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Surrealismo, a mais elevada forma de expressão humanística da modernidade!

 

André Breton, Diego Rivera e Leon Trotski no México

"... o surrealismo é um movimento de liberação total, não uma escola poética. Via de reconquista da linguagem inocente e renovação do pacto primordial, a poesia é a escritura de fundação do homem. O surrealismo é revolucionário porque é uma volta ao princípio do princípio." Octavio Paz

     Ponte entre a psicanálise e a revolução social, pregando "Mudar a vida! Transformar o mundo!, os surrealistas insurgem-se contra a "ordem" estabelecida que amesquinha e avilta o ser humano, proclamando, com firmeza, a insubmissão a todas as normas estabelecidas, a onipotência e superioridade do sonho e do inconsciente sobre o real, o desregramento de todos os sentidos, o poder redentor do humano existente em todas as formas de paixão - e quanto mais desmesurada e louca, mais bela será, a paixão.

    Como se vê, é praticamente impossível expressar seja o que for sobre o surrealismo de maneira fria, ponderada e imparcial. O chamado racionalismo, estrito e estreito por definição, não pode apreender o surreal em sua plenitude. Este movimento é a maior acusação levantada contra a cisão, historicamente provocada, entre Razão e Paixão no Ocidente. Retomando a temática surrealista, os principais filósofos da Escola de Frankfurt (Marcuse, Fromm, Benjamin, Adorno, Horkheimer, Bloch) propõem a busca de uma "re-erotização" da Razão ou, o que vem a ser o mesmo, a busca de uma Razão Apaixonada!

    André Breton, principal expoente do movimento surrealista, em Arcano 17 proclama: "É vital que o homem se passe, de armas e bagagens, para o lado do homem". Insurgir-se contra as regras estabelecidas não significa - ao contrário! - agredir ou trazer qualquer forma de violência contra o humano. É antes contra tudo o que tolhe o humano que se insurge o surrealismo. "Será preciso começar por retirar da guerra todos os seus títulos de nobreza!", proclama Breton na Obra supracitada. Trata-se de um magnífico poema em prosa à mulher amada que condensa todas as esperanças dos surrealistas numa nova era, num mundo novo, transformado, onde não mais exista a figura do animal humano irado, raivoso, esbravejando ou lutando contra seu semelhante. Na civilização surrealista, na Sociedade do Futuro, o homem encontrará finalmente a plenitude da harmonia com o mundo.

    Seria um exagero afirmar que os surrealistas, ao se insurgirem contra todas as formas de expressão religiosa também não estariam, no fundo, buscando uma nova forma de pacto político-social e, por que não, também religioso? Ou, quem sabe, estariam no epicentro de uma monumental proposta pan-ecumênica, fermentando o nascimento do homem novo na nova sociedade humana...

    Haveria, então uma "natureza humana"? Contrariamente ao que afirmam os sociólogos positivistas Breton dirá que sim sem dar espaços contudo a visões maniqueístas. Convidando a pensar nos primórdios (bebês, por exemplo) dirá que o ser humano é essencialmente inocente, sendo portanto todas as suas falhas circunstanciais, socialmente determinadas e portanto social e individualmente superáveis.

    Como encontrar o acesso à magia, ao reencantamento do mundo, sem a religião? Através da poesia, dos sonhos, do amor louco, do escândalo, da ida ao encontro do acaso objetivo, da disponibilidade para o humano, sempre!

    Toda a ética, assim como a estética surrealista é fruto do inconsciente. No primeiro Manifesto do Surrealismo, Breton nos ensina os segredos da arte mágica surrealista: "Faça com que lhe tragam com o que escrever depois de ter encontrado um local, tão favorável quanto possível, para a concentração de seu espírito nele mesmo. Coloque-se no estado mais passivo ou receptivo que puder. Abstraia sua genialidade, talento e também o dos outros. Diga que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a qualquer lugar. Escreva rapidamente, sem tema preconcebido (...) continue pelo tempo que quiser. Fie-se no caráter inesgotável do murmúrio."

    Daí poder-se dizer que, longe do que pensam alguns "críticos" miseravelmente racionalistas, o surrealismo nada tem de "irrealismo" sendo, ao contrário, a busca intransigente de uma supra-realidade. Seu ponto de partida é o próprio cerne do que há de mais elevado e sublime no coração de cada ser humano. Superando as tensões e as más-caras que a burguesia utiliza e quer obrigar a todos a utilizar também, o surrealismo busca atingir e expressar a transparência do sonho.

