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Caminhos da Redenção

 

Lázaro Curvêlo Chaves

 

 

Introdução

 

            Há discussões bastante sérias nos meios acadêmicos e mesmo religiosos sobre se os homens fazemos a nossa própria história ou se somos meros atores (como marionetes) de uma peça cujo enredo desconhecemos. Há consenso num ponto pelo menos: Cada indivíduo sozinho é responsável pela sua própria história.  Raramente a escreve. Aqui está uma tentativa de escrever em modulações variadas a história de que tenho sido protagonista até os dias de hoje.

            Apresento ao leitor uma miscelânea de contos, crônicas, poesias e ensaios breves, seguindo um ordenamento que julguei o mais adequado para tanto.

            Ocorreu-me de trabalhar com certa temática mais séria a que dei prosseguimento ou ilustração através de um conto ou poema num determinado momento, ocorrendo o oposto em outro, poesia ou conto ilustrado por tema consideravelmente sério. Encontrará aqui também contos dentro de contos, além de redundâncias as mais diversas que se explicam pela dificuldade de comunicação usualmente encontrada. Algo que almejava ver bem compreendido é apresentado de diversas maneiras e reiteradamente.

            Normas de etiqueta erudita sugeririam informar onde está o ficcional e onde começam os relatos verídicos. Na prática, uma dificuldade, algumas passagens de minha própria experiência existencial são melhor compreendidas quando em formato de conto ou crônica, o real, por outro lado, por vezes supera em muito as imaginações mais delirantes, o que faz os relatos mais objetivos parecerem coisa mesmo da esfera do ficcional.

            Dizem que aquele que transmite uma mensagem deixa de ser dono dela, cabendo aos interpretadores ultrapassar os limites de consciência possível do autor. Que assim seja, então.

            Ao final da coletânea - ou deveria enfatizar, miscelânea - arrolo a bibliografia que consultei tanto para elaborá-la quanto para inspirar-me. Possivelmente haja cometido alguma omissão, embora tivesse me esmerado muito no cuidado com relação a este ponto. Rogo, portanto, àquele que acompanhar a leitura, que seja compreensivo e mesmo compassivo para com eventuais omissões se, apesar de todo o cuidado, não pude localizar a fonte de onde extraí alguns dados ou expressões peculiares.

 

 

 

Aforismos da modernidade

 

Nem tudo o que causa escândalo é verdade, radical, mas o que não causa escândalo algum neste mundo de falsidades e hipocrisias é, obrigatoriamente, mentira!

 

Deixa tua LUZ brilhar mais que as trevas que te cercam!

 

Se tens traçada uma meta, um ideal, se sabes, enfim para onde vais, ainda que seja difícil, hás de conseguí-lo. Se não sabes sequer para onde, como hás de chegar a qualquer ponto?

 

Ó povo estúpido que conservas o que precisa ser renovado e vives a renovar o que se deveria conservar, quando tereis juízo?

 

O capital se alimenta de mediocridade. Os que não blefam, os que não se curvam ao bezerro de ouro chamado Mammon, os crítico-libertários, enfim, são considerados, via de regra, bestas obscuras, quando não mentalmente nefandos.

 

A maioria pediu que soltasse Barrabás, a maioria apoiou a ditadura hitlerista na Alemanha, a maioria delirou com Stálin na então União Soviética, a maioria acredita em seus governantes. A maioria, em síntese, nunca tem razão!

 

Há muito de suspeito naquilo que todos dizem. Em geral, onde está o excesso de concordância acrítica, está também a falta de inteligência, o comportamento bovino ou como dizia o grande tricolor Nelson Rodrigues, “toda a unanimidade é burra!”

 

Quando os pequenos se unem no ideal de uma vida mais cômoda - e são maioria - fica muito difícil trabalhar em prol da grandeza e dos grandes ideais, pois os mesquinhos tudo farão para não deixar seu pequeno mundo. Pequeno, mas confortável.

 

“Cambalache”, esta gíria portenha dá bem idéia de como estão as coisas hoje em dia. Tudo fora do lugar, tudo de cabeça para baixo. Os loucos acusando os humanistas de “loucura”, isso quando ocorre de não tomarem a direção do hospício.

 

Toda e qualquer pessoa ou instituição que prospere (“enriqueça” ou coisa que o valha) dentro dos marcos do atual modelo econômico e social vigente, faz mais que reificá-lo: insere-se decidida e resolutamente em sua defesa na prática, mesmo que o critique na teoria.

 

Entre a mão tácita do amor jovem e a mão jovem do amor tácito.

 

Reforma agrária: Dai-me terras, sementes, uma enxada, uma foice e um martelo: construirei assim a mais linda das florestas de pão. E nela a minha casa, a minha felicidade, o meu amor...

 

As pessoas precisam, até para que possam estruturar-se “bem” psiquicamente, estraçalhar com a reputação de quem querem despedir-se. Não basta dizer “obrigado, adeus”. É preciso que acreditem, com todas as fímbrias de seus seres que ‘tratava-se de um(a) calhorda, já o sabia...’”

 

Objeções à ortodoxia freudiana:

1 - A “ajuda” psicanalítica visa, em última instância, permitir ao “paciente” gozar do convívio social, por mais que a organização social esteja insatisfatória.  Mas se foi justamente a (des)organização social vigente que o levou a precisar daquela “ajuda”... Qualquer reformador social, poeta, profeta ou artista que se submeta a qualquer forma de psicanálise estará “matando” justamente a sua fonte de sabedoria, de inspiração, de... loucura mesmo!

2 - O psicanalista, através de um sofisticadíssimo jogo de poder, trata-se a si mesmo, sentindo-se incrivelmente bem se comparado ao lamuriento farrapo humano que se desmancha sob o seu olhar de esfinge...

 

Bilhete aos stalinistas: acho que já deu para perceber que não é expurgando, calando, coagindo ou assassinando pessoas que se prova a veridicidade de um certo ponto de vista, ao contrário! O caminho da verdade está em outra direção...

 

Morra o inferno. Faça-se o sonho!

 

Não mais fugas ou adiamentos! Se não eu, quem? Se não agora, quando?

 

Caminhos da Redenção

 

 

Um breve diálogo

 

“Eis aí o triunfo da publicidade na indústria cultural, a mimese compulsiva dos consumidores, pela qual se identificam às mercadorias culturais que eles, ao mesmo tempo, decifram muito bem.”

Adorno/Horkheimer

 

 

Tricotando em frente à TV, Cláudia concentra-se em pelo menos três coisas ao mesmo tempo: como a mocinha deve agir para, maquiavelicamente, capturar o arredio galã na novela, quantos novelos de lã serão ainda gastos na elaboração do casaco que lhe encomendou Ivã, um ex-namorado daqueles que não largam do pé e, fazendo um paralelo com a novela, planeja a confecção de um pulôver para Francisco, gesto tático que considera fundamental para conquistá-lo.

Neste momento chega à sua casa Ivã, que se aboletara do Rio de Janeiro até lá somente «para ver como estava andando o serviço de seu casaco». Não se vai do Rio a São João de Meriti corriqueiramente  por motivo tão banal, claro está. Cláudia sabe que ele ainda nutre por ela algum sentimento mas, de sua parte, já nada mais existe, afinal, em suas duras palavras ao término do namoro, «Ivã não passa  de um fracassado, que nem mesmo carro tem». De toda forma atende-o com cortesia, como sempre faz; após três anos, briguinhas à parte, alguma amizade remanesce...

Já chega sentenciando: _ Você está destruindo a mente com essa porcaria! Bota aí um bom filme do Costa Gavras no videocassete ou ouça um CD do Pablo Milanés e manda o Sílvio Santos catar coquinho!

Não dá, querido - ela sempre utiliza esta expressão quando deseja alfinetá-lo - preciso terminar o seu casaco e se puser um filme no vídeo, terei de ficar lendo legendas e aí é que o serviço não anda mesmo; aliás, quem é Pablo Milanés? Aquele chato que só sabe falar de revolução? Como foi um presente de despedida, até tentei ouvir, mas concluí que só me deu para chatear, tenho outras preocupações em mente para ficar pensando, como você, em salvar a humanidade... Mas não se preocupe, não me deixo influenciar por estas bobagens de televisão, não, é só um passatempo...

 _ Passatempo perigoso - torpedeou! - essa gente procura ensinar como é que se deve pensar, agir e até sentir! Depois você internaliza todas estas bobagens e as põe em prática como se suas fossem, só ajudando com isso a manter as coisas como são. Reificar esse mundo fantasioso de novelas só serve aos interesses dos poderosos. Além disso, eles embalam o espectador num sentimentalismo piegas para deixá-los mais receptivos à porcariada que vendem nos intervalos, mesmo que você não o perceba.

Não seja tão rabugento, Ivã! Um dos motivos de vocês, que se dizem de esquerda, se darem tão mal em política no Brasil é que só sabem criticar e reclamar de tudo, enquanto estes, que você chama de poderosos - com nítida inveja, isso sim - se apresentam lindos e maravilhosos, falando de sonhos, esperança, harmonia, beleza, paz... E depois, por que não manter as coisas como estão? As chances são iguais para todos e esse papo de revolução ou transformação é conversa  de perdedor. Se você não consegue ter aquilo de que precisa, busque os motivos dentro de você mesmo e pare de, por pura inveja ou incapacidade, viver querendo quebrar ou subverter tudo!  _ Mãe! - dirige-se à pessoa no cômodo contíguo - olha só o modelito da Thalia, que gracinha! Você conhece aquele ponto?

“É mesmo difícil”, fecha-se sorumbático Ivã, “ela não consegue enxergar a injustiça social a que estamos todos submetidos e que impede terminantemente a prosperidade econômica não a alguns, mas à maioria! Mas tem alguma razão quando critica nossa rabugice; de fato temos sido incapazes de demonstrar o quanto agimos e pensamos pelo bem da maioria, da verdadeira fraternidade entre todos quando lutamos por abolir privilégios classistas, quando lutamos por justiça social. Programas de televisão são, em geral, situados em shopping centers, mansões, praias maravilhosas e o trabalhador médio só consegue compreender disso tudo que, somente com o fruto de seu esforço laborativo nada conquistará para si ou os seus, que jamais obterá um mínimo conforto material (salvo raríssimas exceções que confirmam a regra geral) unicamente trabalhando honestamente. Daí tantos jogos, tanta desumanidade. Se os “de cima” agem de maneira desumana, aqueles que não conseguem altos lucros com “maracutaias” passam a apelar para a ignorância, a ignorância a que foram submetidos desde a infância... O sujeito vai aprendendo que precisa “ser esperto”, “levar vantagem em tudo, certo?”, dar golpes, enfim, como ensinam ad nauseam as novelas ou mesmo a atitude complacente com que os sucessivos desgovernos deste país tem tratado alguns canalhantropos verocidas. Só assim, convence-se o trabalhador ou desempregado, só mesmo através de meios eticamente condenáveis, poderá ele fugir do mundo falso da favela em que mora ou dos camelôs por que passa todos os dias e conquistar o mundo real das mansões, carrões e praias maravilhosas. Que devastação! Quantos cérebros mais não estão sendo deseducados neste mesmo momento...”

Dona Maria serve um autêntico cafezinho brasileiro que, embora de qualidade inferior àquele que é exportado, dado seu esmero, fica saboroso. Todos trocam mais algumas palavras e alfinetadas e Ivã se vai, meditando em seus temas prediletos: “A Vida, o Amor e a Morte”. Na verdade, no ponto em que hoje se encontra, Cláudia não é mais para ele que uma frágil ponte, através da qual ainda mantém algum contato com o pensamento geral da gente comum do povo brasileiro.

 

Uma Pequena Cidade

 

 

“Que saudades do meu escritório de folhas de zinco e sarrafos às margens do rio Pardo...” Euclides da Cunha

 

    

            O pai de Ivã, um obstinado Engenheiro Eletrônico que, à época do “milagre econômico brasileiro” conseguira prosperar incrivelmente, chegando a ser, ali por volta de 1971, um dos mais importantes empresários cariocas, foi atingido simultaneamente pela glória e pelo câncer - a mais temível das doenças da época - que, em dois anos, corroeu seu corpo, sua pequena fortuna e arremessou sua família à órbita econômica do filho mais próspero, Malcon, funcionário de um Banco em São José do Rio Pardo. Ivã, o mais velho dos filhos, então com 15 anos, muito apegado ao pai, caiu financeiramente com ele sendo arremessado no mercado informal de trabalho, passando a trabalhar numa pequena gráfica clandestina, afeito que era às letras. Quantas e quantas famílias por este Brasil afora sofreram e ainda sofrem até hoje as causas da crise do tal “milagre”... Aquela família foi submetida à dor suplementar da perda do seu chefe justamente no momento em que a inflação retomava sua escalada temível.

São José do Rio Pardo é uma beleza de cidade, com um povo simpático e amigo, 48 mil habitantes, orgulhosa por ser ponto fulcral da gesta de uma das mais importantes Obras da literatura científica mundial; chamam-na, em seu hino, com justeza “o berço de Os Sertões”,  pois foi às margens do rio Pardo entre 1898 e 1901 que o Imortal Euclides da Cunha deu forma final à sua Obra máxima. Camponeses, com seu empenho e dedicação obstinada, são o principal esteio de sustentação da enorme riqueza que circula na Região e faz dali um local atípico em termos de Brasil. Tem como carros-fortes de sua economia a cebola, uma das maiores unidades fabris da Nestlé do mundo e um sistema elétrico privado há mais de um século funcionando excepcionalmente bem.

Cidade situada numa das regiões mais férteis do globo terrestre, consta que seja uma das primeiras do Brasil em número de automóveis por habitante e os rio-pardenses têm o orgulho suplementar de serem pioneiros republicanos. Ananias Barbosa, Francisco Glicério e um grupo de entusiastas da república anteciparam-se em três meses ao Brasil, criando a “Cidade Livre do Rio Pardo” a 11 de agosto de 1889. As forças monarquistas reprimiram brutalmente os republicanos mas, quando a república se consolidou em novembro do mesmo ano, aquelas tiveram de submeter-se aos revoltosos.

Ivã morou em São  José por seis meses contados. Após a morte do pai, tornou-se taciturno, amedrontado, um tanto tímido, recluso aos livros mas transformava-se numa verdadeira “fera ferida” quando agredido por alguma brincadeira de mal-gosto.

Durante o dia, numa gráfica clandestina próxima à Igreja Matriz, elaborava material de propaganda de lojas, panfletos apócrifos, coisas assim. Foi ali que começou sua paixão pelo jornalismo, chegando até, mais tarde, a aproximar-se do tradicional jornal “Cidade Livre”. Passou a nutrir amor cada vez maior pela palavra escrita; lia muito. Os mais velhos, com quem tinha de disputar por vezes posição no serviço, sempre o intimidavam mas, aprendendo a utilizar cada vez melhor as técnicas e procedimentos práticos para a elaboração de textos, cartões de visita, calendários, convites, anúncios, panfletos e até cartas de amor conquistou o respeito de seus competidores e considerável reconhecimento profissional; na mente de Ivã as alternativas eram: tornar-se cada vez melhor ou sucumbir. Gostava de parafrasear Euclides neste ponto - coisa muito comum em São José, aliás - que certa vez, em sério pronunciamento na Academia Brasileira de Letras disse: “Ou progredimos ou desaparecemos!”

À noite, estudava. Obcecado pelo mesmo tipo de intimidação que sofria no trabalho, entre colegas e professores percebia que a “regra” era a mesma e somente encontrou refúgio e segurança nos livros. Sua capacidade intelectual, a partir daí, começou a ser um tanto mais respeitada. Também naquela pequena escola, cujos professores eram, em sua maioria, cristãos, Ivã era compelido irresistivelmente a “ser o melhor”; só assim lograva conseguir respeito frente a seus pares e superiores.

Nos fins-de-semana, as missas na Matriz eram as principais atividades sociais da  pauperizada família de Ivã. Era daquele meio que teria de sair sua esposa, “uma jovem cristã fervorosa, boa e honesta”, assim ensinavam os padres. E a Bíblia, a “palavra de Deus”, “a verdade absoluta e incontestável”, tinha de ser memorizada, pelo menos em alguns de seus trechos, considerados mais relevantes.

Logo surgiu sua primeira crise: o comportamento rapinante necessário no serviço, onde freqüentemente é preciso mentir, passar a perna nos outros, e ser mau para sobreviver, algo absolutamente incompatível com as propostas do humanismo cristão que, por sua vez, era inaplicável na prática diária de relações com pessoas “intimidantes”. Por outro lado, a aproximação mais estreita - porque estudada com mais afinco - com as ciências, trazia uma série de dúvidas quanto à existência de uma “verdade absoluta” e até mesmo a existência de um Deus.

Uma crise com pelo menos três orientações conflitantes uma prático-pragmática, uma cristã e uma científica - conduziu Ivã a seu primeiro impasse na vida.

Após muito meditar, optou pela ciência, passando a desprezar significativamente as considerações teológicas mais afastadas da vida prática. Só muito tempo depois encontrou as “pontes” que possibilitam a reconciliação entre a ciência social e a fé, a partir de estudos propostos pela Teologia da Libertação. 

Regresso

 

 

“Thalassa! Thalassa!” Xenofonte

 

 

Concluído o segundo grau com especialização em eletrônica em Mococa, cidade vizinha a São José do Rio Pardo, retorna Ivã a beira-mar, Rio de Janeiro, sua terra natal. Foi contratado como técnico para a manutenção dos telefones internos do maior hospital carioca. Ali trabalhava de dia, continuando seus estudos à noite, agora aproximando-se da filosofia visitando, sempre que podia, a família e seus muitos amigos rio-pardenses com quem conversava, em geral,  chamando sua atenção para a nova tendência humanista radical, cobrando dos republicanos de agosto de 1889 o mesmo pioneirismo, só que agora na direção do humanismo.

Apesar dos esforços dos brasileiros mais patrióticos, abnegados, dedicados e éticos, em 1989 o povo brasileiro elegeu um canalhantropo verocidate, via o verdadeiro humanismo na proposta de seu opositor que chegou apenas perto do sucesso...

As propostas por melhoras sociais no Brasil e no mundo devem ser aquelas oriundas da sensibilidade. Ernesto Che Guevara dizia ser a sensibilidade o principal traço caracterológico a ser buscado num governante. Textualmente: “Deixe-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade...” Nossa proposta, hoje, deve ser a de fazer ver à população,  a despeito do poder da mídia eletrônica no Brasil, que só está capacitado para representar o povo (enquanto este não estiver dotado de condições objetivas e subjetivas de gerir a si mesmo) aqueles que são verdadeiramente sensíveis à dor humana de um país como o nosso, tão prenhe de  disparidades sócio-econômicas, de desigualdades e injustiças.

Em meio a tais propostas, particularmente voltadas a reacender a chama da sensibilidade nos corações endurecidos das pessoas e, “de lambuja”, fazendo uma homenagem à sua amada, escreveu Ivã um breve libelo pacifista em forma de conto, intitulado “Anjos da Paz”;

 

Anjos da paz

 

 

“A grande maldição foi afastada. É no amor humano reside a toda a força de regeneração do mundo!” André Breton

 

 

A idéia partiu de Cláudia, uma jovem muito linda, com olhos de paraíso, cabelos de ouro e trigo, transparente e inocente como um sonho. Perfeita “mulher-criança” na mais elevada acepção bretoniana da expressão, forte em sua ternura, nobre em seu amor, incapaz de compreender o ódio entre as pessoas, as discriminações, as guerras... Lançou um “Manifesto às Mulheres do Mundo”, conclamando-as todas a um movimento internacional pela paz  no mundo, baseado no Amor à Vida.

Assinado com anagramático pseudônimo, dizia mais ou menos o seguinte:

 

“Minha irmã,

Nós, mulheres, somos fonte de Vida. Em algum momento de nossa existência nosso corpo traz à luz um novo ser humano que amamentamos e de que cuidamos até que possa viver por seus próprios meios. Biologicamente dedicadas à geração e aos cuidados com a Vida, temos o dever de fazer o que possível nos for para deter este massacre planetário contra o humano, onde há guerras, fome, violência, xenofobia, miséria, prostituição, toxicomania, enfim, vivemos num mundo em total desequilíbrio.

Convoco-a, minha irmã, a uma reunião na ONU o mais breve possível para discutirmos meios de interromper estas oferendas profanas aos deuses do ódio, da destruição e das guerras, levando-as ao Deus de Amor à Vida.

Ansiosa por sua resposta com sugestões e propostas sou,

                                                                                                            TRILIASTAS”

 

 

O curioso manifesto, enviado a todos os meios de comunicação oficiais e oficiosos do planeta, via Internet em todos os idiomas, encontrou extraordinária repercussão. Assim nasceu o contingente que mais tarde ficou conhecido como “Anjos da Paz”. Após um trabalho absolutamente louco (se a “razão” conduzia os povos à guerra, só mesmo através da “loucura” se poderiam encontrar formas de libertação).

De todas as partes do mundo chegavam voluntárias ao movimento erótico-lúdico-onírico-libertário conclamado - e isto é o mais sublime - precisamente por uma jovem de coração puro!

Inicialmente eram cerca de 1.500 os “Anjos da Paz”, as jovens dispostas a, pelo Amor,  anular os poderes das nefandas divindades da guerra. A elas uniam-se contingentes cada vez maiores e mais entusiásticos, corajosamente interpondo-se entre os litigiosos, onde quer que houvesse ódio e destruição. Jovens norte-americanas  encontravam o amor de suas vidas entre bravos iraquianos; belíssimas odaliscas mouriscas despiam seus véus e antecipavam aos ocidentais a visão do paraíso, brancas beldades nórdicas uniam-se em amor aos turcos outrora segregados em plena Alemanha, sensuais ashantis africanas dissolviam o ódio dos corações neonazistas com o poderoso arsenal de sua ternura, meigas e sorridentes gueixas orientais uniam-se em amor aos chineses, bósnios e croatas, judias americanas desafiavam as leis de sua fé e se uniam em amor aos palestinos, o mesmo acontecendo entre palestinas e judeus. Pelo mundo todo, a festa do Amor pleno se realizava, sonho de milênios. Franceses e alemãs, judias e jordanianos, líbias e italianos, cubanos e norte-americanas, quantos casais felizes, quanto amor verdadeiro compartilhado, quanta festa!

Em meio a tanto amor, a tanta festa compartilhada, a horrenda divindade da guerra e suas correlatas foram literalmente aniquiladas! Nesse instante as autoridades convocam uma reunião internacional para discutir os termos da paz, dos novos rumos da civilização mas.... que surpresa! Ninguém tem tempo ou disposição a prestar atenção às autoridades... O Amor vence a guerra, o ódio, a intolerância, o autoritarismo e tudo o que os gera. Nada mais natural, portanto, que felizes casais apaixonados, deixem de prestar atenção às tais autoridades...

Espontaneamente, muito mais eficazmente que se fosse combinado, muito mais eficazmente que se fosse coisa decidida em “reuniões de gabinete”, todos passam a  dedicar-se à reconstrução da harmonia perdida.

Envergonhados do passado, como crianças peraltas arrependidas de uma tola infantilidade, todos os casais do mundo dedicam-se, com suas proles, a “derreter suas armas e delas forjar arados”, como Isaías havia previsto; tanques de guerra  são convertidos em tratores para arar a terra - que passa a ser de todos, porque é de Deus e Deus habita o coração de cada humano... - fábricas de armas químicas são convertidas em fábricas de medicamentos, de implementos agrícolas e alimentos; bombas, fuzis, metralhadoras, balas, minas, estátuas de homens raivosos portando armamentos são fundidos e refundidos em símbolos de Amor e Paz como cupidos, pombas... Na ONU uma das mais belas peças de Rodin é reproduzida com material oriundo dos armamentos usados nas últimas guerras e, numa placa de bronze sob a estátua de Rodin, O Beijo, fica a inscrição: “Tributo aos ANJOS DA PAZ e sua iniciadora. Somente uma mulher-criança, pura, sensível e inocente poderia liderar o processo de redenção daquela época selvagem!”

Dos céus um coral de anjos envia sua luz a todos os homens de boa vontade no mundo, muitos deles já  atuando em nosso meio há muito para auxiliar no restabelecimento da Harmonia, da Fé, da Paz... Seria Claudinha um destes anjos?

 

 

Obstinação

 

“Não conto gozar a minha vida,

                                   nem em gozá-la penso.

                                   Só quero torná-la grande!

                                   Inda que para isso

                                   Sejam meu corpo e minha alma

                                   A lenha deste fogo

                                   Só quero torná-la de toda a humanidade!

                                   Inda que para isso tenha de a perder

                                   como minha.”

                                   Fernando Pessoa

 

 

Na tênue linha entre a busca de uma Companheira que o plenifique, o complete - que o ser humano nasce radicalmente incompleto, “pela metade” nesta dimensão - e a luta pelo aperfeiçoamento das Instituições Políticas Brasileiras, segue Ivã batalhando.

Conversando com Cláudia, ficou indignado com seu  declarado “maquiavelismo”, voltado à conquista de um ser humano rico, sem qualquer consideração de cunho ético, sequer com relação ao Amor correspondido.

Imagina que o ser humano recém nascido é como uma bolota frágil, constituída como que por um floco de algodão (algo bom, cálido, macio). Logo ao nascer o bebê é submetido a um tratamento particularmente cruel, para quem acaba de sair do universo amniótico, começa a chorar vigorosamente em protesto e já inicia o processo de construção de defesas contra as inevitáveis agressões do meio humano hostil em que penetra, começa a construir suas couraças caracterológicas. Com o correr dos anos, aquele pequeno floco de algodão se recobre de arame farpado e vai se protegendo como pode. Em graus variados de sofisticação, encontram-se aqueles que conseguem recobrir ainda suas proteções farpadas com uma fina camada de espuma artificial (o chamado verniz social). Quem se lhes aproxime, percebe a maciez da superfície. Se procuram penetrar um pouco mais fundo em suas personalidades, encontram as pontas do arame farpado e só muito amor humano pode fazer com que se suporte a dor da travessia das farpas protetoras e se alcance o calor, a bondade e a maciez existente no núcleo de todo o ser humano.

Esta visão, exageradamente otimista do que se poderia chamar de “natureza humana”, torna incompreensível a enorme satisfação que a maioria das pessoas encontra em “jogar” umas com as outras, em provar que são mais espertas e capazes de espetar mais fundo e melhor que alguns raros tolos incautos...

Mas será mesmo tão absurdo assim imaginar um mundo em que as pessoas se pautem mais pela busca do que de bom possa haver no homem do que na busca do mal? Haverá no mundo um meio de superar esta ambigüidade, estas manobras e mesmo “táticas de guerra” para conquistar seres humanos a fazer seja o que for por um preço? Será que as pessoas estão todas à venda?

Em certa ocasião, Ivã quase foi agredido fisicamente por chamar a todos os colegas que com ele tomavam um chopinho a beira-mar de “prostitutos high-tech”; disse-lhes Ivã: “_ O que nos diferencia no Modo de Produção Capitalista é que parte do corpo vendemos a quem, por quanto tempo, que preço e para qual finalidade...” A radical e profunda união com outrem, algo tão sublime, reconciliação absoluta do ser humano com a Natureza, perda momentânea dos sentidos onde não mais existe um «eu» ou um “tu”, mas um afirmativo e feliz “nós”, numa concha protetora de inigualável felicidade e prazer, isto que a cultura permite que prolonguemos nesta coisa maravilhosa a que damos o nome de Amor, isto ser tratado como assunto comercial onde táticas de guerrilha são freqüentemente usadas? Mas é mesmo irracional!

Com esta mentalidade, desarranja-se mesmo, não apenas vidas de particulares, como a de toda a Nação e até mesmo o equilíbrio do Planeta!

Em diálogos nem sempre descontraídos com amigos no Rio e em São José do Rio Pardo, todos lhe chamavam a atenção para o fato de “não prestar atenção à realidade da vida e viver num mundo de sonhos e fantasias” - lindas, sem dúvida, mas absolutamente utópicas. Eram praticamente unânimes em encurralá-lo para que, entre outras coisas, interrompesse definitivamente sua militância política, sob a alegação de que estaria, com isso, não apenas arriscando sua vida, mas também a segurança dos que lhe são próximos. “_ Ou você se ilude que a democracia brasileira já está preparada para suportar bem tais sandices?”. “_ Sandices? Sandice é o que acontece no cotidiano, basta ler os jornais diários ou dar um passeio pelo centro da cidade para que se o perceba!”

Incapazes, seus interlocutores, salvo dois que, em silêncio tímido aparentavam aprovar o que Ivã defendia, de compreender por que se obstinava ele tanto em estudar, a ponto de consumir todo o seu fabuloso (sic) salário em livros, cursos, palestras, círculos de estudos e coisas que tais, notando ainda os seus que ele sempre ficava como que deslocado e ansioso quando era obrigado a participar de alguma festinha ou recepção. Era praticamente intimado - até pela família! - a consultar-se com um especialista. Diziam : “Olha, normal, normal, você não é não!”

Tentando contra-argumentar, por partes, ao que julgava uma montoeira eclética de incompreensão e repressão, começava pela expressão realidade. A seu ver, estamos todos imersos numa situação social injusta em grau superlativo mas, criação humana que é, humanamente reversível também o é! A organização social exige que todos os esforços possíveis e imagináveis sejam envidados em prol da modificação de uma estrutura perversa, pela implantação de uma o nova ordem social , mais justa, solidária, humana.

Está convencido de que o mundo real não é este que pregam seus interlocutores (o dos shoppings, mansões e carrões, acessíveis, como diz Eduardo Galeano, "a minorias mui minoritárias"); este é apenas o mundo prático, aparente, resultante de uma estrutura maior, injusta, irracional e carente de transformação radical. Quando se mergulha intensamente apenas no mundo prático, fica-se reduzido ao culto pagão da «religião do dia útil», torna-se tributário e reificador pragmático do mundo tal qual é e consequentemente incapaz de seguir lutando por modificações. Limitações à Consciência Possível são assim estabelecidas.

_ E por que é que você tem de modificar o mundo? Quem foi que te deu procuração para isso? Não seria melhor você fazer como seus irmãos, que constituem família, ganham seu dinheirinho honestamente e chegam mesmo a proporcionar conforto aos mais chegados, particularmente suas famílias... Por que insistir com essas idéias malucas de modificar o mundo? Não vê que as pessoas não estão interessadas nesse tipo de coisa, ô «Madre Tereza»!

_ Para começo de conversa, não há quem modifique o mundo sozinho, embora haja aqueles que se sacrificam e esforçam um pouco mais, dando até, no limite, sua própria vida em prol das Causas por que lutavam. Vejamos os exemplos de Jesus Cristo, Che Guevara, Mahatma Gandhi, Tiradentes , Camilo Torres, e milhões de outros menos conhecidos mas não menos importantes. Em segundo lugar, desejo muito mesmo construir um lar feliz, desde que para isso não tenha de prostituir meus ideais mais caros! Finalmente, há mais pessoas carentes, portanto ansiosas por mudanças do que se imagina e se não perceberam isso ainda é por causa da hipnose coletiva a que a mídia os submete todos os dias - o que tem de ser desmascarado pelo bem do progresso humano.

_ Cristo, né Ivã? Será que você às vezes não se imagina também Napoleão Bonaparte? Em outros tempos via-se nos hospícios gente estranha com um chapéu ridículo na cabeça e a mão enfiada na camisa. É o que deseja para você?

“Incompreensão, incompreensão e mais incompreensão” - retira-se sorumbático Ivã a pensar – “eis o maior dos problemas com que se tem de lidar neste mundo. E no entanto amo tanto a estas pessoas!”

O pior de tudo é que estas inevitáveis discussões despertavam alguma coisa ruim dentro dele. O que tinha ele a apresentar de efetivo e visível às pessoas? Um militante como milhares de outros, tinha lá algum traquejo com a palavra escrita, mas nada digno de nota, nada que o notabilizasse. E seu irmão, agora gerente de Banco, líder de um grupo católico carismático, chefe de uma pequena família feliz, uma acusação viva á sua pretensa irresponsabilidade, à sua suposta falta de maturidade, sendo Ivã já quase um quarentão!

Teria chegado a hora de sucumbir, de buscar o enriquecimento de alguma forma (uma de suas idiossincrasias é estar persuadido de que ninguém no Brasil enriqueceu através de meios 100% lícitos, particularmente do ponto de vista ético...) e esquecer os graves problemas filosóficos, políticos, macroeconômicos e até mesmo religiosos que têm afetado tanto as pessoas? Estaria enfim provada cabal e definitivamente a incompetência catatônica de Ivã que, ao não conseguir conforto e paz sequer para si, jamais poderia arrogar-se ao direito de reivindicá-lo para toda a gente? Não... Por este critério falacioso, Jesus Cristo não teria passado de um mendigo boquirroto e Gengis Khan seria o protótiopo do sucesso!

“Não! Mil vezes não! Fico com minha utopia e lembro que utopia é lugar que não existe, AINDA, não um lugar ontologicamente inviável, desde que os seres humanos assim o desejem. E dentro da utopia concreta, possível com que muitos sonhamos, haverá finalmente Liberdade, Igualdade, Fraternidade entre os homens. Posso ver os olhos brilhantes de amor à vida das Crianças do Futuro, os sorrisos ternos e fraternos dos vizinhos que se ajudam, a expressão leve e satisfeita de sinceridade e harmonia nos rostos das pessoas. Espero viver para constatar na prática a efetivação deste quadro e é com enorme otimismo esperançoso que vejo crescer o número de pessoas que se preocupam com a preservação da Vida, com a realização final dos princípios básicos da Revolução Francesa, ainda inatingidos ao cabo de dois séculos...”

Nossa América Latina, espoliada e saqueada a quinhentos anos, ainda terá de fazer frente a muitos sofrimentos, pois aqueles que amam o Mal, o Capital, os egoístas, os individualistas e demais rapinantes ainda detêm o controle dos meios materiais e espirituais de produção. Suplantá-los será muito difícil. União é fundamental para tanto. O trabalho do humanista revolucionário é ininterrupto, a menos que se alcancem os ideais almejados - já nos dizia o Che - e deve ser praticado, acima de tudo, dia a dia, minuto a minuto, pacientemente. Educando, batalhando, aprendendo, ensinando, trabalhando com amor e dedicação, criando e, acima de tudo, amando! A enormidade da tarefa não nos deve desanimar pois que nós, gigantesco exército de trabalhadores e desempregados do mundo somos maioria. Cumpre rasgar o véu da reificação, unificar propostas e ideais, pulverizar até as fundações a perversa e pervertedora estrutura social vigente e começar a construir tudo, pedra por pedra, tijolo por tijolo, letra por letra, aproveitando dialeticamente tudo o que de bom o cérebro humano já engendrou ao longo de sua história em prol da Vida.  Conservar o que está funcionando bem - há poucas coisas nestas condições, mas cumpre preservá-las em prol do humano - e destruir até a raiz tudo o que esteja atravancando a harmonia, a paz , o bem-estar e a felicidade humanas para que possamos, limpo o terreno iniciar nossa construção humanista.

Não podemos perder, pois o que há de mais elevado, sublime e nobre em termos de propostas ético-humanistas estão do nosso lado. VENCEREMOS! 

Sonho com novas harmonias

 

 

“Unir a mais firme resistência ao mal com a maior benevolência para com o malfeitor. Não existe outro modo de purificar o mundo.” Mahatma Gandhi

 

 

Ocorre por vezes de alguns de nossos irmãos cristãos nos condenarem - por inveja, fraqueza de caráter ou alguma outra forma de prisão a aspectos tristemente baixos de nossa existência - até o fundo de nossas existências, numa ou noutra forma de prisão destas que pululam no mundo contemporâneo.

Pensando nisto e revisando um trecho da bíblia eis-me diante de uma das mais sublimes histórias das Escrituras. Razoavelmente conhecida, até, apenas raramente trabalhada em comparações profícuas com o que está ao nosso redor hoje. Esta tem lugar ali pelo 17º século Antes de Cristo, segundo está escrito em Gênesis, capítulos 29 a 32.

Jacó - que terá seu nome mudado para Israel quando da célebre luta com o Anjo - apaixona-se irremissivelmente por Raquel e só havia, à ocasião, um meio de casar-se com ela, sendo ele oriundo de família humilde: trabalhar para o pai dela, Labão. Inicialmente, o futuro sogro o engana e, ao cabo de sete anos trabalhando como pastor de ovelhas, casa Jacó com Lia, a irmã mais velha de Raquel. Mas tal era o seu amor que trabalha mais sete anos (segundo o costume) pela mão de Raquel. E a Escritura registra que aqueles anos todos “foram aos seus olhos como poucos dias, pelo muito que a amava”. Lia concebe e dá vários filhos ao patriarca. Raquel, inicialmente estéril, é veículo do milagre da concepção de José que se torna - ça va sans dire - o filho predileto de Jacó.

José, além de intensamente amado por seu pai humano recebia, em sonhos, a Visitação Divina. Seus irmãos, num misto de inveja, temor e ódio, venderam-no como escravo aos egípcios por vinte moedas de prata. Jacó, informado pelos filhos que José havia sido devorado por um animal selvagem, fica inconsolável por vários anos.

Após muitos percalços e dissabores - e não é esta, sempre, a senda do Profeta? - José é convidado a interpretar os sonhos de Faraó e o faz com tal brilhantismo que é logo a seguir nomeado governador do Egito.

A sete anos de fartura seguem-se sete anos de fome em toda a região que hoje chamamos de Oriente Médio - segundo sonhou Faraó, aliás - e só o Egito, por poder contar com a previdente sabedoria de José, consegue prover mantimentos a seu povo.

Como a fome prevalecia também em Canaã, terra natal de José, Jacó ordena a seus filhos que vão ao Egito conversar com as Autoridades e tragam de lá o trigo, alimento vital. Aqueles pastores pobres de uma terra distante têm enorme dificuldade para conseguir uma audiência com o poderoso governador da única terra a salvo da fome. Escrevo estas linhas imaginando a cena: envergonhados, empobrecidos e suplicantes, ali estão os hebreus, inseguros quanto a seu futuro ou sequer a decisão do poderoso governador do Egito. Quando finalmente se dá a conhecer, dirigindo-se a seus irmãos em seu próprio idioma, o que será que se passa na cabeça daqueles sujeitos? “Eu sou José. Aquele que vocês venderam como escravo...” E a superioridade moral de José faz com que seus irmãos sejam recebidos como príncipes, entre lágrimas, abraços e beijos.

Uma das muitas histórias contadas acerca do papa João XXIII, Angelo Giuseppe Roncalli, informa que ele, como Chefe de Estado do Vaticano, teria dito estas mesmas palavras ao receber a delegação de Israel, ali em missão diplomática: “Eu sou José, seu irmão...”

Ultimamente, as coisas no mundo humano andam severamente desencaminhadas, com essa história toda de “neo-liberalismo”, “globalização” e outras coisas que têm beneficiado bem pouca gente, deixando a maioria à míngua, como diz mui sabiamente Frei Betto, de pão e de beleza...

Tudo isto, contudo, ainda uma vez, nos enche de Esperança e, estou seguro de que, em menos tempo do que se imagina, aqueles que foram incompreendidos, vilipendiados, atraiçoados ou covardemente perseguidos pela matilha que comanda o mundo hoje poderão humana e cristãmente, uma vez restabelecida a harmonia perdida, dizer a seus antigos algozes: “Eu sou José!”

 

O Dia do Perdão 

 

Uma das coisas mais lindas que a teologia judaica traz para a humanidade é a noção da possibilidade de um recomeço de tudo a partir do perdão, o Yom Kippur, “Dia do Perdão”. E Jesus Cristo, judeu por nascimento, levou ao limite mais sério a prática do perdão, não apenas em seu discurso, mas em seu exemplo existencial... “Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam...” Mat 5, 44. A prática, a demonstração nítida de seu comprometimento com este raciocínio quando no monte chamado “Caveira”, já às portas de sua morte física pela cruz, rogou a Deus, intercedendo pelos que o supliciavam: “Perdoa-lhes, Pai. Eles não sabem o que estão fazendo.” Lc 23, 34.

Um exemplo bastante curioso da prática do perdão, encontra-se num conto de Jorge Luís Borges sobre Caim e Abel. Diz-nos em essência, o grande escritor argentino que os dois irmãos caminhavam pelo deserto, um em direção ao outro, quando Caim reconheceu seu irmão pela marca da pedrada que o matou. Convida-o a uma refeição, evidentemente que kosher (a alimentação lícita), com ele. Após algum tempo, Caim ergue a voz e pergunta a Abel, sentindo-se culpado ainda: “Você já me perdoou?” Ao que Abel responde: “Perdoá-lo? Por quê? Foi você quem me matou ou fui eu a matá-lo? Já se passaram tantos milênios que já nem me lembro mais...” Esta é a essência do perdão: esquecer completamente o dano feito. Virar a página. Como é difícil perdoar quando não se tem amor no coração; como é simples e engrandecedor o perdão oriundo de um coração impregnado pela alegria do amor.

Fica aqui um convite a reflexão e ao perdão: Perdoe o empregado relapso que por algum motivo negligenciou de seus deveres. Perdoe o patrão que ergueu sua voz num momento de passageira cólera. Perdoe aquela moça o jovem apaixonado que não é correspondido. Perdoe o jovem aquela menina linda que não tem culpa alguma em ser incapaz de corresponder-lhe. Perdoe o aluno o professor  que, num momento tenso, ralhou com ele. Perdoe o professor ou a professora aquele aluno ou aquela aluna que num momento ou noutro foi um tanto ou quanto inconveniente a ponto de despertar essa coisa feia que é a repressão. Perdoe a vizinha inconveniente que vive a intrometer-se em sua vida a pretexto de “ajudá-la”. Perdoe o marido a esposa que não lhe correspondeu às expectativas numa ou noutra ocasião. Perdoe a esposa o marido que, numa ou noutra ocasião também foi incapaz de corresponder-lhe às expectativas. Perdoe o primogênito seus irmãos mais jovens por tudo o que considerou incorreto que os pirralhos hajam feito. Perdoem os mais moços por qualquer inconveniência banal do primogênito. Perdoem os pais os filhos quando se equivocam - afinal, errar é humano. Perdoem os filhos seus pais que, por vezes, exageram no excesso de zelo. Perdoem os cristãos aqueles que vêem o mundo de maneira um tantinho diferente, o perdão - particularmente a quem pensa diferente de nós - é evangélico! Perdoem os não-cristãos se aqueles que informam seguir os mandamentos do Cristo cometeram atos não consentâneos com a fé que professam - não devemos nos tornar juizes do nosso próximo. Perdoem-me os magistrados por estas linhas fortes, mas confesso considerar dificílima a imparcialidade ou mesmo a neutralidade! Perdoemos os políticos por algum comportamento menos honroso, lembrando sempre o adágio, também evangélico: “Vá e não peques mais”. Jo. 8, 11. Perdoem o povo que não tolera manipulação de suas vontades ou de suas posses à sua revelia. Deixemos todo o julgamento a Deus.

