-se sem reservas pelo declive de uma
cultura magnífica, mas sem raízes.
Neste ensaio desejou-se desenhar certo tipo de europeu,
analisando sobretudo seu comportamento ante a civilização mesma em
que nasceu. Importava fazer assim porque esse personagem não
representa outra civilização que lute com a antiga, mas uma simples
negação, negação que oculta um efetivo parasitismo. O homem-massa
está ainda vivendo precisamente do que nega e outros construíram ou
acumularam. Por isso não convinha mesclar seu psicograma com a
grande questão: que insuficiências radicais padece a cultura
européia moderna? Porque é evidente que, em última instância, delas
provém esta forma humana agora dominante.
Mas essa grande questão tem de permanecer fora destas páginas,
porque é excessiva. Obrigaria a desenvolver com plenitude a doutrina
sobre a vida humana que, como um contraponto, fica entrelaçada,
insinuada, murmurada nelas. Talvez possa em breve ser exaltada.
EPÍLOGO PARA INGLESES
Daqui a pouco faz um ano que numa paisagem holandesa, onde o
destino me havia centrifugado, escrevi o Prólogo para franceses à
primeira edição popular deste livro. Naquela data começava para a
Inglaterra uma das etapas mais problemáticas de sua história e havia
muito poucas pessoas na Europa que confiassem nas suas virtudes
latentes. Durante os últimos tempos falharam tantas coisas que, por
inércia mental, se tende a duvidar de tudo, até da Inglaterra.
Dizia-se que era um povo em decadência. Não obstante - e ainda
arrostando certos riscos de que não quero falar agora -, eu
assinalava com fé robusta a missão européia do povo inglês, a que
tivera durante dois séculos e que em forma superlativa estava
chamado a exercer hoje. O que então não imaginava é que tão
rapidamente viessem os fatos confirmar meu prognóstico e a
incorporar minha esperança. Muito menos que se comprazessem com tal
precisão em ajustar-se ao papel determinadíssimo que, usando um
símil humorístico, atribuía eu a Inglaterra ante o Continente. A
manobra de saneamento histórico que tenta a Inglaterra, desde já, em
seu interior, é portentosa. No meio da mais atroz tormenta, o navio
inglês troca todas as suas velas, vira dois quadrantes, cinge-se ao
vento e a guinada de seu leme modifica o destino do mundo. Tudo isso
sem uma gesticulação e muito além de todas as frases, incluso das
que acabo de proferir. É evidente que há muitas maneiras de fazer
história, quase tantas como de desfazê-las.
Há várias centúrias acontece periodicamente que os continentais
acordam uma manhã e, coçando a cabeça, exclamam: "Esta
Inglaterra!..." É uma expressão que significa surpresa, sobressalto
e a consciência de ter a sua frente algo admirável, mas
incompreensível. O povo inglês é, com efeito, o fato mais estranho
que há no planeta. Não me refiro ao inglês individual, mas ao corpo
social, à coletividade dos ingleses. O estranho, o maravilhoso não
pertence, pois, à ordem psicológica, mas à ordem sociológica. E como
a sociologia é uma das disciplinas sobre as quais as pessoas têm em
todas as partes menos idéias claras, não seria possível, sem muitas
preparações, dizer por que é estranha e por que é maravilhosa a
Inglaterra. Ainda menos tentar a explicação de como chegou a ser
essa estranha coisa que é. Enquanto se acredite que um povo possui
um "caráter" prévio e que sua história é uma emanação deste caráter,
não haverá maneira nem sequer de iniciar a conversação. O "caráter
nacional", como tudo que é humano, não é um dom inato, mas uma
fabricação. O caráter nacional vai se fazendo e desfazendo e
refazendo na história. Em que pese esta vez à etimologia, a nação
não nasce, se faz. É uma empresa que dá bem ou mal, que se inicia
após um período de ensaios, que se desenvolve, que se corrige, que
"perde o fio" uma ou várias vezes, e tem de voltar a começar, ou,
pelo menos, reatar. O interessante seria precisar quais são os
atributos surpreendentes, por insólitos, da vida inglesa nos últimos
cem anos. Depois viria a tentativa de mostrar como adquiriu a
Inglaterra essas qualidades sociológicas. Insisto em empregar esta
palavra, apesar do pedante que é, porque atrás dela está o
verdadeiramente essencial e fértil. E preciso extirpar da história o
psicologismo, que já foi afugentado de outros acontecimentos. O
excepcional da Inglaterra não jaz no tipo de indivíduo humano que
soube criar. É sobremaneira discutível que o inglês individual valha
mais que outras formas de individualidade aparecidas no Oriente e no
Ocidente. Mas mesmo aquele que estime o modo de ser dos homens
ingleses acima de todos os demais, reduz o assunto a uma questão de
mais ou de menos. Eu sustento, por minha vez, que o excepcional, que
a originalidade extrema do povo inglês radica em sua maneira de
tomar o lado social ou coletivo da vida humana, no modo como sabe
ser uma sociedade. Nisto sim é que se contrapõe a todos os demais
povos e não é questão de mais ou de menos. Talvez, no tempo próximo,
se me ofereça oportunidade para fazer ver tudo que quero dizer com
isto.
Respeito semelhante à Inglaterra não nos exime da irritação
ante seus defeitos. Não há povo que, olhado desde outro, não seja
insuportável. E por este lado talvez são os ingleses, em grau
especial, exasperantes. E é que as virtudes de um povo, como as de
um homem, vão elevadas, e em certa maneira, consolidadas, sobre seus
defeitos e limitações. Quando chegamos a esse povo, o primeiro que
vemos são as suas fronteiras, que, no moral como no físico, são seus
limites. O nervosismo dos últimos meses fez que quase todas as
nações tivessem vivido encarapitadas em suas fronteiras; quer dizer,
dando um espetáculo exagerado de seus mais congênitos defeitos. Se
se ajunta a isso que um dos principais temas de disputa tem sido a
Espanha, compreender-se-á até que ponto hei sofrido de quanto na
Inglaterra, na França, na América do Norte representa atonia,
entorpecimento, vício e falha. O que mais me surpreendeu é a
decidida vontade de não tomar conhecimento das coisas que há na
opinião pública desses países; e o que mais falta tenho sentido, a
respeito da Espanha, tem sido alguma atitude de graça generosa, que
é, a meu juízo, o mais estimável que há no mundo. No anglo-saxão -
não em seus governos, mas sim nos países - tem se deixado circular a
intriga, a frivolidade, a dureza de cabeça, o prejuízo arcaico e a
hipocrisia nova sem lhes pôr um limite. Escutaram-se em sério as
maiores imbecilidades com tanto que fossem indígenas, e,
entrementes, tem havido a radical decisão de não querer ouvir
nenhuma voz espanhola capaz de esclarecer as coisas, ou de ouvi-la
depois de deformá-la.
Isto me levou, ainda convencido de que forçava um pouco a
conjuntura, a aproveitar o primeiro pretexto para falar sobre a
Espanha e - já a suspicácia do público inglês não tolerava outra
coisa - falar sem parecer que dela falava nas páginas intituladas
"Quanto ao pacifismo... ", acrescentadas a seguir. Se é benévolo, o
leitor não esquecerá o destinatário. Dirigidas a ingleses,
representam um esforço de acomodação a seus usos. Renunciou-se nelas
a todo "brilho" e vão escritas em estilo bastante pickwickiano,
composto de cautelas e eufemismos.
Tenha-se presente que a Inglaterra não é um povo de escritores
mas de comerciantes, de engenheiros e de homens piedosos. Soube por
isso forjar uma língua e uma elocução em que se trata principalmente
de não dizer o que se diz, de insinuar e ainda mais de iludir. O
inglês não veio ao mundo para dizer, mas, ao contrário, para
silenciar. Com faces impassíveis, postos atrás de seus cachimbos,
velam os ingleses alerta sobre seus próprios segredos para que não
escape nenhum. Isto é uma força magnífica, e importa sobremaneira à
espécie humana que se conserve intacto esse tesouro e essa energia
de taciturnidade. Mas, ao mesmo tempo, dificultam enormemente a
inteligência com outros povos, sobretudo com os nossos. O homem do
Sul propende a ser gárrulo. A Grécia, que nos educou, soltou nossas
línguas e nos fez indiscretos a nativitate. O aticismo havia
triunfado sobre o laconismo, e para o ateniense viver era falar,
dizer, esganiçar-se, dando ao vento em formas claras e eufônicas a
mais arcana intimidade. Por isso divinizaram o dizer, o logos, ao
qual atribuíam mágica potência, e a retórica acabou sendo para a
civilização antiga o que tem sido a física para nós nestes últimos
séculos. Sob esta disciplina, os povos românicos forjaram línguas
complicadas, mas deliciosas, de uma sonoridade, uma plasticidade e
um garbo incomparáveis; línguas feitas à força de palavreados
infindáveis - em ágora e praça, em palanque, taberna e tertúlia. Daí
que nos sintamos sôfregos quando, aproximando-nos destes esplêndidos
ingleses, os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em
que consiste seu idioma.
O tema do ensaio que segue é a incompreensão mútua em que
caíram os povos do Ocidente - quer dizer, povos que convivem desde
sua infância. O fato é estupefaciente. Porque a Europa foi sempre
como uma casa da vizinhança, onde as famílias não vivem nunca
separadas, mas se misturam a toda hora sua doméstica existência.
Estes povos que agora se ignoram tão gravemente brincaram juntos
quando eram crianças nos corredores da grande mansão comum. Como
puderam chegar a não se entender tão radicalmente? A gênese de tão
feia situação é longa e complexa. Para enunciar só um dos mil fios
que naquele fato se atam, advirta-se que o uso de se converterem uns
povos em juizes dos outros, de se desprezar e injuriar porque são
diferentes, enfim, de se permitirem crer as nações hoje poderosas
que o estilo ou o "caráter" de um povo menor é absurdo porque é
bélica ou economicamente débil, são fenômenos que, se não erro,
jamais se haviam produzido até os últimos cinqüenta anos. Ao
enciclopedista francês do século XVIII, não obstante sua petulância
e sua escassa ductilidade intelectual, apesar de supor-se dono da
verdade absoluta, não se lhe ocorria desdenhar um povo "inculto" e
depauperado como a Espanha. Quando alguém o fazia, o escândalo que
provocava era prova de que o homem normal de então não via, como um
parvenu, nas diferenças de poderio diferença de nível humano. Pelo
contrário: é o século das viagens cheias de curiosidade amável e
prazenteira pela divergência do próximo. Este foi o sentido do
cosmopolitismo que coagula no seu último terço. O cosmopolitismo de
Fergusson, Herder, Goethe - é o oposto do atual "internacionalismo".
Nutre-se não da exclusão das diferenças nacionais, mas, pelo
contrário, de entusiasmo por elas. Busca a pluralidade de formas
vitais com vistas não à sua anulação, mas à sua integração. Lema
dele foram estas palavras de Goethe: "Só todos os homens vivem o
humano". O romanticismo que lhe sucedeu não é senão sua exaltação. O
romântico enamorava-se dos outros povos precisamente porque eram
outros, e no uso mais exótico e incompreensível suspeitava mistérios
de grande sabedoria. E o caso é que - em princípio - tinha razão. É,
por exemplo, indubitável que o inglês de hoje, hermetizado pela
consciência de seu poder político, não é muito capaz de ver o que há
de cultura refinada, sutilíssima e de alto alcance nessa ocupação -
que a ele lhe parece a exemplar desocupação de "tomar sol" a que o
castiço espanhol sói dedicar-se conscientemente. Ele crê,
porventura, que o unicamente civilizado é vestir umas bombachas e
dar pancadas numa bolinha com uma vara, operação que habitualmente
se dignifica denominando-a de "golf".
O assunto é, pois, de muito peso, e as páginas que seguem não
fazem outra coisa senão tomá-lo pelo lado mais urgente. Esse mútuo
desconhecimento tornou possível que o povo inglês, tão parco em
erros históricos graves, cometesse o gigantesco de seu pacifismo. De
todas as causas que geraram as presentes desgraças do mundo, a que
talvez pode concretizar-se mais é o desarmamento da Inglaterra. Seu
gênio político permitiu-lhe nestes meses corrigir com um esforço
incrível de self-control o mais extremo do mal. Porventura tenha
contribuído para que adote esta resolução a consciência da
responsabilidade contraída.
Sobretudo isto se raciocina tranqüilamente nas páginas
imediatas, sem excessiva presunção, mas com o entranhável desejo de
colaborar na reconstituição da Europa. Devo advertir ao leitor que
todas as notas foram acrescentadas agora e suas alusões cronológicas
hão de ser referidas ao corrente mês.
Paris, abril, 1938.
