Cultura Brasileira - 15 anos no ar! 1998 - 2013

Revolução Neolítica

 

De caçador a criador, de coletor a agricultor.

 

Grupos humanos sofreram essa transformação em momentos diferentes, com intensidade diversa, em diferentes locais do mundo.

Até há pouco tempo, sob a influência do evolucionismo e de um marxismo mal digerido, descreviam-se essas passagens como necessárias e positivas. Hoje já se discute, sob a ótica da antropologia, se a felicidade de um grupo depende do gado confinado e da terra domada. Freqüentemente imaginamos ficar o homem mais tranqüilo por ter uma plantação que lhe pertença em contraste com o "selvagem coletor" que tem que sair "procurando" raízes ou frutos. Na verdade, é de se acreditar que, na cabeça do coletor, raízes e frutas lá estão para serem colhidas e não como um acidente, uma eventualidade. O domínio que os coletores tinham do seu ambiente lhes dava um grau de segurança bastante grande para saberem, em determinadas épocas do ano, quais os locais que ofereciam determinados alimentos.

Autores como Pierre Clastres chamam a atenção para mitos que tomaram corpo pela repetição e não pela evidência. Um deles é o de que, necessariamente, a coleta e a caça seriam atividades primitivas porque inseguras, enquanto a agricultura e a criação engendrariam forte sentimento de segurança material. Como todas as falácias, esta é uma meia verdade, uma vez que a agricultura, enquanto atividade do homem na tentativa de submeter a natureza, corre riscos naturais como secas, pragas e enchentes. Por se constituir em riqueza concentrada, a agricultura atraía a cobiça de vizinhos mais preocupados em atividades de guerra do que de organização agrícola. Já um grupo de coletores vivendo em simbiose com a natureza - ou em parasitos e, como diria algum aluno maldoso - poderia ter uma certeza até maior de sua sobrevivência.

O que estamos questionando - fique bem claro - é o caráter necessário e positivo da passagem de um tipo de organização social "primitivo" para outro tipo de organização social mais evoluído. Parece que essas transformações ocorrem em situações concretas que precisam ser estudadas particularmente.

Não está em discussão - porque é uma evidência - a importância, o significado histórico das transições, onde elas de fato ocorreram. O que não se pode é, simplesmente, atribuir ao "primitivismo" de um grupo, a seu caráter de "pré-civilizado", a nãoocorrência da passagem de coletor a agricultor.

 

 

A revolução agrícola

 

Pelos conhecimentos atuais supõe-se que a primeira atividade agrícola tenha ocorrido na região de Jericó, na Cisjordânia (hoje sob a tutela de Israel), num grande oásis junto ao mar Morto, há cerca de 10 mil anos. A crença no Egito como berço da agricultura já não tem tantos seguidores. A dificuldade em estabelecer uma certeza a este respeito decorre da inexistência de documentação indiscutível: os trigais desaparecem com o tempo. Só através de comprovações indiretas - ruínas arqueológicas de silos, onde os cereais eram armazenados - é que se pode tentar datar o início de uma atividade agrícola sistemática.

De qualquer forma, através de difusão ou de movimentos independentes, supõe-se que o fenômeno tenha surgido também na índia (há 8 mil anos), na China (7 mil), na Europa (6.500), na África Tropical (5 mil) e nas Américas (4.500).

Os produtos cultivados variavam de região para região, com a natural predominância de espécies nativas, como os cereais (trigo e cevada), o milho, raízes (batata-doce e mandioca) e o arroz, principalmente. Uma vez iniciada a atividade, o homem foi aprendendo a selecionar as melhores plantas para a semeadura e a promover o enxerto de variedades, de modo a produzir grãos maiores e mais nutritivos do que os selvagens.

Por que se fala em revolução agrícola? Porque o impacto da nova atividade na história do homem foi enorme. E não se trata apenas de mera questão acadêmica, mas de algo muito real e palpável como o próprio número de seres humanos sobre a face da Terra.

De fato, nos sistemas de caça e coleta estabelece-se um controle demográfico resultante da limitação da oferta de alimentos. Não é devido a que não existam alimentos na natureza, mas devi

do a que sua obtenção torna-se extremamente mais complicada para grandes grupos (como já vimos em capítulo anterior).

Além disso, o caçador e o coletor não podem chegar ao extremo de dizimar suas reservas alimentares (animal ou vegetal) sob pena de prejudicar a reposição ou reprodução; a técnica de caça sendo levada para além de certos limites pode criar um desequilíbrio ambiental. Nós, "civilizados", sabemos disso, pois já conseguimos destruir raças e espécies inteiras de animais, graças a técnicas sofisticadas de caça. Viver em simbiose com a natureza significa, exatamente, respeitá-la.

