Cultura Brasileira - 15 anos no ar! 1998 - 2013

 

O Apogeu do Império e o Rei Café (1850 – 1870)

 

 

          Café: base econômica do Segundo Reinado. A superação da crise regencial, a reorientação centralista e conservadora e a conseqüente estabilidade do Império a partir de 1850 encontram-se intimamente relacionadas à economia cafeeira.

          Como vimos, a estrutura econômica e social do Brasil não havia sido alterada com a emancipação política e continuava, em essência, tão colonial e escravista quanto fora durante o período colonial. Estruturada para a monocultura, a economia colonial e escravista no Brasil prosperou quando produziu uma mercadoria de grande aceitação no mercado europeu e, também, quando não era ameaçada pela concorrência. Assim aconteceu com o açúcar no passado e agora com o café, em meados do século XIX.

Desenvolvendo-se principalmente no sudeste (Rio, Minas e São Paulo), a cafeicultura forneceu uma sólida base econômica para o domínio dos grandes proprietários daquela região e favoreceu, enfim, a definitiva consolidação do Estado nacional.

 

Origem do café. A produção e o consumo do café tiveram origem entre os árabes, e esse produto era conhecido pelos europeus desde o século XVI. Seu consumo no Ocidente começou em Veneza, em meados do século XVII, difundindo-se rapidamente. A demanda do novo produto, daí em diante, só aumentou. Já no século XVIII sua produção tinha atingido as Antilhas e, no seguinte, o Brasil, onde em pouco tempo superou todas as culturas tradicionais.

 

Os investimentos iniciais. Tornando-se um novo e principal produto de exportação a partir do século XIX, o café ocupou, de início, regiões vizinhas da capital brasileira. - o Rio de Janeiro. Ali encontrou uma infra-estrutura já montada, reaproveitando a mão-de-obra escrava disponível em virtude da desagregação da economia mineira. Além disso, favoreceram enormemente a nova cultura. A abundância de animais de transporte (mulas) e a proximidade do porto, que facilitava o seu escoamento para o exterior. Portanto, sem grandes dificuldades, com os próprios recursos existentes e disponíveis, deu-se o impulso inicial à economia cafeeira.

 
 

 

 

              Comparação com a economia açucareira. O café não requeria grandes e vultosos investimentos, como a montagem do engenho. Eram necessários: tanques para a lavagem do grão depois da colheita, terreiro onde espalhar e secar o café e máquinas de decorticação, triagem, etc., que eram mais simples e de fabricação local. Portanto, nos seus primórdios, a cultura cafeeira baseava-se na utilização do fator terra e dependia do movimento da mão-de-obra. Como o cafezal é uma cultura perene, o cresci­mento da economia cafeeira dependia quase que exclusivamente do suprimento de escravos.

Outro aspecto diferenciava ainda a economia açucareira da cafeeira. Pelo fato de encontrar-se em plena vigência do regime colonial, a economia açucareira, desde a sua origem, caracterizou-se pelo divórcio entre as etapas da produção e da comercialização, sendo todas as de­cisões tomadas na última etapa - o comércio.

Dessa maneira, eram os comerciantes que se apropriavam da parte maior, permanecendo os senhores de engenho como seus sócios menores. Na economia cafeeira, a importância do comerciante continuou enorme e decisiva, mas o fato de ter se constituído nos quadros de um país politicamente emancipado deu ao produtor um espaço maior de liberdade e atuação. Segundo as palavras do economista Celso Furtado, “desde o começo, sua vanguarda [os cafeicultores] esteve formada por homens com experiência comercial. Em toda a etapa de gestação, os interesses da produção e do comércio estiveram entrelaçados. A nova classe dirigente formou-se numa luta que se estende em uma frente ampla: aquisição de terras, recrutamento de mão-de-obra, organização e direção da produção, transporte interno, comercialização nos portos, contatos oficiais, interferência na política econômica e financeira”.

 

A expansão cafeeira – Na primeira década do século XIX, a cultura cafeeira já havia atingido o Rio de janeiro, começando pelo litoral - Angra dos Reis e Parati -, em direção a São Paulo: Reis Caraguatatuba. Porém, foi no vale do Paraíba que o café prosperou.

 

O vale do Paraíba. A fixação do café no vale do Paraíba deveu-se às condições geográficas excepcionais: clima adequado, regularidade das chuvas, etc.

De 1830 a 1880, aproximadamente, toda a energia econômica voltou-se para o cultivo do café, que então era vendido, sem concorrência, ao mercado europeu em expansão. Tornou-se, por isso, o estabilizador da economia do Império, a ponto de se dizer, na época, que "o Brasil é o vale".