QUANTO AO PACIFISMO
Há vinte anos (90) a Inglaterra - seu
Governo e sua opinião pública - embarcaram no pacifismo. Cometemos o
erro de designar com este único nome atitudes mui diferentes, tão
diferentes que na prática vêem a ser com freqüência antagônicas. Há,
com efeito, muitas formas de pacifismo. A única que entre elas
existe de comum é uma coisa muito vaga: a crença em que a guerra é
um mal e a aspiração a eliminá-la como meio de trato entre os
homens. Mas os pacifistas começam a discrepar quando dão o passo
imediato e interrogam-se até que ponto é em absoluto possível o
desaparecimento das guerras. Enfim: a divergência torna-se
superlativa quando se põem a pensar nos meios que exige uma
instauração de paz sobre este pugnacíssimo globo terráqueo. Talvez
fosse muito mais útil do que se imagina um estudo completo sobre as
diversas formas do pacifismo. Dele emergiria não escassa claridade.
Mas é evidente que não me corresponde agora nem aqui fazer um estudo
no qual ficaria definido com certa precisão o peculiar pacifismo em
que a Inglaterra - seu Governo e sua opinião pública - embarcou há
vinte anos.
Por outra parte, entretanto, a realidade atual facilita
desgraçadamente o assunto. É um fato demasiado notório que esse
pacifismo inglês fracassou. Isso quer dizer que esse pacifismo foi
um erro. O fracasso foi tão grande, tão rotundo, que alguém teria
direito a revisar rapidamente a questão e a se perguntar se não é um
erro todo pacifismo. Mas eu prefiro agora adaptar-me quanto possa ao
ponto de vista inglês, e vou supor que sua aspiração à paz do mundo
era uma excelente aspiração. Mas isso sublinha tanto mais quanto
houve de erro no resto, a saber, na apreciação das possibilidades de
paz que o mundo atual oferecia e na determinação da conduta que há
de seguir quem pretenda ser, de verdade, pacifista.
Ao dizer isto não sugiro nada que possa levar ao desânimo. Pelo
contrário. Por que desanimar? Talvez as duas únicas coisas a que o
homem não tem direito são a petulância e seu oposto, o desânimo. Não
há nunca razão suficiente nem para um nem para o outro. Baste
advertir o estranho mistério da condição humana consistente em que
uma situação tão negativa e de derrota, como é haver cometido um
erro, se converte magicamente em uma nova vitória para o homem,
apenas reconhecendo-o. O reconhecimento de um erro é por si mesmo
uma nova verdade é como uma luz que dentro deste se acende.
Contra o que acreditem os jeremias, todo erro é uma propriedade
que acresce nosso haver. Em vez de chorar sobre ele convém
apressar-se a explorá-lo. Para isso é preciso que nos resolvamos a
estudá-lo a fundo, a descobrir sem piedade suas raízes e a construir
energicamente a nova concepção das coisas que isto nos proporciona.
Eu suponho que os ingleses se dispõem já, serenamente, mas
decididamente, a retificar o enorme erro que durante vinte anos tem
sido seu peculiar pacifismo e a substituí-lo por outro pacifismo
mais perspicaz.
Como quase sempre acontece, o defeito maior do pacifismo inglês
- e, em geral, dos que se apresentam como titulares do pacifismo -
tem sido subestimar o inimigo. Esta subestima lhes inspirou um
diagnóstico falso. O pacifista vê na guerra um dano, um crime ou um
vício. Mas esquece que, antes disso e acima disso, a guerra é um
enorme esforço que os homens fazem para resolver certos conflitos. A
guerra não é um instinto, mas um invento. Os animais a desconhecem e
é de pura instituição humana, como a ciência e a administração. Ela
levou a um dos maiores descobrimentos, base de toda civilização: ao
descobrimento da disciplina. Todas as demais formas de disciplina
procedem da primigênia, que foi a disciplina militar. O pacifismo
está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que
a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida.
Como toda forma histórica, tem a guerra dois aspectos: o da
hora de sua invenção e o da hora de sua superação. Na hora de sua
invenção significou um progresso incalculável. Hoje, quando
aspiramos a superá-la, vemos dela apenas a suja espádua, seu horror,
sua rusticidade, sua insuficiência. Do mesmo modo, costumamos, sem
mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso
progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que
se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade
o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros,
conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor. Augusto Comte, que
tinha um grande sentido humano, quer dizer, histórico, viu já deste
modo a instituição da escravidão - libertando-se das tolices que
Rousseau disse sobre ela - e a nós nos corresponde generalizar sua
advertência, aprendendo a olhar todas as coisas humanas sob essa
dupla perspectiva, a saber: o aspecto que têm ao chegar e o aspecto
que têm ao ir. Os romanos, mui finamente, encarregaram duas
divindades de consagrar esses dois instantes - Adeona e Abeona, o
deus do chegar e o deus de ir.
Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou
sua tarefa demasiado fácil. Pensou que para eliminar a guerra
bastava não fazê-la ou, em suma, trabalhar em que não se fizesse.
Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida
no trato humano, creu que bastava extirpá-la e que não era
necessário substituí-la. Mas o enorme esforço que é a guerra, só
pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior, um
sistema de esforços complicadíssimos, e que, em parte, requerem a
venturosa intervenção do gênio. O outro é puro erro. O outro é
interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se
desaparecesse; portanto, ignorar que se a guerra é uma coisa que se
faz, também a paz é uma coisa que importa fazer, que há que
fabricar, pondo na faina todas as potências humanas. A paz não "está
aí", simplesmente, pronta para que o homem a goze. A paz não é fruto
espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao
homem; pelo contrário, tem ele de fazê-lo, de construí-lo. Por isso,
o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber.
Se se atende a tudo isso, não parecerá surpreendente a crença
em que esteve a Inglaterra de que o mais que podia fazer a favor da
paz era desarmar, um fazer que se assemelha tanto a um puro omitir?
Essa crença é incompreensível se não se adverte o erro de
diagnóstico que lhe serve de base, a saber: a idéia de que a guerra
procede simplesmente das paixões dos homens, e que se se reprime o
apaixonamento, o belicismo ficará asfixiado. Para ver com clareza a
questão façamos o que fazia lord Kelvin para resolver seus problemas
de física: construamos um modelo imaginário. Imaginemos, então, que
em certo momento todos os homens renunciassem à guerra, como a
Inglaterra, por sua parte, tentou fazer. Acredita-se que basta isso,
mais ainda, que com isso se havia dado o mais breve passo eficiente
no sentido da paz? Grande erro! A guerra, repitamos, era um meio que
haviam inventado os homens para solucionar certos conflitos. A
renúncia à guerra não suprime estes conflitos. Pelo contrário,
deixa-os mais intactos e menos resolvidos que nunca. A ausência de
paixões, a vontade pacífica de todos os homens seriam completamente
ineficazes, porque os conflitos reclamariam solução, e, enquanto não
se inventasse outro meio, a guerra reapareceria inexoravelmente
nesse imaginário planeta habitado só por pacifistas.
Não é, pois, a vontade de paz o que importa ultimamente no
pacifismo. É preciso que este vocábulo deixe de significar uma boa
intenção e represente um sistema de novos meios de trato entre os
homens. Não se espere nesta ordem nada fértil enquanto o pacifismo,
de ser um gratuito e cômodo desejo, não passe a ser um difícil
conjunto de novas técnicas.
O enorme dano que aquele pacifismo trouxe à causa da paz
consistiu em não deixar-nos ver a carência das técnicas mais
elementais, cujo exercício concreto e preciso constitui isso que,
com um vago nome, chamamos de paz.
A paz, por exemplo, é o direito como forma de trato entre os
povos. Pois bem: o pacifismo usual dava como suposto que esse
direito existia, que estava aí à disposição dos homens e que só as
paixões destes e seus instintos de violência induziam a ignorá-lo.
Ora bem: isto é gravemente oposto à verdade.
Para que o direito ou um ramo dele exista é preciso: 1o., que
alguns homens, especialmente inspirados, descubram certas idéias ou
princípios de direito. 2o., a propaganda e expansão dessas idéias de
direito sobre a coletividade em questão (em nosso caso, pelo menos,
a coletividade que formam os povos europeus e americanos, incluindo
os domínios ingleses da Oceania). 3o., que essa expansão chegue de
tal modo a ser predominante, que aquelas idéias de direito se
consolidem em forma de "opinião pública". Então, e só então, podemos
falar, na plenitude do termo, de direito, quer dizer, de norma
vigente. Não importa que não haja legislador, não importa que não
haja juizes. Se aquelas idéias senhoreiam de verdade as almas,
atuarão inevitavelmente como instâncias para a conduta às quais se
pode recorrer. E esta é a verdadeira substância do direito.
Pois bem: um direito referente às matérias que originam
inevitavelmente as guerras não existe. E não só não existe no
sentido de que não haja alcançado ainda "vigência", isto é, que não
se tenha consolidado como norma firme na "opinião pública", como não
existe nem sequer como idéia, como puro teorema incubado na mente de
algum pensador. E não havendo nada disso, não havendo nem em teoria
um direito dos povos, pretende-se que desapareçam as guerras entre
eles? Permita-se-me que qualifique de frívola, de imoral, semelhante
pretensão. Porque é imoral pretender que uma coisa desejada se
realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o
desejo que é acompanhado da severa vontade de aprontar os meios de
sua execução.
Não sabemos quais são os "direitos subjetivos" das nações e não
temos nem indícios de como seria o "direito objetivo" que possa
regular seus movimentos. A proliferação de tribunais internacionais,
de órgãos de arbitragem entre Estados, que os últimos cinqüenta anos
presenciaram, contribui a ocultar-nos a indigência de verdadeiro
direito internacional que padecemos. Não desestimo, de maneira
nenhuma, a importância dessas magistraturas. Sempre é importante
para o progresso de uma função moral que apareça materializada em um
órgão especial claramente visível. Mas a importância desses
tribunais internacionais tem se reduzido a isso até hoje. O direito
que administram é, no essencial, o mesmo que já existia antes de seu
estabelecimento. Com efeito: se se passa revista às matérias
julgadas por esses tribunais, adverte-se que são as mesmas
resolvidas de há muito pela diplomacia. Não significam progresso
algum importante no que é essencial: na criação de um direito para a
peculiar realidade que são as nações.
Nem era lícito esperar maior fertilidade nesta ordem, de uma
etapa que se iniciou com o Tratado de Versalhes e com a instituição
da Sociedade das Nações, para só nos referirmos aos dois maiores e
mais recentes cadáveres. Repugna-me atrair a atenção do leitor sobre
coisas falidas, maltratadas ou em ruínas. Mas é indispensável para
contribuir um pouco a despertar o interesse para novas grandes
empresas, para novas tarefas construtivas e salutíferas. É preciso
que não se volte a cometer um erro como foi a criação da Sociedade
das Nações; entende-se, o que concretamente foi e significou esta
instituição na hora de seu nascimento. Não foi um erro qualquer,
como os habituais na difícil faina que é a política. Foi um erro que
reclama o atributo de profundo. Foi um erro histórico. O "espírito"
que propeliu para aquela criação, o sistema de idéias filosóficas,
históricas, sociológicas e jurídicas de que emanaram seu projeto e
sua figura estava já historicamente morto naquela data, pertencia ao
passado, e longe de antecipar o futuro era já arcaico. E não se diga
que é coisa fácil proclamar isto agora. Houve homens na Europa que
já então denunciaram seu inevitável fracasso. Uma vez mais aconteceu
o que é quase normal na história, a saber: que foi predita. Mas, uma
vez mais, também os políticos não fizeram caso desses homens. Evito
precisar a que grêmio pertenciam os profetas. Baste dizer que na
fauna humana representam a espécie mais oposta ao político. Sempre
será este quem deva governar, e não o profeta; mas importa muito aos
destinos humanos que o político ouça sempre o que o profeta grita ou
insinua. Todas as grandes épocas da história nasceram da sutil
colaboração entre esses dois tipos de homem. É talvez uma das causas
profundas do atual desconcerto seja que há duas gerações os
políticos se declararam independentes e cancelaram essa colaboração.
Mercê disso produziu-se o vergonhoso fenômeno de que, a esta altura
da história e da civilização, navegue o mundo mais à deriva que
nunca, entregue a uma cega mecânica. Cada vez é menos possível uma
sã política sem larga antecipação histórica, sem profecia. Talvez as
catástrofes presentes abram de novo os olhos dos políticos para o
fato evidente de que há homens, os quais, pelos temas de que
habitualmente se ocupam, ou por possuir almas sensíveis como finos
registradores sísmicos, recebem antes que os demais a visita do
porvir (91).
A Sociedade das Nações foi um gigantesco aparelho jurídico
criado para um direito inexistente. Sua vacuidade de justiça
encheu-se fraudulentamente com a sempiterna diplomacia, que ao
disfarçar-se de direito contribuiu à universal desmoralização.