Há um outro fator que determinava o controle populacional: em grupos de caçadores e coletores, crianças pequenas constituem empecilhos tanto para a fácil locomoção da tribo (que precisa, como já vimos, ter grande mobilidade) como para a própria obtenção do alimento. Elas não podiam caçar e atrapalhavam as mães nas longas caminhadas que precisavam ser feitas para a busca de raízes, caminhadas tanto maiores quanto maior fosse o grupo e mais tempo estivesse acampado no mesmo local.

 

 

A “primeira explosão demográfica”

 

Já na agricultura, a coisa mudava de figura. Mesmo quando transumante, o grupo agrícola tinha que se fixar num local o tempo suficiente para que sua plantação produzisse ao menos uma vez. A área plantada ficava bem próxima ao acampamento, propiciando trabalho com menos locomoção por parte das mulheres. De resto, crianças relativamente pequenas eram utilizadas pelo grupo de maneira a se constituírem em força de trabalho. Locomovendo-se menos, usando as crianças para a agricultura e não tendo limites tão rígidos no suprimento alimentar, os homens passam a se reproduzir mais, causando um crescimento demográfico notável.

Com o advento da agricultura, os grupos podem ser maiores, desde que dentro de limites estabelecidos pela fertilidade do solo, quantidade de terra disponível e estrutura organizacional da tribo. Quando o crescimento do grupo entrava em contradição com qualquer um desses fatores, ocorria uma cissiparidade, procurando a tribo derivada - e às vezes até a de origem - outro local. Este processo intenso de subdivisões e deslocamentos iria provocar uma onda de difusão da agricultura e da atividade pastoril.

Acredita-se, portanto, que durante muito tempo a atividade agrícola não fixou em definitivo o homem ao solo; apenas o deixou mais sedentário do que quando coletor e caçador.

A transumância foi uma característica importante do início da revolução agrícola. E, por conseqüência, a difusão cultural também caracterizou essa revolução: podemos imaginar inúmeros grupos reproduzindo-se e subdividindo-se, plantando e criando, invadindo espaços de caçadores e coletores, convivendo entre si ou em guerras, ou ensinando e submetendo os habitantes da região ocupada.

Não se pode pensar em agricultores "respeitando" a cultura de coletores, aceitando seu próprio desenvolvimento sócio-econômico, aguardando que o crescimento de suas forças produtivas os levasse a se tornarem também plantadores e criadores... Como toda grande revolução da humanidade, esta também teve seus arautos e corifeus, bem como sua massa de cooptados e subjugados.

A revolução agrícola torna-se quase irresistível. Seu avanço, a partir de poucos focos difusores, atinge áreas cada vez mais extensas, cercadas por contornos marginais, como diz Darcy Ribeiro. Esses contornos vão diminuindo a ponto de se tornarem simples pontos esquecidos pelo avanço da História.

Isso é bom? Isso é mau?

O fato é que a revolução agrícola paulatinamente destrói formas de existência anteriores, e os povos que se mantêm coletores são poucos e facilmente assimiláveis às idéias da revolução, quando atingidos.

Começa a “criação”

 

O homem aprendeu antes a plantar, a domesticar os animais e criá-los, ou ambas atividades surgiram de maneira simultânea? Fazemos parte da corrente que acredita ter a agricultura precedido à criação. Ainda hoje há tribos de agricultores que não possuem animais domésticos e temos registro de grupos que aliavam a agricultura à caça, enquanto não se tem notícia de criadores que desconheçam a atividade agrícola.

Gordon Childe imagina ter se iniciado a criação a partir de alguma seca prolongada no Oriente Médio. Assim, animais que viviam adequadamente com uma baixa precipitação de chuva teriam ficado em situação desesperada, sem água, tendo a necessidade de procurar um oásis em busca de algum alimento ou líquido. Lá já estariam os animais predatórios - em busca de água e caça - e o próprio homem. Sendo o homem agricultor, é possível imaginá-lo permitindo que os animais pastassem em seus campos já colhidos e se alimentassem das hastes de cereais que ficavam no chão. Fracos demais para fugir e magros demais para servirem de alimento, carneiros e bois instalavam-se e eram aceitos pelos homens que teriam estudado seus hábitos, expulsando leões e lobos e eventualmente até lhes oferecendo alguma sobra de cereal como alimente complementar.

Em troca, os animais teriam sido domesticados, habituandose à presença do homem, confiando nele (no que cometeram um evidente erro de avaliação)...

O gado confinado funcionava como uma reserva de caça, no início. Aos poucos o homem teria estabelecido critérios no abate dos animais. Sem alarde, teria passado a abater apenas o necessário à sua alimentação. Preservando os mais dóceis e matando os não-domesticáveis, ia promovendo uma criação seletiva.

