A ruptura do Pacto Social no
Brasil
Por vezes, nos enfronhamos no mato e, ao ver muitas árvores por perto, mal
imaginamos o tamanho da floresta; em outras ocasiões olhamos uma floresta ao
longe e mal vislumbramos seus meandros, suas pequenas ou grandes discrepâncias.
Encontrar o distanciamento ideal é o maior desafio ao analista político.
Fato é que vivemos uma onda de
crises dentro de crises no Brasil praticamente desde o segundo ano do governo
Lula e é preciso um certo distanciamento para analisar com maior clareza. Até as
palavras vêm sendo usadas e colocadas num nível de interpretação radicalmente
diverso daquele inicialmente imaginado. “Discurso” resolve alguma coisa?
É possível, é mesmo desejável,
analisarmos os fatos que se apresentam à opinião pública, mas a própria
sobredeterminação de crises já permite encontrar alguma forma de concatenação de
todos os acontecimentos.
Nesta semana, após a publicação de
uma reportagem bombástica do ex-Secretário Geral do PT, Sílvio Pereira, no
jornal “O Globo”, seguiu-se (mais um) não-depoimento à CPI dos Bingos durante o
qual o ex-petista revelou não haver lido a entrevista que deu, nem se recordar
do que falou à jornalista, contudo confirma a entrevista e informa que a
jornalista não se equivocou em nada do que publicou (?!?!) Em outros tempos e
circunstâncias teria recebido voz de prisão ali mesmo, por desacato à autoridade
– muita gente já depôs nestas CPI’s, mas jamais antes alguém havia obtido tanto
sucesso em fazer de otários e ridicularizar Senadores da República com tamanha
desenvoltura e impunidade.
A única coisa que parece bem
articulada no governo Lula é o discurso oficial em torno de questões envolvendo
problemas criminais – palmas para o Ministro da Justiça, advogado criminalista,
que deixa a sua marca.
Um ex-membro do “stablishment”,
aparentemente fora de controle, concede uma entrevista em que fala parte das
coisas que sabe num claro pedido de socorro. Coisa mafiosa mesmo, como bem
apontou Clóvis Rossi: “façam algo por mim ou conto tudo o que sei. Não me
abandonem.” Até que a articulação governista encontre um eixo para o trato mais
apropriado a este fato novo, saltam das bocas que outrora ovacionavam o
ex-Secretário Geral os mais atordoantes e desconcertantes insultos à sua figura,
que variavam de “louco” e “idiota” até “deve estar com problemas mentais muito
sérios”.
Imediatamente, na mesma semana em
que não há notícias de rebeliões em presídios paulistas (alguém mais percebeu
isto?) a Polícia Federal do Ministério da Justiça apreende vários funcionários
do Ministério da Saúde envolvidos num novo escândalo chamado “das Sanguessugas”,
envolvendo “170 parlamentares” – majoritariamente da base de sustentação do
governo mas nenhum petista – que fraudavam licitações para compra de ambulâncias
conquistadas através de emendas parlamentares pessoais.
O jogo político rasteiro está
colocado e já se percebe o nível em que o Executivo o coloca. “Para esconder um
escândalo meu, revelo um seu” e seria ingenuidade imaginar que a coisa pare por
aí. O Fla x Flu do PT versus PSDB tem muitas jogadas emocionantes
a apresentar em busca de que tudo mude para que tudo permaneça exatamente como
está.
E o Pacto Social
Ministério da Justiça envolvido em quebra de sigilo e prática de ilegalidades as
mais diversas. Ministro Presidente do Banco Central fraudando o Imposto de
Renda. Ministério da Fazenda envolvido no esquema do “mensalão”. Ministério da
Saúde sob suspeita no esquema das “sanguessugas”. Os números, malditos números
que as estatísticas oficiais oferecem lesam gravemente o conceito de matemática
como interpretação da realidade. Como é que poderíamos acreditar em assertivas
“estatisticamente comprovadas” como “os preços estão caindo e os salários
aumentando” se o nosso cotidiano apresenta precisamente o oposto disso? Por aí
vai.
Parlamentares acuados salvando a
pele uns dos outros. Uns renunciam, poucos são cassados, a maioria se livra
lépida e fagueira, dançando feliz com a impunidade.
No Judiciário dois juízes supremos
apresentam decisões políticas momentos antes de trocar o judiciário por
campanhas eleitorais justamente nos pontos em que suas decisões (que deveriam
haver sido imparciais) acabaram beneficiando precisamente a parte na qual
ingressa...
Tudo dominado...
E agora? O Pacto Social está rompido no Brasil. Não há confiabilidade plena no
Executivo, no Legislativo ou no Judiciário. Falar em “impeachment” do presidente
é bobagem: “com esse Congresso?”
Para além das eleições que virão
após a Copa do Mundo, é fundamental que nos debrucemos sobre esta questão,
gravíssima: “como recompor o Pacto Social no Brasil depois desta avalanche
desagregadora que vem sendo o governo Lula?”
Como tempero apimentado à reflexão a
constatação empírica da enorme lucratividade das grandes empresas privadas,
particularmente aquelas dedicadas exclusivamente à especulação. Um exemplo –
entre milhares: o governo Lula não aplica em um ano na saúde o que um único
banco privado brasileiro lucra num único mês!
O Pacto social “já era” se é que
algum dia foi ou esteve perto de ser. Mas somado a isto temos uma firmeza
econômica de fazer inveja a países mais desenvolvidos. Em nenhum outro país do
mundo hoje é possível lucrar tanto sem fazer nada – exceto o exercício mental de
ver onde estão os maiores ganhos – como no Brasil de Lula.
Este é o preço que pagamos por nos
deixarmos dominar pela lógica “dos mercados financeiros” e do grande capital
especulativo internacional.
Lázaro
Curvêlo Chaves – 11/05/2006
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