Formule-se o leitor qualquer dos grandes conflitos que há
atualmente estabelecidos entre as nações, e diga-se a si mesmo se
encontra em sua mente uma possível norma jurídica que permita,
sequer teoricamente, resolvê-lo. Quais são, por exemplo, os direitos
de um povo que ontem tinha vinte milhões de homens e hoje tem
quarenta ou oitenta? Quem tem direito ao espaço não habitado do
mundo? Estes exemplos, os mais toscos e elementais que podem ser
apontados, põem bem à vista o caráter ilusório de todo pacifismo que
não comece por ser uma nova técnica jurídica. Sem dúvida, o direito
que aqui se postula é uma invenção muito difícil. Se fosse fácil
existiria há muito tempo. É difícil, exatamente tão difícil como a
paz, com a qual coincide. Mas uma época que assistiu ao invento das
geometrias não-euclidianas, de uma física de quatro dimensões e de
uma mecânica do descontínuo, pode, sem espanto, enfrentar aquela
empresa e resolver-se a acometê-la. Em certo modo, o problema do
novo direito internacional pertence ao mesmo estilo que esses
recentes progressos doutrinais. Também aqui se trataria de libertar
uma atividade humana - o direito - de certa radical limitação que
sempre padeceu. O direito, com efeito, é estático, e não debalde seu
órgão principal se chama Estado. O homem não conseguiu ainda
elaborar uma forma de justiça que não esteja circunscrita na
cláusula rebus sic stantibus. Mas é o caso que as coisas humanas não
são res stantes, mas pelo contrário, coisas históricas, quer dizer,
puro movimento, mutação perpétua. O direito tradicional é só
regulamento para uma realidade paralítica. E como a realidade
histórica muda periodicamente de modo radical, choca, sem remédio,
com a estabilidade do direito, que se converte em uma camisa de
força. Mas uma camisa de força posta num homem são tem a virtude de
torná-lo louco furioso. Daí - dizia eu, recentemente -, esse
estranho aspecto patológico que tem a história e que a faz parecer
como uma luta sempiterna entre os paralíticos e os epilépticos.
Dentro do povo produzem-se as revoluções, e entre os povos estalam
as guerras. O bem que pretende ser o direito se converte em um mal,
como já nos ensina a Bíblia: "Por que tomastes o direito em fel e o
fruto da justiça em absinto?" (Oseas, 6, 12),
No direito internacional, esta incongruência entre a
estabilidade da justiça e a mobilidade da realidade, que o pacifista
quer submeter àquela, chega a sua máxima potência. Considerada no
que ao direito importa, a história é, antes de tudo, a mudança na
divisão do poder sobre a terra. E enquanto não existam princípios de
justiça que, ao menos em teoria, regulem satisfatoriamente essas
mudanças do poderio, todo pacifismo é pena de amor perdida. Porque
se a realidade histórica é isso ante tudo, parecerá evidente que a
injúria máxima seja o statu quo. Não estranhe, pois, o fracasso da
Sociedade das Nações, gigantesco aparelho construído para
administrar o statu quo.
O homem necessita um direito dinâmico, um direito plástico e em
movimento, capaz de acompanhar a história em sua metamorfose. A
demanda não é exorbitante, nem utópica, nem sequer nova. Há mais de
setenta anos, o direito, tanto civil como político, evolui neste
sentido. Por exemplo: quase todas as constituições contemporâneas
procuram ser "abertas". Embora o expediente seja um pouco ingênuo,
convém recordá-lo, porque nele se declara a aspiração a um direito
semovente. Mas, a meu juízo, o mais fértil seria analisar a fundo e
tentar definir com precisão -, isto é, extrair a teoria que nele jaz
muda - o fenômeno jurídico mais avançado que se produziu até hoje no
planeta: a British Commonwealth of Nations. Dir-me-ão que isto é
impossível, porque precisamente esse estranho fenômeno jurídico foi
forjado mediante estes dois princípios: um, o formulado por Balfour
em 1926 com suas famosas palavras: Nas questões do Império é preciso
evitar o refining, discussing or defining. O outro, o princípio "da
margem e da elasticidade", enunciado por sir Austin Chamberlain em
seu histórico discurso de 12 de setembro de 1925: "Vejam-se as
relações entre as diferentes seções do Império britânico; a unidade
do Império britânica não está feita sobre uma constituição lógica.
Não está sequer baseada numa Constituição. Porque queremos conservar
a toda coisa uma margem e uma elasticidade."
Seria um erro não ver nestas duas fórmulas senão emanações do
oportunismo político. Longe disso, expressam mui adequadamente a
formidável realidade que é a British Commonwealth of Nations e a
designam precisamente sob seu aspecto jurídico. O que não fazem é
defini-la, porque um político não veio ao mundo para isso, e se o
político é inglês sente que definir algo é quase cometer uma
traição. Mas é evidente que há outros homens cuja missão é fazer o
que ao político, e especialmente ao inglês, está proibido: definir
as coisas, embora estas se apresentem com a pretensão de ser
essencialmente vagas. Em princípio, não é mais nem menos difícil
definir o triângulo que a névoa. Importaria muito reduzir a
conceitos claros essa situação efetiva de direito que consiste em
puras "margens" e simples "elasticidades". Porque a elasticidade é a
condição que permite a um direito ser plástico, e se se lhe atribui
uma margem, é que se prevê seu movimento. Se em vez de entender
estes dois caracteres como meras ilusões e como insuficiências de um
direito, as tomamos como realidades positivas, é possível que se
abram diante de nós as mais férteis perspectivas. Provavelmente, a
constituição do Império britânico parece-se muito ao "molusco de
referência" de que falou Einstein, uma idéia de que a princípio se
julgou inteligível e que é hoje base da nova mecânica.
A capacidade para descobrir a nova técnica de justiça que aqui
se postula está pré-formada em toda a tradição jurídica da
Inglaterra mais intensamente que na de nenhum outro país. E isso não
certamente por casualidade. A maneira inglesa de ver o direito não é
senão um caso particular do estilo geral que caracteriza o
pensamento britânico, no qual adquire sua expressão mais extrema e
depurada o que talvez é o destino intelectual do Ocidente, a saber:
interpretar tudo que é inerte e material como puro dinamismo,
substituir o que não parece ser senão "coisa" jacente, quieta e fixa
por forças, movimentos e funções. A Inglaterra tem sido, em todas as
ordens da vida, newtoniana. Mas não creio que seja necessário
deter-me neste ponto. Suponho que cem vezes se terá feito constar e
terá sido demonstrado com suficiente pormenor. Permita-se-me apenas
que, como empedernido leitor, manifeste meu desideratum de ler um
livro cujo tema seja este: o newtonismo inglês, fora da física;
portanto, em todas as demais ordens da vida.
Se resumo agora meu raciocínio, parecerá, creio eu, constituído
por uma linha simples e clara.
Está bem que o homem pacífico se ocupe diretamente em evitar
esta ou aquela guerra; mas o pacifismo não consiste nisso, mas em
construir a outra forma de convivência humana que é a paz. Isto
significa a invenção e exercício de toda uma série de novas
técnicas. A primeira delas é uma nova técnica jurídica que comece
por descobrir princípios de eqüidade referentes às mudanças da
divisão do poder sobre a terra.
Mas a idéia de um novo direito não é ainda um direito. Não
esqueçamos que o direito se compõe de muitas coisas mais que uma
idéia: por exemplo, formam parte dele os bíceps dos gendarmes ou
seus sucedâneos. À técnica do puro pensamento jurídico devem
acompanhar muitas outras técnicas ainda mais complicadas.
Desgraçadamente, o próprio nome de direito internacional
estorva uma clara visão do que seria em sua plena realidade um
direito das nações. Porque o direito nos pareceria ser um fenômeno
que acontece dentro das sociedades, e o chamado "internacional" nos
convida, pelo contrário, a imaginar um direito que acontece entre
elas; quer dizer, num vazio social. Nesse vazio social as nações se
reuniriam, e mediante um pacto criariam uma sociedade nova, que
seria, por mágica virtude dos vocábulos, a Sociedade das Nações. Mas
isso tudo tem o ar de um calembour (92), Uma
sociedade constituída mediante um pacto só é sociedade no sentido
que este vocábulo tem para o direito civil, isto é, uma associação.
Mas uma associação não pode existir como realidade jurídica se não
surge sobre uma área onde previamente tem vigência certo direito
civil. Outra coisa são puras fantasmagorias. Essa área onde a
sociedade ajustada surge é outra sociedade preexistente, que não é
obra de nenhum pacto, mas é o resultado de uma convivência
inveterada. Esta autêntica sociedade e não associação só se parece à
outra no nome. Daí o calembour.
Sem que eu pretenda resolver agora com atitude dogmática, de
passagem e avoadamente, as questões mais intrincadas da filosofia do
direito e da sociologia, atrevo-me a insinuar que caminha seguro
quem exija, quando alguém lhe fale de um fato jurídico, que lhe
indique a sociedade portadora desse direito e prévia a ele. No vazio
social não há nem nasce direito. Este requer como substrato uma
unidade de convivência humana, tal como o uso e o costume, dos quais
o direito é irmão menor, mas mais enérgico. A tal ponto é assim, que
não existe sintoma mais seguro para descobrir a existência de uma
autêntica sociedade que a existência de um fato jurídico. Turva a
evidência disto a confusão habitual que padecemos ao crer que toda
autêntica sociedade tem forçosamente de possuir um Estado autêntico.
Mas é bem claro que o aparelho estatal não se produz dentro de uma
sociedade, mas num estádio muito avançado de sua evolução. Talvez o
Estado proporciona ao direito certas perfeições, mas é necessário
enunciar ante leitores ingleses que o direito existe sem o Estado e
sua atividade estatutária.
Quando falamos das nações tendemos a representá-las como
sociedades separadas e fechadas em si mesmas. Mas isto é uma
abstração que deixa de fora o mais importante da realidade. Sem
dúvida, a convivência ou trato dos ingleses entre si é muito mais
intensa que, por exemplo, a convivência entre os homens da
Inglaterra e os homens da Alemanha ou da França. Mas é evidente que
existe uma convivência geral dos europeus entre si, e, portanto, que
a Europa é uma sociedade, velha de muitos séculos e que tem uma
história própria como possa tê-la cada nação particular. Esta
sociedade geral possui um grau ou índice de socialização menos
elevado que o alcançado desde o século XVI pelas sociedades
particulares chamadas nações européias. Diga-se, pois, que a Europa
é uma sociedade mais tênue que a Inglaterra ou que a França, mas não
se ignore seu efetivo caráter de sociedade. A coisa importa
superlativamente, porque as únicas possibilidades de paz que existem
dependem de que exista ou não efetivamente uma sociedade européia.
Se a Europa é só uma pluralidade de nações, podem os pacíficos
despedir-se rapidamente de suas esperanças (93).
Entre sociedades independentes não pode existir verdadeira paz. O
que costumamos chamar assim não é mais do que um estado de guerra
mínima ou latente.
Como os fenômenos corporais são o idioma e o hieróglifo, mercê
ao qual pensamos as realidades morais, não é preciso dizer o dano
que engendra uma errônea imagem visual convertida em hábito de nossa
mente. Por esta razão censuro essa figura da Europa em que esta
aparece constituída por uma multidão de esferas - as nações - que só
mantêm alguns contatos externos. Esta metáfora de jogador de bilhar
deveria desesperar ao bom pacifista, porque, como o bilhar, não nos
promete mais eventualidade que a "carambola". Corrijamo-la, pois. Em
vez de nos afigurarmos as nações européias como uma série de
sociedades livres, imaginemos uma sociedade única - a Europa -,
dentro da qual se produziram grumos ou núcleos de condensação mais
intensa. Esta figura corresponde muito mais aproximadamente que a
outra ao que, com efeito, foi a convivência ocidental. Não se trata
com isso de desenhar um ideal, mas de dar expressão gráfica ao que
realmente foi desde a sua iniciação, após a morte do período romano,
essa convivência (94).
A convivência, tão somente, não significa sociedade, viver em
sociedade ou formar parte de uma sociedade. Convivência implica só
relações entre indivíduos. Mas não pode haver convivência duradoura
e estável sem que se produza automaticamente o fenômeno social por
excelência, que são os usos - usos intelectuais ou "opinião
pública", usos de técnica vital ou "costumes", usos que dirigem a
conduta ou "moral", usos que a imperam ou "direito -. O caráter
geral do uso consiste em ser uma norma do comportamento -
intelectual, sentimental ou físico que se impõe aos indivíduos,
queiram ou não queiram. O indivíduo poderá, por sua conta e risco,
resistir ao uso; mas precisamente este esforço de resistência
demonstra melhor que nada a realidade coactiva do uso, o que
chamaremos sua "vigência". Pois bem: uma sociedade é um conjunto de
indivíduos que mutuamente se sabem submetidos à vigência de certas
opiniões e avaliações. Segundo isto, não há sociedade sem a vigência
efetiva de certa concepção do mundo, a qual atua como uma última
instância a que se pode recorrer em casos de conflito.
A Europa tem sido sempre um âmbito social unitário, sem
fronteiras absolutas nem descontinuidades, porque jamais faltou esse
fundo ou tesouro de "vigências coletivas" - convicções comuns e
tábuas de valores - dotadas dessa força coactiva tão estranha em que
consiste "o social". Não seria nada exagerado dizer que a sociedade
européia existe antes que as nações européias, e que estas nasceram
e se desenvolveram no regaço maternal daquela. Os ingleses podem ver
isto com alguma clareza no livro do Dawson: The Making of Europe.