Ao chegar novamente o momento de plantar, alguns agricultores teriam simplesmente expulsado os animais. Outros, porém, já conhecendo seus hábitos, levavam-nos a locais onde havia abundância de água e alimentos, impedindo o ataque de animais selvagens, deixando-os tranqüilos com relação à suasobrevivência. Assim, aos poucos, o rebanho teria passado a ser não apenas domesticado, mas verdadeiramente dependente do homem.

Em alguns casos esse processo não teria dado certo porque o animal escolhido não seria domesticável, pela sua própria natureza. Mas em outros, o sistema teria se aperfeiçoado a ponto de mostrar ao homem outras vantagens da criação entre as quais o esterco, que ele havia aprendido a utilizar para adubar seus campos e conseguir maior produtividade; e ainda o leite, transformado num alimento muito importante, com a grande vantagem de não exigir a morte do animal.

Mais tarde, o couro passa a ter grande importância em alguns grupos e o pêlo de algumas espécies, como a ovelha, passa a desempenhar significativo papel na economia de vários grupos.

Em alguns casos a criação continua sendo atividade complementar: pequeno número de animais, alimentados por pastos naturais em volta do aldeamento e por restos de colheita em diferentes épocas do ano. Com jovens não muito úteis para outras atividades atuando como pastores, a vida econômica do grupo não sofre muitas alterações, continuando baseada na atividade agrícola organizada.

Poderia ocorrer, entretanto, o crescimento do rebanho, exigindo algumas definições. Nesse caso seria necessário promover o desmatamento de uma área, transformando mato e floresta em pasto.

Eventualmente, seriam plantadas determinadas espécies exclusivamente para alimentar o gado. Poderia ocorrer também uma migração de parte da população, atrás do gado que caminhava em busca de pastos verdejantes. Em alguns lugares uma pequena fração da comunidade migra, mas em outros a maior parte da população acompanha o gado, o qual deixa de ser uma atividade complementar, tornando-se a mais importante base econômica do grupo. É provável que esta tenha sido a origem de tribos e povos criadores.

O fato de a criação ter existido ou existir quase como atividade única em povos da Arábia ou da Ásia Central não significa, portanto, que eles não tenham passado pela revolução agrícola antes do início de sua atual atividade pastoril.

De qualquer forma, é difícil estimar a data do início de sua atual economia. Vasilhas de couro em vez de potes de cerâmica e tendas de couro em vez de paredes de alvenaria não deixam resquícios que possam fornecer base aos arqueólogos. Vale, nesse caso, a capacidade de dedução a partir de casos semelhantes. E, Dor que não, uma boa dose de imaginação.

 

 

Existiria uma “cultura neolítica”?

 

Não se deve pensar que a passagem da atividade coletora para a agrícola tenha-se dado de uma maneira brusca ou através de um toque de mágica. Deu-se, antes, através de um longo processo que inclui cuidadosa percepção dos fenômenos naturais, elaboração de teoria causa/efeito e doses de acidentalidade. Um grão caído na terra começa a germinar e é observado em seu crescimento por algumas mulheres que estão coletando na área: aí temos, provavelmente, a base da transformação.

Que essa transformação teria sido lenta, não se duvida. Afinal, entre saber que os vegetais crescem se plantados, e conseguir organizar uma plantação racional e rentável, existe uma longa distância que passa pela necessidade de alteração de padrões de comportamento já arraigados. A convivência da agricultura com a coleta deve ter sido o fenômeno mais comum durante muito tempo.

O fato é que a economia simples de produção de alimentos provocará grande transformação no grupo. Pela primeira vez haverá um excedente a ser armazenado. Isto não decorre da vontade manifesta dos membros do grupo ou de algum sentimento de usura, mas da própria realidade ditada pela natureza: os grãos produzidos ficam maduros de uma só vez numa certa época e não ao longo do ano. Entretanto, deverão ser consumidos lentamente, em refeições distribuídas pelo ano todo. Além disso, parte da colheita deverá servir de semente na próxima semeadura. O grupo precisa mudar sua atitude com relação ao alimento: começa a planejar e a poupar; começa também a construir silos, depósitos adequados para armazenamento dos grãos.

Entre as construções mais antigas que sobreviveram até hoje estão os silos de Faium, no Egito, e Jericó, na Cisjordânia, comprovando uma mudança na organização econômica e na mentalidade dos grupos neolíticos.

A produção de um excedente agrícola, somada à atividade criadora (que, no fundo, representa a produção de um excedente de carne), servirá para atender às necessidades da comunidade em períodos mais duros, propiciando o crescimento da população e o surgimento posterior de um comércio incipiente. Mas isto só virá depois. De início a comunidade é auto-suficiente, uma vez que coleta ou produz todo o alimento de que necessita, utiliza matérias-primas da região para os equipamentos necessários (madeira e palha, argila e pedra, ossos e chifres) e fabrica suas próprias ferramentas e utensílios.

