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A Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917

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A Derrota Russa na Guerra da Criméia (1853 a 1856) e as modificações políticas do momento

           

            Como vimos, a Rússia Czarista entra atrasada nos mecanismos de conquista colonial e reivindica, de um lado, os espólios do decadente Império Turco Otomano e, de outro, territórios na China (como a Manchúria) e ilhas ao norte do Japão.

            No espólio do Império Turco estão também interessados a França e a Inglaterra que entram em conflito contra a Rússia no conflito conhecido como “Guerra da Criméia”. Num primeiro momento, a Rússia invade e se apropria da Moldávia e da Valáquia (atualmente Romênia), destruindo totalmente a frota turca aportada em Sinope a 30 de novembro de 1853. A 25 de março de 1854 Grã-Bretanha e França (com tímido apoio do reino Sardo-Piemontês de uma Itália ainda não unificada) declaram guerra à Rússia, não em apoio aos turcos, mas em busca de tomar dos russos o que aqueles haviam tomado dos turcos (tomar de uma potência européia possessões que outras potências roubaram de seus próprios povos está no cerne mesmo da “lógica” Guerra...). Derrotados, os russos são forçados a assinar o Tratado de Paris que concede em tese autonomia ao Império Turco Otomano, humilhando o Czar que vê frustradas suas ambições na região.

           

            Fica claro ao Czar Alexandre II (1855 – 1881) ser necessário implementar uma série de reformas internas na Rússia para que ela também possa participar eficazmente da partilha neocolonialista. Dentre as medidas que adota, ressaltam:

_ Liberação da mão de obra; até então feudal, a Rússia “liberta” o camponês dos laços servis (em nada melhorando sua vida, aliás) para que haja um maior número de mãos à disposição da montagem da indústria incipiente no país;

_ Busca de financiamentos com banqueiros franceses e britânicos para custear a montagem de um parque industrial russo, já iniciando a formação de uma classe operária no país.

            Segundo analisa Leon Trotsky em “História da Revolução Russa”, já em 1914 o parque industrial russo era considerável, mas concentrado fundamentalmente em duas grandes cidades, as principais da Rússia: São Petersburgo e Moscou. A “revolução industrial” ocorre tardiamente na Rússia por iniciativa do Czar e a burguesia industrial é mantida subordinada ao Estado, sem condições objetivas, portanto, de se constituir em classe ativa no cenário político russo.

            Outra era a história dos camponeses e operários, que começam a se mobilizar e formar suas agremiações, inicialmente clandestinas, fortemente influenciados pelas ideias socialistas em voga na Europa Ocidental.

            Sem uma burguesia forte como ocorria, por exemplo, na França, Inglaterra, mais tarde também Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália, o palco que se forma na Rússia contrapõe o Czarismo decadente ao proletariado em ascensão.

 

Estruturação Política na Rússia Czarista e mais um pouco de Teoria Política Marxista

 

De um lado há um Estado Absolutista de corte feudal – em verdade a Rússia chega ao início do século XX como o último Estado Absolutista Feudal do mundo. A lhe dar amparo uma nobreza premiada com títulos por funções exercidas segundo o determinava o monarca. O Artigo I das “Leis Fundamentais do Império Russo” rezava textualmente: “O Imperador de todas as Rússias é um monarca autocrata e ilimitado. O próprio Deus determina que o seu poder supremo seja obedecido, tanto por consciência como por temor.”

            A oposição se organiza amparada nos camponeses empobrecidos e na nova classe operária surgida da industrialização incipiente da Rússia. Sem possibilidade de representação legal, organizam-se na clandestinidade e recebem forte influência da Europa Ocidental, para onde se dirigem muitos dos perseguidos políticos da autocracia czarista.

            Tal é o caso do “Partido Operário Social Democrata Russo”, criado pelo ideólogo marxista russo Georg Plekhanov em 1898 quando Lênin, preso na Sibéria, elaborava sua análise da evolução do capitalismo na Rússia. Livre, se encontra com Plekhanov e outros líderes das organizações internacionais de trabalhadores, entrando a fundo nos debates do tempo.