Introduction to the History of European Society.
Entretanto, o livro de Dawson é insuficiente. Está escrito por
uma mente alerta e ágil, mas que não se liberou de modo completo do
arsenal de conceitos tradicionais na historiografia, conceitos mais
ou menos melodramáticos e míticos que ocultam, em vez de revelar, as
realidades históricas. Poucas coisas contribuiriam a apaziguar o
horizonte como uma história da sociedade européia, entendida como
acabo de apontar; uma história realista, sem "idealizações". Mas
este assunto nunca foi visto, porque as formas tradicionais da ótica
histórica tapavam esta realidade unitária que chamei, sensu stricto,
"sociedade européia" e a suplantavam por um plural - as nações -,
como, por exemplo, aparece no título de Ranke: História dos povos
germânicos e românicos. A verdade é que esses povos em plural
flutuam como ludiões dentro do único espaço social que é a Europa:
"nele se movem, vivem e são". A história que eu postulo nos contaria
as vicissitudes desse espaço humano e nos faria ver como seu índice
de socialização variou; como, em ocasiões, desceu gravemente fazendo
temer a cisão radical da Europa e, sobretudo, como a dose de paz em
cada época esteve na razão direta desse índice. Este último aspecto
é o que mais nos importa para as aflições atuais.
A realidade histórica ou, mais vulgarmente dito, o que sucede
no mundo humano, não é um amontoado de fatos soltos, mas que possui
uma estrita anatomia e uma clara estrutura. Mais: talvez é o único
no Universo que tem por si mesmo estrutura, organização. Tudo o mais
por exemplo, os fenômenos físicos - carece dela. São fatos soltos
aos quais o físico tem que inventar uma estrutura imaginária. Mas
essa anatomia da realidade histórica necessita ser estudada. Os
editoriais dos jornais e os discursos de ministros e demagogos não
nos dão notícia dela. Quando a estudamos bem, é possível
diagnosticar com certa precisão o lugar ou estrato do corpo
histórico onde a enfermidade radica. Havia no mundo uma amplíssima e
potente sociedade - a sociedade européia -. A foro de sociedade,
estava constituída por uma ordem básica devido à eficiência de
certas instâncias últimas - o credo intelectual e moral da Europa -.
Esta ordem que, por baixo de todas as suas superficiais desordens,
atuava nas camadas profundas do Ocidente, irradiaram durante
gerações sobre o resto do planeta, e pôs nele, em maior ou menor
escala, toda a ordem de que esse resto era capaz.
Pois bem: nada hoje deveria importar tanto ao pacifista como
averiguar que é o que acontece nessas camadas profundas do corpo
ocidental, qual é seu índice atual de socialização, por que se
volatilizou o sistema tradicional de "vigências coletivas", e se, a
despeito das aparências, conserva alguma destas latente vivacidade.
Porque o direito é operação espontânea da sociedade, mas a sociedade
é convivência sob instâncias. Poderia acontecer que hoje em dia
faltassem essas instâncias em uma proporção sem exemplo, ao longo de
toda a história européia. Neste caso a enfermidade seria a mais
grave que sofreu o Ocidente desde Diocleciano ou os Severos. Isso
não quer dizer que seja incurável; quer só dizer que fora necessário
chamar médicos ótimos e não qualquer transeunte. Quer dizer,
sobretudo, que não se pode esperar remédio algum da Sociedade das
Nações, conforme foi e continua sendo, instituto anti-histórico que
um maldizente poderia supor inventado em um clube cujos membros
principais fossem M. Pickwick, M. Homais e congêneres.
O anterior diagnóstico, independente de que seja acertado ou
errôneo, parecerá abstruso. E o é, com efeito. Eu o lamento, mas não
está em mim evitá-lo. Também os diagnósticos mais rigorosos da
medicina atual são abstrusos. Que profano, ao ler um fino exame de
sangue, vê ali definida uma terrível enfermidade? Esforcei-me sempre
em combater o esoterismo, que é por si um dos males do nosso tempo.
Mas não forjemos ilusões. Há um século, por causas profundas, e, em
parte, respeitáveis, as ciências derivam irresistivelmente em
direção esotérica. É uma das muitas coisas cuja grave importância os
políticos não souberam ver, embora achacados do vício oposto, que é
um excessivo exoterismo. Por enquanto não há senão aceitar a
situação e reconhecer que o conhecimento distanciou-se radicalmente
das conversações de beer-table.
A Europa está hoje dissocializada, ou, o que é o mesmo, faltam
princípios de convivência que sejam vigentes e a que caiba recorrer.
Uma parte da Europa esforça-se em fazer triunfar uns princípios que
considera "novos", a outra esforça-se em defender os tradicionais.
Ora bem, esta é a melhor prova de que nem uns nem os outros são
vigentes e perderam ou não alcançaram a virtude de instâncias.
Quando uma opinião ou norma chegou a ser de verdade "vigência
coletiva", não recebe seu vigor do esforço senão impô-la ou
sustentá-la empregam grupos determinados dentro da sociedade. Pelo
contrário: todo grupo determinado procura sua máxima fortaleza
reclamando para si essas vigências. No momento em que é preciso
lutar em prol de um princípio, quer dizer que este não é ainda ou
deixou de ser vigente. Vice-versa, quando é com plenitude vigente,
há somente que usá-lo, referir-se a ele, amparar-se nele, como se
faz com a lei de gravidade. As vigências operam seu mágico influxo
sem polêmica nem agitação, quietas e jacentes no fundo das almas, às
vezes sem que estas se apercebam de que estão dominadas por elas, e
às vezes crendo inclusive que combatem contra elas. O fenômeno é
surpreendente, mas é inquestionável e constitui o fato fundamental
da sociedade. As vigências são o autêntico poder social, anônimo,
impessoal, independente de todo grupo ou indivíduo determinado.
Mas, inversamente, quando uma idéia perdeu esse caráter de
instância coletiva, produz uma impressão entre cômica e inquietante
ver que alguém considera suficiente aludir a ela para se sentir
justificado ou fortalecido. Ora bem: isto acontece ainda hoje, com
excessiva freqüência, na Inglaterra e na América do Norte
(95). Ao adverti-lo, ficamos perplexos. Esta
conduta significa erro, ou uma ficção deliberada? É inocência ou é
tática? Não sabemos a que nos ater, porque no homem anglo-saxão a
função de se expressar, de "dizer", talvez represente um papel
diferente que nos demais povos europeus. Mas, seja um ou outro o
sentido desse comportamento, temo que seja funesto para o pacifismo.
Mais ainda, teria de ver se não foi um dos fatores que contribuíram
ao desprestígio das vigências européias o peculiar uso que delas tem
feito a Inglaterra. A questão deverá algum dia ser estudada a fundo,
mas não agora nem por mim (96).
Isso é que o pacifista precisa compreender, de que se encontra
em um mundo onde falta ou está muito debilitado o requisito
principal para a organização da paz. No trato de uns povos com
outros não cabe recorrer a instâncias superiores, porque não as há.
A atmosfera de sociabilidade em que flutuavam e que, interposta,
como um éter benéfico entre eles, lhes permita comunicar suavemente,
aniquilou-se. Ficam, pois, separados e frente a frente. Enquanto, há
trinta anos, as fronteiras eram para o viajor pouco mais que coluros
imaginários, todos vimos como iam rapidamente endurecendo-se,
convertendo-se em matéria córnea, que anulava a porosidade das
nações e as tornava herméticas. A pura verdade é que, há anos, a
Europa se encontra em estado de guerra, em um estado de guerra
substancialmente mais radical que em todo o seu passado. E a origem
que atribui a esta situação parece-me confirmado pelo fato de que
não somente existe uma guerra virtual entre os povos, mas dentro de
cada povo há, declarada ou preparando-se, uma grave discórdia. É
frívolo interpretar os regimes autoritários do dia como engendrados
pelo capricho ou pela intriga. Bem claro está que são manifestações
iniludíveis do estado de guerra civil em que quase todos os países
se encontram hoje. Agora se vê como a coesão interna de cada nação
se nutria em boa parte das vigências coletivas européias.
Esta debilitação subitânea da comunidade entre os povos do
Ocidente eqüivale a um enorme distanciamento moral. O trato entre
eles é dificílimo. Os princípios comuns constituíam uma espécie de
linguagem que lhes permitia entender-se. Não era, pois, tão
necessário que cada povo conhecesse bem a singulatim a cada um dos
demais. Mas com isto frisamos a linha de nossas considerações
iniciais.
Porque esse distanciamento moral se complica perigosamente com
outro fenômeno oposto, que é o que inspirou de modo concreto todo
este artigo. Refiro-me a um gigantesco fato, cujas características
convém precisar um pouco.
Há quase meio século fala-se de que os novos meios de
comunicação - deslocamento de pessoas, transferência de produtos e
transmissão de notícias - aproximaram os povos e unificaram a vida
no planeta. Mas como sempre acontece, essa opinião era um exagero.
Quase sempre as coisas humanas começam por ser lendas, e só mais
tarde se convertem em realidades. Neste caso, está visto claramente
hoje que se tratava só de uma entusiasta antecipação. Alguns dos
meios que haviam de tornar efetiva essa aproximação existiam já em
princípio - vapores, ferrocarris, telégrafo, telefone -. Mas nem se
havia ainda aperfeiçoado sua invenção nem se haviam posto amplamente
em serviço, nem sequer se haviam inventado os mais decisivos, como
são o motor a explosão e a rádio-comunicação. O século XIX,
emocionado ante as primeiras grandes conquistas da técnica
científica, apressou-se a emitir torrentes de retórica sobre os
"avanços", o "progresso material", etc. De tal sorte que, afinal, as
almas começaram a se cansar desses lugares comuns, embora os
aceitassem como verídicos, isto é, ainda que haviam chegado a
persuadir-se de que o século XIX havia, com efeito, realizado já o
que aquela fraseologia proclamava. Isto ocasionou um curioso erro de
ótica histórica que impede a compreensão de muitos conflitos atuais.
Convencido o homem médio de que a centúria anterior era a que havia
dado cume aos grandes empreendimentos, não se apercebeu de que a
época sem par dos inventos técnicos e de sua realização foram os
últimos quarenta anos. O número e importância dos descobrimentos, e
o ritmo de seu efetivo emprego nessa brevíssima etapa, supera em
muito todo o pretérito humano tomado em conjunto. Quer dizer, que a
efetiva transformação técnica do mundo é um fato recentíssimo, e que
essa mudança está produzindo agora - agora e não de há um século -
suas conseqüências radicais (97). E isso em
todas as ordens. Não poucos dos profundos desajustes na economia
atual advêm da súbita mudança que causaram na produção estes
inventos, mudança à qual não teve tempo de se adaptar o organismo
econômico. Que uma só fábrica seja capaz de produzir todas as
lâmpadas elétricas ou todos os sapatos de que necessita meio
continente é um fato demasiado afortunado para não ser, entretanto,
monstruoso. Isso mesmo aconteceu com as comunicações. Sem tardança e
de verdade, nestes últimos anos recebe cada povo, a tempo e hora,
tal quantidade de notícias e tão recentes sobre o que se passa nos
outros, que provocou nele a ilusão de que, com efeito, está em os
outros povos ou em sua absoluta imediação. Dito de outro modo: para
os efeitos da vida pública universal, o tamanho do mundo subitamente
se contraiu, reduziu-se. Os povos se encontram de improviso
dinamicamente mais próximos. E isto acontece precisamente na hora em
que os povos europeus mais se distanciaram moralmente.
Não adverte o leitor, de sopetão, o perigoso de semelhante
conjuntura? Sabido é que o ser humano não pode, sem mais nem menos,
aproximar-se a outro ser humano. Como vimos de uma das épocas
históricas em que a aproximação era aparentemente mais fácil,
tendemos a esquecer que sempre foram mister grandes precauções para
aproximar-se dessa fera com veleidades de arcanjo que costuma ser o
homem. Por isso corre ao longo de toda a história a evolução da
técnica da aproximação, cuja parte mais notória e visível é a
saudação. Talvez, com certas reservas, pudesse dizer-se que as
formas da saudação são função da densidade de povoação, portanto, da
distância normal a que estão uns homens dos outros. No Saara cada
tuaregue possui um raio espacial que alcança bastantes milhas. A
saudação do tuaregue começa a cem jardas e dura três quartos de
hora. Na China e no Japão, povos pululantes, onde os homens vivem,
por assim dizer, empilhados, nariz contra nariz, em compacto
formigueiro, a saudação e o trato complicaram-se na mais sutil e
complexa técnica de cortesia; tão refinada, que ao extremo oriental
lhe produz o europeu a impressão de ser um grosseiro e insolente,
com quem, a rigor, só o combate é possível. Nessa proximidade
superlativa tudo é feridor e perigoso: até os pronomes pessoais se
convertem em impertinências. Por isso o japonês chegou a exclui-los
de seu idioma, e em vez de "tu" dirá algo assim como "a maravilha
presente", e em lugar de "eu" fará um salamaleque e dirá "a miséria
que há aqui".
