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"...
o surrealismo é um movimento de liberação total, não uma escola poética. Via de
reconquista da linguagem inocente e renovação do pacto primordial, a poesia é a
escritura de fundação do homem. O surrealismo é revolucionário porque é uma volta ao
princípio do princípio."
Octavio Paz
Ponte entre
a psicanálise e a revolução social, pregando "Mudar a vida! Transformar o
mundo!, os surrealistas insurgem-se contra a "ordem" estabelecida que amesquinha
e avilta o ser humano, proclamando, com firmeza, a insubmissão a todas as normas
estabelecidas, a onipotência e superioridade do sonho e do inconsciente sobre o
real, o desregramento de todos os sentidos, o poder redentor do humano existente
em todas as formas de paixão - e quanto mais desmesurada e louca, mais bela
será, a paixão.
Como se
vê, é praticamente impossível expressar seja o que for sobre o surrealismo de maneira
fria, ponderada e imparcial. O chamado racionalismo, estrito e estreito por definição,
não pode apreender o surreal em sua plenitude. Este movimento é a maior acusação
levantada contra a cisão, historicamente provocada, entre Razão e Paixão no Ocidente.
Retomando a temática surrealista, os principais filósofos da Escola de Frankfurt
(Marcuse, Fromm, Benjamin, Adorno, Horkheimer, Bloch) propõem a busca de uma
"re-erotização" da Razão ou, o que vem a ser o mesmo, a busca de uma Razão
Apaixonada!
André
Breton, principal expoente do movimento surrealista, em Arcano 17 proclama: "É vital
que o homem se passe, de armas e bagagens, para o lado do homem". Insurgir-se contra
as regras estabelecidas não significa - ao contrário! - agredir ou trazer qualquer forma
de violência contra o humano. É antes contra tudo o que tolhe o humano que se insurge o
surrealismo. "Será preciso começar por retirar da guerra todos os seus títulos de
nobreza!", proclama Breton na Obra supracitada. Trata-se de um magnífico poema em
prosa à mulher amada que condensa todas as esperanças dos surrealistas numa nova era,
num mundo novo, transformado, onde não mais exista a figura do animal humano irado,
raivoso, esbravejando ou lutando contra seu semelhante. Na civilização surrealista, na
Sociedade do Futuro, o homem encontrará finalmente a plenitude da harmonia com o mundo.
Seria
um exagero afirmar que os surrealistas, ao se insurgirem contra todas as formas de
expressão religiosa também não estariam, no fundo, buscando uma nova forma de pacto
político-social e, por que não, também religioso? Ou, quem sabe, estariam no epicentro
de uma monumental proposta pan-ecumênica, fermentando o nascimento do homem novo na nova
sociedade humana...
Haveria, então uma "natureza humana"? Contrariamente ao que afirmam os
sociólogos positivistas Breton dirá que sim sem dar espaços contudo a visões
maniqueístas. Convidando a pensar nos primórdios (bebês, por exemplo) dirá que o ser
humano é essencialmente inocente, sendo portanto todas as suas falhas circunstanciais,
socialmente determinadas e portanto social e individualmente superáveis.
Como
encontrar o acesso à magia, ao reencantamento do mundo, sem a religião? Através da
poesia, dos sonhos, do amor louco, do escândalo, da ida ao encontro do acaso objetivo, da
disponibilidade para o humano, sempre!
Toda a
ética, assim como a estética surrealista é fruto do inconsciente. No primeiro Manifesto
do Surrealismo, Breton nos ensina os segredos da arte mágica surrealista: "Faça com
que lhe tragam com o que escrever depois de ter encontrado um local, tão favorável
quanto possível, para a concentração de seu espírito nele mesmo. Coloque-se no estado
mais passivo ou receptivo que puder. Abstraia sua genialidade, talento e também o dos
outros. Diga que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a qualquer lugar.
Escreva rapidamente, sem tema preconcebido (...) continue pelo tempo que quiser. Fie-se no
caráter inesgotável do murmúrio."
Daí
poder-se dizer que, longe do que pensam alguns "críticos" miseravelmente
racionalistas, o surrealismo nada tem de "irrealismo" sendo, ao contrário, a
busca intransigente de uma supra-realidade. Seu ponto de partida é o próprio cerne do
que há de mais elevado e sublime no coração de cada ser humano. Superando as tensões e
as más-caras que a burguesia utiliza e quer obrigar a todos a utilizar também, o
surrealismo busca atingir e expressar a transparência do sonho.