            “Sem teoria revolucionária não há ação revolucionária”, dizia Lênin e seguia seu próprio preceito sem o Autor marxista mais prolífico do início do século XX com uma Obra escrita – além de suas superlativas realizações práticas – verdadeiramente enciclopédica, que versa desde os problemas cotidianos com os quais os trabalhadores se faceavam até trabalhos de fundo, filosóficos e políticos, dentro da metodologia criada por Karl Marx e Friedrich Engels (a metodologia mais avançada que o engenho humano conseguiu elaborar até o presente para lidar com o mundo concreto, tal qual é).

            Em 1899 ocorre um cisma na Internacional Socialista criada ao tempo de Marx: Eduard Bernstein propõe aos socialistas o ingresso na política parlamentar eleitoral das nações européias como estratégia gradual com vistas a chegar ao poder através do sufrágio universal. A idéia, que hoje nos parece claramente ridícula, embora mesmo ridicularizando-a haja ainda partidos presumivelmente representantes dos trabalhadores que mergulham fundo nesta armadilha e acontece com eles o que Lênin, Rosa Luxemburgo, Plekhanov e Kautsky previam que aconteceria se os comunistas participassem do processo parlamentar burguês: se transformariam em seu oposto, de maneira dialeticamente inevitável.

            Para distanciar-se daquelas idéias excêntricas, alheias ao movimento operário, os verdadeiros representantes da Classe Operária fundam a II Internacional – nome não casual, assim como o capitalismo atua internacionalmente, seu combate não deve tampouco obedecer a míseras questões de fronteiras. A verdadeira luta dos trabalhadores não é aquela de trabalhadores russos contra trabalhadores alemães (como queria a Propaganda até certa medida vitoriosa da I Grande Guerra) mas dos trabalhadores contra aqueles que os oprimem, como diz o trecho do viria a ser o Hino da União Soviética, “A Internacional”, “...se a raça vil cheia de galas, nos quer à força canibais, logo verá que nossas balas, são para os nosso generais!” – em mais de um momento, tanto no Front de combate da I Grande Guerra quanto em todo o processo revolucionário russo este trecho da “Internacional” será lembrado e posto em prática.

Materialismo e Empiriocriticismo - Obra Fundamental no pensamento filosófico de Lênin, segue atualíssima em sua crítica a várias correntes filosóficas do irracionalismo burguês. Não consegui encontrar na Internet, mas fica a recomendação! 