Independência econômica não pode ser confundida com isolamento. Contatos entre tribos neolíticas deveriam ser freqüentes e até amistosos. Encontros de pastores nos pastos e de agricultores nos oásis ocorreram muito, sem contudo transformarem-se em integração política. Trocas eventuais de produtos excedentes não alteram á estrutura dos grupos.

Por isso mesmo,-dificilmente poder-se-ia falar em uma cultura neolítica 'comum a todos os povos do período. Cada grupo, a partir do número de seus membros, condições geoclimáticas, fauna e flora naturais, matéria-prima disponível; além de outros fatores, estabelecia sua especificidade cultural concretamente construída. Sua diversidade era tão grande quanto a variedade dos territórios ocupados.

Só um evolucionista fanático e obtuso poderia imaginar realidades culturais idênticas a partir de vivências tão distintas. Se na Europa Ocidental a agricultura nômade foi predominante, em Creta e na Tessália mesmo os aldeamentos mais antigos parecem ter sido permanentes. Alguns grupos tinham na caça uma atividade central, outros na criação, enquanto para terceiros a carne era desprezível como alimento. As mesmas diferenças se estabeleciam no que se refere ao tipo de cereal predominante, à característica do artesanato, às práticas e rituais, e assim por diante.

Assim, em vez de cultura neolítica, seria mais correto referir-se às culturas neolíticas, no plural.

Da divisão sexual de tarefas

 

Nos grupos precedentes à revolução agrícola já havia uma divisão sexual de tarefas: ao homem cabia a caça e a preparação de todo o equipamento para a atividade, enquanto a mulher era a coletora e a responsável pela educação dos filhos. Com as mudanças ocorridas com a agricultura, o homem passa a derrubar os bosques e preparar a terra para a lavoura, enquanto a rotina da lavoura fica nas mãos das mulheres. São elas que cuidam da casa, das crianças, da comida e da colheita, submetidas à rotina massacrante dos dias iguais, que tolhem a criatividade e reduzem a imaginação ao horizonte de suas vidas.

O homem não é o principal produtor. De resto já não o era antes. Vimos que a atividade de coleta propiciava mais alimentos ao grupo que a caça, na maioria das vezes. O homem mantinha sua importância pelo significado que a carne tinha, pela sua relativa raridade até. De uma forma ou de outra, o homem era quem trazia alimentos para casa. Já nas sociedades agrícolas, a mulher era quem semeava, colhia e preparava os alimentos, ficando os homens fora da produção direta.

Então, como é que eles mantinham sua dominação sobre as mulheres? Através de mitos, ritos e instituições que institucionalizam seu poder virtualmente ameaçado. Por meio de crenças e cultos perpetua-se uma precedência social que já não corresponde ao papel masculino na nova economia dos povos agrícolas. Força física para dissuadir e manipulação do sistema ideológico para manter e reproduzir o poder foram armas do homem nas comunidades agrícolas.

Nas sociedades pastoris a dominação não precisava dessas sofisticações, uma vez que os homens desempenhavam relevante papel no sistema produtivo. Como resultado, a mulher ficava numa atitude mais submissa ainda.

A força do homem, que lhe dá condições melhores de guerrear - atividade freqüente no Neolítico -, faz com que sua precedência sobre a mulher se amplie. A diferença entre os sexos tem uma origem biológica, mas vai adquirindo uma explicação histórica. Simone de Beauvoir costumava dizer que ninguém nasce mulher, mas se transforma em mulher.

Ela não nega, é claro, que alguns seres humanos venham ao mundo com características físicas diferentes de outros. É evidente que há a mulher objetiva, aquela que é mais fraca que o homem, que fica menstruada, que engravida, que dá à luz, que amamenta. Mas, se nessas características podem estar plantadas as origens da diferença, esta se materializa na História, isto é, na prática cotidiana e nos valores cristalizados, nos estereótipos e na manipulação do ideológico. Valorizar a carne sobre o cereal, a derrubada da mata sobre o cultivo contínuo, resulta em sacerdotes masculinos e deuses executivos machos assessorados por belas (e necessariamente puras) sacerdotisas.

A reprodução da desigualdade (qualquer que seja) continuará ocorrendo enquanto houver dominadores interessados e dominados conformados e/ou ignorantes.

A sociedade neolítica estabelecia divisão de tarefas e não de trabalho, a chefia era um ônus e não privilégio, não havia extração de mais-valia. Mas, entre os iguais, os homens eram um pouco mais-iguais que as mulheres.