Na
esfera do amor louco, eletivo, a mulher, via de reconciliação do homem com a natureza,
é ADORADA. Os surrealistas são, neste particular, herdeiros modernos dos românticos. De
fato, a mulher mantém, pela sua composição biológica e formação social milenar, em
medida muito mais expressiva que o homem, uma forma de vida mais inocentemente ligada ao
mistério e à magia. A beleza da mulher, promessa de felicidade, é um atentado vivo ao
"princípio de desempenho" da sociedade afluente, como bem o enfatiza o
frankfurtiano Herbert Marcuse em Eros e Civilização. O amor louco deve ser recíproco e
único. Existe um e apenas um ser humano do sexo oposto em todo o planeta que efetivamente
é o complemento necessário de cada um. As escolhas infelizes que, por vezes, fazemos,
devem-se sobretudo às condições sociais sórdidas em que nos encontramos, onde vemos
brutalmente tolhida, cerceada nossa liberdade de escolha.
Transformar a vida em poesia. Que o ato de amor seja um ato poético em sua mais
elevada inteireza. E que todo o ato humano seja um ato de amor. Manter elevada a
esperança. Construir, com a consciência antecipadora, o mais lindo dos castelos
de sonhos, unindo poesia e transformação social, a seguir mover céus e terras
para dar-lhe expressão no mundo real. Esta a motivação maior dos surrealistas de
todos os tempos e Nações. Aliás, fronteiras, pátrias, espaço, tempo, tudo isso é
considerado ilusório, questionável por todos os surrealistas.

O
"facteur Cheval"
"Como o dia depende da
inocência, o mundo inteiro depende de teus olhos puros"
Paul Éluard
Ferdinand Cheval, quando funcionário dos correios, tinha um sonho louco, uma
idéia fixa, uma esperança a um só tempo fanática e fantástica: construir um
castelo. Iniciou a construção aos 43 anos de idade com os piores recursos da
sorte. Pedras que ele mesmo carregava num carrinho de mão debaixo de chacotas...
Durou 32 anos a construção do castelo Cheval em Hauterives, região do Drôme,
França, que hoje ainda está orgulhosamente de pé, à disposição de quantos
queiram conhecê-lo. No castelo, dizem os que o viram, encontra-se uma prodigiosa
mistura de todos os estilos artísticos e arquitetônicos, do gótico ao hindu,
passando pelo árabe e românico. Não por acaso os surrealistas chamam a atenção,
quando as dificuldades do mundo prático-pragmático parecem intransponíveis para
o famoso facteur Cheval, que possibilita romper com as pesadas cadeias da lógica
formal e, erguendo alto a bandeira da imaginação e da Esperança, com muita
labuta, vencer qualquer dificuldade.
Os
positivistas, em geral, vêem o mundo de maneira lógica, formal, racional-cientificista,
FEIO, em síntese. Às vezes me parece que, para eles, as coisas do mundo só fazem
sentido se passíveis de redução a "bits" de computadores... A pergunta
"qual o significado de uma flor?" para eles soa ridícula ou incompreensível.
Sinto uma compaixão enorme desta gente desumanizada. A resposta à questão colocada foi
dada pelo místico Ângelus Silésius, séculos atrás, mas pouco sentido fará aos
positivistas, por mais linda que seja a sua mensagem: "Die Rose ist ohne warum, Sie
blüet weil Sie blüet" .
É
preciso re-humanizar também a Natureza. O Capital coisificou o homem, o surreal quer
humanizar a coisa. É preciso ver o mundo com olhos novos mesmo, reaprender a apreciar o
encantamento existente na vida!
Quedar-se extasiado ante um belo pôr-do-sol, às vésperas do luar e não dizer nem tentar
explicar nada - sempre que possível, claro, em boa companhia... Se lágrimas vierem aos
olhos, maravilha! Ver uma árvore florida e perceber o quanto de amor e vida está ali
contido. Sabe de uma coisa? Se você olhar BEM, com os olhos do coração, como diria
talvez Exupéry, no fundo do olhar de uma criança a sorrir está Deus a sorrir para
você...
Às
vezes o "tique-taque" do cotidiano mesquinho, medíocre, amesquinhante,
mediocrizante, nos impede de perceber que há coisas muito maiores, coisas que passam por
nós e nem mesmo percebemos por causa da droga da rotina.
Mas
enquanto houver pôr-do-sol, luar, flores, lágrimas, casais de namorados e crianças a
sorrir a Esperança ainda morará nesta terra.
Lázaro Curvêlo Chaves -
20/07/2000
Por uma Arte Revolucionária
Independente ANDRE BRETON LEON TROTSKI
Outros Trabalhos:
O que é o Surrealismo?
Bilhetes
Surrealistas ao Le Libertaire
Exposição Virutal de
René Magritte
Manifesto do Surrealismo
Por uma Arte Revolucionária
Independente
Links
interessantes sobre o surrealismo:
http://www.kirjasto.sci.fi/abreton.htm
- Biobibliografia de André Breton, em inglês.
http://www.pacsurreal.com/surrealpainters.htm
- Um "webring" conectando vários sites de pintores surrealistas
Você sabe o que
querem os anarquistas? Confira!
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