Quem somos nós, afinal, para julgar nosso semelhante? No meio do torvelinho desta vida, com tanta poeira lançada a nossos olhos, como não ter algum cisco que, literalmente, impede-nos a todos de ver apropriadamente e ousar tirar ciscos dos olhos dos outros? Não julgar nosso semelhante, abrirmo-nos ao diferente e tolerarmos; esta parece ser a essência dos mais elevados ensinamentos das mais diversas tradições místicas. Pensar o perdão com restrições é pensar outra coisa, que merece quiçá outra denominação. O perdão deve ser integral, irrestrito.

Que bom seria podermos viver alegre e plenamente  sem qualquer dor ou eivor de tensão a nos incomodar - e algo poderia ser mais tenso que o ódio que, evidentemente, nos vincula e prende justamente àquele que cometeu falha humana para conosco, talvez até num laço ainda mais rígido que aquele do amor? E como viver sem ódio no coração, sem qualquer traço de ódio, enfim? Que o perdão pleno ganhe este espaço e teremos as respostas!

Não sendo judeus, por que deveríamos respeitar um costume judaico? Por que é lindo, faz sentido, não importa onde haja nascido.  O que traz leveza e nos engrandece só pode ser benéfico! Se os cristãos não têm o costume de eleger uma data especial para ser o “Dia do Perdão”, deve-se ao fato de, idealmente, sendo cristãos, todos sermos capazes de perdoar imediatamente (perdoar e esquecer, pois perdoar é esquecer!)

Verdade? Caso contrário, vale a pena pensar, em reuniões teológicas na implementação de um novo mito multitudinário, em eleger efetivamente um “Dia do Perdão” e batalhar para viver, após a leveza da libertação das cadeias do ódio, com a alma limpa, alva, pura.

Estabelece-se uma data marcante - em nosso caso, por proximidades mil, sugiro o dia de São Francisco, o 4 de outubro - fica-se 24 horas por conta de refletir acerca de todas as coisas desagradáveis que andaram acontecendo conosco ou que fizemos que outros sofressem e, a seguir, página em branco, sem jamais sequer tocar no assunto que conduziu ao erro e este ao perdão, começar de novo sem qualquer resquício de ressentimento ou mágoa.

Como somos fracos os humanos, não? Tendo aqui a solicitar encarecidamente a quantos perdôo, um esforço consciente para que não me veja compelido a, dentro de um ano após o “Kippur”, perdoar ou pedir perdão pelas mesmas coisas novamente...

 

 

O Socialismo na Modernidade

 

 

“O caminho que conduz à liberdade só pode ser a própria liberdade”

 ERRICO MALATESTA

 

 

Em 1917 ocorreu a primeira grande revolução socialista bem sucedida no mundo, então em fins da Primeira Grande Guerra, uma guerra - como todas as outras - suja, eivada de rapinagens e interesses mesquinhos. Ali disputava-se territórios roubados a outros povos. De 1917 a 1924, a fim de consolidar as conquistas revolucionárias, Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, toma algumas medidas militares, políticas e econômicas contando para tanto com o apoio e o auxílio direto de personalidades díspares como Jossip Djugashvili, o Stálin e Lev Davidovitch Bronstein, o Trotski.

Com a morte de Lênin em 1924 abre-se a crise sucessória no Kremlin com Trotski, comandante em chefe do Exército Vermelho, responsável pelo sucesso da Revolução no campo externo de um lado, pregando a “revolução permanente”, informando que só se poderá chegar à sociedade comunista, sem classes, quando todo o mundo passar pela etapa do socialismo, da economia planificada, estatal. De outro lado, Jossip Djugashvili, Stálin, encarregado do combate interno à contra-revolução, arquiteto da temível Tcheká, mais tarde KGB, pregando a “consolidação do socialismo num só país”. Vence Stálin, acreditam alguns historiadores que menos pelo brilhantismo da defesa de suas propostas,  mais pela intimidação de quem tinha acesso a tantas informações sobre tantos detalhes existenciais de tantas pessoas...

Uma vez no poder, Stálin inicia a perseguição política a seus desafetos e adversários, começando por Trotski que se transforma numa “pessoa não existente”. Expulso da então União Soviética refugia-se inicialmente na Turquia enquanto seus compatriotas são terminantemente proibidos de mencionar sequer o fato de sua existência. Pregando e escrevendo sempre sobre a “revolução permanente”, acaba sendo expulso também da Turquia passando a refugiar-se na França, sendo de lá expulso também por sua postura radical, coerente, intransigente. Em meados da década de 30 consegue refúgio no México, então governado por Lázaro Cárdenas (aquele que disse: “Pobre do México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos...”), onde funda a IV Internacional para contrapor-se à III Internacional stalinista.

Trotski é assassinado no México por ordem expressa de Stálin, mas a IV Internacional segue viva até hoje no mundo. As idéias de “revolução permanente”, de socialismo internacional são, no Brasil, defendidas pelos trotskistas do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU. Em tempos de neoliberalismo, globalização, desemprego e desespero ocorre uma retração no movimento operário, retrocesso de resto dialeticamente previsível e temporário. “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”, diz-nos a Escritura.

Há no Brasil também admiradores de Stálin e do modelo stalinista, majoritariamente representados no PC do B. Cisão do “antigo” PC do B em 1956 quando Stalin morreu e Nikita Kruchóv denunciou-lhe os crimes e o culto à personalidade, que centralizava. Seguindo obediente a linha do Kremlin, o PCB, hoje PPS (aquele do Roberto Freire e do Ciro Gomes), promove no Brasil uma série de debates acerca da desestalinização do partido. A ala formada dentro do stalinismo abre dissidência criando o PC do B ou, como preferem dizer os próprios, “mantêm” o nome do partido contra o “revisionismo” do antigo PCB.

Ainda no Brasil, de maneira autônoma, independente, surge o Partido dos Trabalhadores, corajosamente lutando contra o regime de exceção implantado na América Latina por ordem dos EUA na década de 60. Interesses trabalhistas localizados no ABCD paulista ampliam-se desde o nascimento do PT em 1980 a ponto de o partido lançar seu mais expressivo dirigente, o Lula, candidato à presidência da república em 1989, quando foi derrotado por Collor de Mello, uma vez haver o candidato patronal contado com o apoio maciço dos meios de comunicação, aporte de recursos do empresariado através de seu caixa de campanha, o Sr. Paulo César Farias.

O PT é um partido eminentemente ético, após afastar de seus quadros o radicalismo da Convergência Socialista (o PSTU) pode definir-se como um partido de esquerda humanista e cristã que almeja chegar às esferas de poder decisório pela via parlamentar, um ineditismo histórico, claro. O único episódio parecido, o Chile de Salvador Allende, acabou num banho de sangue no bojo do autoritarismo norte-americano das décadas de 60 e 70 quando o general Augusto Pinochet liderou internamente (contando com o apoio ianque) tropas que literalmente massacraram toda a oposição política.

Aliás, este exemplo faz pensar... Quando os donos do poder sentem-se seguros, mantêm o encaminhamento democrático. Quando a insegurança assola, apelam às mais diversas formas de ditadura e coerção.

Difícil falar em esquerda e trabalhismo num mundo encaminhado na direção do neoliberalismo, quando seculares conquistas da Classe Trabalhadora como a previdência social pública, a segurança do emprego e até mesmo o descanso remunerado - anual ou mesmo semanal - estão sob questionamento após o colapso do socialismo dito “real”. Mas, ainda uma vez cumpre enfatizar que avanços e recuos são das coisas mais comuns na história da humanidade e ainda veremos novos avanços onde hoje os recuos nos acuam...

 

 

 

O que querem os anarquistas

 

           

“O Estado é a negação da humanidade!”

Mikhail Bakunin

 

            Em artigo bastante contundente e expressivo, Errico Malatesta, discípulo italiano do russo Bakunin, discorre sobre o que é e o que se deve fazer “Rumo à Anarquia”.

Em primeiro lugar, deve-se desprezar concepções errôneas segundo as quais “anarquia” seria sinônimo de “bagunça”. Anarquia é ausência de governo e mesmo de atividade parlamentar; que os agentes políticos devem atuar diretamente em busca de manter e ampliar todas as formas de participação nos aspectos decisórios da sociedade em que vivem.  Ação Direta, aliás, é o nome que adotam várias organizações anarquistas pelo mundo afora.

Diz-nos Malatesta em seus “Escritos Revolucionários” que “Se quiséssemos substituir um governo por outro, isto é, impor nossa vontade aos outros, bastaria, para isso, adquirir a força material indispensável para abater os opressores e colocarmo-nos em seu lugar *.  Mas, ao contrário, queremos a Anarquia, isto é, uma sociedade fundada sobre o livre e voluntário acordo, na qual ninguém possa impor sua vontade a outrem, onde todos possam fazer como bem entenderem e concorrer voluntariamente para o bem-estar geral. Seu triunfo só poderá ser definitivo quando universalmente os homens não mais quiserem ser comandados ou comandar outras pessoas e tiverem compreendido as vantagens da solidariedade para saber organizar um sistema social no qual não mais haverá qualquer marca de violência ou coação”.

A atividade do anarquista, do socialista utópico (em sua sublime acepção de conquista da Esperança possível) não é violenta nem repentina, mas gradual, pedagógica, passo a passo.

“Não se trata de chegar à anarquia hoje, amanhã ou em dez séculos, mas caminhar seguramente  rumo à anarquia hoje, amanhã e sempre. A anarquia  é a abolição do roubo e da opressão do homem pelo homem, quer dizer, abolição da propriedade privada dos meios materiais e espirituais de produção e do governo formal; a  anarquia é a destruição da miséria, da superstição e do ódio entre as pessoas. Portanto, cada golpe desferido nas instituições da propriedade privada dos meios de produção e do governo é um passo rumo à anarquia. Cada mentira desvelada, cada parcela de atividade humana subtraída ao controle da autoridade, cada esforço tendendo a elevar a  consciência popular e a aumentar o espírito de solidariedade e de iniciativa, assim com a igualar as condições é um passo a mais rumo à anarquia.”

Os surrealistas, que há anos estão unidos aos anarquistas afirmam ainda que cada vez que um casal se une e sua união não é uma fancaria, mas a autêntica expressão do verdadeiro amor entre duas pessoas que se completam plenamente, ocorre mais um abalo no que chamam de “gigantesca caserna” em que se tornou a sociedade industrial. “O ocidente é um acidente!” denuncia Roger Garaudy em “Apelo aos Vivos” com a autoridade de quem sempre esteve nos pontos mais avançados de defesa política e filosófica do que promove o humano no mundo.

Seguindo com Malatesta: “Não podemos, de pronto, destruir o governo existente, talvez não possamos amanhã impedir que sobre as ruínas do atual governo um outro surja: mas isto não nos impede hoje, assim como não nos impedirá amanhã, de combater não importa que governo, recusando-nos a submetermos à lei sempre que isto seja contrário aos nossos imperativos de consciência. Toda a vez que a autoridade é enfraquecida, toda a vez que uma grande parcela de liberdade é conquistada e não mendigada, é um progresso rumo à anarquia. Da mesma forma, também é um progresso toda a vez que consideramos o governo como um inimigo com o qual nunca se deve fazer trégua, depois de nos termos convencido que a diminuição dos males por ele engendrados só é possível pela redução de suas atribuições e de sua força, não pelo aumento no número de governantes ou pelo fato de serem eles eleitos pelos governados. E por governo entendemos todo o indivíduo ou grupo de indivíduos, no Estado, Conselhos etc que tenha o direito de fazer impor leis injustas sobre quem com elas não concorda”.

Contundente e radical, repita-se, Malatesta e toda a tradição anarquista que lhe segue proporá a chegada a um governo auto-gestionário, do qual todos possam participar livremente. Um sistema auto-gestionário que possibilite participar livre e alegremente de todo o processo decisório e de execução do que terá sido decidido coletivamente, para que se chegue ao maior aperfeiçoamento social promotor do humano no mundo. Toda a vitória, por menor que seja, dos trabalhadores sobre as classes patronais, todo o esforço contra a exploração do homem pelo homem, toda a parcela de riqueza subtraída aos proprietários e posta à disposição daqueles que a geraram, toda a união amorosa plena entre duas pessoas que se amam intensa e sinceramente, tudo o que se fizer para melhorar as condições existenciais da maioria enfim, será mais um progresso, mais um passo  rumo à anarquia, “este sonho de justiça e de amor entre os homens...”

 

 

A nossa meta

 

 

Onde, a que situação almejamos chegar, afinal? Parte-se aqui do princípio de que, quando se sabe para onde, chegar lá fica mais fácil, mais simples. Quando não se sabe sequer para onde, como se haveria de chegar a algum ponto?

Resumindo, e estou tão no meu direito quando apresento o resumo no início quanto Proudhon o estava ao afirmar: “Se a escravidão é o assassinato, a propriedade é o roubo!” Resumindo portanto, posso dizer que é a um ponto em que o aprimoramento humano, a cooperação esteja acima da competitividade. Utopia possível e concreta de que encontramos exemplos raros e episódicos em comunidades tribais.

Suspender esta corrida de lobos em que estamos envolvidos, na qual os melhor-sucedidos são em geral aqueles que menos contribuem para o aprimoramento da coletividade.

Fruto do pensamento iluminista francês, a idéia de que não se tem ação revolucionária sem teoria revolucionária, os burgueses em 1789, ao desbancar com a nobreza, tinham por meta atingir “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”. Passados pouco mais de 200 anos, que resultado encontramos? Liberdade somente para os mais poderosos - ainda assim restrita, há que se manter a classe trabalhadora sob constante vigilância - Igualdade jurídico-formal capenga, na prática inexistente. Destino pior teve a Fraternidade...

Que os seres humanos vivam como numa grande família, com amor ao próximo, praticando seu trabalho como atividade lúdica, não mais como alienação, considerações como estas, tidas por inexeqüíveis na prática, tratam-nas em geral como sandices ou absurdidades.

O socialismo científico de Marx e Engels conduziu às maiores conquistas sociais da história, difícil negá-lo. Mas inegável mesmo é que existem muitas outras conquistas a atingir, que ultrapassam os limites estritos e estreitos da ciência, mesmo da mais avançada ciência social comprometida com a causa popular.

A Razão humana tem os seus limites traçados e a ciência, fruto desta (Razão), também é limitada. Felizmente os seres humanos somos dotados não apenas de razão, mas também de criatividade, de Imaginação, de capacidade onírica, de fé...

Há quem diga que o socialismo científico teria logrado ser bem-sucedido até certo ponto, enquanto que o socialismo utópico não o tenha, precisamente por ser aquele mais condizente que este último com a realidade econômica e social vigente, o que tolda e limita a atuação política possível àquilo que seja prático ou pragmático. Penso que aqui resida uma das explicações possíveis para as dificuldades pelas quais vimos o socialismo científico passar onde teve ele o parco sucesso histórico que se conhece.

Descredenciar a Utopia ou a ação do socialismo utópico como “algo baseado num racionalismo sentimental e ético, muito bonito do ponto de vista humanístico mas inviável na prática”, como queriam os cientificistas, é banir do cenário justamente o que move o homem a agir no mundo. Jamais se agiu multitudinariamente para atingir conquistas pragmáticas como o pagamento do aluguel ou a baixa no preço do queijo, as multidões somente são levadas a agir se acreditam com todo o seu coração estar atuando em prol da verdade, da justiça, de algo muito maior que cada um, se acreditam estar atuando na direção da conquista do que se julgou mesmo impossível em outros tempos.

Dada a “lógica” que perpassa a maioria dos corações e mentes do nosso tempo, agir com base no que é “econômica e socialmente viável” do ponto de vista científico é proposta excessivamente tímida, dada a crueza da realidade sócio-econômica atualmente colocada.

Resgatando o pensamento dos socialistas utópicos, pelo menos até que a nossa caríssima ciência consiga dar novo “salto qualitativo”, é imperativo manter em vista as metas a serem atingidas, sob pena de nos perdermos pelo caminho.

Chegar ao reino da abundância, da fartura, da prosperidade, da vida saudável e fraterna entre todos os homens, todos, sem exceção, parece hoje algo de mítico a inatingível na prática. Mas não foram assim consideradas as idéias e pensamentos dos autores de ficção científica em outros tempos? Se hoje a realidade tecnológica do mundo ultrapassa a imaginação de alguns autores de tempos consideravelmente recentes, como Júlio Verne, por exemplo, não é inimaginável o que alguns autores de ficção ou literatura política antecipadora (como Platão, Moore, Campanella, Huxley etc), dignos todos de muita consideração para esta perspectiva, claro, venham a ser considerados futuramente como pessoas de alguma visão, mas estou seguro de que a realidade da sociedade futura superará em muito estes pensadores.

 

 

O Homem é um animal político

 

 

 

            Em diversos momentos na vida encontrei pessoas a deplorar a atividade política, formal ou informal (através de Organizações Não Governamentais, por exemplo). A estas gostaria de trazer uma breve reflexão poética de Bertolt Brecht, acerca do "Analfabeto Político". Poema bastante conhecido mas freqüentemente esquecido por aqueles que anseiam por omitir-se de qualquer atividade maior, multitudinária, quiçá por julgá-la desnecessária ou desprezível ao seu cotidiano. Será? Vamos ao que diz o grande dramaturgo:

 

 

"O pior analfabeto

é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, não participa

dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,

o preço do feijão, do peixe, da farinha,

do aluguel, do sapato, do remédio

depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro

que se orgulha e estufa o peito

dizendo que odeia a política.

Não sabe o imbecil

que da sua ignorância política

nascem a prostituta, o menor abandonado,

o assaltante e o pior de todos os bandidos,

que é o político vigarista, pilantra, corrupto

e lacaio das empresas nacionais e

multinacionais."

 

 

 

            Quando percebemos que este belo e elucidativo poema foi escrito décadas antes da ascensão da dupla Collor de Mello e PC Farias ao poder político no Brasil e constatamos terem sido os escritos de Brecht elaborados em outras paragens e contextos históricos, percebemos estar frente-a-frente com algo de muito mais grandioso. Maior atenção para com a política formal e mesmo informal dificultaria a ascensão a poderes maiores de gente dilapidadora do patrimônio público.

            Alegar ignorância política ou pretender-se "apolítico" é o mesmo que assinar a si mesmo um atestado de incompetência para a cidadania. 

 

Um piquenique nas bordas de um vulcão

 

É literalmente assim que se sente qualquer profissional de qualquer ramo no mundo contemporâneo, como alguém que faz um piquenique nas bordas de um vulcão. Não é escolha que ninguém em sã consciência faria uma escolha dessas! É antes uma fatalidade que se abateu sobre nós e está demorando muito a nos deixar em paz.

As coisas podem estar dando uma aparência de sossego e amenidades, podemos até mesmo sentir uma vaga sensação de segurança, pelo menos até que as labaredas se ergam lambendo todo o entorno impedindo qualquer tipo de argumentação lógica. No cotidiano, aliás, sente-se que a lógica, o bom-senso e até as medidas sanitárias humanas mais básicas perdem vez para uma racionalidade impessoal, desumana, característica do tempo do Capital. Momento que põe em risco os valores democráticos para todo o povo, momento que, ora aprofunda ora despreza todos os valores dos avanços iluministas. Instantes há em que seres que se dizem humanos são capazes mesmo de eliminar todos os valores que não sejam os seus.

 

Da democracia

 

 

Toda a convivência democrática supõe dar voz e vez a todos igualmente, em particular àquele que pensa de maneira diferente.  A questão que se coloca aos brasileiros é uma tremenda manobra das elites para perpetuar-se no poder. Têm-no conseguido com a ajuda do modelo democrático mesmo, dele só se despedindo em situações-limite, quando a repressão informa ser a de mocracia brasileira uma magnânima concessão das elites, desde que a massa saiba manter os mesmos onde estão, sem grandes traumas ou modificações substanciais.

Por exemplo: pouco antes de sua passagem pela transição, meu pai deixou com minha mãe um lenço e um par de luvas brancas com as recomendações de praxe: iluminismo ativo! Em pouco tempo percebe ela que aquelas recomendações estavam circunscritas espacial e temporalmente àqueles que chegaram a, de alguma maneira, travar contato com o grande e benemérito dr. Hely Chaves; a geração subsequente em locais outros, simplesmente faz ouvidos moucos ao que ele representou em seu tempo ou ao lidar com o seu legado humano: iluminismo passivo ou destrutivo!

Do Iluminismo

 

Segundo Max Horkheimer, a meta do iluminismo é aquela de libertar os homens do medo e fazer deles senhores. Cada vez que algo mais humano ou humanista volta-se a tornar os homens mais livres, vemos um avanço do pensar humanista do iluminismo ativo. A todo o instante em que se percebe coisas como propriedade ou mesquinhos interesses mercadológicos dos donos dos meios materiais ou espirituais de produção a manipular os seres humanos ao seu talante, transformando-os em coisas, objetificando-os, percebemos um grave, um severo retrocesso no pensamento humanista do Iluminismo: o medo e a conseqüente obediência cega transformando até os senhores em escravos, o inverso do que pretendia o pensamento iluminista mais puro.

Iluminismo e democracia 

Deve ter sido dolorosamente brutal a pessoas do quilate de Fromm, Marcuse, Reich, Benjamin ou Zweig ver e vivenciar a ascensão do autoritarismo na Europa durante a década de 30 deste século que se finda.

O mais chato é que muitos dos sobreviventes daquele período negro da história humana, informam perceber grandes similitudes com a situação atual: maior liberdade para o Capital que para seres humanos, a recessão tão brutal que o movimento operário sofre uma paralisia, dá-se muito maior valor à coisa morta, à posse de bens materiais que propriamente à vida...

Faltam alguns signos e, graças a Deus a história comprova que, em todo e qualquer instante ou momento político, não basta apenas “preencher lacunas”.  Ansiamos pelo contrário, mas se o povo, em sua maioria, não encontrar um caminho solidamente estruturado e lúcido teremos de assistir e vivenciar impotentes a ascensão e perpetuação das práticas mais autoritárias contra o humano, democratizando o Capital.

Mas é necessário deixar bem claro que quando as elites sentem-se seguras, mantém o encaminhamento político democrático. Quando o movimento popular se torna um “problema”, o usual é que as elites conclamem à ação o autoritarismo em sua vertente clássica, ou seja, a “Questão Social” ora é encaminhada como “caso de política”, ora reprimida como “caso de polícia”, como nos assevera Gisálio Cerqueira Filho em A “Questão Social” no Brasil, Civilização Brasileira, 1982

Possa o Senhor do Universo permitir que tudo se encaminhe democraticamente em direção do bem-estar e da felicidade da maioria!

 

 

Dilemas

 

 

 

“Em mim combatem o entusiasmo pelas macieiras em flor e o horror pelos discursos do pintor de brocha gorda. Mas só este último me impulsiona a escrever”  Bertolt Brecht

  

“Homens que nascem sob o jugo, que são criados na servidão, tornam-se incapazes de olhar para lá dela, limitam-se a viver tal como nasceram, jamais conseguem pensar em ter outro bem que não aquele encontrado ao nascer. Aceitam como natural o estado encontrado ao nascer.” Etienne de La Boétie

 

 

Parto aqui do princípio de que não é porque vivemos numa sociedade tão tristemente distanciada do Ideal - com direito a repressão brutal de qualquer tentativa auto-gestionária com chances ainda que irrisórias de êxito, como em Canudos, Palmares ou Colônia Cecília entre diversos outros - terceiro-mundista, cruel; não é por vivermos numa sociedade na qual imaginar uma justa e equânime distribuição de rendas, da riqueza por todos produzida e por poucos apropriada, enfim, já é considerado “pensamento subversivo” que nos devemos ater a trabalhar apenas pelo “menor dos males”; devemos, antes e sobretudo, lutar e trabalhar alegremente pela conquista da felicidade positiva, que a mais avançada Filosofia da Esperança chama, com justa razão de Summum Bonum, o bem supremo. Conseguí-lo será tarefa - e isso caso haja vontade política daqueles que detêm o poder decisório - para as gerações futuras. A nossa, a seguirem as coisa como estão, terá como recompensa, na melhor das hipóteses, o ver apenas um mundo um pouco melhor nas mãos dos nossos herdeiros, assim sendo sucessivamente.

Luta-se internacionalmente hoje, nem mais nem menos, pela cessação das hostilidades entre as pessoas, pela implantação de uma autêntica “aldeia global”, como nos dizia McLuhan. Isto só é possível se conseguirmos a substituição da hegemonia do caráter sado-masoquista (ou mesmo obsessivo-compulsivo) pelo caráter auto-regulado, generoso, capaz de efetivamente amar e ser amado. Quando, num dia, todos acordarem dizendo com convicção: “E eu, que vou fazer hoje para que o mundo se torne mais justo e mais belo?” estaremos bem próximos de chegar à meta aqui brevemente exposta.

Vamos examinar dois fatos, um conjuntural, relativamente recente, e outro que vai se tornando uma coisa institucionalizada mesmo. São daquelas coisas que abalam nossa alegria, nossa fé no humano de maneira geral.

Uma Casa de Detenção e uma Rede Global de telealienação jogam sem o menor pundonor nem compaixão baldes de água gelada em nosso entusiasmo, em nosso calor mas, de novo, não é por isso que devemos jogar fora nosso otimismo, nossa sacrossanta Esperança.

111. Números oficiais. Em 1992, 111 seres humanos encarcerados em condições subumanas foram friamente assassinados, sem qualquer justificativa possível. Compreender, até que é possível: ainda persiste o ódio nas relações sociais e o cristianismo é, quando muito, vaga consideração intelectual voltada a um mundo distante desta vida concreta que vivemos, o que seguramente deixa o Cristo muito triste. Após crucificarem-no, assassinam a parte mais importante e bonita da sua mensagem: o amor ao próximo. Digo isto pois li estatísticas informando que algumas pessoas consideram-se cristãs e justificam aquela carnificina: “Que fizeram aqueles homens para que estivessem presos?”- interrogam alguns muito pouco dispostos, em verdade, a ouvir respostas sensatas ou concretas; mais preocupadas estão, isso sim, em justificar através de muito ódio o que compreendem como “paz” para suas consciências.

Alguns daqueles presidiários haviam cometido crimes considerados hediondos segundo a terminologia jurídica clássica. A maioria (cerca de 80% dos assassinados) cometeu crimes  considerados “leves” e há a suspeita de haver dentre os mortos pelo menos uma dezena de inocentes que para ali foram parar por equívocos os mais diversos que nosso país é cheio destas coisas...

O caso é o seguinte: prega-se o rótulo de “criminoso” num cidadão socialmente incômodo, encerra-se o dito cujo em cárcere em condições ainda menos que sórdidas e tenta-se não pensar mais no assunto. Não ler. Não ver. Não ouvir falar sobre isto e, ao ouvir, falar rispidamente para que se possa, comodamente, ingressar num tema mais ameno. Quando, numa nação, se admite que homens fardados, defensores da lei e da ordem por definição, cometam delitos desta gravidade impunemente - não raro com o aplauso de muitos! - algo vai muito mal e é preciso corrigir esta discrepância!

O caso da Globo é um poucochinho mais complexo; é de tirar o chapéu mesmo: “Criança Esperança”. Que campanha bonita. Quanta competência. Que beleza plástica. Uma incrível catarse coletiva a todas as consciências. Todos, pelo menos uma vez por ano preocupados com o morticínio cruel e covarde que se perpetra - não apenas às escâncaras, como no caso em estudo, mas também surdamente - em nosso país: mais de mil crianças são assassinadas por dia de formas as mais variadas em nosso Brasil, custa-nos a admiti-lo, não é apenas a violência policial ou paramilitar, é a violência pecaminosa, institucional, a maior responsável. Quem freqüenta grandes centros urbanos percebe com clareza: menores abandonados, carentes, miseráveis, famintos no 6º produtor mundial de alimentos (alimentos que, dada a racionalidade mercadológica do sistema como um todo, vão para as barrigas privilegiadas de animais europeus, uma vez seus proprietários serem capazes de pagar preço melhor pelo alimento que produzimos do que nossas crianças - falar nisso, que chefe de família deixaria de alimentar os seus para vender comida de casa a seres que pagam melhor que os seus pelos gêneros alimentícios em geral?)

A Rede Globo de rádio, jornal e televisão é uma das mais ricas empresas do Globo Terrestre. Uma das maiores beneficiárias, portanto, do sistema concentracionista de rendas que possibilita o surgimento da miséria que conclama, uma vez por ano e de maneira cada vez mais sofisticada, tão crescente quanto a miséria que ajuda a disseminar, a que as pessoas se sensibilizem e dêem combate a toda esta tragédia humana através da esmola, da caridade, se não como solução, pelo menos como paliativo. E aí, não fazemos nada?

Simplesmente não há como perceber de perto tanta degradação humana e ficar de braços cruzados. Pelo menos um pouquinho, só um telefonema, vá lá...  Depois mudamos de assunto ou de canal, tentamos pensar em outra coisa e abandonar estas questões incômodas até o próximo ano, quando serão novamente apresentadas em meio a muita festa, alegria e riqueza.

Não há como posicionar-se contrariamente à iniciativa da Globo em aliança com a UNICEF, não dá. Algo tem de ser feito, ainda que modesto e pouco ou nada pretensioso.

Mas o que mais dói é ver a utilização política que se faz da desgraça alheia para a perpetuação do sistema tal qual é: enquanto se dramatiza a situação, com lágrimas sinceras e emocionadas e tudo, fatura-se ainda mais em comerciais. A genialidade do sistema deixa-nos estarrecidos. Fica registrado apenas o grande respeito por todos os que abrem seus corações e suas carteiras naquelas campanhas (supondo, claro, que os recursos tenham a destinação prevista - o contrário seria ainda mais hediondo!) contribuem um pouquinho para minorar o sofrimento de tantos. O protesto veemente contra a utilização da hecatombe justamente para - amenizando-a inocuamente - preservá-la. E a perplexidade de estar “emparedado” num paradoxo aparentemente insolúvel: apoiar criticamente que seja a iniciativa da Globo só tende a manter os níveis da catástrofe - e sei lá se tanto; o programa anual “Criança Esperança” está cada ano mais rico e mais bonito e nossas crianças cada ano em maior número mais miseráveis e desesperadas... - apoiar esta iniciativa, criticamente que seja, é fortalecer o próprio sistema que provoca este mal. Não apoiar a iniciativa é algo tão antipático que fica até esquisito cogitar... Que fazer?

Pensemos, de maneira cosmopolita, no que o que há de mais avançado no mundo da cultura está ocupado em fazer: encontrar meios que possibilitem a cessação total das hostilidades entre os seres humanos. Chega de destruição. Temos de construir!

 

 

 

O Bem e o Mal na alegria dos pobres

 

 

“Sem a alegria, a humanidade não compreende a simpatia

nem o amor” Ramalho Ortigão

 

 

Freqüentemente lemos ou ouvimos críticas severas, às vezes mesmo de publicações ditas esquerdistas, acerca da alegria que muitas vezes perpassa os movimentos populares. Temos os  pobres motivo para tanta alegria e festa? Celebramos alguma coisa?

Todo o bom cristão sabe que “o mundo jaz no maligno”. Identificando a origem deste mal que nos oprime e sufoca no mundo encontramos uma estrutura social que bem merece o epíteto de satânica, na qual a felicidade de uns poucos assenta-se na desgraça da maioria. O combate sem tréguas a esta estrutura perversa, chamada em outros tempos de escravismo, a seguir de feudalismo, hoje de capitalismo (ou capetalismo, como preferem alguns puristas), a luta contra a exploração do homem pelo homem, faz parte do combate ao Mal no mundo.

O Mal se compraz sugando a vida das pessoas de bem. O Mal consegue transformar o trabalho, atividade humana fundamental, num processo maçante, massacrante e alienante, no qual se gastam muitas horas por dia em troca de salários pífios, que mal são suficientes à sobrevivência. E os trabalhadores, responsáveis maiores pela enorme geração de riquezas, são justamente aqueles que dela menos usufruem. É justo que haja espanto se, mesmo assim nós, trabalhadores do espírito, operários do saber, encontramos motivo para alegria e festa. Não está, seguramente, nos planos do Mal, proporcionar ou permitir a alegria dos pobres. É um tipo de alegria que não tem preço, não se pode comprar, é natural, genuína, espontânea, visceral, inacessível, incompreensível até, ao Capital...

A grande satisfação que o Mal encontra na tristeza, pode ser comparada ao “renascimento” dos vírus. Como se sabe, os vírus têm formas de cessar praticamente toda a sua atividade vital até que encontrem meio propício à sua perniciosa existência. Uma vez instalado, a satisfação dos vírus é a infelicidade, a doença para o ser que os carrega. Se amamos a Vida como a conhecemos, devemos ser inimigos radicais, inconciliáveis mesmo dos vírus, da tristeza, do Mal. A alegria é subversiva, mata o Mal até de raiva!

Podemos constatar o quão fundo o Mal penetrou nos corações e mentes das pessoas vendo a arrogância dos poderosos, o mais das vezes incapazes de tolerar qualquer demonstração de espontaneidade ou liberdade por parte dos mais fracos. Quem nunca teve de lidar com um destes crápulas na posição de chefe, patrão, superior hierárquico, enfim, sempre a fazer questão de coibir qualquer demonstração, por mais tímida que seja, de espontaneidade por parte daqueles que lhe estão de alguma forma subordinados?

Alguns acusadores, quase sempre refugiados em roupas sóbrias, muito medrosos por dentro e arrogantes por fora, certamente com problemas intestinais severos (e de onde crê o leitor vir a expressão “pessoa de maus bofes”?) acreditam que toda a atividade política deveria se dar em clima de velório...

Não vamos, definitivamente, nos enfiar depressivamente em climas fúnebres somente para satisfazer a arrogância de quem não consegue entender que é com e pela alegria que se defendem as causas mais justas, nobres e corretas. Queremos “vida, e vida em abundância!”

“Tomamos o céu de assalto!” cantavam felizes os communards parisienses em 1871, até que representantes do Mal, em mais uma de suas vitórias provisórias - que a história é cheia destas idas e vindas, destes avanços e recuos - reprimiram brutalmente aquela “ousadia”.

Que ninguém mais se espante se lutamos alegremente pelo que é Justo, Bom e Correto sempre com muita alegria. O aumento da alegria dos participantes de nossas lutas é um claro indicio de que a vitória do Bem não é apenas inevitável como está muito próxima!

 

 

Que o Brasil se torne uma grande São José do Rio Pardo!

 

 

 

“Que criaturas lindas vejo aqui! Oh, admirável mundo novo!” SHAKESPEARE

 

Para onde se volte o olhar por aqui, percebe-se que esta cidade é total e completamente atípica em termos de Brasil. Daí talvez a dificuldade em vermos grassar por aqui - e quando surgem acabam sendo “truncadas” - teorias radicais que ganhem corações e mentes. São José do Rio Pardo, por suas peculiaridades múltiplas, aproxima-se, enormemente, daquilo que os compêndios chamam de “sociedade auto-gestionada”.

Vejamos: Reforma Agrária por aqui já foi realizada de maneira natural, por heranças de fazendas que foram se transformando em pequenas chácaras e sítios, de maneira que a idéia soa distante - quando não francamente incompreensível - aos rio-pardenses. Não há por aqui propriedades rurais improdutivas com mais de 2.000 hectares, o que caracterizaria um latifúndio potencialmente expropriável numa reforma agrária séria. Por aqui proliferam mesmo os sítios e chácaras de não mais que 50 ou 100 hectares.

Miséria não se vê. Sabe-se que há famílias carentes, mas a assistência social rio-pardense é de causar inveja aos modelos social-democratas mais avançados. Um povo amigo, simpático, atencioso. Médicos freqüentemente atendem graciosamente quando percebem que o paciente é carente e o Hospital presta até a indigentes um tratamento de primeiro mundo! Quando ocorre de surgir mendigos o S.O.S. corre a atendê-los e tudo flui direitinho.

Longe de imaginar que vivemos num paraíso, humanos que somos, portanto defeituosos, aqui como em qualquer parte somos obrigados a reconhecer que os “problemas” com que temos de lidar nem se comparam com aqueles dos grandes centros urbanos. Se há roubos ou violência, em nada se comparam ao que ocorre em favelas cariocas ou no centro paulistano. E a polícia age com eficiência, profissionalismo e presteza. Se algum problema infra-estrutural é detectado por moradores de algum bairro, imediatamente vereadores são acionados, a prefeitura contactada e, via-de-regra, soluciona-se o problema com grande rapidez apesar da crise por que passa o país.

Os salários rio-pardenses, se não estão entre os maiores do mundo, definitivamente estão entre os maiores do Brasil. Um dos dirigentes da ACI  (Associação Comercial e Industrial) asseverou-me que há tempos se pratica o salário mínimo de cem dólares por aqui, mesmo quando no restante do país o salário mínimo mais elevado chegava no máximo a US$ 65.

Evidentemente os problemas que afligem os profissionais de educação e saúde são, em muito, similares aos de outras paragens, mas com escassos termos de comparação. Aqui vive um povo mais unido, mais amigo, mais comportado, diria até que mais saudável que em todas as paragens que tive oportunidade de visitar.

As modificações que uma administração municipal pode efetivar em relação a outra são tão pequeninas que as diferenças entre “situação” e “oposição” só são mesmo compreensíveis a quem mora aqui há pelo menos dois anos. Atribuo a isso o escasso interesse do rio-pardense médio por assuntos políticos. As pessoas tendem a mobilizar-se politicamente quando muito insatisfeitas. Quando bem servidas e administradas nem mesmo percebem que a administração existe!

Com tudo isso, o Brasil não se resume a esta paradisíaca cidade, tem locais paupérrimos, onde a injustiça é a regra, não a exceção, como aqui, portanto, “conservadorismo” é palavrão, é mesmo uma infâmia. Por patriotismo, por solidariedade para com nossos irmãos compatriotas, temos o dever de lutar por melhorias, por um processo que permita realizar, a nível nacional, o que os rio-pardenses estão de parabéns por haver conseguido por aqui.

 

 

 

Direitos Humanos, uma reflexão necessária

 

 

 

“Quantas mortes ainda serão necessárias para que se saiba que já se matou demais?” Bob Dylan

 

 

           

O simplismo de considerar a defesa dos direitos humanos a defesa de direitos de criminosos tem de ser desmascarado. Aqueles que defendemos o direito à vida de todos, de todos sem exceção, não podemos ser confundidos com criminosos ou defensores de suas posturas. O que almejamos mesmo é o fim da barbárie e do ódio.

O Estado brasileiro falha diante de seus cidadãos, do berço à sepultura. Más condições de educação e saúde, de moradia, de sobrevida material mesmo, acabam por reduzir o ser humano à situação desesperadora de louco desviante em muitos casos. Há muita gente desesperada por providenciar sua sobrevivência e a dos seus, ainda que para isso tenha de romper com as normas sociais vigentes. Se o Estado brasileiro é o maior responsável pela elevação no índice de criminalidade, particularmente tendo em vista a brutal e dificilmente equiparável, em escala planetária, concentração de renda, o Estado brasileiro carece de condições morais para dizer “quem tem o direito à vida (assegurado na Constituição, por sinal) e quem, por seus crimes, deve ser apenado com a perda deste direito humano básico”, até porque o juízo humano é falho, a pena-de-morte é uma punição evidentemente irreversível e o “exemplo” deve vir sempre de cima, jamais dos desesperados. Montar uma fábrica de desesperados e, para “solucionar”, montar uma máquina de extermínio de desesperados não me parece racional. É coisa parecida à “Solução Final” dos nazistas...

Como o neocolonialismo nos colocou sob a órbita de influência dos EUA, muitos apreciam citar aquela Nação como exemplo a ser seguido. Talvez a proposta seja válida para alguns casos, mas especificamente na esfera dos direitos humanos há muito pouco a aprender com os ianques. Os EUA são a única Nação do primeiro mundo em que este crime medieval é praticado, quando o Estado mata, com o beneplácito do aparelho judiciário. Mas a justiça norte-americana tem se equivocado em diversos casos de apenamento com a morte. Alguém poderia contra-argumentar que o aparelho judiciário brasileiro seria superior e não cometeria falhas. Será? Somos todos humanos, sujeitos a falhas, portanto.

Segundo a Seção Brasileira da Anistia Internacional, as argumentações contra a pena de morte podem seguir a seguinte direção:

1 - Economia: como se a vida humana pudesse ter um preço, os defensores do assassinato estatal institucionalizado, quando o Estado mata ao invés de promover a vida, “informam” que matar um suposto autor de “crime hediondo” é mais barato que mantê-lo, por exemplo, aprisionado por toda a vida. Falso. As custas de processos, cárcere protegido especial (para evitar linchamentos), apelações, vigias, sacerdotes, maquinário e carrascos custam três vezes mais que um aprisionamento perpétuo do cidadão a ser assassinado, por exemplo. Embora esteja bem claro que a prisão perpétua seja medida mais econômica que a condenação capital, temos de pensar em algo mais humano ainda: a implantação de colônias penais agrícolas, onde o detento poderia custear seu próprio sustento, sem onerar os cofres públicos, os contribuintes e, além do mais, trazer o ressarcimento econômico aos seus erros para com a sociedade. Estaria, e isso é o mais importante, vivo para que eventuais erros judiciários fossem reparados. Grupos de extermínio, claro, não sujeitos a todas  estas formalidades, não são onerosos, nem eficientes, nem eticamente dignos de consideração numa análise séria como esta pretende ser.

2 - Intimidação: Há quem creia que, num Estado onde exista a pena capital, o assassinato institucionalizado, o eventual criminoso tenda a “pensar duas vezes” antes de cometer delito hediondo. Antes de mais nada, os fatos apontam na direção contrária: onde a pena de morte é praticada os índices de criminalidade são os mais elevados. Especula-se que o eventual criminoso tenda a eliminar potenciais testemunhas de um delito praticado em momento não refletido de sua vida. Isso, claro, quando o sujeito pára para pensar na besteira que estaria fazendo, o que é raro acontecer. Crimes hediondos, em geral, são praticados por pessoas em estado de total descontrole, provisório ou permanente, de suas faculdades mentais.

Vale a pena ressaltar que na França houve uma significativa diminuição nos índices de criminalidade com a abolição da guilhotina enquanto que no Irã aqueles índices sofreram significativo aumento com a reimplantação da pena de morte após a revolução islâmica. Especula-se neste caso que as pessoas que vivem numa Nação violenta, competente para matar ou deixar viver, tendem a seguir-lhe o exemplo...

3 - Vingança: O mais sórdido e menos ético dos argumentos utilizados pelos defensores do assassinato institucionalizado. Descendo ao nível moral daqueles que qualificam como criminosos, os pregadores da vingança insistem na “Lei de Talião”, só possível a não-cristãos, claro, mas que precisa ser considerada também. Ao invés de ansiar e trabalhar pela elevação dos padrões intelectuais e morais das pessoas, aqueles que defendem a implantação da pena de morte pregam um retrocesso do Estado ao nível de barbárie em que se encontram alguns criminosos produzidos, repita-se, por uma ordem social injusta em última análise, desigual e cruel em sua essência. Vale lembrar aqui as palavras do Mahatma Gandhi: “Um olho por um olho acabará por deixar toda a humanidade cega!” É vital deter a propagação do Mal, não expandi-la!