 

O Surgimento das Cidades

 

 

A vida nas grandes cidades modernas estabelece urna distância enorme entres seus habitantes e a natureza. É comum as professoras darem às crianças da pré-escola um grão de feijão deitado sobre um pedaço de algodão molhado para que o aluno tenha ao menos uma idéia sabre o ciclo de vida vegetal: de outra forma, eles poderiam pensar que vegetais são fabricados em sacos plásticos ou caixas de cores atraentes. O fato e que o habitante de uma cidade recebe sua formação em função do mundo que o espera, e não de uma ligação com a natureza orgânica.

Despreparado, é candidato à morte por inanição se se, perde num bosque não muito distante de casa: não reconhece árvores frutíferas e raízes que podem servir de alimento; é incapaz de matar pequenos animais improvisando armas; não sabe tecer com fibras de piteiras e palmeiras uma proteção adequada; e sem instrumentos industriais, perde o senso de localização, não encontrando o caminho de volta.

Há toda uma sabedoria desenvolvida ao 'longo de milênios, que nós, urbanos, jogamos fora pela janela do nosso confortável apartamento. A natureza foi dominada pelos humanos como grupo, não enquanto indivíduos isolados. O poder que sentimos enquanto reis dos animais nos dá a falsa sensação de que cada um de nós é capaz de perpetrar as proezas que apenas alguns conseguem realizar.

Como, por exemplo, sobreviver num bosque.

Urbanos por excelência, somos é dependentes. Dependemos do agricultor que planta e do bóia-fria que colhe; do engenheiro que projeta, do operário que fabrica e do comerciante que vende; dependemos da prospecção de petróleo no Golfo Pérsico, da água

domada em Itaipu, da lenha das florestas dizimadas pelo país todo. Nossas pernas são as rodas dos ônibus e dos trens, nossos olhos são  vídeo da televisão, nosso horizonte são os postais que amigos nos impingem após suas viagens pasteurizadas. Por tudo isso, quando falamos de revolução urbana, não se pense em cidades como as nossas nem em homens com valores semelhantes aos que nós desenvolvemos aqui.

 

 

Por que surgem as cidades?

 

Antes de tudo, evitemos os sonhos. Não há como idealizar os homens conscientemente, decidindo-se a fundar uma cidade. Não há consciência individual ou de grupo que tenha levado pessoas a plantar os alicerces de agrupamentos urbanos no Egito ou na Mesopotâmia, qual bandeirantes avant la lettre que, á partir de modelos e dentro de objetivos bem determinados, criavam as bases de futuras cidades pelo interior do Brasil.

Há 5 ou 6 mil anos não havia referências ou parâmetros, e a organização das cidades decorre de uma série de circunstâncias sociais tão complexas que até hoje não há unanimidade entre os pesquisadores a respeito do tema.

Veja-se, por exemplo, a primeira questão: o porquê. Childe fala de uma revolução que "transformou pequenas aldeias de agricultores auto-suficientes em cidades populosas". Passa-nos a nítida impressão de que, após organizar-se sedentariamente como agricultor, atingindo a auto-suficiência e administrando o excedente, o passo seguinte torna-se natural e de fato ocorre: a urbanização.

De resto, os locais aparentemente coincidem: a agricultura inicia-se no Oriente Próximo, a urbanização também. Mais exatamente, falamos de Crescente Fértil (vide mapa) como local de onde as revoluções agrícola e urbana teriam se realizado. Assunto resolvido, portanto? Não. Se houvesse uma relação mecânica entre uma revolução e outra, por que a organização não terá ocorrido com todos os produtores de alimento do Crescente Fértil? Qual é o motivo pelo qual em alguns lugares as aldeias se transformam em cidades, e noutros elas continuam no mesmo estado durante séculos (e até milênios) ? O que fez com que a urbanização tenha sido um privilégio, ao menos inicial, do sul da Mesopotâmia e do Vale do Nilo?

Braidwood arrisca uma engenhosa hipótese para explicar a questão. Para ele, as encostas das montanhas e os vales podem ser cultivados sem grande dificuldade. No caso da Síria e da Palestina, há que se considerar a terra fértil e a chuva de inverno como elementos favoráveis ao plantio, e as montanhas razoávelmente verdejantes como local adequado ao pastoreio. Um local “feito sob encomenda para agricultores principiantes” que poderiam “levar uma vida aprazível, sem muito trabalho”. A extensão larga de terras permitiria ainda pequenos deslocamentos por parte dos grupos por ocasião do esgotamento do solo.

Já no sul do Egito e da Mesopotâmia, as condições geoclimáticas eram (e continuam sendo) bastante: diferentes. A chuva, nesses locais, é praticamente inexistente. A fertilidade da terra, após as cheias, é excelente. Mas, para ela ser utilizada pela agricultura, de forma sistemática, os rios precisam ser domados.

