Cultura Brasileira: no ar desde 1998

 

A Revolução Industrial

 

A substituição das ferramentas pelas máquinas, da energia humana pela energia motriz e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril constituiu a Revolução Industrial; revolução, em função do enorme impacto sobre a estrutura da sociedade, num processo de transformação acompanhado por notável evolução tecnológica.

             Convenciona-se chamar de "Revolução Industrial" um fenômeno de vertiginoso domínio humano sobre máquinas, bens materiais e seres humanos que teve início na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e encerrou a transição entre feudalismo e capitalismo, a fase de acumulação primitiva de capitais e de preponderância do capital mercantil sobre a produção. Completou ainda o movimento da revolução burguesa iniciada na Inglaterra no século XVII.

 

Etapas da industrialização

 

Tradicionalmente distinguem-se três períodos no processo de industrialização em escala mundial:

  1760 a 1850 – A Revolução se restringe à Inglaterra, a "oficina do mundo". Preponderam a produção de bens de consumo, especialmente têxteis, e a energia a vapor.

               1850 a 1900 – A Revolução espalha-se por Europa, América e Ásia: Bélgica, França, Ale­manha, Estados Unidos, Itália, Japão, Rússia. Cresce a concorrência, a indústria de bens de produção se desenvolve, as ferrovias se expandem; surgem novas formas de energia, como a hidrelétrica e a derivada do petróleo. O transporte também se revoluciona, com a invenção da locomotiva e do barco a vapor.  

              1900 até hoje – Surgem conglomerados industriais e multinacionais. A produção se automatiza; surge a produção em série; e explode a sociedade de consumo de massas, com a expansão dos meios de comunicação. Avançam a indústria química e eletrônica, a engenharia genética, a robótica.

              Com as transformações ocorridas na virada do século XX para o XXI, contudo, somos obrigados a acrescentar uma nova etapa, na qual o Capitalismo de Cassino dificulta o processo de industrialização por um lado e, por outro, reforça-o através da maior concentração de rendas de todo o período capitalista mundial.

Artesanato, manufatura e maquinofatura

 

O artesanato, primeira forma de produção industrial, surgiu em fins da Idade Média com o renascimento comercial e urbano e definia-se pela produção independente; o produtor possuía os meios de produção: instalações, ferramentas e matéria-prima. Em casa, sozinho ou com a família, o artesão realizava todas as etapas da produção.

A manufatura resultou da ampliação do consumo, que levou o artesão a aumentar a produção e o comerciante a dedicar-se à produção industrial. O manufatureiro distribuía a matéria-prima e o artesão trabalhava em casa, recebendo pagamento combinado. Esse comerciante passou a produzir. Primeiro, contratou artesãos para dar acabamento aos tecidos; depois, tingir; e tecer; e finalmente fiar. Surgiram fábricas, com assalariados, sem controle sobre o produto de seu trabalho. A produtividade aumentou por causa da divisão social, isto é, cada trabalhador realizava uma etapa da produção.

Na maquinofatura, o trabalhador estava submetido ao regime de funcionamento da máquina e à gerência direta do empresário. Foi nesta etapa que se consolidou a Revolução Industrial.

Em outras palavras, o capitalismo, que surge como um câncer entre os mercadores da baixa (final) Idade Média, atinge o seu apogeu com a consolidação da chamada Revolução Industrial que, desde então, é o modelo Fáustico que nos leva a, vertiginosamente, produzir máquinas idealmente cada vez melhores e produzir cada vez mais máquinas, sofisticadas e descartáveis para que o consumidor seja obrigado a descartar o velho produto e adquirir o mais recente em velocidade cada vez maior. Há estudos em curso acerca desta face DESTRUTIVA que o chamado progresso nos traz: o ser humano existe na face da Terra há cerca de 200.000 anos. Somente há pouco mais de 150 anos ingressamos no que Marshal Berman chama de "A Vertigem da Modernidade"

Tudo o Que é Sólido Desmancha no Ar - neste livro, o consagrado Autor Marshall Berman, debate o tema do surgimento e desdobramentos da chamada Revolução Industrial a partir de uma leitura interessante, romântica e cativante do "Fausto", de Goethe, outra Obra que recomendo, por sinal:

 

 

O pioneirismo inglês

 

Quatro elementos essenciais concorreram para a industrialização: capital, recursos naturais, mercado, transformação agrária, vamos ver isso de perto:

Na base do processo, está a Revolução Inglesa do século XVII. Depois de vencer a monarquia, a burguesia conquistou os mercados mundiais e transformou a estrutura agrária. Os ingleses avançaram sobre esses mercados por meios pacíficos ou militares. A hegemonia naval lhes dava o controle dos mares. Era o mercado que comandava o ritmo da produção, ao contrário do que aconteceria depois, nos países já industrializados, quando a produção criaria seu próprio mercado. A chegada dos Europeus ao continente que hoje chamamos "América" e aos volumosos saques de ouro, prata e outras riquezas dos nativos foi a principal fonte de capital para financiar a posterior industrialização da Inglaterra.