4 - Desumanidade: “O que é que merece alguém que comete um crime hediondo (assalto, estupro ou seqüestro com morte)?” ou “O que é que você faria se algum ente querido seu fosse sordidamente seviciado e assassinado?” Ora bolas, não cabe a ninguém dizer quem é humano e quem, pelos seus crimes, deixou de o ser e com isso perdeu seus direitos! Os nazistas, a quem a história julgou e execrou, agiam assim: primeiro tiravam o status de humano de criminosos comuns, depois de criminosos políticos, depois de pessoas consideradas racialmente inferiores e os iam exterminando a todos. Quanto ao que um homem transtornado por desejos pessoais de vingança faria é um assunto. Outro assunto é o que o Estado lúcido e ponderado, na figura de seus magistrados deve fazer.

5 - Banalidade do Mal: O defensor da pena capital, em geral, não se dá conta de seu grau de comprometimento com a medida que propõe, pensa que, por caber a outros a execução do que propõe já nada mais tem a ver com isso. De novo o modelo nazista: o Führer não se sentia pessoalmente responsável pelo que acontecia fora de seu gabinete acarpetado onde as penas capitais eram decretadas, nem seus oficiais por meramente retransmitir ordens dadas, menos ainda os subalternos por cumprir aquelas ordens, todos burocraticamente distantes uns dos outros. Aqueles que defendem o assassinato institucionalizado no Brasil contemporâneo não querem comprometer-se, mas é preciso demonstrar, por mais chocante que isto possa parecer que cada vez que alguém comete o simples ato de erguer a mão para votar a favor da implantação desta excrescência em nossa legislação está sendo cúmplice em potencial de um assassinato a ser cometido pelo Estado.

A título ainda de reflexão, algumas citações interessantes em torno desta temática:

 

“Vim ao mundo para que tenham Vida e Vida em abundância!”

Jesus Cristo

 

“Nunca pode haver uma justificativa para a tortura, ou para tratamentos ou penas cruéis, desumanas e degradantes. Se pendurar uma mulher pelos braços até que sofra dores atrozes é uma tortura, como considerar o ato de pendurar uma pessoa pelo pescoço até que morra?”

Rodolfo Konder

 

“O que é a pena capital senão o mais premeditado dos assassinatos, ao qual não pode comparar-se nenhum ato criminoso, por mais calculado que seja? Pois, para que houvesse uma equivalência, a pena de morte teria de castigar um delinqüente que tivesse avisado sua vítima da data na qual lhe infligiria uma morte horrível, e que a partir desse momento a mantivesse sob sua guarda durante meses. Tal monstro não é encontrável na vida real.”

Albert Camus

 

“Quando vi a cabeça separar-se do tronco do condenado, caindo com sinistro ruído no cesto, compreendi, e não apenas com a razão, mas com todo o meu ser, que nenhuma teoria pode justificar tal ato.”

Leon Tolstói

 

“Pedirei a abolição da pena de morte enquanto não me provarem a infalibilidade dos juízos humanos.”

Marquês de Lafayette

 

 “ A pena de morte é um símbolo de terror e, nesta medida, uma confissão da debilidade do Estado.” 

Mahatma Gandhi

 

“Mesmo sendo uma pessoa cujo marido e sogra foram assassinados, sou firme e decididamente contra a pena de morte... Um mal não se repara com outro mal, cometido em represália. A justiça em nada progride tirando a vida de um ser humano. O assassinato legalizado não contribui para o reforço dos valores morais.”

Coretta Scott King, viuva de Martin Luther King

 

 

 

O inferno brasileiro

 

 

 

“Mas não é porque Camus viola a palavra “revolta” que a revolta lhe pertence. a revolta somos nós, e a revolta não sofre contatos impuros, permanece a revolta. Continuaremos a amar e nos revoltar e deixaremos os cães ladrarem. Assim forjaremos correntes que os manterão solidamente presos em seus canis fétidos” Adonis Kyrou

 

           

O que distingue a espécie humana de outras espécies animais, assim como das máquinas, segundo Bakunin, é a capacidade que temos de nos revoltar, de nos apaixonar e de raciocinar. Razão estéril, “desapaixonada”  é, quando muito, habilidade matemático-formal igualável ou mesmo superável por computadores bem programados, nem mesmo razão humana é. A razão nos caracteriza também, mas somente a paixão e a revolta nos distinguem como humanos!

Povo alegre, mesmo em meio às maiores dificuldades, fazemos piadas até com nossos problemas mais severos. Uma delas registra que um determinado cidadão falece e, como enriqueceu em demasia explorando o trabalho alheio - não havendo espaço para o culto simultâneo a Deus e a Mammon - deve encaminhar-se para o inferno. No registro em pauta, consta que haveria três alternativas: o inferno norte-americano, o inferno alemão e o inferno brasileiro. O recém-falecido dirige-se ao porteiro do inferno americano: “Como são as coisas por aqui?” O encarregado responde: “Caldeiras permanentemente ligadas a 500º centígrados e cem chicotadas de hora em hora”. Dirigindo-se assustado ao inferno alemão o encarregado local informa: “Aqui as caldeiras ficam ligadas a 1.000º centígrados e são aplicadas duzentas chicotadas no lombo a cada meia-hora”. A esta altura apavorado, dirige-se então à portaria do inferno brasileiro e já escuta um sambinha ao fundo... “Como é que são as coisas por aqui?” pergunta ao encarregado. O demônio à portaria do inferno brasileiro informa: “Caldeiras ligadas a 5.000º centígrados, 300 chicotadas a cada quinze minutos e, nos intervalos, o condenado tem de ingerir um balde de sujeira”. “Socorro! Volto ao inferno norte-americano, pelo menos lá as coisas não são tão dramáticas!” Ouvindo o comentário, o porteiro brasileiro chama o compatriota num canto e em tom de cumplicidade, corruptor e camarada, tom que sempre distinguiu o brasileiro de outros povos, informa: “Olha, isso aqui é o inferno brasileiro... A caldeira está parada há milênios por falta de peças. O encarregado das chicotadas quase não para por aqui; só vem, bate o ponto e faz “bico” nos outros infernos. Quanto ao resto, quando há sujeira não há balde e quando há balde não há sujeira. Assim sendo, o pessoal fica lá no fundo tocando um sambinha...”

Quantos traços da formação sociológica brasileira retratados nesta piadinha... A ineficiência crônica, a burocratização incompetente que leva “séculos” na reposição de peças nos serviços públicos, o burocrata a “marcar o ponto e fazer bico alhures”. Sobretudo o “favor”, o “jeitinho brasileiro” que mantém tudo um inferno, mas ameniza a situação dificultando toda a atuação voltada à modificação do quadro vigente.  Isto é o “Inferno Brasileiro”.

Aceitar as coisas como estão é um erro. Rir delas sem nada fazer a respeito é omissão criminosa (erro ainda mais grave!). Resta-nos a Revolta. Revolta contra o “favor”, o “jeitinho” que pode até salvar-nos a vida em algumas circunstâncias, mas nos mantém a todos escravos de um modelo pecaminoso, criminoso, infernal mesmo, mas “azeitado” e macio... As coisas funcionam muito mal; mas funcionam e permitem viver. Viver pessimamente, mas a vida se mantém.

A rigor, podemos afirmar que a ideologia do favor, do jeitinho, nasce no Brasil, segundo Maria Sylvia de Carvalho Franco, entre os “Homens Livres na Ordem Escravocrata”. As relações entre os senhores de terras e os escravos sempre foi muito clara no Brasil colonial. Mais complexas eram as relações entre os senhores e os “homens livres”, europeus, sem posses e sempre dependendo do favor de um mais poderoso até para poder prover a subsistência para si e sua família. Seria um absurdo inferir, às portas do terceiro milênio estarmos vivendo no Brasil o “Modo de Produção Feudal”. Não. Somos um país inserido no Capitalismo internacional. Periférico e cheio de contradições intrínsecas, o Brasil guarda contudo algumas “sobrevivências feudais” destacando-se entre elas este anacronismo, o “favor”, o “jeitinho”, que permite a alguns despossuídos que caem nas boas graças de um poderoso uma sobrevida um pouco mais condigna. Dentre estes usualmente estão aqueles que poderiam liderar um processo de libertação de um sistema entravado, anacrônico mesmo. Cooptados pelos donos do poder nada mais podem ou desejam fazer, passando, via de regra, a pensar em seu bem-estar e de seu núcleo familiar.

Esta aliás, a explicação de tantos contestadores juvenis chegarem à idade adulta transformados em conservadores mantenedores, voluntários ou involuntários da “ordem”...

  

“Cesse a filosofia do despojo e cessará a filosofia da guerra”

 

          O trecho acima é um breve extrato do discurso proferido por Che Guevara na ONU em 1962. Para quê tantas guerras, revoluções, rixas e violência meu Deus do céu? Já não basta o trabalhão que temos na tentativa, nem sempre bem-sucedida, de domesticar a Natureza, ainda temos de nos haver com disputas fratricidas que aparentemente não levam a nada, “é como correr atrás do vento”, como diz o Eclesiastes...

Vivemos hoje em dia numa situação em que a maioria das pessoas, até por uma questão de auto-proteção ou de mera sobrevivência, adotou uma moral dúbia. Praticamente todos pregam o que é justo, informam cerrar fileiras ao nosso lado na luta contra o Mal no mundo por um lado, enquanto que, por outro, na prática fazem  exatamente o contrário.

Não é possível utilizarmo-nos das mesmas armas do Mal para combatê-lo, pois assim nos transformamos precisamente naquilo que queremos banir do cenário. O combate ao Mal no mundo ainda é necessário, mas o grande exemplo ainda é aquele de São Miguel Arcanjo que, em sua luta contra o demônio disse: “Que o Senhor te repreenda!” Terrível coisa é ser repreendido diretamente pelo Altíssimo!

Coisas desagradáveis estão acontecendo no Brasil  e forças superiores às minhas movem-me a falar ou escrever sobre isso sempre que possa encontrar espaço ou platéia para emprestar-me sua atenção por alguns momentos. Em Exequiel 33, versículo 7 em diante registra-se: “Filho do homem, neste momento te constituo como atalaia (sentinela). Quando escutares de mim uma admoestação aos filhos do povo, retransmita-as rapidamente, para que o mal não recaia sobre você. Se o povo não se arrepender e deixar de cumprir a palavra que te transmito, já nada terás com isso. Se contudo te calares, de ti cobrarei todo o sangue derramado em vão.” Vejo o Brasil há séculos mal encaminhado politicamente. Também vejo disputas fratricidas a acontecerem e de novo esboçarem-se no horizonte. Às vezes chego a sentir-me mesmo como uma espécie de “atalaia”. Sentinela, sou também feito de carne e sangue como todo o mundo, mas tendo a colocar bastante ênfase no que digo ou escrevo. Humano, nem sempre capaz de seguir a orientação de São Miguel (“Que o Senhor te repreenda!”) uma vez que junto àquilo que vejo como sentinela, repreendo as pessoas, o que é um erro, sou meramente humano, não estou “acima do bem e do mal”. Em minha defesa informo somente da agonia que sinto ao ver sofrerem e morrerem dos nossos como moscas! Crianças, adolescentes, mendigos... E isso diariamente. Para não mencionar o aumento da criminalidade, da prostituição e do uso de entorpecentes como vã tentativa de fuga de uma realidade absolutamente insuportável. Tudo isso por causa da imoral concentração de riquezas nas mãos daqueles que só fazem o esforço anti-humanista de explorar seus semelhantes.

Em certa parte da vasta Obra de Shakespeare (nem sempre é possível localizar o endereçamento com precisão), diz ele: “Homem, ó orgulhoso homem, ignorante daquilo de que tem mais certeza, como um macaco furioso, fazes coisas tão fantásticas perante os céus que provocas lágrimas nos anjos!”

Os anjos são ainda mais sensíveis que as criancinhas. Provocar-lhes lágrimas é um verdadeiro crime!

Ganância, eis o cerne do problema. Parafraseando o “Che”: “Cesse a filosofia da ganância e cessarão todas as formas de miséria, toda a fome, todas as angústias humanas.”

Quisera eu dizer que não tenho inimigos ou mesmo adversários de qualquer natureza, mas como compactuar com o Mal? - Só para relaxar um pouco, conta-se que um eminente sacerdote estava pregando a uma grande platéia e solicitou que erguesse os braços aquele que não tivesse nenhum inimigo. Somente um velhinho simpático levantou a sua mão. Questionado quanto ao segredo de seu sucesso num campo tão difícil, respondeu: _ Matei todos eles! - Agora voltando, como aceitar calado que agentes do Capital julguem “patriotas” somente os poucos que defendem os interesses daqueles que estão no poder há séculos em nosso país, espoliando a maioria da população, que sorriem diante das objetivas de TV enquanto, nos bastidores, maquinam meios de ampliar a espoliação da maioria, como uma história de Robin Hood às avessas?

Esta espécie de pundonor que me impede de lutar mais aguerrida e gravemente contra os espoliadores é parecida com aquela que aconteceu com Arjuna no Baghavad Gita: “como posso erguer-me e lutar contra meus familiares - e nós, humanos, somos todos uma grande família - que alegria me traria uma tal vitória?” A resposta de Krishna ao príncipe e guerreiro perfeito segue atual, difícil mesmo é colocá-la em prática, como sói ocorrer, aliás, com a maioria das assertivas e recomendações religiosas: “Tens de agir corretamente. O não-agir a nada conduz. As más ações somente podem conduzir ao castigo divino. Só no reto agir há a possibilidade de uma vitória, dura, como todas m batalhas, mas uma vitória sem culpa e com a Redenção.” Mutatis mutandis é o que dizia São Paulo apóstolo: “Combata o bom combate!”

Possamos todos nós, irmãos que somos, chegar a viver em harmonia, suplantando todos os antagonismos que nos impedem de enxergar a verdadeira realidade “eclesiástica”: a vida é curta demais para que sejamos mesquinhos ou venhamos a agir erroneamente.

 

 

A maldição de Malinche

  

“Quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto com o mais importante... Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente...”  “Índios”, Renato Russo

  

“1492”, grande filme de Ridley Scott faz pensar, entre outras coisas na brutalidade da conquista colonial. Cristóvão Colombo, típico homem do renascimento, chegou a um Novo Mundo quando na verdade buscava e morreu persuadido de haver chegado ao Oriente por uma nova rota ocidental. Leitor ávido das aventuras de Marco Polo durante sua adolescência em Gênova Colombo persuadia-se de ser possível chegar ao famoso “Império Catai” - China - próximo às ilhas de Cipango - Japão -  através de uma nova rota marítima, “ao levante viajando em direção ao poente”. Jamais contando com a possibilidade, sequer remotamente aventada de existir um continente inteiro entre a Europa e a Ásia, julgou haver chegado por mar às ilhas de Cipango quando havia atingido o Caribe e lá ouviu falar de um poderoso Império no continente que nem chegou a conhecer (os aborígenes referiam-se à Confederação Azteca, mas Colombo julgava estarem a falar da China...). Como nos esclarece Tzvetan Todorov, é fascinante perceber como uma pessoa apaixonada e fanatizada por uma determinada idéia deixa-se levar por ela a tal ponto de todas as circunstâncias em torno estarem a informar-lhe estar efetivamente concretizando seus sonhos. A existência de papagaios e pessoas com olhos amendoados era claro indício a Colombo de haver chegado onde Marco Polo havia estado três séculos antes por caminho terrestre. Indício também de que estava próximo da riqueza e do esplendor relatado por seu herói dos tempos de menino.

Recebido pelos aborígenes como gente muito importante, “deuses” segundo a visão dos povos do Caribe, os espanhóis eram presenteados com o tão cobiçado ouro, a prata e ao perceberem suas intenções os chamados “índios” espertamente iam indicando direções longínquas onde estariam os grandes veios de riqueza que seus visitantes tanto buscavam.

Faça-se a ressalva de que Colombo liderou um movimento inédito e, profundamente cristão, pensava portar consigo a mesma missão que o santo de seu nome. Assim como Cristóvão levou Jesus Menino pelas águas de um rio caudaloso, Colombo ansiava por ser o portador da mensagem crística através do mar oceano aos povos de além-mar. Movia-lhe ainda o elã cruzadístico que a Europa finalmente conseguia reconquistar importantes territórios aos “mouros”, como Granada ao sul da Espanha no mesmo ano da vinda ao Novo Mundo. Queria enriquecer, buscava o ouro, especiarias e pedras preciosas mas era também movido por ideais “nobres”, como se percebe.

Somente após a viagem de Américo Vespúcio em torno do continente recém-descoberto, seguido da publicação de sua obra Mundus Novus é que a Europa percebe estarem lidando com um continente novo, não com aquilo que Colombo pensava ou propagandeava. Tristemente, Colombo pouco contato teve com as informações sequer trazidas por Américo Vespúcio, morrendo no ostracismo na península itálica o desbravador do “mar tenebroso”.

Um sujeito muito mais ambicioso e bem menos escrupuloso que Colombo, Hernán Cortez, com nenhuma cortesia e muita violência “conquista” o mundo azteca. Amparo Ochoa, poeta e cantora descendente de aztecas tem uma canção magnífica, intitulada “A maldição de Malinche” dando-nos uma idéia do que teria acontecido quando da chegada daquela nova leva de espanhóis...

“Do mar os viram chegar meus irmãos emplumados, eram os homens barbados, da profecia esperados...” Quando os aztecas em seu esplendor receberam a notícia da chegada de gigantescas naves, verdadeiros prédios a atravessar o Oceano, possivelmente sentiram algo parecido com o que sentiríamos ao receber visitantes de outra galáxia em nosso planeta hoje. E Quetzalcoatl, a divindade serpente-alada havia deixado Tenochtitlán, sede da Confederação Azteca, com a promessa de um brilhante retorno. Muito ligados às profecias em seus famosos “códices” os aztecas prestavam particular e acurada atenção a todos os sinais dos tempos. Tudo tinha de estar previsto, o tempo, para eles, não era visto de maneira linear, como para nós, mas de maneira circular, seguindo aqui Renato Russo mais uma vez: “O que aconteceu ainda está por vir”, é o eterno retorno, nenhuma grande novidade, eis que os deuses que partiram com Quetzalcoatl retornam...

Quarenta séculos, pelo menos, separam a cultura e a civilização européia daquelas encontradas no continente americano e, se o Homem do Renascimento aprendeu a utilizar-se abundantemente da simulação (fingir ser algo que não é), dissimulação (ocultar o que de fato é), fingimentos e mentiras, os “índios” encaminharam sua cultura e civilização na direção de manifestar-se com a transparência e inocência dos sonhos infantis. Diz Amparo Ochoa em sua música que houve um irrevogável erro de cálculo, um decisivo equívoco na avaliação dos visitantes, sempre homenageados com ouro e pedras preciosas em troca de espelhos brilhantes. Além disso, uma crença na boa-fé dos que chegavam com discursos pacifistas num momento partindo para o massacre e destruição segundos após o término de uma mensagem de paz, aí é que está, verberada e traduzida pela Malinche.

Malinche, consorte de Montezuma, por ter grande facilidade com idiomas, foi cooptada pelos espanhóis, tornou-se consorte de Cortez e fazia as vezes de intérprete, quiçá ingenuamente traindo sua própria gente. Como tudo precisa estar previsto em profecias dentro da mundividência azteca, cria-se mais uma, retroativa, informando que “caso uma consorte do tlatoani (aquele que fala, porta-voz do povo, “ditador”, num certo sentido) se passe para o lado do estrangeiro a Nação, o povo azteca, ficará escravo por trezentos anos”.

Esta a maldição que a Malinche traz a seu povo: “Ainda hoje, se vemos chegar homens loiros com alta tecnologia, tudo a ele cedemos. Mas se vemos chegar cansado um índio de tanto vagar pela terra, o humilhamos e o vemos como estrangeiro em solo que um dia foi dono dele” - outra característica marcante, jamais se encontrou no continente americano um povo que considerasse sequer remotamente a possibilidade de “ser dono da terra”, ao contrário, a terra sempre foi considerada superior e dona dos homens, daí o estranhamento com respeito às curiosas propostas de compra de suas terras por parte de seus primeiros e originários moradores.

“Ó maldição de Malinche, quando nos deixarás? Quando deixarás livre a minha gente?” clama ao final da canção, quase aos prantos, Amparo Ochoa. Tornou-se comum para algumas civilizações aborígenes ver o Estado Nacional colonial como um inimigo, uma maldição que, cedo ou tarde será varrida do mapa. No caso azteca, como muito bem nos ilustra a canção a que aqui me refiro. No caso Inca, tem-se um curioso sincretismo entre o culto solar - Inti, o disco solar em náhuatl - e o cristianismo. O Inca, imperador de todo o povo dos andes antes da chegada dos espanhóis, foi aprisionado por um antigo criador de porcos, Francisco Pizarro, libertado após prometer trazer o cobiçado ouro aos conquistadores, cumpriu a promessa, foi novamente aprisionado e esquartejado estando hoje, segundo a crendice andina, à espera do momento da ressurreição. Chamam a isto de “o Cristo repartido” que estaria se reagrupando e prestes a reerguer o antigo império Inca contra os colonizadores, o hoje Estado Nacional Peruano. Os mitos são muito importantes, como já disse, e retratam vividamente o que anseia a alma de um povo. Há insatisfação? Antigas profecias e novos mitos informam que este tempo de dores passará e logo virá a redenção, a abundância e a paz reinará onde se semeou tanta dor e destruição.

“Que bom! Estamos cercados de anjos!”

 

“Os anjos estão a serviço do amor incondicional de Deus

pelos homens” Terry Lynn Taylor

 

 

De tempos em tempos a angelologia ressurge no mundo, como se aqueles seres divinos, ocasionalmente se utilizassem de veículos humanos para lembrar-nos a todos de que não estamos sós. A frase que utilizo aqui como título foi por mim ouvida de uma menininha numa escola religiosa de educação infantil, o Colégio Santa Inês de São José do Rio Pardo. A epígrafe aprofunda a mensagem. Terry Lynn Taylor escreveu um trabalho muito bonito, editado no Brasil pela Cultrix/Pensamento, intitulado Anjos, Mensageiros da Luz, impelida por impulsos superiores a ela mesma, segundo diz na Obra, possivelmente verberando e reverberando idéias confortadoras a todos os que vivem nestes tempos sombrios.

Quantos de nós já sentiu um amor assim, incondicional? É assim que Deus nos ama. Não importa o que façamos, pensemos ou sintamos, estamos sempre ao alcance do amor incondicional de Deus por nós, basta que lhe estendamos as mãos e o pensamento e a qualquer momento o encontramos disposto ao perdão, à compreensão ao consolo...

Nós, humanos, usualmente condicionamos nossos sentimentos de amor a alguma coisa. Nos casos mais nobres à pura e simples correspondência. Se somos correspondidos em nossos sentimentos, o amor segue frutífero e, em geral, “a ingratidão desmancha a afeição”. Se dizemos coisas como “eu te amo enquanto for correspondido por você” ou “te amo desde que você não ultrapasse esta ou aquela barreira”, de Deus sabemos e sentimos que nos ama  incondicionalmente. E os anjos, seus mensageiros, espalhados pelo mundo, tal vez pousados entre uma e outra linha destes escritos, sorridentes, estão integralmente entregues ao serviço da felicidade de todos os homens, sem exceção, independentemente do que venhamos a sentir ou pensar acerca de um determinado fato da vida que é em grande medida uma tremenda ilusão dos sentidos.

De um ponto de vista mais “científico” ou cientificista, não há mal algum em acreditar em anjos se isso traz paz de espírito, tranqüilidade e até mesmo saúde física e mental. Teologicamente falando, são tantas as referências a anjos nos livros sagrados de todas as religiões que seria ilógico mesmo ser religioso e acreditar que os anjos estiveram na Terra tempos atrás, não se manifestando mais nos tempos contemporâneos.

Dentre as recomendações dos angelólogos, podemos enfatizar a necessidade da leveza, da alegria que nos fortifica as energias todas no agir cotidiano. Anjo é leveza, despreocupação, felicidade, otimismo, ajuda imediata em tempos de aflição ou angústia, até mesmo salvação em casos extremos!

Há quem veja neste processo de “ressurreição” da angelologia algo como “a nova face do velho demônio”. Visão tacanha, uma vez que nenhum reino dividido contra si mesmo sobrevive e, se Satanás promove o bem-estar e a felicidade, deixa de ser um anjo decaído, claro. Se pensarmos e mesmo conversarmos com os anjos e isso nos fizer sentir e fazer sempre o bem, qual é o grande problema? O papa João XXIII, Ângelo Giuseppe Roncalli tinha como costume, quando às vésperas de um encontro com alguém ou alguma delegação “hostil” ao Vaticano, conversar com seu anjo da guarda, solicitando que este entrasse em contato com os anjos da guarda dos outros envolvidos e se fosse estreitando os caminhos para que quando o encontro físico efetivamente se desse já se tivesse vencido algumas etapas. Fazer como  bom papa, seguir-lhe o exemplo neste ponto só pode ser benéfico. Mesmo se você for cético, há de concordar não haver mal algum em se pensar e seguir coisas que apontam na direção da bondade, beleza, verdade, justiça...

O Dhammapada, livro clássico do budismo informa:

 

“Nós somos aquilo que pensamos.

Tudo o que somos nasce dos nossos pensamentos.

Com o nosso pensamento construímos o mundo.

Fale ou aja com uma mente impura,

e os problemas o seguirão

como a carroça segue a parelha de bois.

 

Nós somos aquilo que pensamos.

Tudo o que somos nasce dos nossos pensamentos.

Com o nosso pensamento, construímos o mundo.

Fale ou aja com uma mente pura

e a felicidade o seguirá

como sua sombra, inabalável.”

 

Pensamentos e sentimentos puros, nobres, elevados, sublimes, atraem anjos à nossa volta tão inexoravelmente quanto o aroma das flores atrai colibris. Os anjos preferem o aroma agradável da alegria, da despreocupação, da leveza, da descontração. O fedor da sisudez, da carranca, das feições sérias, severas ou amedrontadas os repele. E é tão bom e salutar rir. Mas rir com o coração! Se você pensar bem, verá que não há nada de assim tão mortalmente sério neste mundo no período que vai de nossa alvorada ao crepúsculo desta curta existência. Estamos por aqui de passagem.

É certo que o noticiário do cotidiano do mundo tem muito de desanimador, mas há avanços concretos e esperançosos, também! Reunificação da Alemanha, fim da “Guerra Fria”, acordos entre Israel e OLP. Aos poucos os dirigentes percebem que agiam como meninos peraltas e percebem que suas brincadeiras de mau gosto não agradam a Deus, nem aos anjos e, o que é mais sério, não são operacionais a eles mesmos! A isto o grande psicanalista Hélio Pellegrino chamava com propriedade de “burrice do demônio”.

A vida, em síntese, pode ser comparada a um grande jogo de xadrez, por exemplo. Podemos jogá-lo eticamente, correta e até agradavelmente. Ou trapacear, fugir da realidade, “virar o tabuleiro”. Vencedores finais do jogo da vida são aqueles que, com a leveza e alegria dos anjos conseguem, malgrado o peso do mundo, tudo fazer para que um número crescente de pessoas seja cada vez mais feliz. 

O Anjo da História

 

 

 

“Onde aparece para nós uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe que continua a amontoar destroços sobre destroços e os arroja a seus pés. O anjo gostaria de se deter, despertar os mortos e reunir o que foi despedaçado, mas está soprando uma tempestade no paraíso que o impele irresistivelmente para o futuro a que volta suas costas, enquanto à sua frente o monte de ruínas cresce em direção ao céu. O que chamamos de “Progresso” é justamente esta tempestade” Walter Benjamin

 

Angelus Novus – Paul Klee

 

Dialogando com alguns amigos médicos, gente da mais elevada eticidade em tudo o que faz, seres humanos que têm muito de anjo, auxiliadores dos próximos, agentes ou lutadores pela cura, pela felicidade das pessoas, percebo o quanto de afinidades e similitudes existem entre nossas profissões: médicos e professores, que lidam com o humano, não com a materialidade mercadológica, têm em geral vida muito difícil, são muito maltratados pelos donos do Capital.

Filósofo, amante do saber, sinto falta de maiores conhecimentos acerca do funcionamento orgânico do ser humano em determinadas circunstâncias. Os médicos, por seu lado, também buscam conhecer mais acerca das mais diversas maneiras de ver o mundo que as pessoas têm tido ao longo dos séculos e, quando dialogamos, percebemos claramente as convergências, por assim dizer, de Hipócrates até Fritjof Capra.

Um dos pontos mais polêmicos do que temos visto, eu e alguns amigos humanistas, envolve justamente a questão do progressismo vago, sem finalidades humanas. Todos aplaudem os avanços tecnológicos, poucos param para pensar no elevadíssimo preço humano pago para se chegar a tais conquistas...

Quando Walter Benjamin analisou o Angelus Novus, tela de Paul Klee retratada na epígrafe a estas linhas - ressalvando-se que toda e qualquer pessoa que se dê ao trabalho de observar acuradamente uma dada pintura terá uma visão diferente - imediatamente seus próprios companheiros, marxistas apontavam falhas numa análise considerada “não dialética”: “Como? De costas para o futuro? Está politicamente errado!” Correção ou incorreção política, por sinal, é o que menos deveria contar na análise de uma Obra de Arte, convenhamos! O artista tem de ser livre de qualquer ingerência estranha ao seu campo de atuação ou genialidade. Pelo menos isso a humanidade deveria ter aprendido com as tentativas autoritárias, por exemplo, de Hitler à direita e de Stálin à esquerda, tentarem implementar uma forma qualquer de arte “politicamente correta” do ponto de vista do Estado forte. Arte é arte. Assim como a Cultura deve ter sua esfera própria e independente. Política é outra coisa, por favor!

Mas especificamente no quadro analisado, as duas esferas se entrechocam, instigando o pensamento crítico: O progresso invade lares, desagrega famílias, transforma e transtorna a sociedade, traz desemprego, polui, chacoalha, mói e tortura os humanos e ainda é aplaudido em programas populistas e popularescos da mídia (também fruto ou produto do “progresso”). Neste sentido, compreende-se o anjo, face torturada, observando a pilha de escombros a acumular-se à sua frente sem que nada possa fazer a respeito simplesmente por causa da “tempestade” chamada progresso. Basta! Ver o quadro, ler a respeito em Benjamin, faz com que tenhamos ganas de travar, sabotar ( como os franceses faziam no início da Revolução Industrial: meter o sabout no meio das engrenagens das máquinas frias!), paralisar o progresso para salvar o humano perdido na tempestade. Aí já se começa a ingressar no campo da política e a incomodar os cultores do progressismo, tanto à esquerda quanto à direita quando bradamos indignados: “Mais humanidade e menos progresso! Que a máquina sirva ao humano, não mais servindo-se dele!”

 

Chaplin

 

“Aos que me podem ouvir eu digo: ‘Não desespereis!’ A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia, da amargura dos homens que temem o avanço humano...” Charles Chaplin

 

 

Muito raramente a palavra “gênio” pode ser empregada com tanta propriedade quanto ao nos referirmos a Charles Chaplin, comparado por muitos a William Shakespeare. Sim, se o renascimento produziu gênios do quilate de Shakespeare, Bacon, Da Vinci, Maquiavel, a revolução industrial produziu gênios como Freud, Marx, Chaplin...

Antonio Gramsci recomenda comparar o desenvolvimento interno de uma dada teoria filosófica à estruturação interna de uma religião como o catolicismo, por exemplo. Assim como há a alta teologia e o catecismo - ambos com o mesmo eixo temático, a diferença residindo apenas no nível em que a mesma mensagem é transmitida a públicos distintos - sugeria o filósofo italiano o surgimento de um “catecismo marxista”, a fim de contribuir para acelerar o surgimento da consciência de classe para si do proletariado - evidentemente que tanto a mais elevada teoria marxista do conhecimento e o catecismo proposto guardando uma grande coesão interna.

Seguindo esta linha de raciocínio, podemos pensar em freqüências vibratórias. Muitos de nós podemos estar vibrando na mesma sintonia em que vibrava Chaplin, embora, claro, dificilmente com a mesma genialidade. Àqueles que conhecem e se importam com esta vibração, que poderíamos chamar inclusive de Alto Humanismo, recomendo observar de perto a história de vida do grande ator, diretor e produtor cinematográfico.

Nascido na Inglaterra nos últimos lustros do século XIX, a virada do século o encontra menino ainda, paupérrimo, envolto em severos problemas econômicos e domésticos. Filho de artistas fracassados, viu no teatro seu único campo de atuação humana possível. Começava a demonstrar seu enorme talento quando o cinema se impôs como a “sétima arte” atraindo-o irresistivelmente para Hollywood. Ao longo de toda a sua vida, protagonizou, dirigiu, produziu, escreveu e musicou mais de setenta filmes, a maioria dos quais mudos, mesmo quando o som ia se tornando uma obrigatoriedade dentro da “sétima arte”. Chaplin não queria que a fascinante figura do “Tramp” * falasse. Quando o cinema falado pressiona-o a mais não poder, o “Tramp” abre a boca no mais sublime dos discursos humanistas jamais ouvidos. Dele selecionei pequeno trecho para epigrafar estas linhas. O famoso “Último Discurso” do filme  O Grande Ditador, desmantela todas as absurdas teses do nazi-fascismo, reclamando ao humano o lugar que tanto merece.

Impossível a quem quer que seja falar em tantas coisas extraordinárias (compreendendo aqui a “fala” como discurso corpóreo também) sem ser pelos mais variados motivos vítima de intolerâncias e incompreensões. Por exemplo, Chaplin jamais se filiou a qualquer partido político, mas sua crítica mordaz a todas as formas de injustiça ou de brutalidade contra o humano - com particular ênfase à dimensão social - coloca-o claramente no campo da esquerda; seu perfeccionismo levava-o a passar dias e noites a fio envolvido no acabamento final de determinados detalhes de seus filmes; como era feito principalmente de sentimentos e somente circunstancialmente de razão **, apaixona-se desbragadamente por Hetty Moyra Kelly, então com dezesseis anos, de quem a vida o afasta cruelmente, sem que ele chegue a sequer tocá-la - e ele passa o resto de seus dias a buscá-la em todas as mulheres com quem se relaciona.

Chaplin atacava de maneira mordaz e genial toda e qualquer forma de autoritarismo, agradando a toda a gente que sempre acha sensacional “chutar o traseiro do guarda”, levando contudo um certo desconforto aos representantes da lei e da ordem... De todo o modo, esta tem sido a tônica dos humanistas do século XX: viver entre as paixões políticas e a busca incansável daquela pessoa que é o complemento humano único e obrigatório de cada um que, quando Deus nos criou, fez com que fôssemos radicalmente dependentes de outrem na esfera mais íntima de nossa constituição física e psíquica.

Quando percebemos quem foi e o que pensou Charles Chaplin, percebemos como é brilhante aquele que nos leva ao humor pela dor (ou vice-versa, o que é quase a mesma coisa). Poucos conseguiram fazer planger as cordas da nossa sensibilidade com tal grau de maestria! Talvez por isso mesmo tenha sido expulso dos EUA, a “grande democracia”...

Além da básica filmografia especificamente de Chaplin, dentre os quais destacam-se O Garoto, Tempos Modernos, O Grande Ditador,   e  Luzes da Ribalta  (este último verdadeiro “testamento poético” do grande gênio); há que se assistir também a  Chaplin , do diretor britânico Richard Attenborough, referência obrigatória. Quando a mesquinhez do cotidiano ameaçar incomodar-nos, façamos como os surrealistas, refugiemo-nos no sonho, na fantasia, no delírio até - que muitas vezes encontramos mais traços de realidade no chamado delírio que nas vãs ilusões do cotidiano. 

 

A Ideologia do Trabalho

 

 

“Alega-se que, com a abolição da propriedade privada, toda a  atividade cessaria, uma inércia geral se abateria sobre os homens. Ora, se esta linha de raciocínio estivesse correta, há muito que a sociedade burguesa teria sucumbido pois os que nela trabalham mais são aqueles que menos lucram, enquanto os que mais lucram são justamente os que menos trabalham” Karl Marx

 

Há algum tempo, participei de um congresso sobre “Informatização e o aumento da produtividade de empresas a baixo custo”. Realmente, precisaremos nos modificar bastante para aceitar um mundo novo, onde não haja necessidade de tanto trabalho humano quanto hoje para que se obtenha a mesma produtividade. A se notar a tendência histórica à diminuição da jornada de trabalho, sem concomitante diminuição salarial. Antes da “onda” neo-liberal tomar conta do mundo muitos avanços trabalhistas foram conseguidos a partir de muita luta por parte dos trabalhadores.

Nos primórdios do capitalismo, o burguês pagava ao operário somente as horas trabalhadas, e não havia limite - era comum, na Inglaterra do início do século passado trabalhar-se 12 a 15 horas por dia, sete dias por semana! - hoje temos um quadro totalmente diferente: férias e repousos semanais remunerados, por exemplo, previdência social e por aí vai. Entristece um pouco perceber-se uma tendência a um  retrocesso parcial e de resto dialeticamente inevitável, neste campo...

Mas foram lutas, freqüentemente violentas, entre a classe trabalhadora e os donos do poder, que possibilitaram estas e outras conquistas. O 1º de Maio, por exemplo, relembra justamente um tremendo massacre de trabalhadores grevistas em meados do século passado em terras do Tio Sam. Virou Dia Internacional do Trabalho, curiosamente exceto nos EUA.

Se antigamente houve trabalho escravo, depois trabalho servil, hoje há o trabalho assalariado e estou 100% seguro de que daqui a uns cem a duzentos anos se falará em “trabalho assalariado” como hoje se fala em escravidão ou servidão, nos bancos escolares em aulas de história ou seu equivalente na Sociedade do Futuro.

Convenhamos, vender o próprio corpo é mesmo degradante. E que é o trabalho assalariado se não a venda de partes do corpo para usos diferenciados em locais e finalidades diversas? Os pedreiros vendem seus braços para a construção civil, os camponeses os vendem para a lavoura, intelectuais vendem o uso de seu cérebro para Instituições culturais, as prostitutas vendem outras partes de seus corpos para outras finalidades e assim o capitalismo segue.

Perceber coisas desta magnitude num país com elevadas taxas de desemprego a coisa deixa de ser meramente degradante, tornando-se mesmo vexatória! Como se não bastasse esta perversidade, esta perversão, ao desempregado acaba sendo imposta a “culpa” pela sua própria desgraça.

Uma curiosidade apenas: a burguesia apresenta uma tendência a pensar que é o trabalho e pelo trabalho que os homens se fazem livres. Chegaram mesmo a, em outros tempos deixar esta sugestiva inscrição na entrada de alguns de seus grandes templos como o de Spandau e Treblinka, no centro da Europa antes da metade do século XX. Será que a assertiva “Arbeit macht Frei”, (o trabalho liberta) pode ser aceita de maneira completa, total, absoluta, sempre?

Como dizem sabiamente os teóricos da Escola de Frankfurt, só conseguimos acreditar na existência de uma sociedade como a nossa porque ela existe. Caso não houvesse um exemplo prático, uma sociedade assim tão louca seria impensável!

Tempos chegarão, em que as pessoas exercerão as tarefas que lhes aprazem pelo tempo que possível lhes for, graciosamente e todos terão o direito de levar consigo tudo aquilo de que precisam. Acredito na fórmula socialista utópica neste tópico: “De cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades”, sem necessariamente o envolvimento de qualquer tipo de metal sonante.

Leitor ávido e espectador atento de ficção científica, vejo no modelo implantado no seriado criado por Gene Rodenberry, Jornada Nas Estrelas o grande modelo esperançoso para a Sociedade do Futuro; ali a tecnologia mais avançada está a serviço do humano. Em outras obras, como O Exterminador do Futuro vemos um futuro possível muito pouco otimista mas lamentavelmente possível a seguir-se o atual curso de orientação sócio-econômica: as máquinas dominando o humano e exterminando-o quando se rebela - em termos metafóricos este último modelo já existe em esboço no mundo, infelizmente.

Com tudo isso, dentro da consciência esperançosa e antecipadora, vejo feliz como possível um domínio da coisa morta, da materialidade mercadológica pelo ser humano vivo, feliz e trabalhador espontâneo, com a supressão de qualquer forma de coercitividade.

 

 

O Homem e o Infinito

 

 

“Diante da vastidão do Espaço e da imensidão do tempo,

é uma felicidade partilhar o mesmo planeta e a mesma época

que você.” Carl Sagan

 

 

“Temos de arder juntos! Se eu não ardo, se tu não ardes, se nós não ardemos, quem combaterá as trevas?” Nizim Hikmet

 

 

Faz tempo me anima a convicção de que há tanta riqueza no mundo que uma organização minimamente racional da política econômica internacional erradicaria definitivamente males que, à beira do terceiro milênio, afligem ainda milhões de seres humanos. De fato, no nível de desenvolvimento atual da Espécie Humana na Terra, é chocante vermos os mesmos seres capazes de manter estações orbitais, viajar à Lua e enviar sondas espaciais ao infinito a disputar barbaramente entre si o pão, a morada, a roupa, o amor...

Sem interromper os maiores avanços tecnológicos promotores do humano no universo, apenas realizando uma justa distribuição das riquezas por todos produzida, as coisas básicas ao homem como a alimentação, a morada, a vestimenta, a saúde, a educação, podem ser fornecidas a todos ao mesmo preço que se fornece o ar ou a água. É o que postula, por exemplo, Erich Fromm, um dos teóricos humanistas da Escola de Frankfurt.

Que a disputa entre os seres humanos, se tem de se dar, ocorra em outro nível que não o da sobrevida material! Enquanto existirem seres humanos desesperados por conseguir condições mínimas de vida sem lograr êxito por mais que trabalhe por um lado e, por outro, gente que tem muitíssimo mais do que precisa fazendo simplesmente o esforço anti-humanista e anti-cristão de conservar a estrutura concentradora de rendas que lhes é benéfica, enquanto este quadro persistir, persistirá a barbárie de crimes hediondos, frutos todos eles da exploração imoral, injusta e injustificável do homem pelo homem. E não adianta criar máquinas punitivas ou repressivas de desesperados (como aparelhos de extermínio) à saída da máquina produtiva, isso só faria o Estado retroceder a um estado de barbárie totalmente anacrônico, além de combater só os “efeitos”, deixando intocadas as causas da barbárie, reificando-a, portanto. Há que se combater a miséria e o desespero, não os miseráveis ou os desesperados!

Tem mais: nós já temos tantas dificuldades no trato com a Natureza - geadas, chuvas torrenciais, ausência prolongada de chuvas, tempestades, incêndios, doenças incuráveis como o câncer ou a AIDS - que a perda de potencial humano em lutas fratricidas resulta completamente irracional mesmo! A guerra não declarada, velada, insidiosa, dos donos do poder contra os geradores da riqueza das nações precisa ser superada para que a Espécie Humana possa efetivamente progredir e ir mais longe na domesticação, na humanização da natureza e em conquistas universais muito mais elevadas.