No alto, Ziggúrat de Ur, na Mesopotâmia. Uma foto das escavações realizadas no lugar; embaixo, uma reconstituição provável da construção, podendo-se notar o templo no alto da edificação.

Tome-se o Nilo, por exemplo. Por responsabilidade de Heródoto, quase todos os manuais repetem ser o Egito uma dádiva do Nilo. De fato, o rio, anualmente, em fins de setembro, começo de outubro, inundava suas margens, depositando nelas vivificante camada de solo novo, rico em matéria orgânica. Junto com os benefícios que trazia, a cheiaa criava pântanos e infestava as margens de crocodilos. Era necessário construírem-se diques e reservatórios pára controlar a água, soltando-a lenta e adequadamente, de modo a não encharcar em excesso após as cheias nem permitir que a terra gretasse vários meses depois.

Com o Tigre e o Eufrates, na Mesopotâmia, o processo era diferente, mas caminhava na mesma direção. Lá, por causa de irregularidade do degelo nas vertentes, as cheias eram surpreendentes e intempestivas, às vezes destruidoras. A extrema  fertilidade das terras às suas margens (pelo menos ao sul de Bagdá) requeria uma defesa contra a imprevisibilidade dos rios, o que era obtido através da construção de valas que conduziam as águas para onde fosse necessário, graças à topografia plana e aos canais e braços naturais.

No Egito e na Mesopotâmia havia, portanto, condições altamente favoráveis à agricultura, condições estas, entretanto, que precisavam ser aproveitadas através de um trabalho sistemático, organizado e de grande envergadura. Talvez por isso é que a urbanização tenha se desenvolvido antes aí e não na Palestina, Síria ou Irã.

A necessidade é a mãe das invenções. Nos vales e encostas férteis e relativamente chuvosos, a vida corria normalmente e as pessoas não precisavam tornar mais complexas suas relações de trabalho. Mas construir diques, cavar valetas, estabelecer regras sobre a utilização da água (para que quem tivesse terras perto dos diques não fosse o único beneficiário), significava controlar o rio, fazê-lo trabalhar para a comunidade.

Claro que isso demandava trabalho e organização. Mas o resultado foi fertilidade para a terra e alimento abundante para os homens.

Esta foi a base das primeiras civilizações.

 

 

Urbanização e civilização

 

 

Durante muito tempo, e por inspiração dos filósofos racionalistas do século XVIII, a palavra civilização significou um conjunto de instituições capazes de instaurar a ordem, a paz e a felicidade favorecendo o progresso intelectual e moral da humanidade.

Dessa forma como já vimos na introdução haveria um corte nítido entre pré-civilizados e civilizados, sendo que os primeiros, por terem comportamento muito distinto do nosso enquanto ocidentais e europeus seriam uma espécie de homens inferiores criando sociedades primitivas e à margem da lei.

Com medo de limitarmos a denominação a apenas meia dúzia de povos que tiveram influência na formação do mundo ocidental caímos às vezes no extremo oposto: atribuímos a qualquer pequeno grupo de indivíduos capazes de amassar o barro e construir palhoças o título de civilização.

O importante é despir essa palavra de conotações valorativas. Evitando isso, poderemos estabelecer com maior facilidade e precisão as características que definem uma civilização.

Já ficou claro em páginas anteriores, que civilização não é um elogio e pré-civilizados não pode ser tomado como ofensa. Mas temos que caracterizar a civilização com parâmetros objetivos para não fazermos demagogia dificultando mais ainda a compreensão do processo histórico.

Uma civilização, via de regra, implica uma organização política formal com regras estabelecidas para governantes e governados mesmo que autoritários e injustos); implica projetos a projetos amplos que demandem trabalho conjunto e administração centralizada como canais de irrigação, gr andes templos, pirâmides, portos etc.); implica a criação de um corpo de sustentação do poder como a burocracia de funcionários públicos ligados ao poder central militares etc. ; implica a incorporação das crenças por uma religião vinculada ao poder central, direta ou indiretamente os sacerdotes egípcios, o templo de Jerusalém etc.); implica uma produção artística que tenha sobrevivido ao tempo e

ainda nos encante (o passado não existe em si, senão pelo fato de nós o reconstruirmos); implica a criação ou incorporação de um sistema de escrita os fincas não preenchem esse quesito e nem por isso deixam de ser civilizados ; implica finalmente, mas não por último, a criação de cidades.

De fato sem cidades não há civilização.

As grandes descobertas e invenções do Neolítico seriam apenas comodidades se não provocassem, através e por causa daurbanização, uma significativa mudança sócio-econômica.