            Como sói acontecer, no seio mesmo da luta política ocorrem as divergências de cunho teórico, filosófico, mais profundo, que também precisam ser claramente dissecadas. Uma das muitas – quiçá a mais importante e difundida – Obras Filosóficas de Lênin é “Materialismo e Empiriocriticismo”, no qual se contrapõe aos revisionistas russos Bodganov, Lunatcharky, Basarov, Valentinov e Iuchkevicth que se diziam marxistas mas propunham revisar as teses de Marx com base nos avanços do conhecimento filosófico de autores (já sepultados nas brumas da história e totalmente desconhecidos da maior parte do público pela sua abissal insignificância) como Mach e Avenarius que defendiam idéias estranhas não apenas ao movimento operário, mas ao estar humano no mundo. Fundando-se no que chamavam de empiriocriticismo e monismo, questionavam a existência da realidade e, a partir daí, propunham a precedência das ideias sobre a matéria. Em seu trabalho filosófico de fôlego, Lênin leva essa canalha às cordas não deixando pedra sobre pedra em suas postulações tão absurdas que sequer são lembradas hoje, exceto no contexto da interpretação que Lênin consagrou em defesa do Materialismo Dialético contra aquelas excentricidades. “Seguimos Diderot e sabemos que é a matéria altamente organizada, por exemplo, do cérebro humano, a base onde se desenvolvem as ideias”, dizia Lênin. Não com as palavras que passo a utilizar, mas o cérebro humano gera pensamentos como a vesícula biliar gera bílis ou os rins produzem urina. Impensável a existência de bílis sem uma vesícula que a produza; inimaginável a urina sem que os rins a produzam. Idéias sem cérebro... Lênin chamava a isso de “fideísmo” – retrocesso do materialismo filosófico (não confundir com a maneira como a matéria é tratada pela física ou a química, por favor) a uma forma religiosa ou para-religiosa incompatível com o Materialismo Dialético. Combatia também as idéias de Berkeley, por incrível que pareça, até hoje debatidas entre filósofos; bem sinteticamente, Berkeley propunha que o mundo da concretude não passava de projeção de nossa mente e o exemplo clássico se apresentava na forma de uma pergunta tão idiota que nos causa até embaraço reproduzi-la, mas aí vai: “uma árvore que caia numa floresta deserta, produz barulho?” Como deve ser evidente a qualquer ser humano dotado de plenas faculdades mentais e que não haja sido deseducado por qualquer escola burguesa de pensamento, um objeto grande vibrando na atmosfera terrestre produz ondas sonoras independente de haver ou não ouvidos humanos por perto para reportar o evento. Berkeley, em síntese, nega a existência da realidade (!?!?) e é vigorosamente vergastado pela pena de Lênin no clássico “Materialismo e Empiriocriticismo”. A este defeito específico (provavelmente comum a pessoas com deficiências mentais severas como autismo ou coisas assim) Lênin chamava de “solipsismo”, que, também resumidamente, exaltava única e exclusivamente a existência de um “eu” abstrato e hipotético, desautorizando a existência de toda a realidade exterior ao ser pensante. Mais ou menos como uma criança que fecha os olhos e, com isso, suprime a existência do mundo. Até contra tais sandices era preciso lutar, pois eram ideias tão simples e simplistas que ganhavam os corações e mentes das pessoas com mais facilidade.

            Ainda durante a I Grande Guerra, um dos co-fundadores do Partido Operário Social-Democrata Russo no exílio, Júlio Martov, defendia que fossem membros do Partido todos aqueles que, de alguma forma manifestassem simpatia e prestassem o apoio possível. Lênin se contrapôs energicamente a Martov apontando para a necessidade – naquele momento histórico específico, naquela situação histórica específica, cuidado com isso! – de um Partido de Vanguarda, portanto somente aqueles que se dispusessem a uma dedicação exclusiva à Causa Revolucionária deveriam ser membros do Partido. Lênin obtém a maioria dos votos na assembleia do Partido que confronta suas ideias com as de Martov, que fica em minoria. Em russo, “Bolche” significa “mais” ou “maior” enquanto “Menche” significa “menos” ou “menor”. O grupo majoritário, portanto, é o grupo BOLCHEVIQUE e o grupo minoritário o grupo MENCHEVIQUE. A título de curiosidade, Leon Trotsky inicia sua militância com simpatias pelos mencheviques e por todos os que pudessem de alguma forma contribuir para a causa operária, mas suas ideias evoluem à medida que o embate com a realidade assim o impõe e seus diálogos com Lênin se amiúdam.

            Sem organização e uma orientação segura e confiável, as massas dificilmente concluiriam as tarefas necessárias à sua própria libertação espontaneamente como defendiam os mencheviques, já começando a esboçar seu desejo de participar do jogo parlamentar eleitoral também, aliás, um erro crasso em que muitos partidos que iniciaram na esquerda se perderam ao longo de toda a história das lutas trabalhadoras no mundo. Ao lutar contra o adversário de classe usando as armas do adversário, dialeticamente, nele acaba por se transformar. Os exemplos são tantos e tão grande porte que fico apenas nos mais distantes do presente caso brasileiro: a II Internacional, que ainda se intitulava e segue se intitulando até hoje “Social-Democracia” entra no jogo parlamentar na Europa e já não se diferencia em nada dos partidos que se auto-proclamam “de direita”. Até por isso, como veremos adiante, uma vez vitoriosa a Revolução Russa de Outubro de 1917 e consolidando suas conquistas em 1919 Lênin lança o KOMINTERN, a III Internacional, distanciando-se dos desvios burgueses da Social-Democracia reinante nos partidos operários da Europa Ocidental. A IV Internacional é fundada por Leon Trotsky quando, após a morte de Lênin, Stalin – que jamais foi um teórico marxista, aliás – propõe a formação do “socialismo num país só”; por um lado, era o possível diante das lutas internacionais, das campanhas difamatórias do ocidente e guerras abertas contra a ousadia do país dos comitês de soldados, camponeses e operários que tomaram o poder; por outro lado, esta tese se distancia do marxismo (a luta dos trabalhadores contra a exploração burguesa é internacional por definição ou está fadada ao insucesso, como se viu, aliás).

