Tonico do
Parque - Conto
Introdução: O Inferno
Brasileiro
Povo
alegre, mesmo em meio às maiores dificuldades, fazemos piadas até com nossos
problemas mais severos. Uma delas registra que um determinado cidadão falece e,
como enriqueceu em demasia explorando o trabalho alheio – não havendo espaço
para o culto simultâneo a Deus e a Mammon – deve encaminhar-se para o inferno.
No registro em pauta, consta que haveria três alternativas: o inferno
norte-americano, o inferno alemão e o inferno brasileiro. O recém-falecido
dirige-se ao porteiro do inferno americano: “Como são as coisas por aqui?” O
encarregado responde: “Caldeiras permanentemente ligadas a 500º centígrados e
cem chicotadas de hora em hora”. Dirigindo-se assustado ao inferno alemão o
encarregado local informa: “Aqui as caldeiras ficam ligadas a 1.000º centígrados
e são aplicadas duzentas chicotadas no lombo a cada meia-hora”. A esta altura
apavorado, dirige-se então à portaria do inferno brasileiro e já escuta um
sambinha ao fundo... “Como é que são as coisas por aqui?” pergunta ao
encarregado. O demônio à portaria do inferno brasileiro informa num tom de voz
parecido ao dos políticos formais: Nem o locutor parece acreditar em suas
próprias palavras, proferidas com solene seriedade: “Caldeiras ligadas a 5.000º
centígrados, 300 chicotadas a cada quinze minutos e, nos intervalos, o condenado
tem de ingerir um balde de merda”. “Socorro! Volto ao inferno norte-americano,
pelo menos lá as coisas são menos dramáticas!” Ouvindo o comentário e
reconhecendo o sotaque do conterrâneo, o porteiro brasileiro o chama a um canto
e em tom cúmplice, corruptor e camarada, tom que em alguns momentos nos
distingue de outros povos, informa: “Olha, isso aqui é o inferno
brasileiro... A caldeira está parada há mais de 500 anos por falta de
peça. O encarregado das chicotadas quase não para por aqui; só vem, bate o ponto
e faz bico nos outros infernos. Quanto aos intervalos, quando há merda não há
balde e quando há balde não há merda. Assim sendo, o pessoal fica lá no fundo
tocando um sambinha...”
Quantos
traços da formação sociológica brasileira retratados nesta piadinha... A
ineficiência crônica, a burocratização incompetente que leva “séculos” na
reposição de peças nos serviços públicos, o burocrata a “marcar o ponto e fazer
bico alhures”. Sobretudo o “favor”, o “jeitinho brasileiro” que mantém tudo um
inferno, mas ameniza a situação dificultando toda a atuação voltada à
modificação do quadro vigente.
Tonico do Parque
Quando derrotou um brutamontes na Praça de São Judas Tadeu, Consolação, ainda
adolescente, o Antônio José praticamente assumiu nova identidade. Foi o seu
Luizinho que assim o chamou pela primeira vez e ele, feliz, adotou o apelido.
Seu Luizinho é um daqueles que se orgulham de não precisar sujar as
mãos trabalhando, tem umas vinte casas alugadas no bairro e vive de renda. Como
a renda é muita, vem fácil de uma antiga herança e ele jamais recusa ajuda a
amigos em dificuldade, tornou-se respeitadíssimo. Implacável com quem
considerava adversários chegou a eleger-se vereador, mas não gostou – ou não
entendeu nada – da atividade política. Mantém a prática de ajudar alguém para
que lhe simplifique a papelada na Subprefeitura, dentro da lei o no jeitinho que
ninguém é de ferro...
E foi justamente com o poderoso seu Luizinho que o Tonico foi
arrumar encrenca por causa de um rabo-de-saia! A dona, insinuante e sedutora, se
esqueceu de (ou não considerou relevante) comentar com Tonico que prestava
alguns favores especiais ao seu Luizinho e ele a considerava sua namorada ou
propriedade pessoal.
Dona Candinha enviuvou ainda moça. Incrivelmente linda e charmosa,
corpo escultural e cérebro de minhoca era a mais cobiçada do bairro e, até o
maluco do Tonico se meter, ninguém questionava o direito do seu Luizinho sobre
ela.
Mas sabe que seu Luizinho até foi cordato? Era um corno do tipo
“manso”, aquele que se conforma, não era do tipo “pipoca”, que se estoura... Ao
final, sob as bênçãos do pároco do bairro, a paz se fez entre os dois desde que
ambos abdicassem de sua musa que, vexada, teve de se mudar e ninguém mais ouviu
falar nela.
Talvez arrependido por haver se reduzido a brigar por causa de
mulher, na campanha eleitoral do ano seguinte, seu Luizinho apoiou Tonico para a
Câmara Municipal – e o apoio dele era vitória certa! –, o que foi uma pena para
ambos: se perderam nos meandros da política encontrando um funcionário da
Prefeitura cujo valor do suborno estava acima do que se propunham a pagar. Como
resultado, o mecenas perdeu duas de suas casas, o vereador o cargo e ambos a
amizade.
Comentava-se a boca pequena que seu Luizinho era maçom, mas ele
negava. Ia à missa de raro em raro, católico não praticante que era: batizados,
casamentos, exéquias... Não perdia um funeral!
Agora, cá pra nós: só a religião católica – no Brasil – admite a
possibilidade de alguém ser ostensivamente “não praticante”, conceito estranho a
qualquer outro povo ou religião fora de nossa terra. Até por isso, como dizia o
sábio, “...não admira que nossa República tenha sido feita pelos positivistas,
ou agnósticos e nossa Independência fosse obra dos maçons...”