A roda, a metalurgia, o carro de bois, o animal de tração, o barco a vela tiveram seu caráter. transformador; por se integrarem a uma nova organização social propiciada pela urbanização.

Nas inúmeras aldeias espalhadas pelo Crescente Fértil não havia necessidade de levar os inventos e as descobertas até a sua

utilização máxima. Já no sul da Mesopotâmia e do Egito tudo foi utilizado para que o homem pudesse enfrentar e dominar a natureza.

Isto significa grande número de pessoas atuando de forma organizada, através da incorporação de conhecimentos sociais e sob uma liderança que vai se estabelecendo e adquirindo legitimidade.

Há aí uma relação dialética: invenções e descobertas são pré-condições para a organização social do tipo urbano, que por seu lado provoca novas descobertas, através do processo de exploração e adequação ao meio ambiente.

A cidade não apenas decorre de um determinado grau de desenvolvimento das técnicas e do conhecimento humano, em geral. Ela também impele a espécie humana a crescer.

Do caos à cidade

 

Há, na Bíblia, logo no início do Livro do Gênesis, a descrição de como Deus criou os céus e a terra, a partir do caos. Hoje em dia sabemos que muito do que lemos nos primeiros livros bíblicos são adaptações de mitos criados a partir do mundo concreto em que os sumérios e outros povos mesopotâmicos viviam, já que os hebreus constituíam um povo semita de origem mesopotâmica.

Childe acha que esse caos bíblico que culminou com a se paração entre céu e terra não era senão o caos mesopotâmico onde água e terra não tinham separação definida, onde pântanos cobertos de juncos entremeados de tamareiras e de animais anfíbios não eram terra nem água.

Aqui, contudo, não foi nenhum deus quem provocou a separação das partes: foi o homem, abrindo canais para irrigar os campos e secar os pântanos; construindo plataformas para proteger homens e gado das enchentes; dominando a água por meio de diques e definindo a terra no meio dos juncos.

Criando, do caos, a terra e a água.

Como deus.

A recompensa terra para lavrar, água para irrigar, tâmaras para colher e pastos para a criação fixou o homem à terra.

A partir do primeiro montículo de terra fértil conquistado ao caos, mais terra foi sendo liberada pelo homem, com a disseminação de canais ampliados e o crescimento do agrupamento humano.

Nenhum homem, por mais poderoso que fosse, e nenhuma família Por mais numerosa que fosse, poderiam dominar sozinhos esse ambiente. Era um trabalho de grupo que exigia estoques de alimento para liberar muitos indivíduos para a tarefa coletiva, pois estes, enquanto realizavam tais obras, não produziam iam diretamente seus alimentos. Quanto maior o pedaço de terra a ser resgatado ao caos, maior numero de trabalhadores tinham que ser requisitados e mais comida tinha que ser colocada à disposição deles.

É evidente que alimento excedente em quantidade crescente exige quantidade crescente de força de trabalho concentrada e organização social mais complexa.

É o caminho do caos à cidade.

 

Cidade e poder

 

 

            Na aldeia de terras férteis do Neolítico, o indivíduo isolado ou em grupo familiar tinha mais poder do que nos primeiros agrupamentos que se constituíam no sul do Egito e da Mesopotâmia. Lá ele podia se desgarrar do grupo para exercer sua atividade de lavrador e de criador, com possibilidade de sucesso.

Aqui tinha que fazer parte do grupo maior, elemento da engrenagem que era: o grupo dependia dele e ele dependia do grupo. Colocar-se a margem da comunidade era colocar-se a margem da terra resgatada aos pântanos e da água canalizada. A sociedade que premiava o membro que demonstrava bom comportamento, punia aquele que falhava através de sanções que o condenavam a viver fora da estrutura de produção.

Quando o líder exigia o trabalho de alguém fazia-o em nome do grupo, que o apoiava: a solidariedade social podia ser imposta.

O próprio espírito de aventura encontrava limites bem estabelecidos: quando alem do oásis (no caso do Egito) ou da terra firme e fértil (na Mesopotâmia) havia apenas deserto ou caos, o jovem tinha mais razões para se conformar e desenvolver um comportamento de bom menino.

O rei por tudo isso, investia-se do poder moral, que era outorgado pelo interesse do grupo, e do Poder de coação, podendo aplicar sanções a preguiçosos, marginais ou descontentes em geral. Tratava-se de opor o interesse geral ao particular, e o resto não contava.

Ricos no que se refere à fertilidade das terras, os mesopotâmios e os egípcios eram muito pobres em matérias-primas, algumas delas essenciais. O vale do Nilo não tinha madeira para construção, nem pedras ou minérios. A Suméria não estava em situação melhor.