Se uma simples mudança da distância entre dois homens comporta
semelhantes riscos, imaginem-se os perigos que engendra sua súbita
aproximação entre os povos, sobrevinda nos últimos quinze ou vinte
anos. Eu creio que não se reparou devidamente neste novo fator e que
urge prestar-lhe atenção.
Tem se falado muito estes meses da intervenção ou
não-intervenção de uns Estados na vida de outros países. Mas não se
falou, ao menos com suficiente ênfase, da intervenção que exerce
hoje de fato a opinião de umas nações na vida de outras, às vezes
mui remotas. E esta é hoje, a meu juízo, muito mais grave que
aquela. Porque o Estado é, afinal das contas, um órgão relativamente
"racionalizado" dentro de cada sociedade. Suas atuações são
deliberadas e dosificadas pela vontade dos indivíduos determinados -
os homens políticos -, aos quais não pode faltar um mínimo de
reflexão e sentido de responsabilidade. Mas a opinião de todo um
povo ou de grandes grupos sociais é um poder elementar, irreflexivo
e irresponsável, que ademais oferece, indefeso, sua inércia ao
influxo de todas as intrigas. Isso não obstante, a opinião pública
sensu stricto de um país, quando opina sobre a vida de seu próprio
país tem sempre "razão" no sentido de que nunca é incongruente com
as realidades que ajuíza. A causa disso é óbvia. As realidades que
ajuíza são o que efetivamente passou o mesmo sujeito que as ajuíza.
O povo inglês, ao opinar sobre as grandes questões que afetam sua
nação, opina sobre fatos que lhe aconteceram, que experimentou em
sua própria carne e em sua própria alma, que viveu e, em suma, são
ele mesmo. Como vai, no essencial, equivocar-se? A interpretação
doutrinal desses fatos poderá dar oportunidade às maiores
divergências teóricas, e estas suscitar opiniões partidistas
sustentadas por grupos particulares; mas, por baixo dessas
discrepâncias "teóricas", os fatos insofisticáveis, gozados ou
sofridos pela nação, precipitam nesta uma "verdade" vital, que é a
realidade histórica mesma e tem um valor e uma força superiores a
todas as doutrinas. Esta "razão" ou "verdade" viventes, que, como
atributo, temos de reconhecer a toda autêntica "opinião pública"
consiste, como se vê, em sua congruência. Dito com outras palavras
obtemos esta proposição: é maximamente improvável que em assuntos
graves de seu país a "opinião pública" careça da informação mínima
necessária para que seu juízo não corresponda organicamente à
realidade julgada. Padecerá erros secundários e de detalhe, mas
tomada com atitude microscópica não é verossímil que seja uma reação
incongruente com a realidade inorgânica a respeito dela e, por
conseguinte, tóxica.
Estritamente o contrário acontece quando se trata da opinião de
um país sobre o que acontece em outro. É maximamente provável que
essa opinião surta em alto grau incongruente. O povo A pensa e
opina, lá do fundo de suas próprias experiências vitais, que são
diferentes das do povo B. Pode levar isto a outra coisa que não o
jogo dos despropósitos? Eis aqui, pois, a primeira causa de uma
inevitável incongruência, que só poderia contrariar mediante uma
coisa muito difícil, a saber: uma informação suficiente. Como aqui
falta a "verdade" do vivido, haveria que substitui-la por uma
verdade de conhecimento.
Há um século não importava que o povo dos Estados Unidos se
permitisse ter uma opinião sobre o que acontecia na Grécia, e que
essa opinião estivesse mal informada. Enquanto o Governo americano
não atuasse, essa opinião era inoperante sobre os destinos da
Grécia. O mundo era então "maior", menos compacto e elástico. A
distância dinâmica entre povo e povo é tão grande, que, ao
atravessá-la, a opinião incongruente perdia toxidez
(98). Mas, nestes últimos anos, os povos entraram numa extrema
proximidade dinâmica, e a opinião, por exemplo, de grandes grupos
sociais norte-americanos está intervindo, de fato - diretamente como
tal opinião, e não seu Governo - na guerra civil espanhola. O mesmo
digo da opinião inglesa.
Nada mais longe de minha pretensão que toda intenção de podar o
arbítrio a ingleses e americanos, discutindo seu "direito" a opinar
quanto estimem sobre quanto lhes apraza. Não é questão de "direito"
ou da desprezível fraseologia que sói amparar-se nesse título: é uma
questão, simplesmente, de bom sentido. Sustenta que a ingerência da
opinião pública de uns países na vida dos outros é hoje um fator
impertinente, venenoso e gerador de paixões bélicas, porque essa
opinião não está ainda regida por uma técnica adequada à troca de
distância entre os povos. Terá o inglês ou o americano todo o
direito que entenda para opinar sobre o que passou e deve acontecer
na Espanha, mas esse direito é uma injuria e não se aceita uma
obrigação correspondente: a de estar bem informado sobre a realidade
da guerra civil espanhola, cujo primeiro e mais substancial capítulo
é sua origem, as causas que a produziram.
Mas aqui é onde os meios atuais de comunicação produzem seus
efeitos; desde logo, daninhos. Porque a quantidade de notícias que
constantemente recebe um povo sobre o que sucede em outro é enorme.
Como será fácil persuadir ao homem inglês de que não está informado
sobre o fenômeno histórico que é a guerra civil espanhola ou outra
emergência análoga? Sabe que os jornais ingleses gastam somas
fortíssimas em sustentar correspondentes dentro de todos os países.
Sabe que, ainda que entre esses correspondentes não poucos exercem
seu ofício de maneira apaixonada e partidista, há muitos outros cuja
imparcialidade é inquestionável e cuja exatidão em transmitir dados
exatos não é fácil de superar. Tudo isto é verdade, e porque o é, é
perigoso (99). Pois é o caso que se o homem
inglês rememora num lance d'olhos encontrará que aconteceram no
mundo coisas de grave importância para a Inglaterra, e que a
surpreenderam. Como na história nada de algum relevo acontece de
repente, não seria excessiva suspicácia no homem inglês admitir a
hipótese de que está muito menos informado do que supõe crer, ou que
essa informação tão copiosa se compõe de dados externos, sem fina
perspectiva, entre os quais escapole o mais autenticamente real da
realidade. O exemplo mais claro disto, por suas formidáveis
dimensões, é o fato gigantesco que serviu a este artigo de ponto de
partida: o fracasso do pacifismo inglês, de vinte anos de política
internacional inglesa. Dito fracasso declara estrondosamente que o
povo inglês - apesar de seus inúmeros correspondentes - sabia pouco
do que realmente estava acontecendo nos demais povos.
Representemo-nos esquematicamente, a fim de entendê-la bem, a
complicação do processo que tem lugar. As notícias que o povo A
recebe do povo B suscitam nele um estado de opinião - seja de amplos
grupos ou de todo o país -. Mas como essas notícias chegam hoje com
superlativa rapidez, abundância e freqüência, essa opinião não se
mantém num plano mais ou menos "contemplativo", como há um século,
mas, irremediavelmente, sobrecarrega-se de intenções ativas e adota
imediatamente um caráter de intervenção. Sempre há, além disso,
intrigantes que, por motivos particulares, se ocupam deliberadamente
em fustigá-la. Vice-versa, o povo B recebe também com abundância,
rapidez e freqüência notícias dessa opinião remota, de seu
nervosismo, de seus movimentos e tem a impressão de que o estranho,
com intolerável impertinência, invadiu seu país, que está ali, quase
presente, atuando. Mas esta reação de aborrecimento multiplica-se
até à exasperação porque o povo B adverte ao mesmo tempo a
incongruência entre a opinião A e o que em B, efetivamente,
aconteceu. Já é irritante que o próximo pretenda intervir em nossa
vida, mas se além disso revela ignorar completamente nossa vida, sua
audácia provoca em nós frenesi.
Enquanto em Madri os comunistas e seus afins obrigavam, sob as
mais graves ameaças, escritores e professores a assinar manifestos,
a falar nas rádios, etc., comodamente sentados em seus escritórios
ou em seus clubes, isentos de toda pressão, alguns dos principais
escritores ingleses assinavam outro manifesto onde se garantia que
esses comunistas e seus afins eram os defensores da liberdade.
Evitemos os espaventos e as frases, mas permita-se-me convidar o
leitor inglês a que imagine qual pode ser meu primeiro movimento
ante semelhante fato, que oscila entre o grotesco e o trágico.
Porque não é fácil encontrar maior incongruência. Felizmente, cuidei
durante toda minha vida de montar em meu aparelho psico-físico um
sistema muito forte de inibições e de freios - talvez a civilização
não seja outra que essa montagem - e, além disso, como dizia Dante:
che saetta previsa vien più lenta,
não contribuiu a debilitar minha surpresa. Há muitos anos que me
ocupo em fazer notar a frivolidade e a irresponsabilidade freqüentes
no intelectual europeu, que denunciei como um fator de primeira
grandeza entre as causas da presente desordem. Mas esta moderação
que por sorte posso ostentar, não é "natural". O natural seria que
eu estivesse agora em guerra apaixonada contra esses escritores
ingleses. Por isso é um exemplo concreto do mecanismo belicoso que
criou o mútuo desconhecimento entre os povos.
Há uns dias, Alberto Einstein acreditou ter "direito" a opinar
sobre a guerra civil espanhola e tomar possessão ante ela. Ora bem,
Alberto Einstein usufrui uma ignorância radical sobre o que acontece
na Espanha agora, há séculos e sempre. O espírito que o leva a esta
insolente intervenção é o mesmo que há muito tempo vem causando o
desprestígio universal do homem intelectual, que, por sua vez, faz
com que o mundo vá à deriva, falto de pouvoir spirituel.
Note-se que falo da guerra civil espanhola como um exemplo
entre muitos, o exemplo que mais exatamente me consta, e me reduzo a
procurar que o leitor inglês admita por um momento a possibilidade
de que não está bem informado, a despeito de suas copiosas
"informações". Talvez isto o mova a corrigir seu insuficiente
conhecimento das demais nações, suposto o mais decisivo para que no
mundo volte a reinar uma ordem.
Mas eis aqui outro exemplo mais geral. Há pouco, o Congresso do
Partido Laborista rechaçou, por 2.100.000 votos contra 300.000, a
união com os comunistas, quer dizer, a formação na Inglaterra de uma
"Frente Popular". Mas esse mesmo partido e a massa de opinião que
pastoreia ocupam-se em favorecer e fomentar, do modo mais concreto e
eficaz, a "Frente Popular" que se formou em outros países. Deixo
intacta a questão de se uma "Frente Popular" é uma coisa benéfica ou
catastrófica, e me reduzo a confrontar dois comportamentos de um
mesmo grupo de opinião, e a sublinhar sua nociva incongruência. A
diferença numérica na votação é daquelas diferenças quantitativas
que, segundo Hegel, se convertem automaticamente em diferenças
qualitativas. Essas cifras mostram que, para o bloco do Partido
Laborista, a união com o comunismo, a "Frente Popular", não é uma
questão de mais ou de menos, mas que a considerariam como uma doença
terrível para a nação inglesa. Mas é o caso que, ao mesmo tempo,
esse mesmo grupo de opinião se ocupa em cultivar esse mesmo micróbio
em outros países, e isto é uma intervenção, mais ainda, poderia
dizer-se que é uma intervenção guerreira, posto que tem não poucos
caracteres da guerra química. Enquanto se produzam fenômenos como
este, todas as esperanças de que a paz reine no mundo são, repito,
penas de amor perdidas. Porque essa incongruente conduta, essa
duplicidade da opinião laborista só irritação pode inspirar fora da
Inglaterra.
E me pareceria vão objetar que essas intervenções irritam uma
parte do povo que as sofre, mas comprazem à outra. Esta é uma
observação demasiado óbvia para que seja verídica. A parte do país
favorecida momentaneamente pela opinião estrangeira procurará, claro
está, beneficiar-se dessa intervenção. Outra coisa seria pura
tolice. Mas por baixo dessa aparente e transitória gratidão corre o
processo real do vivido pelo país inteiro. A nação acaba por
estabilizar-se em "sua verdade", no que efetivamente aconteceu, e
ambos os partidos hostis coincidem nela, declarando-o ou não. Daí
que acabam por se unir contra a incongruência da opinião
estrangeira. Esta só pode esperar agradecimento perdurável na medida
em que, por sorte, acerte ou seja menos incongruente com essa
vivente "verdade". Toda realidade desconhecida prepara sua vingança.
Não outra é a origem das catástrofes na história humana. Por isso
será funesta toda tentativa de desconhecer que um povo é, como uma
pessoa, embora de outro modo e por outras razões, uma intimidade -
portanto, um sistema de segredos que não pode ser descoberto, à-toa,
de fora -. Não pense o leitor em nada vago nem místico. Tome
qualquer função coletiva, por exemplo, a língua. Bem notório é que
surte praticamente impossível conhecer intimamente um idioma
estrangeiro por muito que o estudemos. E não será uma insensatez
crer coisa fácil o conhecimento da realidade política de um país
estranho?