“MIXTO de CELTA, de TAPUIA
e GREGO...” – Euclides da Cunha
Duas bolas fora com seu Luizinho reduzem qualquer um a resto de cocô do cavalo
do bandido que nem entrou no filme! Sem clima a continuar morando na capital,
particularmente no mesmo bairro em que o poderoso seu Luizinho morava, Tonico do
Parque se mudou para o interior. Escolheu São José do Rio Pardo. Espantou-se com
a enorme quantidade de referências a Euclides da Cunha por ali. Conversando,
descobriu a história: o escritor cantagalense havia morado naquela cidade de
1898 a 1902 e foi ali que, logo ao término da Guerra de Canudos, escreveu “Os
Sertões”. Quando foi assassinado pelo amante de sua mulher em 1909 ele já morava
no Rio, era famoso no mundo inteiro, membro da Academia Brasileira de Letras e
sei lá o que mais e todos se jactavam de haver sido vizinhos ou amigos dele de
alguma forma. Seja como for, a morte dele foi algo comparável – guardadas as
proporções de espaço, tempo e valores pessoais – à de Ayrton Senna. Triste o
país que precisa de heróis. Nossos heróis são sempre trágicos e, em geral, só
lhes damos valor (particularmente aqueles que se destacam nos campos artístico
ou cultural) após a sua morte. Inovadores e revolucionários são incômodos em
vida. Depois de morto e sepultado, o encrenqueiro vira uma espécie de
semi-divindade. No Brasil muitos criminosos têm estátuas e heróis são
esquartejados. Exemplifiquemos: Frei Caneca, um herói da Confederação do
Equador, virou nome de presídio carioca. Em São Paulo há uma gigantesca estátua
de Borba Gato, mercenário, libertino e covarde matador de índios.
Em São José do Rio Pardo faz-se justiça a um grande escritor, embora
a um primeiro momento pareça algo desproporcional. Na Semana Euclidiana (9 a 15
de agosto, quando se rememora a data de falecimento de Euclides) vale tudo:
desfiles de cães, canoagem, feira de artesanato e o menos vistoso; uma Maratona
de Estudos que atrai estudantes de todo o país em função do número de
intelectuais que se dirigem à cidade na ocasião.
Tonico participou de uma Semana Euclidiana. Não estava, sinceramente
interessado nos estudos ou o que o valha, queria era se enturmar e teve, pelo
menos nisso, algum sucesso. O sucesso só não foi pleno porque, havendo
abandonado os estudos no meio da faculdade de contabilidade, trabalhava como
comerciário e um ditado cruel o consolava pifiamente quanto às dificuldades em
seu relacionamento com o belo sexo: “Quem gosta de homem é veado. Mulher gosta é
de dinheiro!”
Embora não atuasse politicamente na cidade, mantinha-se e mantinha a
todos informados. Votou e fez campanha pelo PT e pelo Lula. Logo se desiludiu.
Esbravejava o quanto podia por trás do balcão da Loja em que trabalhava. Aqui
cabe um dado importante: para aproveitar melhor seu tempo, pegava no trabalho ao
meio-dia em ponto e sempre trabalhava até a meia-noite!
Entremeava seu arrazoado político com o atendimento ao público, como
se quisesse purgar-se do erro, que aliás nem era somente seu...
_ Economia
paralisada, juros na estratosfera, salários ínfimos e as elites lucrando como
nunca! Não foi isso o que combinamos! – são R$ 7,00 a prancheta, jovem!
_ Onde já
se viu almoçar com o Bush e jantar com Fidel Castro? Esses caras estão loucos! –
são R$ 5,00 pelo papel e R$ 3,00 pela caneta, minha Senhora, obrigado.
_
Superávit primário superior ao que o FMI exige? O PT fazendo isso? Quem haveria
de imaginar... – esta prancheta especial custa R$ 33,00, minha senhora.
_ Mandar
tropas de ocupação ao Haiti para cumprir ordens de Washington? Onde está a
contestação ao imperialismo ianque? – R$ 81,00 pela corda especial, jovem,
obrigado.
_ E o
presidente do Banco Central? Se morava no Brasil em 2001 sonegou imposto. Se
morava nos EUA cometeu fraude eleitoral. Isso sem falar em sua atuação com
doleiros de índole duvidosa – são R$ 3,00 da borracha e R$ 17,00 pela caixa de
giz.
_ E os
impostos? Quase metade de tudo o que ganhamos vai para o governo subornar
parlamentares e engordar a pança de banqueiros! – são R$ 5,00 pelo plástico e R$
7,00 pelo estojo. Obrigado.
_
Hastearam a Bandeira Nacional ao som de “Deixa a Vida me Levar”, do Zeca
Pagodinho. Nada contra o pagodeiro, mas cadê a marcialidade, a seriedade de uma
solenidade importante como a troca mensal do Pavilhão da Pátria? – R$ 3,00 o
esquadro, R$ 5,00 o compasso e R$ 7,00 a prancheta. Obrigado.
O dono da papelaria ria muito e ele se tornou até uma espécie de
atração turística a mais. Muitos iam à Loja somente para ouvir as últimas de
Brasília e as invectivas que o Tonico – sempre bem informado – proferia a quem
lhe desse ouvidos.
Vereador de novo? Jamais!
Devido à sua acuidade política, muitos amigos insistem que Tonico se candidate a
uma vaga na Câmara Municipal da cidade, mas ele prefere seguir com seu trabalho
na Loja em companhia de gente honrada e simpática que partilha dos mesmos ideais
e propósitos, entre esquadros, compassos e pranchetas. Assim poderá crescer
humana, espiritual e intelectualmente e jamais entrará em conflitos vãos
novamente.
Lázaro
Curvêlo Chaves – 05/05/2006
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