Com as obras hidráulicas os egípcios e os sumérios desenvolveram um comércio destinado a suprir suas terras das matérias-primas fundamentais. Forma-se então um grupo de comerciantes, de trabalhadores em transportes e de artesãos para trabalhar a matéria-prima, todos eles alimentados pelo resto da sociedade que continuava a produzir alimentos.

Depois surgiram os soldados para proteger os comboios escribas escribas para registrar os negócios e toda urna gama de funcionários do Estado para conciliar interesses opostos. Aparecem também funcionários religiosos e templos, e uma serie de cortesãos inúteis familiares e amigos do rei.

O arqueólogo nota uma substancial diferença entre os objetos encontrados datados de 5 mil e os de 6 mil anos. Os mais antigos são instrumentos de agricultura e caça e um ou outro objeto de uso doméstico, denotando uma comunidade de agricultores simples. Já os de 5 mil anos constituem mobiliário dos templos armas, jarros e outros objetos feitos em série. Encontramos ainda templos, túmulos imensos (como as pirâmides) e palácios.

A mudança no material arqueológico denota alterações na economia das sociedades que produziam o material. Denota também uma maior complexidade nos papéis sociais uma verdadeira divisão de trabalho em vez de simples divisão de tarefas e a instituição do poder político que busca perpetuar-se. Ao contrário da liderança nas aldeias, provisória e sujeita a permanentes contestações, aqui o rei esquece as razões que o levaram a liderar o consenso do grupo social com vistas ao bem-comum e através de sua origem divina no caso do Egito ou legitimação divina no caso da Mesopotâmia e mais tarde, entre os reis de Israel e Judá Passa a justificar suas atitudes autoritárias seu luxo acintoso e sua vida desligada da dos produtores diretos.

A cidade é populosa. Concentrações entre 10 mil e 35 mil habitantes eram comuns segundo os especialistas. Há lugares predeterminados para as casas e as oficinas, mas os palácios e templos ocupam os locais de destaque. A solidariedade que justificara sua construção se esvai, o camponês, produtor direto de alimentos, é marginalizado pela sociedade que ele ajudara a construir e que continua a alimentar.

 

A cidade se expande

 

Ao necessitar de matérias-primas que não eram encontradas em seu território, os governantes das primeiras cidades expandem os seus tentáculos. Através dos contatos propiciados pelo comércio, vemos vários povos, vizinhos aos sumérios e aos egípcios, transformando aldeias em cidades. Isso ocorre na Síria, na Assíria, no Irã, na Palestina, em Creta e, depois, cada vez mais longe. Produtoras auto-suficientes de alimentos, metamorfoseiam-se em cidades complexas com atividades manufatureiras.

É interessante verificar a influência que as cidades-mães de sempenham sobre as outras. Isto se evidencia não só através de estruturas sócio-políticas muito semelhantes, como através de padrões de comportamento e valores. Enquanto a revolução agrícola ocorreu em grande parte de forma espontânea, a revolução urbana desenvolveu-se mais pela difusão, o que não é difícil de compreender.

Atrás das matérias-primas, os comerciantes procuravam as regiões que as produziam, onde encontravam grupos humanos já estabelecidos. Coube aos egípcios e sumérios convencer esses grupos a extraírem metais, madeiras ou pedras em quantidade muito superior a que estavam habituados. Quando obtinham sucesso em suas tentativas, os comerciantes provocavam profundas alterações no dia-a-dia desses povos, que tinham que especializar-se para dar conta da demanda dos produtos solicitados. Na verdade, uma parte da população tinha que produzir alimentos para estes que haviam se especializado, reproduzindo o esquema que já vimos acima. Em casos extremos a coisa foi ainda mais longe. É, por exemplo o caso de Biblos cidade situada no que hoje é o Líbano, onde os egípcios iam buscar o cedro excelente madeira para barcos e construção de edifícios e templos.

A presença egípcia em Biblos foi muito grande: seus funcionários levaram para a cidade suas crenças e sua escrita sua arte e sua administração. Os fenícios domaram contato com a cultura egípcia assimilando-a e criaram suas cidades a partir daí.

Às vezes a presença do comerciante não era aceita mas imposta pela força. Nesses casos, o invadido ou se organizava tecnicamente para a defesa ou era massacrado num tipo de guerra comum na Antiguidade. Para a defesa era necessário aos invadidos dominarem a metalurgia, o que, de qualquer forma, provocava a difusão da cultura urbana, ou seja, da civilização.

O trágico para a cultura era quando um povo apreendia o apenas as técnicas ligadas à atividade bélica e se aperfeiçoava ao máximo a ponto de destruir a civilização de onde obtivera seu conhecimento.

Nessas ocasiões - que foram muitas, através dos tempos - parece que a História caminha para trás.

Bibliografia:

História e Sociedade - Rubem Aquino

História Geral - José Jobson Arruda

 

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