 

 

A Nova Era

 

“... Jesus expelia um demônio que era mudo. Tendo o demônio saído, o mudo pôs-se a falar e a multidão ficou admirada. Mas alguns deles disseram: ‘Ele expele os demônios por Belzebu, príncipe dos

demônios’. E para pô-lo à prova, outros lhe pediam um sinal do céu. Penetrando nos seus pensamentos, disse-lhes Jesus: ‘Todo o reino dividido contra si mesmo será destruído e seus edifícios cairão uns sobre os outros. Se pois, Satanás está dividido contra si mesmo , como subsistirá o seu reino?...’” Lucas 11, 14-18

 

 

Há no mundo contemporâneo um gigantesco movimento, escassamente articulado, com poucos contatos, mas com seus membros e participantes falando aproximadamente o mesmo “idioma”. Tomemos, a título de exemplo, alguns de seus expoentes mais notáveis: John Lennon, Carlos Castañeda, Fritjof Capra, Roger Garaudy, Joseph Campbell, Plínio Marcos...

O que diz esta gente toda? O que pensam aqueles que lêem e com eles concordam?

“Haja paz no mundo em que vivemos!”. Propõem o aproveitamento daquilo de melhor que a mente humana já pode atingir em termos de filosofia, política e religião; anseiam por um mundo sem fronteiras, sem ódio, sem medo, sem guerras, sem intolerância. Em seus projetos consta aproveitar o que de mais avançado existe na Bíblia cristã, no Alcorão, na Gita, no Tao-te-king etc. Tudo o que tiver valor e beleza; falar em harmonia e união; em compreensão, tolerância e perdão precisa ser considerado para a nova perspectiva. E isto é válido  não apenas para os aspectos religiosos em si como também para aqueles científicos, filosóficos, políticos e tudo o que possa trazer avanços à humana espécie nesta fase de transição.

Como cristão (claro que não-ortodoxo), pergunto: é concebível haver paz fora da perspectiva cristológica ou, como dizem os detratores da Nova Era, “paz sem Cristo”? Todo o cristão é, por definição, um homem novo e percebe a plenitude da Paz existente em Cristo. Como poderia um cristão conceber a paz sem percebê-la em sua perspectiva cristológica? Palavras do Mestre: “Um reino não subsiste dividido contra si mesmo!” Quem prega e pratica a paz, só pode estar plantado muito próximo - senão mesmo dentro - da agonística cristã, quer o assuma formalmente ou não, pois Cristo, filho unigênito de Deus é, entre outras coisas e por definição teológica PAZ em essência.

Não fosse o aviso dos pastores sectários principalmente e dos padres ultra-ortodoxos em segundo lugar, a maioria sequer perceberia haver este movimento no mundo. Quando vemos uma quase unanimidade dos conservadores contra a chamada “Nova Era”, ficamos no mínimo curiosos e buscamos maiores informações a respeito. De fato, rabinos, padres, pastores, pais-de-santo e toda e qualquer espécie de liderança religiosa ortodoxa expressiva, ao perceber o surgimento no horizonte dos esboços de algo novo no horizonte, algo realmente incrível acontece: uma união colocando muçulmanos, judeus, cristãos, budistas, xintoístas e representantes de outras correntes ortodoxas da religiosidade no mundo numa espécie de “Santa Aliança” contra o novo. Há alguns que, pouco informados a respeito, chegam a ponto de dizer sandices como: “nem sei do que se trata, mas não aprovo!” O irracionalismo humano não tem limites quando quer se expressar. Pena.

Um destes panfleto difamatórios, não sei bem se católico ou evangélico, tão similares são as posturas de ambos ante a Nova Era trazia coisas tão hilariantes que só não pude chegar sequer a um esboço de sorriso pela seriedade com que utilizavam palavras contra os humanistas que vemos a possibilidade de chegarmos todos a um mundo melhor, a uma vida melhor e até mesmo, quem sabe, a um acordo religioso, pan-ecumênico mesmo.

O panfleto fazia uma confusão com símbolos e nomenclaturas que, para quem  entende um pouquinho de esoterismo, soa absolutamente ridículo - particularmente pelo exagerado número de agressões ao vernáculo no texto em pauta... Exemplos: O Tao, símbolo chinês de mais de cinco mil anos, representaria uma “aliança entre o homem e o demônio” (e o texto apelida o demônio e suas hostes de “Forças Cósmicas” seja lá o que for que isso possa significar àquela mundividência tacanha).

Todos sabem que o Tao representa o equilíbrio, a busca do “caminho do meio” do reto-agir, a aliança - aí sim! - entre Deus e o homem, entre o homem e a natureza e mesmo entre o homem e a mulher. Note-se que, no símbolo em discussão, há um ponto preto no “peixe” branco e um ponto branco no “peixe” preto, como a recordar que há um pouco do divino no humano e vice-versa, há um pouco da mulher no homem e vice-versa, há um pouco da Natureza no homem e vice-versa...

A cruz ansata, que os egípcios há mais de seis milênios chamavam de Ankh é apresentada no referido panfleto como “pregadora do desprezo aopudor e à virgindade”. Só que o Ankh representa, como todos sabemos, a continuidade da vida, a existência de algo após a morte, coisas rigorosamente sem qualquer eivor de conotação sexual!

O mais escabroso mesmo foi ver o símbolo da paz criado pelos hippies norte-americanos na década de 60 - o “faça amor, não faça a guerra” - apresentado como “cruz de Nero”, a que se seguia uma “explicação” de que “trata-se da representação da paz sem cristo, observem-se os braços da cruz como que caídos...” Mas somente pessoas com severos problemas psiquiátricos poderiam imaginar possível que o inimigo de Cristo pregasse a paz  fosse como fosse (um reino dividido não subsiste...) e, o que é pior: sob a chancela de ninguém menos que o Imperador Nero, morto cerca de vinte séculos antes que aquele símbolo fosse criado!

Em prol da vida, sejamos nós capazes de perdoar estas tristes demonstrações de intolerância; os defensores deste mito novo, desta formação religiosa nova pregam pura e simplesmente paz e amor entre todos os homens...

 

 

Consciência Cósmica

 

O médico canadense Richard M Bucke, num trabalho de mais de setecentas páginas que interessa em muito a todos aqueles que trabalham ou de alguma forma se dedicam a temas como “educação”, “evolução humana”, “humanismo” e congêneres, trabalho a que intitulou Consciência Cósmica, editado no Brasil pela AMORC, defende a interessante tese de que estamos em processo evolutivo milenar, senão vejamos.

Entre os minerais não percebemos crescimento notório, reprodução, mobilidade, sensibilidade, etc. Não são reconhecidamente dotados do que poderíamos - à falta de expressão mais adequada - chamar de “vida” como a compreendemos.

O reino vegetal, um pouco mais complexo, comporta reprodução, crescimento, alguma mobilidade, como as raízes que penetram subsolo abaixo seguindo as correntes hídricas ou os galhos que, pontuados por folhas buscam a luz solar. Com tudo isso, não se tem aceitação “científica” de qualquer forma de consciência no reino vegetal.

Quando chegamos aos animais, o que os caracteriza mais ostensivamente é a percepção de que são efetivamente dotados de uma forma, ainda que rudimentar, de consciência. Uma consciência coletiva, integrada à natureza em sua plenitude. Têm memória, reflexos, mobilidade, reprodução (na maior parte dos casos sexuada)... Não são dotados de uma autoconsciência, ou seja, de serem separados da natureza individualmente.

Ao chegarmos aos seres humanos, percebemos que, além das características simples existentes no reino animal, encontramos o surgimento da autoconsciência, plenamente desenvolvida hoje entre homens desde aproximadamente os três anos de idade; esta característica nova, a autoconsciência, começou a surgir entre os primeiros hominídeos em raros e esporádicos casos, nos quais alguns seres humanos, por algum motivo,  davam este “salto evolutivo” naquela direção, via-de-regra, entre 35 e 42 anos de idade, passando, a partir daí, a fazer parte do patrimônio genético-biológico da humana espécie e hoje, somente em raros casos de esquizofrenia, oligofrenia, idiotismo ou outra patologia nesta direção deixa-se de encontrar a consciência de ser alguém à parte da Natureza entre os seres humanos.

Agora o avanço mais difícil: segundo dr. Bucke, há cerca de cinco milênios começaram a surgir casos raros e esporádicos, sempre também via-de-regra entre os 35 e os 42 anos de idade, de seres humanos que transcenderam a sua condição, atingindo aquilo que o Autor chama de Consciência Cósmica. Dentre os casos perfeitos e completos de Consciência Cósmica arrolados pelo Autor, cito aqui Akhenaton, Lao-Tse, Moisés, Pitágoras, Buda, Jesus Cristo, São Paulo, Maomé e Walt Whitman.

Esta nova consciência, esse novo “salto evolutivo” traz consigo algumas características que passam a distinguir seu detentor, quais sejam:

Iluminação Súbita - Após um período mais ou menos longo de meditações numa vida dedicada a ideais religiosos, unificadores, o homem cosmicamente iluminado entraria num período mais ou menos prolongado de Paz Profunda.

Grande Elevação Moral - A consciência cosmicamente iluminada raramente comete erros conscientes ou demonstra ter quaisquer defeitos na dimensão moral especificamente falando.

Grande Elevação Intelectual - O homem cosmicamente iluminado está tão distante do homem dotado de mera autoconsciência quanto o indivíduo auto-consciente está distante daquele que manifesta ainda uma consciência indivisa, ou seja, aquele que atingiu a Consciência Cósmica está para o homo sapiens como este para os outros animais.

Perda do Temor da Morte - Pela simples conscientização de que a morte é pura ilusão dos sentidos. Não existe um “fim” para a vida; esta segue sempre em frente!

Imantação da Personalidade - Um grande encanto é acrescentado à personalidade do Iluminado, fazendo com que se transforme num verdadeiro ímã atrator irresistível de outros seres também sequiosos por chegar àquele novo degrau evolutivo.

Como nos outros casos, claro, dentro de mais alguns milênios este novo “salto evolutivo” estará geneticamente incorporado aos seres humanos que passarão a ser - todos - dotados de Consciência Cósmica já na infância. Uma visão ou perspectiva no mínimo otimista e esperançosa e todos precisamos de uma boa dose de otimismo e de esperança nos dias que correm.

 

Esperança

 

 

“É preciso ter esperança até que nossos inimigos morram de raiva” Nizim Hikmet

 

 

Quando no fundo do poço, o melhor a fazer é ter fé, confiar, sorrir e mantermo-nos abertos ao retorno do sucesso. Assim como o perdão possibilita-nos um maior controle sobre o passado, o mesmo o faz a Esperança quanto ao Futuro.

Será preciso esboçar, traçar, construir, elaborar maquetes, ensaios e poesia que falem acerca daquilo que almejamos para o futuro. É fundamental ter as metas traçadas, ainda que apenas em esboço, vital sabermos para onde queremos nos dirigir caso contrário seremos levados por outrem a lugares e situações não-almejadas.

Em momento amargo de minha existência, cheguei a desabafar coisas como “a esperança é um mal, o último dos males da caixa de Pandora, como dizia Nietzsche”. Não! Mil vezes não! A Esperança é uma das coisas mais importantes e relevantes de nosso viver no mundo. Não importa quantas vezes a vida nos acene e brinde com as mais duras provações. Quantas e quantas vezes pensamos em desistir de um dado projeto para, minutos depois, recebermos o prêmio há muito ansiado? Numa de suas Cartas a Milena, Franz Kafka enfatizava: “... mas pouco depois chegaram cartas e flores, bondades e consolação!” Esta única frase fecundou em meu inconsciente o único de meus contos de que até hoje não me arrependo de ter escrito, o Felipe, que faz parte desta suma. Fala de um sujeito, humilhado e ofendido de maneira gravíssima que chega à última desistência, ao fim mesmo de sua existência mas, pouco depois, tudo aquilo por que esperava chega de maneira abundante e plena. A mensagem fica em várias modulações ao longo dos séculos: Jamais esmoreça! Nunca desista! Siga em frente! Se não por amor próprio, para fazer ferver de raiva aquela absurda e sempre presente “torcida contra”.

 

Fé e certeza

 

Curiosamente, a filosofia nos leva a tanta incerteza que por vezes sentimos o chão faltar-nos sob os pés. Ocorre que não há quem ou o quê se sustente ou subsista debaixo da incerteza. Nossas certezas, por precárias e imperfeitas - por definição imprecisas - que sejam, nos sustentam vitalmente no mundo. Não teríamos como apreciar a beleza de um crepúsculo, de preferência bem acompanhados, se a todo o instante nos assaltassem certezas outras que nos deixassem aturdidos como o estar num planetinha a girar, daí a impressão crepuscular de um belo “por-do-sol”, ao lado de um curioso conglomerado orgânico à base de carbono. Sabe do que mais? A incerteza, além de fazer mal ao romantismo faz mal à saúde! Recordo-me de haver feito trabalho de campo junto a algumas pessoas da terceira idade - nonagenários, mesmo! - na única Igreja Positivista do mundo, lá na Glória, zona quase sul do Rio de Janeiro, e fiquei espantadíssimo com a vivacidade daquelas senhoras e senhores. Todos têm “certezas” que a maioria de nós repudia, por exemplo: “o homem tem capacidade intelectual superior à da mulher”, “o aprendizado das pessoas deve dar-se por fases e etapas complementares, conforme preconizava Comte”, “o conhecimento humano, aquele que leva à Religião da Humanidade, deve dar-se em três etapas obrigatórias: metafísica, monoteísta e positiva” e outras congêneres, algumas ainda bonitas, outras nem tanto, mas todas com muita ênfase e certeza. A saúde daquelas pessoas as levará cada vez mais longe na existência.

Nós outros, vacilantes e temerosos amantes do saber, aprendemos a relativizar tanto que mesmo perguntas banais merecem reflexão em profundidade. Pergunte-se a alguém de nosso tempo se está quente ou frio, não importa a temperatura que faça ou a época do ano e a resposta, se a pergunta tem eivores de profundidade, será invariavelmente: “depende”. Até porque por aqui está sempre mais quente que no Ártico e mais fresco que no Saara...

Nem mesmo sobre o tempo se pode conversar banalmente hoje em dia.

Foram-se os dias em que se tinha em comum com a outra pessoa pelo menos a sensação de tempo. Num dezembro destes queixei-me de chuvas torrenciais e fui advertido: “É uma bênção! Já pensou se isto aqui fica igual ao sertão nordestino?” Então tá. Fica assim: a chuva é uma bênção para a lavoura e um castigo para professores pedestres.

 

 

A Estrela Verde

 

 

 

“Assim como o perdão nos possibilita o controle sobre o passado, a Esperança nos permite o controle sobre o futuro.”

Hannah Arendt

 

 

Com licença da AMORC - Brasil, passo neste ponto a compilar um belo conto narrado pelos rosacruzes brasileiros em momentos de divulgação de seu pensamento:

 

“Era um vez, milhões e milhões de estrelas no céu. Havia estrelas de todas as cores: brancas, lilases, prateadas, douradas, vermelhas e azuis. Um dia, elas procuraram o Senhor Deus Todo-Poderoso, o Senhor Deus do Universo e disseram-lhe: ‘Senhor Deus, gostaríamos de viver na Terra, entre os homens...’ “Assim será feito” - respondeu Deus - “conservarei todas vocês pequeninas como são vistas e podem descer até a Terra.” Conta-se que naquela noite houve a mais linda das chuvas de estrelas. Algumas aninharam-se nas torres das igrejas, outras foram brincar e correr com os vaga-lumes dos campos, outras misturaram-se aos brinquedos das crianças e a Terra ficou maravilhosamente iluminada.

Passado algum tempo porém, as estrelas resolveram abandonar os homens e voltar para ao céu, deixando a Terra outra vez escura e triste. “Por que voltaram?” perguntou Deus à medida em que chegavam novamente ao céu. “Senhor, não nos foi possível permanecer na Terra; lá existe muita desgraça, muita fome, muita violência, muita injustiça, muita maldade, muita doença.” E o Senhor lhes disse “Claro, o lugar real de vocês é aqui no céu, estamos no lugar da perfeição, no lugar onde tudo é imutável, onde nada perece.” Depois de chegadas todas as estrelas e conferindo-lhes o número, Deus tornou a falar: “Mas está faltando uma estrela... Perdeu-se pelo caminho?” Um anjo, que estava perto, replicou: “Não, Senhor, uma estrela resolveu ficar entre os homens. Ela descobriu que o seu lugar é exatamente onde existe imperfeição, onde há limites, onde as coisas não vão bem.” “Mas que estrela é essa?” - voltou Deus a perguntar. “Por coincidência, Senhor, é a única estrela dessa cor.” “E qual a cor dessa estrela?”- insistiu Deus. E o anjo disse: “A estrela é verde, Senhor, a estrela verde do sentimento da esperança.” Quando então olharam a Terra, a estrela já não estava só. A Terra estava novamente iluminada, porque havia uma estrela verde no coração de cada pessoa. Porque o único sentimento que o homem tem e Deus não tem é a esperança. Deus já conhece o futuro, enquanto que a esperança é própria da Natureza Humana. Daquele que cai, daquele que erra, daquele que não é perfeito, daquele que não sabe ainda como será o seu futuro.”

 

 

A Incrível Religião do Individualismo

  

Vivemos numa sociedade competitiva, de mercado, periférica ao capitalismo central, subdesenvolvida econômica e espiritualmente que só consegue encontrar “saídas” - raras, raríssimas - para indivíduos. E o indivíduo que consegue libertar-se, não raro desonestamente, de toda a opressão imposta, tende a reificá-la transformando-se em opressor também. E esta secular e perversa estrutura individualista se reproduz como um câncer, obliterando a razão, as emoções e os sentimentos das pessoas. Quer-se, acima de tudo, o “bem” para si próprio - seja lá o que for que isto signifique dentro de um contexto humano! Raramente se pensa ou se trabalha em prol da coletividade, e isso mesmo dentro do meio político, com situacionistas e oposicionistas acusando-se mutuamente de utilização privada do espaço público!

Como regra geral as pessoas buscam individualmente uma saída qualquer para a escravidão, a miséria, a loucura em que o século XX se enfiou. Em sua luta individual pela libertação, o homem se esquece de fatores fundamentais, como o fato de haver mais gente em igual situação e a ação coletiva tenderia a ser muito mais eficaz que a busca solitária.

Ou há liberdade para todos ou ela não existe de todo!

As poucas liberdades individuais conseguidas em raríssimas ocasiões são aquelas em que o “prego” passa a ser martelo mas a pancadaria continua. Que “liberdade” é essa, afinal?

Além desta loucura institucionalizada, há mais, talvez até em decorrência disto: clientelismo, analfabetismo, desemprego, frustrações, ignorância, prostituição, violência, miséria... Para onde se volte o olhar, vemos o mesmo quadro. Estamos devastando o mundo, agredimos a natureza e agredimos a nós mesmos ao agredirmos outras formas de expressão da natureza além da sociedade humana.

A sociedade industrial encontra-se aparatada para estraçalhar a Vida, que, apesar de tudo, segue subversivamente existindo, vivendo, amando. O tremendo e quiçá inconsciente suicídio coletivo que a sociedade humana está em vias de cometer e foge à percepção da maioria é de tal modo absurdo que mal dá para acreditar! Desta maneira, encontrar uma forma de inserção social no mundo que agrida o menos possível o que de mais inocente e nobre existe em cada um é dificílimo, mas fundamental.

O homem, já nos aponta José Carlos Mariátegui em O Homem e o Mito é um “animal metafísico”: não se vive fecundamente sem uma concepção metafísica de vida. Estou convencido de que a forma de inserção no mundo que todos temos, como pulsão básica a reger nossas vidas, como uma alternativa ou probabilidade de saída da loucura é a religião em seu sentido mais sublime.

Há a religião cristã, a muçulmana, a judaica, a hindu, a budista... Há também a “Incrível Religião do Individualismo” que, hoje, conglomera o maior número de seguidores jamais imaginado como possível! Enfim, quando os homens defendem seus pontos de vista frente a outros homens, freqüentemente utilizam-se do artifício de “disfarçar” o nome da proposta para não assustar seu ouvinte. Com a proliferação das seitas pseudo-cristãs, do tipo templo é dinheiro, há aqueles que pregam coisas como: “Não é religião, é Cristo!” Os defensores da incrível religião individualista apresentam-se, de fato, em seus discursos anti-humanistas como “defensores da livre-iniciativa”. No ritualismo demente da Incrível Religião do Individualismo, o burguês médio acende uma vela para si mesmo e outra para Mammon.

Aquele que, contra a natureza, correu sozinho até a liberdade, agrediu tanto a sua própria alma que hoje precisa de um “médico de almas”. E a religião individualista apresenta orgulhosa seus novos sacerdotes: é o psicólogo, o psicanalista, o psiquiatra, psi... E o poder individual, o Führerprinzip da sociedade moderna encontra plenas justificativas aqui nestas novíssimas ciências. Ainda assim há o homem. O ser humano natural, sepultado debaixo de grossas camadas de hipocrisia com que se protege do seu próprio medo e do ódio dos demais. Por trás disso tudo não há mais que uma criança inocente, boa, alegre mas muito assustada. O homem natural busca satisfações naturais a seus anseios naturais.

A cultura, saber coletivo, é tão natural para o homem quanto sua herança genético-bilógica. O desvio da cultura (saber coletivo) “para dentro” é tão incrivelmente despropositado quanto as guerras. Já temos tantos problemas na domesticação da natureza, na humanização das forças naturais que o desvio das considerações intelectuais humanas na direção da destruição tecnológica de outros seres humanos é, evidentemente, um despropósito!

A criação ou o surgimento de uma cultura individualista é uma fantástica contradição, só crível porque existente. Pior: hegemônica!

Urge superar a violência da sincrética religião burguesa/individualista e criar um mito novo, fundado no Amor, na livre imaginação, nos sonhos e na Verdade. Isto só pode fazer sentido, claro, numa atuação coletiva em busca de uma nova forma de convivência social que liberte os seres humanos do medo e do ódio, fundando novas formas de relacionamento que abalarão até os fundamentos de uma sociedade assim absurda!

Na sociedade do futuro, fraternidade, liberdade, igualdade serão mais do que meras bandeiras levantadas por escassos idealistas ou mesmo por intelectuais que sequer conseguem sair da academia para a rua em busca de unir-se ao povo em suas justas reivindicações. Na sociedade do futuro, o bem-estar físico e mental de todos os seres humanos do planeta estará erguido à posição prática coletiva daquilo que se pode chamar, com licença da Teologia da Libertação, de Construção do Reino de Deus na Terra.

  

O fanatismo da descrença

  

Quantas religiões existem no mundo comprovam que o ser humano é, com efeito, um animal metafísico. Não se vive fecunda ou plenamente sem uma visão cosmogônica, que dê respostas satisfatórias a todas as perguntas.

Independentemente de se crer em seres supra ou infra-humanos, como deuses, anjos ou demônios em teologias várias, os credos todos caracterizam-se, antes de mais nada, por uma união de sentimentos, emoções e visões de mundo. Segundo os positivistas Comte e Durkheim, quando as pessoas se reúnem em alguma espécie de templo estão, em verdade, reafirmando sua cultura, seu apreço pelos que compartilham das mesmas opiniões acerca de várias coisas, sua unidade ética, enfim. Os positivistas compreendem, nesta acepção, a palavra “templo” como algo a ter com exemplos, portanto, mesquitas, sinagogas, academias, igrejas, centros espíritas, colégios, quartéis, partidos políticos, movimentos multitudinários em geral.

Não se deve atacar frontalmente qualquer crença, que todas são dignas de respeito! Chega de intolerância para com o diferente. o apreço ao ser humano em toda a sua riqueza interior implica, principalmente, saber apreciá-lo em sua multifacetária capacidade de expressão.

Há, contudo, uma coisa fantástica, fanática e absurdamente irracional, só crível porque existente e que, coadjuvada pela Incrível Religião do Individualismo acaba por afastar as pessoas umas das outras em prol de nada. Chamo a esta deplorável deformação de “Fanatismo da Descrença”, que só tem um dogma básico inapelável: “Nada é digno de crença, de fé, não existe transcendência.” Embora São José do Rio Pardo seja uma saudável exceção, é inacreditavelmente enorme o número de pessoas que são encantadas pelo “fanatismo da descrença”, particularmente nos meios intelectuais e acadêmicos. A grande maioria das pessoas tidas por inteligentes repetem as mesmas fórmulas litúrgicas dementes, os mesmos esgares de desprezo por qualquer tipo de fé, qualquer crença em qualquer coisa de transcendental.

Digo acima e sustento: não se deve atacar qualquer crença; já pagamos preço elevado demais por nosso descaso ou desprezo pela fé do próximo, seja ele originário das Américas, africano, asiático, hebreu, caldeu, romano, “diferente”, em síntese. O que estou atacando tão severamente quanto me é possível aqui é justamente a ausência de fé e mais, todo e qualquer entrave à fé tem de ser desmascarado. É preciso ter fé e esperança. Assim como Jesus Cristo nos aponta uma saída para que possamos ter controle sobre o passado, os filósofos da Esperança apontam saídas para o futuro. Cristo aponta lucidamente na direção do PERDÃO como forma de controle sobre o passado. A ESPERANÇA, por seu lado, nos possibilita controlar o futuro; é porque temos certeza do advento de um tempo de paz, abundância e humana fraternidade que toleramos as bobas injustiças de hoje como marcas, que são, de um tempo moribundo.

A descrença, por seu lado, leva a quê? Individualismo, ódio, rancores, mágoas pessoais, etc. Medo por dentro e muito ódio por fora, eis a raiz da descrença. Também em vão se procurará por aí um templo da descrença ou coisa que o valha. O fanático da descrença não o é em relação a uma fé específica, mas em relação a todo o tipo de fé. Cada um deve descrer de um modo, levando os fanáticos da descrença à paralisia generalizada, à destruição generalizada, sem que nada tome lugar da antiga fé. Fica-se a meio-caminho. Se toda essa destrutividade estivesse voltada à construção de algo ainda mais sublime, uma síntese dialética da ciência e da religião, por exemplo, seria compreensível. Incompreensível e injustificável mesmo só a descrença.

Se no sincretismo da Incrível Religião do Individualismo encontramos o burguês médio acendendo uma vela para si mesmo e outra para Mammon, no fanatismo da descrença vemos o burguês  (ou seus prepostos voluntários ou involuntários) apagando as velas acesas a todos os deuses. Por que é que nas Universidades - que sempre respondem abstratamente a problemas também abstratos - a “moda” é descrer? Porque a descrença é paralisante, é mais operacional ao Capital que seus sacerdotes maiores sejam capazes de fazer descrer e alienar; “divide e governa”, diz Maquiavel em O Príncipe.

Quando a maioria deixa de crer e luta e trabalha para fazer deixar de crer, o mundo segue sendo o que é, um interminável vale de lágrimas, até onde a vista alcança (massacres de pessoas inocentes sob as mais diversas formas são apenas a ponta do iceberg). Quando há crença, quando a fé é recolocada, muitos passam a, em função da fé, trabalhar e lutar para a construção de um mundo melhor, começamos a ver surgir no horizonte, finalmente, a belíssima Esperança, com seu cortejo de Bondade e Beleza, Verdade e Justiça, trazendo luzes a um tempo sombrio que tem tudo para ser muito feliz. Espero viver para vê-lo e vivenciá-lo!

 

 

Primeira vítima do positivismo

  

Relendo a excelente introdução do professor José Arthur Giannotti ao exemplar da coleção “Os Pensadores”, relativa à vida e obra de Comte, presto atenção a algo que me havia passado desapercebido antes: Clotilde de Vaux, sua grande musa inspiradora, morreu um ano após travar contato com o pai do positivismo. Exercícios de psicanálise ao longo da história são uma recomendação enfática de gente do quilate de Peter Gay, por exemplo em Freud Para Historiadores. Reflitamos acerca de uma possibilidade: seria exagero atribuir àquele trágico encontro a causa maior daquele falecimento?

Augusto Comte foi, sem dúvida, um ser atormentado. Uma alma angustiada e sofrida, sem jamais encontrar um porto seguro, um ninho onde reclinar a cabeça - e não é este o caminho do gênio em nossa sociedade?

Por um momento assaz fugidio, brilhou um breve estrela. Na verdade menos que um fogo-fátuo que Comte considerou suprema ventura; tinha 50 anos de idade quando conheceu Clotilde de Vaux. Uma paixão absolutamente avassaladora que, reza a tradição, não foi levada a termo pois ela, embora separada de seu marido - preso - considerava o casamento uma união indissolúvel.

Aquela jovem trouxe uma aragem, uma brisa matinal, sorridente e fresca, à árida alma do filósofo. Justo que lhe ficasse devedor, admirado, apaixonado. Aquela atenção tão próxima - fato absolutamente inédito na existência do grande gênio - oriunda de tão meiga, gentil e idealizada figura feminina foi o quanto bastou para que Comte fosse tomado de todo por um belíssimo Coup de Foudre (“Paixão Avassaladora). 

Para a alma atormentada e árida do pai do positivismo, aquele breve repouso em tão cálida amizade feminina foi uma das melhores coisas que aconteceram em sua existência. Realizou-se, completou-se e, com certeza, confessou-lhe sempre seu infinito amor, direta ou implicitamente.

Acontece que os elevados princípios morais da moça - que Comte tanto admirava (princípios e moça) - não lhes permitiam levar a cabo o que ambos desejavam ardentemente.

Ele, “descasado”, sem qualquer tipo de restrição moralista quanto a isto para si mesmo, podia extravasar em sua plenitude e constantemente tudo o que sentia, repita-se diretamente ou através de metáforas, brindando-a com longas conversas brilhantes nas quais, subjazendo a enorme erudição do filósofo estava sempre - novamente - implícito o seu desejo. Sem problemas psicológicos, sem crises, sem conflitos de qualquer natureza quanto àquele relacionamento, sua saúde física, mas particularmente mental dificilmente poderia ser melhor!

Já a jovem Clotilde de Vaux, abrasada por um enorme desejo carnal pelo filósofo, desejo que não ousava confessar sequer a si mesma, via seu mundo desmoronar. Já não amava ou desejava o marido, distante e preso; além disso, amava e desejava ardentemente alguém que lhe era interdito. Não é muito supor que a isto se siga uma severa crise depressiva, baixa no tônus vital e capacidade de reagir a males e doenças e, conseqüentemente, morte.

Como sabemos, nos anos que se seguiram a quantidade de cadáveres acumulados, vitimados, em última análise, por dirigentes políticos tributários em grande medida daquele pensador francês (e não poucos aqui mesmo, em nosso Brasil...) tem sido, literalmente, astronômica. Com tudo isso, Clotilde de Vaux foi o caso mais dramático e mais próximo.

Não creio ser operacional descartar a hipótese de Comte haver sido levado a trazer o seu rosto como símbolo da “Humanidade” na nova religião que fundou, como forma de expiar-se por sua parcela de culpa na morte daquela que foi, sem sombra de dúvida, a primeira vítima do positivismo...

  

Messianismo

 

“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega!” Albert Einstein

 

“O importante não é o que um homem diz de sua fé, mas o que essa fé faz esse homem realizar” Roger Garaudy

 

“Uma teoria só se concretiza num povo na medida em que é a concretização de suas necessidades” Karl Marx

 

 

A dimensão profética é uma dimensão básica da constituição humana. A filosofia hindu, por exemplo, informa que “sempre que a justiça fraqueja na Terra, Deus encarna no mundo”. No Alcorão está escrito que “Deus sempre envia profetas que falem em linguagem compreensível ao povo”.

Os sociólogos definem “cientificamente” a espera messiânica como a ânsia pela vinda de um enviado divino que, dotado de poderes extraordinários, restaurará a ordem entre aqueles que nele crêem.

Weber toma de empréstimo à teologia cristã a expressão “carisma”, literalmente “dom da graça” e informa que os líderes carismáticos são aqueles que conseguem, por demonstrar qualidades sobre-humanas (exagerada capacidade bélica, de liderança, oratória ou outra qualidade superior ao comum dos mortais), conglomerar em torno de si grupos significativos de pessoas que passam a nele crer e, dentro do grupo, a palavra do líder carismático transforma-se na mais plena expressão da verdade (magister dixit, como no medioevo...)

Entre os milhares de líderes carismáticos que conhecemos ou de que ouvimos falar podemos citar, a título de mero exemplo e guardadas as suas devidas proporções de espaço, tempo, missão e propósitos os Profetas Bíblicos, Maomé, Lênin, Mahatma Gandhi, Hitler, Stálin, Mussolini, Antônio Conselheiro, Fidel Castro, Muammar Khadafi, Saddam Hussein e por aí vai. Enfatizo não estar fazendo aqui qualquer colocação de cunho ético ou valorativo. Trata-se da mera constatação do fato de aquelas pessoas supracitadas serem líderes carismáticos que, durante um bom tempo, conseguiram conglomerar um significativo número de adeptos e fiéis às suas prédicas (não está aqui em questão, passe a redundância, se foram líderes de seus povos para o bem ou para o mal seja qual for a acepção que se queira dar a estes termos). Para o que estamos aqui observando, a palavra messiânico como definida acima também se aplica.

Mariátegui, sociólogo peruano, informa em O Homem e o Mito que a revolução científico-racionalista do ocidente deixou um grande vazio no homem, uma vez que, tanto a razão quanto a ciência não podem constituir-se em mitos, não têm o poder de mover as massas à ação. Na modernidade, pensadores como Joseph Campbell, anseiam pelo surgimento de um mito novo, de uma nova religião mesmo que, como todas as outras surgidas no mundo, possa dar conta dos aspectos mais avançados de nosso tempo, sejam eles o ético, o jurídico, o científico... A nova religião, da qual ouvimos notícias embrionárias aqui e ali, precisa ser, como o foram todas as outras em seu tempo, de ponta em todos os aspectos do conhecimento e da vivência humana, com particular ênfase à dimensão ética.

Quase desnecessário enfatizar que uma liderança carismática surge nos momentos de maior crise em uma dada comunidade.

Em todos os tempos há pessoas que surgem com pregações diferentes ou inovadoras, nem sempre encontrando eco às suas prédicas. Quando o que dizem e principalmente o que fazem está em sintonia com a situação prática da vida das pessoas, surge fulgurante o fenômeno do messianismo. Talvez estejamos vivendo um tempo assim em escala global, quem poderá dizê-lo são os pósteros, claro. Há os que surgem com pregações em nada ou quase nada sincronizadas com a vida do povo. Estes, normalmente, são tidos e havidos como tresloucados, lunáticos, coisas assim, não passando mesmo de alienados mentais.

Quando em momentos de crise em qualquer comunidade humana, surgem estas tentativas desesperadas de ver alguma ordem no caos que ameaça imperar ou já impera. No Brasil, por exemplo, quando ainda o chamavam de Pindorama, os Tupinambás, segundo nos relata Pierre Clastres em A Sociedade Contra o Estado, viviam uma situação de superpopulação, carências materiais e crise de autoridade. Muitos seguiam verdadeiros “messias” - na acepção antropológica do termo - saindo do litoral em direção à Amazônia, onde haveria “uma terra sem mal”. Vale ressaltar que os Tupinambás há muito deixaram de existir. Contra eles os colonizadores, nossos ancestrais, praticaram o genocídio sem a menor contemplação.

Segundo Douglas Teixeira Monteiro em Um Confronto Entre Juazeiro, Canudos e o Contestado, na segunda metade do século XIX houve por um lado uma grave crise no sertão nordestino e, por outro, um estímulo do Vaticano a um revivescer da fé católica, com o apoio institucional da Igreja, mesmo, vários leigos eram levados a aproximar-se mais da religião e, dentro dos rudimentos de sua capacidade de compreensão, assim como daquela gente simples a quem se dirigiam, a mensagem evangélica era retransmitida.

Neste contexto surgem pregadores os mais diversos, dentre os quais Antônio Vicente Mendes Maciel, o “Conselheiro”, “um gnóstico bronco”, “um heresiarca do século II em plena idade moderna”, “um monstro”, segundo ajuíza Euclides da Cunha em Os Sertões. Um homem do povo que, falando na língua do povo, dizia o que o povo queria e precisava ouvir e fazia o possível para suplantar o caos em seu tempo pelo menos até onde chegava sua esfera de influência.

Conglomerando milhares de adeptos ao seu redor, tentando construir um projeto civilizatório diferente, atraiu a si a fúria, em primeiro lugar dos “coronéis” das redondezas privados da mão-de-obra barata que, evidentemente, preferia ir para o Belo Monte com toda a beleza poética e profética que a circundava a trabalhar em condições muito pouco satisfatórias. Isso, claro, quando havia serviço no sertão... Por outro lado, bastante ligado às tradições católicas, Antônio Vicente Mendes Maciel protesta e luta contra a república - não que tivesse qualquer contato ou vínculo com os Orleans e Bragança, sua pregação era sebastianista! Com efeito, o orgulhoso positivismo republicano tirou da Igreja uma série de prerrogativas, por exemplo com a criação do casamento civil e a laicização dos cemitérios... Lutando com dificuldade - e conseguindo - melhorias existenciais para sua gente, Antônio Conselheiro acaba por atrair a repressão brutal de uma república incipiente, acaba por atrair a ira fanática daqueles que o julgavam (ou assim faziam crer através de maciça propaganda) “um monarquista disposto a lutar pela restauração do império de Pedro II” quando na verdade, o que ele queria mesmo era ver o império da “lei de Deus”, contra a “lei do Cão” da república velha.

Como várias outras tentativas de construção utópica na concretude, é brutalmente combatido - e ao lermos a Obra máxima de Euclides da Cunha verificamos que fica estarrecido com a barbárie de que é capaz a tropa republicana; não menos, aliás, que o fica com o “fanatismo” dos conselheiristas...

No Brasil inúmeros foram os casos de tentativas de implantação de um projeto civilizatório diferente, todos implacavelmente massacrados pela sociedade afluente: Palmares, Colônia Cecília, a República Comunista Cristã dos Guaranis, Canudos, o Contestado... Somente os episódios que tiveram evento em Canudos contaram com a cobertura de alguém do porte genial de Euclides da Cunha, deixando-nos o legado de ter mais amor, compreensão e tolerância para com o diferente, enfim. Cada comunidade humana tem um pouco de diferente, de crenças e convicções aí meio esquisitonas mas todos somos irmãos afinal; como galhos da mesma árvore ou ondas de um mesmo oceano.

 

As idéias e a cicuta

 

 

"Si vivi vicissent qui morte vicerunt"

(Como tudo seria diferente se vencessem na vida aqueles

que venceram na morte...) Cícero

 

Buscando na história pistas possíveis para soluções aos problemas contemporâneos, deparamo-nos com fenômenos em certa medida repetitivos e quase sempre ineficientes.

Atenas, Grécia, quinto século antes de Cristo: Sócrates é condenado à morte, em última análise, por atentar contra a democracia ateniense (é o que defende, por exemplo I. F. Stone em O Julgamento de Sócrates, Cia das Letras, 1988). Ao invés do governo do povo ou democracia, pregava o governo “daquele que sabe” liderar um povo como um pastor lidera suas ovelhas. Se nos recordarmos que o pastor cuida de suas ovelhas para tosquiá-las, ordenhá-las e sacrificá-las, tendemos a refletir se esta seria a melhor forma de encaminhamento para a coisa pública... De mais a mais, dotados que somos todos nós de razão, quem pode ousar supor saber gerir melhor a nossa vida que cada um de nós? Sócrates, por sua pregação autoritária, antidemocrática, atraiu a si a ira  da democracia ateniense que, contudo, sendo ele já um ancião digno de consideração e respeito, é contemplado com a possibilidade de propor um apenamento alternativo. Arrogantemente afrontando os membros da Agora, informa julgar que esteve fazendo um bem, não um mal à juventude ateniense e, em conseqüência, propõe ser sustentado no Pritaneu - algo equivalente a um condomínio de luxo nos jardins paulistanos com todas as despesas pagas...  Propusesse ele pagar uma moeda que fosse e a Agora, satisfeita, comutaria a pena, por exemplo ao ostracismo - ser expulso da cidade por um dado período. Sócrates prefere morrer pelas idéias que julga corretas. Ocorre que suas idéias aristocráticas, não “bebendo cicuta” com ele, permanecem nos corações e mentes de todos os que até hoje idolatram as mais diversas formas de autoritarismo pelo mundo afora.

Palestina, aproximadamente ano 30 da nossa era; Jesus de Nazaré, por seu apego inamovível à verdade e à justiça, à bondade e à beleza, num mundo impregnado de regras políticas e religiosas exageradamente rígidas, desagrada autoridades civis e eclesiásticas de seu tempo, sendo por isso condenado à morte infamante na cruz em pleno feriado judaico, o mais importante deles, por sinal, a Páscoa, momento em que todos se uniam em preces e recordações da libertação miraculosa do cativeiro no Egito, liderados que foram por Moisés.

Como se sabe, as idéias de Cristo não foram crucificadas com ele e, na época heróica do cristianismo, ganharam a maioria do povo. Hoje deploravelmente, alguns dos cultores do Cristo, chamam a si mesmos de “cristãos” mas apenas lhe prestam honras com palavras. Sua memória e sua suas obras não têm sido honradas na prática cotidiana dos que se dizem seguidores do divino Mestre.

Minas Gerais, fins do século dezenove; ecoando idéias de liberdade que grassavam na Europa e América do Norte, um grupo romântico de brasileiros procura viabilizar um projeto político sério para o Brasil, principalmente cortando a evasão de divisas para o exterior (é bem antiga esta demanda, como se percebe). Os principais integrantes da chamada “Inconfidência Mineira” foram condenados à morte, pena comutada ao degredo, com exceção daquele que foi então considerado o líder, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes. Hoje questiona-se se um simples alferes lideraria um movimento que era composto inclusive por coronéis, juizes e altos sacerdotes... Somente ele, que hoje é visto por muitos historiadores como um “bode expiatório” daquela coisa toda, foi enforcado e esquartejado.

Como os esbirros da Metrópole, então Portugal, não tiveram com as idéias o mesmo tipo de sucesso que tiveram com os corpos de alguns de seus portadores, cerca de meio século depois o Brasil conquista sua emancipação política e, um século a seguir, chegamos à república, não propriamente a república desejável, como já nos dizia Euclides da Cunha, mas avançou-se, pelo menos. É muito útil recordar estes sacrifícios todos para que não venhamos a, desprezando-os, dificultar novos avanços, exigência dos tempos.