            Voltemos aos fatos em sua ordem cronológica...

O “Ensaio Geral” de 1905

            Desde 1904 os interesses imperialistas russo e japonês têm sérias áreas de conflito. Ao Norte do Japão, tropas da Rússia Czarista ocupam Port Arthur e a Manchúria, região da China próxima à fronteira com a Rússia e rica em recursos naturais. Ao Sul, o Japão ocupa a Coréia e já pretende o controle de todo o Extremo Oriente – o que se agudizará na II Guerra Mundial como veremos adiante.

            Já em fins de 1904 os japoneses retomam Port Arthur e ocupam a Manchúria, fazendo com que os russos recuassem. O envio de uma frota russa em resposta é recebido com elevado grau de destrutividade: a frota comandada pelo almirante Togo destrói completamente a frota russa, consolidando suas posições na Manchúria e impondo aos russos a assinatura do Tratado de Portsmouth, que estabelece as fronteiras de ambas as nações conflagradas pondo fim ao conflito russo-japonês.

            O enfraquecimento dos russos em suas lutas contra o japonês refletem o enfraquecimento do regime czarista, evidenciado no episódio conhecido como “Domingo Sangrento”. Um padre católico ortodoxo conduz um grande contingente de peticionários russos ao Palácio de Inverno do Czar, na então capital da Rússia, São Petersburgo, a 22 de janeiro de 1905. O grupo porta cartazes chamando o Czar de “Papaizinho” e suplicando por justiça e proteção. São recebidos com uma saraivada de metralhadoras que fazem mais de mil mortos e outro tanto de feridos deixando claro ao povo russo de que lado estava seu querido “paizinho” e evidencia ainda a ineficiência da Igreja Católica Ortodoxa em encaminhar petições com esperança de sucesso.

O "Domingo Sangrento" de janeiro de 1905: o Czar recebe os peticionários a bala!

            Em junho de 1905 a tripulação do encouraçado Potiomkin se amotina, levando a revolta para o seio das Forças Armadas. O episódio foi mais tarde imortalizado em filme pela genialidade de Sergei Eisenstein.

            Uma série de greves paralisa a produção industrial russa e a única resposta que o governo czarista consegue dar à questão é a repressão. Em outubro de 1905 e à revelia da Lei, do Czar e mesmo dos Partidos, após nova greve sem sucesso, os operários de São Petersburgo criam o que virá a ser o modelo para a organização de toda a União Soviética nos anos seguintes: um Conselho (em russo, Soviete) de Deputados dos Operários de São Petersburgo.

            Cedendo por não ver alternativa, o Czar propõe uma série de medidas liberalizantes através do que ficou conhecido como “Manifesto de Outubro (de 1905)”. Convoca uma Assembléia Legislativa (Duma), legaliza o Soviete de Deputados de São Petersburgo, concede liberdade de imprensa, de opinião e de associação. Acalmada a situação com estas medidas pretensamente liberalizantes, logo os trabalhadores compreendem da forma mais cruel a diferença entre liberdades concedidas e liberdades conquistadas. Entre o final de 1905 e meados de 1906 todas as “concessões magnânimas” do Czar são eliminadas: a Duma é fechada, os deputados presos e exilados para a Sibéria (alguns logram fugir para outros países). Numa tentativa desesperada, operários se levantam em armas em Moscou, lutam bravamente por 9 dias e são também duramente reprimidos. O movimento operário russo reflui. Mas em vários pontos da enciclopédica obra de Lênin as referências aos acontecimentos e lições de 1905 são retomadas. 