Além da riqueza amealhada através de saques aos povos nativos do Continente Americano, aos Africanso e Hindus, até a segunda metade do século XVIII, a grande indústria inglesa era a tecelagem de lã. Mas a primeira a mecanizar-se foi a do algodão, feito com matéria-prima colonial (Estados Unidos, Índia e Brasil). Tecido leve, ajustava-se aos mercados tropicais; 90% da produção ia para o exterior e isto representava metade de toda a exportação inglesa, portanto é possível perceber o papel determinante do mercado externo, principalmente colonial, como secundo fator preponderante na arrancada industrial da Inglaterra. As colônias "contribuíam" com matéria-prima, capitais e consumo.

Os capitais também vinham do tráfico de escravos e do comércio com metrópoles colonialistas, como Portugal. Provavelmente, metade do ouro brasileiro acabou no Banco da Inglaterra e financiou estradas, portos, canais. A disponibilidade de capital, associada a um sistema bancário eficiente, com mais de quatrocentos bancos em 1790, explica a baixa taxa de juros da época; isto é, havia dinheiro barato para os empresários.  Aqui fica ressaltada outra diferença de visão entre os primeiros mercadores e produtores industriais e os contemporâneos. Durante a Era do Capitalismo de Cassino em que vivemos neste século XXI, o "remédio" para todos os males da economia capitalista ("capitalismo" e "crise", não por acaso, são conceitos que andam sempre juntos) é o aumento de juros aliado ao aumento na arrecadação de impostos. Sem mais povos a globalizar fora da Europa, no mundo globalizado de hoje cada trabalhador é taxado violentamente para subvencionar a manutenção do enriquecimentos dos que vivem no topo da pirâmide social.

Depois de capital, recursos naturais e mercado, vamos ao quarto elemento essencial à industrialização, a transformação na estrutura agrária após a Revolução Inglesa. Com a gentry no poder, dispararam os cercamentos, autorizados pelo Parlamento. A divisão das terras coletivas beneficiou os grandes proprietários. As terras dos camponeses, os yeomen, foram reunidas num só lugar e eram tão poucas que não lhes garantiam a sobrevivência: eles se transformaram em proletários rurais; deixaram de ser ao mesmo tempo agricultores e artesãos, ou seja, com o roubo das terras camponesas perpetrado pelo governo britânico com a força da Legislação e da Polícia, não restou alternativa ao camponês exceto submeter-se às baixíssimas condições de vida ao redor das indústrias britânicas. Friedriech Engels elaborou um estudo detalhadíssimo sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra em função dos fatos narrados neste parágrafo. Um Clássico indispensável a quem deseja aprofundar-se no assunto:

Duas conseqüências se destacam: 1) diminuiu a oferta de trabalhadores na indústria doméstica rural, no momento em que o mercado ganhava impulso, tornando-se indispensável adotar nova forma de produção capaz de satisfazê-lo; 2) a proletarização abriu espaço para o investimento de capital na agricultura, do que resultaram a especialização da produção, o avanço técnico e o crescimento da produtividade de produtos agrícolas mais voltados a atender ao consumismo crescente. Quando possível, pois a Revolução Industrial se, por um lado, trouxe avanços técnicos na produção de bens cada vez mais sofisticados, por outro tornou cada vez mais difícil a vida cotidiana de pessoas que viviam do próprio trabalho, seja no campo, seja nas cidades. Difícil consumir os bens onerosos gerados pela indústria se a situação existencial (aquisição de alimentos, providência de moradia, tratamento médico, educação...) vem se tornando cada vez mais difícil.

Ainda assim, população cresceu e o mercado consumidor também; a sobra de mão-de-obra para os centros industriais fez com que o preço da carne humana, digo, da força de trabalho humana, na forma de salários, fosse cada vez mais aviltada. Um problema que vem se agravando espantosamente ao longo do último século e meio, com ênfase para a decadência brutal da Era do Capitalismo de Cassino do Século XX.

 
 

Mecanização da Produção 

As invenções não resultam de atos individuais ou do acaso, mas de problemas concretos colocados por e para homens práticos. O invento atende à necessidade social de um momento; do contrário, nasce morto. Leonardo Da Vinci, por exemplo, inventou (antes mesmo que inventassemum processo chamado de "patente") a máquina a vapor, o submarino, o helicóptero e várias outras "geringonças", como eram chamadas no século XVI, obras que encontraram meios de viabilização no século XVIII.