Da história nos ficam algumas lições tremendamente significativas: podem-se matar homens, mas não se pode obrigar suas idéias a beber cicuta, crucificá-las, enforcá-las, esquartejá-las ou degredá-las. Cada pequena lanterna intelectual que se apaga pela intolerância política ou religiosa de uns poucos traz severo ônus à humana espécie, senão vejamos; que rumos teria tomado a história do ocidente se ao invés de ser condenado à morte Sócrates houvesse tido a oportunidade de defender livremente suas idéias autoritárias? Talvez a participação política dos cidadãos fosse ainda mais ampliada e, ao invés de termos uma democracia representativa, restrita, tivéssemos o que os gregos conseguiram em Atenas, uma democracia direta, com plena participação de todos os cidadãos nas decisões de todas as temáticas afeitas à coletividade, enfim. Dizem - não posso dar testemunho ocular deste fato - que na Suíça contemporânea é praticamente assim que as coisas funcionam no mundo político, com plena participação e poder decisório de todos os cidadãos que são chamados a opinar acerca de todos os temas coletivos por telefone, correio ou, hoje em dia, Internet...

De todo modo, já está mais do que comprovado historicamente ser muitíssimo mais vantajoso a todos discutir abertamente todas as idéias e opiniões possíveis e imagináveis, de maneira tal que possamos sempre evitar novas injustiças e, baseados na aceitação mais plena possível do princípio da igualdade jurídica entre todos os seres humanos, possamos chegar a formas mais plenas e saudáveis de convívio social. Que possamos chegar bem próximos pelo menos do tão almejado consenso.

  

Um pouquinho de teoria

 

Um tipo específico de racionalidade, que compreende o Universo como um todo, com todas as coisas harmoniosamente interligadas e se desenvolvendo continuamente numa relação dialética sucumbe de maneira triste e dificilmente reversível num período histórico em que outro tipo de racionalidade torna-se hegemônica.

Reporto-me aqui à professora Orsely Guimarães, do departamento de filosofia da UFF que, em sala de aula defendia estas posturas e anunciava “para breve” uma publicação a respeito. Até onde me é dado saber, sua publicação ou suas teses lúcidas e bem fundamentadas jamais vieram a público. São contudo, posturas sérias, com grande embasamento teórico e gostaria de aqui, a partir de suas colocações, propor uma reflexão de temas do Brasil contemporâneo.

Em primeiro lugar, reunir e enfeixar sob a denominação absurda e até pejorativa de “pré-socráticos” uma série enorme de pensadores (alguns inclusive contemporâneos de Sócrates, como Protágoras, outros posteriores a ele como às vezes fazem com Epicuro...), é um sinal da vitória secular de um tipo específico de racionalidade em detrimento de diversas outras possíveis.

Em segundo lugar, dois dos maiores seguidores do pensamento socrático, Platão e Aristóteles, fundaram estabelecimentos de ensino que têm séculos de predominância: a Academia e o Liceu.

A Academia deve seu nome por funcionar, sob a égide de Platão, nos jardins do herói ateniense Academo; seu mais eminente discípulo, que tornou-se referencial obrigatório para o conhecimento da Idade Média, Aristóteles (e o fato de haver ele sido preceptor de Alexandre Magno, da Macedônia, mostra claramente o quão “confiável” aos poderes constituídos este gigante do pensamento humano era), ministrava suas aulas em diálogos e passeios pelo bosque dos lobos, lukeion em grego, sendo o nome do terreno de propriedade de Apolo Lyceo. O fato de estar o mundo ocidental polvilhado de academias e liceus é claro indício do predomínio do tipo de racionalidade pregado e proposto por estes dois grandes gênios do pensamento humano.

É verdadeiramente lamentável que ensinamentos de pensadores do quilate de Epicuro, Demócrito, Protágoras mas fundamentalmente Heráclito de Éfeso fiquem silenciados, sem desenvolvimento posterior até meados do século passado é sinal transparente da vitória - política por definição - de um determinado tipo de racionalidade, em detrimento de todos os outros; é possível traçar-se uma linha que nos conduz do pensamento socrático-platônico-aristotélico até o positivismo francês e suas coletas autoritárias pelo mundo afora.

Mas quantas estradas abertas dentro das potencialidades físicas e intelectuais humanas não terão sido interditadas em nome da racionalidade vitoriosa, quantos pensadores mais não terão desenvolvido suas idéias ao longo de sua vida porém, sem encontrar quem tivesse suficientes virtude e fortuna para dar-lhes prosseguimento, minguaram, murcharam e desapareceram da contemplação erudita...

É justo deduzir que o tipo de racionalidade fundado na Grécia por aqueles três gigantes do pensamento humano em sucessão, acabam por desembocar no Modo de Produção Capitalista ao nível da infraestrutura e, no da superestrutura a “compartimentalização dos saberes”.

Até que Hegel e Nietzsche fizessem a redescoberta de Heráclito de Éfeso em meados do século passado, toda a forma de pensamento que apontava na direção de uma inter-relação dialética entre todos os fenômenos da vida - que se pode constatar empiricamente, por sinal! - esteve praticamente fora do cenário intelectual e assim, chegamos às super-especializações específicas, sentindo falta do incentivo a um desenvolvimento mínimo de consideráveis parcelas do potencial humano.

Como tudo seria diferente se tivéssemos mais jardins epicuristas e menos academias e liceus. Que avanço humanista isto representaria para a pedagogia brasileira!

  

Que carreira seguir?

  

“... que nos mantenhamos, sem qualquer reticência, às ordens da Transcendência, a única pátria do verdadeiro pensamento”

Louis Aragon

 

Ao término do segundo grau - fim do período “obrigatório” de estudos - o jovem se encontra numa encruzilhada, com uma miríade de caminhos possíveis à sua frente. E agora? Advogado, Policial, Médico, Poeta, Carpinteiro, Agricultor, Professor, Engenheiro, Empresário, Artista... São tantas as opções, tantos clamores de tantos lados diferentes que se fica meio “perdido”, mesmo, particularmente se tomarmos em conta a tenra idade em que se tem de decidir a profissão para o resto da vida! Às vezes demoramos bastante até que encontremos nossa verdadeira vocação. A maioria das pessoas, segundo recente pesquisa da OIT (Organização Internacional do Trabalho), realiza tarefas que não têm absolutamente nada a ver com suas pulsões internas, particularmente no terceiro mundo, onde a questão monetária se impõe como um pesadelo do qual não se consegue despertar.

Há tempos ouvi de uma jovenzinha aí com seus 17 anos a seguinte assertiva: “Estou concluindo o cursinho pré-vestibular. ADORARIA ser psicóloga, mas o campo não está bom neste setor, de maneira que vou cursar administração de empresas. Depois realizo o meu sonho”. Este adiamento sistemático dos sonhos tornou-se a tônica geral destes tempos de crise interminável que vivemos. Não se pode, claro, abstrair pura e simplesmente a questão pecuniária. O Capital, antigo vampiro sugador de sangue humano, tem suas exigências e há que cumpri-las, goste-se disso ou não!

E a vocação, como é que fica?

A moça do exemplo acima, é hoje próspera em sua função, casada e, quando questionada sobre o antigo sonho diz: “Ah... Aquilo era coisa de adolescente, na vida real os sonhos não se realizam...”

Ao término do segundo grau, o jovem já sabe quais são os anseios de seus pais quanto à carreira profissional que ele deve seguir - já ouvi de alguns brincalhões coisas como “a vocação de meu pai é que eu seja agrônomo” ou o que o valha - quais os anseios de seus amigos e até mesmo tem ouvido o aconselhamento de professores. Caso se esforce um pouco descobre ainda o que é que o Capital quer num dado momento: hoje medicina “dá mais dinheiro”, ou informática, ou engenharia. Mas e as pulsões internas, os anseios íntimos, como descobrir precisamente o que desejo mesmo e como chegar lá?

Deve-se ter em mente que se tem, ao cabo da adolescência, pelo menos mais setenta anos pela frente e ninguém vai vivê-los no lugar do interessado. Cada jovem deve parar em momentos meditativos e fazer a si mesmo a pergunta básica: ONDE ESTÁ O CAMINHO DA MINHA BEM-AVENTURANÇA? O quê me faz feliz? Que atividade laborativa posso exercer com alegria? O que afinal me realiza como gente?

Descoberta a vocação íntima é agarrar-se a ela e, apesar de tudo e de todos, ou com sorte contando com algum apoio, mover céus e terras para fazer neste mundo o que veio fazer.

De que adianta ser um razoável administrador se tem tudo para ser um extraordinário psicólogo? Qual o valor de um diploma de medicina a ser entregue e demonstrado - com orgulho até - a quem tanto insistiu e trabalhou para que se seguisse aquela carreira se o coração mora na filosofia?

Siga a sua bem-aventurança, sempre. Eis o segredo do sucesso.

  

A Pérola

  

Dizem algumas tradições muito antigas que nossas almas viviam no seio da Criação até que um dia cada um de nós sentisse uma forte compulsão a resgatar a pérola preciosa, perdida do paraíso desde a queda de Lúcifer. Ao chegarmos no mundo, tantos são os clamores e distrações a nos atraírem a atenção que nos esquecemos completamente da pérola passando a prestar atenção a uma porção de coisas ilusórias que aprendemos a chamar - às vezes até a deplorar - de cotidiano, o cotidiano mesquinho, amesquinhante e amesquinhador. Esquecermo-nos da pérola e passarmos a pensar em termos prático-pragmático é um dos mais severos equívocos a que estamos sujeitos. By, by, redenção, transcendência; olá, olá, dinheiro, materialidade, carnalidade... É preciso muito cuidado com tudo isso!

  

 

Surrealismo, a mais elevada expressão do Humanismo na modernidade

 

 

 

“... o surrealismo é um movimento de liberação total, não uma

escola poética. Via de reconquista da linguagem inocente e renovação do pacto primordial, a poesia é a escritura de fundação do

 homem. O surrealismo é revolucionário porque é uma volta ao

princípio do princípio.” Octavio Paz

 

 

Ponte entre a psicanálise e a revolução social, pregando “Mudar a vida! Transformar o mundo!, os surrealistas insurgem-se contra a “ordem” estabelecida que amesquinha e avilta o ser humano, proclamando, com firmeza, a insubmissão a todas as normas estabelecidas, a onipotência e superioridade do sonho e do inconsciente sobre o real, o desregramento de todos os sentidos, o poder redentor do humano existente em todas as formas de paixão - e quanto mais desmesurada e louca, mais bela será, a paixão.

Como se vê, é praticamente impossível expressar seja o que for sobre o surrealismo de maneira fria, ponderada e imparcial. O chamado racionalismo, estrito e estreito por definição, não pode apreender o surreal em sua plenitude. Este movimento é a maior acusação levantada contra a cisão, historicamente provocada, entre Razão e Paixão no Ocidente. Retomando a temática surrealista, os principais filósofos da Escola de Frankfurt (Marcuse, Fromm, Benjamin, Adorno, Horkheimer, Bloch) propõem a busca de uma “re-erotização” da Razão ou, o que vem a ser o mesmo, a busca de uma Razão Apaixonada!

André Breton, principal expoente do movimento surrealista, em Arcano 17 proclama: “É vital que o homem se passe, de armas e bagagens, para o lado do homem”. Insurgir-se contra as regras estabelecidas não significa - ao contrário! - agredir ou trazer qualquer forma de violência contra o humano. É antes contra tudo o que tolhe o humano que se insurge o surrealismo. “Será preciso começar por retirar da guerra todos os seus títulos de nobreza!”, proclama Breton na Obra supracitada. Trata-se de um magnífico poema em prosa à mulher amada que condensa todas as esperanças dos surrealistas numa nova era, num mundo novo, transformado, onde não mais exista a figura do animal humano irado, raivoso, esbravejando ou lutando contra seu semelhante. Na civilização surrealista, na Sociedade do Futuro, o homem encontrará finalmente a plenitude da harmonia com o mundo.

Seria um exagero afirmar que os surrealistas, ao se insurgirem contra todas as formas de expressão religiosa também não estariam, no fundo, buscando uma nova forma de pacto político-social e, por que não, também religioso? Ou, quem sabe, estariam no epicentro de uma monumental proposta pan-ecumênica, fermentando o nascimento do homem novo na nova sociedade humana...

Haveria, então uma “natureza humana”? Contrariamente ao que afirmam os sociólogos positivistas Breton dirá que sim sem dar espaços contudo a visões maniqueístas. Convidando a pensar nos primórdios (bebês, por exemplo) dirá que o ser humano é essencialmente inocente, sendo portanto todas as suas falhas circunstanciais, socialmente determinadas e portanto social e individualmente superáveis.

Como encontrar o acesso à magia, ao reencantamento do mundo, sem a religião? Através da poesia, dos sonhos, do amor louco, do escândalo, da ida ao encontro do acaso objetivo, da disponibilidade para o humano, sempre!

Toda a ética, assim como a estética surrealista é fruto do inconsciente. No primeiro Manifesto do Surrealismo, Breton nos ensina os segredos da arte mágica surrealista: “Faça com que lhe tragam com o que escrever depois de ter encontrado um local, tão favorável quanto possível, para a concentração de seu espírito nele mesmo. Coloque-se no estado mais passivo ou receptivo que puder. Abstraia sua genialidade, talento e também o dos outros. Diga que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a qualquer lugar. Escreva rapidamente, sem tema preconcebido (...) continue pelo tempo que quiser. Fie-se no caráter inesgotável do murmúrio.”

Daí poder-se dizer que, longe do que pensam alguns “críticos” miseravelmente racionalistas, o surrealismo nada tem de “irrealismo” sendo, ao contrário, a busca intransigente de uma supra-realidade. Seu ponto de partida é o próprio cerne do que há de mais elevado e sublime no coração de cada ser humano. Superando as tensões e as más-caras que a burguesia utiliza e quer obrigar a todos a utilizar também, o surrealismo busca atingir e expressar a transparência do sonho.

Na esfera do amor louco, eletivo, a mulher, via de reconciliação do homem com a natureza, é ADORADA. Os surrealistas são, neste particular, herdeiros modernos dos românticos. De fato, a mulher mantém, pela sua composição biológica e formação social milenar, em medida muito mais expressiva que o homem, uma forma de vida mais inocentemente ligada ao mistério e à magia. A beleza da mulher, promessa de felicidade, é um atentado vivo ao “princípio de desempenho” da sociedade afluente, como bem o enfatiza o frankfurtiano Herbert Marcuse em Eros e Civilização. O amor louco deve ser recíproco e único. Existe um e apenas um ser humano do sexo oposto em todo o planeta que efetivamente é o complemento necessário de cada um. As escolhas infelizes que, por vezes, fazemos, devem-se sobretudo às condições sociais sórdidas em que nos encontramos, onde vemos brutalmente tolhida, cerceada nossa liberdade de escolha.

Transformar a vida em poesia. Que o ato de amor seja um ato poético em sua mais elevada inteireza. E que todo o ato humano seja um ato de amor. Manter elevada a esperança. Construir, com a consciência antecipadora, o mais lindo dos castelos de sonhos, unindo poesia e transformação social, a seguir mover céus e terras para dar-lhe expressão no mundo real. Esta a motivação maior dos surrealistas de todos os tempos e Nações. Aliás, fronteiras, pátrias, espaço, tempo, tudo isso é considerado ilusório, questionável por todos os surrealistas.

 

O “facteur Cheval”

 

 

“Como o dia depende da inocência, o mundo inteiro depende

de teus olhos puros” Paul Éluard

 

Ferdinand Cheval, quando funcionário dos correios, tinha um sonho louco, uma idéia fixa, uma esperança a um só tempo fanática e fantástica: construir um castelo. Iniciou a construção aos 43 anos de idade com os piores recursos da sorte. Pedras que ele mesmo carregava num carrinho de mão debaixo de chacotas... Durou 32 anos a construção do castelo Cheval em Hauterives, região do Drôme, França, que hoje ainda está orgulhosamente de pé, à disposição de quantos queiram conhecê-lo. No castelo, dizem os que o viram, encontra-se uma prodigiosa mistura de todos os estilos artísticos e arquitetônicos, do gótico ao hindu, passando pelo árabe e românico. Não por acaso os surrealistas chamam a atenção, quando as dificuldades do mundo prático-pragmático parecem intransponíveis para o famoso facteur Cheval, que possibilita romper com as pesadas cadeias da lógica formal e, erguendo alto a bandeira da imaginação e da Esperança, com muita labuta, vencer qualquer dificuldade.

Os positivistas, em geral, vêem o mundo de maneira lógica, formal, racional-cientificista, FEIO, em síntese. Às vezes me parece que, para eles, as coisas do mundo só fazem sentido se passíveis de redução a “bits” de computadores... A pergunta “qual o significado de uma flor?” para eles soa ridícula ou incompreensível. Sinto uma compaixão enorme desta gente desumanizada. A resposta à questão colocada foi dada pelo místico Ângelus Silésius, séculos atrás, mas pouco sentido fará aos positivistas, por mais linda que seja a sua mensagem: “Die Rose ist ohne warum, Sie blüet weil Sie blüet" “A Rosa é sem por quê. Floresce porque floresce!”.

É preciso re-humanizar também a Natureza. O Capital coisificou o homem, o surreal quer humanizar a coisa. É preciso ver o mundo com olhos novos mesmo, reaprender a apreciar o encantamento existente na vida!

Quedar-se extasiado ante um belo por-do-sol, às vésperas do luar e não dizer nem tentar explicar nada - sempre que possível, claro, em boa companhia... Se lágrimas vierem aos olhos, maravilha! Ver uma árvore florida e perceber o quanto de amor e vida está ali contido. Sabe de uma coisa? Se você olhar BEM, com os olhos do coração, como diria talvez Exupéry, no fundo do olhar de uma criança a sorrir está Deus a sorrir para você...

Às vezes o “tique-taque” do cotidiano mesquinho, medíocre, amesquinhante, mediocrizante, nos impede de perceber que há coisas muito maiores, coisas que passam por nós e nem mesmo percebemos por causa da droga da rotina.

Mas enquanto houver por-de-sol, luar, flores, lágrimas, casais de namorados e crianças a sorrir a Esperança ainda morará nesta terra.

 

 

 

Mito e Natureza

 

 

“Todas as pesquisas da inteligência contemporânea sobre a crise mundial deságuam nesta unânime conclusão: a civilização burguesa sofre da ausência de um mito, de uma fé, de uma Esperança.

Ausência que é a expressão de sua falência  material”

José Carlos Mariátegui

 

 

Há tempos anseio condições objetivas - que as subjetivas sobejam, graças a Deus - que favoreçam o desenvolvimento de uma pesquisa intensiva e extensiva na direção da Verdade. Suspeito haver traços significativos de verdade em todas as visões de mundo (religiosas, científicas, filosóficas, etc) existentes. Até por isso, quando não são declaradamente eivadas de má-fé ou mentira, as respeito a todas. Captar-lhes a quintessência em busca de uma construção de proposta universalizante e unificadora, minha ambição maior.

          Quando encontramos algum tipo de postulação que confirme aquilo de que desconfiamos ou suspeitamos, somos inevitavelmente tomados de intensa emoção. Tal aconteceu comigo ao travar contato com o antropólogo norte-americano Joseph Campbell (falecido a 1987). Houve pelo menos um ser humano que dedicou sua vida ao estudo sério e aprofundado da mitologia comparada, do ponto de vista do agente e com plena sinceridade quanto a isso. Dos bosquímanos aos esquimós, dos judaico-cristãos aos hindus, dos zulus aos aztecas, todas as formações míticas apontam na direção da existência efetiva de um algo além. Campbell desenvolveu teoria segundo a qual todos os mitos religiosos apontam, cada qual a seu modo, na direção da existência de um mundo invisível além deste imediato, cotidiano, controlado, um mundo onde visível e invisível, sonho e vigília, homem e Deus, cessam de ser apreendidos contraditoriamente. Um mundo no qual tudo conflui, apontando na direção da Unidade!

O ser humano jamais viveu de maneira fecunda e plena sem uma concepção unificadora, mitológico-social. Em palavras claras: cada tempo histórico e cada povo tem o seu mito. Qual o atual? Não há UM ainda, há vários, pulverizados, fragmentados, antagônicos... É nesse sentido que Renato Russo fala em “Vento no Litoral” ser “a própria fé o que destrói”. Há séculos não surge um mito novo que ultrapasse a epiderme do tecido social ocidental. A ciência vem desbancando e destronando todos os mitos sem nada colocar em seu lugar. Fica um vazio, uma lacuna que a ciência não pode preencher. E aí reside a mensagem de otimismo enviada pelo tempo, espaço e ondas hertzianas a todos nós pelo professor Joseph Campbell: há um mito novo, cujas características se esboçam, em processo de parturição. Mais: o ódio devotado a este mito pelas vozes do passado é extremamente significativo. Também o cristianismo teve problemas com as ortodoxias judaica e romana de seu tempo ao surgir autenticamente no Oriente Médio expandindo-se como a grande religião do Ocidente por dois mil anos. Aliás, também a ciência viu queimar muita produção intelectual no altar da ortodoxia cristã medieval.

          Fala-se, no surgimento de um mito novo, em Nova Era, na hipótese GAIA. Todo o planeta como um gigantesco organismo vivo, com todas as coisas e seres vivos relacionando-se de maneira interdependente e tendente à harmonia. A psicanálise e a antropologia nos informam que alguns sujeitos, após alguma forma traumática de cisão esquisofrênica, em geral na adolescência, visitam um mundo diferente deste cotidiano e, quando regressam, o fazem como autênticos porta-vozes de Divindades. Fenômeno também universal.

Este mesmo padrão se repete em todas as sociedades humanas. Ora, “dois mais dois ainda são quatro”. Surpreende que, ao longo do tempo surjam novos profetas, desta vez como porta-vozes de algo como “A Consciência da Terra”? O profeta, em geral, é aquele que se coloca sem restrições a serviço da Divindade, cuja boca fala do que a Divindade tem a dizer aos demais mortais.

Falar em “Consciência da Terra” seguramente encontrará entusiastas entre os ecologistas. Alguns de seus profetas chegam mesmo a manifestar-se como se fosse a própria mãe-terra falando: “parem de poluir meus rios, meu ar, minhas praias!” ou “Se declarardes guerra à Natureza e fordes vencedores, triste vitória a vossa, da qual sereis as principais vítimas.” Infelizmente se haverá de encontrar também resistências por parte de uma certa ortodoxia que “informa”: “Só Deus é Pai! E não há mãe! Endeusar a Natureza é uma forma de idolatria”. Também os críticos do cristianismo nascente foram incapazes de decodificar-lhe os signos.

O acompanhamento diário dos noticiários causa-nos grande e cruel indignação: pastores sendo aprisionados como estelionatários, bebês abandonados a morrer à míngua por mães desesperadas, relações psicóticas provocando a morte de quem se lhes interponha, rios e mares poluídos pegando fogo, fome, miséria, concentração de rendas, guerras localizadas, corrupção, massacres... Cedo ou tarde, todo este ódio ao humano e à Natureza, de que o humano é originário, se esgotará. Aí virão incansáveis aqueles que se levantarão em defesa da Vida, lutando sempre, com todas as forças para restabelecer a harmonia perdida.

 

 

“Ficar” ou não “ficar”, eis a questão

 

“O  homem, não podendo ser coisa, não pode ser objeto de

propriedade” José Bonifácio

 

 

Conversando e convivendo com jovens e adolescentes esta temática, percebemos que o “ficar” pode ser oriundo de uma tentativa sincera de “acertar” o parceiro com quem se dividirá a bela e dolorosa jornada pela vida afora ou, mais comumente, fruto de um sistema e um tempo que transforma até mesmo as pessoas em objeto de uso e trocas mercantis...

Assim como se usa uma cadeira, um automóvel ou outro objeto qualquer, usa-se pessoas. Seja durante a produção na linha de montagem de uma fábrica capitalista - quando se contrata o esforço de músculos e nervos por um determinado tempo em troca de um salário - seja quando se aposta com colegas quem consegue “ficar” com o maior número de parceiras numa única noite.

Não se está aqui criticando, evidentemente, quem busca com sinceridade de coração “acertar” e sabemos sobejamente como isto é difícil no mundo em que o equívoco prima sobre o unívoco.

Os problemas começam a se manifestar quando há insinceridade, disputa, possessividade, uma “insuportável leveza do ser”. Apaixonar-se, desejar ardentemente que alguém especial nos deseje - e cabe aqui a clássica fórmula freudiana: “eu desejo o desejo do outro” - faz parte da constituição humana que cada um de nós, nesta esfera específica existe apenas pela metade. Quando estamos iniciando nossa vivência neste campo, ficamos simplesmente hipnotizados por aquela pessoa especial e tudo nos lembra dela: perfume, músicas, paisagens...

Quando começamos a olhar as coisas e as vemos de maneira diferente é “batata”: estamos apaixonados! Vamos a um restaurante com amigos e, face um cardápio variado pensamos coisas como: “Ah... Se tão somente ela estivesse aqui para saborear este acepipe comigo...” Ou se, ao caminharmos pelo comércio vemos coisas que em outras circunstâncias deixariam de causar sequer indiferença e nos lembramos dela e do quanto gostaria de se aproximar do que está exibido numa dada vitrine. Nestes e noutros casos similares, quando aquela pessoa especial freqüenta nossos sonhos, seja adormecidos, seja acordados a paixão, prenúncio de um grande amor, está colocada.

Mais: se há correspondência plena à paixão que se sente, é o paraíso. Caso contrário, é a danação! Uma das características mais radicais do envolvimento amoroso é esta mesmo: ou estamos no paraíso ou no inferno. Não há meio-termo ou “purgatório” sequer.

Em sendo a correspondência plena, em havendo reciprocidade, comunhão de interesses e gostos, fidelidade e até mesmo cumplicidade vive-se o paraíso na Terra. Caso contrário, fica-se “de luto” por um certo período, passeia-se com amigos, freqüenta outros ambientes, conhece-se gente nova, busca-se outras vivências e a vida continua.

Estranha coisa é o “ficar” vazio, interessado apenas no momento, no gostoso e gozoso “roçar da pele”. Em sendo um “ficar” mais intenso, além dos perigos biológicos que todos conhecemos há ainda os perigos de danos psicológicos de difícil reversibilidade.

Uma pessoa que se acostume a usar outras ou a ser usada por outras, tenderá a ver isto como coisa natural e tenderá ainda a tornar-se incapacitada para o livre desabrochar do Amor verdadeiro, pleno, único, recíproco. Não devemos também nos enganar com relação a isto: quem mais critica os belos e sublimes enamorados nada mais quer que “derreter-se” também, mas com honra! Mais severa a crítica ao Amor realizado, maior o desejo de vivenciar coisa parecida.

Situação diferente encontramos no hábito estranho de “ficar” quando vemos, por exemplo, um jovem chegar a uma festa, um baile, uma recepção que seja, disposto a “abater o maior número possível de vítimas do sexo feminino” - o que já Don Juan fazia - e, ao cabo gabar-se de haver estado intimamente com uma dezena de meninas e pelo menos duas delas a sonhar com o início de um relacionamento mais sério. Enquanto o rapaz pode sair da festa gabando-se de haver “ficado” com uma dezena de meninas, uma delas pode sair da festa pisando em nuvens enquanto pensa: “puxa vida, estou com um namorado novo...” Claro está que quando se transforma até esta dimensão da vivência humana num “negócio” pode-se vivenciar coisa parecida com sinais trocados, ou seja, uma moça levando a vida levemente encontrando pelo menos um tolo incauto a pensar que ela se tornou, a partir dali, sua namorada... A única ressalva que cabe aqui é o fato de vivermos numa sociedade falocrática, machista demais para admitir como válido este comportamento para as moças, enquanto o aplaude nos rapazes...

Sim, embora a Constituição preveja direitos iguais para todos, numa sociedade falocrática, se o rapaz “fica” com várias moças acaba sendo alvo de inveja e aplausos dos colegas. Caso a moça proceda assim a ela serão apodados uma série de adjetivos menos abonadores da sua moral. Dois pesos e duas medidas, portanto.

Concluindo, repito aqui o que a tradição esotérica sugere há milênios: Siga seu coração! Tenha a coragem de sentir e assumir o caminho que trilha. Se sentir que é este o seu “caminho com coração”, vá em frente! Se o caminho que você escolheu apresenta-se tedioso, frustrante, conflituoso ou mesmo destrutivo, tenha a coragem de abandoná-lo e encontrar o seu “caminho com coração”.

Dizia o poeta: “É impossível ser feliz sozinho”. Assevero que mal-acompanhado é ainda pior! Alguns dizem que há outras vidas a viver depois desta. Outros que ao final desta vida vem o juízo e a eternidade. Dando a importância concreta que esta vida concreta tem, nem mais nem menos, o que se deve fazer em qualquer circunstância é seguir o seu sonho o seu coração a sua bem-aventurança, o que transporta você a visões e vivências transcendentais. A atingir esta meta, qualquer preço é válido! Lembrando sempre o grande mandamento de “amar ao próximo como a si mesmo” conceito vago a quem não consegue amar a si mesmo antes de mais nada. Amar e respeitar, ver o outro com os olhos do outro, tratar o outro como você gostaria de ser tratado, eis o resumo do que aqui se coloca.

  

Amor pleno e recíproco: ver Deus face a face

  

“Em todas as tradições espirituais, a união do masculino e do feminino representa o retorno à Unidade Divina. Ultrapassando as opressões puritanas e as complacências libertinas disfarçadas de liberação, a sexualidade pode ser uma verdadeira meditação, um autêntico caminho de transformação interior e de despertar da consciência.” Cécile Sagne

 

 

Toda a tradição mística, assim como toda a tradição científica - esta última bem mais recente no cenário histórico, por sinal - quando fala dos primórdios, do início, do surgimento, das origens - leva-nos a refletir que o diferenciado nasceu do indiferenciado. Ou seja, todas as pesquisas de nossas civilizações informam que no princípio havia o UM, do UM fez-se tudo o que mais existe.

A civilização ocidental, enveredada e presa nas malhas do capitalismo, que faz ver toda e qualquer atividade humana como atividade comercial, com valor de troca mercantil, leva-nos a situações absurdas. O filósofo francês Jean-Paul Sartre, por exemplo, dizia que, em nossa civilização, “O que diferencia a prostituição do casamento burguês é o preço e a duração do contrato”. A mulher, o mais das vezes, é vista como objeto da concupiscência masculina, quando assume seu papel de passividade; quando resolve erguer-se à estatura de um ser humano pleno e com iguais direitos e deveres que os do sexo masculino, via de regra é vista como feiticeira perigosa, demoníaca, desafiadora, enfim. A mulher, numa sociedade falocrática, está cada vez mais sendo afastada da verdadeira experiência do Amor integral. “Fada ou feiticeira, anjo ou demônio, qualquer coisa menos ela mesma...” De novo se vê aqui reeditado o sadismo da sociedade ocidental, consumista, banindo para longe todo e qualquer eivor do que seja o Amor Natural, mútuo e recíproco entre duas pessoas que se completam, nas dimensões física, emocional, intelectual e espiritual.

Os surrealistas, herdeiros modernos dos românticos do século passado, vêem na mulher a única via possível de reconciliação do homem com o mundo, uma vez haver ela mantido praticamente inalterada a sua condição intuitiva, ligada à Terra-mãe provedora, com ciclos, como a Lua - que partilha seu duplo etéreo com a Terra também - e tudo o mais. Mas demorará ainda até que a sociedade ocidental compreenda o que significa efetivamente a integralidade do que seja o movimento surrealista e seus desdobramentos. Nesta esfera, por exemplo, percebe-se claramente que o filósofo, o poeta, o artista surreal enfim, só se relacionará plenamente com uma única mulher que lhe será a companheira da vida inteira em toda a sua plenitude, que o verdadeiro surrealista sabe encontrar seu complemento humano. Algo de impensável a ridicularizável numa sociedade que, vale repetir, reduz tudo, até a relação intersubjetiva a “jogos de interesse” ou, por outro lado, à concupiscência lasciva, libertina ou ao puritanismo castrador, ambos imbecis faces da mesma moeda falsa.

Se de nada valem as relações “de conveniência”, tidas por todos aqueles que, em qualquer tradição filosófica ou religião superior, tiveram uma experiência íntima com a transcendência como algo menor, apequenador, amesquinhante, só sendo válido o Amor pleno, imenso, mútuo e recíproco como retorno à Unidade, jogamos o puritanismo e a fornicação na mesma vala comum: patologia!

Nossa querida Cécile Sagne, em sua bela obra O Erotismo Sagrado, vai ainda um pouco mais longe, colocando a conquista do Amor Único descrito acima como o mais belo e eficiente passo na direção da completa Iluminação do Casal. A cabalista britânica Dion Fortune informa: “o casal que chega à plena união de todas as dimensões de seu ser não mais pode ser visto por olhos humanos, pois atingiu um patamar completamente novo na existência dos seres”.

Fala-se, entre outras coisas na Obra em pauta, do absurdo do puritanismo ( e isso quando praticado mesmo, quando somente pregado vira pura hipocrisia, nem merece atenção.) assim como da fornicação libertina (“uma masturbação a dois”, onde o ego segue sendo o foco das atenções, não o UM ou o mágico nós intersubjetivo...)  acompanhei a leitura com grande aplauso em concordância. Ou o Amor é transe, plenitude, natureza, reciprocidade e altruísmo ou não é sequer Amor! A solidão é dolorosamente cruel. Mais cruel ainda a tentativa de união com a pessoa errada. Mas a alternativa verdadeiramente redentora atravessa nosso caminho pelo menos uma vez na vida, freqüentemente quando menos esperamos. André Breton, principal epígono do surrealismo, por exemplo, encontrou Elisa, já quarentão, com mais do dobro da idade de sua musa, com quem foi alucinadamente feliz até o último de seus suspiros neste planeta. Mas enquanto não a encontrou manteve-se irredutível. No Ocidente, os exemplos famosos são raros, no Oriente antigo, ou seja, antes de a infecção capitalista chegar por lá, esta era a regra. Hoje e por aqui é exceção. Como diz Carlos Eduardo Novaes, o capitalismo funciona como “uma vara de condão às avessas”: onde havia algo sincero, puro, poético e lindo hoje há apenas um negócio e, se pensarmos bem, péssimo negócio para todos.

Com tudo isso, a capacidade de regeneração do humano é surpreendente, até para os médicos. Se a sociedade conseguir suplantar a ganância, grande e pior dos sintomas da infecção capitalística, sobreviverá. Se a humana espécie sobreviver, toda esta camada formada por séculos e mais séculos de hipocrisias, máscaras e mentiras ruirá e o verdadeiro Amor, busca de União e até de transcendência, voltará a ser regra, deixando de ser exceção. Só no amor humano reside toda a possibilidade de regeneração do mundo! O resto, é mero detalhe.

  

A magia do matrimônio

  

Primeiro o encantamento à distância, aquela significativa troca de olhares, breves diálogos, o toque de mãos, o enrubescer-se, os inocentes beijinhos de despedida na porta da casa dela, as juras de amor eterno, os planos para o futuro juntos quando todos estiverem em paz com Mammon...

           Em relacionamentos amorosos desta categoria algumas dificuldades são até procuradas, pois que estimulantes e desafiadoras (ambiência plena dos jovens!) mas não pode ser algo de impeditivo, um impedimento taxativo, beirando interjeições-tabu por qualquer incompreensão das Escrituras, pois isso tornaria a vida do novo casal um verdadeiro inferno. Obstáculos transponíveis são desejados e desejáveis, bloqueios impeditivos são repudiados, claro.

Nas circunstâncias normais, o jovem, com um emprego razoável, em fase de conclusão de curso superior (o que possibilitará o tempo necessário para que o casal se conheça melhor na intimidade até a formatura, que deve ser próxima à data do matrimônio, numa dupla celebração feliz). Uma moça da mesma faixa etária - há mesmo quem defenda a idéia de que a moça deva ser uns anos mais jovem, pessoalmente não creio que isto seja tão relevante - que comungue dos mesmos ideais e propósitos completa o encantamento - nem o absurdo de uma união com uma jovenzinha desmiolada, ainda adolescente, nem com uma pessoa egressa de um  relacionamento infeliz, para que uma vida nova a dois não comece a partir da infelicidade.

Hipocrisias e pseudo-moralismos à parte, não há nada que o brasileiro médio almeje mais que ser o primeiro. A virgindade da mulher é uma coisa tão importante para o homem quanto para ela mesma. Sei que entro num terreno polêmico por aqui - nestes tempos de liberdades e libertinagens nada mais parece fazer sentido a sério - mas faço minhas as palavras do padre Paul Eugenne Charboneau: “A mulher fica definitivamente marcada, naturalmente submissa em seu próprio corpo àquele a quem ela primeiro se entregou”. A partir deste conhecimento aprendemos a repudiar com toda a ênfase do mundo agressões vexaminosas como o estupro e aprendemos também a respeitar a postura da Igreja com relação à indissolubilidade do matrimônio.

Voltando ao casal que, quem sabe em sala de aula no colegial ou mesmo na faculdade, começou com a troca de olhares e, conversando, descobre que têm muitos pontos em comum e muitos pontos complementares. O passo seguinte é aquele “ver o mundo com os olhos do outro”: ele, que jamais havia pensado nestas coisas, surpreende-se por vezes embasbacado diante de um belo vestido numa vitrine de loja pensando “como ficaria lindo nela!” Ela, por sua vez, jamais interessada em política ou esporte passa por um jornaleiro, vê uma manchete curiosa começando já a pensar nele e em suas reações ao que ali vai impresso.

O tempo evolui. O amor entre os dois aumenta. Aumenta o desejo de estar junto por mais tempo. As condições de montar uma casa estão dadas - e o Senhor do Universo é tão misericordioso que providencia para que tal ocorra no momento certo, de nada adiantando ao humano tentar apressar ou retardar o processo.

Diante do Altar, cercados por familiares lacrimosos de felicidade, o “sim” - a Autoridade Divina, dizer “sim” no Templo Sagrado é muito mais importante que a esfera temporal! A seguir, o fórum, indefectível nos tempos modernos, e duas vidas são agora uma só, numa união, passe a redundância, indissolúvel segundo orientação do Vaticano. Mas convenhamos, o casal que entra em lua-de-mel não está nem um pouquinho preocupado com o Vaticano ou a “indissolubilidade do matrimônio”, querem conhecer-se mais na intimidade, entregar-se intensamente um ao outro, descobrindo as manhas e maravilhas do universo interior do novo cônjuge.

Pouco tempo depois, que as coisas voam no mundo moderno, a confirmação: “ela vai ser mamãe!” A alegria do pai é absolutamente indescritível. Sai a celebrar com amigos o fato de em breve, também ele, deixar descendência. Transido de emoção, ébrio de felicidade, fala de maneira desconexa: Amor, Matrimônio, Casamento, Troca de Fluidos Corporais, Filhos, Companhia, Cumplicidade, Felicidade!

Com que orgulho ela vê, na certidão de batismo da criança recém-nascida o nome do pai e o dela, que incluiu o patronímico em sua certidão de casamento também, como é praxe. Por algum motivo digno de estudos psicológicos e antropológicos, a mulher se sente mais segura, amparada e forte se porta consigo o nome do marido.

Poucos o admitiriam publicamente, mas é óbvio que a maioria dos homens anseia por alguém a quem unir-se, a quem possa apodar seu nome na sacralidade do matrimônio e com quem possa gestar a criança mais linda e inteligente do mundo! Vê-la sempre a orgulhar-se dele, mesmo que  entre quatro paredes com palavras simples e diretas: “tenho muito orgulho do que o meu Amor faz e gostaria muitíssimo de estar sempre ao seu lado, auxiliando-o em tudo o que se propuser a fazer”. Partilhar com ela cada momento feliz que a vida trouxer e ouvir dela que as dificuldades são passageiras, obter dela aquele apoio pessoal e moral diverso daquelas pessoas que só estão por perto quando a sorte sorri, fugindo com quantas perna tenha quando as dificuldades, por menores que sejam, ameaçam aproximar-se.

Que homem solteiro não adormece rogando ao Deus do seu coração que ponha em seu caminho aquela que seja sua alma-gêmea, a coadjutora prometida desde os primórdios dos tempos, que o homem sozinho vive somente meia-vida, se tanto...

Quando dois astros abandonam suas órbitas usuais e solitárias e se unem, surge um verdadeiro pulsar, fonte de Luz e Energia ao universo. Claro que minha abordagem ontológica deste assunto, por motivos óbvios é masculina, talvez até mesmo machista. Seria interessante conferir uma abordagem ontologicamente feminina desta temática, para ver se o caminho da magia é mesmo este e pode completar-se assim.

Aos solteirões, como eu, no meio do caminho desta vida, parafraseando Dante, uma reflexão amarga: o tempo passa implacavelmente tornando-nos cada vez menos atraentes enquanto os costumes vão levando as jovens a iniciar-se no Amor cada vez mais cedo...

 

 

De quem é a culpa?

 

  

Por que é que esta pergunta incômoda surge, sempre que um casal se separa? Nos tempos em que vivemos, de carências generalizadas, é absurdo culpabilizar qualquer dos ex-cônjuges pela separação que se dá, o mais das vezes, efetivamente por falhas mútuas na avaliação inicial do parceiro e, no limite, ruptura no limiar de tolerância de ambos à radical alteridade do outro em determinado momento ou, em outras palavras, por incompatibilidade pura e simples, mais cedo ou mais tarde - e quanto mais cedo melhor! - detectada.

           Por que motivos deveria ser ela a culpada, se em nome do relacionamento fez tudo quanto estava ao seu alcance, chegando mesmo a sacrificar anseios de infância para tanto. Ora, então a culpa é dele: não soube reconhecer seus esforços, sua tentativa sincera de transformação, de disponibilidade humana, de entrega total, quiçá nunca a amou de verdade embora sempre dissesse que sim... Ele é o grande canalha, o grande culpado, então!

Mas, de novo, por que é que ele tem de ser culpabilizado se desde o primeiro momento se esforçou ao máximo para satisfazer todas as suas demandas, seus anseios consumistas, sacrificando muito do que desejava ter ou fazer para que ela chegasse a ser feliz? Acompanhou-a ajudando-a em praticamente todas as atividades, fez com que ela crescesse humanamente, entregou-se com carinho sincero e profundo buscando fazer, enfim, tanto bem a ela quanto ela o fez a ele. Sim ele também se esforçou, se sacrificou bastante.

Aqui notamos o primeiro problema; muito sacrifício (sacrum faccere, tornar sagrado) num mundo basicamente profano...

Um “belo” dia, com toda a coorte de dores que sempre envolvem uma ruptura a este ponto, ambos reconheceram que estavam juntos mais por carências afetivas mútuas - coisa muito comum, aliás - que propriamente por aquele sincero e profundo Amor de dois corações apaixonados que se vêem completados um no outro nas dimensões física, emocional, intelectual e anímica - o caso analisado trazia única e exclusivamente a completude física, ficando as dimensões emocional, intelectual e anímica de ambos “solteira”, por assim dizer. Não havia, dada a radical diferença de aspirações e anseios um do outro, como prosseguir com o relacionamento sem ampliar multiplicando as mutilações, as concessões cada vez maiores que afastavam cada dia mais cada um do seu próprio ser em busca da construção de seres diferentes, disformes, deformados.

Só se pode falar em Amor pleno e recíproco se todas as esferas ou dimensões que compõem o humano estiverem em sintonia. Aquele amor total, que toma todo o ser, não pode, obviamente, comportar qualquer tipo de coercitividade ou culpa. Tanto a coerção quanto a culpa são antitéticas ao que no ser humano existe de erótico, de lúdico e de onírico. São antitéticas ao amor verdadeiro, portanto.