 

 

A Revolução de Março de 1917

            Como vimos, a entrada da Rússia na I Grande Guerra se dá principalmente devido a pressões da Inglaterra e da França (credores dos nobres ligados ao czar, os iniciadores da industrialização tardia na Rússia); vagamente, o regime ainda mantinha pretensões expansionistas mas, realisticamente, se satisfaria em aliar-se a eventuais vencedores dos chamados “Impérios do Centro”.

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            Na prática, a única contribuição que o Czar poderia prestar ao esforço de Guerra dos Aliados Ocidentais contra a Alemanha e o Império Austro-Húngaro era... Carne Humana! Gente. Muita gente. Mal armada, despreparada, desestimulada a lutar por vagas conquistas para um regime que não as representava...

            À multidão de mortos nos combates contra os alemães (estima-se em mais de 6 milhões de mortos nos dois primeiros anos da Grande Guerra) soma-se o descontentamento interno com a falta de mão de obra para a lavoura provocando uma crise de abastecimento de alimentos. Era uma situação brutal em grau superlativo: enquanto seus filhos morriam como moscas numa guerra que não lhes interessava um quiabo, os russos passavam fome nas ruas de Moscou e São Petersburgo. O ambiente revolucionário estava criado.

            Greves e passeatas pipocavam em praticamente todas as cidades russas pedindo basicamente “Pão, Paz, Terra”. Em suma, o fim da guerra, a retomada do abastecimento e uma reforma agrária, com o fim da autocracia Czarista.

A Revolução espalha-se por toda a Rússia. O Czar ainda tentou uma manobra abdicando em favor de seu irmão, o Grão-Duque Miguel, que não aceitou a coroa imperial. À frente do Governo Provisório da República ficou encarregado o Príncipe Lvov, liberal; contudo, logo o menchevique Kerenski se destaca, convertendo-se em homem forte do governo provisório.

O período de março a novembro de 1917 caracterizou-se pela dualidade de poderes entre o Governo Provisório (que em verdade não contava com poderes práticos em nenhum sentido da expressão) e o Soviete dos Operários, Soldados e Camponeses de São Petersburgo (que homologava ou não as decisões do Governo Provisório e somente então as coisas aconteciam). O Governo Provisório evidenciou sua debilidade e incapacidade em resolver as questões que haviam provocado o fim do Czarismo. 

 

 

A Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917

            Ao contrário dos anseios do povo mobilizado, que levou o Czar a abdicar e entronizou o Governo Provisório, este reluta em retirar os russos da guerra. O Czar e sua família passam o ano tentando sair da Rússia sem encontrar porto que os receba. A Inglaterra vira as costas ao Czar, mais interessada em suas riquezas depositadas naquele país do que propriamente na integridade física da família real russa...

            De seu exílio na Suíça, Lênin segue escrevendo artigos precisos de análise concreta da situação concreta – e toda a sua obra daquele período deve ser compreendida em seu contexto, evidentemente. Através do jornal Iskra (“Centelha”) Lênin expõe as propostas dos bolcheviques para solucionar os problemas que o Governo Provisório, débil, não tem condições. Logo o mote leninista “Todo o Poder aos Sovietes” sai da centelha e incendeia a Rússia. Para que diabos serve um governo – “provisório” ou “definitivo” – que só é obedecido pelo funcionalismo estatal após a aprovação do Soviete? E cadê a paz prometida? Cadê o abastecimento? Cadê a Reforma Agrária?

            Após ler em congressos da Internacional, no dia 7 de abril de 1917 Lênin faz chegar aos trabalhadores russos um texto intitulado “Sobre as Tarefas do Proletariado na Presente Revolução” que entrou para a História como “Teses de Abril”. Sem meios termos, meias medidas, dubiedade ou concessões; Lênin, em suas teses, expõe claramente o que é necessário fazer e como fazê-lo; das famosas “Teses de Abril” ressalto as principais propostas leninistas:

_ Sair da Guerra

_ Transferir todo o poder remanescente aos Sovietes

_ Nenhum apoio ao governo “provisório” de Lvov e Kerenski

_ Reforma Agrária

_ Estatização de todo o sistema financeiro e comércio exterior

            Conhecedores das teses de Lênin, de sua capacidade de liderança e desejosos de formar uma paz em separado com a Rússia, o Império Alemão providencia um trem blindado que leva Lênin até a Finlândia (ainda sob jurisdição russa), ali chegando a 23 de outubro (pelo antigo calendário Juliano, adotado na Rússia da época).