Sustento, pois, que a nova estrutura do mundo converte os
movimentos da opinião de um país sobre o que acontece em outro -
movimentos que antes eram quase inócuos - em autênticas incursões.
Isto bastaria para explicar por que, quando as nações européias
pareciam mais próximas a uma superior unificação, começaram
repentinamente a fechar-se dentro de si mesmas, a hermetizar suas
existências, umas frente às outras, e a converter-se as fronteiras
em escafandros isoladores.
Eu creio que há aqui um novo problema de primeira ordem para a
disciplina internacional, que corre paralelo ao do direito, versado
mais acima. Como antes postulávamos uma nova técnica jurídica, aqui
reclamamos uma nova técnica de trato entre os povos. Na Inglaterra o
indivíduo aprendeu a guardar certas cautelas quando se permite
opinar sobre outro indivíduo. Há a lei do libelo e há a formidável
ditadura das "boas maneiras". Não há razão para que não sofra
análoga regulamentação a opinião de um povo sobre outro.
Claro que isto supõe estar de acordo sobre um princípio básico.
Sobre este: que os povos, que as nações existem. Ora bem: o velho e
barato "internacionalismo", que engendrou as presentes angústias,
pensava, no fundo, o oposto. Nenhuma de suas doutrinas ou atuações é
compreensível se não se descobre em sua raiz o desconhecimento do
que é uma nação e de que isso que são as nações constitui uma
formidável realidade situada no mundo e com a qual há que contar.
Era um curioso internacionalismo aquele que em suas contas esquecia
sempre o detalhe de que há nações (100).
Talvez o leitor reclame agora uma doutrina positiva. Não tenho
inconveniente em declarar qual é a minha, embora me exponha a todos
os riscos de uma enunciação esquemática.
No livro The Revolt of the Masses (101),
que foi bastante lido em língua inglesa, propugno e anuncio o
advento de uma forma mais avançada de convivência européia, um passo
à frente na organização jurídica e política de sua unidade. Esta
idéia européia é de signo inverso àquele abstruso internacionalismo.
A Europa não é, não será, a inter-nação, porque isso significa, em
claras noções de história, um oco, um vazio e nada. A Europa será a
ultra-nação. A mesma inspiração que formou as nações do Ocidente
continua atuando no subsolo com a lenta e silente proliferação dos
corais. O extravio metódico que representa o internacionalismo
impediu ver que só através de uma etapa de nacionalismo exacerbados
se pode chegar à unidade concreta e cheia da Europa. Uma nova forma
de vida não consegue instalar-se no planeta até que a anterior e
tradicional não se tenha ensaiado em seu modo extremo. As nações
européias chegam agora a seus pontos cruciais e a cabeçada será a
nova integração da Europa. Porque é disso que se trata. Não de
laminar as nações, mas de integrá-las, deixando ao Ocidente todo seu
rico relevo. Nesta data, como acabo de insinuar, a sociedade
européia parece volatilizada. Mas seria um erro crer que isto
significa seu desaparecimento ou definitiva dispersão. O estado
atual de anarquia e superlativa dissociação na sociedade européia é
uma prova mais da realidade que esta possui. Porque se isso acontece
na Europa é porque sofre uma crise de sua fé comum, da fé européia,
das vigências em que sua socialização consiste. A enfermidade por
que atravessa é, pois, comum. Não se trata de que a Europa está
enferma, mas que gozem de plena saúde estas ou as outras nações, e
que, portanto, seja provável o desaparecimento da Europa e sua
substituição por outra forma de realidade histórica - por exemplo:
as nações soltas ou uma Europa oriental dissociada até à raiz de uma
Europa ocidental. Nada disto se oferece no horizonte -, mas como é
comum e européia a enfermidade, sê-lo-á também o restabelecimento.
Desde já, virá uma articulação da Europa em duas formas diferentes
de vida pública: a forma de um novo liberalismo e a forma que, com
um nome impróprio, se costuma chamar de "totalitária". Os povos
menores adotarão figuras de transição e intermediárias. Isto salvará
a Europa. Mais uma vez ficará patente que toda forma de vida precisa
de sua antagonista. O "totalitarismo" salvará o "liberalismo",
destilando sobre ele, depurando-o, e graças a isso veremos dentro em
breve um novo liberalismo temperar os regimes autoritários. Este
equilíbrio mecânico e provisório permitirá uma nova etapa de mínimo
repouso, imprescindível para que volte a brotar, no fundo de bosque
que as almas possuem, o manancial de uma nova fé. Esta é o autêntico
poder de criação histórica, mas não mana no meio da alteração, e sim
no recato do ensinamento.
Paris, dezembro, 1937.
DINÂMICA DO TEMPO
AS VITRINAS MANDAM
Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida
social. Se olhamos a realidade com uma ótica de retícula fina, a
proposição é mais falsa que verídica. Mas tem também seus direitos a
visão de retícula grossa, e então não há inconveniente em aceitar
essa terrível sentença.
Entretanto, teríamos de lhe tirar e lhe pôr alguns ingredientes
para que a idéia fosse luminosa. Pois acontece que em muitas épocas
históricas se falou o que agora se fala, e isto convida a suspeitar
ou que nunca foi verdade ou que o tem sido em sentidos mui diversos.
Porque é estranho que tempos sobremodo diferentes coincidam em ponto
tão principal. Em geral, não se deve fazer muito caso do que as
épocas passadas disseram de si mesmas, porque - é forçoso declará-lo
- eram mui pouco inteligentes a respeito de si. Esta perspicácia
sobre o próprio modo de ser, esta clarividência para o próprio
destino é coisa relativamente nova na história.
No século VII antes de Cristo corria já por todo o Oriente do
Mediterrâneo o apotegma famoso: Chrémata, chrémata aner! "Seu
dinheiro, seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o
mesmo, no século XIV o põe em circulação nosso turbulento tonsurado
de Hita, e no XVII, Gôngora faz disso letras. Que conseqüência
tiramos desta monótona insistência? Que o dinheiro, desde que se
inventou, é uma grande força social? Isso não era necessário
sublinhar: seria uma calinada. Em todas estas lamentações insinua-se
algo mais. Quem as usa expressa com elas, pelo menos, sua surpresa
de que o dinheiro tenha mais força da que devia ter. E de onde nos
vem essa convicção, segundo a qual o dinheiro devia ter menos
influência da que efetivamente possui? Como não nos habituamos ao
fato constante depois de tantos e tantos séculos, e que sempre nos
colhe de surpresa?
É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos
repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em
nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la
criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que
nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela
mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser
vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules.
Eu creio que esta surpresa, sempre renovada, ante o poder do
dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não
aclarados. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes
gritos se lamentou esse poderio, são, entre si, muito diferentes.
Entretanto, pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre
épocas de crise moral, tempos muito transitórios entre duas etapas.
Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e
ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte. Como? Será
que o dinheiro não possui, a rigor, o poder que, deplorando-o, se
lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes
organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse
entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de
asco que ante ele sente a humanidade, essa surpresa e essa
insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. Pelo
visto, não o deve ter porque não é seu, mas usurpado às outras
forças ausentes.
A questão é sobretudo complicada e não pode ser resolvida em
dois tempos. Só como uma possibilidade de interpretação vai tudo
isto que digo. O importante é evitar a concepção econômica da
história, que alheia toda a graça do problema, fazendo da história
inteira uma monótona conseqüência do dinheiro. Porque é demasiado
evidente que em muitas épocas humanas o poder social do dinheiro foi
muito reduzido e outras energias alheias ao econômico informaram a
convivência humana. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os
donos do mundo, também o possuíam na Idade Média e eram o excremento
da Europa. Não se diga que o dinheiro não era a forma principal da
riqueza, da realidade econômica nos tempos feudais. Porque, ainda
sendo isto verdade e calibrando na devida cifra o peso puramente
econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval, não há
correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição
social. Os marxistas, para adubar as coisas segundo a pauta de sua
tese, menosprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa
pré-capitalista da evolução econômica, e foi necessário depois
refazer a história econômica daquela idade para mostrar a
importância efetiva que nos Estados medievais tinha o dinheiro
hebreu.
Ninguém, nem o mais idealista, pode duvidar da importância que
o dinheiro tem na história, mas talvez possa duvidar-se de que seja
um poder primário e substantivo. Talvez o poder social não depende
normalmente do dinheiro, mas, vice-versa, se reparte segundo se acha
repartido o poder social, e vai para o guerreiro na sociedade
belicosa, mas vai para o sacerdote na teocrática. O sintoma de um
poder social autêntico é que cria jerarquias, que seja ele quem
destaca o indivíduo no corpo público. Pois bem: no século XVI, por
muito dinheiro que tivesse um judeu, continuava sendo um
infra-homem, e no tempo de César os "cavaleiros", que eram os mais
ricos como classe, não ascendiam ao cume da sociedade.
Parece o mais verossímil que seja o dinheiro um fator social
secundário, incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da
sociedade. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de
todo ofício coletivo, mas não é a musa de seu estilo tectônico. Pelo
contrário, se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos -
raça, religião, política, idéias -, toda a energia social vacante é
absorvida por ele. Diríamos, pois, que quando se volatilizam os
demais prestígios resta sempre o dinheiro, que, por ser elemento
material, não pode volatilizar-se. Ou, de outro modo: o dinheiro não
manda mais senão quando não há outro princípio que mande.
Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas
ao império crematístico que consiste em ser tempos de transição.
Morta uma constituição política e moral, fica a sociedade sem motivo
que jerarquize os homens. Ora bem: isto é impossível. Contra a
ingenuidade igualitária é preciso fazer notar que a jerarquização é
o impulso essencial da socialização. Onde há cinco homens em estado
normal produz-se automaticamente uma estrutura jerarquizada. Qual
seja o princípio desta é outra questão. Mas algum terá de existir
sempre. Se os normais faltam, um pseudo princípio se encarrega de
modelar a jerarquia e definir as classes. Durante um momento - o
século XVII - na Holanda, o homem mais invejado era aquele que
possuía certa tulipa rara. A fantasia humana, fustigada por esse
instinto irreprimível de jerarquia, inventa sempre algum novo tema
de desigualdade.
Mas, ainda limitando de tal sorte a frase inicial que dá
ocasião a esta nota, eu me pergunto se há alguma razão para afirmar
que em nosso tempo goza o dinheiro de um poder social maior que em
tempo algum do passado. Também esta curiosidade é exposta e difícil
de satisfazer. Se nos envaidecemos, tudo que acontece em nossa hora
parecer-nos-á único e excepcional na série dos tempos. Há,
entretanto, a meu juízo, uma razão que dá probabilidade clara à
suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de quantos foram. É
também idade de crise: os prestígios há anos ainda vigentes perderam
sua eficiência. Nem a religião nem a moral dominam a vida social nem
o coração da multidão. A cultura intelectual e artística é avaliada
menos que há vinte anos. Resta só o dinheiro. Mas, como indiquei,
isto aconteceu várias vezes na história. O novo, o exclusivo do
presente é esta outra conjuntura. O dinheiro teve, para seu poder,
um limite automático em sua própria essência. O dinheiro é apenas um
meio para comprar coisas. Se há poucas coisas para comprar, por
muito dinheiro que haja e por muito livre que se encontre sua ação
de conflitos com outras potências, seu influxo será escasso. Isto
nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o
poder social do dinheiro - ceteris paribus - será tanto maior
quantas mais coisas haja para comprar, não quanto maior seja a
quantidade do dinheiro mesmo. Ora bem: não há dúvida que o
industrialismo moderno, em sua combinação com os fabulosos
progressos da técnica, produziu nestes anos um cúmulo tal de objetos
mercáveis, de tantas classes e qualidades, que o dinheiro pode
desenvolver fantasticamente sua essência: o comprar.
No século XVIII existiam também grandes fortunas, mas havia
pouco para comprar. O rico, se queria algo mais que o breve
repertório de mercadorias existente, tinha de inventar um apetite e
o objeto que o satisfaria, tinha de buscar o artífice que o
realizasse e dar tempo a sua fabricação. Em todo este intrincamento
intercalado entre o dinheiro e objeto complicava-se aquele com
outras forças espirituais - fantasia criadora de desejos no rico,
seleção do artífice, trabalho técnico deste, etc. - de que se fazia,
sem querer, dependente.
Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o
mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear
ante as vitrinas, escolher os objetos melhores - o melhor automóvel,
o melhor chapéu, o melhor isqueiro, etc. - e comprá-los. Caberia
imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse
mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da
urbe.
El Sol, 15 de maio de 1927.