Para alguns historiadores, a Revolução Industrial começa em 1733 com a invenção da lançadeira volante ("flying shuttle", por John Kay. O instrumento, adaptado aos teares manuais, aumentou a capacidade de tecer; até ali, o tecelão só podia fazer um tecido da largura de seus braços. A invenção provocou desequilíbrio, pois começa­ram a faltar fios, produzidos na roca. Em 1767, James Hargreaves inventou a spinning jenny, que permitia ao artesão fiar de uma só vez até oitenta fios, mas eram finos e quebradiços. A water frame de Richard Arkwright, movida a água, era econômica mas produzia fios grossos. Em 1779, S Samuel Crompton combinou as duas máquinas numa só, a mule, conseguindo fios finos e resistentes. Mas agora sobravam fios, desequilíbrio corrigido em 1785, quando Edmond Cartwright inventou o tear mecânico.

A Lançadeira Volante ("Flying Shuttle"), criada por John Kay em 1733

 

Clique sobre a imagem para vê-la ampliada

O Tear Mecânico ("Power Loom"), criado por Edmond Cartwright em 1785

 

Cada problema surgido exigia nova invenção. Para mover o tear mecânico, era necessária uma energia motriz mais constante que a hidráulica, à base de rodas d’água. James Watt, aperfeiçoando a máquina a vapor, chegou à máquina de movimento duplo, com biela e manivela, que transformava o movimento linear do pistão em movimento circular, adaptando-se ao tear.

Para aumentar a resistência das máquinas, a madeira das peças foi substituída por metal, o que estimulou o avanço da siderurgia. Nos Estados Unidos, Eli Whitney inventou o descaroçador de algodão.

 

Revolução Social

 

A Revolução Industrial concentrou os trabalhadores em fábricas. O aspecto mais importante, que trouxe radical transformação no caráter do trabalho, foi esta separação: de um lado, capital e meios de produção (instalações, máquinas, matéria-prima); de outro, o trabalho. Os operários passaram a assalariados dos capitalistas (donos do capital).

Uma das primeiras manifestações da industrialização foi o crescimento demográfico urbano. Londres chegou ao milhão de habitantes em 1800. O progresso deslocou-se para o norte; centros como Manchester abrigavam massas de trabalhadores, em condições miseráveis. Os artesãos, acostumados a controlar o ritmo de seu trabalho, agora tinham de se submeter à disciplina da fábrica. Passaram a sofrer a concorrência de mulheres e crianças, a quem os industriais pagavam bem menos e obrigavam a trabalhar 12 a 18 horas por dia, durante os sete dias da semana. Na indústria têxtil do algodão, as mulheres formavam mais de metade da massa trabalhadora. Crianças começavam a trabalhar aos 6 anos de idade. Não havia garantia contra acidente nem indenização ou pagamento de dias para­dos neste caso.

A mecanização desqualificava o trabalho, o que tendia a reduzir o salário. Havia freqüentes paradas da produção, provocando desemprego. Nas novas condições, caíam os rendimentos, contribuindo para reduzir a média de vida. Uns se entregavam ao alcoolismo. Outros se rebelavam contra as máquinas e as fábricas, destruídas em Lancaster (1769) e em Lancashire (1779). Proprietários e governo organizaram uma defesa militar para proteger as empresas.

A situação difícil dos camponeses e artesãos, ainda por cima estimulados por idéias vindas da Revolução Francesa, levou as classes dominantes a criar a Lei Speenhamland, que garantia subsistência mínima ao homem incapaz de se sustentar por não ter trabalho. Um imposto pago por toda a comunidade custeava tais despesas. E ainda há quem pense que foi o Lula quem inventou o bolsa-esmola...

            Havia mais organização entre os trabalhadores especializados, como os penteadores de lã. Inicialmente, eles se cotizavam para pagar o enterro de associados; a associação passou a ter caráter reivindicatório. Assim surgiram as Trade Unions, os Sindicatos. Gradativamente, conquistaram a proibição do trabalho infantil, a limitação do trabalho feminino, o direito de greve...

              Pessoalmente estou 100% convencido que, se a Espécie Humana conseguir sobreviver apesar de a industrialização crescente, as guerras e o Capitalismo de Cassino estarem ameaçando a nossa Espécie, em 200 a 300 anos se falará em "Trabalho Assalariado" como hoje falamos em "Trabalho Escravo". Pode me cobrar!

Leia Ainda:

Lázaro Curvêlo Chaves

Texto revisado em 10 de novembro de 2014

 
 
 
 
 
Copyleft © LCC Publicações Eletrônicas Todo o conteúdo desta página pode ser copiado e divulgado para fins não comerciais. É educado sempre citar a fonte...