Fato é que aquele relacionamento, complicado como fosse desde o início, trazia algum grau de completude e satisfação a ambos em diversas esferas, de maneira que a separação é, de fato, dolorosa para ambos. A esta dor, dada a “lógica” que rege a maioria das cabeças em nosso mundo, tem-se de somar agora a dor da culpa.

Acontece que o discurso da culpa é o discurso daquilo que o psicanalista Wilhelm Reich chama com toda a propriedade de “Peste Emocional”. Culpado é este sisteminha de aviltamento e cretinização em que estamos enfiados e que nos impele, muitas vezes, a escolhas infelizes. Contudo o sistema é poderoso; criticá-lo, jogar nele o peso merecido da culpa - se é que mesmo aqui faz algum sentido falar em culpa... - resulta exercício demasiado complexo. Mais simples e direto, do ponto de vista da mentalidade da gente simples do povo, é culpabilizar um dos dois que se separam, ou mesmo um ao outro.

Racional, do ponto de vista do humano, numa situação de ruptura, é extrair - por cima de toda a dor, de todo o sofrimento ligado a qualquer processo desta natureza - lições, crescer em aprendizado, em conhecimento do humano real, concreto diante de nós mesmos, percebermos que, ou amamos o outro como ele é ou não e ponto final. Absurdo querer transformar as pessoas em algo que nem elas jamais cogitaram vir um dia a ser. Mais absurdo ainda querer, de maneira auto-coercitiva, transformar-se para agradar a outrem. Absolutamente ridículo, totalmente mesquinho que se fique buscando “o grande culpado”, “o grande canalha”, entre os dois!

O tempo contemporâneo é o primado do equívoco sobre o unívoco e se houve equívoco, sendo o casal incapaz de completar as esferas física, emocional, intelectual e anímica ou erótica, lúdica e onírica um do outro, não há culpa nem culpados. Há um equívoco colocado e agora ambos estão mais maduros e fortes para um novo relacionamento. Se se puder preservar pelo menos alguma amizade, estaremos bem próximos de uma situação ideal!

 

 

Te amei

 

Te amei, Amiga;

Talvez o amor ainda exista...

Em minh’alma não se apagou completamente;

Mas não te inquietes.

Não quero que fiques triste por motivo tão fútil.

Te amei, Amiga;

Em silêncio, sem esperanças,

Acanhado, terno, atormentado...

Te amei, Amiga;

Tão sincera, tão ternamente,

Que possa Deus permitir que tu sejas assim amada

Por outro, se a mim rejeitas.

 

 

( tradução livre do original russo de Púshkin)

 

 

  

E por falar em amor...

 

 

É uma desgraça que dependamos tanto das outras pessoas, e desgraça maior que, mesmo assumindo conscientemente o fato de nossa enorme dependência das outras pessoas, freqüentemente tenhamos de prescindir delas.

Isto me ocorreu num boteco perto de casa, enquanto tentava decidir se sou um intelectual que bebe para se inspirar ou um bebedor que bebe para julgar-se um intelectual. Cheguei à conclusão que esta é uma questão ociosa, mas já que estava ali justamente cultuando o ócio, não vi motivos para deixar de formulá-la.

Na verdade minto, ao dizer que fui ao boteco “cultuar o ócio”; estava lá afogando as mágoas após um caso de amor mal resolvido.

Eu a quis com meu corpo, com meu coração e finalmente com o meu cérebro; afinal , havia acabado de descobrir que a vida é algo totalmente sem sentido, que só o amor pode tornar suportável. Ela contudo não dizia me querer, mas se não me queria, também não o dizia. Apenas mostrava-se satisfeita e receptiva às minhas pequenas homenagens. Um sorriso seu, um cruzar de olhos cheio de significado, uma carícia casual e inocente, tudo enfim era para mim naquela época motivo de alegria.

Sou operário; filho, neto e bisneto de operários - a diferença é que meus antepassados aqui mencionados não eram, como eu, “operários das letras” - e assim serão meus filhos e netos se um dia chegarem a existir. Ela também tinha a mesma origem, mas suas ânsias e expectativas de vida eram tão radicalmente diferentes das minhas que agora, olhando de longe, desta distância saudável que só o tempo pode proporcionar, fico surpreso por me haver envolvido num relacionamento tão desigual.

Leio acima as palavras “envolvido” e “relacionamento”, e não posso refrear um sorriso. O “envolvimento”, embora físico e intenso, disso não passou. E “relacionamento” é um termo forte demais, sagrado demais paraexpressar o que de fato aconteceu.

Se eu bradava: “Paz na Terra! É preciso abrir o caminho para a Paz e Justiça Social em nossa terra, ainda que para isso tenhamos de, por momentos, deixar de ser cordiais, particularmente para com os opressores!” Ela me ouvia entre atenta e surpresa, aplaudia meu entusiasmo e me acariciava com palavras, dizendo que o mundo criado por Deus é bom e que, se existem injustiças, cabe a nós suportá-las e tudo fazer para que sejamos dignos da Vida Eterna, essa sim importante. Seguramente, jamais estudou a Cabala ou sequer ouviu falar na sagrada esfera marciana de Geburah!

De todo modo, embora fosse uma divergência séria, não a considerava insuperável. O problema surgiu mesmo quando mais tarde lhe disse que minha “solução romântica” - através da busca de um grande amor correspondido em sua plenitude ou através da busca de justiça para todos - valia tanto quanto a sua “solução religiosa” ou quanto qualquer outra pois dizia eu, passando que estava por uma fase existencialista, “o problema básico, a vida, é de fato insolúvel! O que as pessoas fazem é forjar razões ou motivos para seguir vivendo”.

Tinha a clara impressão de que ela correspondia aos meus sentimentos quando, após a total entrega no ato de amor, voltava ao assunto e me repreendia entre terna e magoada dizendo haver um ordenamento prévio no universo criado por Deus e que ela, mesmo apaixonada como estava, só viveria até o fim de seus dias com um homem que “estivesse também a serviço do Senhor”. Crentes são difíceis. Mas como foi possível julgar-me a serviço de outro Senhor em tão pouco tempo? E olha que a própria religião deles proíbe o julgamento a-priorístico!

Tais conceitos, tal visão, tacanha, soavam-me, no mínimo, como absurdidades. Cumpre apenas observar que meu cinismo não foi tão longe que me permitisse simular uma súbita conversão a suas idéias, nem meus argumentos fortes o bastante para trazê-la ao meu ponto de vista - nem tinha esta pulsão messiânica da conversão de outros seres humanos ao meu ponto de vista à ocasião.

Procurei reduzir a importância de nossas discordâncias e enfatizar os pontos em que concordávamos, mas sem sucesso. Se ela tinha a convicção inabalável de que “o mais importante é a salvação da alma”, encontrava em mim uma certeza, das poucas que tinha à ocasião: “o mais importante é entregar a vida a uma causa, a um grande amor, só isto pode torná-la suportável”. Assim a perdi.

Uma pessoa muito sábia me disse que jamais se “perde” alguém. Quando acontecem coisas assim, o ser humano em questão nunca foi nosso em verdade e jamais o seria. A isto posso acrescentar que seres humanos jamais deveriam ser objeto de possessividade; ou estão juntos porque se amam ou não o estarão jamais - embora aparentem estar por algum tempo ilusório, por trás dos véus de Mâra.

 

  

Felipe

 

 

"Mas, pouco depois, chegaram cartas e flores,

bondades e consolação" Franz Kafka

 

 

Felipe estava desempregado. Procurou, em dezenas de locais colocação pelo menos equivalente a seu último emprego, sem encontrar qualquer que fosse. Escreveu para jornais, revistas, universidades e emissoras de rádio e TV enviando seu currículo invejável em busca de nova inserção profissional. Tudo sem resultado. Talvez devesse isso à sua timidez, talvez à sua falta de talento mesmo, uma vez que as "autoridades" esmeravam-se em assegurar que as taxas de desemprego eram "inexpressivas", insignificantes mesmo.

"Bem", pensava, "então estou ocupando uma posição inexpressiva e insignificante da escala social. Resta-me reduzir minhas pretensões e aceitar qualquer oferta que obtenha, mas o farei amanhã. Pode ser que hoje ainda me chegue alguma proposta honrada pelo correio."

Vã ilusão! Pelo correio chegavam várias cartas - em sua maioria de cobrança por contas em atraso, vale a remarca - com um atraso pavoroso. O retardo do funcionamento do correio fazia aumentar-lhe a expectativa: "Talvez minha ‘oferta digna’ esteja a caminho; deve apenas estar retida em algum ponto no correio. Têm havido queixas e reportagens com relação a isso, aliás. Talvez em mais uns dois ou três meses o que espero acabe chegando..."

Concentrando toda sua expectativa na correspondência diária - mesmo porque as entrevistas com prováveis empregadores acabavam tornando-se acidentadas; a postura idiossincrásica de Felipe deixava ao empregador esperto com clareza a superioridade intelectual de quem lhe estava adiante a pleitear cargo até modesto... - escrevia mais e mais cartas enviando seu currículo e esperava, esperava, esperava....

Até Cláudia, sua namorada, perdeu a paciência com ele. Como de praxe numa nação como a brasileira, condicionava seu imenso e sincero amor ao bem-estar material que poderia proporcionar a ambos. Quando o conheceu, recém-formado em jornalismo, muito bem empregado num grande jornal carioca, com todo o futuro à frente, cheio de perspectivas sorridentes, julgou que jamais havia conhecido alguém com olhos tão tristes, rosto tão belo, tão límpidos e belos ideais e voz tão cálida. Após feliz reportagem-denúncia, que lhe valeu um prêmio internacional e a perda do emprego, levando-o à falência material e a uma crise depressiva, Cláudia começou a perceber que, afinal, Felipe era calvo, míope, um tanto obeso e até mesmo se admirava por haver um dia se apaixonado por ele.

As coisas começaram a ficar tenebrosas na fértil imaginação de Felipe. Sua namorada já não o queria; seu irmão, que lá do interior de Mato Grosso, enviava-lhe generosa contribuição até que se aprumasse, ameaçava cortar-lhe a mesada se não arranjasse um emprego - qualquer que fosse - e rápido; a crise econômica, mal crônico do Brasil Real, parecia afetar-lhe mais que a qualquer outra pessoa. A par de uma abundância de oferta de bens de consumo, absolutamente nada que lhe possibilitasse a eles ter acesso.

Premido pelas circunstâncias, acabou aceitando emprego como sitiante, trabalhando de sol a sol na lavoura de cana em troca de um salário ainda menos que insultuoso à dignidade humana, mas era uma ocupação. Pelo menos teria alguma renda que, somada àquela que generosamente lhe cedia seu irmão, haveria de proporcionar-lhe uma existência digna enquanto aguardava colocação melhor.

Animou-se com seu novo emprego e até conseguiu fazer planger novamente a velha lira órfica dedicando um poema à sua amada. "Cláudia". Um poema menor, conceda-se, mas fazia nele as comparações mais mirabolantes: olhos com estrelas, hálito com primavera, cabelos com trigais maduros, pele com pêssego...

As pessoas se acomodam a todas as situações; fazer o quê? Ninguém respondia a seus pedidos de emprego; nem mesmo agora, que a correspondência parecia encaminhar-se a um estágio de permanecer "em dia".

Felipe se adaptava, se acomodava. Com sua pequena renda, conseguia construir modestíssimo patrimônio e dispunha de tempo livre para ler e escrever; pouco, mas já era alguma coisa. Faltava apenas reatar o fio do romance interrompido para que sua vida tivesse ligeiros ares de "normalidade".

Um dia, comentou numa rodinha de peões (todos um tanto ébrios pois que o frio da madrugada por vezes exige doses um tanto mais generosas da "teimosa") que era jornalista formado, considerava-se politicamente injustiçado, tinha um currículo portentoso e esperava a qualquer momento saltar daquela situação para uma melhor e passar a auxiliar com maior empenho seus novos camaradas. A reação, um coro de vaias, assobios, gargalhadas e insultos oriundos da dúvida de sua sinceridade ou da inveja dos que o rodeavam - ambos dolorosos - deixou-o profundamente aturdido: "Se nem consegue trabalhar direito na lavoura, como ousa pensar em ascensão social? Quer tomar o lugar do Luizão? Vê se te enxerga, carioca!"

Quando Luizão, um sujeito bronco mas com a força de cinco búfalos marajoaras, ficou sabendo que alguém queria tomar-lhe o prometido bastão de capataz, desceu a porrada no coitado que ficou uns quinze dias sem capacidade de ação, hospitalizado.

Novamente a imaginação de Felipe - riquíssima, mas freqüentemente auto-destrutiva - começou a trabalhar vigorosamente contra ele. Faltava-lhe "ambiente" no serviço. A expressão "jornalista" ficou gravada como que em bronze na memória de seus colegas que não perdiam uma única ocasião para lembrá-lo, com pouquíssima ou nenhuma sutileza, de sua atual posição social e do quanto achavam impossível qualquer forma de promoção, menos ainda projeção social, dentro ou fora da fazenda em que trabalhava. Cláudia não respondia, e já fazia mais de um mês que lhe enviara o poema.

Quando sentiram sua falta na fazenda, já fazia uma semana que não aparecia. Sabendo que morava sozinho e não tinha sequer telefone em casa, os poucos que sentiam por ele alguma compaixão - que seu espírito forte não despertou sequer simpatia em ninguém - organizaram uma comissão e foram visitá-lo.

Talvez estivesse magoado com os colegas, não sem motivo. Talvez tivesse tirado a "sorte grande" numa das muitas loterias que pululam por aí - verdade que Felipe sempre manifestou-se contrário a todas as formas de jogo, mas no desespero... - num caso, buscariam desculpar-se, no outro, exigiriam um empréstimo compulsório.

Estava morto. Sabe-se lá desde quando, sabe-se lá de quê. Talvez suicídio. Talvez "overdose" de uma destas porcarias que se compra em qualquer birosca sem receita médica. Talvez puro desgosto ou desilusão amorosa mesmo. O estado do cadáver encontrado e o desinteresse dos que o encontraram inviabilizaram uma necropsia esclarecedora.

Seu irmão levou cinco dias para chegar de Mato Grosso ao interior de São Paulo, onde Felipe se refugiara para trabalhar. Péssimas estradas, greves e piquetes de caminhoneiros só permitiram a Malcon chegar muito após o sepultamento. De todo o modo, seja por superstição ou respeito, todo o material deixado por Felipe, inclusive correspondência recém-chegada, estava intocado. Ao organizar os papéis do mano com o fito de providenciar o codicilo, encontrou cerca de trezentos manuscritos sobre os temas mais diversos, de poesia a arquitetura, passando pela política, filosofia e geografia, além de contos, novelas, crônicas e um diário detalhadíssimo. "Bem administrados, estes escritos renderiam um bom dinheiro nas mãos certas..."

Examinou as cartas mais recentes. "Pode-se abrir cartas de defuntos? Ora, quem reclamaria?" Havia algumas contas antigas, ainda não pagas, mas três dentre as dezenas de cartas encontradas chamaram mais a atenção de Malcon. Uma era de Cláudia, a quem Felipe dizia amar tanto. Outra de uma importante emissora internacional, a terceira de uma universidade européia.

Começou pela carta de Cláudia, que dizia mais ou menos o seguinte:

 

"Meu Amor,

Se você soubesse como estou arrependida! Fiquei muito feliz ao saber de seu novo emprego que, embora modesto, comporta chances de ascensão social e tem até moradia individual! Que bom o seu sucesso, querido. Jamais deixei de acreditar em você e sei que o futuro te fará justiça. Por favor, venha visitar-me o quanto antes. Você saiu sem se despedir, sem dizer para onde e até hoje mamãe está aborrecida. Só falando com ela para ver! Ainda assim te admira e manda também o seu amor."  Tinha um "P.S." - "Bonitinho aquele poeminha? Copiou de onde?"

 

A carta da emissora trazia um convite sedutor, um brinde e um pedido de desculpas pela demora.

A universidade européia dizia (segundo a tradução do pessoal do consulado) aguardar sua ida para lá o quanto antes pois prometia dar prosseguimento ao desenvolvimento de um projeto de ponta que estava, até aquele instante, sem quem lhe desse continuidade. Mais. O salário mensal ultrapassava em muito o que um pesquisador brasileiro recebe anualmente, mais um próprio para moradia da família com despesas (luz, gás, água, telefone, correio, etc) pagas.

Malcon mal conseguia manter-se com a boca fechada. Estava estupefato, atônito. "Se meu irmão vivesse para ler estas cartas, certamente a história teria sido bem outra. E que mais estaria por vir?"

Estava certíssimo! Por cinco meses chegaram ainda várias cartas, de vários jornais, revistas e universidades, do Brasil e do exterior. A maioria se desculpava por não poder empregar seu irmão embora houvesse unanimidade no reconhecimento de seu valor.  Poucas traziam as mais sedutoras ofertas.

A algumas respondeu, explicando o inexplicável falecimento do mano. Outras ficaram sem resposta, como Felipe havia ficado tanto tempo... 

 

Amor e Humanismo

  

Não. Não posso conceber nossa felicidade apartada da felicidade do nosso povo.

Quero te amar com loucura sabendo que no mundo lá fora não se cometem violências ou injustiças, que os homens se irmanam e cantam juntos as mesmas canções. Que constroem, olhos brilhantes, o mundo bonito em que um dia nossos filhos e filhas brincarão despreocupados do que quer que seja.

Quero, com o suor do meu rosto, trabalhar satisfeito para construir a felicidade do nosso povo.

Causa-me tristeza e dor que tantos de nossa gente estejam sendo chacinados pela miséria, desemprego, desespero e inseguranças as mais diversas. Que trabalham como loucos e o fruto de seu trabalho somente engorde os crápulas que os tiranizam há 500 anos.

Amada, não quero morrer pela felicidade do meu povo. Quero viver na luta pela paz e pela felicidade. Quero viver por você, por nós, pela nossa felicidade, por um futuro melhor para os nossos filhos e filhas que, espero, serão muitos...

Peço perdão se esta vida não me permite dar a você os confortos materiais que tanto merece e que foi treinada desde o berço para obter. É que o conforto de poucos sempre custa muita dor e muito sangue extraído do alheio... Não saberia ser feliz com um “conforto” estabelecido sobre tais bases.

Quero deitar-me numa cama de madeira cortada por mim, recoberta com plumas de aves dos campos e forrada com tecidos sedosos urdidos por suas próprias mãos, estas mãozinhas que não consigo parar de beijar e acarinhar. Nesta cama tranqüila nos deitaremos e assim serão criadas as crianças do futuro.

E nossas crianças brincarão felizes nos jardins que tu plantares. Comerão as frutas do pomar que cultivarmos. Abraçarão os amigos felizes de sua infância, vindos de jardins tão belos quanto o nosso.

Sim, amada, nosso amor frutificará! De nosso amor nascerão as crianças felizes que, mais tarde, construirão o Mundo Novo, a Nova Era de Paz Profunda!

Antes que este amor se realize, nós, “profetas da nova era”, apartaremos os urubus da velha ordem. Compadecidos afastaremos aqueles que de sangue operário se nutrem. Combateremos cada injustiça que virmos no mundo!

Dos escombros deste mundo demolido ou caído por putrefação, sairemos nós, e reconstruiremos tudo de bom que o inimigo haja desfeito. Manteremos as belezas que conseguirmos preservar. Acabaremos de demolir o mal que ainda restar.

Ali sim, teremos nossa casa, nosso jardim, nosso pomar, nosso amor, nossas crianças...

E o homem será amigo do homem. Não mais haverá tristes corvos a lamentar, uma decadência que não compreendem...

Avizinha-se a tempestade. Nuvens já se formam no horizonte e informam que a atual situação é pouco mais que um aviso.

Avizinha-se a tempestade! Bramindo, urrando, clamando, gritando:

“Pão, Paz, Terra!”

“Liberdade, Igualdade, Fraternidade!”

Ó geração hipócrita, não ouves o clamor do teu povo? Não percebes a noite negra que sobre ti se abaterá?

Quem escapará à negra tempestade?

Tu, falso cristão, que habitas ricos templos a prova de bombas? Não será com bombas, mas com gente que teus templos serão destruídos!

Acaso tu, burguês covarde, crês que teus quartéis te protegerão dos frutos da injustiça que plantaste entre aqueles que por séculos a fio exploraste?

Ouves o rufar dos tambores? É a “plebe ignara” de que tanto foges, a cantar, plenos pulmões, as mais sublimes canções e marchas humanistas.

Escutas o clamor do povo - que um dia quiseste que fosse teu por propriedade ou por direito divino - por “pão, liberdade, justiça”?

Sai da frente porco, que te atropelará a gente!

Hoje vences, mensageiro que sois de teus superiores. Manda-me ao teu inferno, falso crente cretino que constróis templos luxuosos com dinheiro de gente pobre. Cala minha boca se o podes. O amanhã te trará as respostas: Cada um que silenciares será substituído por milhares!

Tu, tribuno falso que afias nas páginas da Bíblia os instrumentos de exploração do homem pelo homem: hás de responder, não a um Deus distante, tirânico e cruel, que tal não existe senão em teus delírios mas a teus irmãos terrenos pela tua ignomínia!

A massa já se reúne e explode. Explosões ciclotímicas e sem muito sentido ainda, mas dia chegará em que um líder, da massa saído, decretará o fim da exploração do homem pelo homem.

E então, finalmente, terá início a era da paz e da prosperidade para todos.

 

 

A Canção do Albatroz

  

Em 1901, Máximo Gorki escreveu este belo poema sentindo o tempo que vivia e do qual se avizinhava poderosa tempestade revolucionária na Rússia heróica de seu tempo. A palavra albatroz (burieviestnik) em russo pode ser traduzida como mensageiro (viéstnik) da tempestade (buria), por ser ele o único animal que sai alegremente a voar e sente-se perfeitamente à vontade em meio a qualquer tormenta. A mensagem é clara: no meio do caos, não devemos temer as tempestades, mas voar com elas e contribuir para que elas transformem efetivamente o mundo!

Quando verti este poema para o português anos atrás, a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas estava em seus estertores. Convém lembrar que o poema foi escrito às vésperas de um tempo de sonho, sonho do qual se precisou acordar...

 

“Sobre a superfície cinzenta do mar,

O vento reúne

Pesadas nuvens.

Semelhante a um raio negro,

Entre as nuvens e o mar,

Paira orgulhoso o albatroz,

Mensageiro da tempestade.

E ora são as asas tocando as ondas,

Ora é uma flecha rasgando as nuvens,

Ele grita.

E as nuvens escutam a alegria

No ousado grito do pássaro.

Nesse grito - sede de tempestade!

Nesse grito - as nuvens escutam a fúria,

A chama da paixão,

A confiança na Vitória.

As gaivotas gemem diante da tempestade,

Gemem e lançam-se ao mar,

Para lá no fundo esconderem

O pavor da tempestade.

E os mergulhões também gemem.

A eles, mergulhões,

É inacessível a delícia da luta pela vida:

O barulho do trovão os amedronta...

O tolo pingüim, timidamente

Esconde seu corpo obeso entre as rochas...

Apenas o orgulhoso albatroz voa,

Ousado e livre sobre a espuma cinzenta do mar.

Tonitroa o trovão.

As ondas gemem na espuma da fúria.

E discutem com o vento.

Eis que o vento

Abraça uma porção de ondas

Com força e lança-as

Com maldade selvagem nas rochas,

Espalhando-as como a poeira,

Respingando uma noite de esmeraldas.

O albatroz paira a gritar

Como um raio negro,

Rompendo as nuvens como uma flecha,

Levantando espuma  com suas asas.

Ei-lo voando rápido como um demônio;

Orgulhoso e negro demônio da tempestade;

Ri das nuvens, soluça de alegria!

Ele - sensível demônio -

Há muito vem escutando

Cansaço na fúria do trovão.

Tem certeza de que as nuvens não escondem,

Não, não escondem...

Uiva o vento... Ribomba o trovão...

Sobre o abismo do mar,

Um monte de nuvens pesadas

Brilham como centelhas.

O mar pega as flechas de relâmpagos

E as apaga em sua voragem.

Parecem cobras de fogo.

Os reflexos desses raios,

Rastejando sobre o mar e desaparecendo.

_ Tempestade!

Breve rebentará a tempestade!

Esse corajoso albatroz

Paira altivo entre os raios

E sobre o mar furiosamente urrando

Então grita o profeta da Vitória:

QUE MAIS FORTE ARREBENTE A TEMPESTADE!”

 

 

 

 

HAMLETIANAS – I

 

 

Assustam-me os seres humanos

Serei eu também assim?

Um conglomerado orgânico a agitar-se, confundir-se

E pensar que os gonzos do universo giram a seu redor?

Irmano-me a todos os que um dia disseram:

"Sou um estrangeiro numa terra estranha"

 

Estou só, como todos,

Mas desgraçadamente tenho consciência desta solidão.

Não é coisa que se deva ou possa corrigir.

A solidão é minha e eu a sinto estoicamente,

Embora não a ame

 

Ou talvez já ame.

Após tantos anos a gente se acostuma...

 

Tenho poucas coisas em comum com os demais seres humanos,

Talvez nada mesmo.

Vejo um ser humano caminhar, sorrir, falar

E penso: "que ridículo!

Será que não percebe?

E se percebe, como tolera?"

 

Pensar...

Pensar é uma faculdade singular!

Valerá a pena aderir a alguma Causa (ou quiçá liderá-la)

Seja ela qual for ou quão "justa" pareça?

 

Vivo num lugar estranho.

Aqui os criminosos têm estátuas

E os heróis são esquartejados.

Que é melhor?

Ganhar uma estátua como criminoso

Ou ser esquartejado como herói?

 

Ou fugir?

Fugir de tudo, da vida, do mundo, dos homens,

Dos perversos e inescrupulosos seres humanos...

  

HAMLETIANAS – II

 

 Primeiro a frustração de viver num mundo tão cruel e desumano,

Depois a dor de saber-se num mundo onde o amor é uma quimera,

Frustração, dor, amor, sentimentos...

Até que ponto isso é necessário?

Até que ponto isso é ... suportável?

 

Amor, ódio, deuses, demônios,

Tudo se une e se confunde em minha mente.

E o homem, portador de tais conceitos,

 

Precisa viver num mundo

Que elegeu o blefe e a fraude

Como bezerros de ouro.

Precisa aprender a ser falso, a mentir,

Até a fingir e usar más-caras para se proteger.

 

Eis porém que a morte, vencedora final,

Sempre cobra o seu quinhão:

"Você que amou, abrace-me agora!"

"Você que odiou, possua-me agora"

"Você que foi feliz, sorria agora!"

"Você que sofreu, alivie-se agora!"

 

E todos, amantes e assassinos,

Heróis e mendigos,

Pobres e cretinos,

Unem-se finalmente ao pó,

De onde jamais deveriam ter saído!

 

 

A serpente que queria voar

  

Cobras rastejam, mas eu gostaria de voar. Alto como as águias, livre, longe das tocas, dos ninhos promísquos e do próprio perigo que as águias nos trazem.

Passei mais de dois meses sem comer o que quer que fosse. Sapos, insetos, ovos, nada. Só podia pensar em voar, em construir meu ninho nas montanhas ou na mais alta das árvores; em mergulhar dos céus à busca de caça, como só as gigantescas aves de rapina o fazem.

Após muito meditar, sem encontrar solução para um tal problema, profundamente deprimido mas quase conformado, topei com uma lagarta pendurada num pequeno arbusto, dedicada à laboriosa tarefa de construir seu casulo. Voltou-me o apetite e a devorei sem compaixão, com casulo e tudo. Fez-me mal. Após tão longo jejum não se deve comer lagartas...

Naquela noite sonhei que subia a duras penas numa árvore íngreme e construía, eu mesmo, um casulo do qual, após longa espera, saía transformado em poderosa águia. Inquieto, acordei sobressaltado no meio da noite, incomodando as outras serpentes enrodilhadas a meu redor. "Começarei meu casulo amanhã mesmo", decidi então, antes de adormecer novamente.

Procurei uma árvore frondosa em local seguro. Precisava de muito preparo para a construção de meu casulo, mas estava seguro de que sairia de lá transformado em poderosa águia.

Passei dois meses a me alimentar profusamente. Não comentei meu projeto com quem quer que fosse por temor de ser taxado de insano, egoísta ou megalômano; ademais, precisaria de paz, tranqüilidade e segurança para o período da metamorfose.

Quando temos uma idéia fixa, faltamos, às vezes, com nossos deveres para com o grupo. Procurei comportar-me de forma a mais natural possível, a fim de não despertar suspeitas. Mas as exigências internas de minha natureza em busca de mudanças, por momentos excediam minhas forças e me tornavam quase que totalmente inapto ao trabalho no grupo.

Minhas coisas no mundo ofídico tornaram-se tão desarranjadas que, ao exigirem de mim excesso de atenção, dificultaram cada vez mais, quase inviabilizando mesmo, o cumprimento de meu projeto pessoal.  Com tudo isso consegui construir meu casulo!  Tosco. Frágil. Transparente como os ovos das serpentes. Mas era tudo de que dispunha. Não sabia quanto tempo levaria para que a metamorfose se completasse. Meditava.

No primeiro mês, farto que estava de tudo e de todos no mundo em que até então vivia, só podia pensar em técnicas de vôo e mergulho, em outros céus, em novas paisagens, enfim, numa vida nova.  Naquele mês fiquei cego. Não tinha importância, estava seguro de que me nasceriam olhos de águia.

A partir do segundo mês voltei a pensar em minhas irmãs serpentes e em como faria para ensinar-lhes a realizar também a sua metamorfose, para dizer a todas quanto seria melhor o mundo se, ao invés de disputarmos e devorarmo-nos uns aos outros, passássemos a cooperar e viver em harmonia, ajudando-nos uns aos outros na nobilíssima tarefa da auto-superação em prol de um mundo melhor. Minhas escamas caíam. Não me importava, para que servem escamas a quem breve estará a voar?

Assim se passavam os meses, cada qual com uma nova preocupação e uma nova perda física.

No oitavo mês começaram a nascer-me penugens. Numa ocasião, algumas pequenas serpentes - crianças, naturalmente - galgaram a árvore em que estava encastelado e, por pura brincadeira, derrubaram meu casulo ao solo e o destruiram.

Agora estou aqui, nu, cego, esquecido do idioma das serpentes, incapaz de locomover-me por conta própria, me escondendo da luz e chorando nas sombras o meu fracasso. Quase cheguei onde ninguém antes de mim havia sequer pensado ser possível ir....

Todavia, permaneço otimista. Sei que um dia uma serpente terá êxito onde fracassei. Quase posso vê-la a descer dos céus trazendo no bico sua mensagem de vitória, de paz e de um mundo melhor para todos.

 

Não atirem!

 

Em meus caminhos meditativos tenho parado regularmente em alguns temas recorrentes que me afligem, inclusive em sonhos.

O mais severo diz respeito a São Miguel arcanjo, ao Sul, que dominou o dragão e segue orbitando nas esferas do Divino. Como combater o mal - e até mesmo “o que é o mal” - no mundo e seguir sendo amigo de Deus e do Bem? Dizia Wilhelm Reich que o braço do Bem só consegue contaminar-se caso se dedique a castigar o Mal, nele se transformando por utilizar justamente as suas armas, ainda que contra ele...

A meditação seguinte, também recorrente e dolorosa, começou a tomar corpo em meu existir a partir do momento em que comecei a trabalhar, no quartel, em escolas, lidando com pessoas distintas, diferentes: por vezes sinto-me agredido, atacado, sem que possa compreender os motivos daqueles ataques que acabam parecendo gratuitos e somente consigo retrucar timidamente: “não atirem!”

Suplico que deixem a mim pelo menos a alegria, fundamental, visceral, aquela que vem de dentro, independente das circunstâncias ou condições externas.

Existe por aí a prática anti-cristã de enfurecer, confundir e desamparar o humano, buscando reduzi-lo a um farrapo lamuriento após sucumbir a cruéis limitações a ele apodadas: não pode isso, não pode aquilo, não pode errar (tem que ser “bonzinho”, hem!) não pode acertar (todo mundo erra, quem acerta sozinho é louco!), não pode ficar sem trabalhar (“quem não trabalha não tem o direito de comer!” diz o autoritarismo vigente), não pode trabalhar (as taxas de desemprego são uma verdadeira calamidade em nosso país), não pode ficar sem carro, telefone, TV por assinatura, telefone celular, computadores, videocassete, filmadora, roupas de luxo e muito dinheiro no bolso (caso contrário se estará vergonhosamente “fora de moda”), mas não pode ter carro, telefone, TV por assinatura, telefone celular, computadores, videocassete, filmadora, roupas de luxo e muito dinheiro no bolso (para quem ainda não notou há crise, desemprego, subemprego, salários baixíssimos...)

O sistema como um todo acaba funcionando como a espora e o freio do desejo, deixando a vítima sem alternativa honrosa qualquer que seja. Propagandas televisivas ou boca-a-ouvido intimam os trabalhadores a adquirir coisas que nem mesmo em séculos de trabalho honesto conseguiriam. Um sistema sádico, pecaminoso, anti-cristão, deixa a maioria das pessoas no nível da mais ínfima condição de sobrevida material (freqüentemente nem mesmo isso!) e aponta, dedos acusadores: “Mas como? Você ainda não tem (este ou aquele bem da moda) ainda? Vergonha!” Não pode ficar triste (se permitirmos o mais baixo dos sentimentos, a auto-compaixão, tomar conta de nós, estamos perdidos!), não pode ficar alegre (“de que ri tanto em meio a tanta calamidade, parece hiena!”). Não pode! Não pode! Não pode!

Se permitirmos que nos governe o que existe de mais elevado no coração de cada um (uma definição ética da divindade), se o HUMANO, obra máxima da criação divina é promovido e não desrespeitado, se a Criação é preservada e não destruída - inclusive num pensamento ecológico bem mais ampliado - Podemos todas as coisas naquele que nos fortalece! (Flp 4, 13).

É claro que, sem uma alternativa honrada que seja, fica mesmo muito difícil seguir vivendo. Se, contra o Evangelho, tudo é proibido, fica-se sem alternativa e pode-se até mesmo chegar ao extremo da auto-agressão como última grande fuga. Em nome de Deus, em nome da Vida, em nome do Amor, temos de lutar com todas as armas para evitar que isto aconteça. Temos de impedir, a todo o custo, o cruel massacre contra o humano no mundo. Só há Esperança, repito, se houver Fé, Amor, Compreensão, particularmente no seio das famílias. Aos cruéis e sádicos anti-humanistas, anti-cristãos que nos querem roubar até o canto alegre da garganta, brademos, plenos pulmões como numa antiga tentativa de poema:

 

“...Não atirem!

Não a tirem de mim!

Minha história é bem íngreme,

Minha sina é ruim.

Não atirem!

Não tirem a alegria de mim!”

                          RMGF

O Reto-Agir, Caminho da Sabedoria

 

 

 

“Bom é agir e bom é abster-se da atividade; tanto isto como aquilo conduz à meta suprema. Mas, para o principiante, bom é agir

corretamente” Bhagavad Gita

 

 

Estudar e respeitar todas as religiões, compreendendo-as como metáforas é altamente elucidativo, não sectário e confortador. Há tantos pontos comuns em tantas religiões do mundo... Saber que são diferentes é fácil. Basta conversar poucos minutos com qualquer seguidor de qualquer religião e se perceberão as diferenças. Mas chega um tempo em que nos cansamos de ver a moeda cair sempre com a “cara” para cima e decidimo-nos a virá-la para ver o outro lado. Surpresa: seja por difusionismo (um mito ou uma idéia se origina num ponto e vai se difundindo entre os povos), seja por considerações acerca do inconsciente coletivo junguiano, ficam claríssimos os pontos de contato entre todos os buscadores sinceros da verdade pelo mundo afora.

Diz-se que Vyasa teve a idéia de deixar um relato escrito da criação do mundo até os seus dias. Assim nasceu o Mahabharata, do qual a Gita é um pequeno trecho - há em vídeo um magnífico filme do diretor britânico Peter Brook, de mesmo título do tradicional livro hindu, que é altamente recomendável a quem se interesse pelo tema.

Na Obra, escrita alguns séculos antes do nascimento de Cristo, consta que a virgem Devaqui deu à luz uma criança divina, filho direto do deus Vishnu, a suprema divindade hindu que “encarna no mundo sempre que a justiça fraqueja e o Caos ameaça tomar conta de tudo”. O jovem Krishna leva algum tempo para perceber quem ele realmente é, que é diferente dos demais e tem a divindade dentro de si mesmo. Muito recorrente, dentro da cultura hindu, por sinal, relatos de experiências usualmente traumáticas conducentes ao auto-conhecimento. O próprio Lênin gostava de relatar a tradicional historieta hindu do filhotinho de águia criado num galinheiro que, após muito ciscar e nutrir-se de minhocas, somente descobre quem ele realmente é quando um viajante o retira do cativeiro o arremessa-o de um despenhadeiro; a águia, já adulta, cacareja e, numa desesperada tentativa de sobrevivência abre as asas e voa, percebendo seu imenso poder. Acerca de Rosa Luxemburgo, Lênin contava esta historieta em suas exéquias dizendo ao cabo: “Uma águia pode descer até onde vivem as aves domésticas, mas as aves domésticas jamais poderão voar alto como as águias. E Rosa Vermelha foi uma águia entre aves domésticas.”

Algo similar se passa com Krishna, que é “morto” e jaz no fundo de uma lagoa quando a terra sacode e faz com que perceba quem ele é, filho da divindade suprema, imortal. Tão logo o percebe, derrota os anti-deuses do seu tempo e parte para a instrução de seu mais eminente discípulo, o príncipe Arjuna* .  Este brevíssimo resumo da introdução daquela epopéia hindu, chega neste ponto à Bhagavad Gita, “Sublime Canção”, um dos textos mais reverenciados na complexa teologia hindu.

Pandu, o monarca, havia sido deposto pelos seus próprios parentes auxiliados por alguns amigos com quem Arjuna, o príncipe, havia passado praticamente toda a infância, adolescência e chegado à idade adulta. Deposto e obrigado a exilar-se com a família na floresta, ouve de longe histórias dando conta de que o reino estava entregue a cegos e estava em seu período mais escuro de existência. Neste momento Arjuna deve, sob a segura orientação e proteção da própria encarnação do deus supremo, Krishna, para restaurar a ordem e retirar o mundo do Caos, destruir os maus e tomar o poder.

Arjuna, o guerreiro perfeito, amparado pelo deus supremo, sem a menor possibilidade de derrota, reluta: “Como posso matar meus tios, meus primos, meus amigos de infância? Que alegria me traria tal vitória? Melhor retirar-me e tornar-me um asceta!”

Difícil decisão para o príncipe, reconheçamos, mas é facilmente solucionada por seu mais alto guru, Krishna. O reto-agir, diferente do agir mau ou mesmo da inação, ainda é o melhor caminho, ensina o Mestre, para se chegar à suprema iluminação. Dizem os que crêem em reencarnações que agir incorretamente traz enorme peso em termos de uma dívida que tem de ser saldada em outra existência em algum dos mundos possíveis, assim como que o reto-agir traz consigo compensações vantajosas para outras existências ou - caso se chegue à plena Iluminação - conduz ao paraíso! A isto os hindus chamam “carma”. Muitos crentes desta fé optam pelo não-agir, a fim de não sobrecarregar o seu “carma” e que possam encarnar-se de maneira digna em outra vida. Krishna explica a Arjuna - e isto quando os dois portentosos exércitos estão face a face, prestes à luta! - que a ausência de ação ou o ascetismo a nada mais conduziria que à estagnação do processo evolutivo e do crescimento espiritual.

Melhor é agir corretamente, mas, e é um mas de elevadíssimo peso, não devemos nos apegar aos frutos de nossa atividade. Todo o agir movido por interesse ou paixão egoística é um erro. Só o agir natural, correto, nos promove. Deve-se fazer como a Natureza ensina o tempo todo: as flores dão seu perfume, a terra dá a fertilidade, o sol brilha sobre justos e injustos, os pássaros cantam sem preocupar-se com aplausos ou apupos da platéia... Simplesmente vivem, fazem o que tem de ser feito. E a Natureza é tão sábia que “o que tem de ser feito” é claramente demonstrado a cada um de nós no momento certo. Deixar de fazê-lo, isso sim seria estagnar-se, seria enfim errar. Fazer o oposto do que a Natureza dita é ainda pior, é um grave retrocesso em nossa jornada.

A única grande recomendação da sabedoria secular da Índia - que tem claros reflexos na teologia judaico-cristã posterior a ela - é a de agir simples e puramente de acordo com o que nos aconselha o coração. O que o nosso corpo pede, nosso corpo precisa (chamo a auxiliar-me neste arrazoado as mulheres grávidas, com seus desejos aparentemente inexplicáveis; alguma substância existente naquilo que a mulher deseja é necessária à criança embrionária, lógico!)

Se ficarmos quietos alguns minutos antes de tomar alguma decisão solene e séria, se ouvirmos atentamente a voz do nosso coração, faremos o que tem de ser feito e estaremos no caminho certo. Como diz Renato Russo em uma de suas canções: “... mentir para si mesmo é sempre a pior mentira.”

Finalizando a história, Arjuna se decide a agir, ainda que precise usar de violência contra parentes e amigos para banir o Caos e recompor o equilíbrio no reino, o  que realiza efetivamente com um poderoso exército e os “Pandava”, filhos de Pandu, solares e luminosos, fazem-se reconduzir ao trono e governam com sabedoria e decência por muitos séculos.

 

 

 

Consciência Cósmica no Oriente

 

 

“O degrau máximo da vida de um ser humano é chegar

à compreensão de que tudo é ilusório” Buda

 

 

São curiosas mesmo as similitudes entre as mais diversas religiões do mundo quando as estudamos de perto. O que o Eclesiástico chama de “vaidade”, a tradição hindu chama de “ilusório”. A dor, mera ilusão, o mesmo valendo para os prazeres.

Aplausos? Ilusão. Sucesso? Ilusão. Fracasso? Ilusão. Vaias? Ilusão.

Morrem aqui todas as dicotomias de um mundo religiosamente fundado em pontos de vista éticos. Mesmo aquilo que ousaríamos chamar valorativamente de “bem” ou de “mal”, não passa de ilusão; tudo são manifestações da Mente Superior que tudo vê e a tudo criou. E como é que poderia ser diferente?

A história de Sidarta Gautama, o Buda, O Iluminado, Aquele que despertou, amplamente conhecida por nós no ocidente não é “novidade” para a tradição hindu.

A “pedagogia” religiosa hindu clássica sempre pautou-se pela busca do mais elevado degrau da iluminação. Na infância e pré-adolescência, estudava-se os Artha (como lidar com o mundo das aparências, com o prático-pragmático em termos nossos). A transição da adolescência para a idade adulta trazia o ensino dos Kama (relações de plenificação e realização com o sexo oposto). A maturidade era contemplada com o aprendizado das leis do Dharma (“política” no sentido de “relações intersubjetivas  em todas as esferas de atuação no cotidiano ao longo da vida”. Estes três primeiros degraus de aprendizado eram inclusive acompanhados de manuais, o  Sutra; assim temos o  Artha Sutra (manual de orientação profissional), o  Kama Sutra (manual de orientação para o amor) e o  Dharma Sutra  (manual de ciência política).