O trem blindado que conduziu Lênin atravessando todo o território conflagrado da Alemanha, rumo a Estação Finlândia

            Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo inicialmente se opõem a uma das teses de Lênin: a Ditadura PROVISÓRIA do Proletariado. Rosa insiste no mais amplo e transparente encaminhamento democrático de todo o processo – difícil quando se sabe de que maneira o adversário lida com parcelas de poder contra os trabalhadores... Trotsky se propõe a permanecer na Alemanha (ou a ela voltar uma vez consolidada a Revolução Socialista na Rússia) com vistas a auxiliar os Revolucionários daquele país também. Diferentemente de Rosa, Trotsky não vê alternativa diferente da Ditadura do Proletariado até que todos os países do mundo se libertem da Ditadura do Capital e possam, aí sim, partir para amplitudes democráticas. Ambos (Rosa e Trotsky) evoluem de suas posições em direções distintas, mas sempre muito fiéis à causa da Luta Revolucionária contra o Capital no mundo.

            Teses precisas e diretas, bem aceitas pela maioria; contudo, alguns intelectuais russos seguem uma interpretação mecanicista do marxismo segundo a qual uma revolução burguesa deve anteceder e se consolidar antes da revolução socialista, popular. A estes Lênin responde com sua teoria do “Elo mais débil”. A situação na Rússia era extremamente complexa, dizia Lênin, e se não o fosse, uma Revolução Socialista a tal a levaria e isso não nos deve intimidar. O Capitalismo é como uma corrente em torno do mundo e se rompe onde estiver o seu elo mais débil. Naquele momento o elo mais débil do capitalismo (internacional ou global por definição) estava na Rússia. Cala-se a oposição a Lênin dentro do Partido e todos se perfilam na direção da definitiva tomada de poder pelo proletariado, marcada para o dia 25 de outubro (7 de novembro segundo o calendário gregoriano).

            Com o apoio de toda a Guarnição de Petrogrado (a Revolução de Março tirou o santo de Petersburgo e rebatizou a cidade) e com o famoso Couraçado Aurora de baterias encetadas na direção do palácio a multidão toma a si o cargo de assaltar o palácio (sem praticamente encontrar resistência) enquanto Kerenski foge disfarçado de marinheiro.

O Famoso Cruzador Aurora deu os primeiros disparos da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917 na Rússia

            O Soviete de Petrogrado ratifica a queda do fugaz governo proto-burguês transferindo todo o poder “aos sovietes de deputados de camponeses, operários e soldados”, designando um Conselho de Comissários do Povo tendo LENIN como Presidente, Leon Trotsky como Encarregado dos Negócios Estrangeiros (na prática será o Grande Marechal criador do Exército Vermelho e Defensor da Revolução em todas as suas fronteiras) e Stalin como Responsável pelas Nacionalidades (na prática, defenderá a revolução internamente; o ex-seminarista participa ativamente da criação da polícia política do Novo Regime, o que mais tarde se mostrará danoso à própria Revolução como discutiremos oportunamente)

            A Primeira Medida do Novo Governo é decretar, no dia 7 de Novembro de 1917 (seria o próprio 25 de outubro pelo antigo calendário Juliano, mas agora já adotando o calendário Gregoriano como o resto da Europa e América) fica determinado:

_ Abolição de toda a grande propriedade rural, distribuída entre os camponeses. A Reforma Agrária na Rússia finalmente começa!

_ Estatização de todo o sistema bancário que fica centralizado sob o controle do Soviete de Petrogrado. O capitalismo perde 1/6 “dos mercados” do mundo, finalmente livre de sua rapina – pelo menos por cerca de sete décadas...