JUVENTUDE
I
As variações históricas não procedem nunca de causas externas
ao organismo humano, pelo menos dentro de um mesmo período histórico
zoológico. Se houve catástrofes telúricas - dilúvios, submersão de
continentes, súbitas mudanças extremas de clima -, como nos mitos
mais arcaicos pode se recordar confusamente, o efeito por elas
produzido transcendeu os limites do histórico e transtornou a
espécie como tal. O mais provável é que o homem não assistiu nunca a
semelhantes catástrofes. A existência tem sido, pelo visto, sempre
muito cotidiana. As mudanças mais violentas que nossa espécie
conheceu, os períodos glaciais, não tiveram caráter de grande
espetáculo. Basta que durante algum tempo a temperatura média do ano
desça cinco ou seis graus para que a glacialização se produza. Em
definitivo, que os verões sejam um pouco mais frescos. A lentidão e
suavidade deste processo dá tempo a que o organismo reaja, e esta
reação de dentro do organismo à mudança física do contorno, é a
verdadeira variação histórica. Convém abandonar a idéia de que o
meio, mecanicamente, modele a vida; portanto, que a vida seja um
processo de fora para dentro. As modificações externas atuam só como
excitantes de modificações intraorgânicas; são, a bem dizer,
perguntas que o ser vivo responde com uma ampla margem de
originalidade imprevisível. Cada espécie, e mesmo cada variedade, e
mesmo cada indivíduo, aprontará uma resposta mais ou menos
diferente, nunca idêntica. Viver, em suma, é uma operação que se faz
de dentro para fora, e por isso as causas ou princípios de suas
variações devem ser buscados no interior do organismo.
Pensando assim, havia de parecer-me sobremodo verossímil que
nos mais profundos e amplos fenômenos históricos apareça, mais ou
menos claro, o decisivo influxo das diferenças biológicas mais
elementais. A vida é masculina ou feminina, é jovem ou é velha. Como
se pode pensar que estes módulos elementaríssimos e divergentes da
vitalidade não sejam gigantescos poderes plásticos da história? Foi,
a meu juízo, um dos descobrimentos sociológicos mais importantes o
que se fez, vai para trinta anos, quando se advertiu que a
organização social mais primitiva não é senão a marca na massa
coletiva dessas grandes categorias vitais: sexos e idades. A
estrutura mais primitiva da sociedade se reduz a dividir os
indivíduos que a integram em homens e mulheres, e cada uma destas
classes sexuais (102) em meninos, jovens e
velhos, em classes de idade. As formas biológicas mesmas foram, por
assim dizer, as primeiras instituições.
Masculinidade e feminilidade, juventude e senectude, são duas
parelhas de potências antagônicas. Cada uma destas potências
significa a mobilização da vida toda em um sentido divergente do que
possui sua contrária. Vêem a ser como estilos diversos do viver. E
como todos coexistem em qualquer instante da história, produz-se
entre eles uma colisão, um forcejar em que cada qual tenta arrastar,
em seu sentido, íntegra, a existência humana. Para compreender bem
uma época é preciso determinar a equação dinâmica que nela dão essas
quatro potências, e perguntar: Quem pode mais? Os jovens ou os
velhos, quer dizer, os homens maduros? O varonil ou o feminino? É
sobremaneira interessante perseguir nos séculos as deslocações do
poder para uma ou a outra dessas potências. Então adverte-se o que
de antemão devia presumir-se: que, sendo rítmica toda vida, o é
também a história, e que os ritmos fundamentais são precisamente os
biológicos; quer dizer, que há épocas em que predomina o masculino e
outras senhoreadas pelos instintos da feminilidade, que há tempos de
jovens e tempos de velhos.
No ser humano a vida se duplica porque ao intervir a
consciência a vida primária se reflete nela: é interpretada por ela
em forma de idéia, imagem, sentimento. E como a história é, antes de
tudo, história da mente, da alma, o interessante será descrever a
projeção na consciência desses predomínios rítmicos. A luta
misteriosa que mantém nas secretas oficinas do organismo a juventude
e a senectude, a masculinidade e a feminilidade, reflete-se na
consciência sob a espécie de preferências e desdéns. Chega uma época
em que prefere, que estima mais as qualidades da vida jovem, e
pospõe, desestima as da vida madura, ou bem acha a graça máxima nos
modos femininos diante dos masculinos. Por que acontecem estas
variações da preferência, às vezes súbitas? Eis aqui uma questão
sobre a qual não podemos ainda dizer uma só palavra clara
(103).
O que realmente me parece evidente é que nosso tempo se
caracteriza pelo extremo predomínio dos jovens. É surpreendente que
em povos tão velhos como os nossos, e depois de uma guerra mais
triste que heróica, toma a vida de repente um aspecto de triunfante
juventude. Na realidade, como tantas outras coisas, este império dos
jovens vinha se preparando desde 1890, desde o fin de siècle. Hoje
de um lugar, amanhã de outro, foram desalojadas a madureza e a
ancianidade: em seu oposto se instalava o homem jovem com seus
peculiares atributos.
Eu não sei se este triunfo da juventude será um fenômeno
passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que
chegará a qualificar toda uma época. E preciso que passe algum tempo
para poder aventurar este prognóstico. O fenômeno é demasiado
recente e ainda não se pode ver se esta nova vida in modo juventutis
será capaz do que depois direi, sem o que não é possível a
perduração de seu triunfo. Mas se fossemos atender só ao aspecto do
momento atual, seremos forçados a dizer: tem havido na história
outras épocas em que predominaram os jovens, mas nunca, entre as bem
conhecidas, (104) o predomínio tem sido tão
extremado e exclusivo. Nos séculos clássicos da Grécia, a vida toda
organiza-se em torno do efebo, mas junto a ele, e como potência
compensatória, está o homem maduro que o educa e dirige. A parelha
Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de
juventude e madureza desde o século V no tempo de Alexandre. O jovem
Alcibíades triunfa sobre a sociedade, mas sob condição de servir ao
espírito que Sócrates representa. Deste modo, a graça e o vigor
juvenis são postos a serviço de algo acima deles, que lhes serve de
norma, de incitação e de freio. Roma, pelo contrário, prefere o
velho ao jovem e submete-se à figura do senador, do pai de família.
O "filho", entretanto, o jovem atua sempre diante do senador em
forma de oposição. Os dois nomes que enunciam os partidos da luta
multissecular aludem a esta dualidade de potências: patrícios e
proletários. Ambos significam "filhos", uns são filhos de pai
cidadão, casado segundo lei do Estado e por isso herdeiros de bens,
ao passo que o proletário é filho no sentido da carne, não é filho
de "alguém" reconhecido, é mero descendente e não herdeiro, prole.
(Como se vê a tradição exata de patrício seria fidalgo).
Para achar outra época de juventude como a nossa, seria preciso
descer até o Renascimento. Repasse o leitor rapidamente a série de
épocas européias. O romanticismo, que com uma ou outra intensidade
impregna todo o século XIX, pode parecer em sua iniciação um tempo
de jovens. Há nele, efetivamente, uma subversão contra o passado e é
um ensaio de se afirmar a si mesma a juventude. A Revolução fizera
tábua rasa da geração precedente e permitiu durante quinze anos que
ocupassem todas as eminências sociais homens muito moços. O jacobino
e o general de Bonaparte são rapazes. Entretanto, oferece este tempo
o exemplo de um falso triunfo juvenil, e o romanticismo porá de
manifesto sua carência de autenticidade. O jovem revolucionário é só
o executor das velhas idéias confeccionadas nos dois séculos
anteriores. O que o jovem afirma então não é a sua juventude, mas
princípios recebidos: nada tão representativo como Robespierre, o
velho de nascimento. Quando no romanticismo se reage contra o século
XVIII é para voltar a um passado mais antigo, e os jovens ao olhar
dentro de si só acham inapetência vital. E a época dos blasés, dos
suicídios, o ar prematuramente caduco no andar e no sentir. O jovem
imita em si o velho, prefere suas atitudes fatigadas e apressa-se a
abandonar sua mocidade. Todas as gerações do século XIX aspiraram a
ser maduras o mais depressa possível e sentiam uma estranha vergonha
de sua própria juventude. Compare-se com os jovens atuais - varões e
fêmeas - que tendem a prolongar ilimitadamente sua mocidade e se
instalam nela como definitivamente.
Se damos um passo atrás caímos no século vieillot por
excelência, o XVIII, que abomina de toda qualidade juvenil, detesta
o sentimento e a paixão, o corpo elástico e nu. É o século do
entusiasmo pelos decrépitos, que estremece ao passo de Voltaire,
cadáver vivente que passa sorrindo de si mesmo no sorriso inumerável
de suas rugas. Para extremar tal estilo de vida finge-se na cabeça a
neve da idade, e a peruca empoada cobre toda testa primaveril -
homem ou mulher - com uma suposição de sessenta anos.
Ao chegar ao século XVIII neste virtual processo temos de nos
interrogar, ingenuamente surpresos: Para onde foram os jovens?
Quanto vale nesta idade parece ter quarenta anos: o traje, o uso, os
modos, são só adequados à gente dessa idade. De Ninon estima-se a
madureza, não a confusa juventude. Domina a centúria Descartes,
vestido à espanhola, de negro. Busca-se por toda a parte a raison e
interessa mais que nada a teologia: jesuítas contra Jansênio.
Pascal, o garoto genial, é genial porque antecipa a ancianidade dos
geômetras.
El Sol, 9 de junho de 1927.
II
Todo gesto vital, ou é um gesto de domínio ou um gesto de
servidão. Tertium non datur. O gesto de combate que parece
interpolar-se entre ambos pertence, a rigor, a um ou outro estilo. A
guerra ofensiva vai inspirada pela segurança na vitória e antecipa o
domínio. A guerra defensiva sói empregar táticas vis, porque no
fundo de sua alma o atacado estima mais que a si mesmo o ofensor.
Esta é a causa que decide um ou outro estilo de atitude.
O gesto servil o é porque o ser não gravita sobre si mesmo, não
está seguro de seu próprio valor e em todo instante vive
comparando-se com outros. Necessita deles em uma ou outra forma;
necessita de sua aprovação para se tranqüilizar, quando não de sua
benevolência e de seu perdão. Por isso o gesto leva sempre uma
referência ao próximo. Servir é encher nossa vida de atos que têm
valor só porque outro ser os aprova ou aproveita. Têm sentido
olhados da vida deste outro ser, não da nossa vida. E esta é, em
princípio, a servidão: viver desde outro, não desde si mesmo.
O estilo de domínio, por seu turno, não implica a vitória. Por
isso aparece com mais pureza que nunca em certos casos de guerra
defensiva que concluíram com a completa derrota do defensor. O caso
de Numância é exemplar. Os numantinos possuem uma fé inquebrantável
em si mesmos. Sua longa campanha contra Roma começou por ser de
ofensiva. Desprezavam o inimigo e, com efeito, o derrotavam uma vez
e outra (105). Quando mais tarde, recolhendo e
organizando melhor suas forças superiores, Roma aperta Numância,
esta, dir-se-á, toma a defensiva, mas propriamente não se defende,
efetivamente aniquila-se, suprime-se. O fato material da
superioridade de forças no inimigo convida ao povo de alma dominante
a preferir sua própria anulação. Porque só sabe viver desde si
mesmo, e a nova forma de existência que o destino lhe propõe -
servidão - lhe é inconcebível, lhe sabe a negação do viver mesmo;
portanto, é a morte.
Nas gerações anteriores a juventude vivia preocupada com a
madureza. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte,
ciência, política, usos e regime de vida -, esperava sua aprovação e
temia seu enfado. Só se entregava a si mesma, ao que é peculiar a
tal idade, subrepticiamente e como à margem. Os jovens sentiam sua
própria juventude como uma transgressão do que é devido.
Objetivamente se manifestava isto no fato de que a vida social não
estava organizada em vista deles. Os costumes, os prazeres públicos
haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio para as pessoas
maduras, e eles tinham de se contentar com as zurrapas que estas
lhes deixavam ou lançar-se às estroinices. Até no vestir viam-se
forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na
conveniência da gente maior. As moças sonhavam com o momento em que
se vestiriam "à vontade", quer dizer, em que adotariam o traje de
suas mães. Em suma, a juventude vivia a serviço da madureza.
A mudança operada neste ponto é fantástica. Hoje a juventude
parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão
saturados de domínio. Em sua atitude transparece bem claramente que
não se preocupa o mínimo com a outra idade. O jovem atual habita
hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e
segurança, que parece existir só nela. O que a madureza pense dela
não lhe importa um caracol; mais ainda: a madureza possui a seus
olhos um valor próximo ao cômico.
Mudaram-se as tornas. Hoje o homem e a mulher maduros vivem
quase sobressaltados, com a vaga impressão de que quase não têm
direito a existir. Advertem a invasão do mundo pela mocidade como
tal e começam a fazer gestos servis. Desde logo, imitam-na no
trajar. (Tenho sustentado muitas vezes que as modas não eram um fato
frívolo, mas um fenômeno de grande transcendência histórica,
obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece com
exaustiva evidência essa afirmação).
As modas atuais estão pensadas para corpos juvenis, e é
tragicômica a situação de pais e mães que se vêem obrigados a imitar
seus filhos e filhas na indumentária. Os que já andamos na curva
descendente da vida vemo-nos na inaudita necessidade de ter de
desandar um pouco o caminho percorrido, como se o houvéssemos
errado, e fazer-nos - de grado ou não - mais jovens do que somos.