Entretanto, a economia cafeeira não alterou os quadros sociais herdados do passado colonial. Ao contrário, ela fortaleceu a escravidão, a grande propriedade, a monocultura e a produção voltada para o mercado externo. Como no passado, a cafeicultura caracterizou­se por ser uma cultura extensiva e predatória. Em conseqüência disso, o solo esgotou-se rapidamente no vale do Paraíba e a cultura cafeeira ali entrou em declínio.

 

O Oeste Paulista – A estagnação e decadência do vale do Paraíba não significou, contudo, a decadência da cafeicultura, que encontrou no Oeste paulista um novo alento. Seu núcleo inicial foi Campinas (Oeste velho), difundindo-se para Moji-Guaçu e chegando à região de Ribeirão Preto (Oeste novo) por volta de 1880. Em seguida, a cultura se expandiu para o extremo Oeste paulista e atingiu o Paraná já no início deste século.

 

Diferenças entre o vale do Paraíba e o Oeste paulista. Em termos topográficos havia diferenças significativas entre o vale e o Oeste paulista. Devido ao terreno acidentado, o plantio do café no vale do Paraíba era descontínuo, realizado nas encostas dos montes. Já no Oeste paulista, o plantio ocupava ininterruptamente vários quilômetros quadrados de solo excepcionalmente fértil: a terra roxa, oriunda da de­composição das rochas vulcânicas. Assim, embora o sistema de cultivo fosse o mesmo, a regularidade do relevo favorecia a melhor conservação do solo no Oeste paulista, assegurando por mais tempo a qualidade do café. A isso deve-se acrescentar que o escoamento do pro­duto era beneficiado por um custo menor, graças às redes viárias disponíveis.

O deslocamento do café para o Oeste paulista valorizou o porto de Santos; com a expansão do café para o interior, a partir de Campinas, tornou-se necessário solucionar a questão do transporte até o porto de Santos.

De início, utilizou-se o transporte animal. Porém, à medida que as distâncias aumenta­ram e o volume da safra se multiplicou, por iniciativa dos próprios cafeicultores as estradas de ferro foram sendo construídas: a São Paulo Railway, ligando Santos a Jundiaí (1868); a Ituana, ligando Itu a Campinas (1873); a Mogiana e a Sorocabana, que começaram a ser construídas em 1875.

 
 

 

A Modernização

         A dinamização da economia. Com o desenvolvimento da cafeicultura um novo equilíbrio foi estabelecido. Desde 1860, os superávits tornaram-se constantes nas relações comerciais com o exterior, ajustando novamente a economia brasileira ao mercado internacional.

         Em sua relação com o exterior, a tarifa Alves Branco (1844) representou uma mudança significativa, ao elevar os direitos alfandegários de 15% para 30%. Internamente, para o Estado, isso representou melhoria da arrecadação. A abolição do tráfico (1850), por sua vez, liberou capitais que foram redirecionados para a aplicação no mercado in­terno.

Assim, em contraste com o período anterior da Regência, bastante conturbado, teve início no Brasil uma nova era de relativa prosperidade. "Pode-se dizer", afirma o historiador Caio Prado Jr. , "que é nesta época que o Brasil tomará pela primeira vez conhecimento do que fosse o progresso moderno e uma certa riqueza e bem-estar material.”

A reunião de fatores favoráveis - tarifa Alves Branco, abolição do tráfico e ascensão do café - estimulou uma onda de empreendimentos urbanos: “fundaram se”, afirma o historiador Nelson Werneck Sodré, “62 empresas industriais, 14 bancos, 3 caixas econômicas, 20 companhias de navegação a vapor, 23 de seguros, 4 de colonização, 8 de mineração, 3 de transportes urbanos, 2 de gás, 8 estradas de ferro”.

Nesse surto de empreendimentos, destacou­se, quase como símbolo desse tempo, Irineu Evangelista de Sousa, barão de Mauá, pela ousa­dia de sua atuação. Como empresário, investiu nos mais variados setores da economia urbana: produção de navios a vapor, estradas de ferro, comunicações telegráficas, bancos, etc.

Apesar de ter iniciado a sua atividade comercial já na década de 1830, e ter criado o primeiro estaleiro da América do Sul por volta de 1846, a maioria de seus empreendimentos de grande envergadura concentraram-se na década de 1850. Porém, esses empreendimentos não tiveram continuidade e já se encontravam seriamente ameaçados em 1864, data em que ocorreu uma grave crise bancária. Finalmente Mauá faliu em 1873.

Leitura Indicada

 

Busca em todos os arquivos desta página:

© Copyleft "Cultura Brasileira" - no ar desde Fevereiro de 1998 - LCC Publicações Eletrônicas - Todo o conteúdo desta página pode ser distribuído EXCLUSIVAMENTE para fins não comerciais desde que  mantida a citação do Autor e  da fonte e esta nota seja incluída. Contato através do nosso Blog