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O Reto-Agir, Caminho da Sabedoria

"Bom é agir e bom é abster-se da atividade; tanto isto como aquilo conduz à meta suprema. Mas, para o principiante, bom é agir corretamente" Bhagavad Gita

    Estudar e respeitar todas as religiões, compreendendo-as como metáforas é altamente elucidativo, não sectário e confortador. Há tantos pontos comuns em tantas religiões do mundo... Saber que são diferentes é fácil. Basta conversar poucos minutos com qualquer seguidor de qualquer religião e se perceberão as diferenças. Mas chega um tempo em que nos cansamos de ver a moeda cair sempre com a "cara" para cima e decidimo-nos a virá-la para ver o outro lado. Surpresa: seja por difusionismo (um mito ou uma idéia se origina num ponto e vai se difundindo entre os povos), seja por considerações acerca do inconsciente coletivo junguiano, ficam claríssimos os pontos de contato entre todos os buscadores sinceros da verdade pelo mundo afora.

    Diz-se que Vyasa teve a idéia de deixar um relato escrito da criação do mundo até os seus dias. Assim nasceu o Mahabharata, do qual a Gita é um pequeno trecho - há em vídeo um magnífico filme do diretor britânico Peter Brook, de mesmo título do tradicional livro hindu, que é altamente recomendável a quem se interesse pelo tema.

    Na Obra, escrita alguns séculos antes do nascimento de Cristo, consta que a virgem Devaqui deu à luz uma criança divina, filho direto do deus Vishnu, a suprema divindade hindu que "encarna no mundo sempre que a justiça fraqueja e o Caos ameaça tomar conta de tudo". O jovem Krishna leva algum tempo para perceber quem ele realmente é, que é diferente dos demais e tem a divindade dentro de si mesmo. Muito recorrente, dentro da cultura hindu, por sinal, relatos de experiências usualmente traumáticas conducentes ao auto-conhecimento. O próprio Lênin gostava de relatar a tradicional historieta hindu do filhotinho de águia criado num galinheiro que, após muito ciscar e nutrir-se de minhocas, somente descobre quem ele realmente é quando um viajante o retira do cativeiro o arremessa-o de um despenhadeiro; a águia, já adulta, cacareja e, numa desesperada tentativa de sobrevivência abre as asas e voa, percebendo seu imenso poder. Acerca de Rosa Luxemburgo, Lênin contava esta historieta em suas exéquias dizendo ao cabo: "Uma águia pode descer até onde vivem as aves domésticas, mas as aves domésticas jamais poderão voar alto como as águias. E Rosa Vermelha foi uma águia entre aves domésticas."

    Algo similar se passa com Krishna, que é "morto" e jaz no fundo de uma lagoa quando a terra sacode e faz com que perceba quem ele é, filho da divindade suprema, imortal. Tão logo o percebe, derrota os anti-deuses do seu tempo e parte para a instrução de seu mais eminente discípulo, o príncipe Arjuna*. Este brevíssimo resumo da introdução daquela epopéia hindu, chega neste ponto à Bhagavad Gita, "Sublime Canção", um dos textos mais reverenciados na complexa teologia hindu.

    Pandu, o monarca, havia sido deposto pelos seus próprios parentes auxiliados por alguns amigos com quem Arjuna, o príncipe, havia passado praticamente toda a infância, adolescência e chegado à idade adulta. Deposto e obrigado a exilar-se com a família na floresta, ouve de longe histórias dando conta de que o reino estava entregue a cegos e estava em seu período mais escuro de existência. Neste momento Arjuna deve, sob a segura orientação e proteção da própria encarnação do deus supremo, Krishna, para restaurar a ordem e retirar o mundo do Caos, destruir os maus e tomar o poder.

    Arjuna, o guerreiro perfeito, amparado pelo deus supremo, sem a menor possibilidade de derrota, reluta: "Como posso matar meus tios, meus primos, meus amigos de infância? Que alegria me traria tal vitória? Melhor retirar-me e tornar-me um asceta!"

    Difícil decisão para o príncipe, reconheçamos, mas é facilmente solucionada por seu mais alto guru, Krishna. O reto-agir, diferente do agir mau ou mesmo da inação, ainda é o melhor caminho, ensina o Mestre, para se chegar à suprema iluminação. Dizem os que crêem em reencarnações que agir incorretamente traz enorme peso em termos de uma dívida que tem de ser saldada em outra existência em algum dos mundos possíveis, assim como que o reto-agir traz consigo compensações vantajosas para outras existências ou - caso se chegue à plena Iluminação - conduz ao paraíso! A isto os hindus chamam "carma". Muitos crentes desta fé optam pelo não-agir, a fim de não sobrecarregar o seu "carma" e que possam encarnar-se de maneira digna em outra vida. Krishna explica a Arjuna - e isto quando os dois portentosos exércitos estão face a face, prestes à luta! - que a ausência de ação ou o ascetismo a nada mais conduziria que à estagnação do processo evolutivo e do crescimento espiritual.

Krishna conduz o príncipe Arjuna, guerreiro perfeito, para a Batalha.

    Melhor é agir corretamente, mas, e é um mas de elevadíssimo peso, não devemos nos apegar aos frutos de nossa atividade. Todo o agir movido por interesse ou paixão egoística é um erro. Só o agir natural, correto, nos promove. Deve-se fazer como a Natureza ensina o tempo todo: as flores dão seu perfume, a terra dá a fertilidade, o sol brilha sobre justos e injustos, os pássaros cantam sem preocupar-se com aplausos ou apupos da platéia... Simplesmente vivem, fazem o que tem de ser feito. E a Natureza é tão sábia que "o que tem de ser feito" é claramente demonstrado a cada um de nós no momento certo. Deixar de fazê-lo, isso sim seria estagnar-se, seria enfim errar. Fazer o oposto do que a Natureza dita é ainda pior, é um grave retrocesso em nossa jornada.

    A única grande recomendação da sabedoria secular da Índia - que tem claros reflexos na teologia judaico-cristã posterior a ela - é a de agir simples e puramente de acordo com o que nos aconselha o coração. O que o nosso corpo pede, nosso corpo precisa (chamo a auxiliar-me neste arrazoado as mulheres grávidas, com seus desejos aparentemente inexplicáveis; alguma substância existente naquilo que a mulher deseja é necessária à criança embrionária, lógico!)

    Se ficarmos quietos alguns minutos antes de tomar alguma decisão solene e séria, se ouvirmos atentamente a voz do nosso coração, faremos o que tem de ser feito e estaremos no caminho certo. Como diz Renato Russo em uma de suas canções: "... mentir para si mesmo é sempre a pior mentira."

    Finalizando a história, Arjuna se decide a agir, ainda que precise usar de violência contra parentes e amigos para banir o Caos e recompor o equilíbrio no reino, o que realiza efetivamente com um poderoso exército e os "Pandava", filhos de Pandu, solares e luminosos, fazem-se reconduzir ao trono e governam com sabedoria e decência por muitos séculos.

 

 

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