Não se trata de fingir uma mocidade que se ausenta de nossa pessoa,
mas que o módulo adotado pela vida objetiva é o juvenil e nos força
a sua adoção. Como com o vestir, acontece com tudo o resto. Os usos,
prazeres, costumes, modos, estão talhados à medida dos efebos.
É curioso, formidável, o fenômeno, e convida a essa humildade e
devoção ante o poder, ao mesmo tempo criador e irracional, da vida
que eu fervorosamente recomendei durante toda a minha. Note-se que
em toda a Europa a existência social está hoje organizada para que
possam viver a gosto só os jovens das classes médias. Os maiores e
as aristocracias ficaram fora da circulação vital, sintoma em que se
enlaçam dois fatores distintos - juventude e massa - dominantes na
dinâmica deste tempo. O regime de vida média aperfeiçoou-se - por
exemplo, os prazeres -, e, em troca, as aristocracias não souberam
criar para si novos refinamentos que as distanciem da massa. Só lhe
resta a compra de objetos mais caros, mas do mesmo tipo geral que os
usados pelo homem médio. As aristocracias, desde 1800 no político, e
desde 1900 no social, têm sido levadas de roldão, e é lei da
história que as aristocracias não podem ser levadas de roldão senão
quando previamente caíram em irremediável degeneração.
Mas há um fato que sublinha mais que outro algum este triunfo
da juventude e revela até que ponto é profundo o transtorno de
valores na Europa. Refiro-me ao entusiasmo pelo corpo. Quando se
pensa na juventude, pensa-se antes de tudo no corpo. Por várias
razões: em primeiro lugar, a alma tem uma frescura mais prolongada,
que às vezes chega a ornar a velhice da pessoa; em segundo lugar, a
alma é mais perfeita em certo momento da madureza que na juventude.
Sobretudo, o espírito - inteligência e vontade - é, sem dúvida, mais
vigoroso na plenitude da vida que em sua etapa ascensional. Por seu
turno, o corpo tem sua flor - seu akmé, diziam os gregos - na
estrita juventude, e, vice-versa, decai infalivelmente quando esta
se transpõe. Por isso, desde um ponto de vista superior às
oscilações históricas, por assim dizer, sub specie aeternitatis, é
indiscutível que a juventude rende a maior delícia ao ser olhada, a
madureza, ao ser ouvida. O admirável do moço é o seu exterior; o
admirável do homem feito é sua intimidade.
Pois bem: hoje prefere-se o corpo ao espírito. Não creio que
haja sintoma mais importante na existência européia atual. Talvez as
gerações anteriores rendessem demasiado culto ao espírito e - salvo
a Inglaterra - desdenharam excessivamente a carne. Era conveniente
que o ser humano fosse admoestado e se lhe recordasse que não é só
alma, mas união mágica de espírito e corpo.
O corpo é por si puerilidade. O entusiasmo que hoje desperta
inundou de infantilismo a vida continental, afrouxou a tensão do
intelecto e vontade em que se retorceu o século XIX, arco demasiado
retesado para metas demasiado problemáticas. Vamos dar um descanso
ao corpo. A Europa - quando tem diante de si os problemas mais
pavorosos - entrega-se a umas férias. Brinda elástico o músculo do
corpo desnudo atrás de uma bola de futebol que declara francamente
seu desdém a toda transcendência voando pelo ar com ar em seu
interior.
As associações de estudantes alemães solicitaram energicamente
que se reduza o plano de estudos universitários. A razão que davam
não era hipócrita: urgia diminuir as horas de estudo porque eles
precisavam do tempo para seus jogos e diversões, para "viver a
vida".
Esta atitude dominante que hoje tem a juventude parece-me
significativo. Só me ocorre uma reserva mental. Entrega tão completa
a seu próprio momento é justa enquanto afirma o direito da mocidade
como tal, ante a sua antiga servidão. Mas, não é exorbitante? A
juventude, estádio da vida, tem direito a si mesma; mas por ser um
estádio vai afetada inexoravelmente de um caráter transitório.
Fechando-se em si mesma, cortando as pontes e queimando as naves que
conduzem aos estádios subseqüentes, parece declarar-se em rebeldia e
separatismo do resto da vida. Se é falso que o jovem não deve fazer
outra coisa senão preparar-se para ser velho, também é erro parvo
iludir por completo esta cautela. Pois é o caso que a vida,
objetivamente, necessita da madureza; portanto, que a juventude
também a necessita. É preciso organizar a existência: ciência,
técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem, são
requeridas para que a juventude possa alojar-se e divertir-se. A
juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma
madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram
gerações sem juventude (106).
Meu entusiasmo pelo aspecto juvenil que a vida adotou não se
detém senão ante esse temor. Que vão fazer aos quarenta os europeus
futebolistas? Porque o mundo é certamente uma bola, mas tendo dentro
de si mais do que simples ar.
El Sol, 19 de junho de 1927.
MASCULINO OU FEMININO?
Não há dúvida que nosso tempo é tempo de jovens. O pêndulo da
história, sempre inquieto, ascende agora pelo quadrante "mocidade".
O novo estilo de vida começou não há muito, e ocorre que a geração
próxima já aos quarenta anos tem sido uma das mais infortunadas que
existiram. Porque quando era jovem reinavam ainda na Europa os
velhos, e agora que entrou na madureza depara que o império se
transferiu para a mocidade. Faltou-lhe, pois, a hora de triunfo e de
domínio, a oportunidade de grata coincidência com a ordem reinante
na vida. Em suma: que viveu sempre ao revés com o mundo, e, como o
esturjão, teve de nadar sem descanso contra a correnteza do tempo.
Os mais velhos e os mais jovens desconhecem este duro destino de não
haver flutuado nunca; quero dizer, de nunca haver sentido a pessoa
como levada por um elemento favorável, e que pelo contrário dia após
dia e lustro após lustro teve de viver em suspenso, sustentando-se a
pulso sobre o nível da existência. Mas talvez esta mesma
impossibilidade de se abandonar um só instante a disciplinou e
purificou sobremaneira. É a geração que mais combateu, que ganhou a
rigor mais batalhas e menos triunfos tem gozado
(107).
Mas deixemos por enquanto intacto o tema dessa geração
intermediária e retenhamos a atenção sobre o momento atual. Não
basta dizer que vivemos em tempo de juventude. Com isso não fizemos
mais do que defini-lo dentro do ritmo das idades. Mas ao lado deste
atua sobre a substância histórica o ritmo dos sexos. Tempo de
juventude! Perfeitamente. Mas, masculino ou feminino? O problema é
mais sutil, mais delicado - quase indiscreto. Trata-se de filiar o
sexo de uma época.
Para acertar nesta, como em todas as empresas da psicologia
histórica, é preciso tomar um ponto de vista elevado e libertar-se
de idéias estreitas sobre o que é masculino e o que é feminino.
Antes de tudo é urgente desasir do trivial erro que entende a
masculinidade principalmente em sua relação com a mulher. Para quem
pensa assim, é muito masculino o fanfarrão que se ocupa acima de
tudo de cortejar as damas e falar das boas fêmeas. Este era o tipo
de varão dominante em 1890: traje barroco, sobrecasaca cujas abas
capeavam o vento, plastrão, barba de mosqueteiro, cabelo em volutas,
um duelo por mês. (O bom fisionomista das modas descobre logo a
idéia que inspirava esta: a ocultação do corpo viril sob uma profusa
vegetação de tela e pelame. Ficavam só à vista mãos, nariz e olhos.
O resto era falsificação, literatura textil, barbearia. É uma época
de profunda insinceridade: discursos parlamentários e prosa de
"artigo de fundo") (108).
O fato de que ao pensar no homem se destaque primeiramente seu
afã pela mulher revela, por si só, que nessa época predominavam os
valores de feminilidade. Só quando a mulher é o que mais se estima e
encanta tem sentido apreciar o varão pelo serviço e culto que a esta
renda. Não há sintoma mais evidente de que o masculino, como tal, é
preterido e desestimado. Porque assim como a mulher não pode em
nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão, tem este o
privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é
independente por completo de que a mulher exista ou não. Ciência,
técnica, guerra, política, esporte, etc., são coisas em que o homem
se ocupa com o centro vital de sua pessoa, sem que a mulher tenha
intervenção substantiva. Este privilégio do masculino, que lhe
permite em ampla medida bastar-se a si mesmo, talvez pareça
irritante. É possível que o seja. Eu não o aplaudo nem o vitupero,
mas tampouco o invento. É uma realidade de primeira grandeza com que
a Natureza, inexorável em suas vontades, nos obriga a contar.
A veracidade, pois, me força a dizer que todas as épocas
masculinas da história se caracterizam pela falta de interesse pela
mulher. Esta fica relegada ao fundo da vida, até o ponto de que o
historiador, forçado a uma ótica de lonjura, apenas a vê. No
frontispício histórico aparecem só homens, e, com efeito, os homens
vivem na época só com homens. Seu trato normal com a mulher fica
excluído na zona diurna e luminosa em que acontece o mais valioso da
vida, e se recolhe na treva, no subterrâneo das horas inferiores,
entregues aos puros instintos - sensualidade, paternidade,
familiaridade -. Egrégia ocasião de masculinidade foi o século de
Péricles, Século só para homens. Vive-se em público: ágora, ginásio,
acampamento, trirreme. O homem maduro assiste aos jogos dos efebos
nus e habitua-se a discernir as mais finas qualidades da beleza
varonil, que o escultor vai comentar no mármore. Por sua parte, o
adolescente bebe no ar ático a fluência de palavras agudas que brota
dos velhos dialéticos, sentados nos pórticos com o cajado na axila.
A mulher?... Sim, à última hora, no banquete varonil, aparece sob a
espécie de flautistas e dançarinas que executam suas humildes
destrezas ao fundo, muito ao fundo da cena, como apoio e pausa à
conversação que languidece. Alguma vez, a mulher se adianta um
pouco: Aspásia. Por que? Porque aprendeu o saber dos homens, porque
se masculinizou.
Embora o grego tenha sabido esculpir famosos corpos de mulher,
sua interpretação da beleza feminina não conseguiu desprender-se da
preferência que sentia pela beleza do varão. A Vênus de Milo é uma
figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um
exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem
ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios
viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade.
O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço
desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o
hermafrodita. (É curioso advertir que a sensualidade noviça da
criança a faz normalmente sonhar com o hermafrodita; quando mais
tarde separa a forma masculina sofre - por um instante - amarga
desilusão. A forma feminina lhe parece como uma mutilação da
masculina; portanto, como algo incompleto e vulnerado)
(109).
Seria um erro atribuir este masculinismo, que culmina no século
de Péricles, a uma nativa cegueira do homem grego para os valores da
feminilidade, e opor-lhe o suposto rendimento do germano ante a
mulher. A verdade é que em outras épocas da Grécia anteriores à
clássica triunfou o feminino, como em certas etapas do germanismo
domina o varonil. Precisamente esclarece melhor que outro exemplo a
diferença entre épocas de um e outro sexo o acontecido na Idade
Média, que por si mesma se divide em duas porções: a primeira,
masculina; a segunda, desde o século XII, feminina.
Na primeira Idade Média a vida tem o mais rude aspecto. E
preciso guerrear cotidianamente e à noite compensar o esforço com o
abandono e o frenesi da orgia. O homem vive quase sempre em
acampamentos, só com outros homens, em perpétua emulação com eles
sobre temas viris: esgrima, cavalaria, caça, bebida. O homem, como
diz um texto da época, não "deve separar-se, até a morte, da crina
de seu cavalo e passará sua vida à sombra da lança". Todavia em
tempos de Dante alguns nobres - os Lamberti, os Soldanieri -
conservavam, com efeito, o privilégio de ser enterrados a cavalo
(110).
Em tal paisagem moral, a mulher carece de papel e não intervém
no que podemos chamar vida de primeira classe. Entendamo-nos: em
todas as épocas desejou-se a mulher, mas não em todas foi estimada.
Assim nesta bronca idade. A mulher é presa de guerra. Quando o
germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher, imagina a
valquíria, a fêmea beligerante, virago musculosa que possui atitudes
e destrezas de varão.
Esta existência de áspero regime cria as bases primeiras, o
subsolo do porvir europeu. Mercê a ela conseguiu-se já no século XII
acumular alguma riqueza, contar com um pouco de ordem, de paz, de
bem-estar. E eis aqui que rapidamente, como em certas jornadas de
primavera, muda a face da história. Os homens começam a polir-se na
palavra e nos modos. Já não se aprecia o gesto bronco, mas o gesto
mesurado, grácil. À contínua pendência substitui o solatz e deport
que quer dizer conversação e jogo. A mutação se deve ao ingresso da
mulher no cenário da vida pública. A Corte dos Carolíngios era
exclusivamente feminina. Mas no século XII as altas damas de
Provença e Borgonha têm a audácia surpreendente de afirmar, ante o
Estado dos guerreiros e ante a Igreja dos clérigos, o valor
específico da pura feminilidade. Esta nova forma de vida
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