_ Todas as fábricas passam ao controle dos operários

_ Todos os povos que faziam parte do antigo Império Russo (finlandeses, poloneses...) ganham o direito de escolher separar-se da Rússia – o que fazem celeremente!

            Pouco mais de um mês depois, a 15 de dezembro assina-se a Paz com a Alemanha em Brest-Litovsk. Com a Rússia fora da Guerra os Impérios do Centro ganham força nova e os EUA se vêem na contingência de, relutante mas decisivamente, entrar na Guerra ao lado da França e da Inglaterra pois os produtos bélicos e creditícios concedidos àqueles países (bela “neutralidade” mantiveram os EUA...) periclitavam diante de uma vitória iminente dos Impérios do Centro. Menos de um ano antes da chegada dos estadunidenses bem equipados, preparados, armados e totalmente descansados, os generais alemães e austríacos decidem se render enquanto os soldados, no front, tinham a vitória, pensavam eles, ao alcance da mão (o que surgirá no revanchismo fascista que explodirá na II Guerra Mundial como veremos adiante).

 

Consolidando

Lênin, em charge feliz de Vilmar Rodrigues para o livro "Capitalismo para Principiantes", de Carlos Eduardo Novaes, FECHA a URSS à esbórnia capitalista tomando aos burgueses 1/6 do mercado consumidor mundial

            Agora cabe consolidar as conquistas da Revolução e cumprir a promessa de auxiliar como possível na libertação de outros povos europeus e de todo o mundo da Ditadura do Capital – eufemisticamente chamada de “democracia liberal”.

            Esse será nosso próximo estudo ;)

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 7 de Novembro de 2013 – Ano 86 da Grande Revolução Socialista de Outubro 

Indicação de Leituras, Filmes e Documentários Importantes

 

A Revolução Permanente - Leon Trotsky ("Só quando todos os países do mundo se libertarem da Ditadura do Capital poderemos depor nossas armas!")

Lev Davidovitch Bronstein - LEON TROTSKY, criador do Exército Vermelho, defensor da URSS no front externo quando todos os países capitalistas criaram um "cordão sanitário" e na prática declararam Guerra àqueles operários, soldados e camponeses que OUSARAM tomar o poder - escreveu esta "História da Revolução Russa". Um Clássico!

Rosa Luxemburgo ou O Preço da Liberdade - Jorn Schtrumpf ("A Liberdade será sempre aquela dos que pensam diferente de nós. Ou não há Liberdade!")

     

Dez Dias Que Abalaram o Mundo - John Reed - 1919

Militante comunista e jornalista estadunidense, John Reed esteve presente aos eventos narrados acima e elaborou um dos melhores relatos que uma testemunha ocular poderia fazer. Livro elogiado e premiado, seu Autor é o único estrangeiro a ser sepultado nas muralhas do Kremlin e o livro, mais tarde feito filme estrelado por Warren Beaty, é uma Obra de Referência obrigatória para este tema

O Encouraçado Potiomkin - Sergei Eisenstein. Quase um Documentário acerca do motim dos marinheiros russos maltratados pela oficialidade e despreparados militarmente para a luta contra os japoneses na Guerra de 1905

Outubro - Clássico de Sergei Eisenstein demonstrando o que estava acontecendo na Rússia durante a Revolução

Ás Portas da Revolução - Slavoj Zizek (Percebendo a crise contemporânea, o Sociólogo e Psicanalista Sérvio Slavoj Zizek nos brinda com textos de Lênin "Às Portas da Revolução". O livro vale ainda pela introdução descritiva do momento histórico que a Rússia vivia mas, principalmente pelo LONGO posfácio, em que Zizek descreve em detalhes a brutal bestialidade da Ditadura do Capital no mundo "Globalizado" em que vivemos. Já nasce um Clássico!

O Filme, baseado no livro Dez Dias Que Abalaram o Mundo - John Reed - 1919 fica obviamente a dever à leitura da Obra, mas vale a pena como referência

IMDB:

Capitalismo para Principiantes - Carlos Eduardo Novaes com ilustrações de Vilmar Rodrigues

 

 

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