Aqueles cujas ânsias e pulsões internas apontassem naquela direção, após sucesso comprovado nas esferas anteriores eram orientados pessoalmente por grandes líderes espirituais (os gurus) podendo chegar ao Moksha (Iluminação, o grande despertar das percepções psíquicas superiores).

O caminho seguido por Sidarta, contudo, é exemplar. Rememoremo-lo, portanto: abandonando o luxo e a luxúria em que vivia, primeiro Sidarta foi viver entre os anacoretas, os mendicantes, depois abandonou-os também quedando-se meditativo na chamada “Árvore do Conhecimento”, onde sofre as três tentações clássicas; a luxúria, o medo da morte e a de viver preso aos deveres sociais.

Vale remarcar aqui que Cristo também passou por três tentações no deserto. Não foram as mesmas tentações, mas também foram três; primeiro a tentação “econômica”, quando satanás sugere que transforme pedras em pães e é repreendido; a seguir a tentação política, quando lhe são oferecidos os reinos da Terra e, de novo, Cristo o repreende; finalmente a tentação espiritual, quando é convidado a arremessar-se do alto do Templo para que anjos o amparem: a repreensão final, não tentarás o Senhor teu Deus! faz o demônio desaparecer.

Algo similar, guardadas todas as proporções, ocorre com Sidarta. Primeiro surgem as três belíssimas filhas de Mâra, Senhor da Ilusão e do Medo, que são sopradas para longe, o iniciando não se move por aquele tipo de convite e um forte vento as tira do cenário.

A segunda tentação é o surgimento de um monumental exército atirando as armas mais avançadas do tempo contra o iniciando (diz-se que até montanhas lhe são arremessadas); sem problemas. Sem nem mesmo piscar os olhos, vê Sidarta cada faca, lança, seta ou pedra transformadas em flores que lhe caem aos pés. Bela metáfora: “Atirais-me pedras? Recebo-as como homenagens!” Com tudo isso, pouquíssimos de nós consegue ver a rosa por dentro da cruz de sofrimentos que carregamos ao longo da nossa existência nesta terra.

Finalmente a tentação para com os deveres sociais, quando lhe é sugerido que não tem o direito de ficar ociosamente meditando ao pé de uma árvore quando há tantas coisas no mundo da concreção a demandar cuidados e atenções. Neste momento Sidarta dá um leve sorriso, toca a Terra e é a própria Terra que responde ao Senhor da Ilusão: “Que deveres sociais têm precedência a encontrar a Iluminação, o caminho para a Libertação de toda a espécie humana?”

Mâra desaparece assim que percebe ser, também ele, mais uma ilusão...

Que bela dádiva seria receber tudo o que se nos oferece como pétalas de flores, por mais que a intenção de quem nos presenteia fosse diversa desta.

Viver inatingido e permanecer impassível ante aplausos ou vaias, ante sucessos ou fracassos, que a vida é cheia destas ilusões todas; isto é atingir o mais elevado degrau da Iluminação, o que os hindus classicamente chamavam Moksha e a tradição budista ensinou a nomear Nirvana.

Quem chega neste estágio não mais precisaria permanecer no mundo e se o faz por compaixão, para ensinar aos seus irmãos humanos os degraus da iluminação, é reverenciado pelos hindus como o Jivan-Mukta ( o “libertado vivo”) ou Bodhisatva, aquele cujo ser (satva) é iluminação (bodhi).

 

 

 

Os Loucos de Deus

 

 

“Quando um dia perguntaram a Ma Anandamayi sobre a história de sua vida, ela declarou: “Há tão pouco a dizer... Minha consciência jamais se identificou com este corpo. Antes de existir nesta terra eu era a mesma menininha. Quando me tornei mulher, eu ainda era a mesma. Quando a família em que nasci tomou as decisões para que este corpo se casasse, eu era a mesma. Agora, diante de vocês, ainda sou a mesma. Mais tarde, quando a dança da criação turbilhonar à minha volta nos campos da eternidade, serei ainda a mesma.”  Patrick Ravignant

 

 

É uma prática salutar, dentre diversas outras, meditar ou ler algo leve e religioso nos minutos que antecedem o adormecer. Passar o dia trabalhando estressantemente seja com o que for pode nos conduzir até mesmo ao niilismo, à falta de fé no homem por julgarmos real esta ilusão fantasiosa que nos agride os sentidos no cotidiano.

Uma boa sugestão são livros religiosos, ortodoxos, como a Bíblia ou mesmo heterodoxos - pessoalmente prefiro os menos sectários... - como por exemplo Os Loucos de Deus, de Patrick Ravignant, ediouro, 1987.

A análise do fenômeno profético, messiânico, é fascinante mesmo e tangenciamos a nossa vontade, a nossa compulsão mais sincera e profunda quando esbarramos em relatos de pessoas que abandonaram tudo na vida para chegar próximo à santidade, próximo à Divindade - todas estas pessoas nos levam ao êxtase, ao transe, no mínimo à reverência: São Francisco de Assis, Sidarta Gautama Buda, Swami Ramdas, Ma Anandamayi e por aí vai.

Concordo plenamente com o que diz, entre outros grandes humanistas, Roger Garaudy em  Apelo aos Vivos, Nova Fronteira, 1979: “Se há saída para o Ocidente esta se encontra num diálogo entre as civilizações, no encontro do que existe de melhor e mais sublime em todo o pensamento científico, político, filosófico e religioso de nosso tempo, independentemente de fronteiras”. Estar aberto a todos estes aportes parece a direção correta. Fechar-se em apenas um deles e decidir, a partir do domínio pleno de um deles num determinado momento histórico, num certo local “é a verdade absoluta” só pode conduzir mesmo a hecatombes e tragédias. Ninguém pode ser “dono da verdade”, na melhor das hipóteses, viver “em busca da verdade” pode ser o melhor caminho.

É curioso que perguntem a um profeta despojado (ou profetiza, como a Ma Anandamayi) sobre ela mesma, que se explique, enfim: como é que uma rosa - supondo-a dotada de consciência e fala - poderia “explicar” sua beleza, sua fragrância? Acaso o sol pode explicar-se? Como responderia o rouxinol se questionado quanto ao seu canto mavioso? Assim aquele que escolhe o caminho da santidade não consegue explicar-se; trata-se de um ser humano como qualquer de nós pode vir a ser caso permita que a Natureza flua livremente dentro de si mesmo.

O traço comum a todos os que escolheram este caminho, além do total desapego a qualquer tipo de mundanidade, é uma poderosa irradiação de beatitude, de calma placidez diante de tudo.

E daí se as idiossincrasias que regem o nosso psiquismo nos encaminham em outra direção como a da luta prática no cotidiano, que os mestres consideram ilusório? Todos os caminhos são válidos se vividos com eticidade e naturalidade. Seguir a sua pulsão ou, como dizia Joseph Campbell, “seguir a sua bem-aventurança” é o caminho.

Mas por diversos motivos é sempre muito difícil travar contato pessoal com um iluminado. A tradição mística informa que “antes que a voz possa falar na presença do Mestre, tem de ter perdido a capacidade de ferir”, mas quantas vezes, no cotidiano mesmo, utilizamo-nos da palavra para ferir, magoar, ofender ou mesmo castigar? O Mestre chegou onde chegou por seu elevadíssimo grau de sensibilidade. Sensibilidade necessariamente não seletiva: sensibilidade ao bom, ao belo, ao justo, ao rude, a tudo o que existe, enfim. Este o principal motivo, penso eu, de ser tão difícil se chegar até onde se ocultam: sua sensibilidade exagerada, traço distintivo, os faria sofrer muito face a um agressor verbal cruel. Isto explica também todas as provas e traumas por que tem de passar aquele que almeja chegar próximo que seja da Iluminação: é preciso ampliar sua sensibilidade...

Entre os hindus é muito respeitada a figura do Bodhisatva, o ser(satva) Iluminado(bodhi). Alguém que se desligou completamente do mundo, atingiu a iluminação e, por compaixão e amor, permanece entre os homens para instruí-los no reto caminho. Sua consciência é plena e refugia-se alhures sempre que o julgam necessário. Seu corpo físico é o veículo de sua mensagem, só prestam atenção a ele para mantê-lo em bom estado de funcionamento, sem qualquer eivor de hedonismo. Permanecem no umbral da consciência para instruir a humanidade. Um caminho admirável, sem dúvida!

 

Deus faz tudo pelo melhor!

 

Um dos buscadores da verdade de outros tempos conta uma lenda exemplar, a fim de que saibamos um pouco mais acerca da grandeza das decisões de Deus para a nossa breve existência no mundo, para que saibamos que, aconteça o que acontecer, algo de muito bom está por trás de todas as circunstâncias da vida. No Rio de Janeiro sofri perseguições por defender o que considerava justo em mais de uma circunstância. Em São José do Rio Pardo, passado o primeiro alumbramento da novidade de um intelectual com formação radical, humanista, não-ortodoxa, acaba-se por perceber dificuldades similares... Poucos estão interessados na Verdade ou em sua busca; impera, na maior parte das vezes o “faz-de-conta”, as falsidades e hipocrisias. Creio ser assim em qualquer parte mesmo...

Enfim, Deus faz sempre tudo pelo melhor e vou encontrando, com dificuldades, embora, o meu espaço, o meu caminho na vida. A história que vou resumir é atribuída a Swami Ramdas e transmitida por tradição oral. Ramdas foi um daqueles “Loucos de Deus”, que deixaram de viver normalmente entre os seus semelhantes para que pudessem compreender suas vidas na plenitude da União com o incriado. Aqui ilustra-se bem como o Criador “escreve certo por linhas tortas”. Aliás, nós é que entortamos as linhas, Deus sempre escreve retamente...

Vamos à história, portanto:

 

“Um monarca tinha um ministro célebre por sua sabedoria. Muitos vinham de longe para consultá-lo acerca dos mais variados temas, recebendo como resposta e consolo sempre a assertiva: “Deus faz tudo pelo melhor” saindo de sua presença reconfortados.

Um dia, o rei  levou-o consigo e comitiva para uma caçada na selva. Cercando uma fera, o soberano e o sábio foram separados da comitiva real e acabaram por perder-se no meio da floresta.

Ao meio-dia o calor tornou-se insuportável. O rei, cansado e faminto, deixou-se cair desanimado à sombra de uma árvore:

_ Ministro - gemia o monarca - estou perdendo as forças, sinto uma fome insuportável. Trate de encontrar algo para eu comer.

O sábio foi colher frutos frescos e os ofereceu ao seu senhor que, num acesso de gulodice febril, fez um movimento brusco com a faca e decepou um de seus dedos.

_ Ai, ministro, que dor! Que dor!

O outro contentou-se em observar tranqüilamente: “Deus sempre faz tudo pelo melhor”.

A essas palavras, o rei exasperado, o expulsa de sua presença entre insultos e, a seguir, começa a fazer uma bandagem em seus ferimentos.

Solitário, recebe a visita de alguns bandoleiros que, mais tarde, descobre serem seguidores de uma poderosa deusa devoradora de homens, a Khâli tão temida pelo hindus. “Mas eu sou o rei!”, bradava em vão o monarca, enquanto os bandoleiros observavam, “melhor, muito melhor, nossa deusa jamais teve como sacrifício um acepipe tão nobre!”

Chegando diante do sacerdote que o sacrificaria, este percebe a mutilação na mão do rei e diz: “Tirem este homem daqui! Nossa deusa não deve ser insultada recebendo um homem mutilado como oferenda!”

O rei, aliviado, compreende finalmente seu ministro sábio e sai a procurá-lo encontrando-o, horas depois, à sombra de uma árvore em posição tranqüila e meditativa. Pede que o perdoe, conta a história toda e ouve do ministro o seguinte:

_ Senhor, nada tenho a vos perdoar e não me ofendeste de maneira alguma. Pelo contrário, eu vos devo a vida! Se não me tivesses expulsado de vossa presença, eu teria sido capturado convosco e os sacerdotes de Khâli teriam necessariamente me imolado em seu lugar, uma vez estar o meu corpo intacto. Assim, como vê, verdadeiramente, DEUS FAZ TUDO PELO MELHOR.

 

 

Minha vida

(autobiografia precoce)

 

De Niterói para São José

 

A chegada, discreta, a São José do Rio Pardo, foi antecedida de pequenas intervenções jornalísticas na imprensa local desde 1986. A família mora na cidade desde 82, quando comecei a conhecê-la, assim como a seus mais ilustres habitantes, em visitas esporádicas.

Morando em Niterói, vivia modestamente, de uma aposentadoria proporcional aos quinze anos de serviços prestados à FAB, por ingresso  no magistério público. Ministrava aulas numa escola pública na Tijuca e em mais duas grandes instituições educacionais privadas de Niterói, mas salário de professor, em rede pública ou particular no Brasil não chega a ser assim a oitava maravilha do mundo, não.

Niterói é um bom lugar para se viver, sem dúvida, mas uma sobredeterminação de crises e problemas os mais diversos fizeram-me optar pela busca de um lugar mais sossegado onde, quem sabe, pudesse desenvolver um trabalho intelectual mais profundo. E São José, definitivamente, é uma cidade que respira cultura, entre outros motivos porque foi aqui que Euclides da Cunha escreveu Os Sertões, referência obrigatória na literatura científica brasileira. Das poucas Semanas Euclidianas que tive oportunidade de participar desde 82 marcaram-me o belíssimo desfile de abertura e uma ou outra palestra que tive oportunidade de, anônima e discretamente, acompanhar.

Quando me decidi a mover-me para a paradisíaca cidade em julho de 1992 e principiei meus trabalhos no magistério rio-pardense, muitos me perguntavam curiosos: “mas como é que você veio parar justamente aqui?” É certo que não existe acaso e, embora a causalidade desta mudança ainda me escape, sempre respondia: “estou fugindo da violência urbana, as grandes cidades estão invivíveis”, estava informando somente parte da verdade. Vamos às crises que me trouxeram até aqui, ou antes, vamos voltar um pouquinho mais no tempo e verificar como foi que minha família veio parar aqui.

 

Origens

 

Em 72 meu pai contraiu leucemia justamente no momento em que a sorte havia se decidido a sorrir para ele, particularmente em termos econômicos. Fato é que expendeu todos os recursos que logrou amealhar em dois anos de tratamentos infindáveis: quimioterapia, radioterapia, terapias alternativas, viagens... Morreu em 74, aos 39 anos de idade, deixando-nos uma fazenda enorme e uma casa na cidade de Caçu, interior de Goiás, não nos restando outra alternativa que movermo-nos para lá, minha mãe, meus quatro irmãos e eu. Estou seguro de que era intenção do velho morrer perto dos seus e de onde tinha nascido (nossa fazenda era vizinha à do meu avô). Um dos terapeutas alternativos com quem se consultou costumava afirmar não existir nada melhor para a saúde de uma pessoa que os alimentos e a água do lugar em que nasceu. Pode ser.

Sendo o filho mais velho, estava entrando na adolescência e meu irmão caçula estava então com dois anos de idade. Minha mãe não compreendia nada de negócios, menos ainda de fazenda, terras, plantio, sistema de parceria, essas coisas. Optamos por vender a fazenda para ter um pouco mais de conforto e flexibilidade na vida. Foi vendida por um bom preço mas, na administração dos recursos não fomos muito felizes, não.

Em Caçu trabalhei um tempinho como auxiliar do único técnico em eletrônica da cidade, pois era a única praia em cujas águas sabia nadar razoavelmente. A seguir, percebi que era necessário estudar mais para poder chegar mais longe na vida. Morei um ano em Goiânia, em casa de uns parentes e lá cursei o 1º colegial. No ano seguinte movi-me para Uberlândia, casa de outros parentes, e lá concluí o segundo grau, prestando a seguir concurso para o ingresso na Escola de Especialistas de Aeronáutica. Havia outras alternativas a jovens de minha idade à época, mas não o sabia e acabei cursando aquela escola em Guaratinguetá pelos dois anos regulamentares. Quando me formei, terceiro colocado numa turma de 500, escolhi servir no Rio de Janeiro e para lá me desloquei - ê vida cigana!

Enquanto isso, digo às vezes brincando, às vezes seriamente, que “vendi minha primogenitura por um prato de lentilhas, como Esaú”. Deixei os meus aos cuidados de meu segundo irmão, bancário bem-sucedido e, como se sabe, os bancos propõem transferências diversas a seus funcionários a lugares diferentes e por vezes “fora de mão” pelo que a remuneração aumenta um pouco. Assim, de transferência em transferência a família decidiu-se a parar por aqui. Alguém poderia censurar decisão assim? São José é um lugar excelente para se viver!

 

Isolamento e estudos

 

 

De certa forma, a palavra escrita começou a ter muito maior importância para mim desde o falecimento de meu pai. “Refugiei-me nos livros”, talvez. Um tio jornalista, também já falecido, foi de grande influência em minha formação também. Trabalhou por cinquenta anos para as “Organizações Globo” e seu principal legado a mim foram os longos diálogos que travamos, particularmente quando uma catarata levou-lhe embora a visão e eu o visitava aos domingos, fazendo-lhe - e a mim mesmo - o obséquio de ler os jornais e tirar conclusões acerca da conjuntura político-econômica, um grande exercício intelectual.

Curiosamente, após a Bíblia, o primeiro livro que li tinha como título algo assim: “Como se livrar das preocupações e começar a viver”. Publicação norte-americana bem antiga, um dos pioneiros no tal filão da “auto-ajuda”. Um sujeito com quem travei contato não me lembro muito bem a propósito de quê quando lia o tal livro remarcou que a um adolescente deveria ser mais importante “masturbação” que “preocupação”. A seguir aproximei-me do expressionismo alemão de Hermann Hesse, depois do existencialismo francês de Sartre e Camus e, daí em diante vieram os trabalhos marxistas, dos socialistas utópicos, a psicanálise reichiana, a seguir junguiana, análises de mitologia comparada, clássicos religiosos do mundo inteiro - em função da antropologia, creio eu - o misticismo e muitos trabalhos pedagógicos. Aliás, está aí um traço marcante e curioso. Quando surge uma crise qualquer, refugio-me, ainda hoje, na leitura, nos trabalhos escritos. Num momento crucial de minha formação peguei tal ojeriza à penetração ianque na cultura pátria que me dediquei de corpo e alma aos europeus (particularmente alemães e russos) no campo da literatura, havendo até hoje uma considerável lacuna em termos de literatura brasileira que preciso o quanto antes recuperar. Indentifiquei-me bastante com o que li de Castro Alves, Lima Barreto e Graciliano Ramos, nesta ordem.  

Mãe

 

Mãe é uma só... D. Lygia precisou facear-se a um mundo novo, hostil, diferente. Pior, com cinco filhos menores a encaminhar. Não teve grande formação acadêmica. Fruto de um tempo em que à mulher estava reservada a vida doméstica, os cuidados com o lar, jamais havia pisado num banco até a viuvez. Carinhosa, atenciosa, compreensiva, humana na mais elevada acepção do termo, jamais teve antes acesso ao mundo prático-pragmático dos negócios... É seguro que para a boa formação humana é muito mais importante o carinho e a atenção materna que propriamente  estar em boas relações  com Mammon, e isto graças a Deus os cinco tivemos. Suportou uma barra pesadíssima no embate prático-pragmático com o mundo e a todos eles venceu com a força de seu grande amor por todos nós.

A viuvez em idade tenra desestrutura qualquer ser humano excepcionalmente apaixonado como é o caso e imagino que minha doce mãezinha jamais se tenha refeito apropriadamente da perda do grande ser humano que foi meu pai - engenheiro eletrônico, pedreiro livre e de bons costumes, um dos principais industriais do Rio de Janeiro no período do chamado “milagre econômico” - uma perda humana inegavelmente irreparável.

Mamãe teve de encontrar forças onde jamais supor existir para fazer valer os seus direitos num mundo em tudo e por tudo aparatado a estilhaçar com sonhos de raros românticos, seu caso. Ainda assim conseguiu orientar-nos adequadamente, em detrimento de si mesma, de forma a ter todos os filhos “formados e encaminhados na vida”, com problemas, claro, que todos nós os temos nestes tempos sombrios. Mas dentro de suas limitações fez tudo o que esteve ao seu alcance para que fôssemos todos bem encaminhados no caminho da felicidade, via de regra negando-se a si mesma em prol de sua prole. A gratidão de todos os filhos a ela é algo tão indescritível, tão profundamente enraizado nos corações e mentes de todos nós que não como aqui descrever em detalhes tudo o que realizou consciente ou inconscientemente, só posso dizer, entre lágrimas de gratidão, que sem ela nenhum de nós teria chegado onde chegou hoje! De minha parte, tive de deixá-la aos cuidados de meu irmão, que havia logrado maior prosperidade material e seguir meu caminho em outras direções sempre, claro, pensando e me comunicando com os meus a todos os momentos.

 

Formação

 

Enquanto minha família estava ainda no Estado de Goiás, consegui graduar-me na Escola de Especialistas da Aeronáutica.

           Especialista em eletrônica percebia na prática de meu trabalho cotidiano lá na Base Aérea em que servia que deveria ter seguido o oficialato, tão a meu alcance quanto a escola de formação de sargentos mas quando isso era possível, a informação não me chegou, quando recebi a informação, já não era mais possível aproveitá-la.

Mas foi bom. Fiz boas amizades, aprendi a tomar um chopinho gelado à beira-mar, sempre em boa companhia, assisti a todos os filmes e peças teatrais possíveis e imagináveis, que o tempo era farto, e minha preferência era sempre o circuito alternativo das artes, que achava o chamado circuitão muito impregnado de cultura ianque e havia então tomado “birra” dos ianques e de tudo o que eles representam para a América Latina. Foi minha fase de ateu materialista, compreendendo aqui a palavra materialista não em seu sentido vulgar, de ânsia por posse de coisas materiais mas no sentido filosófico, de Diderot, que informava primeiro haver surgido a matéria e, da matéria profundamente elaborada, no formato de um ser humano, por exemplo, só poderiam resultar idéias humanas, dentre elas a idéia de divindades e coisas assim. Fui ateu mesmo por uns oito anos, creio.

No começo procurei estudar eletrônica. Fui “adestrado” para isso desde o berço. Aquela coisa de “o que é que você vai ser quando crescer?” Bom, a resposta certa, mesmo sem saber o significado daquelas palavras era: “Engenheiro Eletrônico”. Fiz três anos de engenharia numa instituição privada lá na zona norte do Rio, longe à beça de onde trabalhava - o curso completo é de seis anos - e acabei fascinado com a precisão da matemática chegando à conclusão de que as pessoas a quem eu poderia eventualmente agradar exibindo um certificado de conclusão de curso de engenharia já haviam morrido ou estavam pouco se lixando, tranquei matrícula e prestei novo vestibular. Um ano de matemática numa universidade federal foi o tempo suficiente para perceber que o grande barato mesmo era a filosofia da matemática. Tales de Mileto foi iniciado nos mistérios de elêusis, Pitágoras foi iniciado no Egito, onde aprendeu o famoso teorema que leva seu nome e sem o qual a construção daquelas pirâmides teria sido bem mais difícil,  fundou um escola interessantíssima em Samos, etc.

Filosofia somente em período integral (manhã, tarde e noite dedicados aos estudos, deve ser algo muito bom!) e, como precisava trabalhar, somente dispunha da noite, levando-me, em novo vestibular à mesma universidade federal, para o curso de Ciências Sociais, o mais próximo da filosofia. Graduei-me sociólogo e comecei logo a ministrar aulas de filosofia, sociologia e história nas redes pública e particular do Rio e Niterói, além de meu serviço militar. Não era muito fácil. Algumas pessoas têm dificuldade em aceitar que “subalternos” tenham conseguido, malgrado o sistema inteiro estar aparatado na direção oposta, adquirir tão vasto conhecimento. Uma tremenda bobagem por uma série de motivos; em primeiro lugar, em que é que uma pessoa letrada pode atrapalhar o serviço? E depois, que coisa é esta, “vasto conhecimento?” Quanto mais você estuda mais se dá conta de que conhece pouco das coisas no mundo das letras e, de mais a mais, sempre fui tão canhestro na administração da vida prática, nenhum dos grandes cursos que fiz deu qualquer lição minimamente útil ao trato das coisas do cotidiano. Aliás, quando você se dedica por muito tempo a abstrações passa a literalmente deplorar o que usualmente se chama de útil, prático, pragmático, utilitário ou coisas do gênero. São conceitos-tabu, por assim dizer, na maior parte das correntes filosóficas. A única que se aproxima, mesmo assim em nada, literalmente nada, ajuda no viver cotidiano é a chamada filosofia da praxis, minha predileta.

Quando se estuda mitologia ou religiões comparadas - e, em antropologia foi necessário fazer “trabalhos de campo” em terreiros de candomblé, igrejas pentecostais, sinagogas, mesquitas... - aprende-se a respeitá-las todas e acaba-se por aprender também que, como dizia Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”. Some-se a isso um verdadeiro milagre na minha frente e eis-me católico novamente. Mas um católico mais aberto ao diálogo, nem um pouquinho sectário. Sabedor de que, havendo respeito e seriedade, o mesmo Deus se apresenta com nomes diferentes (até mesmo “sem nome”, o que me parece mais adequado) nas diferentes correntes religiosas do mundo.

 

Surgem os problemas

 

Catolicismo mais filosofia da praxis acabam resultando em Teologia da Libertação e aí sim começam a surgir os problemas. Na militância política - e também aprendi que o homem é um animal político, que toda a atuação coletiva, multitudinária é política por definição - desconfiavam de mim por ser eu militar. É certo que vivíamos o Brasil da abertura política mas fica muito ranço de paranóia na militância até hoje após o período difícil que todos vivemos de 64 a 82. Por outro lado, na caserna a desconfiança também: “o que é que este sujeito está procurando entre os comunistas?”

Suportei estoicamente a situação por um bom tempo, até que a crise econômica chegou também aos quartéis e, já na “Era Collor” houve uma diminuição no tempo de serviço diário nos quartéis, passando de 8 para 4 horas, cortando despesas com as refeições, que seriam obrigatórias nos ranchos caso se seguisse em período integral. Por uns meses foi até bom. Não houve diminuição salarial, somente reduziu-se o tempo de serviço diário nos quartéis, o que tornava possível “fazer bicos”. Tenho até hoje vários colegas na ativa trabalhando, em seus momentos de folga, com taxi, com informática, com eletricidade, eletrônica e mesmo magistério. No meu caso, um sujeito tornou-se implicante e fazia-me cumprir um horário mais extenso que os demais num serviço para o qual sequer tinha qualificação. Uma “tungada” salarial difícil de suportar em tempos de crise: trabalhava mais na Base pelo mesmo salário (o militar é remunerado pelo posto ou graduação, não pelo tempo de trabalho expendido, claro está) e meu tempo para o magistério e auto-aperfeiçoamento decresceu insuportavelmente.

Abro aqui um parêntese para relatar um episódio hilariante - bom, agora é hilariante, quando talvez o estivesse vivenciando haja sido um tanto quanto doloroso... - por que talvez tenha passado na caserna:

 

Coronel Peçonha

 

 

Havendo sido militar por 15 anos e sempre me orgulhado muito por estar trabalhando pelo progresso de minha pátria, em determinados momentos passamos coisas muito estranhas no Brasil. Eis aqui um dos fatores de alguma certa desilusão.

O cidadão, cujo nome me escapa por uma destas razões inconscientemente explicáveis, granjeou este apelido graças à sua postura. O dia podia estar lindo, com pássaros cantando e flores se abrindo, mas quando ele aparecia, “em peçonha”(daí o apelido), o tempo fechava, nuvens negras cobriam o horizonte, os pássaros recolhiam-se a seus ninhos, as flores murchavam...

Sendo 2º sargento técnico em eletrônica, estava eu um dia calmamente ajustando a temporização de um relê na Central Telefônica da Base Aérea em que trabalhava (naquele tempo ainda se usava relês em centrais telefônicas...) - coisa tão complicada que já nem me lembro mais como é que se faz, só sei que exige um osciloscópio, paciência e, sobretudo, muita concentração e raciocínio lógico - quando chegou o Coronel Peçonha: “A partir deste momento você está transferido para a Seção de Serviços Gerais e sua primeira tarefa por lá é, em vinte minutos, efetivar reparos na latrina da suíte do comandante da base, que se encontra enguiçada.”

À ocasião nem mesmo parei para pensar no que poderia levar o sujeito a almejar que eu fizesse aquilo. Mais tarde me disseram que ele tinha inveja de mim; por algum motivo, diziam-me, não podia admitir que um sobordinado seu tivesse tanto conhecimento específico e utilizasse com sabedoria palavras “pomposas” - não me lembro de haver recoberto com “pon-pons” expressões que tenha utilizado quando próximo de meu “superior hierárquico” a ponto de suscitar tanto ódio. Mas é a única explicação plausível e Sherlock Holmes, criação de Arthur Connan Doyle, em sua metodologia ensinava algo como: “quando você elimina o impossível, o que resta, por mais improvável que seja é a verdade!”

Olhei para ele um tanto distraído, sem o menor eivor de medo ódio ou qualquer sentimento. Se perdesse tempo para prestar atenção nele, talvez o que sentisse mesmo fosse desprezo. Fato é que, naquele momento, estava ali na minha cadeira, na minha bancada, montada a duras penas após anos de criteriosa seleção de material, tentando desesperadora mas lucidamente resolver com rapidez um problema lógico quando chega alguém e diz alguma coisa que ameaça fazer-me perder o fio-da-meada do raciocínio com uma espécie de ordem que escuto como que vinda de algum calabouço medieval envolto em brumas: “Não vou”, disse calmamente, “só há uma pessoa em toda esta base capaz de fazer esta central telefônica funcionar novamente, e este sou eu. Há dezenas de encanadores na Seção de Serviços Gerais capazes de fazer o tipo de reparo necessário pelo comandante da base. Agora me dá licença que tenho mais o que fazer!”

Ficou lívido. Meus colegas ficaram todos lívidos, que a coisa foi meio “pública”, como se eu tivesse proferido gravíssima blasfêmia. Acontece que ninguém, sendo subalterno, pode ousar dizer não a alguém em posição hierárquica mais elevada. Pode, e freqüentemente era assim que conseguíamos resolver nossos problemas, dizer entusiasticamente “Sim , Senhor!” e nada fazer a seguir, mas há que manter as aparências. Acontece que eu estava ocupado, distraído e nem me recordei deste detalhe... Coronel Peçonha nem voltou a falar comigo. Lá consigo devia estar a pensar: “Este sujeito é doido e lugar de doido é no hospício”.

Não sei por que caminhos coercitivo-ilegais fui levado a ter uma entrevista com um major psiquiatra no hospital da base e ele precisava dizer se eu estava ou não em gozo de minhas perfeitas faculdades mentais, o que me acarretaria uma punição severa por desobediência testemunhada a ordem superior, ou se  eu estaria sofrendo de alguma forma de desequilíbrio mental e precisaria de tratamento específico (uma forma “branca” de punição pela rebeldia, no fim das contas...). Como conhecia o Coronel Peçonha de outras oportunidades parecidas, o major riu muito quando lhe contei o caso e concedeu-me 15 dias de descanso “por estafa”. Meio chata mesmo foi a onda de insultos a que aquele coronel se submeteu, pois todos os que desejavam livrar-se de sua nefanda influência tentavam fazer conscientemente o que fiz inconscientemente e acabavam sofrendo punições por isso. Fato é que é sempre muito difícil lidar com aqueles que se julgam “donos da verdade”...

Ao regressar do “repouso”, que até me valeu grande respeito entre meus colegas, estava transferido para setor diferente daquele em que trabalhava. Nada a ver com a minha formação profissional específica, mas o principal era que não tinha mais nada a ver com peçonhenta chefia daquela triste figura. Transferências assim são prática típica quando, nas Forças Armadas se pune o oficial superior por ato arbitrário.  Só fico pesaroso por causa daquele relê, coitadinho, sem temporização até hoje...

 

Da FAB ao Magistério

 

 

No magistério público, recordo-me que a hora-aula valia tanto quanto uma banana nanica (numa greve de professores portávamos um botton com a inscrição: “não trabalho em troca de banana!”) se não me equivoco o governador à época era o Brizola que, consideravelmente boicotado pelo governo federal pouco ou nada podia fazer pelos professores, não que não fosse sensível à causa, mas estava mesmo manietado.

Na rede privada, os salários estavam também baixíssimos e também comigo a coisa foi um pouco mais severa. Sendo um profissional, no mínimo mediano, recebia um salário equivalente a 1/5 daquele de outros colegas pelo mesmo tipo de aulas - havia mesmo quem considerasse minhas intervenções superiores às de outros colegas - e isso, além de fazer brotar o sentimento de revolta, de estar sendo injustiçado, dificulta mesmo a vida prática no cotidiano de uma cidade grande, onde se tem mais necessidades de aportes financeiros, pois o custo de vida é mais elevado e os apelos consumistas são muito maiores, por exemplo, é inadmissível a um professor deixar de assistir a um determinado filme ou peça teatral, deixar de estar atualizado com boas e recentes Obras literárias e específicas à sua atividade, ou mesmo acompanhar uma defesa de tese inovadora; sem automóvel numa cidade grande a vida fica muito mais complicada, à época a inflação galopava e os salários permaneciam lááá embaixo. Sem condições!

Apesar dos pesares, “me encontrei” como professor! A legislação vigente permite ao militar que abrace a carreira do magistério afastar-se do serviço ativo levando consigo uma aposentadoria proporcional ao tempo de serviço. Servi 15 anos, recebo 15/30 avos ou metade do que recebe um militar da ativa, claro que sem as inúmeras vantagens pecuniárias que o pessoal da ativa recebe. Mas tinha de optar e optei idealisticamente pelo magistério. O tempo provaria que não foi a mais sábia decisão do ponto de vista prático, o que comprova o que digo acima, nem sempre, creio mesmo que quase nunca, conhecimento teórico é o mesmo que sabedoria prática. Tenho mesmo algum conhecimento teórico, embora a estrada à minha frente seja infinitamente mais longa, fato é que, em termos utilitários ou pragmáticos vinha sendo um exemplo de burrice. Se tivéssemos de ilustrar num dicionário a expressão “burro”, bastaria colocar ali uma fotografia 3x4 minha... Próximo do meio do caminho de minha vida julgo estar ficando mais “sabido” no sentido utilitário, pragmático mas, paradoxalmente isso me incomoda muito. Será que não estou perdendo algo em outras esferas?

Em 91 me envolvi emocionalmente de maneira muito intensa com uma pessoa bastante complicada. Com todas as coisas boas daquele relacionamento, um dia chegamos à conclusão de que estávamos fazendo mais mal do que bem um ao outro. A ruptura foi dificílima, justo no momento em que havia complicações também na esfera financeira. Foi muito demorado e dilacerante administrar todas as tensões a que estava então submetido mas creio haver conseguido, com um mínimo de trauma para todo o mundo, afastar-me de meus trabalhos e de uma pessoa de difícil convivência, particularmente sendo-o eu também...

 

Tempo de mudanças

 

Somente em meados de 92 consegui colocar as coisas em razoável estado de ordem e mover-me “com mala e cuia” e meus livros para São José do Rio Pardo. Passei seis meses praticamente enclausurado, estudando muito, até para recuperar o tempo perdido. Terminada a licença e não podendo dedicar-me exclusivamente a meus estudos, por mais interessantes que os julgue, precisei apresentar-me para trabalhar.

Já no início de 93 ministrava aulas em Escola Estadual e em duas instituições privadas. Cautelosos, meus empregadores concederam-me inicialmente uma carga-horária modestíssima, mais para ver como era meu desempenho mesmo. Penso haver agradado, pois os convites foram aumentando e já no segundo semestre de 93 estava com boa parte do tempo tomada por atividades docentes.

Em 94 então foi uma loucura. Em seis cidades diferentes, uma carga-horária superior a todo o bom-senso: mais de 70 (setenta!) aulas por semana, o que deixa o professor sem tempo para preparar melhores aulas, corrigir adequadamente todos os trabalhos e provas e, o que é mais grave, sem tempo algum para o auto-aprimoramento. Isso para não mencionar que, mesmo o Estado de São Paulo sendo mais rico e generoso que o do Rio de Janeiro, a situação econômica do professorado sempre esteve distante de ser confortável.

Repetiu-se o quadro em 95, quando procurei otimizar meu tempo dedicando-me a trabalhar mais onde pagavam melhor - não era o melhor que um verdadeiro humanista deveria fazer, mas era o possível e recomendável diante da situação difícil que se apresentava. Mais aulas em mais cidades que em 94 e o mesmo problema que havia encontrado no Rio com relação à valorização profissional. Debaixo da desculpa de as instituições privadas precisarem pagar pelo valor do “show” que o professor se esmera em dar, os salários são tremendamente diferenciados e sempre encontrei dificuldade em me conformar em receber menos do que pessoas que executavam, no mínimo, um trabalho similar ao meu e, em certas instituições e circunstâncias as pessoas considerarem um verdadeiro “favor” pagar o minguado salário mensal. Os meninos não têm rigorosamente nada a ver com isso mas o profissional acaba esmerando-se mais onde vê o seu trabalho salarialmente melhor reconhecido e aceito, claro.

Foi uma alegria muito grande a excepcional receptividade da coletividade com relação ao meu trabalho, particularmente no início. A novidade de aulas ao ar-livre quando o tempo estava bom e não eram necessárias as anotações, temas novos a todos, até porque boa parte de minha formação é mesmo não-convencional, atraindo alunos com aulas vagas para a minha classe e mesmo pedidos de familiares para acompanhar algumas prédicas como ouvintes, os aplausos sinceros ao final, a honra de ser paraninfo de diversas turmas. Cabe aqui uma remarca: é excepcionalmente salutar que as cidades do interior paulista (que da capital conheço pouco) tenham “cerimônias de formatura”. No Rio isso deixou de existir antes que eu ingressasse no magistério. São como “ritos de passagem”, bastante úteis ao psiquismo de todos que se vão conscientizando de estar passando para uma outra etapa, mais elevada, de suas vidas. Mas isso é discurso de paraninfo, voltemos ao fio-da-meada.

Se, como as plantas, pudesse nutrir-me de luz, calor, chuva e terra fértil, a enorme quantidade de alegria que os meninos e seus pais sempre me deram no exercício do magistério, com seriedade, competência e muita alegria - numa palavra, profissionalismo - estaria tudo bem. Mas, humano, vivo de meu trabalho e, se as condições econômicas deixam de ser um estímulo, passando a ser quase que um castigo, entra-se novamente em crise.

As aulas na faculdade sempre foram as mais compensadoras, não apenas pelo salário melhor como pelo verdadeiro desafio que é trabalhar com adultos sequiosos de saber, muitos deles já dotados de algum conhecimento teórico, o que sempre possibilita interlocuções mais fecundas, claro.

 

Considerações sobre metodologia

 

Uma formação libertária faz colocar o saber à disposição do educando, jamais deve o professor colocar-se esparramado como um gigantesco obstáculo entre o aluno e o conhecimento. Deve antes ser um facilitador, buscar sempre elogiar os acertos e desprezar os equívocos - deixando-os, contudo bem esclarecidos - como pequeninas falhas humanas a que todos estamos sujeitos mesmo. Devem professores e alunos, “caminhar juntos” na busca do saber.

Sempre começo meus cursos “depondo armas”. Não se está em guerra, estamos todos juntos em busca de mais conhecimento e as reprovações - exceto em casos extremos - tornam-se desnecessárias. Os mais dedicados e empenhados, respeitando as normas vigentes, recebem nota máxima. Quem se empenha menos, tem pelo menos a nota mínima para a aprovação. Entre um extremo e outro, as gradações de praxe e ponto final.

Escândalo entre os conservadores, acostumados a conter a disciplina em sala de aula com ameaças de cortes de pontuação na nota. Uma alegria inicial por parte dos alunos menos dedicados, aqueles que “vão à escola porque o papai mandou” - receio ser grande o número destes diante do quadro atual da educação em nosso país. Digo alegria inicial até porque logo percebem existir um tipo mais profundo e severo de repressão, a repressão moral. Os próprios alunos ficam aparvalhados quando não atingem a “nota máxima” e já cheguei a ouvir, tanto lá no Rio, onde este método funciona muito bem, quanto por aqui pela Região mesmo, de um aluno para outro: “U quê? Cê num tirô nota boa logo him filosufia?” Pessoalmente acho curioso perceber que eles estão a controlar-se espontaneamente. Mas não deixo de me sentir um repressor moral num nível mais profundo. Incomoda um pouco, mas pelo menos fica o disfarce. Parece não haver qualquer restrição ou repressão e eles mesmos se controlam para atingir os objetivos estabelecidos por nós logo no início do período letivo.

Em nossa sociedade, ocidental, burguesa etc, aprendeu-se que o “bom professor” é aquele mais sisudo, carrancudo, inacessível, eivado de conteúdos impenetráveis e pródigo em reprovações. Por esta leitura, não seria eu propriamente um “exemplo”, pois nada comporto de sisudez, gosto muito de rir e brincar com meus alunos e acredito firmemente que rindo e brincando todos nós - professores e alunos - aprendemos muito mais. Sinto nojo de gente que fala e não consegue fazer-se compreender e ainda ousa chamar a isso de erudição. Se falo e não me compreendem, que mensagem estou transmitindo, afinal? Optei pela suspensão da égide do medo. Nenhum de meus alunos precisa, em circunstância alguma temer o que quer que seja de mim, nem reprovação castradora, coatora, nem repressão em excesso. Mesmo porque o essencial nesta vida não se aprende na escola; só se aprende a viver vivendo!

           Mas, em toda a classe sempre tem algum engraçadinho que, fora do contexto do que se está discutindo quer saber coisa diversa. Aprendi na prática uma solução sensacional. Se, enquanto estou explicando alguns princípios iluministas alguém me pergunta, por exemplo, “quem envernizou a asa da barata”, respondo rapidamente: “à tarde, na sexta-feira, hora da ‘aula livre’ esclareço este ponto, não o esqueça. Voltando a Diderot...” E na sexta-feira à tarde é aquela festa. Todos os alunos de todos os cursos, numa tentativa de implementar algo similar a uma aula aristotélica, estão convidados a comparecer para ouvir a explanação, em 20, 30 minutos de um tema diferente como “namoro”, “legalização do aborto”, “pena-de-morte” ou algum questionamento sério de alguém durante a semana e, a seguir, fica livre o debate para perguntas e questionamentos os mais diversos e livres que se pode fazer. Como estive trabalhando em diversas cidades, ocorria às vezes de, além de alunos de turmas diferentes e até de escolas diferentes, familiares aparecerem e vir gente de cidades vizinhas para a famosa “aula livre”. Às vezes ficava difícil explicar ou justificar num relatório escrito o tipo de atividade, nitidamente pouco ortodoxa que exercitava. E jamais recebi um único centavo furado pelo trabalho que fazia com mais satisfação. Tentando me conformar, achava que era assim mesmo. Você dificilmente recebe alguma coisa para fazer o que gosta. No Modo de Produção Capitalista você executa tarefas que não têm nada a ver com você, que lhe são estranhas (é o que se chama de “alienação”) e até detestadas e, ao fim do período combinado de trabalho, recebe a sua paga, raramente justa, por sinal.