    Na esfera do amor louco, eletivo, a mulher, via de reconciliação do homem com a natureza, é ADORADA. Os surrealistas são, neste particular, herdeiros modernos dos românticos. De fato, a mulher mantém, pela sua composição biológica e formação social milenar, em medida muito mais expressiva que o homem, uma forma de vida mais inocentemente ligada ao mistério e à magia. A beleza da mulher, promessa de felicidade, é um atentado vivo ao "princípio de desempenho" da sociedade afluente, como bem o enfatiza o frankfurtiano Herbert Marcuse em Eros e Civilização. O amor louco deve ser recíproco e único. Existe um e apenas um ser humano do sexo oposto em todo o planeta que efetivamente é o complemento necessário de cada um. As escolhas infelizes que, por vezes, fazemos, devem-se sobretudo às condições sociais sórdidas em que nos encontramos, onde vemos brutalmente tolhida, cerceada nossa liberdade de escolha.

    Transformar a vida em poesia. Que o ato de amor seja um ato poético em sua mais elevada inteireza. E que todo o ato humano seja um ato de amor. Manter elevada a esperança. Construir, com a consciência antecipadora, o mais lindo dos castelos de sonhos, unindo poesia e transformação social, a seguir mover céus e terras para dar-lhe expressão no mundo real. Esta a motivação maior dos surrealistas de todos os tempos e Nações. Aliás, fronteiras, pátrias, espaço, tempo, tudo isso é considerado ilusório, questionável por todos os surrealistas.
 

A Mulher, via de reconciliação do homem com a natureza, dentro da perspectiva Surrealista, é ADORADA...

O "facteur Cheval"

"Como o dia depende da inocência, o mundo inteiro depende de teus olhos puros"

Paul Éluard

 

       Ferdinand Cheval, quando funcionário dos correios, tinha um sonho louco, uma idéia fixa, uma esperança a um só tempo fanática e fantástica: construir um castelo. Iniciou a construção aos 43 anos de idade com os piores recursos da sorte. Pedras que ele mesmo carregava num carrinho de mão debaixo de chacotas... Durou 32 anos a construção do castelo Cheval em Hauterives, região do Drôme, França, que hoje ainda está orgulhosamente de pé, à disposição de quantos queiram conhecê-lo. No castelo, dizem os que o viram, encontra-se uma prodigiosa mistura de todos os estilos artísticos e arquitetônicos, do gótico ao hindu, passando pelo árabe e românico. Não por acaso os surrealistas chamam a atenção, quando as dificuldades do mundo prático-pragmático parecem intransponíveis para o famoso facteur Cheval, que possibilita romper com as pesadas cadeias da lógica formal e, erguendo alto a bandeira da imaginação e da Esperança, com muita labuta, vencer qualquer dificuldade.

     Os positivistas, em geral, vêem o mundo de maneira lógica, formal, racional-cientificista, FEIO, em síntese. Às vezes me parece que, para eles, as coisas do mundo só fazem sentido se passíveis de redução a "bits" de computadores... A pergunta "qual o significado de uma flor?" para eles soa ridícula ou incompreensível. Sinto uma compaixão enorme desta gente desumanizada. A resposta à questão colocada foi dada pelo místico Ângelus Silésius, séculos atrás, mas pouco sentido fará aos positivistas, por mais linda que seja a sua mensagem: "Die Rose ist ohne warum, Sie blüet weil Sie blüet" .

    É preciso re-humanizar também a Natureza. O Capital coisificou o homem, o surreal quer humanizar a coisa. É preciso ver o mundo com olhos novos mesmo, reaprender a apreciar o encantamento existente na vida!

    Quedar-se extasiado ante um belo pôr-do-sol, às vésperas do luar e não dizer nem tentar explicar nada - sempre que possível, claro, em boa companhia... Se lágrimas vierem aos olhos, maravilha! Ver uma árvore florida e perceber o quanto de amor e vida está ali contido. Sabe de uma coisa? Se você olhar BEM, com os olhos do coração, como diria talvez Exupéry, no fundo do olhar de uma criança a sorrir está Deus a sorrir para você...

    Às vezes o "tique-taque" do cotidiano mesquinho, medíocre, amesquinhante, mediocrizante, nos impede de perceber que há coisas muito maiores, coisas que passam por nós e nem mesmo percebemos por causa da droga da rotina.

    Mas enquanto houver pôr-do-sol, luar, flores, lágrimas, casais de namorados e crianças a sorrir a Esperança ainda morará nesta terra.

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 20/07/2000

Por uma Arte Revolucionária Independente ANDRE BRETON LEON TROTSKI

Outros Trabalhos:

O que é o Surrealismo?

Bilhetes Surrealistas ao Le Libertaire

Exposição Virutal de René Magritte

Manifesto do Surrealismo

Por uma Arte Revolucionária Independente

Links interessantes sobre o surrealismo:

http://www.kirjasto.sci.fi/abreton.htm - Biobibliografia de André Breton, em inglês.

http://www.pacsurreal.com/surrealpainters.htm - Um "webring" conectando vários sites de pintores surrealistas

 

 

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