Hoje penso diferente, creio que as “aulas livres” deveriam constar dos planejamentos formais e ser excepcionalmente bem-remuneradas, sempre exercidas por profissionais capacitados para tanto. Em primeiro lugar porque é o locus por excelência de melhor aproveitamento por parte de todos os participantes, em segundo porque é uma atividade profissional desgastante e todo o exercício laborativo deve ser remunerado mesmo.

 

Da ascensão à queda e da queda à ressurreição

 

Em meados de 95, dada a elevada carga de trabalhos e, segundo meu presente sistema de crença, a carga energética nem sempre das mais positivas a que estava submetido, entrei num processo de estafa que por pouco não me leva à depressão. É uma das coisas mais comuns no magistério, esse tipo de coisa, aliás. Professores estafados, deprimidos, insatisfeitos, sentindo-se injustiçados...

O finzinho de 95 pegou-me com uma boa notícia: haveria um concurso público para o provimento dos cargos efetivos de professores da faculdade. Aproveitei muito bem as férias para reciclar-me, estudar muito e preparar-me. No início de 96 deu-se efetivamente o concurso. Lembro-me de que havia uma vaga para professor de sociologia (que é minha principal credencial) e quatro candidatos. Professores dotados de elevada titularidade - doutorado, livre-docência - vieram examinar-nos. Uma prova escrita com tema sorteado na hora, quinze páginas escritas definitivamente esgotando o tema proposto. Uma aula que ministrei com particular cuidado e esmero. Além da graduação, concluí em Niterói um curso de extensão universitária, lato-sensu, que me credencia a ministrar aulas a cursos superiores em caráter provisório, até que consiga encaminhar meu mestrado que ficou emperrado quando meu orientador lá no Rio demitiu-se da Instituição em que trabalhava e até agora não encontrei quem esteja trabalhando com a temática que me proponho a estudar - pontes entre o socialismo utópico, o surrealismo e a psicanálise - tem gente muito boa trabalhando com esta temática, mas muito distante da minha atual capacidade econômica...

O resultado do concurso foi uma consternação geral. Houve um primeiro lugar, um segundo lugar, um terceiro lugar e uma reprovação. Sim, pela primeira vez na minha vida tive de passar pela experiência desagradabilíssima de ser reprovado. Esse troço ficou preso a mim como uma cruz que carreguei por muito tempo e à qual dormia pregado. Jamais consegui compreender. Todos sempre me elogiaram tanto, os entrevistadores com grande respeito somente me perguntavam coisas como: “o que é que um profissional do seu gabarito está fazendo aqui? Seu lugar é numa Instituição com muito mais possibilidades e recursos!” Por ter certeza da prova que fiz, da aula que ministrei e lisonjeado com a observação da “banca”, cheguei mesmo a celebrar, sozinho, em casa, como um louco dançando em cima da mesa enquanto ouvia repetidamente o primeiro movimento da ópera “Carmina Burana” no último volume. Demorou um bocado de tempo até que pudesse ouvir aquela peça novamente sem traumas ou más recordações.

Justo no início do ano letivo, quando estava escolhendo os melhores horários para as unidades em que me propunha a trabalhar, essa Letra Escarlate parecia estampada em meu semblante, com um menino tocando tambor à minha frente o tempo todo. Repassava os momentos do concurso. Tudo tão certo. Não recorri legalmente. Algo me dizia que além de não adiantar nada (os examinadores já se haviam retirado, o voto-de-minerva seria dado por outros que tinham motivos de sobra para não demonstrar clemência etc) ainda ficaria duplamente vexado. Preferi a margem de dúvida possível com que pudesse trabalhar o psiquismo. Difícil. E as pendências salariais em escolas particulares, mesmo com a inflação controlada, seguiam agudas. Parecia-me ver injustiça para onde voltasse o olhar, credo! Triste recompensa a quem tem um elevadíssimo nível de auto-crítica e pensa fazer o melhor trabalho possível. A própria notícia pública, impressa em vários lugares, da minha reprovação desvalorizou meu trabalho. De novo a cruz pesada: “seria a falta da titularidade pelo menos de mestrado? Mas como é que ninguém me preveniu desta possibilidade?”

Muito estranho, de fato. Pela enésima vez em meu presente estado de existência, ouço as vozes que me saudavam até às vésperas a ensaiar um coral de vaias. Vejo aqueles que um dia trouxeram tochas para iluminar o meu caminho a ameaçar incinerar-me vivo com aquelas mesmas tochas. Em situações assim parece-nos que o chão nos some sob os pés...

Vive-se, leva-se, suporta-se com tanto estoicismo quanto se pode a tensão toda. Inconscientemente, se vai colocando as contas em dia e formalizando um pedido de afastamento das unidades em que trabalhava para meados do ano letivo, quando me movi, “com mala e cuia” e meus livros, para a casa de meus familiares, o que, convenhamos, é sempre um dissabor para todos.

Mais seis meses de introspecção e estudos, agora com ênfase à metafísica que o mundo da concreção só me apresentava dores e dissabores. Minha religiosidade aprimorou-se bastante e estive muito próximo de seguir o caminho dos “Loucos de Deus”, aqueles que largam tudo para aproximar-se da Divindade. Em longas meditações a revelação: “meu caminho é o da conquista da matéria densa, da vida na concretude mesmo, o ascetismo somente paralisaria meu processo evolutivo”. Esta revelação trouxe-me de volta ao mundo prático-pragmático que vou, aos poucos, tentando compreender melhor e domesticar...

 

*   *   *

 

 

Educação para a Redenção

 

“Este ensaio de Lázaro Curvêlo Chaves explicita humana e cientificamente seu objeto. O espectro de leituras, o crivo metodológico, o enlace unívoco do sujeito com seu tema atestam a vocação intelecto-espiritual do Autor. Seu perfil, seu tônus moral, sua medula ética são, inescapavelmente, alento especial àqueles que, como eu, acreditam na assunção final da espécie humana”.

 

Ricardo Máximo Gomes Ferraz

 

“O caráter político da prática pedagógica não depende, porém, somente dos que trabalham na área de educação. Não é que alguns educadores, devido a suas convicções políticas e ideológicas, façam de seu trabalho um trabalho político, assim como outros o manteriam em sua esfera específica, resguardando sua pureza original. Queiram ou não os educadores, tenham ou não consciência dessa realidade, seu trabalho é necessariamente político. Nem mesmo a “santa” ingenuidade dos que têm plena convicção do caráter desinteressado de sua pratica educativa elimina essa dimensão política. Numa palavra, o político constitui o próprio ser do ato educativo enquanto ato humano e, como tal, inserido na luta concreta dos homens.”

 

Ildeu Coelho, “A Questão Política do Trabalho Pedagógico”, in: BRANDÃO, Carlos, O Educador, Vida e Morte.

 

 

Educação para a Redenção

(Uma proposta educacional libertária)

 

 

I -  Visitando o ventre do monstro

 

Vivemos numa sociedade injusta em grau superlativo, haja visto que cerca de 10% da parcela mais privilegiada da população detêm cerca de 70% da renda nacional, enquanto vemos cerca de 60% da população brasileira a viver muito abaixo da linha da pobreza, segundo dados da FIBGE de 1995 (o processo concentracionista de rendas, sem dúvida, agudizou seriamente este quadro, já caótico, de 1995 para cá). Em recente reportagem da “Folha de São Paulo” percebemos um grande acréscimo no consumo de bens de altíssimo luxo, como automóveis e outros bens importados, tudo levando a crer que, para aqueles que se situam no topo da pirâmide de distribuição de rendas no Brasil as condições de vida em poucos momentos históricos lhes foram tão favoráveis, felizes e plenas como agora. Segundo relato acurado do padre John Drexel e da professora Leila Rentróia Iannone, 1% da população do Brasil detêm mais de 50% da renda nacional. A dupla coletou estes dados no relatório do Banco Mundial de 1985 enquanto elaborava um libelo humanista em prol das crianças carentes e abandonadas no terceiro mundo, intitulado Criança e Miséria, Vida ou Morte?, ed. Moderna. Ainda neste riquíssimo libelo, somos informados de que o Brasil é o quarto produtor mundial de alimentos mas, como proprietários de animais domésticos do primeiro mundo pagam melhor preço pela comida que produzimos, nosso país acaba sendo o 6º do mundo em subnutrição, ao lado de Bangladesh, por exemplo. Cerca de 1.000 crianças por ano são assassinadas no Brasil de formas variadas - o Capital tem se mostrado particularmente criativo neste tipo específico de crueldade - fome, doenças infecto-contagiosas, violência policial ou paramilitar de “esquadrões da morte” etc. O sistema cria o problema e providencia o seu extermínio, literalmente falando.

A recessão a nós imposta pela política econômica internacional, Estados Unidos à frente, afeta de maneira desigual a população, como se percebe nas dobras dos discursos das autoridades ou mesmo em dados como os relatados acima. Ainda assim, proliferam discursos de empresários e investidores “se queixando” da recessão. Dada a crueza da situação concreta em que vivemos, a dedução óbvia é que tais discursos não passam de peça de propaganda voltada a que todos pensem - a despeito do testemunho dos fatos e dados estatísticos - estarmos todos sofrendo, embora em gradações diferentes numa sociedade como a nossa, com a recessão programada, na verdade, para  agudizar  este   processo concentracionista absurdamente perverso, inapelavelmente imoral e totalmente injustificável.

Ao factual acima um dado mais recente, publicado na “Folha de São Paulo” de 11/02/98, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 96: de cada 1.000 alunos que iniciam a 1ª série nas escolas públicas, apenas 43 chegam a formar-se em oito anos, ou seja, 4,3% apenas dos alunos que se matriculam em escolas públicas concluem o 1º grau... Há mais, ainda segundo o Pnad, cerca de 750.000 estudantes na faixa dos 8 aos 12 anos não sabem ler. Fica no ar a pergunta: o quê aprendem nas escolas?

Os casos de prostituição infanto-juvenil (havendo não raros casos de escravidão sexual, particularmente em áreas fronteiriças e de garimpo) envergonham a Nação diante do mundo. Há miríades de menores famintos abandonados por pais desesperados, morrendo à míngua de pão, vestimenta, educação básica (sem mencionar o amor, o afeto, o carinho da família...). Torna-se comum e há até um certo nível de complacência para com a toxicomania como fuga a uma realidade absolutamente insuportável; os índices de criminalidade estão assustadores. Por outro lado há abundância, fartura, éden e cornucópia no topo da pirâmide social, com direito a importação de produtos de alto luxo, como vimos acima; investimentos de recursos sociais em obras não-prioritárias (NB: Não são “obras desnecessárias”, são simplesmente “não prioritárias” dada a crueza da situação existencial atual e exemplifico: se ao invés de construir novas escolas e hospitais se valorizasse salarialmente o trabalho dos profissionais de ensino e da saúde as verbas estariam seguramente melhor empregadas!). Outra questão é a das privatizações. Não há como recusar que muitas coisas funcionam melhor nas mãos da iniciativa privada, mas é preciso reconhecer que, em muitos casos, os serviços prestados pelo poder público são primorosos e lucrativos - estes, que estão passando por processo de privatização também, precisam ser mantidos na esfera estatal ou pelo menos o processo todo repensado. Ofende a Razão perceber a devastação perpetrada contra a Natureza: florestas seculares sendo abatidas por industrias madeireiras; o plantio da cana em “terra roxa” é quase um crime, pois ali se poderia plantar vegetais vitais ao consumo humano, deixando o fabrico do álcool combustível para um outro plano.

O Brasil se mostra, efetivamente, como observava muito bem Roger Bastide, uma Terra de Contrastes. Contrastes. Com trastes a dirigir e orientar os rumos que a Nação deve seguir, mantendo o concentracionismo de rendas e todas as mazelas dele decorrentes. Aguarda-se o momento em que uma tempestade varra estes trastes e os contrastes deles decorrentes. Como dizia André Breton em A Lâmpada no Relógio: “Do seio da terrível miséria física e moral deste tempo, espera-se sem desesperar ainda que energias rebeldes a toda a domesticação retomem pela base a tarefa da emancipação humana!”

A leitura dos jornais diários, nos proporciona uma indignação cruel e um forte sentimento de injustiça! Lado a lado notícias de infelicidade humana daqueles que estão na base da pirâmide social brasileira (morticínio, latrocínio, prostituição, desemprego, inadimplência e desespero) com as de abundância e plenitude dos sempre e permanentemente privilegiados (desfiles de moda de alta costura internacional, anúncios de vestimentas suntuárias, colunas sociais desprovidas de eticidade num país com tão severos problemas sociais etc).

Sendo, como é de fato, uma sociedade injusta - insisto aqui no adjetivo: superlativamente injusta - urge remanejá-la, transformar a organização social em algo que venha a promover, efetivamente, a vida, a plenitude requerida por todos os seres humanos, por todos, sem exceção, sem exclusão. O grande pré-requisito para tanto, claro, é a abolição da propriedade privada dos meios materiais e espirituais de produção - e como é difícil falar sobre isso no momento de mais severo retrocesso histórico do mundo, com o colapso do socialismo dito real e a proliferação modista do neoliberalismo com todo o seu cortejo de retrocessos nos direitos trabalhistas fundamentais! É preciso criar condições ao livre desabrochar da autogestão, de uma justa e equânime distribuição da riqueza por todos produzida mas apropriada por pouquíssimos, como nos informam as estatísticas mais recentes.

O irracionalismo, a pseudo-racionalidade que rege o sistema, esta orientação sócio-econômica aviltante, cujas regras favorecem sempre os mais fortes, já detentores do poder político e econômico, não havendo - e quando as há, dificilmente são cumpridas - leis que protejam os menos favorecidos, tem sido o corrente  na sociedade afluente.

É necessário e urgente lutar em todos os campos possíveis e imagináveis para que seja fundada uma nova organização social, voltada agora à promoção da vida dos seres humanos, transformar o mundo, enfim, na morada do homem. Para isso:

1 - Submeter a realidade irracional da organização social existente a um julgamento a partir de um critério maior, a Razão Radical!

2 - Atuar em conjunto e mesmo isoladamente com o mínimo possível de submissão às “normas” vigentes, irracionais porém hegemônicas, visando a quebra da espinha dorsal desta estrutura social aviltante. Uma submissão prático-pragmática em sua plenitude ao irracionalismo que rege o todo inviabilizaria a luta por transformações sociais radicais reificando, portanto, a estrutura social atualmente vigente.

Os anarquistas, humanistas radicais, de Gandhi a Thoureau, de Buber a Kropotkin, passando pelos marxistas heterodoxos, de linhagem humanista como Ernst Bloch, Leon Trotski, Rosa Luxemburgo, Roger Garaudy, Herbert Marcuse, José Carlos Mariátegui, Camilo Torres, Che Guevara, entre milhares de outros diferem radicalmente dos liberais e mesmo dos marxistas filo-liberais num ponto nodal: os primeiros rompem claramente com as normas vigentes, entendendo ser impossível criar o novo a partir da velha e ossificada “ordem” ou mesmo mentalidade tradicional, entendendo, por fim, ser vital banir a possibilidade de composições com o necrosado, com o moribundo, particularmente onde a realidade social é de tal sorte anômica, de tal forma assimétrica e desigual que não há mesmo como ceder espaços sem que com isso se acabe por preservar o existente. Os segundos (liberais e filo-liberais) consideram ser possível aperfeiçoar gradualmente a sociedade sem qualquer tipo de ruptura ou transformação social súbita, aceitando composições de ocasião com a chamada “ordem” em alguns aspectos, visando pequenos e pífios “avanços” que pouco mais fazem no fundo que arrefecer, amortecer o conflito de classes, trabalhando assim, em última análise, em prol da preservação do existente - isto em sua vertente, digamos, “otimista” que, involuntariamente quiçá, trabalha em prol da perpetuação da “ordem” injusta em que vivemos enquanto em seu discurso (e possivelmente em sua vontade) haja uma plêiade de propostas bem-intencionadas de chegar a uma sociedade com novas características. A vertente “realista” deste grupo ocupa-se mais, no campo intelectual, em “provar” que “não tem jeito”, “tudo será como está, sempre foi assim e assim sempre será”, “chegamos ao fim da história e das utopias” e outros pseudo-alegatos reificadores do Modo de Produção Capitalista, que existe há não mais de 400 anos em cerca de 5.000 anos de história humana no mundo.

É absurdo, ilógico, cruel do ponto de vista do humano que nossa espécie consiga enviar sondas ao Cosmo ou às profundezas abissais dos oceanos, viajar com velocidade inacreditável a distâncias enormes e tenha, em síntese, atingido tantas conquistas na área da tecnologia por um lado e, por outro, esteja lidando com condições tão sórdidas ao nível mais básico da sobrevivência material. Tornou-se lugar-comum nos meios radicais, mas nunca é demais enfatizar, que balas de fuzil são muito mais caras que o leite, granadas são incrivelmente mais dispendiosas  que livros, tanques custam mais que escolas... Mas no mundo não há falta de balas, granadas, tanques ou fuzis; falta leite, falta pão, faltam escolas, falta fazer o que os surrealistas vêm verberando e reverberando há décadas: RECONHECER E VALORIZAR O AMOR COMO PRINCIPAL MOTOR ÉTICO DA HUMANIDADE! Quem ama está, por princípio, plantado numa agonística humanista radical. Aquele que de fato ama, quer o melhor para si e os seus. Como posso ser feliz se há irmãos meus morrendo de fome à noite, abandonados, sem lar nem carinho? Como é que posso estar em paz com a “ordem” se esta “ordem” condena arbitrariamente, “por nascença”, milhares de seres humanos à miséria material e afetiva, com requintes de crueldade, onde se percebe que milhares de menininhas são submetidas, anualmente, a formas diversas de brutalidade na esfera mais bela e sublime de suas vidas? Quem pode ousar erguer-se em defesa desta “ordem”? Uma “ordem” que consegue banir a satisfação dos anseios mais básicos e seus primeiros derivados, uma “ordem”, como diz nosso querido dominicano Frei Betto, que deixa a maioria dos seres humanos “faminta de pão e de beleza”... Não! Uma tal “ordem” é total e absolutamente indefensável!

Nem um minuto de descanso! Guerra à “ordem”.  É necessário quebrar a cadeia do Mal, cortar a garganta do diabo do Capital, parafraseando aqui Nikos Kazantzakis em A Última Tentação de Cristo. A Grande Recusa que aqui se propõe só é viável se universal. Passo a palavra, neste ponto, a Herbert Marcuse, que defende este ponto de vista em seu prefácio político a Eros e Civilização:

 

 

“...Hoje, a recusa organizada dos cientistas, matemáticos, técnicos, psicólogos industriais e pesquisadores de opinião pública poderá muito bem consumar o que uma greve, mesmo em grande escala, já não pode conseguir, mas conseguia noutros tempos, isto é, o começo da reversão, a preparação do terreno para a atuação política. Que a idéia pareça profundamente irrealista não reduz a responsabilidade política subentendida na posição e na função do intelectual na sociedade industrial contemporânea. A recusa do intelectual pode encontrar apoio noutro catalisador, a recusa instintiva entre jovens em protesto. É a vida deles que está em jogo e, se não a deles, pelo menos a saúde mental e a capacidade de funcionamento deles como seres humanos livres de mutilações. O protesto dos jovens continuará porque é uma necessidade biológica. “Por natureza”, a juventude está na primeira linha dos que vivem e lutam por Eros contra a Morte e contra uma civilização que se esforça por encurtar o atalho para a morte, embora controlando os meios capazes de alongar esse percurso. Mas, na sociedade administrativa, a necessidade biológica não redunda imediatamente em ação; a organização exige contra-organização. Hoje, a luta pela vida, a luta por Eros, é a luta política.”

 

 

 

Esta Grande Recusa, esta ruptura política, precisa ter a força sugerida por Maurice Blanchot, citado também por Marcuse, desta vez em A Ideologia da Sociedade Industrial, ed. Zahar:

"Ce que nous refusons n’est pas sans valeur ni sans importance. C’est bien à cause de cela que le refus est nécessaire. Il y a une raison que nous n’acceptarons plus, il y a une apparence de sagesse qui nous fait horreur, il y a une offre d’accord et de conciliation que nous n’entendrons pas. Une rupture s’est produite. Nous avons été ramenés à cette franchise qui ne tolère plus la complicité. "  - "O que nós recusamos não é destituído de valor ou de importância. Precisamente por isso a recusa é necessária. Há uma razão que não aceitaremos mais, há uma aparência de sabedoria que nos causa horror, há um apelo de acordo e de conciliação a que não mais atenderemos. Ocorreu uma ruptura. Fomos reduzidos àquela franqueza que não tolera mais a cumplicidade". Maurice Blanchot

 

Nenhuma conciliação possível com as propostas dos ideólogos da sociedade afluente. Devemos lutar pelo fim da opressão, da repressão, da exploração do homem pelo homem. queremos um mundo no qual as pessoas possam viver mais felizes. Um mundo, enfim, mais bonito.

A primeira providência a se tomar, perfeitamente realizável na era de abundância econômica em que vivemos em termos planetários, é que haja alimento, moradia e vestimenta garantidos a todos os seres humanos vivos. Ver a cessação das hostilidades entre os seres humanos na esfera da mera sobrevivência material já seria um grande passo! Em O Capital, capítulo VIII, Marx informa ser este o vampiro da vida humana; textualmente: “O Capital é trabalho morto que como um vampiro se reanima sugando o trabalho vivo e quanto mais o suga mais forte se torna”.

E nós nascemos num tempo em que a autoridade tornou-se difusa, ou, como diz Erich Fromm em O Medo à Liberdade, anônima, invisível, é o lucro, a opinião pública, o mercado o senso-comum... Se este tipo de autoridade promovesse o humano de alguma forma, seria tolerável, mas acontece precisamente o oposto, trata-se de uma autoridade irracional, tolhedora, inibidora, fator de limitação do humano. E as pessoas nascidas e criadas em sociedades com as características aqui descritas tornam-se, via-de-regra, inseguras, subnutridas, acuadas, esfarrapadas, em suma, transformadas em seres abúlicos pelo vampiro da vida. Que tipo de educação se pode oferecer dentro de uma tal “organização” social?

Estou persuadido de que chegamos sempre - às vezes com alguma dificuldade - a bom porto se sabemos para onde nos dirigimos, se temos uma meta ou, como o dizem sabiamente os surrealistas, um graal a conquistar. Se não sabemos sequer para onde nos encaminhamos, a chegada, evidentemente, será muito mais difícil... Neste sentido, mencionando palavras de Ernst Bloch, citadas por Pierre Furter em Dialética da Esperança:

 

“O filósofo é um militante especializado na interpretação dos sinais do nosso tempo. Tem como tarefa específica distinguir onde está a esperança dos homens e para onde estes conduzem o nosso tempo (...) Um revolucionário, portanto, é um sonhador, é um amante, é um poeta, porque não se pode ser revolucionário sem lágrimas nos olhos, sem ternura nas mãos. Os poetas de hoje, os verdadeiros poetas de hoje, são os que desenham o amanhã, os artistas estão construindo com palavras, com argila, com aquarelas, as maquetes que vão servir de base à Sociedade do Futuro.”

 

Este o mote principal destas notas: a partir da constatação empírica da inadiável necessidade de um movimento multitudinário que transforme o mundo, efetivamente, na morada do homem, serão traçados alguns esboços do que se tem proposto em termos educacionais para a sociedade ácrata que, estou seguro, será a tônica no mundo em algumas décadas.

 

II - Educação para a Esperança: Programa Educacional Libertário

  

Tendo uma visão peculiar da necessária e impostergável revolução social, os anarquistas lutam pelo fim do Estado, pelo fim da velha ordem ao mesmo tempo em que se constrói - sem forma alguma de ditadura intermediária - a ordem social libertária. Ou seja, a “revolução da esperança” por eles proposta é um ato de destruição de tal ordem que traz já dentro de si a nova sociedade.

Nada mais distante do pensamento libertário, antiautoritário por definição, que a instituição de alguma forma de governo revolucionário provisório. Seria ilusório supor - e a história o tem comprovado - que um governo revolucionário, fosse de que natureza fosse, se satisfizesse com a interinidade. Ao contrário o poder, onde existe, busca sua perpetuação e é precisamente contra isso que se insurgem os defensores da sociedade ácrata. “O caminho que conduz à liberdade, só pode ser a própria liberdade”, reza antigo ditado anarquista. Não somos “inversivos”, caso em que desejaríamos a tomada do poder político e econômico para um partido ou classe social, somos antes subversivos, ou seja, queremos atingir o fim do Estado, do poder e da dominação política, econômica ou de qualquer natureza preservando apenas e unicamente aquela Autoridade natural, emancipatória, estimuladora do crescimento e realização humanas.

A temática da educação, de resto presente em praticamente todas as correntes do pensamento social, é privilegiadíssima nos clássicos do pensamento anarquista como Kropotkin, Bakunin, Proudhon, Buber, Landauer, Robin e Malatesta, principalmente porque sem uma real modificação na mentalidade das pessoas - e a educação cumpre papel crucial, basilar neste ponto - a revolução social poderia não alcançar o êxito desejado.

Cumpre fazer aqui uma breve digressão acerca do êxito da Revolução, a partir do pensamento de Mariátegui, bem como de Ernst Bloch, ambos  marxistas heterodoxos, de linhagem humanista. O revolucionário peruano, citando Sorel, fala do vigor inesgotável dos lutadores por justiça social no mundo informando que nunca se abatem: “A cada experiência frustrada, recomeçam. Não encontraram a solução: a encontrarão! Jamais lhes assalta a idéia de que a solução não exista. Eis aí sua força!” Já o Filósofo da Esperança compara o niilista ao revolucionário nos seguintes termos: “Enquanto o niilista conclui do Não ao Nunca, o revolucionário ascende do Não ao Ainda-não. (“NOCH-NICHT-SEIN”). Não vamos, contudo, ficar de braços cruzados à espera da inevitável vitória da revolução social, pois somos nós mesmos os seus protagonistas. Mas a certeza da vitória final renova, a cada recuo histórico - de resto dialeticamente inevitável - a nossa força e, por que não dizê-lo, a nossa FÉ!

A elaboração de um Programa Educacional Libertário foi precedida por uma crítica feroz à educação burguesa e teve lugar na Europa em meados do século passado.

Sendo a grande meta comum a todos os combatentes em prol da Justiça Social no mundo o fim da luta de classes * , como dizia Errico Malatesta: “...Anarquia, este sonho de justiça e de amor entre os homens...”

Outra crítica importante ao sistema educacional burguês era dirigida à educação religiosa, cada vez mais conflitante com as descobertas das ciências naturais da época, além de desviar a atenção dos educandos dos problemas deste mundo **. Também a falta de unidade no ensino era ferozmente combatida pelos anarquistas; a divisão formal entre “educação científica” e “educação profissional”, entre “ensino” e “aprendizagem”, segundo Proudhon só ser  via para manter a divisão da sociedade de classes, perpetuando a condição existente entre subalternos e trabalhadores. Hoje, por compreendermos a verdadeira religiosidade como elemento importantíssimo não apenas da emancipação humana, como também de sua elevação intelectual e moral, pensamos que a educação religiosa deve ocorrer, sim, mas de maneira obrigatoriamente não-dogmática! Nosso combate, passe a redundância, deve dar-se, isso sim, contra todas as formas de dogmatismo, seja ele religioso, científico, filosófico ou de qualquer natureza (Esta temática será devidamente aprofundada no capítulo III - Da metodologia).

Bakunin, insurgindo-se contra a existência de dois tipos de educação, uma mais aprimorada, para a burguesia, outra bastante simplificada, limitada e limitadora dirigida aos trabalhadores, já neste momento influenciado pelas teorias educacionais de Paul Robin, proporá a criação de uma educação integral.

Em 1882 o Comitê Para o Ensino Anarquista reúne-se e prepara seu Programa Educacional que centraliza-se, num primeiro momento, na supressão de três práticas, muito habituais nos estabelecimentos de ensino mas sem dúvida execráveis; são elas:

1. A disciplina artificial, coativa, à margem da vida. Esta precisa ser suprimida pois causa dispersividade e medo, além de fomentar mentiras e delações entre professores e alunos. Mais tarde os Anarquistas proporão uma disciplina conciliada com a naturalidade humana, uma disciplina em nome da esponteinade humana que, com base na Autoridade Natural, possa promover o humano, conduzir e despertar, EDUCAR no sentido mais elevado e sublime desta expressão: possibilitar a cada um o desenvolvimento daquilo que cada um tem de melhor em si mesmo em termos de espontaneidade e humanidade. Esta proposta tem a vantagem suplementar de possibilitar ao educador libertário crescer intelectual e humanamente também, como bem o enfatiza Mário Lodi, quando fala da “Criatividade Liberada”, na coletânea de textos Educação e Liberdade, inicialmente publicado no volume 1/87 da revista italiana Volontà, traduzido e publicado no Brasil por Nelson Canabarro, ed. Imaginário, 1990.

2.  Os programas apriorísticos e genérico-formais, também à margem da vida, onde não se dá voz ou vez aos interessados, os educandos. Numa etapa posterior, os anarquistas proporão a implantação de programas sérios, voltados a auscultar as particularidades, onde não mais haverá o culto do indivíduo em favor do social. Ai do social que não possa contar com indivíduos sazonados! Os programas apriorísticos, genérico-formais, têm de ser suprimidos pois tolhem a liberdade dos educandos, sua originalidade, sua capacidade de iniciativa e mesmo inibem a sua responsabilidade fazendo com que pensem que só “de cima” podem vir verdades acerca das relações dos homens entre si e destes com a natureza.

3. As classificações, finalmente, deveriam ter o mesmo destino (a lata de lixo da história), por serem fonte de comportamentos baseados na rivalidade, na inveja e no rancor, além de provocar distinções dos educandos entre si com base exclusivamente na avaliação subjetiva do professor. Também neste item, em etapa posterior, os Anarquistas passam a pensar em classificações sim, mas nunca de maneira apriorística, sempre suscetíveis de modificações, onde o respeito às particularidades subjetivas seja o centro das considerações. Vale ressaltar ainda uma vez que o indivíduo pleno, sazonado, é decisivo para a perspectiva anarquista. Só podemos ter o coletivo salvo se tivermos salvo o particular. Qualquer forma de classificação que não contemple a dimensão da promoção intelectual e moral do humano será permanente anátema para a perspectiva anarquista!

Reformuladas estas práticas nocivas, o ensino, segundo o Programa Educacional Anarquista, poderá ser verdadeiramente integral, racional, misto e libertário.

Integral, porque poderá “favorecer o desenvolvimento harmonioso de todo o indivíduo e fornecer um conjunto completo, coerente, sintético e paralelamente progressivo em todos os domínios do conhecimento intelectual, físico, manual e profissional, sendo as crianças exercitadas nesse sentido desde os primeiros anos” Flávio Luizetto, Utopias Anarquistas, Brasiliense, 1992.

Racional, porque liberto do dogmatismo religioso ou mesmo científico (hoje em dia mais pernicioso e perigoso este último), fundamentado na Razão e de acordo com os princípios da dignidade e independência do homem, não mais na obediência cega a qualquer forma de orientação exterior ao humano ou ao racional.

Misto, ou seja, voltado a favorecer a co-educação sexual, onde a figura da discriminação nesta esfera não passe de triste recordação de um tempo sombrio - há que se reconhecer que muito se avançou nesta área específica do século XIX às margens que estamos do século XXI.

Libertário ou, “numa palavra, consagrar em proveito da liberdade o sacrifício da autoridade repressora, uma vez que o objetivo final da educação é formar seres humanos livres que respeitem e amem a liberdade alheia!” Flávio Luizetto, op. cit.

Traçar, a este ponto, mais que um esboço, além de extrapolar em muito os modestos conhecimentos e habilidades de quem assina estas notas, encontra ainda a dificuldade suplementar de serem planos e programas anarquistas consideravelemente incompletos, o que é perfeitamente compreensível, traçar mais que um esboço do que se propõe ultrapassaria também os limites dialéticos recomendáveis; a construção da Sociedade do Futuro é tarefa eminentemente social, coletiva, daí dever dar-se com o assentimento e o entendimento de todos os interessados no processo ensino-aprendizagem (pais, professores e alunos, fundamentalmente) de modo livre, evidentemente.

Liberdade é a palavra-chave em todo o processo ensino-aprendizagem. Assim como é inimaginável, em relacionamentos amorosos que alguém diga a outrem por quem se interesse: “me ame!” como numa ordem, é ridiculamente ilógico ordenar ou coagir as pessoas a estudar o que quer que seja. Assim como na conquista amorosa, também nesta esfera tudo deve dar-se em termos de persuasão, de conquista mesmo!

Também os professores que, em sua esmagadora maioria, ministram aulas em condições tão aviltantes (baixos salários, classes abarrotadas, excessiva carga horária etc) sendo até levados muitas vezes a exercer atividade tão nobre como o magistério por imperativo categórico de necessidade financeira, inexistindo a vocação, propriamente dita, para ensinar e aprender, caminhar junto com os educandos rumo ao saber com amor e alegria precisam ser trabalhados, persuadidos, conquistados às propostas libertárias...

Uma grande campanha de elucidação e persuasão, a nível federal - diria mesmo que internacional - através dos meios de comunicação é fundamental ao sucesso de tal empreitada. Trata-se aqui, nem mais nem menos, que de uma guinada radical à forma como a educação vem sendo encaminhada há séculos.

Platão, discípulo de Sócrates, ministrava suas aulas na famosa Academia, residência do herói ateniense Academo. Aristóteles, “a inteligência”, discípulo mais eminente de Platão, no Bosque dos Lobos ( Lukeion em grego arcaico), em aulas peripatéticas, criou o Liceu. Tempos depois, já por ocasião do domínio macedônico sobre o mundo grego, Epicuro criou o Jardim, onde se cultuava acima de tudo o amor, a liberdade e a alegria.

Hoje em dia percebemos haver muitos “liceus” e “academias” pelo mundo afora, numa claríssima manifestação do tipo de comprometimento daquelas instituições com o pensamento socrático, platônico e mesmo aristotélico, em grande medida autoritário.

O “jardim” até pouco tempo existia somente para crianças, eram famosos e agradabilíssimos os “Jardins da Infância”. Hoje, nem isso, a tendência mundial é a de se preparar a criança desde a mais tenra idade para o que encontrará pela frente nos níveis mais avançados, ou seja, vão desaparecendo do cenário os “jardins-de-infância”, substituídos pela chamada “pré-escola”...

Sem problemas, avanços e recuos são comuns na história da humanidade e, se vivemos um tempo de recuo na direção autoritária do platonismo ou do aristotelismo (sem demérito algum à grande riqueza intelectual e erudição daqueles gênios da humanidade, menos ainda a seus ricos aportes à filosofia) por um lado e um recuo do epicurismo ético, tempo chegará em que se assistirá e vivenciará uma inversão - também provisória, ou estaríamos exorbitando a dimensão da dialética - de todo este quadro.

 

 

III - Da Metodologia

 

Em primeiro lugar, é necessário enfatizar a diferença entre o saber científico e aquele do senso-comum. Aquilo que Erich Fromm chama em O Medo à Liberdade de “validação consensual”, ou seja a opinião da maioria acerca de um dado fato, quase nunca é bom começo à pesquisa científica, embora seja útil ao dia-a-dia das pessoas. Todos “percebem” a solidez da Terra e como o Sol segue o seu caminho nos céus no período que vai da aurora ao crepúsculo, mas a pesquisa científica séria e aprofundada demonstra que a Terra tem vários movimentos, como rotação, translação etc, e é precisamente o movimento de rotação que nos dá a percepção de “nascer e por-do-sol”, além disso, em relação à Terra, o Sol está imóvel no céu, mas também esta estrela de sexta grandeza tem um movimento em torno da Via Láctea que, por sua vez, desloca-se em grande velocidade também, como estilhaços da grande explosão que especula-se ter dado início a tudo, o “Big Bang”.

Tais descobertas científicas, num tempo em que o dogmatismo religioso detinha todo o poder, por pouco não custou cabeças privilegiadíssimas como a de Galileu Galilei, que precisou retratar-se diante do Tribunal do Santo Ofício para salvar-se mas si muove... Ocorre que a verdade da constatação científica empírica se impõe finalmente e hoje não se encontra mais quem conteste seriamente o movimento dos astros no universo.

O segundo passo é perceber as diferenças cruciais entre a metodologia das ciências humanas e aquela das ciências naturais. O filósofo romeno-francês Lucien Goldmann em Ciências Humanas e Filosofia, Difel, 1986, às pág. 31 e seguintes coloca:

 

“Na realidade, sabemos hoje que a diferença entre as condições de trabalho dos “fisiólogos, físicos e químicos” e a dos sociólogos e dos historiadores não é de grau, mas de natureza; no ponto de partida da investigação física ou química há um acordo real e implícito entre todas as classes que constituem a sociedade atual a respeito do valor, da natureza e do fim da pesquisa. O conhecimento mais adequado e mais eficaz da realidade física e química é um ideal que hoje (a situação não era a mesma nos séculos XVI e XVII) não choca nem os interesses nem os valores de qualquer classe social (...) Nas ciências humanas, ao contrário, a situação é diferente. Pois se o conhecimento adequado não funda logicamente a validade dos juízos de valor, é certo porém que favorece ou desfavorece psicologicamente essa validade na consciência dos homens. A assimilação do revolucionário ao criminoso, por exemplo, é de natureza a afastar o leitor do primeiro (...) em tudo o que respeita aos principais problemas que se colocam para as ciências humanas, os interesses e os valores sociais divergem totalmente. Em lugar da unanimidade implícita ou explícita nos juízos de valor sobre a pesquisa e o conhecimento que está na base das ciências naturais, encontramos nas ciências humanas diferenças radicais de atitude, que se situam no início, antes do trabalho de pesquisa, permanecendo muitas vezes implícitas e inconscientes (...) Nas ciências humanas não basta, pois, como o queria Durkheim, aplicar o método cartesiano, por em dúvida verdades adquiridas e abrir-se inteiramente aos fatos, pois o pesquisador aborda muitas vezes fatos com categorias e pré-noções implícitas mas não conscientes que lhe fecham de antemão o caminho da compreensão objetiva.”

 

Como se percebe, em ciências humanas encontra-se uma produção de conhecimento comprometida com a manutenção do statu quo ante ou, para utilizar expressão própria, com a manutenção da “ordem” como a conhecemos e uma outra produção de conhecimento voltada à transformação radical deste mesmo statu quo ante  a partir da constatação empírica de que esta “ordem” está transformando nosso mundo num verdadeiro inferno. Neste pequeno trabalho, parto da constatação da existência da propriedade privada dos meios materiais e espirituais de produção e, num juízo de valor voltado à emancipação do homem de toda e qualquer forma de opressão ou tolhimento da liberdade, proponho um reordenamento social, para longe da opressão e do tolhimento da liberdade em todas as esferas. Neste caso específico, na esfera das relações profissionais, no processo ensino/aprendizagem. Aqui passo a mais uma breve citação, agora de Errico Malatesta em Escritos Revolucionários, Novos Tempos Editora, 1989 que no escrito “Um pouco de teoria”, pág. 39 em diante informa:

 

“Nós desejamos a liberdade e o bem-estar de todos os homens, de todos sem exceção. Queremos que cada ser humano possa se desenvolver e viver do modo mais feliz possível. E acreditamos que esta liberdade e este bem-estar não poderão ser dados por um homem ou por um partido, mas todos deverão descobrir neles mesmos suas condições, e conquistá-las. Consideramos que somente a mais completa aplicação do princípio da solidariedade pode destruir a luta, a opressão e a exploração, e a solidariedade só pode nascer do livre acordo, da harmonização espontânea e desejada de todos os interessados (...) Evidentemente, não queremos tocar sequer num fio de cabelo de ninguém, enxugando as lágrimas de todos, sem fazer verter nenhuma. Mas é necessário combater no mundo tal qual é, sob pena de permanecermos sonhadores estéreis (...) É por amor aos homens que somos revolucionários; não é nossa culpa se a história nos obriga a esta dolorosa necessidade.”

 

Quanto à questão religiosa, ainda uma vez, percebe-se na citação do revolucionário italiano que muitas das metas dos anarquistas são comuns às metas mais elevadas de correntes religiosas sérias como o cristianismo, por exemplo. Combatendo num tempo em que o dogmatismo religioso aliava-se ao Capital em prol da manutenção do statu quo ante, da “ordem”, socialistas autoritários (os que pregam a ditadura do partido único), assim como socialistas libertários, que propõem uma caminhada de lutas sem cessar rumo à anarquia, à sociedade ácrata, sem classes, não contemplando ditadura de qualquer natureza entre os dois instantes, estes socialistas todos, ao se contrapor ao dogmatismo religioso “pró-ordem”, acabam por criticar e propor mesmo a erradicação do fenômeno religioso in totum. No mundo atual, contudo, ao percebermos haver cientistas da área de humanas a fazer profissão de fé socialista, por vezes, caindo em outras formas de dogmatismo ainda mais nefandas que aquelas encontradas pelos primeiros socialistas nos religiosos de outros tempos, percebemos que o combate não é mais ao fenômeno religioso, mas ao dogmatismo, seja ele de que natureza for. Nossa perspectiva é aquela do humanismo radical, queremos a emancipação do homem de todos os entraves à sua liberdade, por conseguinte, à sua felicidade e saúde plenas. Hoje em dia encontramos entre os mais sérios e abnegados religiosos, homens de elevada fé e amor ao humano, grandes aliados à causa libertária. Roger Garaudy, por exemplo, em Apelo aos Vivos, Nova Fronteira, 1979, à pág. 248 coloca:

 

 

“Nossa longa busca através da sabedoria e do profetismo de três mundos revelou-nos que podemos viver de outro modo.

Viver de outro modo as relações com a natureza, quer dizer, as relações econômicas.

Viver de outro modo as relações do homem com a sociedade, quer dizer, as relações políticas.

Viver de outro modo as relações do homem consigo mesmo e com o divino, isto é, as relações da sabedoria e da fé.

Como conceber, realizar, nestes três níveis, o projeto necessário à sobrevivência da vida da espécie? O projeto é necessário para passar de um crescimento cego, sem finalidade humana e suicida para o mundo, a um desenvolvimento do homem e do desabrochar daquilo que nele é divino. Ele exige radical inversão em nossas relações com a natureza, com a sociedade, conosco mesmos e com o divino (...) Compreender a vida é, em primeiro lugar, percebê-la em sua unidade. Restaurar a unidade perdida no Ocidente entre o homem e a natureza, o senso da comunhão com o Todo. Tomar consciência de que pertencemo